A Escala de Permanência da ‘Linha Chave’ (Keyline)

O conceito de planejamento de fazendas e, posteriormente, cidades, usando a Linha Chave (Keyline) foi criado pelo australiano P. A. Yemans (1904-1984). Com formação em engenharia e experiência como inventor e minerador de ouro, Yeomans se tornou um profundo conhecedor da hidrologia. Após perder seu cunhado para uma queimada, Yeomans passou a estudar e desenvolver a Escala de Permanência da Linha Chave, um sistema de desenho que visa a redistribuição do fluxo de água da chuva e açudes pela topografia do terreno, a recuperação do solo e a proteção contra secas e queimadas. A Escala de Permanência da Linha Chave, que também influenciou a metodologia do desenho permacultural, é composta por 8 áreas, organizadas por ordem de prioridade na recuperação e desenvolvimento da propriedade levando à uma situação de permanência.

Vale lembrar que na época em que Yeomans desenvolveu a metodologia de design usando o Ponto Chave os conceitos de sustentabilidade e de agricultura regenerativa ainda não existiam, daí o uso do conceito de ‘permanência’. A Escala de Permanência economiza em insumos, tempo de manejo e facilita a criação de sistemas pastoris e agroflorestais perenes energeticamente eficientes que economizam tanto a energia humana (tempo e trabalho) quanto a fóssil (gasolina, diesel, fertilizantes, herbicidas e pesticidas). O ‘Ponto Chave’ (Keypoint) é o ponto mais alto em um determinado relevo onde é possível construir açudes para o armazenamento de água com a melhor relação custo-benefício. O Ponto Chave é o ponto onde a topografia do terreno deixa de ser propensa a erosão e passa a acumular sedimentos. Geralmente esse ponto fica pouco abaixo do ponto de inflexão onde um vale (relevo côncavo) encontra um morro (relevo convexo). A partir desse ponto é possível determinar uma Linha Chave, que corre em curva de nível à partir do Ponto Chave pela topografia do terreno.

O Clima – As Regras do Jogo –  De acordo com Yeomans o clima de uma determinada área é fixo, não muda muito e, portanto, deve ser levado em consideração em primeiro plano. Em sua época, Yeomans direcionou seu trabalho primeiramente para áreas rurais, mas depois para áreas urbanas. Hoje, como bem alerta Darren Doherty, outro australiano dedicado à agricultura regenerativa e ao design de propriedades rurais, quando pensamos em ‘clima’ também precisamos levar em consideração o clima da mente humana (as pessoas, as sociedades onde elas vivem, a economia e suas crenças). Segundo Darren, por conta das nossas crenças e dificuldade em mudar o ‘clima’ da mente humana, esse também é relativamente ‘fixo’.

A Geografia – O Tabuleiro do Jogo – De novo, segundo Darren Doherty, se o ‘clima’ forma as regras do jogo, a geografia é o tabuleiro. Nesse sentido, precisamos saber onde estamos posicionados como produtores em relação à topografia, à demografia, à geologia, etc. Em relação ao terreno, qual a topografia? Como isso afeta o fluxo da água na propriedade? Como podemos usar essa informação para tornar mais eficiente e regenerativa nossa produção? Em relação à geografia é importante usarmos as tecnologias digitais e drones para levantar as informações pertinentes ao terreno, nossa moradia e o que podemos produzir.

Abastecimento de Água – Podemos estimular a vida (biodiversidade) controlando os fluxos da água. Essa é a premissa básica do método da Linha Chave; controlando os fluxos de água podemos controlar a agricultura e regeneração do solo. Como a água sempre corre perpendicular à curva de nível do terreno, a água que escoa pelo terreno tende a se acumular nas grotas e vales, deixando os morros e elevações mais secos. O método da Linha Chave redistribui o fluxo de água no terreno por meio de rasgos no solo que vão partem de uma área mais alta nas grotas e vales e ‘corre’ para áreas mais baixas nas cumeeiras. Outra premissa da Linha Chave é a redistribuição de água pelo terreno usando a força da gravidade (para sistemas de irrigação e proteção contra secas e queimadas). Desse modo, sempre que possível açudes e reservatórios de água (caixas d’água e cisternas) devem ser colocados nas regiões mais altas do terreno (comumente o Ponto Chave). Isso garante o armazenamento e abastecimento de água para toda propriedade por gravidade (o que economiza energia).

Essa abordagem também torna possível a redistribuição de água por meio de canais de inundação (valas que distribuem a água nas regiões mais planas) e da reticulação de água encanada. Dentro da Escala de Permanência é possível, e positivo, usarmos tubulação plástica, assim como tratores e escavadeiras. Apesar desses materiais serem derivados de petróleo ou fazerem uso de combustíveis fósseis, os benefícios que eles trazem ao longo dos anos e a energia que economizam tornam seu uso viável.

Estradas e Acessos – Estradas, calçadas e trilhas são estruturas relativamente permanentes no terreno. O posicionamento dessas estruturas determina a maneira como nos movemos dentro da propriedade e por isso devem integrar todos os elementos que são conectados por essas estruturas (encanamento, eletricidade, pastos, corredores de árvores, etc.). Nesse sentido as estradas devem nos ajudar a captar e controlar o fluxo da água no terreno. Uma estrada deve servir como acesso, como vala de infiltração e como forma de captar e armazenar água da chuva (levando o escoamento das chuvas para açudes e cisternas). Estradas, calçadas e trilhas são usadas constantemente e por isso mesmo devem ser harmonizadas com a topografia do terreno. As estradas de acesso, sempre que possível, devem acompanhar as cumeeiras dos morros (parte mais plana e por isso mesmo mais fácil de construir estradas) ou serem projetadas com pouco caimento em relação à curva de nível para coletar água da chuva.

Árvores – Sistemas agro-florestais são elementos importantíssimos na maioria dos terrenos. O estabelecimento desses sistemas é complexo e seu posicionamento é crítico para o apoio e abastecimento de outros sistemas na propriedade. Corredores de árvores podem ser posicionados acompanhando as estradas, nas áreas ribeirinhas, nas cumeeiras dos morros, de maneira adensada em áreas específicas, etc. Muito embora as árvores tenham um valor intrínseco aos ecossistemas, no que tange o design de propriedades, sempre que possível, é importante plantar florestas que sirvam ao propósito das pessoas que habitam o lugar. Sistemas agro-florestais que misturem árvores nativas, frutíferas, madeireiras, etc. são fundamentais para a Escala de Permanência tanto do ecossistema quando do produtor na área a ser projetada.

Edificações – A gama de infraestruturas que construímos em nossas propriedades são importantes para o sucesso de nossos empreendimentos agriculturais. O posicionamento e desenho dessas estruturas deve ser definido em relação aos outros elementos do sistema (em particular o clima, a geografia, o abastecimento de água e o acesso). Sempre que possível, infraestruturas como a ordenha, o galinheiro, a pocilga, o abatedouro, etc. devem ser móveis (usando trailers adaptados, gaiolas móveis, cercas elétricas), duráveis e baratas para acompanhar o movimento dos animais na propriedade ao invés de serem estáticas e limitar o movimento dos animais na propriedade (causando degradação de pastos, compactação de solo e desgaste energético desnecessário).

Cercas Internas – Sempre que possível as cercas internas devem ser harmonizadas com as curvas de nível para melhorar o fluxo da água ao invés de serem arbitrariamente impostas em linhas retas por sobre o terreno. O uso de cercas elétricas, permanentes ou móveis, barateia muito o manejo de bovinos, ovinos, caprinos, aves, etc. dentro da propriedade. Esse tipo de sistema também permite com que o manejo dos animais nos ajude a regenerar a propriedade redistribuindo adubo e urina de maneira eficiente pelo terreno.

Outra vantagem na harmonização dos sistemas de cerca (principalmente as elétricas móveis) pelo terreno é a facilidade com que podemos copiar o movimento migratório natural e adensado dos animais dentro de uma propriedade (com uso rotativo e sequencial dos pastos). Nas savanas, em geral, os animais herbívoros estão sempre se descolando em grandes manadas (para se defender de predadores) e são sempre seguidos por aves. Seguindo esse princípio, muitos produtores planejam a rotação do gado nas pastagens seguida pela rotação de aves (para ovos ou abate).

Solo – Solos férteis são facilmente destruídos, mas também podem ser facilmente regenerados se
manejados da maneira correta. Como regra geral, todos os solos devem estar permanentemente cobertos por plantas (gramíneas, arbustos e árvores) ou palha, madeira triturada ou outra biomassa. As gramíneas por sua capacidade de regeneração rápida e produção de açucares e polissacarídeos em suas raízes são umas das melhores ferramentas na recuperação do solo.

Para a recuperação e manutenção de solos saudáveis e produtivos são necessários:

  1.  Luz solar, ar e água;
  2.  Sais minerais biologicamente disponíveis;
  3. Vida no solo (micróbios, bactérias, fungos, insetos, minhocas, etc);
  4. Vida sobre o solo (herbívoros, aves, etc.);
  5. Mosaicos de sistemas de estimulo no terreno (rotação de vários animais em sucessão por sobre a mesma área).

Contribuições de Darren Doherty para a Escala de Permanência – Darren Doherty, um dos líderes em design regenerativo de fazendas, adicionou mais duas camadas à Escala de Permanência: Economia e Energia.

Economia – Devido à internet e as facilidades que ela trás, nunca foi tão fácil para os produtores analisar e acessar diferentes mercados de consumo. Muito embora muitos produtores rurais continuem empreendendo e se adaptando, as maiores dificuldades ainda são acatar as regras de produção, processamento e comercialização de produtos. Em geral essas regras regulam e beneficiam grandes produtores industriais e dificultam a participação de produtores usando métodos agroecológicos e regenerativos. Por outro lado, a internet trouxe facilidades de comercialização direta (como pela utilização de computadores e telefones com internet) entre produtores e consumidores que eram inéditas até os dias de hoje. Darren nos alerta para o fato de que sem viabilidade econômica os produtores rurais não podem produzir alimentos saudáveis. Além disso, a proporção de consumidores ávidos por produtos saudáveis já supera o número de produtores (orgânicos, agroecológicos, etc.), uma condição que só pode ser superada tornando mais eficiente a comercialização dos produtos que já são produzidos de maneira regenerativa e incentivando a produção agroecológica local por pequenos produtores.

Energia – Embora as partículas de luz sejam uma das formas mais transitórias de energia, praticamente todas as formas de energia que usamos derivam da luz solar. Nossa função principal deve ser otimizar os processos fotossintéticos e maximizar seus benefícios (na produção de pastos, florestas e alimentos). Segundo Darren também é importantíssimo economizarmos energia investindo na comercialização de nossos produtos por meio das gerações mais novas (nossos filhos e parceiros mais jovens). Dessa maneira, cortando da cadeia de produção e distribuição, os atravessadores, podemos economizar em recursos (custos com combustíveis e o nosso próprio desgaste energético) e aumentar lucros e qualidade de vida.

Nota: Para os que tem se interessado pelo meu trabalho com desenho regenerativo, durante o mês de setembro estarei no Brasil ministrando alguns cursos e oficinas.
– Entre os dias 1 e 9 de Setembro estarei ministrando o curso Agricultura Regenerativacom a equipe da Escola de Permacultura na Serra da Mantiqueira, MG. Esse curso oferece 3 módulos: Tomada de Decisão Holística, Planejamento de Propriedades Rurais com a Escala da Permanência da Linha Chave e Desenho Permacultural.
– Entre os dias 11 e 17 estarei com o amigo Sérgio Olaya ministrando o curso Agricultura Familiar e Empreendedorismo Socioambiental na Fazenda The Green Man em Inconfidência, RJ. Esse curso oferece 3 módulos: Tomada de Decisão Holística, Desenho Permacultural e Agricultura Sintrópica.
– Oficina de Desenho Permacultural na Chapada dos Veadeiros (a ser confirmado).