Os Pequenos Produtores Rurais contra o Agronegócio

O desafio imediato que a agricultura sofre é como aumentar a produção alimentar para dar conta da população que cresce enquanto regeneramos os ecossistemas que já degradamos até o momento presente. Essa virada precisa ser feita usando a mesma quantidade de terra, menos petróleo, menos água e menos nitrogênio em um cenário regido pelo aquecimento global, conturbações sociais e crise financeira. A situação atual de falta de acesso ao alimento produzido, perda de diversidade biológica, erosão do solo superior e as doenças causadas pelo uso de agrotóxicos e alimentos geneticamente modificados, por exemplo, mostram claramente que esse desafio não pode ser vencido pelo modelo de produção do agronegócio (Altieri, 2015).

A razão pela qual a fome no mundo continua crescendo não é porque não produzimos alimento o suficiente. O problema é o acesso à comida e a desigualdade social e econômica. Nos Estados Unidos e na Europa cada pessoa joga fora em média 115kg de comida por ano, enquanto aproximadamente 2/3 da população mundial em países em desenvolvimento ainda vive na pobreza, ganha menos de $3 dólares por dia e não consegue comprar alimento suficiente para sobreviver. A razão verdadeira porque temos fome no mundo é porque a agricultura é controlada por corporações. E essas corporações controlam o que (e como) os produtores devem produzir e o que os consumidores podem consumir (Altieri, 2015).

Além da produção de alimento pelo agronegócio só alimentar 30% da população mundial, ela usa de 70 a 80% das terras aráveis, 70% da água e 80% dos combustíveis fósseis usados na agricultura (Altieri, 2015). Agravando ainda mais a situação, segundo dados da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), a erosão causada pelo agronegócio perde em média 20 toneladas de solo por ano para produzir 500 quilos de alimento por pessoa.

Por essas razões, precisamos adotar sistemas de produção alimentar que não dependam de combustíveis fósseis e que sejam regenerativos. Ou seja, precisamos restaurar o meio ambiente enquanto produzimos alimentos. Sistemas de produção agroecológicos, por exemplo, são resilientes ao aquecimento global e são multifuncionais, provendo serviços ecológicos, sociais, culturais e econômicos. A agroecologia também pode se tornar a base para a criação de sistemas de produção e distribuição locais de alimentos (Altieri, 2015).

Os pequenos produtores rurais ao redor do mundo, em comparação com o agronegócio, produzem de 50 a 75% da comida que alimenta a população mundial usando apenas de 25 a 30% da terra arável, 30% da água e 20% dos combustíveis fósseis usados na agricultura (Altieri, 2015; Tittonell, 2014). O que é mais importante, os pequenos produtores rurais que fazem uso de métodos regenerativos como a agroecologia, por exemplo, são 20 vezes mais energeticamente eficientes do que o agronegócio e os grandes latifúndios. Enquanto o método mais eficiente do agronegócio tem que investir 1kcal para produzir 1.5kcal, um pequeno produtor rural investe 1kcal para produzir 30kcal de alimento por hectare. Outra informação importante é que enquanto produz grãos, tubérculos, frutas, castanhas, etc. o pequeno produtor rural ainda consegue fornecer proteína animal suficiente para alimentar 34 pessoas por ano por hectare (Altieri, 2015).

Tendo em vista a perda crescente das terras aráveis pelos métodos usados pelo agronegócio, a diminuição do petróleo disponível e a eficiência energética dos pequenos produtores rurais, fica evidente a necessidade de adotarmos métodos regenerativos para produzir e distribuir nossos alimentos. A Agroecologia, a Permacultura, a Agricultura Sintrópica e o Gerenciamento Holístico são exemplos de abordagens, princípios e métodos regenerativos que nos ajudam a produzir nossos alimentos em harmonia com a natureza e de maneira energeticamente muito mais eficiente.

Referências:

Altieri, M. A. (2015). Agroecology: Who will feed us in a planet in crisis. Paper presented at the Earth Talk. https://www.youtube.com/watch?v=LKfiabQ-j0E

Tittonell, P. (2014). Feeding the world with Agroecology Paper presented at the TEDx Ede https://www.youtube.com/watch?v=iKtrwdsvIko

Nota:
Durante os meses de Maio, Junho e Julho estarei no Brasil com uma agenda de cursos de desenho ecológico, agrofloresta e pecuária regenerativa.

Imersão Agroflorestal na Fazenda Bella – entre os dia 1 d 15 de Junho estarei ministrando essa vivência com o Osmany Segall e o Sérgio Olaya.

A imersão é composta por dois cursos teóricos, duas vivências e duas visitas guiadas (ver link acima) equipando os participantes com o conhecimento e a prática necessários para desenhar, implementar e manejar sistemas agroflorestais. Durante a vivência os participantes terão a chance de desenhar consórcios, plantar, colher e ver a comercialização dos produtos.

Para mais detalhes sobre todos os cursos, datas e links para inscrição visite o link dos Cursos de Impacto Positivo 2019.