A carne e a mente: como nossa saúde neurológica e mental pode estar ligada a ingestão de carnes saudáveis

Com dados estatísticos estarrecedores sobre a epidemia global de doenças mentais a psiquiatra Georgia Ede apresenta a palestra “Nossa queda para a loucura: dietas modernas e a crise global de saúde mental”. Na palestra a Dra. Georgia argumenta que tanto a dieta padrão americana como a vegetariana/vegana podem não ser as melhores dietas para a saúde neurológica e mental.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde* (OMS), a depressão é a causa número 1 de incapacitação de pessoas para a força de trabalho. São 322 milhões de pessoas no mundo incapacitadas de trabalhar e ter uma vida social normal por estarem deprimidas. Um aumento de 18.4% de 2005 para 2015. Segundo o mesmo relatório da OMS, aproximadamente 800 mil jovens entre 15 e 29 anos de idade se suicidam por ano por causa da depressão, tornando o suicídio a segunda maior causa de morte entre os jovens no mundo. No mesmo período, de 2005 a 2015 houve um aumento de 15% em doenças relacionadas com a ansiedade como a Distúrbio Bipolar e a Esquizofrenia afetando 254 milhões de pessoas. A demência já é a sétima causa de mortes no mundo afetando 50 milhões de pessoas por ano. Estima-se que à partir de 2050 teremos10 milhões de casos novos por ano.

Embora a deficiência química de neuro-transmissores, o estresse e traumas sejam mencionados frequentemente como as principais causas das doenças mentais, a Dra. Georgia argumenta que ao menos parte das causas dessa epidemia crescente de doenças mentais está relacionada com a mudança da dieta da população mundial nos últimos 75 anos. Fazendo uma comparação nas estatísticas sobre doenças mentais, mais especificamente a esquizofrenia, a Dra. Georgia mostra que nas sociedades tradicionais os índices de doenças mentais é imensamente menor que na sociedade ocidental. Ela reconhece que há outros fatores envolvidos, mas mais uma vez argumenta que a dieta é um dos mais importantes. Segundo a Dra. Georgia existem dois padrões de dieta em crescimento constante no mundo: um cresce porque acreditamos que seja saudável e outro cresce embora saibamos que não é saudável.

A que sabemos não ser saudável é a Standard American Diet, em inglês, ou dieta padrão americana, em português. No inglês essa dieta é comumente tratada pela sigla de duplo sentido S.A.D, que também significa triste. Hoje, no entanto a SAD, que é baseada em carboidratos e óleos processados e refinados, tem se espalhado por todo o mundo. A dieta que cresce porque acreditamos que seja saudável é baseada em vegetais (vegetariana/vegana)

Estudos epidemiológicos apontam uma correlação entre a SAD e doenças mentais como a Depressão, Distúrbio da Hiperatividade do Déficit de Atenção, Distúrbio Bipolar e Esquizofrenia*. No entanto a correlação não explica a causalidade. Dois estudos recentes feitos na Austrália concluíram que a adoção da Dieta Mediterrânea contribui para o melhoramento dos sintomas da depressão. Segundo a Dra. Georgia isso não quer dizer que a dieta Mediterrânea, que é baseada em no consumo de saladas e legumes, carne de peixe, azeite de oliva, castanhas e quantidades moderadas de laticínios é a melhor dieta para o cérebro. Só quer dizer que ela é melhor que a SAD, mas segundo psiquiatra, qual dieta não é melhor que a SAD.

A SAD se caracteriza por altas concentrações de carboidratos (açúcares) e óleos (gorduras) refinadas e já existem muitas pesquisas ligando esses alimentos processados a vários processos de inflamação e oxidação, que por sua vez são ligados a várias doenças físicas e mentais. Entre outras coisas o açúcar refinado promove inflamações e oxidação inundando as vias metabólicas e as deixando assoberbadas e incapazes de produzir hormônios antioxidantes. Os óleos e gorduras processadas promovem os processos inflamatórios porque inundam o sistema com ácidos graxos ômega 6, particularmente o LA – Ácido Línoleico Cathamus, e inibindo os ácidos graxos ômega 3, particularmente o EPA – Ácido Eicosapentaenóico. A outra maneira em que os alimentos ricos em açúcares e óleos processados influenciam negativamente o metabolismo humano é criando uma montanha russa de descargas hormonais que sobrecarregam o corpo como um todo, causam ansiedade, baixam a capacidade de concentração e aumentam a irritabilidade cada que esses alimentos são ingeridos.

A doutora explica em maiores detalhes as consequências da SAD, uma dieta rica em açúcares e gorduras refinados na saúde durante a palestra. Mas basicamente essa montanha russa de hormônios faz com o corpo crie uma resistência a insulina, ou seja, causa diabetes tipo II. A diabetes tipo II, por sua vez e embora não saibamos a causalidade, está associada com a Depressão, Esquizofrenia, Distúrbio Bipolar e Alzheimer. No caso do Alzheimer mais pesquisas tem sido feitas revelando que a resistência a insulina pode sim ter uma relação de causalidade com essa doença. Outra complicação trazida pela SAD é que quando o metabolismo se torna resistente a insulina, isso afeta diretamente o funcionamento do cérebro. Isso se dá porque o cérebro continua recebendo o açúcar em forma de glucose, mas não recebe a insulina que quebra o açúcar gerando energia e regulando o índice glicêmico nesse processo. Por outro lado estudos sobre os efeitos das dietas cetogênicas em doenças neurológicas é bem positivo, o que indica que o mesmo pode ser verdade com as doenças mentais, segundo a Dra. Georgia. No entanto, ela argumenta que da mesma forma que a SAD pode causar inflamação, oxidação, resistência à insulina, desregulação hormonal e deficiência de micro-nutrientes, ela também está ligada com problemas da saúde mental.

E quando o assunto é saúde neurológica e mental, o aumento de popularidade das dietas vegetarianas/veganas, preocupa a Dra. Georgia tanto quanto o aumento da SAD. A doutora compartilha os dados da crescente popularidade das dietas vegetarianas veganas. Em torno de 44% dos alemães, por exemplo, declaram ter uma dieta com baixa ingestão de carnes, um número que subiu 50% nos últimos 10 anos. Os veganos já são 6% da população Estadunidense, o que caracteriza um aumento de 500% nos últimos 3 anos. E, no mundo todo, são 1.5 bilhões de vegetarianos/veganos. Mas a Dra. Georgia explica que o vegetarianismo/veganismo costuma ser uma tendência maior nos países ou meios sociais mais afluentes e com mais educação formal.

Entretanto, existe um aspecto dessa estatística que comumente é deixado de lado e esse aspecto é o da agência. Isso porque 95% dessas pessoas não são vegetarianas/veganas por opção, mas por falta de acesso à carne saudável e nutritiva.

De toda forma, a pergunta que fica e é feita pela Dra. Georgia é: “mas como pode as dietas vegetarianas/veganas terem um impacto negativo na saúdo do cérebro enquanto existem tantas pesquisas dizendo que elas tem um impacto verdadeiramente positivo em doenças como a obesidade, a diabetes e cardíacas?”.

Isso acontece, segundo ela, porque esses estudos também alteraram outras variáveis que influenciam os resultados e que quase nunca são levadas em consideração. Uma das variáveis mais importantes é a dieta em si, uma vez que esses estudos comparam as dietas vegetarianas/veganas com a SAD, dieta rica em açúcares e gorduras refinadas. Outra variável raramente mencionada é que eles não retiraram só as carnes desses estudos. Eles retiraram praticamente toda a gordura e, principalmente, os açúcares refinados. Assim como manipularam outras variáveis relacionadas com o estilo de vida como retirar fontes de estresse, adotar rotinas de exercícios diários, etc. E desse contexto surge outra pergunta: “como podemos de fato saber quais dessas variáveis são as responsáveis pelos benefícios encontrados nas pesquisas?”. Ainda segundo a Doutora, esses resultados podem não ter nenhuma associação com a abundância de vegetais ou falta de carne e estarem diretamente relacionados com a ingestão, ou não, de açúcares e gorduras refinados. O que ela pensa ser mais provável.

Além de tudo isso a Dra. Georgia revela que 2/3 do cérebro é basicamente composto por gorduras. Dessas gorduras 20% são moléculas de DHA – um ácido graxo ômega 3 chamado docosa-hexaenoico. E muito embora o peso do cérebro represente só 2% do peso do corpo, o cérebro retém até 20% das moléculas de colesterol presentes no corpo. As moléculas de DHA estão presentes em várias funções vitais do corpo humano como, por exemplo, a barreira hematoencefalica e está especialmente presente no desenvolvimento cortical do lobo frontal. Na retina essas moléculas transforma luz em eletricidade, e nas mitocôndrias e células cardíacas elas agem como semicondutores. Essa molécula é tão importante que vários cientistas levantam a hipótese de que sem ela não seria possível desenvolvermos a consciência, o pensamento simbólico ou mesmo a inteligência.

O problema, segundo a doutora, é que as plantas não contém DHA e uma dieta vegetariana/vegana estaria negando ao corpo essa molécula tão importante para seu funcionamento. Outro argumento pró onivorismo é o da absorção dos macro-nutrientes. Todos os nutrientes necessários para o metabolismo do corpo humano podem ser encontrados na carne, leite e ovos. Além disso, quando encontrados por meio de fontes animais eles muito mais bio-disponíveis. Para complicar ainda mais o argumento as plantas tem algumas moléculas que os alimentos de fonte animal não tem: os anti-nutrientes. Os anti-nutrientes são químicos naturais que interferem na nossa habilidade de absorver nutrientes tanto das plantas como das fontes animais.

Alimentos baseados na soja, por exemplo, dificultam a absorção de iodo, que é fundamental para o funcionamento das tiroides. E os feijões, as folhas de salada verde e as castanhas que são as principais fontes de proteínas nas dietas vegetarianas/veganas, são ricos em ácido fítico. O ácido fítico por sua vez dificulta a abosção de zinco, ferro, cálcio e magnésio, nutrientes fundamentais para a saúde do cérebro.

Como exemplo a Dra. Georgia compara a absorção do zinco ingerido em uma porção de ostras em relação à presença ou não de alimentos vegetais. Se ingeridas com feijões pretos a capacidade de absorver o zinco cai 50%. Se ingeridas com tortilhas a capacidade cai para quase 100%. Ao passo que quando a porção de ostras é ingerida sem alimentos vegetais nosso corpo é capaz de absorver até 120 gramas de zinco. Vegetarianos e veganos também tendem a ter muito mais problemas de anemia, o que além de after as funções sanguíneas, também afeta as funções cerebrais.

A palestra apresenta outras comparações e explica a importância de cada substância ou elemento na função do metabolismo cerebral, mas o ponto é que a Dra. Georgia defende, com bastante embasamento científico, que a ingestão de proteína animal (não precisa ser carne vermelha) é essencial para a saúde neurológica e, consequentemente, mental.

Outro fator importante que fica da palestra é que para podermos entender e argumentar sobre os prós e contras dessas dietas, nós precisamos comparar dietas vegetarianas/veganas com dietas onívoras de forma que todas as fontes de alimento nas dietas comparadas sejam todos nutritivos e saudáveis. E não as dietas vegetarianas/veganas com a SAD, que por definição já não é uma dieta saudável. Por fim, a Dra. Georgia aponta que as consequências negativas das dietas vegetarianas/veganas atinge mais gravemente as mulheres.

A linha de raciocínio, hipóteses e conclusões apresentadas na palestra da Dra. Georgia reverberam com alguns de meus próprios argumentos em artigos e podcasts. E muito embora os vieses de ecologia, pensamento sistêmico e produção regenerativa sejam mais o meu foco, eu também sempre questionei a falta de contextualização das pesquisas que embasam os debates acerca das dietas. A Dra. Georgia, com razão, chamou atenção para o fato de que pouca ou nenhuma pesquisa até hoje foi feita comparando as dietas veganas/vegetarianas com dietas onívoras saudáveis e nutritivas. O que indica que o debate sobre qual dieta é mais saudável está mal começando.

* Todos os dados apresentados pela Dra. Georgia e mencionados aqui no artigo podem ser averiguados por meio das referencias providas nos slides da palestra.

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