Usando a Linha Chave para o planejamento de SAFs

Esse artigo aborda a nossa experiência com a implementação de SAFs (sistemas agroflorestais) utilizando o conceito da Linha Chave na Holos Regenerative Design na Austrália. Esse conceito integra a Escala de Permanência da Linha Chave, uma metodologia de planejamento de propriedades rurais que fornece uma escala de prioridade na implementação da propriedade e de seus sistemas de produção. Outros benefícios do uso da escala são o aumento da produção, a blindagem contra secas, o combate a erosão e a melhoria dos solos, sem a necessidade de utilização de fertilizantes e pesticidas químicos.

Para esse projeto tivemos o prazer de receber a contribuição do designer de propriedades rurais e co-fundador da plataforma Regrarians, Darren Doherty. Darren fez comentários e ajustes finais importantes para o projeto. O primeiro artigo, intitulado Usando a Linha Chave na Agricultura Sintrópica (em inglês) recebeu críticas muito positivas e bastante interesse da comunidade da agricultura regenerativa fora do Brasil. Parte da boa recepção se deve ao sucesso que a metodologia de implementação de agroflorestais sucessionais tem feito fora do Brasil.

O talhão maior
Eu discuto a implementação do talhão menor abaixo, mas primeiramente vou fazer uma atualização sobre a implementação do talhão maior. Por conta da inclinação do terreno e de um contrato já feito com um tratorista específico, nós não conseguimos fazer o encanteiramento dentro de padrões aceitáveis para o projeto. Assim que percebemos esse problema, nós resolvemos colocar o projeto em espera até que pudéssemos usar outra máquina, à partir do mês de Julho. Desde o começo do projeto que o nosso mote tem sido adapte, improvise e vença. O que segue abaixo é um resumo de nossa experiência com esse talhão.

Abaixo temos uma visão aérea da área. É possível vermos as estradas de chão ao redor, uma trilha de acesso na parte inferior, dois açudes e os canteiros do SAF no padrão da Linha Chave. Com excessão do SAF nenhum desses elementos foi desenhado por nós. Esse talhão nos foi oferecido para que desenvolvêssemos com uma série de desafios a serem vencidos. Dentre esses desafios constavam um terreno inclinado e voltado para o Sul (aspecto solar não favorável), risco de erosão e a necessidade de que nosso desenho com um sistema de águas cinzas a ser implementado.

 

Na foto à esquerda podemos a linha de curva de nível em laranja na parte inferior e o tripé do nível a laser no centro da cumeeira. As linhas em amarelo fluorescente mostram o padrão da Linha Chave vindo dos microvales adjacentes com um gradiente de caimento sútil.

Na foto abaixo (à esquerda) é possível vermos a área quando o encanteiramento começou a ser feito. Também é possível vermos que os canteiros não estavam seguindo o padrão planejado da Linha Chave à risca. A parte esquerda da área mostra grandes porções de solo exposto. Essa área foi terraplanada com maquinário pesado e portanto ficou bastante compactada. No entanto, a terraplanagem era necessária para a instalação do canos do sistema de águas cinzas que serão instalados paralelos à alguns dos canteiros.

Com o projeto temporariamente suspenso, nós semeamos a área com uma mistura de sementes de aveia, nabo forrageiro e ervilhaca (inoculada). A montagem de fotos abaixo mostra os estágios iniciais da geminação.

O talhão menor
Esse talhão foi planejado com uma SAF voltada para a produção de hortaliças para nossas famílias e fonte de propagação de mudas. Ele é parecido com o talhão maior no sentido de ser inclinado, voltado para o sul, ser parcialmente cercado por estradas de chão e ter um certo risco de erosão. A diferença principal está no fato do talhão maior ter uma cumeeira central e esse um microvale (ou grota). Por conta do tamanho, da inclinação e da quantidade de pedras, nós mantivemos esse talhão dentro uma escala humana de trabalho.

Para essa área nós decidimos implantar os canteiros de árvores em intervalos de 5 metros. As copas das árvores provavelmente sombrearão os canteiros centrais em aproximadamente 3 anos no máximo. Embora paralelos os canteiros tem comprimentos diferentes o que combinado com o aspecto solar talvez nos permita produzir nos canteiros centrais por mais tempo. O manejo com podas mais intensas também é considerado nessa situação, mas se a intenção é produzir hortaliças por mais tempo é melhor estabelecer os canteiros em intervalos mais largos. Entretanto, são as espécies de árvores escolhidas e o tamanho de suas copas quando maduras que determinarão a distância máxima dos canteiros.

Nós fizemos a agrimensura to terreno com um nível de mangueira marcando onde os canteiros seriam implantados tomando o devido cuidado para o caimento fosse da proporção de 1 metro de caimento para cada 100 metros de comprimento. Como precisávamos cavar os caminhos para construir os canteiros, nós cavamos de acordo com o planejamento com a Linha Chave. Alinhamos as pedras que encontrávamos enquanto cavávamos os canteiros de modo a usá-las para segurar o solo. Em seguida preenchemos as valas em Linha Chave com troncos de madeira já inoculados com cogumelos de uma floresta ao lado e madeira triturada que conseguimos dos arboristas que fazem serviço de poda.

Em uma situação ideal as sementes, mudas, insumos e palhoça para cobertura já estariam todos disponíveis na área que a implementação seguisse a ordem mais prática e eficiente. Essa área também foi afetada pelo uso de maquinário pesado enquanto a estrada ao lado era construída. Nas áreas onde o solo estava exposto próximo aos canteiros nós semeamos o azevém, uma gramínea perene de origem portuguesa, para ser usado como cobertura quando cortado.

Outro ajuste que fizemos foi que embora os canteiros corram no sentido leste-oeste, as árvores de estrato alto nos diferentes canteiros, foram alinhadas norte-sul para otimizar a questão de aspecto solar.

Muito embora esse talhão tenha sido estabelecido recentemente, já plantamos muitas árvores. Dois tipos de eucalipto (robusta e grandis) e a acácia mangium foram escolhidos como pioneiras de crescimento rápido para liderar a sucessão ecológica e fixar nitrogênio. Moringas, amoras, várias cítricas, bananas, papaias e café também fazem parte do consórcio. Tanto os canteiros com árvores como os canteiros só com hortaliças foram plantados com um consórcio de inverno. Em breve instalaremos as treliças nos canteiros de hortaliças para usar quando necessário.

Faz pouco tempo que implantamos o sistema usando a Linha Chave, mas já é possível perceber uma estética agradável e boa funcionalidade (de fácil acesso e mobilidade interna). Com o tempo poderemos compartilhar mais informações sobre a abordagem combinando a Linha Chave (que nesse caso teve canteiros alinhados leste-oeste) com o plantio de árvores de estrato alto alinhado (nos diferentes canteiros) norte-sul vai funcionar.

Nota: Para os que tem se interessado pelo meu trabalho com desenho regenerativo, durante o mês de setembro estarei no Brasil ministrando alguns cursos e oficinas.
– Entre os dias 1 e 9 de Setembro estarei ministrando o curso Agricultura Regenerativacom a equipe da Escola de Permacultura na Serra da Mantiqueira, MG. Esse curso oferece 3 módulos: Tomada de Decisão Holística, Planejamento de Propriedades Rurais com a Escala da Permanência da Linha Chave e Desenho Permacultural.
– Entre os dias 11 e 17 estarei com o amigo Sérgio Olaya ministrando o curso Agricultura Familiar e Empreendedorismo Socioambiental na Fazenda The Green Man em Inconfidência, RJ. Esse curso oferece 3 módulos: Tomada de Decisão Holística, Desenho Permacultural e Agricultura Sintrópica.
– Oficina de Desenho Permacultural na Chapada dos Veadeiros (a ser confirmado).