Gerenciamento Holístico: Parte 1 Definindo e inventariando o Todo Sob Gerenciamento

O Gerenciamento Holístico é uma ferramenta de gestão criada por Allan Savory, um produtor rural e doutor em ecologia do Zimbabue, para que produtores rurais pudessem ser produtivos sem que isso comprometesse a qualidade de vida e a saúde ecológica de suas propriedades. Essa abordagem traz contribuições importantes para a alfabetização ecológica daqueles que se propõem a trabalhar dentro do paradigma da agricultura regenerativa. Nos próximos meses eu vou compartilhar mais artigos com intuito de promover essa abordagem no Brasil.

Resumidamente, o Gerenciamento Holístico é formado por 4 módulos: Tomada de Decisão Holística, Gerenciamento Holístico Financeiro, Manejo Holístico de Pastagens e planejamento de propriedades rurais. Nessa primeira etapa, vou compartilhar insights, experiências e conteúdo sobre a Tomada de Decisão Holística, módulo que tem me ajudado muito a melhorar minha eficiência de trabalho e qualidade de vida ao mesmo tempo. Esse módulo foi desenvolvido para que produtores rurais pudessem tomar decisões complexas englobando a saúde ecológica e financeira da propriedade ou empreendimento sem deixar de fora a qualidade de vida das pessoas envolvidas.

Os artigos seguintes descrevem o ‘passo-à-passo’ para a construção de um Contexto Holístico, que é o que rege a Tomada de Decisão Holística.

 

Nota: Esse material foi preparado primeiramente para guiar o trabalho que fazemos na Fazenda Bella. Posteriormente, depois de participar de cursos de Gerenciamento Holístico na Austrália e de reutilizar o mesmo material para outros empreendimentos e consultorias, surgiu a ideia de aprimorá-lo para compartilhar com outras pessoas no Brasil. Grande parte desse material, entretanto, é formado por compilações e traduções de outras fontes (originalmente publicadas em inglês). Uma parte menor foi de fato desenvolvida por mim. Apresento todas as fontes usadas na lista de referências ao final do texto.

Eurico Vianna, PhD. Lennox Head, Austrália, Janeiro de 2018.

 

A criação de um Contexto Holístico que guie nossas decisões e ações dentro dos projetos, organizações ou empreendimentos que tocamos forma uma base sólida para que nossas decisões possam, de fato, ser financeiramente viáveis, ambientalmente regenerativas e socialmente justas. O Contexto Holístico é uma ferramenta muito poderosa que nos permite inverter a maneira como traçamos e executamos nossas metas. Ou seja, com nosso Contexto Holístico formado, ao invés de estabelecermos uma meta e adaptarmos ou sacrificarmos nosso estilo de vida para atingi-la, nós estabelecemos a qualidade de vida que queremos e trabalhamos para que nossas metas possam apoiá-las.

Mas antes de articularmos nosso Contexto Holístico nós precisamos definir o campo ou o ‘todo’ dentro do qual vamos atuar.

O Todo Sob Gerenciamento

Para definirmos ‘o todo sob gerenciamento’, primeiramente precisamos definir quem são as pessoas que tomam as decisões nesse ‘todo’. As pessoas que tomam as decisões, comumente são as pessoas que tem poder de vetar (ou pelo menos afetar drasticamente) as decisões ou projetos em um ‘todo’ sendo gerenciado. Um exemplo claro é uma pequena empresa onde os donos são claramente os tomadores de decisão, mas devido à influência e autonomia de uma funcionária (digamos um gerente geral), seria interessante que ela fosse incluída como parte dos Tomadores de Decisão (Decision Makers).

Embora não tenha sido muito comum nos primeiros anos em que o Gerenciamento Holístico começou a ser difundido, um número cada vez maior de pessoas tem achado válido criar um Contexto Holístico para suas próprias vidas. Nesse caso só existe um Tomador de Decisão e ‘o todo sob gerenciamento’ é a vida pessoal e profissional da pessoa em questão. Desenvolver um Contexto Holístico também tem se popularizado para gerir relacionamentos ou empreendimentos que não são diretamente ligados com propriedades rurais. Nesse caso os Tomadores de Decisão são as pessoas envolvidas no relacionamento ou empreendimento.

Os Tomadores de Decisão

Pare por um momento e pense quem são os Tomadores de Decisão no ‘todo sob gerenciamento’ que que você está gerindo. Existem 3 tipo de Tomadores de Decisão: os Primários fazem parte da gestão e decisão diárias e tem poder de veto; os Secundários, que tem influência nos Primários ou Todo; e os Terciários, que podem ser levados em consideração.

A Base de Recursos e as Oito Formas de Capital:

Nessa etapa inicial do exercício de elaboração do Contexto Holístico que apoiará nossos processos de tomada de decisão nós precisamos fazer um inventário dos nossos recursos. Frequentemente nós ignoramos recursos importantes que já possuímos ou que estão à nossa disposição por conta da maneira que fomos treinados a pensar. Por essa razão essa etapa do exercício é muito importante. Ela pode ser verdadeiramente libertadora em termos de criatividade e recursos alternativos para começarmos nossos projetos ou empreendimentos.

Dentro do Gerenciamento Holístico ‘clássico’ consideramos 3 categorias mais amplas de recursos: Os recursos Humanos, os de Conhecimento e os Físicos ou Materiais.

Os recursos Humanos são todas aquelas pessoas com as quais podemos contar em maior ou menor grau, direta ou indiretamente para realizar as funções do nosso ‘todo sob gerenciamento’. São elas: parentes, amigos, clientes (passados e presentes), pessoas em nossa Rede Contato profissional ou em uma Comunidade de Prática (grupos online ou presenciais que se reúnem para trocar idéias e informações para aprimorar uma prática que têm em comum).

Os recursos De Conhecimento são todas as nossas qualificações acadêmicas, treinamentos técnicos/vocacionais (serralheria, carpintaria, mecânica, etc.) e aptidões (predisposição para determinadas áreas do conhecimento, das artes, tipos específicos de trabalho, etc.).

Já os Recursos Físicos ou materiais são os bens que possuímos ou temos acesso facilitado. Por exemplo um carro, trator, computador, ferramentas, etc. Muitas vezes, é melhor até que não seja necessário possuir um bem que tenha o valor elevado e que não vá ser usado frequentemente.

Dinheiro

No Gerenciamento Holístico entendemos por Dinheiro toda forma de recursos financeiros dos quais podemos dispor para realizar as tarefas, projetos ou funções do nosso ‘todo sob gerenciamento’. Empréstimos pessoais ou por meio de instituições, com ou sem juros, fazem parte dessa categoria. Quais são os recursos financeiros disponíveis para o seu ‘todo’?

As Oito Formas de Capital

Esse conceito foi desenvolvido por Ethan Roland e Gregory Landua para facilitar o entendimento das várias relações econômicas nas quais nos envolvemos e fazemos parte. O primeiro artigo foi publicado em 2011 e desde então o conceito foi expandido pelos autores em formato de um livro. Para muitas pessoas as 8 Formas de Capital são uma forma mais precisa de fazermos um inventário do que está disponível para o nosso Todo Sob Gerenciamento. Essa forma difere do Gerenciamento Holístico clássico e foi introduzida no curso de planejamento de fazendas da Plataforma Regrarians (2017) por Javan Bernakovitch. Pela precisão e escopo do inventário e capacidade de pensamento lateral que traz, eu prefiro trabalhar com essa abordagem quando faço inventário ou facilito cursos e consultorias.

As 8 Formas de Capital enumeram “todos os diferentes recursos valiosos que um indivíduo ou entidade podem reunir ou trocar” (2011). O que segue abaixo é uma lista das formas de capital acompanhada por uma breve explicação de cada um deles.

O Capital Espiritual é ligado com nossos mitos de origem (religiosos ou não), com as formas de ligação com nosso ser interior ou de autoconhecimento. “Muitas das religiões do mundo incluem um conceito do “grande encadeamento do ser”, uma compreensão hierárquica da existência, onde a realização espiritual (neste contexto, a acumulação de capital espiritual) leva a diferentes níveis de estar” (2011) e por consequência de agir no mundo. O karma Budista, é um exemplo de Capital Espiritual que se pode se ‘acumular’ ou ‘dever’. Você tem crenças ou práticas que podem ser interpretadas como Capital Espiritual?

O Capital Social é formado pela rede de contatos, amigos e familiares que uma pessoa tem e que pode ser usada para influenciar decisões, pedir favores e articular ações e movimentos na comunidade. O Capital Social pode ser acumulado, ou seja, você pode ter vários favores para pedir dentro de sua rede pelas boas ações que já praticou. Por outro lado, você pode ‘dever’ favores a outras pessoas.

O Capital Intelectual é um ‘bem’ em forma de conhecimento. A educação formal em todos os países foca na transmissão do Capital Intelectual. “Ter o capital intelectual é apontado como a melhor forma de ser bem-sucedido. … Por exemplo, ‘ir para a universidade’ é essencialmente uma troca de capital financeiro por capital intelectual”. A educação formal, ou o Capital Financeiro é supostamente a melhor maneira de preparar as pessoas para o resto de suas vidas no mundo. Quais são as qualificações formais que estão disponíveis como Capital Financeiro para o Todo Sob Gerenciamento?

O Capital Material é formado pelos objetos físicos não-vivos. “Os recursos brutos e processados como pedra, metal, madeira e os combustíveis fósseis são combinados uns com os outros para criar materiais ou estruturas mais sofisticadas. Edifícios modernos, pontes e outras peças de infraestrutura, juntamente com ferramentas, computadores e outras tecnologias são formas combinadas de capital material.” (2011).

O Capital Financeiro pode ser representado pelo dinheiro, moedas, títulos e outros instrumentos do sistema financeiro global.  O Capital Financeiro “é a nossa principal ferramenta para a troca de bens e serviços com outros seres humanos. Ele pode ser uma poderosa ferramenta para a opressão ou, potencialmente, libertação” (2011).

O Capital Experiencial (ou Humano) é a experiência que acumulamos quando organizamos algum projeto em nossa comunidade. Pode ser quando construímos uma casa usando técnicas de Bioconstrução ou quando completamos um projeto de desenho permacultural. “A maneira mais eficaz de aprender alguma coisa é através da combinação do  capital intelectual com o experiencial … o “capital humano” é uma combinação de capital social, intelectual e experiencial, e todas as facetas de uma pessoa que podem ser captadas e transferidas em quantidades essencialmente ilimitadas” (2011). Quais são suas experiências que podem colaborar para o sucesso dos projetos no seu Todo?

O capital cultural “descreve os processos partilhados internos e externos de uma comunidade – as obras de arte e de teatro, as canções que cada criança aprende, a capacidade de se unir em celebração das colheitas ou durante um feriado religioso. O capital cultural não pode ser captado pelas pessoas, individualmente. Pode ser visto como uma propriedade emergente do complexo sistema de trocas de capital que ocorre numa aldeia, numa cidade, num biótopo ou nação” (2011). Quais são as atividades culturais compartilhadas pela sua comunidade que pode colaborar no seu Todo?

O Capital Vivo é composto por animais, plantas, água e solo da nossa terra – a verdadeira base para a vida no nosso planeta. A analista e consultora financeira “Catherine Austin Fitts recomenda que nós diversifiquemos e ‘meçamos a nossa riqueza em onças [metais preciosos], acres [de terra], e animais'” (2011). Qual o Capital Vivo disponível no seu Todo?

No próximo artigo vou abordar os primeiros passos para a construção de um Contexto Holístico.

Esses artigos sobre o Gerenciamento Holístico visam, além de divulgar essa abordagem regenerativa no Brasil, encontrar parceiros para uma turnê de cursos englobando a Tomada de Decisão Holística, a gestão holística financeira e o manejo holístico de pastagens. Caso você tenha interesse em hospedar um curso ou consultoria em sua propriedade, entre em contato conosco pelo email info_at_euricovianna.com.br .

A turnê está sendo produzida por mim (Eurico Vianna) e pelo Filipe Suleiman. Os cursos serão ministrados pelo produtor rural e educador em Gerenciamento Holístico com mais de 25 anos de experiência, Graeme Hand (com tradução minha).

Referências:

Nota: Compartilho desde esse primeiro artigo a bibliografia comentada que norteia toda a série.

Very Edible Gardens (VEG) – a VEG é uma empresa de consultoria e educação permacultural australiana que se tornou referência na área. Dan Palmer e Adam Grubb escrevem frequentemente sobre como melhorar o uso da Permacultura para projetar um futuro de escassez energética onde todos possam viver em abundância.

O Instituto de Gerenciamento Holístico do Canadá tem uma gama enorme de recursos para o ensino/aprendizagem dessa plataforma. O Instituto tem ajudado muitos produtores rurais no Canadá e fomentado muito o estudo a aplicação do Gerenciamento Holístico por meio de cursos e simpósios.

Liz e seu marido Pete criaram e tocam juntos uma fazenda de 258 acres com empreendimentos que variam do gado para corte e leite, galinhas caipiras para produção de ovos até produtos apiários. O site Eigth Acres foi criado para comercializarem seus produtos e compartilhar as ferramentas que tem usado com sucesso para gerenciar seus empreendimentos.

Alberto Miguel é o único consultor em Gerenciamento Holístico oficialmente credenciado no Brasil. Seu blog é uma fonte riquíssima de conteúdo no assunto.

  • Savory, A. e Butterfield, J. (1999). Holistic Management: a new framework for decision making. Island Press, CA-EUA.

O Manual do Gerenciamento Holístico escrito por Allan Savory e sua esposa Jody Butterfild é o livro que lança essa plataforma de tomada de decisão. Comumente em cursos, dada a quantidade enorme de informações compartilhada, esse livro vem acompanhado do livro ‘Manual Prático’ e de um fichário com instruções para exercícios e o aprendizado do Gerenciamento Holístico de Pastagens.

A Plataforma Regrarians foi criada por Darren Doherty, designer regenerativo que começou sua carreira na Permacultura como aluno do co-criador, Bill Mollison. Darren passou a usar o método de planejamento Linha Chave (Keyline), desenvolvido pelo Australiano P. A. Yeomans, com algumas alterações. O Planejamento de Linha Chave da forma como é ensinado por Darren e sua equipe dentro da plataforma Regrarians está se tornando rapidamente o método mais utilizado por designers para o planejamento de fazenda no mundo todo.

  • 8 Formas de Capital, escrito por Roland, E. e Landua, G. e traduzido por Colaborama. Acessado em 15/01/2018 em https://pt.prepareforchange.net/2016/04/14/as-8-formas-de-capital-uma-nova-forma-de-olhar-para-a-economia/

O conceito foi desenvolvido por Ethan Roland e Gregory Landua para facilitar o entendimento das várias relações econômicas nas quais nos envolvemos e fazemos parte. As 8 Formas de Capital enumeram “todos os diferentes recursos valiosos que um indivíduo ou entidade podem reunir ou trocar” e tem sido usados largamente em cursos de Permacultura para trazer a realização de que se nos falta um tipo de capital, nós provavelmente temos outros com os quais podemos contar para o desenvolvimento de nossos projetos.