Empreendedorismo rural em redes distribuídas por Guilherme Tiezzi

“Novos modelos de negócios estão emergindo.  Estruturas abertas, descentralizadas, auto-organizadas permitem que projetos e empreendimentos avancem de maneira diferente, permitindo que não o empreendedor, mas o grupo de empreendedores, possam compartilhar seus sonhos e fazer com que o empreendimento, alem da dimensão econômica, possa resgatar ou fazer brotar, as questões filosóficas na essência do empreendimento.” É essa a proposta que Guilherme Tiezzi traz para o campo, para a agricultura regenerativa. Uma visão holística que engloba teoria, prática, qualidade de vida, ética, espiritualidade e economia.

Guilherme é empreendedor, designer e animador de redes colaborativas com foco especial em redes de negócios entre grandes e pequenas organizações. É cofundador Value Builders – RVA (Rede de Empreendedores Colaborativos) e da Agenttia (Inovação e Negócios em Redes de Distribuição). Atualmente ele traz esses conceitos e práticas para a EcoAraguaia, a primeira fazenda a ser idealizada dentro do conceito Fazenda do Futuro, dentro do qual a Natureza é reconhecida com um ser com direitos como os humanos. A EcoAraguaia busca gerar prosperidade e rentabilidade integrando-se à comunidade local e ao meio ambiente. É mais um Santuário de Sanidade Mental e Ecológica que surge construindo uma realidade na qual nos entendemos como Natureza e onde nosso viver otimiza a vida como um todo no planeta.

Hoje a agricultura convencional trabalha com tecnologia petroquímica, transmutações genéticas e maquinário para produzir comódites para o mercado financeiro. Ela concentra renda e terras nas mãos de corporações e é responsável por mais de 30% da emissão dos gases poluentes que aceleram as mudanças climáticas e a sexta maior extinção em massa da história da Mãe Terra. Ela também é responsável pela degradação de solos em escala planetária. Para esconder o fato de que esse modelo de produção nada tem a ver com produção de alimento, milhões são gastos todo ano mentindo, confundindo e desinformando para seguir lucrando com a devastação.

Cabe a nós, proponentes e co-criadores do paradigma regenerativo, produzir, educar e informar com a verdade e segurança ecológica necessárias. Cabe a nós gerenciar nossos recursos de forma holística englobando a qualidade de vida, a restauração ecológica e a viabilidade econômica de quem produz no campo. E essa é uma contribuição importantíssima do Guilherme – a visão, knowhow e dedicação para os empreendimentos rurais, além de regenerativos, sejam realizados em redes distribuídas confirmando em nossas transações econômicas e interpessoais a abundância da Natureza.

No texto que segue Guilherme compartilha sua visão da gravidade dos desafios e como podemos transporte-los. Obrigado, irmão! As pessoas e lugares à sua volta tem mais vida e sentido por conta da sua dedicação!

Aja agora! Estamos em Batalha….

Segundo uma lenda Tibetana* um período sombrio e ameaçador dominado por poderosos bárbaros ameaçará nosso planeta com armas de alta tecnologia e devastador poder de destruição. Enquanto os bárbaros colocam toda sua energia na destruição de uns aos outros  emerge em nosso planeta o Reino de Shambhala.

Um reino sem terras, sem propriedades; você não pode ir lá ! Um reino que  existe no coração e mente de cada guerreiro Shambhala. Esses guerreiros não são reconhecidos por uniformes, marcas,  logos ou por pertencerem a uma organização. Não possuem armas de destruição mas precisam vencer os bárbaros dentro de seu campo de atuação,  penetrando no seu centro de poder e comando, onde suas decisões são tomadas.

Chega o momento onde os guerreiros Shambhala precisam de uma enorme coragem, uma coragem tanto física como moral. Eles precisam enfrentar e desarmar os poderosos bárbaros e sabem que podem e precisam fazer isso. Sabem também que as armas são criações da mente humana e, por essa mesma razão, podem ser destruídas também por ela. Os guerreiros Shambhala sabem que o grande perigo que ameaça a terra não vem de forças externas. Sabem que esse perigo e terrível medo vem de nossas próprias escolhas e relacionamentos.    

Duas armas são utilizadas pelos Shambhala: a compaixão e a intuição.  Ambas são necessárias.  

A primeira nos dá o combustível para agir e nos mover em benefício de todos os outros seres humanos. Mas sozinha ela pode nos queimar!   Precisamos então da segunda também. Precisamos  da intuição  para sentir a interconectividade entre tudo e todos. Ela nos faz perceber que a batalha não é entre pessoas do bem e pessoas do mal, nos faz perceber que a batalha entre o bem e o mal está dentro do coração de cada um de nós. Através dela uma ação aparentemente isolada pode afetar toda a rede que pertencemos, trazendo consequências imensuráveis e inimagináveis.

Mas intuição sozinha pode ser muito fria para nos manter em movimento. Pode nos congelar! Por isso precisamos do calor da compaixão e a continua abertura e inquietude pelas dores do mundo. As duas armas ou ferramentas são necessárias para os Guerreiros Shambhala!

Precisamos agir! Agir com compaixão e intuição. Agir com atenção e equilíbrio. O momento é o agora. Presente. Não violento. Pacífico.

Temos que para isso sonhar, planejar, fazer e celebrar. De cada 1.000 projetos sonhados, 100 passam para a fase de planejamento, 10 são realizados e 1 é celebrado e segue em um novo ciclo empreendedor.  A principal razão está na estrutura hierárquica, centralizada e controladora em que os projetos são concebidos e na forte dependência do capital. É nesta estrutura que o empreendedor se isola e solitariamente empreende e sofre com negócios onde a única dimensão a ser buscada é a  dimensão econômica. As pessoas, inclusive o empreendedor, são continuadamente diminuídas. São recursos desumanos. Toda relação passa a ser um relação utilitarista e transacional, uma relação entre cliente e fornecedor, de compra e venda, onde cada vez mais, o outro é um objeto!

Nestes 10 anos convivi intensamente com vários empreendedores de vários setores, portes e gerações e para a grande maioria deles o “sonho” esta fora da empresa.  Existe uma “desconexão” entre  seus valores mais íntimos, humanos e colaborativos, e as atitudes severas e desumanas consideradas necessárias para a sobrevivência do negócio. A maioria tem olhares para um mundo da escassez onde o acumulo rápido de recursos a eliminação do concorrente é o que realmente importa. Bárbaro!  

O sonho de resgate do trabalho com significado, da colaboração e da valorização de ser humano está tomando força a cada pequena ação, a cada atividade, a cada projeto a cada empreendimento, no coração de cada um de nós. Novas tecnologias de comunicação, redes sociais, novas gerações de empreendedores e um velho mundo definhando por esgotamento de recursos são ingredientes para a emergência do novo.

Novos modelos de negócios estão emergindo. Estruturas abertas, descentralizadas, auto-organizadas permitem que projetos e empreendimentos avancem de maneira diferente, permitindo que não o empreendedor, mas o grupo de empreendedores, possam compartilhar seus sonhos e fazer com que o empreendimento, alem da dimensão econômica, possa resgatar ou fazer brotar, as questões filosóficas na essência do empreendimento.  

Empreendimentos buscam a reconexao do humano com o humano e destes com o planeta terra. Resgate de nossa natureza! Um novo empreendedor em rede, conectado, espiritualizado, esta formando e sendo formado por um novo e vivo ecossistema, em vários lugares, ao mesmo tempo, com o mesmo impulso… esse novo empreendedor vê um mundo com olhos da abundância, permitindo que o fluxo incondicional de recursos, de dinheiro, de bens, de conhecimento, de sofrimento e de amor, flua e construa uma nova cultura de paz. Shambhala!

A Value Builders é somente um palco, um campo de energia, em conexão com um campo maior e fará parte do todo sendo todo da parte. Fractal!  Um grupo de humanos inquietos e criativos, buscando a partir do encontro e do fazer desenvolver seus sonhos e empreendimentos.

Não vamos abrir mao de nenhum pedacinho do nossos sonhos. Todos podemos ter 100% de deles realizados. Vamos empreender a mudança que queremos ver no mundo, transformando o mundo e nos transformando.   Trabalhemos e amemos, conectados com nossa essência, essência social e espiritual. Espero, em contínua atividade, que nos próximos 10 anos possamos ver uma rede de negócios e empreendedores ativa, rentável, viva e contemplativa!

Agradeço de coração a todas as pessoas que me proporcionaram encontros, aprendizados e presença nestes 10 anos de “batalha”. Não empreenderia absolutamente nada sem vocês.

Guilherme Plessmann Tiezzi , 2012

Texto originalmente escrito no e-book de 10 anos da Value Builders.