Ativismo socioambiental e onivorismo ético

Os pequenos produtores rurais ao redor do mundo produzem de 50 a 75% da comida que alimenta a população mundial usando apenas de 25 a 30% das terras aráveis, 30% da água e 20% dos combustíveis fósseis usados na agricultura (Altieri, 2015; Tittonell, 2014).

Os pequenos produtores rurais que fazem uso de métodos regenerativos como a agroecologia, agrofloresta ou permacultura (em sistemas que integram a produção animal) são 20 vezes mais energeticamente eficientes do que o agronegócio e os grandes latifúndios (Altieri, 2015).

Enquanto o método mais eficiente do agronegócio tem que investir 1kcal para produzir 1.5kcal, um pequeno produtor rural investe 1kcal para produzir 30kcal de alimento por hectare. Enquanto produz grãos, tubérculos, frutas, castanhas, etc. o pequeno produtor rural ainda consegue fornecer proteína animal suficiente para alimentar 34 pessoas por ano por hectare (Altieri, 2015). Se temos qualquer chance de uma cadeia de produção e consumo baseada em métodos agro-etno-ecológicos biorregional e descentralizada, é com a agricultura familiar!

Por isso, qualquer ativismo socioambiental coerente tem que primeiramente trabalhar em prol da alfabetização ecológica e energética com bases científicas e levando em conta o bem estar e a qualidade de vida dos pequenos produtores rurais. A qualidade de vida desse grupo, juntamente com sua cultura e soberania alimentar (que inclui animais nos sistemas de produção) deve ser sempre mantida no mesmo patamar de importância da restauração ecológica e da viabilidade econômica.

Um ativismo socioambiental coerente tem que levar em conta o bem estar e soberania alimentar das populações tradicionais que são as que vivem mais harmonizadas com a Mãe Terra e são onívoros. Tem que levar em conta as populações em situação de risco alimentar, como por exemplo a caatinga brasileira, que tem a maior concentração populacional de todos os biomas áridos e semiáridos do mundo e onde não é possível viver sem integrar animais em seus sistemas de produção. E aqui podemos agregar dados para a alfabetização ecológica de todos que buscam um viver com impacto positivo, os cerrados e pradarias também são ambientes onde a produção regenerativa precisa dos herbívoros para ciclar biologicamente a matéria orgânica (grande maioria gramíneas) produzida no período das chuvas .

Vemos então que o argumento que pede o fim do especismo em prol de uma relação equânime com a natureza, de um paradigma ecocêntrico utópico onde seres humanos não ‘exploram’ outros animais não tem bases ecológicas nem energéticas. O especismo também é comumente chamado de ‘carnismo’, um termo pejorativo cunhado pela propaganda vegana para descrever as pessoas onívoras. A crítica, nesse caso, é no sentido de que os seres humanos criaram uma hierarquia de existência onde outros animais viveriam exclusivamente para nos servir.

Mas essa questão não é tão simples assim. Por um lado, todas as espécies, sem exceção, buscam alterar o meio ambiente a seu favor. O equlíbrio energético das cadeias tróficas garantiu que nos últimos 3.8 bilhões da história da evolução no planeta o jogo de vida e morte entre todas as espécies tenha servido para complexificar a vida e lutar contra a entropia.

Infográfico da Fazenda WhiteOaksPastures.com mostrando a quantidade de carbono sequestrado durante a produção regenerativa.

É por isso que uma visão ecocentrica coerente, embora celebre a existência e importância de todas as espécies, não pode excluir humanos como animais onívoros que são.

Por outro lado, embora ajamos como todas as outras espécies que alteram seu habitat para favorecer sua existência, nossa desconexão da natureza e gestão reducionista aliada ao subsídio dos recursos fósseis (que por sua vez também é causa da desconexão) nos torna a espécie mais destruidora.

Desse ponto de vista, o ‘especismo’ é inescapável. Perguntemo-nos, por exemplo, se a natureza julga uma onça por comer um veado? Ou se dentro de uma casa em chamas onde se encontram um bebê e gato, a pessoa que salvasse primeiro o gato não seria gravemente julgada por outros humanos?

Infográfico do site Sacredcow.info mostrando o consumo de água na pecuária regenrativa em comparação com a carne do agronegócio.

No entanto, dentro de um paradigma holístico de gestão onde o social, o ecológico e o econômico habitam o mesmo patamar, o onivorismo ético em cadeias de produção agroetnoecológicas biorregionais é a única opção que pode ao mesmo tempo abarcar:

  • a segurança alimentar por sua eficiência energética (veja Altieri e Tittonell acima e no link),
  • a qualidade de vida do produtor rural por conta das conexões de benefício mútuo que se formam em sistemas integrados de produção,
  • as questões ambientais porque as abordagens regenerativas compõem até 30% das soluções que podem resolver as mudanças climáticas (ver Drawdown e Charles Massy 2018). Nesse paradigma humanos mantém sua posição na cadeia trófica como onívoros, porém gerando sempre mais vida,
  • as questões de SOBERANIA alimentar porque as pessoas tem o direito de escolher sua dieta e viver de acordo com suas culturas (desde que a dieta seja suprida por métodos regenerativos) sem que uma agenda hegemônica de um ativismo míope as julgue por isso.
Infográfico so site Sacrecow.info explicando como a eliminação da carne causaria mais problemas que soluções.

Outra afirmação fora de contexto do movimento vegano é a de que a produção vegetal é 90% mais eficiente. Isso não é verdade como ! Essas afirmações precisam ser propriamente contextualizadas para que possamos discutir ciência e não propaganda. Em sistemas integrados de produção (agropecuária regenerativa) os animais são um recurso na restauração. O ‘etno’ do termo agroETNOecológico indica que viverão expressando seus comportamentos inerentes. Ademais, a eficiência dos sistemas integrados está no fato de que herbívoros (com os 4 estômagos que tem) convertem plantas não comestíveis (em terras marginais) para os seres humanos em alimento altamente nutritivo (com biodisponibilidade de nutrientes e eficiência de absorção incomparáveis).

O #govegan, com a constante manipulação dos dados e miopia para as causas reais dos problemas ecológicos é um desserviço ambiental. As causas reais dos problemas ecológicos estão na gestão reducionista do sistema vigente. Em um paradigma que insiste em enxergar a natureza como parte da economia e não o contrário. O foco de todos deve ser na produção agro-etno-ecológica biorregional DE TODOS OS ALIMENTOS, em uma gestão holística que tenha sempre no mesmo patamar as questões sociais, as ambientais e as econômicas.

As estratégias mais comuns são:
– o compartilhamento de ‘dados científicos’ fora de contexto,
– a omissão ‘do tipo de produção’ das proteinas ou das alternativas regenerativas,
– a comparação de dietas a base de plantas com a S.A.D. (Standard American Diet – basicamente uma mistura de alimentos altamente processados, açúcares refinados e gorduras saturadas) ao invés de com dietas onívoras saudáveis,
– os memes apelativos com sofismas por falsa premissa como o último que diz que várias das últimas epidemias que assolaram a humanidade vieram da ingestão da carne. Isso é outra mentira. Nós evoluimos nos últimos 300 mil anos com uma dieta onívora. O que causa as doenças é o desmatamento e a produção industrial – práticas que resultam da gestão reducionista de recursos, como expliquei acima.

Essas estratégias de propaganda, no meu ver, se alinham muito mais com o facismo da ultra-direita internacional do que com um ativismo socioambiantal progressivo e inclusivo.

Fontes (todas em inglês):

A carne e a mente: como nossa saúde neurológica e mental pode estar ligada a ingestão de carnes saudáveis;
Os Pequenos Produtores Rurais Contra o Agronegócio;
O que significa a pecuária propriamente manejada;
A Escala de Friabilidade: uma nova forma de enxergar os ecossistemas;
Site da nutricionista americana e produtora do documentário SacredCow;
Artigo no site da Fazenda White Oaks explicando o resultado das pesquisas sobre pecuária regenerativa  no sequestro de carbono atmosférico;
Site Regenerateland.com com uma compilação de artigos científicos que compartilham os efeitos da pecuária regenrativa na restauração de áreas degradadas e sequestro de carbono atmosférico.