As contradições do mercado de “carnes falsas” como alternativa para o ativismo ambiental

Você sabia que são necessários 4.000m2 para produzir 1kg da proteina vegetal TRANSGÊNICA que imita o sabor e suculência da carne nos hambúrgueres vegetais? Você sabia que toda a produção de alimentos vegetais industrializados degrada, desmata e polui tanto quanto a pecuária de confinamento ou extensiva? Onívoros e veganos tem se dividido, mas a verdadeira causa da degradação está no modelo de gestão reducionista e não na soberania alimentar de cada um.

É isso mesmo, não é o consumo de carne que causa problemas ambientais. Os problemas ambientais são causados por um modelo de gestão reducionista que enxerga o meio ambiente como parte da economia e não o contrário. Um modelo que visa só o lucro e tem a degradação como ‘externalidade’. Esse mesmo modelo é responsável por toda a cadeia de produção alimentar industrializada que abastece os grandes centros urbanos; o que inclui TODA alimentação vegana também.

A desconexão de grande parte do movimento vegano faz com que muitos acreditem ser possível adotarmos soluções tecnológicas para problemas causados por desequilíbrios biológicos ou de gestão reducionista. O consumo de carne não é o problema, assim como alimentos veganos/vegerarianos comprados em supermercados não são a solução.

A grande maioria das carnes falsas, por exemplo, contém leg-hemoglobina (ou legHb) de soja, uma proteína que nesse caso é geneticamente modificada para dar um gosto e visual de carne suculenta. Esses alimentos fazem parte de uma indústria multibilionária que se associa ao agronegócio e as corporações petroleiras para explorar a falta de conhecimento ecológico e energético de pessoas muito bem intencionadas.

As corporações líderes dessa indústria estão tendo que se explicar ao FDA (departamento estadunidense responsável pela proteção e promoção da saúde pública) sobre os efeitos colaterais da legHb transgênica como dificuldade em ganhar peso, mudanças no metabolismo sanguíneo e sinais de anemia.

Outra questão é a enorme pegada de carbono e impacto ambiental por conta de como os grãos são produzidos, deoutros ingredientes usados e das grandes fábricas envolvidas na produção dessas carnes falsas. “Documentos mostram que os produtores do “Impossible Foods” ignoraram os avisos do FDA sobre a segurança da legHb de soja geneticamente modificada [que é] chave em seu hamburger”.

O maior problema encontrado pela ‘Impossible Foods’ [empresa líder na fabricação de carne falsa] é que é preciso 1 acre (4.000m2) de soja (quase sempre transgênica também) para produzir apenas um quilo de de leghemoglobina.

De um modo geral, apesar de em escala um pouco menos drástica, esse é o problema de lutarmos contra o consumo de carne e não contra TODO O SISTEMA DE PRODUÇÃO INDUSTRIALIZADA. Todo alimento do agronegócio participa de uma cadeia de produção que concentra renda e poder, que devasta o meio ambiente e é altamente dependente dos recursos fósseis para sua produção. 

Enquanto as empresas tentam ganhar ainda mais mercado por conta dessa miopia ecológica e energética do movimento vegano, pequenos produtores ao redor do mundo que são 20 vezes mais energeticamente eficientes porque integram animais em sua produção agro-etno-ecológica ficam sem o devido apoio dos consumidores urbanos. Esses produtores são responsáveis por até 70% da produão dos alimentos, em apenas 20% das terras agriculturáveis, com 30% da água usada pelo agronegócio e 20 vezes menos insumos químicos. Esses produtores alimentam 30 pessoas por ano por hectare com proteínas animais (Altieri, 2014).

É nesse sentido que o #govegan é um desserviço cultural, ambiental e nutricional.

Allan Savory usando uma manada para restaurar habitat para vida selvagem e as comunidades da região no Centro Africano para o Gerenciamento Holístico.

Gado (ou qualquer outro animal) criado a pasto (só pasto) em manejo holístico, por outro lado, implica:
– uma plataforma de decisão capaz de lidar com complexidade,
– métricas sociais (qualidade de vida e cultura) verificáveis,
– métricas de restauração ambiental verificáveis. Isso desde a otimização da fotossíntese, passando por ciclagem biológica de nutrientes (que constrói solo sequestrando carbono) até o ciclo hidrológico melhorando a capacidade de infiltração e retenção da água no solo. Incluindo inclusive o aumento da biodiversidade.
– métricas e abordagem econômicas que visam a melhorar a autonomia e resiliência econômica do produtor rural.

Em resumo: existem métodos de produção regenerativos para proteínas animais com métricas científicas que garantem a eficiência da restauração ecológica, social e econômica. 

Deveríamos TODOS apoiar a produção agro-etno-ecológica biorregional. Dessa forma estaremos apoiando quem mais precisa enquanto restauramos todas as áreas em que produzimos. Dessa forma não criamos uma agenda de propaganda desleal e colonizadora.

Quando toda a produção acontecer no paradigma regenerativo a soberania alimentar de todos independentemente da escolha de seu alimento estará garantindo nosso futuro como espécie no planeta. Até lá, enquanto ficarmos criando uma hierarquia de ‘capital ambiental’ onde onívoros (pequenos produtores entre esses) são ‘menos’ conscientes ou ‘menos’ ambientalistas, estaremos todos sendo explorados pelas corporações que e ideologia que causam o problema.