Porque apoio a Soberania Alimentar e não o Veganismo Fundamentalista

Para a maioria dos adeptos, o veganismo não é uma dieta, é uma ideologia que se opõe ao especismo. O Especismo, é o ponto de vista de que uma espécie, no caso a humana, tem todo o direito de explorar, escravizar e matar as demais espécies de animais por considerá-las inferiores.

Embora o especismo seja a base filosófica, frequentemente apóstolos do veganismo fundamentalista trazem argumentos relacionados ao meio ambiente, a espiritualidade e a nutrição.

Eu não tenho nada contra pessoas veganas, mas não concordo com o especismo como base ideológica e muito menos com os argumentos ecológicos, espirituais e nutricionais. O meu entender é que não é possível defender a agenda de conversão de grande parte do movimento vegano e defender a Soberania Alimentar ao mesmo tempo.

Soberania Alimentar implica que as pessoas têm o direito de decidir sobre sua dieta e de acesso aos meios de produção para mantê-la. A Soberania alimentar também implica o direito a decidir como comercializar se for o caso e se essa comercialização atende a biorregião, o país ou uma agenda de exportação. Dentro desse paradigma a ética que leva cada pessoa a decidir o que comer é um direito.

Eu defendo a Soberania Alimentar e dentro desse paradigma que a produção seja agro-etno-ecológica. Em geral esse termo indica uma produção que se baseia nos princípios ecológicos como é o caso da agrofloresta sucessional ou da agroecologia e isso se aplica também a esses sistemas quando eles integram a produção animal. Nesse caso o sufixo ‘etno’ indica que o sistema de produção garante que durante toda sua vida o animal é criado com sua dieta natural e expressando suas características intrínsecas. Herbívoros criados exclusivamente a pasto. O porco livre para chafurdar expressando sua ‘porquice’… A galinha sua ‘galinhice’… ciscando, tendo acesso a plantas, insetos, vermes e grãos porque é onívora… Em outras palavras nenhum animal é criado em confinamento. E quando falo de pecuária, falo de pecuária com planejamento holístico de pastagens.

O foco na soberania alimentar opera no âmbito das soluções. Constrói o direito de todos a decidir o que comer e aos meios de produção para fazer isso de forma saudável. E por ser uma política inclusiva, isso inclui os veganos também!

Quando se advoga o veganismo com argumentos ambientais o foco está no problema: a carne que degrada o meio ambiente e é produzida em um paradigma que só visa lucro. Aqui vale dizer que uma dieta à base plantas suprida pelo agronegócio via supermercados faz parte do mesmo paradigma destrutivo e degrada da mesma maneira.

Entender que tanto a carne quanto as verduras e legumes vendidos nos supermercados degradam porque participam do mesmo paradigma de produção é essencial. Assim podemos entender que a mudança a ser feita é no sentido de que qualquer alimento seja produzido agro-etno-ecologicamente.

Nesse sentido a propaganda vegana não é honesta. Primeiro porque faz comparações entre a carne e verduras e legumes sem distinguir os meios de produção. Segundo porque sempre usa como base a carne produzida em confinamento ou na pecuária extensiva.

A questão ambiental

Aqui é importantíssimo ressaltar que existe produção animal que restaura o agroecossistema. A procura por esse tipo de carne liga onívoros éticos com produtores locais reforçando uma tendência que restaura ecossistemas, economias e culturas.

Ainda na questão do meio ambiente precisamos entender que aproximadamente dois terços do planeta são compostos por regiões semiáridas ou de latitudes extremas onde a produção local precisa incluir animais. Especialmente se queremos restaurar a cultura e comércio justo biorregionais.

No Brasil temos 3 biomas onde a sazonalidade das chuvas fazem com que os animais sejam fundamentais nos processos de regeneração: a caatinga, o cerrado e os pampas. O nordeste brasileiro tem o semiárido mais populoso do mundo e mais de 20 milhões de hectares já em processo de desertificação causada pela agricultura industrial e a pecuária extensiva (dados da Sudene). Nesse caso o Gerenciamento Holístico de pastagens é o mais indicado por levar em conta as dimensões ecológicas (por planejar as rotações baseado na recuperação da vegetação e biodiversidade), sociais (por priorizar a qualidada de vida dos produtores) e econômicas (porque produz em harmonia com a ecologia). Esse sistema é capaz de restaurar o solo, os lençóis freáticos e a biodiversidade rapidamente.

Dentro desse contexto também vale comentar as pesquisas do Dr Miguel Altieri, agroecologista chileno que publica pela Universidade da Califórnia e argumenta que além de serem mais resilientes e biodiversas, as propriedades com sistemas de produção animal integrados chegam a ser 20 vezes mais energeticamente eficientes que as outras (Altieri, 2014).

Essa eficiência energética é extremamente importante para que a agricultura agro-etno-ecológica não seja dependente de insumos de uma matriz energética que sabemos que não vai durar. Ela também é fundamental para que a escolha alimentar de uns privilegiados não seja subsidiada pela dignidade e saúde dos produtores rurais. (Discuto o papel da pecuária regenerativa na soberania alimentar e biorregionalização das cadeias de produção pós-pandemia nesse artigo )

A questão nutricional

Todos os estudos sobre dietas a base de plantas fazem comparações com a S.A.D, a Standard American Diet ou Dieta padrão americana, ou seja com alimentos altamente processados e de baixíssimo valor nutricional. Não existem estudos comparativos entre dietas à base de plantas com dietas onívoras agro-etno-ecológicas.

Frequentemente as propagandas também comparam a quantidade de proteínas, cálcio ou ferro em determinados alimentos e a carne, mas não comentam sobre a biodisponibilidade, ou seja, que quando esses nutrientes vem de uma carne saudável nosso organismo absorve mais rápido e com menos esforço metabólico.

Na questão nutricional o consenso científico é de que as dietas veganas e vegetarianas podem nos deixar deficientes em muitos nutrientes. Entre eles as vitaminas do complexo B, cálcio, ferro, zinco, ácidos graxos de cadeia longa e as vitaminas A e D, que são solúveis em gordura. Aqui eu deixo links para 3 referências científicas (em inglês):

A Diana Rodgers, nutricionista americana que escreveu o livro Vaca Sagrada (Sacred Cow) que agora está para ser lançado como o documentário;

– o mestre em nutrição Chris Kresser, que tem feito pesquisas e revisões bibliográficas constantes sobre o tema;

– e a Dra Georgia Ede, que tem alertado para o perigo das dietas veganas para a saúde cerebral pela fala de DHA – um ácido graxo ômega 3 chamado docosa-hexaenoico – que as plantas não fornecem. (Fiz uma tradução livre e resumida desse vídeo no artigo A carne e a mente: como nossa saúde neurológica e mental pode estar ligada a ingestão de carnes saudáveis.

A questão espiritual

Na questão espiritual eu também não vejo coerência. Não existe vida sem morte. Não existe natureza sem sofrimento. Ninguém julga a onça por comer a paca, o tamanduá por comer as formigas ou a micorriza por comer os nematóides no solo. As cadeias alimentares fazem parte da estratégia de complexificação da vida para combater a entropia. Comunidades indígenas e tradicionais, que para mim estão entre os seres mais evoluídos exatamente por sua conexão com a natureza, não são veganos. O Dalai-lama não é vegano!

Um senso de espiritualidade que faz com que uns se achem mais evoluidos que outros, não pode nos conectar com a fonte, com o um. Um senso de espiritualidade que nos faz acreditar que podemos viver como seres supremos, supostamente mais evoluidos e por isso desconectados da cadeia alimentar, de novo, não cumpre sua função de nos reconectar com a fonte.

O especismo

Por fim, a questão do especismo para mim não é coerente exatamente por entender que nós evoluimos como seres humanos fazendo parte do ecossistema e das cadeias alimentares, como expliquei acima.

Existe uma relação simbiótica entre várias espécies. As aves que seguem as manadas de herbívoros, os peixes que limpam dos dentes do tubarão, os carniceiros que seguem os que predam em bando. Entre nós que aprendemos a caçar usando aves de rapina e cães. Essa evolução se deu por milhares de anos e por criar relações de benefício mútuo entre as espécies e dessas espécies com os ecossistemas que habitam.

É por isso que temos mais proximidade com algumas espécies e comemos outras. Isso acontece por toda a cadeia alimentar.

E não se enganem. Em um futuro não muito distante a diminuição dos subsídios energéticos vindos dos combustíveis fósseis forçará o exôdo urbano (re)criando as condições para uma vida mais rural. Nesse contexto, um número muito maior de pessoas vai entender que o veganismo é um direito, mas está longe de ser uma alternativa universal viável em grande parte do planeta.

Nos meus cursos, trabalhos e conteúdo que produzo como educador e ativista, eu apresento os animais como uma das ferramentas que temos para reverter os processos de desertificação e mitigar as mudanças climáticas.

Com isso, frequentemente alguns fundamentalistas tentam desqualificar meu trabalho ou as fontes científicas que uso. É aquela velha tática de oratória onde se tenta desqualificar o interlocutor para não ter que dialogar com a idéia. Nesses casos costumo dizer que é nessa atitude que o veganismo progressita encontra a extrema direita. E vejam que os autores com os quais embaso meu trabalho são quase todos progressistas ativistas da agroecologia como é o caso Dra. Ana Primavesi, Dr. Steenbock, Dr. Miguel Altieri, Dr. Pablo Tittonell, Dr. Gliesmann e o próprio Allan Savory.

Afirmo frequentemente que não temos mais tempo para não usar todas as ferramentas possíveis para reverter os processos de desertificação, as mudanças climáticas e o antropoceno. E embora pareça contraditório de início porque a grande maioria das pessoas nunca viu esses sistemas funcionando na regeneração e tem resistência para aceitar essa inovação na ecologia, os animais fazem parte desse conjunto de soluções quando utilizados da maneira correta.

Espero que tenha ficado claro que é exatamente por defender a soberania alimentar que entendo o veganismo como um direito, mas não um dever de todo ambientalista. Como expliquei, não concordo com o viés evangelizador, a propaganda tendenciosa do movimento, nem as manifestações que ferem o direito alheio (como no caso de propriedades invadidas). Mas acredito ser extremamente importante que todas as pessoas tenham o direito de escolher o que comer e tenham acesso aos meios de produção.

E a grande diferença entre esses dois movimentos é que o ramo fundamentalista do movimento vegano cria uma hierarchia falsa onde de acordo com um sistema de crenças os onívoros são supostamente menos ‘ambientalistas’ porque ‘ainda’ comem carne. Enquanto a soberania alimentar, não cria divisões que enfraquecem o ativismo socioambiental, abraça a diversidade e celebra as diferenças defendendo o direito de escolha de todos.

Nota:

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