Porque as recomendações do Sir David Attenborough no documentário Nosso Planeta estão fadadas a falhar

Nesse artigo eu faço uma análise do filme David Attenborough e Nosso Planeta sob a luz da Tomada de Decisão Holística, um modelo de gestão criado pelo ecologista Zimbabuano Allan Savory para lidarmos com as complexidades da sociedade, ecologia e economia simultaneamente e no mesmo patamar de importância.

O filme é um testemunho do declínio dos ecossistemas do planeta Terra e um apanhado de sugestões para caminhos futuros.

Durante os 70 anos de carreira do ambientalista David Attenborough, hoje com 93 anos de idade, documentário acompanha:
– o aumento populacional;
– o aumento da poluição (em acréscimo de carbono em partes por milhão na atmosfera);
– e a diminuição da área de habitat natural para a vida selvagem no planeta.

É desesperador constatar que durante os últimos 70 anos nós seres humanos já destruimos em torno de 70% dos ecossistemas do planeta para produzir bens de consumo em um estilo de vida que nos distancia cada vez mais da natureza.

Esse é o contexto da primeira metade do documentário – um choque de realidade mostrando de forma irrefutável o impacto negativo da sociedade de consumo em toda a base natural que sustenta a vida no planeta.

A segunda metade do filme apresenta possíveis soluções para o futuro e é essa parte que eu gostaria de comentar com uma análise baseada na Tomada de Decisão Holística.

Embora existam outras sugestões e mais detalhes, de forma geral as alternativas apontadas são:

1 – Diminuir o espaço de produção agrícola, adotar uma dieta a base de plantas e comer menos carne;

2 – Substituir por completo a matriz energética de recursos fósseis que sustenta o modelo de civilização atual por energia renovável (o filme se tem mais a solar e eólica, mas menciona a geotérmica também);

3 – Praticar um ‘consumo consciente’.

Eu vejo essas sugestões como passo-à-passo simplistas, reducionistas, para uma situação que é complexa. Em muitos casos, elas nem chegam a atuar na raiz do problema. E por essas razões estão fadadas a falhar.

Quando usamos o modelo de gestão do Gerenciamento Holístico para pensar sistemicamente e tomar decisões, nós criamos um contexto que assegura simultaneamente e no mesmo patamar de importância as dimensões sociais, ambientais e econômicas. Até porque, na realidade, elas são inseparáveis. A gestão reducionista, com foco exclusivo no lucro, que nos levou a tentar gerir essas dimensões separadamente.

Devemos diminuir os espaços de produção agrícola ou ocupar todas as áreas de produção com a agricultura regenerativa?

Em relação à sugestão feita no filme de diminuirmos o espaço de produção agrícola, adotarmos uma dieta a base de plantas e comermos menos carne, eu faço a seguinte provocação: e se tivéssemos modelos de produção capazes de restaurar o solo, os lençóis freáticos e a sócio-biodiversidade? Nesse caso precisariamos diminuir os espaços de produção ou ocupar todos eles com esses modelos regenerativos?

Acontece que temos esses modelos de produção. Eles estão presentes na permacutura, agroecologia, agroflorestas sucessionais, plantio de palhada, gerenciamento holístico de pastagens, etc. Isso deixa claro que o problema não é a dieta, nem necessariamente o tamanho da área, uma vez que outros modelos de produção restauram enquanto produzem.

E aqui vale citar dois exemplos do quão ecologicamente eficiente os sistemas regenerativos podem:

O primeiro é dos Sistemas Agroflorestais (SAFs) sucessionais praticados no Brasil. As pesquisas do Dr Walter Steenbock mostram que com esses sistemas podemos produzir entre 40 e 70 toneladas de alimentos, fibras e madeira enquanto fixamos até 6.7 toneladas de carbono no solo por hectare por ano (Steenbock, 2013).

Os SAFs regeneram os processos ecossistêmicos, portanto os habitats naturais, e produzem no mínimo em torno de 25 toneladas a mais de alimento por hectare por ano.

O segundo exemplo é o da Fazenda Carvalho Branco (White Oaks) nos Estados Unidos. Eles trabalham com o modelo de gestão holística na tomada de decisão e no planejamento das pastagens e com isso conseguem fixar 1.3 toneladas de carbono no solo por hectare por ano. Eles compensam mais de 100% do carbono emitido no ciclo de vida de cada animal e até 85% de todas as emissões da fazenda (Stantly, P; Rowtree, J; et. all; 2018).

Se mais pessoas consumissem carne produzida nesse modelo teríamos um número cada vez maior de pessoas contribuindo para mitigar as mudanças climáticas sem perder sua soberania alimentar.

O filme recomenda uma agricultura tecnológica e intensiva, mas não cobre de onde viriam os insumos tanto os tecnológicos (estufas, fazendas verticais, luzes, etc) como os biológicos (adubos, oligoelementos e minerais) que precisamos para que um solo saudável produza alimentos saudáveis. Uma auditoria energética desses meios de produção mostraria que eles não são mais viáveis que a agroecologia, os SAFs ou o gerenciamento holístico de pastagens.

Raramente conseguimos resolver problemas biológicos com soluções tecnológicas.

A questão da matriz energética

Embora a transição dos recursos fósseis para os renováveis seja fundamental se quisermos assegurar qualquer chance de futuro, o documentário não questiona a ordem energética, ou seja, o quão enormemente subsidiados pela matriz fóssil nós somos.

Energias renováveis não podem manter a sociedade de consumo. Isso é um fato. Atualmente 97% das atividades que mantém a civilização baseada no consumo são mantidas pela matriz de combustíveis fósseis. Para fabricarmos mais turbinas, painéis solares e baterias precisamos de minérios e outros elementos que para serem extraídos, processados e fabricados dependem de uma infraestrutura e logística que funciona à base de energia fóssil (Trainer, 2007).

O impacto ambiental do consumo energético nos países de primeiro mundo é enorme. E se quisermos construir um futuro socialmente justo, temos um impasse na questão energética. Ou diminuímos o consumo e o gasto energético dos países desenvolvidos ou continuaremos subsidiando o conforto dos países desenvolvidos com a dignidade das pessoas no Sul Global. Isso porque energia renovável para todos na escala atual é uma impossibilidade termodinâmica.

Entretanto o documentário não questiona nem a impossibilidade de mantermos a civilização global atual com energias renováveis, muito menos o ajuste que precisa ser feito para que todos os povos possam ter acesso à energia renovável gerada.

O consumo consciente

A Economia Ecológica nos mostra muito bem pelo entendimento das Leis da Termodinâmica que uma economia baseada em consumo, não importa em qual escala ou nível de consciência, será sempre destrutiva (Cavalcanti, 2020).

Sugerir o consumo consciente, portanto, não age na raiz do problema: uma economia baseada em bens de consumo, com obsolescência planejada e que para serem fabricados invariavelmente degradam a natureza.

A solução aqui seria redesenhar a cadeia complexa sociedade-natureza-economia de forma holística. Seria entendermos, aplicarmos e vivermos uma economia baseada no gozo de viver, na arte, nas experiências subjetivas e desenvolvimento humano e não no consumo.

O documentário também não aborda a sociedade de consumo e sua economia como raiz do problema da destruição ambiental.

Coda

Embora o documentário tenha uma contribuição enorme no processo de conscientização da sociedade como um todo, as alternativas propostas são reducionistas e por vezes superficiais demais para dar conta da complexidade sociedade-natureza-economia.

Modelo de Produção da Economia Clássiva, por Dr. Clóvis Cavalcanti.

Precisamos ser mais radicais no sentido de agir na raiz dos problemas. E no caso das mudanças climáticas e do antropoceno é preciso tomar decisões holísticas que abarquem simultaneamente e no mesmo patamar de importância as dimensões sociais, ambientais e econômicas.

Com um contexto social, ambiental e econômico para todo o planeta, fica claro que não é possível um capitalismo verde ou regenerativo, é preciso redesenhar todo o sistema econômico para que ele respeite, esteja contido pela biocapacidade do planeta. É isso ou a extinção em massa.

Nota: 

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Referências:

Cavalcanti, Clóvis. Furtado e o desafio do enfrentamento dos limites ecológicos. 2020

Paige L. Stanleya, Jason E. Rowntreea, David K. Beedea, Marcia S. DeLongeb e Michael W. em Impacts of soil carbon sequestration on life cycle greenhouse gas emissions

in Midwestern USA beef finishing systems, no jornal Agricultural Systems, n.162 (249-258). 2018

Savory, A. e Butterfield, J. (1999). Holistic Management: a new framework for decision making. Island Press, CA-EUA.

Steenbock, et al. (2013). Agrofloresta, Ecologia e Sociedade. Kairós Edições

Trainer, T. (2007). Energias Renováveis não podem manter a sociedade de consumo. Tradução livre Eurico Vianna –

https://www.euricovianna.com.br/2018/06/09/as-energias-renovaveis-nao-sao-a-solucao-para-a-sociedade-de-consumo/