A economia do Colapso

Como bactérias que crescem exponencialmente em uma solução de glicose dentro de um tubo de ensaio, o crescimento populacional do modelo de civilização ocidental embasado pelos combustíveis fósseis é um evento com dias contados.

As desigualdades sociais, os processos de desertificação, as mudanças climáticas, o aquecimento global e a sexta maior extinção em massa causados pelos seres humanos que participam do monoteísmo de mercado ocidental, são evidências irrefutáveis do colapso social, econômico e ecológico que estamos vivendo.

A economia convencional, tem como principal indicador de sua ‘saúde’ o crescimento e para medi-lo usa o PIB – definido como a soma das riquezas produzidas ou a quantidade de dinheiro que circula por uma economia em um dado ano.

A destruição ambiental que sustenta essa produção de riquezas é definida como uma “externalidade”, ou seja, como custo que permanece de fora do cálculo econômico. A concentração cada vez maior dessas riquezas nas mãos de um número cada vez menor de pessoas também não faz parte desse cálculo. E essa concentração destrói culturas, usurpa a dignidade, degrada a qualidade de vida e a autonomia da maioria das pessoas envolvidas no processo que mói recursos naturais para gerar riquezas para poucos.

Em nome desse crescimento uma pequena e poderosa classe de pessoas modificou a lógica da alimentação, da saúde, da moradia, do comércio e até mesmo do nosso viver. Esta classe desenhou uma produção industrial de alimentos que nada tem a ver com nutrição, de medicamentos que não promovem saúde e de casas que não propiciam aconchego e autonomia. Essas áreas foram transformadas em plataformas de escoamento dos combustíveis fósseis e criação de dívidas que só favorecem as indústrias do agronegócio, dos alimentos ultraprocessados, das farmacêuticas, da mineração e dos bancos.

Na lógica do crescimento econômico, quanto mais energia tivermos ao nosso dispor e quanto mais essa energia for utilizada para transformar recursos naturais em riquezas, melhor. Melhor para a concentração de renda, poder e território dessa elite, não para os ecossistemas onde vivemos e produzimos nosso alimento; não para a grande maioria das pessoas; não para a pluralidade de ideias e expressões culturais que ainda temos.

Em outras palavras, dentro do paradigma econômico atual, quanto mais energia tivermos a nosso dispor, quanto mais crescimento econômico tivermos, mais rápido caminharemos para o colapso social e econômico e para a extinção em massa. Nesse cenário, a pandemia atual é só um sintoma, uma pequena amostra do que nos espera se continuarmos como cúmplices desse modelo.

O que é mais desolador para quem entende essa relação, para quem sabe que qualquer atividade economia está contida e, portanto, restrita pela biocapacidade dos ecossistemas onde vivemos é que grande parte do campo supostamente progressista do Brasil (e do mundo) ainda insiste no modelo econômico de crescimento, ainda insiste no trabalhismo, na ideia idiota de “emprego pleno”. Não precisamos de emprego, precisamos dominar os meios de produção para viabilizar uma vida baseada na dignidade, no bem-viver humano e em uma economia que esteja atrelada à regeneração dos ecossistemas e culturas já degradados até aqui.

É por acreditar que existem alternativas viáveis e por não querer ser cúmplice deste colapso já em andamento que não vejo muito sentido em investir minha energia pessoal na macro-política, que faço críticas às lideranças pseudo-progressistas e às políticas públicas que não abordam as raízes dos problemas atuais como a pandemia.

Não acho útil apoiar um progressismo já falido, incapaz de trazer alternativas realmente capazes de construir um futuro viável para toda a vida no planeta. Por isso, muitos colegas e contatos dizem que estou polemizando ou que as mudanças que eu proponho são muito utópicas e “não acontecem da noite para o dia”.

Só que a história da humanidade contraria essa crença morosa, fraca de vontade e imaginação. A história é repleta de mudanças rápidas, a grande maioria impulsionadas por guerras, desastres naturais, colapsos regionais e o crescimento econômico, é verdade. Entretanto, estamos em mais um desses momentos nos quais uma virada se faz necessária. Estamos vivendo a sexta maior extinção em massa da história do planeta. É a mais acelerada, a que atinge a maior quantidade de espécies ao mesmo tempo e a única causada por uma única espécie, a humana. Ou abraçamos a possibilidade de mudanças rápidas e radicais por toda a vida no planeta ou aceitamos o protagonismo da extinção em massa para continuar gerando lucros exorbitantes para uns poucos.

À direita, não existe problema moral em usar recursos naturais para gerar lucro, mesmo que cause a extinção em massa.

À esquerda, pelo menos da que se apresenta hoje, não existe problema moral em negociar com corporações um Pacto de Aceleração do Crescimento (PAC) que gere emprego pleno (mesmo que indigno), que crie programas de distribuição de renda mesmo sem reformas estruturais e que apoie a agricultura familiar mesmo sem reforma agrária.

Aplicando um pensamento crítico, ecológico e sistêmico fica evidente que todas as lideranças atuais, à direita e à (pseudo)esquerda, continuam rendendo a humanidade causadora da extinção em massa.

Na urgência da pandemia e no contexto do antropoceno, nossas decisões pessoais e nossas políticas públicas no nível coletivo precisam ser desenvolvidas de acordo com o fato de que nossa estabilidade física e econômica depende completamente e são inseparáveis da saúde dos sistemas ambientais que dão suporte à vida no planeta (Sarah Savory).

O momento exige que entendamos, reconheçamos e exerçamos o poder das soluções pequenas, distribuídas e ligadas em rede. O pacto coletivo do momento deve ser em prol da reforma agrária, do êxodo urbano, da soberania alimentar, da agroecologia e cadeias biorregionais de produção e consumo. Deve ser em prol da Economia Ecológica que preconiza sua viabilidade econômica atuando na restauração dos ecossistemas já degradados, no bem-viver humano, no biorregionalismo e na autonomia e resiliência energética dessas regiões.

Pactos coletivos que não tenham seu foco principal nessas ações, não estarão atuando na raiz do problema (o colapso ecológico causado pela economia de crescimento) e, portanto, são ineficientes para evitar as crises energéticas, sanitárias, ecológicas, sociais e econômicas que já estão a caminho.

Nota: Esse texto faz parte de uma série de textos que embasam meu próximo curso sobre a Economia da Dádiva como forma de preparo para o colapso. Use o @eurico_vianna para acompanhar meus textos, redes sociais e vídeos no YouTube.