A dissonância cognitiva dos filhos do agronegócio e quem realmente alimenta o Brasil

Na segunda-feira (dia 27/09/2021) o jornalista Fábio Pannunzio afirmou no Jornal Despertador, de seu próprio canal TV Democracia, no YouTube, que a permacultura, uma ciência do desenho ecológico, e a produção de alimentos orgânicos gastam três vezes mais terra do que a produção industrial, que tais abordagens não passam de “discurso bonitinho” e que só seriam capazes de alimentar em torno de 30 mil pessoas no planeta. O texto que segue é uma contribuição no sentido de desmentir tais absurdos e nesse intuito traz referências acadêmicas e argumentos apoiando a posição contrária a do jornalista Fábio Pannunzio.

Depois de lamentar os prejuízos trazidos pelas queimadas e apresentar grande parte de suas tendências cognitivas a favor do agronegócio e do uso dos pivôs centrais que hoje gastam em torno de 80% dos recursos hídricos do país em uma reportagem gravada na fazenda de sua mãe, Pannunzio destilou autoritarismo e ignorância ao impedir o colega Eumano Silva de expor sua opinião. Eumano começava a defender modelos alternativos de planejamento rural e agricultura como a Permacultura e os sistemas agroflorestais sucessionais, mas foi impedido de seguir argumentando. Ao pedir desculpas, Fábio disse: “Pode colocar sua opinião, mas vou confrontar você, te aviso, porque seu argumento está errado…” e seguiu:

“A informação técnica é a seguinte: permacultura, produção de orgânicos gasta três vezes mais terra, mais área agricultável do que a produção industrial. Essa é a realidade! Se todo mundo passasse a consumir alimentação orgânica 2/3 da população da Terra passariam fome porque a área agricultável não existe. E outra coisa, o dano ambiental seria gigante porque você precisaria desmatar praticamente toda a Amazônia para produzir a mesma quantidade de comida. Então, tem um discurso muito bonitinho… vegano, orgânico, e o escambal… isso serve para 30 mil pessoas, não serve para 7 bilhões. Essa é a posição correta… e aí não tem discussão porque esses dados são dados da própria ONU. Não tem o que fazer. E com toda essa produção industrial tão mal vista, ainda tem 1 bilhão de pessoas passando fome no planeta” (Fábio Pannunzio no Jornal Despertador, dia 27/09/2021, grifo meu).

As afirmações e atitudes do Fábio Pannunzio escancaram desinformações, mentiras, incoerências e seu viés de confirmação pró-agronegócio. Atitudes que persistiram durante as edições seguintes do programa.

Para além da incoerência de termos o criador da TV Democracia usando de grosserias e autoritarismo para silenciar a opinião de um jornalista que ele mesmo convidou para o programa, temos o uso incorreto das fontes e dos dados compartilhados. Segundo o Fábio, são relatórios da ONU que afirmam que a agricultura orgânica precisaria de mais espaço para produzir alimentos, muito embora ele não tenha compartilhado essas fontes. Fica evidende que o jornalismo do Fábio funciona só até que a matéria não critique o modelo de produção da fazenda da própria mãe, uma incoerência enorme.

À partir desse ponto, fica claro o viés de confirmação pró-agro mesmo que em sua retórica Fábio se posicione como pessoa que se importa com o colapso ecológico que estamos vivendo. Fábio não é capaz de admitir que o modelo de produção de sua família é parte do problema, não é capaz de ouvir um colega sobre as alternativas possíveis. A arrogância, a incapacidade de admitir que outras pessoas chegaram a princípios e práticas mais socialmente justas, ecologicamente regenerativas e economicamente viáveis impede o avanço das mudanças que precisamos realizar urgentemente!

As grosserias do Fábio deixaram claro que a dificuldade dele é ouvir que existem alternativas muito mais viáveis do que o modelo do agronegócio incorporado na fazenda da própria mãe. E Pannunzio é apenas um entre tantos que reconhecem que precisamos mudar, mas não se o custo da mudança questionar o modelo econômico atual e a viabilidade da familia com a agricultura industrial. É muita dissonância cognitiva!

O agronegócio não produz alimento, produz commodities para especulação no mercado financeiro às custas de muito subsídio hídrico, energético e econômico. Esse modelo, que transforma a agricultura em plataforma de escoamento para petroquímicos, também está intimamente ligado com a indústria dos ultraprocessados que causa a obesidade, diabetes tipo 2 e várias doenças crônicas que associadas com o coronavírus tem causado praticamente 80% das mortes durante a pandemia. E neste contexto, as declarações de Pannunzio, além de incoerentes e mal-educadas, são um desserviço! Mais ainda, são classistas porque defendem que o que temos disponível para a população pobre é o alimento industrial.

A agricultura industrial é uma das maiores causadoras dos processos de desertificação e mudanças climáticas que degradam severamente a natureza. Entretanto ela também está entre os setores que mais vão sofrer as consequências desses processos degradantes.

Dois esclarecimentos se fazem necessários. A Permacultura é uma ciência do desenho ecológico que combina estratégias energeticamente eficientes e socialmente justas para o manejo ecológico da água e dos efluentes, da produção alimentar (usando várias práticas e a integração animal), para a produção energética, para a construção de moradias e para a elaboração de políticas públicas e sistemas econômicos. A produção orgânica, na minha análise, já foi cooptada pelo modelo econômico vigente e portanto, não serve mais como direcionadora do movimento regenerativo. Nesse sentido trago aqui referências e argumentos pela agroecologia e a agrofloresta sucessional. Vamos aos fatos, cientificamente referenciados, para desfazer o desserviço do Fábio e sua linha editorial pró-agro.

“Qual modelo é mais necessário para a sociedade brasileira?”. O gráfico pode ser encontrado em uma publicação da Escola Milton Santos de Agroecologia de outubro de 2013.

A origem dos movimentos de conservação do solo no mundo todo vem das tempestades de poeira da década de 30 do século passado. Desde então, os cientistas sabem que a origem dessas tempestades é o hábito de cultivar (arar) o solo e produzir alimentos em sistemas monoculturais com solo exposto, ou seja, o modelo industrial de produção.

Sobre este modelo industrial de produção, a economista Maria-Helena Semedo, Diretora Adjunta da Organização de Alimentação e Agricultura (FAO) da ONU, declarou no forum do Dia Mundial do Solo em 2014 que se prosseguíssemos com o modelo industrial de agricultura teriamos apenas 60 anos restantes de colheitas até o colapso completo do solo nas áreas agricultáveis.

Miguel Altieri, doutor em agronomia, cientista prolífico e professor da Universidade da California explica que:

O desafio imediato que a agricultura sofre é como aumentar a produção alimentar para dar conta da população que cresce enquanto regeneramos os ecossistemas que já degradamos até o momento presente. Essa virada precisa ser feita usando a mesma quantidade de terra, menos petróleo, menos água e menos nitrogênio em um cenário regido pelo aquecimento global, conturbações sociais e crise financeira. A situação atual de falta de acesso ao alimento produzido, perda de diversidade biológica, erosão do solo superior e as doenças causadas pelo uso de agrotóxicos e alimentos geneticamente modificados, por exemplo, mostram claramente que esse desafio não pode ser vencido pelo modelo de produção do agronegócio (Altieri, 2015)”.

Durante o programa de segunda-feira e nos subsequentes, Fábio constantemente argumenta à favor do modelo industrial por sua eficiência e uso da tecnologia inovadora. A dissonância cognitiva do Fábio faz ele separar o modelo de produção da agricultura industrial do modelo econômico, como se o primeiro não fosse consequência dos valores do segundo. Fábio diz que o agricultor produz, mas o sistema não é competente na entrega, mas ele não qualifica esse ‘agricultor’ e segue empurrando a culpa para outro setor, afinal, a fazenda da mãe não pode ser parte do problema. Mas Altieri, de novo, explica melhor o que Fábio faz questão de não ver:

“A razão pela qual a fome no mundo continua crescendo não é porque não produzimos alimento o suficiente. O problema é o acesso à comida e a desigualdade social e econômica. Nos Estados Unidos e na Europa cada pessoa joga fora em média 115kg de comida por ano, enquanto aproximadamente 2/3 da população mundial em países em desenvolvimento ainda vive na pobreza, ganha menos de $3 dólares por dia e não consegue comprar alimento suficiente para sobreviver. A razão verdadeira porque temos fome no mundo é porque a agricultura é controlada por corporações. E essas corporações controlam o que (e como) os produtores devem produzir e o que os consumidores podem consumir (Altieri, 2015)”.

Os argumentos de Fábio pela eficiência também não se sustentam quando vemos os dados das pesquisas de Altieri sobre a produção primária global. Segundo Altieri, além da produção de alimento pelo agronegócio só alimentar 30% da população mundial, ela usa de 70 a 80% das terras aráveis, 70% da água e 80% dos combustíveis fósseis usados na agricultura (2015). Agravando ainda mais a situação, segundo dados da FAO, a erosão causada pelo agronegócio perde em torno de 12 a 15 toneladas de solo por hectare por ano! Ou seja, o modelo do agronegócio, produz mais solo erodido que aliementos por hectare ano.

Os pequenos produtores rurais ao redor do mundo, em comparação com o agronegócio, produzem de 50 a 75% da comida que alimenta a população mundial usando apenas de 25 a 30% da terra arável, 30% da água e 20% dos combustíveis fósseis usados na agricultura (Altieri, 2015; Tittonell, 2014). O que é mais importante, os pequenos produtores rurais que fazem uso de métodos regenerativos como a agroecologia, por exemplo, são 20 vezes mais energeticamente eficientes do que o agronegócio e os grandes latifúndios. Enquanto o método mais eficiente do agronegócio tem que investir 1kcal para produzir 1.5kcal, um pequeno produtor rural investe 1kcal para produzir 30kcal de alimento por hectare. Outra informação importante é que enquanto produz grãos, tubérculos, frutas, castanhas, etc. o pequeno produtor rural ainda consegue fornecer proteína animal suficiente para alimentar 34 pessoas por ano por hectare (Altieri, 2015).

No Brasil temos dados ainda mais convincentes sobre métodos de produção da agricultura familiar e os que levam em conta a ecologia florestal. O Dr. Walter Steenbock, autor de vários outros livros e artigos científicos, compila uma série de dados reveladores em sua última obra, A Arte de Guardar o Sol. Dados do Atlas do Agronegócio citados no livro revelam que: 453 milhões de hectares do Brasil estão em uso privado e 45% das propriedades com mais de 1000 hectares compoem apenas 1% dos imóveis rurais. O livro de Steenbock traz ainda, por meio de dados do Censo Agropecuário de 2006 que: a agricultura familiar, com apenas de 10 a 15% do crédito rural e apenas 24% da área produtiva total, produz 70% dos alimentos e emprega 70% da mão de obra (Steenbock, 2021).

O que os dados sobre a agroecologia e as agroflorestas revelam no Brasil e no mundo é que o agronegócio não é sustentável nas dimensões social, ecológica e nem econômica. Ter 20% do território de uma fazenda do agronegócio, em reservas legais (normalmente onde as máquinas não conseguem operar) não compensa uma agricultura industrial que cria desemprego no campo, desmata, desperdiça e contamina a água e erode o solo para implementar monoculturas (frequentemente trasngênicas) em 80% do território que ocupa.

Precisamos ter coragem de admitir que nosso modelo econômico atual e a produção industrial de alimentos são responsáveis pelo colapso ecológico que estamos vivendo. Precisamos ter coragem para parar de usar desculpas como ‘a transição leva tempo’, ‘isso é maniqueismo’ ou ‘não podemos ser tão radicais’! Até porque essa retórica só favorece um grupo minúsculo de privilegiados enquanto lança toda a vida no planeta para extinção em massa.

Sobre a velocidade com que conseguimos mudar quando necessário, dois episódios ilustram bem o que é culturalmente e tecnologicamente possível. Ao final da Segunda Guerra Mundial os americanos já haviam implantado 20 milhões de Hortas da Vitória (Victory Gardens) que supriam 40% de todas as hortaliças e tubérculos que alimentavam o país à época. Isso levou menos de 5 anos! Durante a Guerra Fria, depois de saber que os soviéticos haviam enviado uma espaçonave não tripulada para a Lua, os americanos levaram apenas 10 anos para levar uma espaçonave tripulada! David Suzuki, o ecologista e autor canadense, narra o esforço científico e econômico coletivo necessário para conseguir esse feito para nos mostrar que com a mentalidade certa somos capazes, sim, de grandes mudanças rapidamente. Como temos meros 5% de chance de reverter as mudanças climáticas em tempo de evitar uma hecatombe, ele reforça construir essa mentalidade é uma questão de vida ou morte, literalmente.

É com essa mentalidade e velocidade que precisamos implementar a reforma agrária agroecológica, alcançar a soberania alimentar que garante a alimentação saudável para todos e a biorregionalização das cadeias de produção e consumo. Do contrário, estaremos assinando a cumplicidade com a extinção em massa.

Todas as áreas produtivas devem passar por essas transições rapidamente até que sejam 100% regenerativas no social (trazendo justiça e dignidade para as pessoas do campo), no ecológico (produzindo com princípios e práticas que melhoram os processos ecossistêmicos) e no econômico (trazendo equanimidade para todas as pessoas). Como diz Muhammad Yunus, prêmio Nobel de Economia, se quisermos escapar a extinção em massa que estamos causando, precisamos de Um Mundo com 3 Zeros – zero emissões de gases de efeito estufa, zero desemprego com todos sendo empreendedores em suas vocações e zero concentração de renda.

Nota 1: É importante dizer que o plantio direto em palhada, apresentado por Pannunzio como uma prática “sustentável”, é evidentemente melhor que o plantio com solo exposto, mas não é capaz de substituir a biodiversidade e os serviços ecológicos prestados pela vegetação nativa do cerrado ou das florestas Atlânticas ou Amazônicas.

Nota 2: Não recomendo assistirem tamanha grosseria e autoritarismo vindos de um jornalista que se diz democrata, mas deixo o link para o programa junto com as referências para quem quiser conferir.

Nota 3: A lista de referências com economistas, agronomos, cientistas climáticos, ecologistas é muito mais extensa do que o que apresento aqui. Na verdade, o que a ciência idonea traz é que o modelo industrial de produção de alimentos é um risco para a humanidade e o planeta. A única ‘ciência’ que discorda dessa premissa é a produzida pelas corporações dos petroquímicos, transgênicos e maquinário industrial, mas para o escopo de uma resposta informativa e transparente aos desserviços de Fábio Pannunzio os links ao longo do texto, as referências citadas e as deixadas como sugestão de leitura abaixo representam os argumentos centrais com bastante propriedade.

Referencias:

ALTIERI, M. A. (2015). Agroecology: Who will feed us in a planet in crisis. Paper presented at the Earth Talk. https://www.youtube.com/watch?v=LKfiabQ-j0E

ALTIERI, M. Agroecologia: bases científicas para uma agricultura sustentável. 3 ed. São Paulo: Expressão Popular; Rio de Janeiro: AS-PTA, 2012. 400 p.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo Agropecuário 2006: agricultura familiar, primeiros resultados. Brasil, Grandes Regiões e Unidades da Federação. Rio de Janeiro: IBGE; 2006

FAO – Food and Agriculture Organization of the United Nations. State of knowledge of soil biodiversity: satus, challenges and potentialities. Rome, FAO, 2020

GLIESSMAN, S. R. Agroecologia: processos ecológicos em agricultura sustentável. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2000

Jornal Despertador, TV Democracia, dia 27/09/2021 – https://www.youtube.com/watch?v=KLcCbMhlidU&t=3814s

SANTOS, M.; GLASS, V. (orgs). Atlas do agronegócio: fatos e números sobre as corporações que controlam o que comemos. Rio de Janeiro: Fundação Heinrich Böll, 2018

STEENBOCK, W. A arte de guardar o sol: padrões da natureza na reconexão entre florestas, cultivos e gentes. Rio de Janeiro, Bambual Editora, 2021.

Soil Erosion: the greatest challenge for sustainable soil management – http://www.fao.org/3/ca4395en/ca4395en.pdf

TITTONELL, P. (2014). Feeding the world with Agroecology Paper presented at the TEDx Ede https://www.youtube.com/watch?v=iKtrwdsvIko