Proteção Contra Queimadas – Entendendo e projetando para proteção contra queimadas

Nota de Introdução do tradutor: As queimadas gravíssimas que atingiram grande parte do planeta em 2019 revelam a inconstância e os extremos climáticos como o novo padrão. Não se passaram ainda 12 meses e a expansão do agronegócio e suas práticas reducionistas e dissociadas dos fundamentos ecológicos já ateou fogo no Brasil mais uma vez. Essas queimadas revelam a necessidade urgentíssima de projetarmos propriedades rurais mais resilientes contra as secas, as enchentes e as queimadas.

Felizmente pessoas muito competentes no mundo inteiro tem feito um esforço coletivo para disponibilizar alternativas de desenho, estratégias e práticas que podem ajudar muito. Grande parte dos entraves que podem dificultar a adoção desse conjunto de soluções, no entanto, são de ordem cultural e burocrática.

As culturais tem a ver com políticas ambientais arcaicas que partem do princípio que toda intervenção humana na natureza e que todo uso de sistemas com animais integrados são aspectos negativos. Esse paradigma também tem a ver com a crença que assume que ‘desastres sempre ocorreram e vão continuar a acontecer no futuro e não há nada que se possa fazer, faz parte do ofício do produtor rural’.

Esse trabalho de tradução nasceu com o intuito de auxiliar clientes e familiares na tarefa de re-projetar suas propriedades e dialogar com os departamentos ambientais por melhores políticas de prevenção e combate às queimadas. Alguns trechos já foram compartilhados em relatórios de consultorias feitas na Chapada Diamantina e estão norteando a elaboração de planos de manejo individuais nesta região.

O que segue abaixo é uma uma tradução livre e resumida preparada por mim (Eurico Vianna, PhD) da sessão 3.56 – Proteção Contra Queimadas: Entendendo e projetando contra queimadas, do Capítulo 3 (Água), do Regrarians Handbook (2019). O livro foi escrito pelo planejador de propriedades rurais Darren J. Doherty, Georgi Pavlov e o ilustrador Andrew Jeeves. Nas referências eu também inclui recursos relacionados ao tema que foram disponibilizados por Doherty em um artigo chamado Recursos para Antes da Queimada (#BeforeTheFire Resources).

Mantenho aqui a organização original do texto seguindo a ordem da Escala de Permanência da Linha Chave. Uso as reticências “…” para indicar trechos não traduzidos. Na medida do possível complementarei as traduções dos trechos de texto e tabelas que não foram incluídos nessa primeira publicação. Se possível e com autorização do Darren, publicarei também as ilustrações originais.

Proteção Contra Queimadas: Entendendo e projetando contra queimadas

ENTENDER AS DINÂMICAS DAS QUEIMADAS

#1.Clima – As regulamentações federais e estaduais que regem os recursos naturais (especialmente os hídricos) podem ser um empecilho para algumas das ações propostas. Como elas são difíceis de serem alteradas e podem limitar o que pode ser feito em determinada propriedade elas se encaixam na camada 1#Clima (no “Clima da Mente”).

Aptidão psicológica, física, prática e Contexto Holístico

O preparo prático e físico deve ser visto em conjunto com o psicológico porque eles se reforçam. Recomendo o desenvolvimento e análise de um Contexto Holístico  para melhor determinar quem são os Tomadores de Decisão, qual é a base de recursos disponíveis, qual a qualidade de vida determinada, ações e comportamentos, quais os indicadores de sucesso, qual é o elo fraco em um dado momento e quais são os passos específicos de gerenciamento da propriedade ou empreendimento (Regrarians Handbook, 2015. pp.258-271).

Histórico Climático

É muito importante pesquisarmos os padrões climáticos e das últimas queimadas pelos últimos 100 anos. Esses padrões (e.g. de quanto em quanto tempo acontecem as queimadas) pode informar decisões estratégicas com mais eficiência que a utilização de dados isolados como precipitação, temperatura, velocidade dos ventos, etc. isoladamente. (Regrarians Handbook, 2015. pp.258-271).

#2.Geografia

A topografia influencia fortemente a direção, velocidade dos ventos e distribuição da matéria combustível, portanto, tendo efeito direto no comportamento das queimadas.

  • Inclinação –  a intensidade e velocidade do fogo aumentam morro acima. Nessas condições o calor irradiado viaja na frente pré-aquecendo e secando matéria orgânica inflamável de antemão. Para cada 10° de inclinação morro acima o fogo dobra de velocidade e para cada 10° de inclinação morro abaixo ele perde metade da velocidade.
  • Orientação – os morros com aspecto solar para o Norte tem maior risco de serem atingidos por queimadas.

Alguns exemplos de preparo comunitário contra queimadas pode incluir:

  • Redução preventiva de matéria orgânica inflamável, especialmente nos setores de maior risco de queimada.
    • [Estratégias propostas/coletadas por mim, Eurico, na Chapada Diamantina] 1- Uma estratégia seria a proposta pelo Nagoy Sol, ativista socioambiental em Rio de Contas, na Chapada Diamantina: fazer mutirões organizados ou abrir as propriedades para a coleta de madeira para as festas juninas. Um problema é que essa estratégia não resolve a questão da matéria orgânica seca nas plantas gramíneas e arbustivas; 2 – Outra estratégia válida a se considerar, talvez usada depois da descrita acima, seria a utilização de ‘fogo frio’ quando e onde apropriado e antes da estação seca.
  • Criação e participação de uma brigada voluntária. Caso já exista uma, aconselho o compartilhamento dessas propostas e o subsequente treinamento/adaptação de todos os envolvidos;
  • Criação de um sistema de mensagens, se possível com um número central alternativo para tornar a comunicação local mais eficiente em emergências;
  • Criação de planos de emergência individuais e biorregionais com pontos de decisão claros para ação ou evacuação;
  • Monitoramento constante dos riscos de queimada;
  • Encorajar a interação e cooperação entre os vários órgãos regionais e federais durante emergências. (Regrarians Handbook, 2015. pp.258-271)

#3.Água

Como vimos no curso após fazer alguns estudos de caso para o dimensionamento de captação de água de chuva, a Chapada Diamantina não tem um problema de escassez de água, mas sim de práticas que façam uso da água disponível. É necessária uma análise geotécnica de solo para a analisar a possibilidade de se construir uma açude na parte mais alta.

O Desenho

  • Usar preferencialmente sistemas com pressão por gravidade para irrigação e combate ao fogo, uma vez que são muito mais seguros que as bombas;
  • É melhor que o sistema de proteção contra queimadas também integre o sistema de irrigação;
  • Todo encanamento deve ser enterrado. Nos locais onde não é possível enterrar é necessário então cobrir o encanamento com uma boa camada de telha e cimento. Qualquer encanamento acima do solo, como torneiras e pontos de acesso devem ser aço galvanizado.

Açudes (Barragens)

  • Sempre que possível açudes devem ser construídos para servir de barreira contra queimadas no setor de risco, prover irrigação por gravidade e servir de fonte de água a ser bombeada para uma cisterna mais alta;
  • Os açudes devem armazenar água suficiente para prevenção e combate ao fogo (entre 20 e 50 mil litros por hectare durante a estação das queimadas);
  • Sempre que possível, tanto quanto a topografia e outros fatores permitam, os açudes devem ser projetados de forma a serem facilmente acessados pela brigada de incêndio. (Regrarians Handbook, 2015. Pp.258-271. Tradução livre Eurico Vianna, PhD).

Cisternas

Ao contrário da propaganda e crença popular, nenhuma cisterna é completamente à prova de fogo, entretanto as cisternas de ferrocimento ou metal oferecem melhores opções resistentes às queimadas que outros materiais. Exposição às queimadas ’empretece’ os tanques de aço inox, mas dependendo da quantidade de água na cisterna e da intensidade da queimada as exposições prolongadas à temperaturas extremas eventualmente destruirá qualquer junta soldada. Cisternas de plástico pode pegar fogo quando expostas as chamas constantes, como é o caso das queimadas. Contrariamente ao que é atestado por alguns fabricantes, as cisternas de metal com revestimento interno de plástico são sensíveis a temperaturas altas. Em uma queimada intensa o revestimento interno se descolará tornando a cisterna inútil. Durante a pesquisa Impacto das Queimadas da Austrália (Australian Fire Impact no original) conduzida pelo Departamento de Ecossistemas Sustentáveis do CSIRO (Organização de Ciência e Pesquisa Industrial da Commonwealth em português) as cisternas de aço inox cilíndricas (Zincalume) se comportaram melhor que as cisternas Aquaplate (circulares achatadas), com seu revestimento interno derretendo a 200°C. Os tanques de fibra de vidro falharam completamente.

  • As cisternas devem ser posicionadas perto da casa, mas não no setor de risco de queimadas;
  • As cisternas destinadas para o combate ao fogo devem ser de metal ou ferro-cimento e, de preferência, posicionadas acima do solo;
  • Cisternas de material plástico devem ser enterradas;
  • As cisternas devem prover armazenamento de água suficiente para o combate ao fogo durante a estação de risco (ver tabela abaixo). Na prática, provavelmente todas as fontes de água serão utilizadas em uma situação de emergência.
  • Na impossibilidade de construir açudes, o dimensionamento das cisternas destinadas a combater queimadas devem chegar o mais perto possível da capacidade recomendada dos açudes (entre 20 e 50 mil litros por hectare durante a estação das queimadas);
  • Cisternas dedicadas ao combate às queimadas precisam ser facilmente identificadas à partir da estrada pública, incluindo placas de sinalização na entrada da propriedade, ser de fácil acesso pela entrada, que deve ser de 4 metros de largura e se estende até 4 metros à partir da cisterna;
  • A base das cisternas pode precisar de reforços contra colapso [em queimadas];
  • Todos as cisternas devem ter encaixes de engate rápido (Storz 65mm) e todas as válvulas, canos e encaixes devem ser de metal;
  • Cisternas subterrâneas devem permitir que caminhões pipa reabasteçam direto delas com uma abertura maior que 200mm;
  • Cisternas expostas aos setores com alto risco de queimada devem ser projetadas com escudos térmicos contra calor e contato direto com labaredas. (Regrarians Handbook, 2015. Pp.258-271. Tradução livre Eurico Vianna, PhD)

Valas de Infiltração e Sistemas de tratamento alternativo (WET Systems)

  • Quando utilizados com plantas resistentes ao fogo, swales podem funcionar como barreiras ao fogo;
  • Em áreas áridas ou semiáridas os swales podem, até certo ponto, reumidificar o solo diminuindo o risco de queimadas;
  • Os swales também devem ser projetados de forma a funcionar como acesso para motos ou pessoas até açudes, estradas públicas ou trilhas de fuga de emergência;
  • WET Systems podem ser implantados nos setores de maior risco de fogo.

É sempre importante presumir que sistemas elétricos, bombas e aspersores podem falhar quando mais precisamos deles. Com essa atitude garantimos o desenho de sistemas redundantes e alternativos (quase sempre por gravidade).

Nota do tradutor:

Em 2019 eu contactei o Darren informando que estava trabalhando nessa tradução. Na ocasião ele me pediu que não publicasse trechos e pela falta de tempo a tradução integral foi sendo postergada.

Dado o contexto atual do Brasil, com grande parte de seus biomas mais uma vez ardendo em chamas, eu resolvi publicar a tradução como ela está e, na medida do possível, me comprometendo a disponibilizar o texto na íntegra. Ainda faltam trechos abordando as camadas:
#4.Acesso,
– #5.Sistemas Florestais,
– #6.Edificações,
– #7.Cercas e Subdivisões e
#8.Solo

O próximo curso online de introdução ao planejamento de propriedades rurais com base na Escala de Permanência começa do dia 13 de Outubro.

O objetivo principal do curso é harmonizar as vocações das pessoas, a maneira como querem viver e se expressar com as aptidões do terreno. É criar resiliência ecológica e hídrica para os sistemas de produção que, por sua vez, trarão a viabilidade econômica.

Outra missão importante é fazer com que cada participante saia com uma visão integral da propriedade. É criar um roteiro de implementação de intervenções realistas que respeitem a saúde e qualidade de vida de todos. Tudo dentro de uma ordem de prioridade na execução de forma que as pessoas, o ecossistema e a economia estejam cada vez mais saudáveis.

Link para o evento no FaceBook aqui.

Link para o formuário de inscrições aqui.

Curadoria de notícias Impacto Positivo – 11/09/20

A curadoria das notícias que circularam em nossas redes essa semana cobrem desde a alta do Cacique Raoni, passa pelo questionamento da validade dos títulos verdes e volta ao documentário Ser Tão Velho Cerrado que denuncia como o agronegócio tem degradado o berço das águas de várias bacias hidrográficas no país e aponta as soluções realmente ecológica e economicamente viáveis para essa região.

Nota: Curadoria feita por Vitor Signori, Felipe Maia e Eurico Vianna. 

Começamos a semana com a ótima notícia compartilhada por Horacio Luz da recuperação e alta hospitalar do líder indígena cacique Raoni, um sopro de esperança em meio a tanto caos. Segue o link:

https://twitter.com/InstitutoRaoni/status/1301929535772987394?s=20

No começo da semana tivemos uma conversa muito boa sobre os prós e contras do veganismo e onivorismo ético. O senso comum foi de que precisamos focar a energia naquilo que nos une que é a regeneração sócio ambiental do planeta. Segue um vídeo bem bacana do movimento Slow Food e o Bem Estar Animal compartilhado pela Marcia Silva. Veganos e onívoros éticos seguindo unidos pela restauração. Segue o link:

Joyce Lemos compartilha o Podcast do Boletim do Fim do Mundo com Bruno Torturra, uma conversa com o ex-diretor de proteção ambiental do IBAMA, Luciano de Meneses Evaristo, que foi exonerado por Bolsonaro. Luciano é um dos responsáveis pelos anos de fortalecimento do Instituto e queda recorde no desmatamento. Ele dá um panorama sobre a situação dos fiscais ambientais no Brasil de hoje. Crime organizado na floresta, garimpo ilegal, a perspectiva do chão da floresta e como o órgão mais importante de fiscalização ambiental do país está ruindo.

Um outro debate que rolou em nossas redes foi em volta da notícia da primeira emissão certificada de título verde para um agricultor no mundo. O Eurico Vianna comentou que o grande desafio para essa tendência, uma vez que ela vem da lógica do mercado de especulação financeira, além de ter métricas verdadeiramente regenerativas para os ecossistema onde funcionam, é restaurar a saúde e qualidade de vida das pessoas no campo e o acesso à terra. Segundo o Eurico, pouco adianta criarmos um mercado de comódites orgânico que nada faz pela agricultura familiar e que continua concentrando terra e renda. Segue o link:

https://ciorganicos.com.br/biblioteca/rizoma-e-grupo-ecoagro-realizam-primeira-emissao-certificada-de-titulo-verde-do-mundo/

Vilmar Lermem compartilhou o documentário Ser Tão Velho Cerrado, apesar de se tratar de um documentário de 2018, infelizmente o assunto é muito atual, pois aborda como o agronegócio tem desmatado o Cerrado, o segundo bioma mais biodiverso do Brasil para produzir grãos para exportação. O documentário também mostra a importância do cerrado na composição das bacias hidrográficas brasileiras. Apesar de chocante pelos fatos, o documentário mostra o ecoturismo e a bioeconomia como saídas economicamente viáveis para preservação desse bioma:

Gabriela Toledo compartilhou a notícia do Movimento dos Pequenos Agricultores divulgando o Curso Nacional com Sebastião Pinheiro: AGROECOLOGIA E BIOPODER CAMPONÊS. O objetivo do seminário é desenvolver a capacidade de agricultores(as) e camponeses(as) como criadores(as) de biopoder para a produção de alimentos, a partir da agroecologia. Há uma emergência e todos somos como células em um corpo mundial sincronizado, ativo como nunca no mundo, exposto às ações fascistas da eugenia exploratória, devastadora e branca. Segue o link:

https://mpabrasil.org.br/noticias/mpa-convida-para-o-curso-nacional-com-sebastiao-pinheiro-agroecologia-e-biopoder-campones/

Nosso querido Felipe Maia compartilhou o link para Sete vídeo-aulas sobre pensadores negros e suas obras, O pensamento social brasileiro deve muito às obras de grandes autores negros e negras. No entanto, a produção de intelectuais afrodescendentes não é tema recorrente de destaque. Fica a dica:

https://almapreta.com/editorias/realidade/sete-video-aulas-sobre-pensadores-negros-e-suas-obras

David e Tatiana Peebles, pai e filha que tocam juntos o Yaguara Ecológico, um verdadeiro atelier de gastronomia, produção rural e restauração ecológica estarão com a gente no #podcastimpactopositivo nesse domingo, dia 13/09 as 19h. Eles preservam, cultivam e criam alimentos regidos pelo ritmo da natureza. São artesãos da ecogastronomia e tem um sentimento de pertença e conexão especial com chão que pisam em Taquaritinga, PE. Eurico vai aproveitar a oportunidade para lançar a edição de Outubro do Curso de Introdução ao Planejamento de Propriedades Rurais. Segue o link para o podcast com a família do Yaguara Ecológico esse domingo:

https://www.youtube.com/channel/UC8q65PXvwIoURL272bymW-A

O objetivo principal do curso é harmonizar as vocações das pessoas, a maneira como querem viver e se expressar com as aptidões do agro-ecossistema onde vivem. É criar resiliência ecológica e hídrica para os sistemas de produção que, por sua vez, trarão a viabilidade econômica. Compartilhamos aqui também o link para o formulário de inscrição:

https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSdtcBRbKos-OFyCJvuNQrm_iPM4VwWrnafnAHXVInma0o_viQ/viewform

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Mudança boa se faz em boa companhia!

Como funciona o controle de danos do agronegócio

A questão do uso dos agrotóxicos no Brasil não é polêmica, é econômica e gira na casa dos bilhões! Só em isenção para as corporações que vendem agrotóxicos o Brasil deixa de arrecadar anualmente 10 bilhões em impostos. “Esse pacote de isenções, revelado por um esforço de pesquisa da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e pelos pesquisadores da Fiocruz e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro passou a ser chamado “bolsa-agrotóxico“!

Mas isso é só no Brasil e só em isenções fiscais. No mundo as 10 maiores empresas que produzem agrotóxicos lucram 39.62 bilhões por ano com a agricultura da morte.

O agronegócio diz que é preciso subsidiar a indústria do veneno porque sem ela não seria possível produzir alimentos acessíveis. Mentira! O agronegócio produz mais comódites em grãos e produtos transgênicos que alimento. Na verdade sairia muito mais barato taxar apropriadamente essa indústria da morte e subsidiar a produção de alimentos saudáveis para a população por meio da agricultura familiar, que já produz em torno de 70% do alimento usando apenas 20% das terras aráveis e 30% da água usada na agricultura.

Um estudo publicado na revista Saúde Pública revela que para cada US$ 1 gasto com a compra de agrotóxicos no Paraná, são gastos U$$ 1,28 no SUS com tratamento de intoxicações agudas — aquelas que ocorrem imediatamente após a aplicação.

Agravando ainda mais os custos que essas empresas empurram para a sociedade, estudos científicos sérios apontam que os casos crônicos de doenças como o câncer causadas pelo uso de agrotóxicos no Brasil são subnotificados. A realidade é que para cada caso notificado existem 50 que passam despercebidos ou são deliberadamente escondidos por essa indústria bilionária (PIRES, D.; CALDAS, E.; RECENA, M.C., 2005)! Isso implica que entre 2007 e 2014, mais de um milhão de brasileiros foram intoxicados por agrotóxicos. Em 2015 o governo deixou de publicar os casos de intoxicação por agrotóxicos o que dificulta muito a continuação das pesquisas.

Esses e outros dados alarmantes estão disponíveis no livro Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Européia, da Dra Larissa Bombardi, uma adaptação da tese de pós doutoramento da autora publicada pela USP.

Mas existem também os custos ambientais, que também são empurrados para a sociedade por essas corporações dos agroquímicos. O Fórum Econômico mundial estima que a pandemia atual custará entre 8.1 a  15.8 TRILHÕES de dólares para a população mundial e o consenso científico é de que quanto maior as taxas de desmatamento, quanto mais centralizada a produção, maior o risco de novas pandemias.

Ilustração mostrando como o desmatramento aumenta as chances de termos novas pandemias

Essas corporações bilionárias investem milhões anualmente em propaganda para impedir a disseminação de conhecimento sobre os custos reais de suas ações na saúde, na sociedade e no meio ambiente.

Essa estratégia de marketing é chamada ‘controle de danos’. Nesse momento, a estratégia do governo Bolsonaro no Brasil, por exemplo, é relativizar e questionar os estudos científicos que apontam o impacto negativo do agronegócio no meio ambiente e na saúde, não com pesquisas de igual rigor científico, mas com campanhas propagando falsas informações.

O ‘controle de danos’ visa mitigar danos causados à credibilidade, reputação ou imagem pública dessas empresas de agroquímicos, e consequentemente aos seus lucros. Isso porque as consequências genocidas do uso desses produtos está se tornando uma unanimidade científica que tem informado a população em geral.

O Brasil permite 5000 vezes mais glifosato na água potável que países desenvolvidos – em Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia.

Só no Brasil, essa “bolsa-agrotóxico” inclui investimentos públicos milionários em gigantes transnacionais do setor agroquímico. Um levantamento feito pela Repórter Brasil e a Agência Pública mostra que, nos últimos 14 anos, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) emprestou R$ 358,3 milhões a empresas agroquímicas (com juros subsidiados pelo governo) e a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), agência do governo que financia inovação em empresas, transferiu R$ 390 milhões a grandes produtores de pesticidas para pesquisa e inovação. Esses são os valores que bancam a pseudociência em muitas das faculdades de agronomia, engenharia florestal, zootecnia e veterinária no Brasil.

Essa é a estratégia usada pelo agronegócio no Brasil. Vídeos, artigos e memes tem circulado a internet e as mídias sociais, relativizando o impacto ambiental negativo e a gravidade da intoxicação direta e indireta causada pelo uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos nas lavouras e pecuária no Brasil.

Dentro da estratégia de ‘controle de danos’ essa abordagem é chamada de re-enquadramento. Ela consiste na mudança sutil do foco, do enquadramento, tirando do centro do debate a questão dos malefícios causados por esse modelo industrial de produção e fazendo com que as pessoas pensem a discutir, por exemplo, que o Brasil está atrasado em relação a outros países supostamente mais desenvolvidos e que ainda é o país com maior área de florestas em pé.

Ratos alimentados com milho transgênico e água com glifosato, Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia.

Entretanto, o que está em questão é que toda a abordagem da agricultura e pecuária industrial está ultrapassada em qualquer lugar e que devastação nenhuma é aceitável. Em todos os países onde é utilizada ela degrada o meio ambiente e a saúde das pessoas enquanto concentra dinheiro, território e poder.

Os setores simpatizantes desse governo, os acadêmicos ‘colonizados’ e os departamentos de marketing dessas corporações seguem estágios dentro da estratégia de ‘controle de danos’.

Primeiro, ignoram os dados e pesquisas contrários ao agronegócio enquanto for possível. Depois ridicularizam e descrevem as pesquisas e a agricultura regenerativa de forma imprecisa. Em último caso conduzem pesquisas e comparações falsas e difamam pessoas e instituições com opinião contrária para, finalmente, desacreditar as alternativas socialmente, ecologicamente e economicamente viáveis. (Mulligan, M. e  Hill, S. em Ecological pioneers: A social history of Australian ecological thought and action. 2001).

A contra-inteligência é uma das práticas comuns no “controle de danos”. Ela consiste em inundar os meios de comunicação com desinformação pintando como polêmico ou controverso o fato já comprovado pela ciência de que os agroquímicos causam câncer e outras doenças crônicas graves e que a agricultura industrial é uma das maiores causas do Antropoceno, a sexta maior extinção em massa na história da vida no planeta. Isso, simplesmente porque o consenso científico vai contra o imperativo de lucro de umas poucas corporações internacionais.

A verdade é que a única maneira de alimentar a população mundial sem causar devastação ambiental, doenças crônicas degenerativas e o êxodo rural é com a agricultura familiar agroecológica. São os pequenos produtores rurais ao redor do mundo, na grande maioria mulheres, que produzem de 50 a 75% da comida que alimenta a população mundial.

E elas fazem isso usando apenas de 25 a 30% da terra arável, 30% da água e 20% dos combustíveis fósseis usados na agricultura (Altieri, 2015; Tittonell, 2014).

A verdade econômica também é muito clara! Sem os subsídios fiscais, os perdões anuais de dívidas bilionárias e somando o custo da destruição ambiental e da saúde humana à produção agroindustrial, nenhuma dessas corporações se sustenta economica ou ecologicamente.

A única maneira de garantirmos um futuro com água e ar limpos e alimentos verdadeiramente nutritivos para as próximas gerações é gerindo nossos recursos de maneira socialmente justa, ecologicamente restauradora e economicamente viável e isso só a agricultura familiar agroecológica pode fazer.

O que aconteceria com a agricultura se nossa gestão fosse holística? Um estudo de caso em políticas públicas com parlamentares no Zimbábue.

Em 2013 no Zimbabwe 35 parlamentares fizeram uma oficina para o desenvolvimento de políticas públicas usando o Gerenciamento Holístico, abordagem de gestão de recursos, propriedades e pecuária, criada pelo ecologista Allan Savory.

Nota: Tradução livre e adaptação por Eurico Vianna, PhD. à partir de trechos retirados do livro texto do Gerenciamento Holístico pelo autor.

Referência: Savory, A. e Butterfield, J. (2000). Holistic Management: A New Framework for Decision Making. Island Press. EUA.

Historicamente nós desenvolvemos uma forma de tomar decisões e desenvolver políticas públicas que são sempre baseadas em uma necessidade, desejo ou problema,  o que constitui uma gestão reducionista e reativa. O paradigma de gestão holística, por outro lado, acolhe no mesmo patamar de importância e de forma indissociável as dimensões, sociais, ambientais e econômicas do nosso viver, implicando em uma gestão integral e proativa.

No entanto, “não é possível ‘usar’ o Gerenciamento Holístico para resolver um problema, você precisa abordar o problema dentro de um Contexto Holístico” (Sarah Savory).

A intenção da oficina de Gerenciamento Holístico com o Allan Savory e os 35 parlamentares era explorar possibilidades para a agricultura nacional que havia sido desmantelada por governos anteriores. Outro objetivo era mostrar como um Contexto Holístico pode unir partidos e ideologias supostamente antagônicas em prol de ações e políticas públicas que tenham interesse genuíno em gerir e restaurar as dimensões sociais, ambientais e ecológicas de um país.

O Contexto Holístico nacional que foi usado para o propósito da oficina foi o seguinte:

Nós queremos famílias estáveis, vivendo suas vidas em paz, prosperidade e segurança física enquanto ao mesmo tempo livres para praticar suas crenças religiosas. Queremos alimentos nutritivos e água limpa. Queremos acesso a boa educação e saúde, vivendo vidas equilibradas com tempo para família, amigos, comunidade e lazer para atividades culturais e afins.

Tudo isso assegurado, para muitas gerações futuras, em uma base de solos e comunidades biodiversas se regenerando nas terras, rios, lagos e oceanos da Terra, materializada por nossa atitude positiva: sendo abertos, tolerantes, sem julgamentos, honestos e respeitosos com todos, garantindo apoio e respeito mútuo na “equipe humanidade” enquanto vivemos em harmonia uns com os outros e com o meio ambiente.

Com esse contexto em mente os parlamentares chegaram à primeira pergunta óbvia:

  • Qual o papel do governo nesse caso?

A resposta era óbvia: o papel do governo era elaborar políticas públicas que pudessem ajudar a revitalizar a agricultura e redistribuir terras de forma igualitária.

E como isso poderia ser feito? Depois de muita discussão o grupo resumiu tudo em dois princípios amplos:

  1. Usar as políticas públicas para recompensar os produtores por sua criatividade e produtividade.
  2. Usar as políticas públicas para encorajar formas de produção que estivessem alinhadas com o Contexto Holístico e desencorajar práticas que não estivessem.
Imagem traduzida e adaptada de Sarah Savory

A tarefa dos parlamentares agora era, sem detalhar muito, elaborar possíveis ações que pudessem criar políticas viáveis baseadas na maximização da criatividade e produtividade. Elas deveriam também recompensar ou penalizar o comportamento dos produtores com base no alinhamento (ou a falta dele) com o Contexto Holístico nacional.

Depois de algumas horas o grupo tinha uma lista sólida de possíveis ações que se alinhavam com o Contexto Holístico e que provavelmente levariam a um aumento significativo da produção agrícola enquanto simultaneamente abordassem o problema do acesso desigual à terra. Essas ações incluíam o seguinte:

  • Isenção completa de imposto de renda para produção agrícola de produtores legítimos.
  • Todos os produtores genuínos pagariam impostos sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR) de acordo com o tamanho da propriedade e a região agroecológica (e.g. índice pluviométrico e tipos de solo).
  • O ITR seria reduzido anualmente baseado no número de famílias vivendo e trabalhando na propriedade, não somente para trazer famílias de volta para o campo, mas para encorajar o uso do trabalho manual sobre o do maquinário (isso porque o Zimbábue não produz nem maquinário nem petróleo).
  • Os impostos de renda das pessoas vivendo e trabalhando nas fazendas seriam arrecadados pelos produtores e enviados ao governo como evidência do número de pessoas trabalhando na fazenda.
  • O ITR seria reduzido de acordo com o número de produtos produzidos e comercializados na propriedade.
  • O ITR seria reduzido de acordo com a pureza da água que escoa da fazenda nas divisas mais baixas.

À partir daí todos os parlamentares argumentaram sobre a probabilidade dessas políticas públicas serem bem sucedidas e todos concordaram que elas trariam como resultado:

  • um aumento gigantesco na produção e diversidade de alimentos,
  • que as propriedades ociosas seriam colocadas à venda,
  • que milhares de pessoas voltariam para as áreas rurais,
  • que o solo sería regenerado,
  • o alimento produzido nutritivo e sem veneno, e
  • que a arrecadação de imposto pelo governo aumentaria dramaticamente a um custo reduzido.

Nota do tradutor: As lições mais resumidas aqui, então, são:

  • que a elaboração de um Contexto Holístico garante que não vamos tomar decisões reducionistas baseadas apenas em suprir necessidades ou locupletar desejos imediatistas ou resolver um problema desconsiderando a qualidade de vida e a base de recursos que sustenta toda a vida no planeta.
  • que não é possível ‘usar’ o Gerenciamento Holístico para resolver um problema, e sim abordar o problema dentro de um Contexto Holístico (Sarah Savory) que cria outra realidade mais integral e restauradora das dimensões sociais, ambientais e ecológicas,
  • o uso de um Contexto Holístico para tomada de decisão permite com que honremos a dignidade e qualidade de vida de quem vive ou se propõe a viver no campo, assim como harmoniza as vocações humanas mais profundas com as aptidões do terreno ocupado.

O Fim do Normal por John Doyle

“Os seguintes fatos me ocorreram no contexto das deliberações da Foresight aqui em Bruxelas.

Reflexões com o Inter Diretor Geral da Foresight e grupos de Mudanças Climáticas sobre o fim do normal:

a. As crises do “COVID” podem não terminar (provavelmente não irão) dentro do próximo século;

b. As mutações COVID II, III e outras virão – forçando a humanidade a re-estabelecer um lugar mais normal na teia interconectada da vida – ou (bem possivelmente) a se extinguir;

c. Essa evolução não está mais nem especificadamente sob o controle humano: incidências aceleradas de “novos” tipos de SARS virus e a nossa inabilidade de exercitar “controle” nos levarão ao um mundo em retração e mais localizado. Viagens internacionais permanecerão muito arriscadas por gerações e o mesmo acontecerá com o comércio global de bens de consumo. A regionalização será o novo normal que emergirá (de novo por força das circunstâncias) and a re-generação das barreiras biodiversas naturais entre a espécie humana e os nossos assim chamados “inimigos” virais também ocorrerão naturalmente na medida em que nos retrairmos em número e dispersão física;

d. Novos hábitos alimentares são inevitáveis como a única defesa contra nossos competidores/parasitas por décadas;
e. Modelos econômicos baseados em capital e dívida já estão claramente obsoletos e serão completamente esquecidos dentro de 10 a 15 anos. O novo mecanismo que garantirá a produção do que queremos e precisamos está emergindo, mas também trará um campo fértil para especulações para os muitos e redundantes economistas que estarão disponíveis para consultorias (com seus trabalhos na área sendo finalizados para a satisfação de seus supervisores);

f. Nós não fabricaremos mais carros alemães;

g.  Na medida em que mais de 20% das partículas sólidas que causam a poluição atmosférica caem levando especialmente muitas cidades no norte da Europa a extremos de temperatura ‘de bulbo úmido’, faremos planos para as temperaturas extremas desse verão no norte da Europa.

Eu presumo que essa linha de investigação será amplamente informada pelo irresistível desenrolar dos eventos, [porque] certamente não será motivada por “ideias” nem “palavras”.”

Essa mensagem foi enviada por John Doyle para colegas da Foresight no dia 02 de Abril de 2020. 

John Doyle é Coordenador de Desenvolvimento de Políticas Públicas Sustentáveis da Comissão Europeia, Diretor Geral da Information Society and Media. Atualmente John trabalha com Desenvolvimento Sustentável em larga escala (mainstream) na Diretoria Geral da Information Society com foco especial em Parcerias Empresariais na obtenção de segurança Climática e Energética.

A Foresight é parte da Comissão Européia e é um grupo dedicado à exploração de diferentes cenários de forma sistemática para enfrentar desafios complexos criando um futuro melhor futuras alternativas cientistas e lideranças

 

 

 

As contradições do mercado de “carnes falsas” como alternativa para o ativismo ambiental

Você sabia que são necessários 4.000m2 para produzir 1kg da proteina vegetal TRANSGÊNICA que imita o sabor e suculência da carne nos hambúrgueres vegetais? Você sabia que toda a produção de alimentos vegetais industrializados degrada, desmata e polui tanto quanto a pecuária de confinamento ou extensiva? Onívoros e veganos tem se dividido, mas a verdadeira causa da degradação está no modelo de gestão reducionista e não na soberania alimentar de cada um.

É isso mesmo, não é o consumo de carne que causa problemas ambientais. Os problemas ambientais são causados por um modelo de gestão reducionista que enxerga o meio ambiente como parte da economia e não o contrário. Um modelo que visa só o lucro e tem a degradação como ‘externalidade’. Esse mesmo modelo é responsável por toda a cadeia de produção alimentar industrializada que abastece os grandes centros urbanos; o que inclui TODA alimentação vegana também.

A desconexão de grande parte do movimento vegano faz com que muitos acreditem ser possível adotarmos soluções tecnológicas para problemas causados por desequilíbrios biológicos ou de gestão reducionista. O consumo de carne não é o problema, assim como alimentos veganos/vegerarianos comprados em supermercados não são a solução.

A grande maioria das carnes falsas, por exemplo, contém leg-hemoglobina (ou legHb) de soja, uma proteína que nesse caso é geneticamente modificada para dar um gosto e visual de carne suculenta. Esses alimentos fazem parte de uma indústria multibilionária que se associa ao agronegócio e as corporações petroleiras para explorar a falta de conhecimento ecológico e energético de pessoas muito bem intencionadas.

As corporações líderes dessa indústria estão tendo que se explicar ao FDA (departamento estadunidense responsável pela proteção e promoção da saúde pública) sobre os efeitos colaterais da legHb transgênica como dificuldade em ganhar peso, mudanças no metabolismo sanguíneo e sinais de anemia.

Outra questão é a enorme pegada de carbono e impacto ambiental por conta de como os grãos são produzidos, deoutros ingredientes usados e das grandes fábricas envolvidas na produção dessas carnes falsas. “Documentos mostram que os produtores do “Impossible Foods” ignoraram os avisos do FDA sobre a segurança da legHb de soja geneticamente modificada [que é] chave em seu hamburger”.

O maior problema encontrado pela ‘Impossible Foods’ [empresa líder na fabricação de carne falsa] é que é preciso 1 acre (4.000m2) de soja (quase sempre transgênica também) para produzir apenas um quilo de de leghemoglobina.

De um modo geral, apesar de em escala um pouco menos drástica, esse é o problema de lutarmos contra o consumo de carne e não contra TODO O SISTEMA DE PRODUÇÃO INDUSTRIALIZADA. Todo alimento do agronegócio participa de uma cadeia de produção que concentra renda e poder, que devasta o meio ambiente e é altamente dependente dos recursos fósseis para sua produção. 

Enquanto as empresas tentam ganhar ainda mais mercado por conta dessa miopia ecológica e energética do movimento vegano, pequenos produtores ao redor do mundo que são 20 vezes mais energeticamente eficientes porque integram animais em sua produção agro-etno-ecológica ficam sem o devido apoio dos consumidores urbanos. Esses produtores são responsáveis por até 70% da produão dos alimentos, em apenas 20% das terras agriculturáveis, com 30% da água usada pelo agronegócio e 20 vezes menos insumos químicos. Esses produtores alimentam 30 pessoas por ano por hectare com proteínas animais (Altieri, 2014).

É nesse sentido que o #govegan é um desserviço cultural, ambiental e nutricional.

Allan Savory usando uma manada para restaurar habitat para vida selvagem e as comunidades da região no Centro Africano para o Gerenciamento Holístico.

Gado (ou qualquer outro animal) criado a pasto (só pasto) em manejo holístico, por outro lado, implica:
– uma plataforma de decisão capaz de lidar com complexidade,
– métricas sociais (qualidade de vida e cultura) verificáveis,
– métricas de restauração ambiental verificáveis. Isso desde a otimização da fotossíntese, passando por ciclagem biológica de nutrientes (que constrói solo sequestrando carbono) até o ciclo hidrológico melhorando a capacidade de infiltração e retenção da água no solo. Incluindo inclusive o aumento da biodiversidade.
– métricas e abordagem econômicas que visam a melhorar a autonomia e resiliência econômica do produtor rural.

Em resumo: existem métodos de produção regenerativos para proteínas animais com métricas científicas que garantem a eficiência da restauração ecológica, social e econômica. 

Deveríamos TODOS apoiar a produção agro-etno-ecológica biorregional. Dessa forma estaremos apoiando quem mais precisa enquanto restauramos todas as áreas em que produzimos. Dessa forma não criamos uma agenda de propaganda desleal e colonizadora.

Quando toda a produção acontecer no paradigma regenerativo a soberania alimentar de todos independentemente da escolha de seu alimento estará garantindo nosso futuro como espécie no planeta. Até lá, enquanto ficarmos criando uma hierarquia de ‘capital ambiental’ onde onívoros (pequenos produtores entre esses) são ‘menos’ conscientes ou ‘menos’ ambientalistas, estaremos todos sendo explorados pelas corporações que e ideologia que causam o problema.

Ativismo socioambiental e onivorismo ético

Os pequenos produtores rurais ao redor do mundo produzem de 50 a 75% da comida que alimenta a população mundial usando apenas de 25 a 30% das terras aráveis, 30% da água e 20% dos combustíveis fósseis usados na agricultura (Altieri, 2015; Tittonell, 2014).

Os pequenos produtores rurais que fazem uso de métodos regenerativos como a agroecologia, agrofloresta ou permacultura (em sistemas que integram a produção animal) são 20 vezes mais energeticamente eficientes do que o agronegócio e os grandes latifúndios (Altieri, 2015).

Enquanto o método mais eficiente do agronegócio tem que investir 1kcal para produzir 1.5kcal, um pequeno produtor rural investe 1kcal para produzir 30kcal de alimento por hectare. Enquanto produz grãos, tubérculos, frutas, castanhas, etc. o pequeno produtor rural ainda consegue fornecer proteína animal suficiente para alimentar 34 pessoas por ano por hectare (Altieri, 2015). Se temos qualquer chance de uma cadeia de produção e consumo baseada em métodos agro-etno-ecológicos biorregional e descentralizada, é com a agricultura familiar!

Por isso, qualquer ativismo socioambiental coerente tem que primeiramente trabalhar em prol da alfabetização ecológica e energética com bases científicas e levando em conta o bem estar e a qualidade de vida dos pequenos produtores rurais. A qualidade de vida desse grupo, juntamente com sua cultura e soberania alimentar (que inclui animais nos sistemas de produção) deve ser sempre mantida no mesmo patamar de importância da restauração ecológica e da viabilidade econômica.

Um ativismo socioambiental coerente tem que levar em conta o bem estar e soberania alimentar das populações tradicionais que são as que vivem mais harmonizadas com a Mãe Terra e são onívoros. Tem que levar em conta as populações em situação de risco alimentar, como por exemplo a caatinga brasileira, que tem a maior concentração populacional de todos os biomas áridos e semiáridos do mundo e onde não é possível viver sem integrar animais em seus sistemas de produção. E aqui podemos agregar dados para a alfabetização ecológica de todos que buscam um viver com impacto positivo, os cerrados e pradarias também são ambientes onde a produção regenerativa precisa dos herbívoros para ciclar biologicamente a matéria orgânica (grande maioria gramíneas) produzida no período das chuvas .

Vemos então que o argumento que pede o fim do especismo em prol de uma relação equânime com a natureza, de um paradigma ecocêntrico utópico onde seres humanos não ‘exploram’ outros animais não tem bases ecológicas nem energéticas. O especismo também é comumente chamado de ‘carnismo’, um termo pejorativo cunhado pela propaganda vegana para descrever as pessoas onívoras. A crítica, nesse caso, é no sentido de que os seres humanos criaram uma hierarquia de existência onde outros animais viveriam exclusivamente para nos servir.

Mas essa questão não é tão simples assim. Por um lado, todas as espécies, sem exceção, buscam alterar o meio ambiente a seu favor. O equlíbrio energético das cadeias tróficas garantiu que nos últimos 3.8 bilhões da história da evolução no planeta o jogo de vida e morte entre todas as espécies tenha servido para complexificar a vida e lutar contra a entropia.

Infográfico da Fazenda WhiteOaksPastures.com mostrando a quantidade de carbono sequestrado durante a produção regenerativa.

É por isso que uma visão ecocentrica coerente, embora celebre a existência e importância de todas as espécies, não pode excluir humanos como animais onívoros que são.

Por outro lado, embora ajamos como todas as outras espécies que alteram seu habitat para favorecer sua existência, nossa desconexão da natureza e gestão reducionista aliada ao subsídio dos recursos fósseis (que por sua vez também é causa da desconexão) nos torna a espécie mais destruidora.

Desse ponto de vista, o ‘especismo’ é inescapável. Perguntemo-nos, por exemplo, se a natureza julga uma onça por comer um veado? Ou se dentro de uma casa em chamas onde se encontram um bebê e gato, a pessoa que salvasse primeiro o gato não seria gravemente julgada por outros humanos?

Infográfico do site Sacredcow.info mostrando o consumo de água na pecuária regenrativa em comparação com a carne do agronegócio.

No entanto, dentro de um paradigma holístico de gestão onde o social, o ecológico e o econômico habitam o mesmo patamar, o onivorismo ético em cadeias de produção agroetnoecológicas biorregionais é a única opção que pode ao mesmo tempo abarcar:

  • a segurança alimentar por sua eficiência energética (veja Altieri e Tittonell acima e no link),
  • a qualidade de vida do produtor rural por conta das conexões de benefício mútuo que se formam em sistemas integrados de produção,
  • as questões ambientais porque as abordagens regenerativas compõem até 30% das soluções que podem resolver as mudanças climáticas (ver Drawdown e Charles Massy 2018). Nesse paradigma humanos mantém sua posição na cadeia trófica como onívoros, porém gerando sempre mais vida,
  • as questões de SOBERANIA alimentar porque as pessoas tem o direito de escolher sua dieta e viver de acordo com suas culturas (desde que a dieta seja suprida por métodos regenerativos) sem que uma agenda hegemônica de um ativismo míope as julgue por isso.

Infográfico so site Sacrecow.info explicando como a eliminação da carne causaria mais problemas que soluções.

Outra afirmação fora de contexto do movimento vegano é a de que a produção vegetal é 90% mais eficiente. Isso não é verdade como ! Essas afirmações precisam ser propriamente contextualizadas para que possamos discutir ciência e não propaganda. Em sistemas integrados de produção (agropecuária regenerativa) os animais são um recurso na restauração. O ‘etno’ do termo agroETNOecológico indica que viverão expressando seus comportamentos inerentes. Ademais, a eficiência dos sistemas integrados está no fato de que herbívoros (com os 4 estômagos que tem) convertem plantas não comestíveis (em terras marginais) para os seres humanos em alimento altamente nutritivo (com biodisponibilidade de nutrientes e eficiência de absorção incomparáveis).

O #govegan, com a constante manipulação dos dados e miopia para as causas reais dos problemas ecológicos é um desserviço ambiental. As causas reais dos problemas ecológicos estão na gestão reducionista do sistema vigente. Em um paradigma que insiste em enxergar a natureza como parte da economia e não o contrário. O foco de todos deve ser na produção agro-etno-ecológica biorregional DE TODOS OS ALIMENTOS, em uma gestão holística que tenha sempre no mesmo patamar as questões sociais, as ambientais e as econômicas.

As estratégias mais comuns são:
– o compartilhamento de ‘dados científicos’ fora de contexto,
– a omissão ‘do tipo de produção’ das proteinas ou das alternativas regenerativas,
– a comparação de dietas a base de plantas com a S.A.D. (Standard American Diet – basicamente uma mistura de alimentos altamente processados, açúcares refinados e gorduras saturadas) ao invés de com dietas onívoras saudáveis,
– os memes apelativos com sofismas por falsa premissa como o último que diz que várias das últimas epidemias que assolaram a humanidade vieram da ingestão da carne. Isso é outra mentira. Nós evoluimos nos últimos 300 mil anos com uma dieta onívora. O que causa as doenças é o desmatamento e a produção industrial – práticas que resultam da gestão reducionista de recursos, como expliquei acima.

Essas estratégias de propaganda, no meu ver, se alinham muito mais com o facismo da ultra-direita internacional do que com um ativismo socioambiantal progressivo e inclusivo.

Fontes (todas em inglês):

A carne e a mente: como nossa saúde neurológica e mental pode estar ligada a ingestão de carnes saudáveis;
Os Pequenos Produtores Rurais Contra o Agronegócio;
O que significa a pecuária propriamente manejada;
A Escala de Friabilidade: uma nova forma de enxergar os ecossistemas;
Site da nutricionista americana e produtora do documentário SacredCow;
Artigo no site da Fazenda White Oaks explicando o resultado das pesquisas sobre pecuária regenerativa  no sequestro de carbono atmosférico;
Site Regenerateland.com com uma compilação de artigos científicos que compartilham os efeitos da pecuária regenrativa na restauração de áreas degradadas e sequestro de carbono atmosférico.

O papel da Pecuária Regenerativa na Soberania Alimentar e Biorregionalização das cadeias de produção e consumo pós-pandemia.

O momento que passamos será chave na maneira como rearrumamos os espaços e abordagens de produção, distribuição e consumo de alimentos. A pandemia atual deixa bem claro que o sistema econômico vigente visa apenas o lucro e não o bem estar dos seres humanos e da Mãe Terra.
 
Grande parte da cadeia de produção atual, tanto de carne como de grãos e outros alimentos vegetais, é totalmente dependente dos recursos fósseis. A malha que distribui todo tipo de alimentos hoje também é altamente centralizadora e projetada para beneficiar a produção em grande escala, mas totalmente incapaz de lidar com a relocalização dos sistemas de produção seja por um colapso biológico (uma pandemia), de recursos (escassez de combustíveis) ou econômico (a incapacidade de remunerar a força de trabalho).
 
Isso não acontece por acaso. O agronegócio foi projetado como plataforma de escoamento do petróleo e seus derivados, ele não foi projetado para alimentar a população mundial. Para ser fabricado, o maquinário depende da mineração, que por sua vez também depende dos combustíveis fósseis. A industria que fabrica esses implementos também depende de muita energia para se manter. Quando colocado em uso, esse maquinário depende dos combustíveis para funcionar (arando, plantando, colhendo e armazenando). Os plantios, por sua vez, também dependem de insumos, pesticidas e fungicidas químicos derivados do petróleo.
 
Em seguida toda a cadeia de distribuição depende das embalagens plásticas, de transporte rodoviário, marítimo e, por vezes aéreo, para serem distribuídos. Os consumidores, por sua vez dirigem ou usam os transporte público para chegar aos supermercados e depois voltarem para suas casas. Os resíduos gerados precisam ser coletados, separados e empilhados nos lixões…
 
A cada ano os lucros dos produtores do agronegócio caem porque sua maneira de produzir repleta o solo, a água e a biodiversidade que embasa a vida. As dívidas crescem todo ano e a viabilidade econômica desse modelo de produção depende da socialização dos prejuízos, com o Estado pagando as dívidas. Enquanto os lucros ficam privatizados nas mãos das corporações.
 
Entretanto, não há ABSOLUTAMENTE nada de errado com esse sistema. Ele faz exatamente o que foi projetado para fazer: concentrar renda e poder as custas dos recursos naturais e dos trabalhadores envolvidos da cadeia de produção. Mas a maneira que produzimos, distribuimos e consumimos nosso alimento não precisa ser assim.

 

Pequenas propriedades que operam com sistemas integrados incluindo animais produzidos agro-etno-ecologicamente – uma abordagem que coopera com os animais respeitando seus comportamentos e necessidades específicas – já são as que mais produzem alimento para o mundo. E fazem isso usando menos água, em áreas menores e empregando mais pessoas.

O Gerenciamento Holístico (GH), uma abordagem em engloba a pecuária regenerativa tem muito a somar nesse quadro. Mas o GH não é uma abordagem de rotação de pastagens ou uma modalidade específica de pecuária. É uma plataforma de gestão de recursos e tomada de decisão!
Dentro dessa abordagem é possível planejar as rotações, por meio de uma metodologia específica que leva em conta a ecologia (e.g. habitats de outras espécies, períodos de reprodução ou migração, infestações, etc.), a viabilidade econômica e a qualidade de vida das pessoas envolvidas nos projetos.
Lote adensado sendo manejado no Centro Africano para o Gerenciamento Holístico. (Foto cedida com autorização)
Entre outras coisas, essa abordagem capacita o produtor a:
  • priorizar sua qualidade de vida e base de recursos naturais enquanto busca seus objetivos financeiros,
  • ter métricas específicas para acompanhar a restauração,
  • diminuir seus riscos em relação às secas,
  • otimizar a chuva disponível fixando carbono no solo,
  • alimentar os animais sem insumos ou cilagem,
  • usar os animais para aumentar a biodiversidade de fauna, flora e fungos da propriedade,
  • fazer o controle das pastagens ou vegetação indesejada com a prática do “impacto animal“,
  • planejar a qualidade de vida para os que vivem no campo.
 
  1.  A natureza opera em todos e padrões. Uma perspectiva holística é essencial no gerenciamento. Se baseamos decisões de gestão em qualquer outra perspectiva, nós provavelmente teremos resultados diferentes dos planejados porque só o todo é real.
  2. A Escala de Friabilidade. Os ecossistemas podem ser classificados dentro de um contínuo que vai de não-friável até muito friável de acordo com o quão bem a humidade é distribuída e a velocidade que a vegetação morta se decompõe. Nos extremos dessa escala os ecossistemas respondem de maneira diferente a influencias iguais. O descanso, por exemplo, restaura a paisagem em ecossistemas não friáveis, mas causa danos nas paisagens muito friáveis.
  3. A conexão presa-predador. Nos ecossistemas friáveis um número relativamente alto de grandes herbívoros em manada, mantidos concentrados e em constante movimento como esses animais se comportam naturalmente na presença de predadores que caçam em grupo, é vital para se manter a saúde das paisagens que pensávamos que eles destruíam.
  4. É o tempo e não o número de animais presentes que causa a degradação dos ecossistemas. Em qualquer ecossistema o sobrepastoreio e a compactação pelo pisoteamento praticamente não tem relação com o número de animais. Ao contrário, tem relação com a quantidade de tempo que as plantas e o solo são expostos aos animais.
 
As métricas ecológicas presentes no GH garantem o monitoramento eficiente dos processos de restauração. Garentem que o fluxo energético, o ciclo hidrológico, a ciclagem de nutrientes e a biodiversidade estão sendo melhorados na medida em que produzimos.
 
A crise econômica mundial de 2008, a greve dos caminhoneiros de 2018 no Brasil e a pandemia do Covid-19 nos mostram claramente que se queremos ter qualquer resilência nesses momentos precisamos garantir a existência de redes de produção, distruibuição e consumo biorregionais. Precisamos garantir a diversidade e a soberania alimentar de TODAS AS PESSOAS. Precisamos também garantir que após o colapso nossas sociedades e o sistema econômico não retornem ao seu modo de gestão reducionista que só consegue produzir alimentos, moradia e bens de consumo às custas da Mãe Terra e da saúde e bem estar humanos.
 
Nesse sentido o Gerenciamento Holístico, como plataforma de tomada de decisão para gestão de recursos em sistemas complexos e para uma produção de carne, ovos e laticínios que seja regenerativa e atenda a demanda de todas as pessoas, é uma ferramenta essencial.
 
O vídeo abaixo mostra alguns casos de sucesso na restauração do solo e ciclos hidrológicos usando a pecuária regenerativa.

 

 

Veganos, esse vai especialmente para vocês!

Tudo que consumimos ou usamos vem da terra e eventualmente volta para ela. Quanto mais anti-natural for o processo usado para produzir [alimentos], criar [animais] ou manufaturar [produtos], no fim das contas mais ele terá um impacto danoso para o meio ambiente. 

Nota: Artigo originalmente publicado em inglês por Sarah Savory e posteriormente traduzido por Eurico Vianna, PhD, com permissão da autora. 

De forma para que para todos os veganos, se você não quer comer carne nem usar produtos de origem animal, não o faça. Mas pelo amor que você tenha a toda a vida em nosso lindo planeta e o pelo futuro dela, não troque cegamente essas opções por produtos de origem animal falsa, porque a longo prazo os processos usados para produzir todas essas coisas artificiais causará muito mais devastação ao nosso meio ambiente. 

“O Santo Cálice da sustentabilidade é um sistema de cadeia fechada”. Por exemplo, na questão do couro a natureza criou seu próprio ‘sistema de cadeia fechada’. A carcaça de um animal pode se decompor no chão nutrindo plantas que serão consumidas pela próxima geração daquela espécie. O couro artificial, por outro lado, não se decompõe e não pode ser refeito como outro item de couro artificial a não ser que passasse por um processo de quebra completa da cadeia molecular para só então poder ser reutilizado. 

Veja, por exemplo, os ingredientes necessários para a produção completamente anti-natural do hamburger vegetal da Beyond Meat, e isso sem nem discutirmos os químicos e outros produtos necessários para construir e operar os laboratórios onde a “carne” é produzida: água, isolado de proteína de ervilha, óleo de canola prensado por expeller, óleo de coco refinado, proteína de arroz, sabores naturais, manteiga de cacau, proteína de feijão de Mung, metilcelulose, amido de batata, extrato de maçã, sal, cloreto de potássio, vinagre, concentrado de suco de limão, lecitina de girassol, pó de suco de romã, extrato de suco de beterraba e trigo geneticamente modificado. Agora analise a produção de cada um desses ingredientes separadamente e pesquise o impacto deles no meio ambiente. 

Quando mais anti-natural (ou artificialmente fabricado) o produto é mais impacto negativo ele tem em nosso meio ambiente. Os animais produzidos pela pecuária intensiva industrial, por exemplo, são produzidos de maneira completamente artificial, o que não é apenas cruel e bárbaro, mas também destrutivo para o meio ambiente. O mesmo serve para qualquer cultivo na agricultura industrial ou organismos geneticamente modificados.

Em última instância, qualquer coisa que degrada o meio ambiente, destrói nossa cultura, nossa sociedade e nossa economia porque essas coisas estão intricadamente conectadas em um Todo complexo: pessoas, terra, economia… nenhuma dessas coisas pode funcionar isoladas umas das outras.

Allan Savory com sua filha Sarah e netos no Centro Africano para o Gerenciamento Holístico.

A Tomada de Decisão Holística respeita esse fato e se assegura de estar sempre levando todos eles em conta simultaneamente. Isso significa que independente de quem somos, de onde vivemos, de quais são nossas opções pessoais, ou quais são nossas diferenças culturais, nós estaremos sempre tomando a melhor decisão possível para o meio ambiente que sustenta [toda] a vida.

E a Estrutura do Gerenciamento Holístico introduz as produtoras a uma ferramenta biológica nova para restaurar as pastagens [pradarias e savanas]: os organismos vivos.

A Natureza não se preocupa com o indivíduo. É a força do todo que é vital.

Uma manada é tão forte quanto seus integrantes mais fracos e é por isso que a natureza desenvolveu predadores que atuam em bandos [alcatéias]. 

Esses predadores tem duas funções essenciais:  

A primeira é assegurar o impacto preciso de manadas enormes. Os predadores mantém as manadas bem agrupadas e em constante movimento de forma que suas patas estão sempre estimulando e aerando o solo enquanto pisoteiam e fertilizam a vegetação com suas fezes e urina e suas entranhas fornecem a umidade vital que os micro-organismos precisam durante as longas estiagens para se manterem ativos e capazes de decompor biologicamente a matéria orgânica seca; formando assim uma camada protetora perfeita, com uma cobertura de solo fértil (mulch) que o mantém protegido até as próximas chuvas.

O outro trabalho vital do predadores é selecionar os animais mais fracos de maneira a manter aquela manada ou espécie tão forte quanto seja possível. 

Entretanto nós surgimos com um novo poder sobre o fogo e o uso de tecnologia e começamos a desconsiderar e desrespeitar completamente as rigorosas leis e equilíbrio da natureza. Nós exterminamos as grandes manadas, cercamos os animais, removemos os predadores do topo da cadeia alimentar (incluindo nós mesmos) dos ecossistemas, nós tomamos decisões infindáveis por espécies em isolamento do todo e isso bagunçou tudo de forma que agora até nossa própria existência está em risco. Está na hora de corrigirmos isso.

Muitas pessoas já estão usando o planejamento holístico de pastagens como ferramenta na pecuária para imitar o movimento natural das manadas que as pradarias precisam ter para sobreviver – emprestando as patas dos herbívoros para restaurar o solo até que consigamos mais uma vez aumentar a biodiversidade e os números da vida selvagem para que ela possa, em primeiro lugar, desempenhar novamente a função para a qual foi desenvolvida pela natureza.

O Gerenciamento Holístico conectando tudo, porque tudo está conectado. 

O que a Permacultura não é – Um estudo resumido

A permacultura foi criada como resposta para um contexto social, econômico e ecológico específico – o de um colapso gravíssimo que já vem se desenrolando desde a revolução industrial.

Na medida em que ela ganha tração como ferramenta que fortalece os que se propõem a fazer a transição seja por opção ou já por necessidade, ela encontra resistência entre aqueles que tem dificuldade de aceitar que já vivemos uma crise ecológica e econômica de proporções globais e sem retorno. 

Para a maioria das pessoas é difícil imaginar um projeto de civilização que não seja o capitalista sem que sejam remetidos a um dualismo limitante. O que surge imediatamente para a maioria é um medo do comunismo ou socialismo tanto pela maneira que se manifestaram no passado quanto pela distorção da propaganda ocidental.

Muitas dessas pessoas que não conseguem ver um viver que vá além do capitalismo tem se apropriado da permacultura trazendo incoerência e confusão para os que buscam nela uma ferramenta eficiente de transição. Esse trabalho busca abordar de maneira resumida porque essa apropriação acontece e o que podemos fazer para evitá-la.  

A permacultura foi criada como resposta a uma ideologia que já falhava com os seres humanos e a natureza na década de 1970. Nessa perspectiva ela se pautou, entre várias outras fontes, pelo relatório Limites do Crescimento. Um estudo acompanhado de uma simulação computadorizada lançado em 1972 e que desde aquela época já dizia que não podemos sustentar uma economia que exige crescimento infinito explorando os recursos limitados do planeta. 

Naquela época ainda vivíamos dentro da capacidade do planeta e as recomendações eram no sentido de usarmos os recursos restantes, principalmente os combustíveis fósseis para preparar uma transição para outros modos de viver com outras fontes de energia. Mais de 30 anos se passaram e grande parte das simulações se concretizaram:

    • O nível do mar subiu de 10 a 20 cm desde 1900. As geleiras que existem fora das calotas polares estão derretendo e a extensão e profundidade das camadas de gelo marinho no Ártico estão diminuindo durante o verão;
    • Em 1998 mais de 45% da população mundial já vivia com menos que $2 dólares por dia em média. Enquanto isso o ⅕ mais rico da população mundial já detinha 85% do PIB mundial e a distância entre ricos e pobres cada vez aumenta mais,
    • Em 2002 a FAO, departamento de agricultura da ONU, estimou que em torno de 75% das áreas de pesca já haviam chegado ao seu limite ou extrapolado sua capacidade. A indústria pesqueira do bacalhau no Atlântico Norte, antes sustentável por séculos, colapsou e muitas espécies foram extintas.
    • A primeira avaliação global de perda de solo superior por erosão, baseada em estudos de centenas de especialistas, descobriu que 38%, ou em torno de 1.4 bilhões de acres de terras agriculturáveis já foram degradadas.
    • 54 nações tiveram seu PIB per capita em declínio entre 1990 e 2001.

Esses são dados do site da Donella Meadows e alguns de seus colegas em uma avaliação 30 anos após o relatório original e já com quase 20 anos de publicação. Outro dado que não mencionei é que desde a década de 1970 que a dívida pública mundial SEMPRE CRESCE MAIS QUE A SOMA DOS PIBs de todos os países (Nate Hagens, 2012). 

A preocupação da permacultura com a sustentabilidade e o pico do petróleo se revela pela afinidade com o trabalho do ecologista Howard Odum e uma obsessão constante pela auditoria e eficiência energética dos sistemas propostos.

Do ponto de vista social, essa estudo revela as origens da permacultura no movimento anarquista, no sentido daquelas organizações sociais mais igualitárias e distribuídas onde todos participam diretamente das decisões. Revela também um planejamento deliberado de interações e atitudes que visam restaurar os tecidos sociais rompidos pela competitividade extremada do sistema vigente. 

É essa base anárquica que enxerga e visa a cooperação e não a competição como característica evolutiva que permitiu a humanidade chegar até aqui. Também é essa base que busca tornar governos e estruturas centralizadoras obsoletas por meio de um desenho de vida no qual somos mais responsáveis pela nossa moradia, energia, água, alimentos e resíduos gerados.

E aqui vale ressaltar o trabalho do Paulo Campos, ativista ambientalista do Crato, no Ceará, que tem garimpado as citações e referências ao pensamento anarquista na literatura da permacultura desde o Permacultura 1, o livro que lançou essa abordagem, até os mais atuais.

Então a gente vê como a ética da permacultura – o cuidado com a Terra (e aqui devemos ver ‘terra’ tanto como o terreno que ocupamos e produzimos até a Mãe Terra), o cuidado com o próximo e a partilha do excedente – é embasada em limites ecológicos e energéticos muito concretos já há muito tempo cientificamente comprovados.

E é a constatação desses limites ecológicos e energéticos que também rege o ‘desenho de comportamento’, os princípios eco-anarco-sociais que visam descentralizar e redistribuir a utilização de recursos e a tomada de decisões.

A Permacultura como ferramenta 

Não me considero um permacultor, um porta-voz e menos ainda um guardião.

Eu enxergo e aplico a permacultura como uma das ferramentas interdisciplinares para entender sistemas ecológicos, sociais e agroecológicos, para promover alfabetização ecológica, noções de economia biofísica e integrar junto com outras abordagens meus planejamentos de áreas.

A Agricultura Natural concebida pelo Fukuoka, o Gerenciamento Holístico do ecologista Allan Savory, a agrofloresta sucessional que se desenvolve no Brasil hoje são outras ferramentas que uso. E aprendi a organizar essas ferramentas dentro da Escala de Permanência do Australiano P.A. Yeomans, muito pela influência de outro australiano, o Darren J. Doherty.

Entretanto, quando encontramos uma ferramenta boa, existe uma tendência de querermos explorar suas capacidades, seus limites, as várias maneiras como pode ser usada muitas vezes para além das finalidades para qual ela foi criada. Para explorar todas essas possibilidades é necessário um aprofundamento, uma análise ontológica mesmo, aquela que vai além da infinidade de definições existentes para revelar sua natureza plena e integral.

O que a permacultura não é e onde ela não deve ser usada

A permacultura tem como princípio o foco nas soluções e não ‘no problema’. Como recomendava Buckminster, o ideal é criarmos uma nova realidade que automaticamente torne o problema ou paradigma anterior obsoleto.

Esse princípio frequentemente guia a gente para que não gastemos tempo com interações pouco proveitosas seja pessoalmente ou na internet. Isso tem causado um vácuo de conteúdo que permite o surgimento de ‘expoentes’ por vezes mal informados e por outras mal intencionados para ocupar esse espaço. Isso se dá mesma maneira que um sistema pouco diverso ou o solo descoberto convidam as chamadas ‘ervas daninhas’ para colonizar os nichos que ficaram abertos.

Por ter essa perspectiva e por entender a internet como uma oportunidade descentralizada de disseminação de ideias e alternativas eu me pego interagindo em situações nas quais muitos dos educadores mais velhos não interagem.

E foi essa preocupação com a permacultura como ferramenta, como meio de alcançarmos alternativas viáveis, que me motivou a escrever esse texto.

Não vejo a permacultura como fim, como um objeto ou instituição que precisa de normas ou guardiões. Mas gosto de deixar minhas ferramentas afiadas e prontas para cumprirem suas funções da melhor maneira possível. Por isso tenho investido tempo interagindo em alguns grupos frequentemente compartilhando minha visão do que a permacultura não é.

A permacultura não tem religião!

E não é plataforma de lançamento de falsos Xamãs ou gurus. A permacultura não precisa de complementação religiosa ou espiritual! Ela reverencia a natureza e facilita nossa conexão com ela por meio da leitura de paisagem e ensinando seus princípios de uma maneira que cria pontes para que à partir do entendimento intelectual possamos chegar a percepção mais profunda de que também somos natureza. É assim que ela cumpre sua função de religare, palavra latina que deu origem ao termo ‘religião’ e que significa uma reconexão com a natureza que nos cerca.

A permacultura não é vegetariana, nem Vegana!

Nem poderia ser pois ela tem como base a ecologia cultivada, o entendimento das pirâmides tróficas para aumentar a eficiência energética nos sistemas projetados. Especialmente na pequena e média escalas que favorecem a agricultura familiar e pensando na grande maioria que vive em situação de risco social e alimentar.

Sua função, portanto, é entender e usar essa rede intricada com seus processos de adaptação, de competição e cooperação e de conexão presa-predador de forma a restaurar os ecossistemas onde atua enquanto provê para nós seres humanos.

Como princípio, a permacultura prega o foco na solução. De forma que se a carne produzida pela agroindústria é um dos problemas ambientais para o qual o veganismo se apresenta como resposta, a solução não é deixarmos de comer carne, é comermos a carne produzida de forma regenerativa. 

A permacultura nunca pregou o vegetarianismo ou veganismo como alternativas para o ativismo ambiental. As escolhas pessoais devem ser respeitadas. Mas apresentar o veganismo como ‘uma evolução’ na permacultura, da consciência ambiental e dos sistemas de produção regenerativos devem ser combatidas é uma distorção sem base na ecologia ou na teoria da abordagem.

Bill Mollison explicava isso muito bem e tanto seus livros quanto aulas gravadas tem registro desse posicionamento. David Holmgren e sua companheira Su Dennett levam sua propriedade, Melliodora, como um estudo de caso a longo prazo detalhado tanto a produção anual como as conquistas em direção a auto-sustentabilidade. Apesar de uma dieta majoritariamente ovo-láctea variadíssima, eles também comem carne de caça e dos frangos que criam.

A permacultura não é hippie! 

Pelo menos não no sentido atual onde as pessoas que negam “o sistema” terceirizam para os outros o financiamento de sua educação, bem estar ou oportunidade de experiências transcendentais. Para esses hippies o argumento é sempre “não ter recursos”, enquanto de alguma forma milagrosa não faltam recursos para as drogas de sua preferência, sejam elas o que forem… açúcar, café, álcool, cigarro, maconha, dmt, md, baladas, festivais, viagens… etc. 

Agora, no sentido original, anticolonialista onde o movimento de abandono da sociedade de consumo é uma decisão minimamente coerente em busca da autonomia, como foi o caso de Gandhi na Índia contra o colonialismo Britânico, aí sim ela hippie.

Hippie no sentido de entendermos que devemos produzir mais do nosso alimento, das nossas roupas, cuidar mais da água que mantém nossa vida e de como lidamos com o lixo que geramos… No sentido de tudo isso ser um processo contínuo, uma direção, um norte e de que estamos juntos seguindo essa trilha, uns mais a frente, outros mais atrás e está tudo bem assim. Nesse sentido alguns podem classificá-la como “coisa de hippie”; e nesse caso isso é um elogio!

E por último…

A permacultura não é liberal, nem neoliberal e muito menos anarcocapitalista.

Todas essas ideologias enxergam a natureza como parte da economia e não a economia como parte da natureza. Elas endeusam a propriedade privada e justificam o acúmulo de privilégios a partir de uma pseudo-meritocracia. Essas ideologias são, portanto, incapazes de cumprir com os princípios éticos do cuidado com a terra, do cuidado com próximo e a da partilha do excedente. 

Embora haja exceções, via de regra a filantropia capitalista tem como objetivos principais a isenção fiscal e o marketing pessoal e social. Muito raramente os que se alinham com qualquer versão da ideologia capitalista conseguem se alinhar com “a partilha do excedente”. E incluir a partilha do excedente como ética fundamental foi a maneira que os co-criadores encontraram de embutir na permacultura a distribuição de renda, terra ou qualquer outro tipo de excedente e garantir que a abordagem e o movimento fossem sempre progressistas e estivessem sempre alinhados com a justiça social e não com a caridade.

Nada impede que pessoas de qualquer inclinação usem práticas sustentáveis ou regenerativas, mas como muito bem explica minha amiga Camila Bianchi, “elencar ecotécnicas não é fazer permacultura”. 

Ações, práticas e projetos tocados por pessoas alinhadas com qualquer versão da ideologia vigente não constituem a prática da permacultura pois não conseguem conceber a partilha de qualquer que seja o excedente gerado.

Portanto, a permacultura é política! Porque, de novo, como a Camila coloca muito bem, quando decidimos como usamos e ocupamos o solo e outros recursos naturais, como planejamos de forma integral os fluxos e ciclos, como aliamos conhecimentos tradicionais com tecnologias contemporâneas são todas decisões políticas. 

E no caso da permacultura são decisões políticas com bases eco-anarco-socialistas muito bem documentadas na literatura e exemplo dos co-criadores. Agora…

Como difundir amplamente a permacultura como alternativa para um novo modo de ocuparmos o planeta? Como garantir que a abordagem e o movimento social se mantenham fiéis às suas bases ideológicas? 

A resposta curta para a primeira pergunta é: estudando e praticando da forma mais coerente possível a literatura e o exemplo deixado pelos seus co-criadores.

A resposta curta para a segunda pergunta é: não há como ter essas garantias! 

A apropriação da permacultura por pessoas e movimentos totalmente desalinhados com ela como o liberalismo, o anarcocapitalismo e outros absurdos como o MGTOW (os Homens Seguindo Seu Próprio Caminho) é a prova de que não há garantias nesse sentido.

Apresentar a permacultura como alternativa ampla, autônoma, replicável e com difusão em redes distribuídas é um desafio de proporções gigantescas.

O sistema vigente apodrece as relações humanas, rompe com as fábricas do tecido social e assassina a natureza e não existe uma solução única para situações complexas.

Mas a permacultura já foi criada como solução para esses problemas e com o intuito de ser uma alternativa que pudesse se difundir rapidamente. Quando o Bill Mollison autoriza qualquer pessoa que tenha um certificado de um PDC nas mãos a ensinar tão logo termine o curso, ele está compartilhando o excedente em autoridade que ele tinha. 

Mais ainda, ele está se valendo dos princípios anárquicos para criar uma rede onde o poder e o conhecimento estão distribuídos igualmente. Ele está apoiando a criação de uma rede que quando começa e se replicar, faz isso de maneira rizomática e se estabelece sem centro definido, dificultando portanto qualquer iniciativa de combatê-la.

É óbvio que a preocupação com a qualidade é necessária e importante. Mas se nos posicionamos como guardiões não estaremos sendo coerentes com a origem e princípios anárquicos da permacultura.

As pessoas alinhadas com ideologias capitalistas tem se apropriado da permacultura e de sua narrativa, como uma ‘erva daninha’ que coloniza um espaço onde o solo está exposto, como disse acima, mas essa ‘colonização’ não é regenerativa. A melhor maneira de salvaguardarmos a qualidade da permacultura ensinada é ocupando os espaços disponíveis com conteúdo POLITIZADO de qualidade. 

É tendo planos detalhados de multiplicação e  apoio para novos ativistas, cada um na sua vocação. Uns ensinando, outras produzindo no campo, outras desenvolvendo tecnologias apropriadas, outras projetando, e alguns fazendo um pouco de tudo. 

Eu fiquei muito feliz, depois de insistir na necessidade de sucessão do movimento já há um tempo, de ver o David Holmgren em uma entrevista recente dizer que:

“Sucessão é enormemente difícil, especialmente entre pensadores e ativistas ambientalistas radicais e individualistas. … Aprender como navegar essas mudanças que inevitavelmente chegarão para todos nós enquanto envelhecemos é um caminho muito importante para o futuro. E é muito importante no contexto da cisma crescente em equidade entre os jovens que não tem acesso à terra e as pessoas mais velhas que tem propriedades simplesmente por conta do acaso da história, das bolhas imobiliárias e outras dinâmicas que não tem nada a ver com nosso trabalho duro ou o que fizemos sensivelmente. Então esses assuntos são delicados e eu não acredito que existam respostas fáceis, mas [a sucessão] é central no pensamento de vários pioneiros da permacultura, no sentido de como o trabalho deles pode continuar de alguma forma” (Entrevista para o Gardening Australia, 07/02/2020)  

Eu só acrescentaria que a partilha da autoridade como excedente acumulado, como disse antes, também é central.

Então, em resumo, como possibilidades para que alcancemos uma massa crítica em tempo de preparar Santuários de Sanidade Mental e Ecológica (que é como eu venho chamando esses espaços), em tempo de salvar a humanidade da extinção iminente eu recomendaria:

    • Facilitarmos o acesso dos jovens, principalmente os de baixa renda, à permacultura com vistas na formação de agentes locais,
    • A construção de comunidades de prática com foco no fomento (e não vigília),
    • A produção de conteúdo multimídia de qualidade amarrando as ligações entre as bases ideológicas e as técnicas utilizadas, 
    • O hábito deliberado de endossar o trabalho dos novos talentos, de estabelecer referenciação cruzada entre as diferentes gerações, 
    • O enfrentamento direto da apropriação com base na literatura e exemplos dos co-criadores.

Eu realmente acredito que existem muito mais alternativas, mas essas são algumas das que eu vejo mais claramente se alinhando com a intenção original dos co-criadores, na minha interpretação é claro, e que podem explorar melhor o espaço da internet para difundir uma permacultura de qualidade.

Muito obrigado!
Eurico Vianna

Nota de edição 19/02/20 – À partir do feedback de amigos e colegas fiz algumas edições no texto. Uma das dificuldades com esse texto é que foi produzido para guiar uma fala e não como artigo. Na medida do possível irei adaptando as versões.
– O título foi alterado trocando ‘ontologia’ por ‘estudo’ por sugestão do Bernardo do grupo ‘Só Permacultura’. Segundo ele, filosoficamente ‘ontologia’ não é aplicada quando a narrativa escolhida é definir pelo que não é. Embora na sociologia esse recurso seja usado, achei válida a sugestão.
– A Suzana, educadora e ativista do Yvy Porã em SC, sugeriu explicar melhor os conceitos de ecologia cultivada. Também achei válida a sugestão.