O Fim do Normal por John Doyle

“Os seguintes fatos me ocorreram no contexto das deliberações da Foresight aqui em Bruxelas.

Reflexões com o Inter Diretor Geral da Foresight e grupos de Mudanças Climáticas sobre o fim do normal:

a. As crises do “COVID” podem não terminar (provavelmente não irão) dentro do próximo século;

b. As mutações COVID II, III e outras virão – forçando a humanidade a re-estabelecer um lugar mais normal na teia interconectada da vida – ou (bem possivelmente) a se extinguir;

c. Essa evolução não está mais nem especificadamente sob o controle humano: incidências aceleradas de “novos” tipos de SARS virus e a nossa inabilidade de exercitar “controle” nos levarão ao um mundo em retração e mais localizado. Viagens internacionais permanecerão muito arriscadas por gerações e o mesmo acontecerá com o comércio global de bens de consumo. A regionalização será o novo normal que emergirá (de novo por força das circunstâncias) and a re-generação das barreiras biodiversas naturais entre a espécie humana e os nossos assim chamados “inimigos” virais também ocorrerão naturalmente na medida em que nos retrairmos em número e dispersão física;

d. Novos hábitos alimentares são inevitáveis como a única defesa contra nossos competidores/parasitas por décadas;
e. Modelos econômicos baseados em capital e dívida já estão claramente obsoletos e serão completamente esquecidos dentro de 10 a 15 anos. O novo mecanismo que garantirá a produção do que queremos e precisamos está emergindo, mas também trará um campo fértil para especulações para os muitos e redundantes economistas que estarão disponíveis para consultorias (com seus trabalhos na área sendo finalizados para a satisfação de seus supervisores);

f. Nós não fabricaremos mais carros alemães;

g.  Na medida em que mais de 20% das partículas sólidas que causam a poluição atmosférica caem levando especialmente muitas cidades no norte da Europa a extremos de temperatura ‘de bulbo úmido’, faremos planos para as temperaturas extremas desse verão no norte da Europa.

Eu presumo que essa linha de investigação será amplamente informada pelo irresistível desenrolar dos eventos, [porque] certamente não será motivada por “ideias” nem “palavras”.”

Essa mensagem foi enviada por John Doyle para colegas da Foresight no dia 02 de Abril de 2020. 

John Doyle é Coordenador de Desenvolvimento de Políticas Públicas Sustentáveis da Comissão Europeia, Diretor Geral da Information Society and Media. Atualmente John trabalha com Desenvolvimento Sustentável em larga escala (mainstream) na Diretoria Geral da Information Society com foco especial em Parcerias Empresariais na obtenção de segurança Climática e Energética.

A Foresight é parte da Comissão Européia e é um grupo dedicado à exploração de diferentes cenários de forma sistemática para enfrentar desafios complexos criando um futuro melhor futuras alternativas cientistas e lideranças

 

 

 

As contradições do mercado de “carnes falsas” como alternativa para o ativismo ambiental

Você sabia que são necessários 4.000m2 para produzir 1kg da proteina vegetal TRANSGÊNICA que imita o sabor e suculência da carne nos hambúrgueres vegetais? Você sabia que toda a produção de alimentos vegetais industrializados degrada, desmata e polui tanto quanto a pecuária de confinamento ou extensiva? Onívoros e veganos tem se dividido, mas a verdadeira causa da degradação está no modelo de gestão reducionista e não na soberania alimentar de cada um.

É isso mesmo, não é o consumo de carne que causa problemas ambientais. Os problemas ambientais são causados por um modelo de gestão reducionista que enxerga o meio ambiente como parte da economia e não o contrário. Um modelo que visa só o lucro e tem a degradação como ‘externalidade’. Esse mesmo modelo é responsável por toda a cadeia de produção alimentar industrializada que abastece os grandes centros urbanos; o que inclui TODA alimentação vegana também.

A desconexão de grande parte do movimento vegano faz com que muitos acreditem ser possível adotarmos soluções tecnológicas para problemas causados por desequilíbrios biológicos ou de gestão reducionista. O consumo de carne não é o problema, assim como alimentos veganos/vegerarianos comprados em supermercados não são a solução.

A grande maioria das carnes falsas, por exemplo, contém leg-hemoglobina (ou legHb) de soja, uma proteína que nesse caso é geneticamente modificada para dar um gosto e visual de carne suculenta. Esses alimentos fazem parte de uma indústria multibilionária que se associa ao agronegócio e as corporações petroleiras para explorar a falta de conhecimento ecológico e energético de pessoas muito bem intencionadas.

As corporações líderes dessa indústria estão tendo que se explicar ao FDA (departamento estadunidense responsável pela proteção e promoção da saúde pública) sobre os efeitos colaterais da legHb transgênica como dificuldade em ganhar peso, mudanças no metabolismo sanguíneo e sinais de anemia.

Outra questão é a enorme pegada de carbono e impacto ambiental por conta de como os grãos são produzidos, deoutros ingredientes usados e das grandes fábricas envolvidas na produção dessas carnes falsas. “Documentos mostram que os produtores do “Impossible Foods” ignoraram os avisos do FDA sobre a segurança da legHb de soja geneticamente modificada [que é] chave em seu hamburger”.

O maior problema encontrado pela ‘Impossible Foods’ [empresa líder na fabricação de carne falsa] é que é preciso 1 acre (4.000m2) de soja (quase sempre transgênica também) para produzir apenas um quilo de de leghemoglobina.

De um modo geral, apesar de em escala um pouco menos drástica, esse é o problema de lutarmos contra o consumo de carne e não contra TODO O SISTEMA DE PRODUÇÃO INDUSTRIALIZADA. Todo alimento do agronegócio participa de uma cadeia de produção que concentra renda e poder, que devasta o meio ambiente e é altamente dependente dos recursos fósseis para sua produção. 

Enquanto as empresas tentam ganhar ainda mais mercado por conta dessa miopia ecológica e energética do movimento vegano, pequenos produtores ao redor do mundo que são 20 vezes mais energeticamente eficientes porque integram animais em sua produção agro-etno-ecológica ficam sem o devido apoio dos consumidores urbanos. Esses produtores são responsáveis por até 70% da produão dos alimentos, em apenas 20% das terras agriculturáveis, com 30% da água usada pelo agronegócio e 20 vezes menos insumos químicos. Esses produtores alimentam 30 pessoas por ano por hectare com proteínas animais (Altieri, 2014).

É nesse sentido que o #govegan é um desserviço cultural, ambiental e nutricional.

Allan Savory usando uma manada para restaurar habitat para vida selvagem e as comunidades da região no Centro Africano para o Gerenciamento Holístico.

Gado (ou qualquer outro animal) criado a pasto (só pasto) em manejo holístico, por outro lado, implica:
– uma plataforma de decisão capaz de lidar com complexidade,
– métricas sociais (qualidade de vida e cultura) verificáveis,
– métricas de restauração ambiental verificáveis. Isso desde a otimização da fotossíntese, passando por ciclagem biológica de nutrientes (que constrói solo sequestrando carbono) até o ciclo hidrológico melhorando a capacidade de infiltração e retenção da água no solo. Incluindo inclusive o aumento da biodiversidade.
– métricas e abordagem econômicas que visam a melhorar a autonomia e resiliência econômica do produtor rural.

Em resumo: existem métodos de produção regenerativos para proteínas animais com métricas científicas que garantem a eficiência da restauração ecológica, social e econômica. 

Deveríamos TODOS apoiar a produção agro-etno-ecológica biorregional. Dessa forma estaremos apoiando quem mais precisa enquanto restauramos todas as áreas em que produzimos. Dessa forma não criamos uma agenda de propaganda desleal e colonizadora.

Quando toda a produção acontecer no paradigma regenerativo a soberania alimentar de todos independentemente da escolha de seu alimento estará garantindo nosso futuro como espécie no planeta. Até lá, enquanto ficarmos criando uma hierarquia de ‘capital ambiental’ onde onívoros (pequenos produtores entre esses) são ‘menos’ conscientes ou ‘menos’ ambientalistas, estaremos todos sendo explorados pelas corporações que e ideologia que causam o problema.

Ativismo socioambiental e onivorismo ético

Os pequenos produtores rurais ao redor do mundo produzem de 50 a 75% da comida que alimenta a população mundial usando apenas de 25 a 30% das terras aráveis, 30% da água e 20% dos combustíveis fósseis usados na agricultura (Altieri, 2015; Tittonell, 2014).

Os pequenos produtores rurais que fazem uso de métodos regenerativos como a agroecologia, agrofloresta ou permacultura (em sistemas que integram a produção animal) são 20 vezes mais energeticamente eficientes do que o agronegócio e os grandes latifúndios (Altieri, 2015).

Enquanto o método mais eficiente do agronegócio tem que investir 1kcal para produzir 1.5kcal, um pequeno produtor rural investe 1kcal para produzir 30kcal de alimento por hectare. Enquanto produz grãos, tubérculos, frutas, castanhas, etc. o pequeno produtor rural ainda consegue fornecer proteína animal suficiente para alimentar 34 pessoas por ano por hectare (Altieri, 2015). Se temos qualquer chance de uma cadeia de produção e consumo baseada em métodos agro-etno-ecológicos biorregional e descentralizada, é com a agricultura familiar!

Por isso, qualquer ativismo socioambiental coerente tem que primeiramente trabalhar em prol da alfabetização ecológica e energética com bases científicas e levando em conta o bem estar e a qualidade de vida dos pequenos produtores rurais. A qualidade de vida desse grupo, juntamente com sua cultura e soberania alimentar (que inclui animais nos sistemas de produção) deve ser sempre mantida no mesmo patamar de importância da restauração ecológica e da viabilidade econômica.

Um ativismo socioambiental coerente tem que levar em conta o bem estar e soberania alimentar das populações tradicionais que são as que vivem mais harmonizadas com a Mãe Terra e são onívoros. Tem que levar em conta as populações em situação de risco alimentar, como por exemplo a caatinga brasileira, que tem a maior concentração populacional de todos os biomas áridos e semiáridos do mundo e onde não é possível viver sem integrar animais em seus sistemas de produção. E aqui podemos agregar dados para a alfabetização ecológica de todos que buscam um viver com impacto positivo, os cerrados e pradarias também são ambientes onde a produção regenerativa precisa dos herbívoros para ciclar biologicamente a matéria orgânica (grande maioria gramíneas) produzida no período das chuvas .

Vemos então que o argumento que pede o fim do especismo em prol de uma relação equânime com a natureza, de um paradigma ecocêntrico utópico onde seres humanos não ‘exploram’ outros animais não tem bases ecológicas nem energéticas. O especismo também é comumente chamado de ‘carnismo’, um termo pejorativo cunhado pela propaganda vegana para descrever as pessoas onívoras. A crítica, nesse caso, é no sentido de que os seres humanos criaram uma hierarquia de existência onde outros animais viveriam exclusivamente para nos servir.

Mas essa questão não é tão simples assim. Por um lado, todas as espécies, sem exceção, buscam alterar o meio ambiente a seu favor. O equlíbrio energético das cadeias tróficas garantiu que nos últimos 3.8 bilhões da história da evolução no planeta o jogo de vida e morte entre todas as espécies tenha servido para complexificar a vida e lutar contra a entropia.

Infográfico da Fazenda WhiteOaksPastures.com mostrando a quantidade de carbono sequestrado durante a produção regenerativa.

É por isso que uma visão ecocentrica coerente, embora celebre a existência e importância de todas as espécies, não pode excluir humanos como animais onívoros que são.

Por outro lado, embora ajamos como todas as outras espécies que alteram seu habitat para favorecer sua existência, nossa desconexão da natureza e gestão reducionista aliada ao subsídio dos recursos fósseis (que por sua vez também é causa da desconexão) nos torna a espécie mais destruidora.

Desse ponto de vista, o ‘especismo’ é inescapável. Perguntemo-nos, por exemplo, se a natureza julga uma onça por comer um veado? Ou se dentro de uma casa em chamas onde se encontram um bebê e gato, a pessoa que salvasse primeiro o gato não seria gravemente julgada por outros humanos?

Infográfico do site Sacredcow.info mostrando o consumo de água na pecuária regenrativa em comparação com a carne do agronegócio.

No entanto, dentro de um paradigma holístico de gestão onde o social, o ecológico e o econômico habitam o mesmo patamar, o onivorismo ético em cadeias de produção agroetnoecológicas biorregionais é a única opção que pode ao mesmo tempo abarcar:

  • a segurança alimentar por sua eficiência energética (veja Altieri e Tittonell acima e no link),
  • a qualidade de vida do produtor rural por conta das conexões de benefício mútuo que se formam em sistemas integrados de produção,
  • as questões ambientais porque as abordagens regenerativas compõem até 30% das soluções que podem resolver as mudanças climáticas (ver Drawdown e Charles Massy 2018). Nesse paradigma humanos mantém sua posição na cadeia trófica como onívoros, porém gerando sempre mais vida,
  • as questões de SOBERANIA alimentar porque as pessoas tem o direito de escolher sua dieta e viver de acordo com suas culturas (desde que a dieta seja suprida por métodos regenerativos) sem que uma agenda hegemônica de um ativismo míope as julgue por isso.

Infográfico so site Sacrecow.info explicando como a eliminação da carne causaria mais problemas que soluções.

Outra afirmação fora de contexto do movimento vegano é a de que a produção vegetal é 90% mais eficiente. Isso não é verdade como ! Essas afirmações precisam ser propriamente contextualizadas para que possamos discutir ciência e não propaganda. Em sistemas integrados de produção (agropecuária regenerativa) os animais são um recurso na restauração. O ‘etno’ do termo agroETNOecológico indica que viverão expressando seus comportamentos inerentes. Ademais, a eficiência dos sistemas integrados está no fato de que herbívoros (com os 4 estômagos que tem) convertem plantas não comestíveis (em terras marginais) para os seres humanos em alimento altamente nutritivo (com biodisponibilidade de nutrientes e eficiência de absorção incomparáveis).

O #govegan, com a constante manipulação dos dados e miopia para as causas reais dos problemas ecológicos é um desserviço ambiental. As causas reais dos problemas ecológicos estão na gestão reducionista do sistema vigente. Em um paradigma que insiste em enxergar a natureza como parte da economia e não o contrário. O foco de todos deve ser na produção agro-etno-ecológica biorregional DE TODOS OS ALIMENTOS, em uma gestão holística que tenha sempre no mesmo patamar as questões sociais, as ambientais e as econômicas.

As estratégias mais comuns são:
– o compartilhamento de ‘dados científicos’ fora de contexto,
– a omissão ‘do tipo de produção’ das proteinas ou das alternativas regenerativas,
– a comparação de dietas a base de plantas com a S.A.D. (Standard American Diet – basicamente uma mistura de alimentos altamente processados, açúcares refinados e gorduras saturadas) ao invés de com dietas onívoras saudáveis,
– os memes apelativos com sofismas por falsa premissa como o último que diz que várias das últimas epidemias que assolaram a humanidade vieram da ingestão da carne. Isso é outra mentira. Nós evoluimos nos últimos 300 mil anos com uma dieta onívora. O que causa as doenças é o desmatamento e a produção industrial – práticas que resultam da gestão reducionista de recursos, como expliquei acima.

Essas estratégias de propaganda, no meu ver, se alinham muito mais com o facismo da ultra-direita internacional do que com um ativismo socioambiantal progressivo e inclusivo.

Fontes (todas em inglês):

A carne e a mente: como nossa saúde neurológica e mental pode estar ligada a ingestão de carnes saudáveis;
Os Pequenos Produtores Rurais Contra o Agronegócio;
O que significa a pecuária propriamente manejada;
A Escala de Friabilidade: uma nova forma de enxergar os ecossistemas;
Site da nutricionista americana e produtora do documentário SacredCow;
Artigo no site da Fazenda White Oaks explicando o resultado das pesquisas sobre pecuária regenerativa  no sequestro de carbono atmosférico;
Site Regenerateland.com com uma compilação de artigos científicos que compartilham os efeitos da pecuária regenrativa na restauração de áreas degradadas e sequestro de carbono atmosférico.

O papel da Pecuária Regenerativa na Soberania Alimentar e Biorregionalização das cadeias de produção e consumo pós-pandemia.

O momento que passamos será chave na maneira como rearrumamos os espaços e abordagens de produção, distribuição e consumo de alimentos. A pandemia atual deixa bem claro que o sistema econômico vigente visa apenas o lucro e não o bem estar dos seres humanos e da Mãe Terra.
 
Grande parte da cadeia de produção atual, tanto de carne como de grãos e outros alimentos vegetais, é totalmente dependente dos recursos fósseis. A malha que distribui todo tipo de alimentos hoje também é altamente centralizadora e projetada para beneficiar a produção em grande escala, mas totalmente incapaz de lidar com a relocalização dos sistemas de produção seja por um colapso biológico (uma pandemia), de recursos (escassez de combustíveis) ou econômico (a incapacidade de remunerar a força de trabalho).
 
Isso não acontece por acaso. O agronegócio foi projetado como plataforma de escoamento do petróleo e seus derivados, ele não foi projetado para alimentar a população mundial. Para ser fabricado, o maquinário depende da mineração, que por sua vez também depende dos combustíveis fósseis. A industria que fabrica esses implementos também depende de muita energia para se manter. Quando colocado em uso, esse maquinário depende dos combustíveis para funcionar (arando, plantando, colhendo e armazenando). Os plantios, por sua vez, também dependem de insumos, pesticidas e fungicidas químicos derivados do petróleo.
 
Em seguida toda a cadeia de distribuição depende das embalagens plásticas, de transporte rodoviário, marítimo e, por vezes aéreo, para serem distribuídos. Os consumidores, por sua vez dirigem ou usam os transporte público para chegar aos supermercados e depois voltarem para suas casas. Os resíduos gerados precisam ser coletados, separados e empilhados nos lixões…
 
A cada ano os lucros dos produtores do agronegócio caem porque sua maneira de produzir repleta o solo, a água e a biodiversidade que embasa a vida. As dívidas crescem todo ano e a viabilidade econômica desse modelo de produção depende da socialização dos prejuízos, com o Estado pagando as dívidas. Enquanto os lucros ficam privatizados nas mãos das corporações.
 
Entretanto, não há ABSOLUTAMENTE nada de errado com esse sistema. Ele faz exatamente o que foi projetado para fazer: concentrar renda e poder as custas dos recursos naturais e dos trabalhadores envolvidos da cadeia de produção. Mas a maneira que produzimos, distribuimos e consumimos nosso alimento não precisa ser assim.

 

Pequenas propriedades que operam com sistemas integrados incluindo animais produzidos agro-etno-ecologicamente – uma abordagem que coopera com os animais respeitando seus comportamentos e necessidades específicas – já são as que mais produzem alimento para o mundo. E fazem isso usando menos água, em áreas menores e empregando mais pessoas.

O Gerenciamento Holístico (GH), uma abordagem em engloba a pecuária regenerativa tem muito a somar nesse quadro. Mas o GH não é uma abordagem de rotação de pastagens ou uma modalidade específica de pecuária. É uma plataforma de gestão de recursos e tomada de decisão!
Dentro dessa abordagem é possível planejar as rotações, por meio de uma metodologia específica que leva em conta a ecologia (e.g. habitats de outras espécies, períodos de reprodução ou migração, infestações, etc.), a viabilidade econômica e a qualidade de vida das pessoas envolvidas nos projetos.
Lote adensado sendo manejado no Centro Africano para o Gerenciamento Holístico. (Foto cedida com autorização)
Entre outras coisas, essa abordagem capacita o produtor a:
  • priorizar sua qualidade de vida e base de recursos naturais enquanto busca seus objetivos financeiros,
  • ter métricas específicas para acompanhar a restauração,
  • diminuir seus riscos em relação às secas,
  • otimizar a chuva disponível fixando carbono no solo,
  • alimentar os animais sem insumos ou cilagem,
  • usar os animais para aumentar a biodiversidade de fauna, flora e fungos da propriedade,
  • fazer o controle das pastagens ou vegetação indesejada com a prática do “impacto animal“,
  • planejar a qualidade de vida para os que vivem no campo.
 
  1.  A natureza opera em todos e padrões. Uma perspectiva holística é essencial no gerenciamento. Se baseamos decisões de gestão em qualquer outra perspectiva, nós provavelmente teremos resultados diferentes dos planejados porque só o todo é real.
  2. A Escala de Friabilidade. Os ecossistemas podem ser classificados dentro de um contínuo que vai de não-friável até muito friável de acordo com o quão bem a humidade é distribuída e a velocidade que a vegetação morta se decompõe. Nos extremos dessa escala os ecossistemas respondem de maneira diferente a influencias iguais. O descanso, por exemplo, restaura a paisagem em ecossistemas não friáveis, mas causa danos nas paisagens muito friáveis.
  3. A conexão presa-predador. Nos ecossistemas friáveis um número relativamente alto de grandes herbívoros em manada, mantidos concentrados e em constante movimento como esses animais se comportam naturalmente na presença de predadores que caçam em grupo, é vital para se manter a saúde das paisagens que pensávamos que eles destruíam.
  4. É o tempo e não o número de animais presentes que causa a degradação dos ecossistemas. Em qualquer ecossistema o sobrepastoreio e a compactação pelo pisoteamento praticamente não tem relação com o número de animais. Ao contrário, tem relação com a quantidade de tempo que as plantas e o solo são expostos aos animais.
 
As métricas ecológicas presentes no GH garantem o monitoramento eficiente dos processos de restauração. Garentem que o fluxo energético, o ciclo hidrológico, a ciclagem de nutrientes e a biodiversidade estão sendo melhorados na medida em que produzimos.
 
A crise econômica mundial de 2008, a greve dos caminhoneiros de 2018 no Brasil e a pandemia do Covid-19 nos mostram claramente que se queremos ter qualquer resilência nesses momentos precisamos garantir a existência de redes de produção, distruibuição e consumo biorregionais. Precisamos garantir a diversidade e a soberania alimentar de TODAS AS PESSOAS. Precisamos também garantir que após o colapso nossas sociedades e o sistema econômico não retornem ao seu modo de gestão reducionista que só consegue produzir alimentos, moradia e bens de consumo às custas da Mãe Terra e da saúde e bem estar humanos.
 
Nesse sentido o Gerenciamento Holístico, como plataforma de tomada de decisão para gestão de recursos em sistemas complexos e para uma produção de carne, ovos e laticínios que seja regenerativa e atenda a demanda de todas as pessoas, é uma ferramenta essencial.
 
O vídeo abaixo mostra alguns casos de sucesso na restauração do solo e ciclos hidrológicos usando a pecuária regenerativa.

 

 

Veganos, esse vai especialmente para vocês!

Tudo que consumimos ou usamos vem da terra e eventualmente volta para ela. Quanto mais anti-natural for o processo usado para produzir [alimentos], criar [animais] ou manufaturar [produtos], no fim das contas mais ele terá um impacto danoso para o meio ambiente. 

Nota: Artigo originalmente publicado em inglês por Sarah Savory e posteriormente traduzido por Eurico Vianna, PhD, com permissão da autora. 

De forma para que para todos os veganos, se você não quer comer carne nem usar produtos de origem animal, não o faça. Mas pelo amor que você tenha a toda a vida em nosso lindo planeta e o pelo futuro dela, não troque cegamente essas opções por produtos de origem animal falsa, porque a longo prazo os processos usados para produzir todas essas coisas artificiais causará muito mais devastação ao nosso meio ambiente. 

“O Santo Cálice da sustentabilidade é um sistema de cadeia fechada”. Por exemplo, na questão do couro a natureza criou seu próprio ‘sistema de cadeia fechada’. A carcaça de um animal pode se decompor no chão nutrindo plantas que serão consumidas pela próxima geração daquela espécie. O couro artificial, por outro lado, não se decompõe e não pode ser refeito como outro item de couro artificial a não ser que passasse por um processo de quebra completa da cadeia molecular para só então poder ser reutilizado. 

Veja, por exemplo, os ingredientes necessários para a produção completamente anti-natural do hamburger vegetal da Beyond Meat, e isso sem nem discutirmos os químicos e outros produtos necessários para construir e operar os laboratórios onde a “carne” é produzida: água, isolado de proteína de ervilha, óleo de canola prensado por expeller, óleo de coco refinado, proteína de arroz, sabores naturais, manteiga de cacau, proteína de feijão de Mung, metilcelulose, amido de batata, extrato de maçã, sal, cloreto de potássio, vinagre, concentrado de suco de limão, lecitina de girassol, pó de suco de romã, extrato de suco de beterraba e trigo geneticamente modificado. Agora analise a produção de cada um desses ingredientes separadamente e pesquise o impacto deles no meio ambiente. 

Quando mais anti-natural (ou artificialmente fabricado) o produto é mais impacto negativo ele tem em nosso meio ambiente. Os animais produzidos pela pecuária intensiva industrial, por exemplo, são produzidos de maneira completamente artificial, o que não é apenas cruel e bárbaro, mas também destrutivo para o meio ambiente. O mesmo serve para qualquer cultivo na agricultura industrial ou organismos geneticamente modificados.

Em última instância, qualquer coisa que degrada o meio ambiente, destrói nossa cultura, nossa sociedade e nossa economia porque essas coisas estão intricadamente conectadas em um Todo complexo: pessoas, terra, economia… nenhuma dessas coisas pode funcionar isoladas umas das outras.

Allan Savory com sua filha Sarah e netos no Centro Africano para o Gerenciamento Holístico.

A Tomada de Decisão Holística respeita esse fato e se assegura de estar sempre levando todos eles em conta simultaneamente. Isso significa que independente de quem somos, de onde vivemos, de quais são nossas opções pessoais, ou quais são nossas diferenças culturais, nós estaremos sempre tomando a melhor decisão possível para o meio ambiente que sustenta [toda] a vida.

E a Estrutura do Gerenciamento Holístico introduz as produtoras a uma ferramenta biológica nova para restaurar as pastagens [pradarias e savanas]: os organismos vivos.

A Natureza não se preocupa com o indivíduo. É a força do todo que é vital.

Uma manada é tão forte quanto seus integrantes mais fracos e é por isso que a natureza desenvolveu predadores que atuam em bandos [alcatéias]. 

Esses predadores tem duas funções essenciais:  

A primeira é assegurar o impacto preciso de manadas enormes. Os predadores mantém as manadas bem agrupadas e em constante movimento de forma que suas patas estão sempre estimulando e aerando o solo enquanto pisoteiam e fertilizam a vegetação com suas fezes e urina e suas entranhas fornecem a umidade vital que os micro-organismos precisam durante as longas estiagens para se manterem ativos e capazes de decompor biologicamente a matéria orgânica seca; formando assim uma camada protetora perfeita, com uma cobertura de solo fértil (mulch) que o mantém protegido até as próximas chuvas.

O outro trabalho vital do predadores é selecionar os animais mais fracos de maneira a manter aquela manada ou espécie tão forte quanto seja possível. 

Entretanto nós surgimos com um novo poder sobre o fogo e o uso de tecnologia e começamos a desconsiderar e desrespeitar completamente as rigorosas leis e equilíbrio da natureza. Nós exterminamos as grandes manadas, cercamos os animais, removemos os predadores do topo da cadeia alimentar (incluindo nós mesmos) dos ecossistemas, nós tomamos decisões infindáveis por espécies em isolamento do todo e isso bagunçou tudo de forma que agora até nossa própria existência está em risco. Está na hora de corrigirmos isso.

Muitas pessoas já estão usando o planejamento holístico de pastagens como ferramenta na pecuária para imitar o movimento natural das manadas que as pradarias precisam ter para sobreviver – emprestando as patas dos herbívoros para restaurar o solo até que consigamos mais uma vez aumentar a biodiversidade e os números da vida selvagem para que ela possa, em primeiro lugar, desempenhar novamente a função para a qual foi desenvolvida pela natureza.

O Gerenciamento Holístico conectando tudo, porque tudo está conectado. 

O que a Permacultura não é – Um estudo resumido

A permacultura foi criada como resposta para um contexto social, econômico e ecológico específico – o de um colapso gravíssimo que já vem se desenrolando desde a revolução industrial.

Na medida em que ela ganha tração como ferramenta que fortalece os que se propõem a fazer a transição seja por opção ou já por necessidade, ela encontra resistência entre aqueles que tem dificuldade de aceitar que já vivemos uma crise ecológica e econômica de proporções globais e sem retorno. 

Para a maioria das pessoas é difícil imaginar um projeto de civilização que não seja o capitalista sem que sejam remetidos a um dualismo limitante. O que surge imediatamente para a maioria é um medo do comunismo ou socialismo tanto pela maneira que se manifestaram no passado quanto pela distorção da propaganda ocidental.

Muitas dessas pessoas que não conseguem ver um viver que vá além do capitalismo tem se apropriado da permacultura trazendo incoerência e confusão para os que buscam nela uma ferramenta eficiente de transição. Esse trabalho busca abordar de maneira resumida porque essa apropriação acontece e o que podemos fazer para evitá-la.  

A permacultura foi criada como resposta a uma ideologia que já falhava com os seres humanos e a natureza na década de 1970. Nessa perspectiva ela se pautou, entre várias outras fontes, pelo relatório Limites do Crescimento. Um estudo acompanhado de uma simulação computadorizada lançado em 1972 e que desde aquela época já dizia que não podemos sustentar uma economia que exige crescimento infinito explorando os recursos limitados do planeta. 

Naquela época ainda vivíamos dentro da capacidade do planeta e as recomendações eram no sentido de usarmos os recursos restantes, principalmente os combustíveis fósseis para preparar uma transição para outros modos de viver com outras fontes de energia. Mais de 30 anos se passaram e grande parte das simulações se concretizaram:

    • O nível do mar subiu de 10 a 20 cm desde 1900. As geleiras que existem fora das calotas polares estão derretendo e a extensão e profundidade das camadas de gelo marinho no Ártico estão diminuindo durante o verão;
    • Em 1998 mais de 45% da população mundial já vivia com menos que $2 dólares por dia em média. Enquanto isso o ⅕ mais rico da população mundial já detinha 85% do PIB mundial e a distância entre ricos e pobres cada vez aumenta mais,
    • Em 2002 a FAO, departamento de agricultura da ONU, estimou que em torno de 75% das áreas de pesca já haviam chegado ao seu limite ou extrapolado sua capacidade. A indústria pesqueira do bacalhau no Atlântico Norte, antes sustentável por séculos, colapsou e muitas espécies foram extintas.
    • A primeira avaliação global de perda de solo superior por erosão, baseada em estudos de centenas de especialistas, descobriu que 38%, ou em torno de 1.4 bilhões de acres de terras agriculturáveis já foram degradadas.
    • 54 nações tiveram seu PIB per capita em declínio entre 1990 e 2001.

Esses são dados do site da Donella Meadows e alguns de seus colegas em uma avaliação 30 anos após o relatório original e já com quase 20 anos de publicação. Outro dado que não mencionei é que desde a década de 1970 que a dívida pública mundial SEMPRE CRESCE MAIS QUE A SOMA DOS PIBs de todos os países (Nate Hagens, 2012). 

A preocupação da permacultura com a sustentabilidade e o pico do petróleo se revela pela afinidade com o trabalho do ecologista Howard Odum e uma obsessão constante pela auditoria e eficiência energética dos sistemas propostos.

Do ponto de vista social, essa estudo revela as origens da permacultura no movimento anarquista, no sentido daquelas organizações sociais mais igualitárias e distribuídas onde todos participam diretamente das decisões. Revela também um planejamento deliberado de interações e atitudes que visam restaurar os tecidos sociais rompidos pela competitividade extremada do sistema vigente. 

É essa base anárquica que enxerga e visa a cooperação e não a competição como característica evolutiva que permitiu a humanidade chegar até aqui. Também é essa base que busca tornar governos e estruturas centralizadoras obsoletas por meio de um desenho de vida no qual somos mais responsáveis pela nossa moradia, energia, água, alimentos e resíduos gerados.

E aqui vale ressaltar o trabalho do Paulo Campos, ativista ambientalista do Crato, no Ceará, que tem garimpado as citações e referências ao pensamento anarquista na literatura da permacultura desde o Permacultura 1, o livro que lançou essa abordagem, até os mais atuais.

Então a gente vê como a ética da permacultura – o cuidado com a Terra (e aqui devemos ver ‘terra’ tanto como o terreno que ocupamos e produzimos até a Mãe Terra), o cuidado com o próximo e a partilha do excedente – é embasada em limites ecológicos e energéticos muito concretos já há muito tempo cientificamente comprovados.

E é a constatação desses limites ecológicos e energéticos que também rege o ‘desenho de comportamento’, os princípios eco-anarco-sociais que visam descentralizar e redistribuir a utilização de recursos e a tomada de decisões.

A Permacultura como ferramenta 

Não me considero um permacultor, um porta-voz e menos ainda um guardião.

Eu enxergo e aplico a permacultura como uma das ferramentas interdisciplinares para entender sistemas ecológicos, sociais e agroecológicos, para promover alfabetização ecológica, noções de economia biofísica e integrar junto com outras abordagens meus planejamentos de áreas.

A Agricultura Natural concebida pelo Fukuoka, o Gerenciamento Holístico do ecologista Allan Savory, a agrofloresta sucessional que se desenvolve no Brasil hoje são outras ferramentas que uso. E aprendi a organizar essas ferramentas dentro da Escala de Permanência do Australiano P.A. Yeomans, muito pela influência de outro australiano, o Darren J. Doherty.

Entretanto, quando encontramos uma ferramenta boa, existe uma tendência de querermos explorar suas capacidades, seus limites, as várias maneiras como pode ser usada muitas vezes para além das finalidades para qual ela foi criada. Para explorar todas essas possibilidades é necessário um aprofundamento, uma análise ontológica mesmo, aquela que vai além da infinidade de definições existentes para revelar sua natureza plena e integral.

O que a permacultura não é e onde ela não deve ser usada

A permacultura tem como princípio o foco nas soluções e não ‘no problema’. Como recomendava Buckminster, o ideal é criarmos uma nova realidade que automaticamente torne o problema ou paradigma anterior obsoleto.

Esse princípio frequentemente guia a gente para que não gastemos tempo com interações pouco proveitosas seja pessoalmente ou na internet. Isso tem causado um vácuo de conteúdo que permite o surgimento de ‘expoentes’ por vezes mal informados e por outras mal intencionados para ocupar esse espaço. Isso se dá mesma maneira que um sistema pouco diverso ou o solo descoberto convidam as chamadas ‘ervas daninhas’ para colonizar os nichos que ficaram abertos.

Por ter essa perspectiva e por entender a internet como uma oportunidade descentralizada de disseminação de ideias e alternativas eu me pego interagindo em situações nas quais muitos dos educadores mais velhos não interagem.

E foi essa preocupação com a permacultura como ferramenta, como meio de alcançarmos alternativas viáveis, que me motivou a escrever esse texto.

Não vejo a permacultura como fim, como um objeto ou instituição que precisa de normas ou guardiões. Mas gosto de deixar minhas ferramentas afiadas e prontas para cumprirem suas funções da melhor maneira possível. Por isso tenho investido tempo interagindo em alguns grupos frequentemente compartilhando minha visão do que a permacultura não é.

A permacultura não tem religião!

E não é plataforma de lançamento de falsos Xamãs ou gurus. A permacultura não precisa de complementação religiosa ou espiritual! Ela reverencia a natureza e facilita nossa conexão com ela por meio da leitura de paisagem e ensinando seus princípios de uma maneira que cria pontes para que à partir do entendimento intelectual possamos chegar a percepção mais profunda de que também somos natureza. É assim que ela cumpre sua função de religare, palavra latina que deu origem ao termo ‘religião’ e que significa uma reconexão com a natureza que nos cerca.

A permacultura não é vegetariana, nem Vegana!

Nem poderia ser pois ela tem como base a ecologia cultivada, o entendimento das pirâmides tróficas para aumentar a eficiência energética nos sistemas projetados. Especialmente na pequena e média escalas que favorecem a agricultura familiar e pensando na grande maioria que vive em situação de risco social e alimentar.

Sua função, portanto, é entender e usar essa rede intricada com seus processos de adaptação, de competição e cooperação e de conexão presa-predador de forma a restaurar os ecossistemas onde atua enquanto provê para nós seres humanos.

Como princípio, a permacultura prega o foco na solução. De forma que se a carne produzida pela agroindústria é um dos problemas ambientais para o qual o veganismo se apresenta como resposta, a solução não é deixarmos de comer carne, é comermos a carne produzida de forma regenerativa. 

A permacultura nunca pregou o vegetarianismo ou veganismo como alternativas para o ativismo ambiental. As escolhas pessoais devem ser respeitadas. Mas apresentar o veganismo como ‘uma evolução’ na permacultura, da consciência ambiental e dos sistemas de produção regenerativos devem ser combatidas é uma distorção sem base na ecologia ou na teoria da abordagem.

Bill Mollison explicava isso muito bem e tanto seus livros quanto aulas gravadas tem registro desse posicionamento. David Holmgren e sua companheira Su Dennett levam sua propriedade, Melliodora, como um estudo de caso a longo prazo detalhado tanto a produção anual como as conquistas em direção a auto-sustentabilidade. Apesar de uma dieta majoritariamente ovo-láctea variadíssima, eles também comem carne de caça e dos frangos que criam.

A permacultura não é hippie! 

Pelo menos não no sentido atual onde as pessoas que negam “o sistema” terceirizam para os outros o financiamento de sua educação, bem estar ou oportunidade de experiências transcendentais. Para esses hippies o argumento é sempre “não ter recursos”, enquanto de alguma forma milagrosa não faltam recursos para as drogas de sua preferência, sejam elas o que forem… açúcar, café, álcool, cigarro, maconha, dmt, md, baladas, festivais, viagens… etc. 

Agora, no sentido original, anticolonialista onde o movimento de abandono da sociedade de consumo é uma decisão minimamente coerente em busca da autonomia, como foi o caso de Gandhi na Índia contra o colonialismo Britânico, aí sim ela hippie.

Hippie no sentido de entendermos que devemos produzir mais do nosso alimento, das nossas roupas, cuidar mais da água que mantém nossa vida e de como lidamos com o lixo que geramos… No sentido de tudo isso ser um processo contínuo, uma direção, um norte e de que estamos juntos seguindo essa trilha, uns mais a frente, outros mais atrás e está tudo bem assim. Nesse sentido alguns podem classificá-la como “coisa de hippie”; e nesse caso isso é um elogio!

E por último…

A permacultura não é liberal, nem neoliberal e muito menos anarcocapitalista.

Todas essas ideologias enxergam a natureza como parte da economia e não a economia como parte da natureza. Elas endeusam a propriedade privada e justificam o acúmulo de privilégios a partir de uma pseudo-meritocracia. Essas ideologias são, portanto, incapazes de cumprir com os princípios éticos do cuidado com a terra, do cuidado com próximo e a da partilha do excedente. 

Embora haja exceções, via de regra a filantropia capitalista tem como objetivos principais a isenção fiscal e o marketing pessoal e social. Muito raramente os que se alinham com qualquer versão da ideologia capitalista conseguem se alinhar com “a partilha do excedente”. E incluir a partilha do excedente como ética fundamental foi a maneira que os co-criadores encontraram de embutir na permacultura a distribuição de renda, terra ou qualquer outro tipo de excedente e garantir que a abordagem e o movimento fossem sempre progressistas e estivessem sempre alinhados com a justiça social e não com a caridade.

Nada impede que pessoas de qualquer inclinação usem práticas sustentáveis ou regenerativas, mas como muito bem explica minha amiga Camila Bianchi, “elencar ecotécnicas não é fazer permacultura”. 

Ações, práticas e projetos tocados por pessoas alinhadas com qualquer versão da ideologia vigente não constituem a prática da permacultura pois não conseguem conceber a partilha de qualquer que seja o excedente gerado.

Portanto, a permacultura é política! Porque, de novo, como a Camila coloca muito bem, quando decidimos como usamos e ocupamos o solo e outros recursos naturais, como planejamos de forma integral os fluxos e ciclos, como aliamos conhecimentos tradicionais com tecnologias contemporâneas são todas decisões políticas. 

E no caso da permacultura são decisões políticas com bases eco-anarco-socialistas muito bem documentadas na literatura e exemplo dos co-criadores. Agora…

Como difundir amplamente a permacultura como alternativa para um novo modo de ocuparmos o planeta? Como garantir que a abordagem e o movimento social se mantenham fiéis às suas bases ideológicas? 

A resposta curta para a primeira pergunta é: estudando e praticando da forma mais coerente possível a literatura e o exemplo deixado pelos seus co-criadores.

A resposta curta para a segunda pergunta é: não há como ter essas garantias! 

A apropriação da permacultura por pessoas e movimentos totalmente desalinhados com ela como o liberalismo, o anarcocapitalismo e outros absurdos como o MGTOW (os Homens Seguindo Seu Próprio Caminho) é a prova de que não há garantias nesse sentido.

Apresentar a permacultura como alternativa ampla, autônoma, replicável e com difusão em redes distribuídas é um desafio de proporções gigantescas.

O sistema vigente apodrece as relações humanas, rompe com as fábricas do tecido social e assassina a natureza e não existe uma solução única para situações complexas.

Mas a permacultura já foi criada como solução para esses problemas e com o intuito de ser uma alternativa que pudesse se difundir rapidamente. Quando o Bill Mollison autoriza qualquer pessoa que tenha um certificado de um PDC nas mãos a ensinar tão logo termine o curso, ele está compartilhando o excedente em autoridade que ele tinha. 

Mais ainda, ele está se valendo dos princípios anárquicos para criar uma rede onde o poder e o conhecimento estão distribuídos igualmente. Ele está apoiando a criação de uma rede que quando começa e se replicar, faz isso de maneira rizomática e se estabelece sem centro definido, dificultando portanto qualquer iniciativa de combatê-la.

É óbvio que a preocupação com a qualidade é necessária e importante. Mas se nos posicionamos como guardiões não estaremos sendo coerentes com a origem e princípios anárquicos da permacultura.

As pessoas alinhadas com ideologias capitalistas tem se apropriado da permacultura e de sua narrativa, como uma ‘erva daninha’ que coloniza um espaço onde o solo está exposto, como disse acima, mas essa ‘colonização’ não é regenerativa. A melhor maneira de salvaguardarmos a qualidade da permacultura ensinada é ocupando os espaços disponíveis com conteúdo POLITIZADO de qualidade. 

É tendo planos detalhados de multiplicação e  apoio para novos ativistas, cada um na sua vocação. Uns ensinando, outras produzindo no campo, outras desenvolvendo tecnologias apropriadas, outras projetando, e alguns fazendo um pouco de tudo. 

Eu fiquei muito feliz, depois de insistir na necessidade de sucessão do movimento já há um tempo, de ver o David Holmgren em uma entrevista recente dizer que:

“Sucessão é enormemente difícil, especialmente entre pensadores e ativistas ambientalistas radicais e individualistas. … Aprender como navegar essas mudanças que inevitavelmente chegarão para todos nós enquanto envelhecemos é um caminho muito importante para o futuro. E é muito importante no contexto da cisma crescente em equidade entre os jovens que não tem acesso à terra e as pessoas mais velhas que tem propriedades simplesmente por conta do acaso da história, das bolhas imobiliárias e outras dinâmicas que não tem nada a ver com nosso trabalho duro ou o que fizemos sensivelmente. Então esses assuntos são delicados e eu não acredito que existam respostas fáceis, mas [a sucessão] é central no pensamento de vários pioneiros da permacultura, no sentido de como o trabalho deles pode continuar de alguma forma” (Entrevista para o Gardening Australia, 07/02/2020)  

Eu só acrescentaria que a partilha da autoridade como excedente acumulado, como disse antes, também é central.

Então, em resumo, como possibilidades para que alcancemos uma massa crítica em tempo de preparar Santuários de Sanidade Mental e Ecológica (que é como eu venho chamando esses espaços), em tempo de salvar a humanidade da extinção iminente eu recomendaria:

    • Facilitarmos o acesso dos jovens, principalmente os de baixa renda, à permacultura com vistas na formação de agentes locais,
    • A construção de comunidades de prática com foco no fomento (e não vigília),
    • A produção de conteúdo multimídia de qualidade amarrando as ligações entre as bases ideológicas e as técnicas utilizadas, 
    • O hábito deliberado de endossar o trabalho dos novos talentos, de estabelecer referenciação cruzada entre as diferentes gerações, 
    • O enfrentamento direto da apropriação com base na literatura e exemplos dos co-criadores.

Eu realmente acredito que existem muito mais alternativas, mas essas são algumas das que eu vejo mais claramente se alinhando com a intenção original dos co-criadores, na minha interpretação é claro, e que podem explorar melhor o espaço da internet para difundir uma permacultura de qualidade.

Muito obrigado!
Eurico Vianna

Nota de edição 19/02/20 – À partir do feedback de amigos e colegas fiz algumas edições no texto. Uma das dificuldades com esse texto é que foi produzido para guiar uma fala e não como artigo. Na medida do possível irei adaptando as versões.
– O título foi alterado trocando ‘ontologia’ por ‘estudo’ por sugestão do Bernardo do grupo ‘Só Permacultura’. Segundo ele, filosoficamente ‘ontologia’ não é aplicada quando a narrativa escolhida é definir pelo que não é. Embora na sociologia esse recurso seja usado, achei válida a sugestão.
– A Suzana, educadora e ativista do Yvy Porã em SC, sugeriu explicar melhor os conceitos de ecologia cultivada. Também achei válida a sugestão.  

Empreendedorismo rural em redes distribuídas por Guilherme Tiezzi

“Novos modelos de negócios estão emergindo.  Estruturas abertas, descentralizadas, auto-organizadas permitem que projetos e empreendimentos avancem de maneira diferente, permitindo que não o empreendedor, mas o grupo de empreendedores, possam compartilhar seus sonhos e fazer com que o empreendimento, alem da dimensão econômica, possa resgatar ou fazer brotar, as questões filosóficas na essência do empreendimento.” É essa a proposta que Guilherme Tiezzi traz para o campo, para a agricultura regenerativa. Uma visão holística que engloba teoria, prática, qualidade de vida, ética, espiritualidade e economia.

Guilherme é empreendedor, designer e animador de redes colaborativas com foco especial em redes de negócios entre grandes e pequenas organizações. É cofundador Value Builders – RVA (Rede de Empreendedores Colaborativos) e da Agenttia (Inovação e Negócios em Redes de Distribuição). Atualmente ele traz esses conceitos e práticas para a EcoAraguaia, a primeira fazenda a ser idealizada dentro do conceito Fazenda do Futuro, dentro do qual a Natureza é reconhecida com um ser com direitos como os humanos. A EcoAraguaia busca gerar prosperidade e rentabilidade integrando-se à comunidade local e ao meio ambiente. É mais um Santuário de Sanidade Mental e Ecológica que surge construindo uma realidade na qual nos entendemos como Natureza e onde nosso viver otimiza a vida como um todo no planeta.

Hoje a agricultura convencional trabalha com tecnologia petroquímica, transmutações genéticas e maquinário para produzir comódites para o mercado financeiro. Ela concentra renda e terras nas mãos de corporações e é responsável por mais de 30% da emissão dos gases poluentes que aceleram as mudanças climáticas e a sexta maior extinção em massa da história da Mãe Terra. Ela também é responsável pela degradação de solos em escala planetária. Para esconder o fato de que esse modelo de produção nada tem a ver com produção de alimento, milhões são gastos todo ano mentindo, confundindo e desinformando para seguir lucrando com a devastação.

Cabe a nós, proponentes e co-criadores do paradigma regenerativo, produzir, educar e informar com a verdade e segurança ecológica necessárias. Cabe a nós gerenciar nossos recursos de forma holística englobando a qualidade de vida, a restauração ecológica e a viabilidade econômica de quem produz no campo. E essa é uma contribuição importantíssima do Guilherme – a visão, knowhow e dedicação para os empreendimentos rurais, além de regenerativos, sejam realizados em redes distribuídas confirmando em nossas transações econômicas e interpessoais a abundância da Natureza.

No texto que segue Guilherme compartilha sua visão da gravidade dos desafios e como podemos transporte-los. Obrigado, irmão! As pessoas e lugares à sua volta tem mais vida e sentido por conta da sua dedicação!

Aja agora! Estamos em Batalha….

Segundo uma lenda Tibetana* um período sombrio e ameaçador dominado por poderosos bárbaros ameaçará nosso planeta com armas de alta tecnologia e devastador poder de destruição. Enquanto os bárbaros colocam toda sua energia na destruição de uns aos outros  emerge em nosso planeta o Reino de Shambhala.

Um reino sem terras, sem propriedades; você não pode ir lá ! Um reino que  existe no coração e mente de cada guerreiro Shambhala. Esses guerreiros não são reconhecidos por uniformes, marcas,  logos ou por pertencerem a uma organização. Não possuem armas de destruição mas precisam vencer os bárbaros dentro de seu campo de atuação,  penetrando no seu centro de poder e comando, onde suas decisões são tomadas.

Chega o momento onde os guerreiros Shambhala precisam de uma enorme coragem, uma coragem tanto física como moral. Eles precisam enfrentar e desarmar os poderosos bárbaros e sabem que podem e precisam fazer isso. Sabem também que as armas são criações da mente humana e, por essa mesma razão, podem ser destruídas também por ela. Os guerreiros Shambhala sabem que o grande perigo que ameaça a terra não vem de forças externas. Sabem que esse perigo e terrível medo vem de nossas próprias escolhas e relacionamentos.    

Duas armas são utilizadas pelos Shambhala: a compaixão e a intuição.  Ambas são necessárias.  

A primeira nos dá o combustível para agir e nos mover em benefício de todos os outros seres humanos. Mas sozinha ela pode nos queimar!   Precisamos então da segunda também. Precisamos  da intuição  para sentir a interconectividade entre tudo e todos. Ela nos faz perceber que a batalha não é entre pessoas do bem e pessoas do mal, nos faz perceber que a batalha entre o bem e o mal está dentro do coração de cada um de nós. Através dela uma ação aparentemente isolada pode afetar toda a rede que pertencemos, trazendo consequências imensuráveis e inimagináveis.

Mas intuição sozinha pode ser muito fria para nos manter em movimento. Pode nos congelar! Por isso precisamos do calor da compaixão e a continua abertura e inquietude pelas dores do mundo. As duas armas ou ferramentas são necessárias para os Guerreiros Shambhala!

Precisamos agir! Agir com compaixão e intuição. Agir com atenção e equilíbrio. O momento é o agora. Presente. Não violento. Pacífico.

Temos que para isso sonhar, planejar, fazer e celebrar. De cada 1.000 projetos sonhados, 100 passam para a fase de planejamento, 10 são realizados e 1 é celebrado e segue em um novo ciclo empreendedor.  A principal razão está na estrutura hierárquica, centralizada e controladora em que os projetos são concebidos e na forte dependência do capital. É nesta estrutura que o empreendedor se isola e solitariamente empreende e sofre com negócios onde a única dimensão a ser buscada é a  dimensão econômica. As pessoas, inclusive o empreendedor, são continuadamente diminuídas. São recursos desumanos. Toda relação passa a ser um relação utilitarista e transacional, uma relação entre cliente e fornecedor, de compra e venda, onde cada vez mais, o outro é um objeto!

Nestes 10 anos convivi intensamente com vários empreendedores de vários setores, portes e gerações e para a grande maioria deles o “sonho” esta fora da empresa.  Existe uma “desconexão” entre  seus valores mais íntimos, humanos e colaborativos, e as atitudes severas e desumanas consideradas necessárias para a sobrevivência do negócio. A maioria tem olhares para um mundo da escassez onde o acumulo rápido de recursos a eliminação do concorrente é o que realmente importa. Bárbaro!  

O sonho de resgate do trabalho com significado, da colaboração e da valorização de ser humano está tomando força a cada pequena ação, a cada atividade, a cada projeto a cada empreendimento, no coração de cada um de nós. Novas tecnologias de comunicação, redes sociais, novas gerações de empreendedores e um velho mundo definhando por esgotamento de recursos são ingredientes para a emergência do novo.

Novos modelos de negócios estão emergindo. Estruturas abertas, descentralizadas, auto-organizadas permitem que projetos e empreendimentos avancem de maneira diferente, permitindo que não o empreendedor, mas o grupo de empreendedores, possam compartilhar seus sonhos e fazer com que o empreendimento, alem da dimensão econômica, possa resgatar ou fazer brotar, as questões filosóficas na essência do empreendimento.  

Empreendimentos buscam a reconexao do humano com o humano e destes com o planeta terra. Resgate de nossa natureza! Um novo empreendedor em rede, conectado, espiritualizado, esta formando e sendo formado por um novo e vivo ecossistema, em vários lugares, ao mesmo tempo, com o mesmo impulso… esse novo empreendedor vê um mundo com olhos da abundância, permitindo que o fluxo incondicional de recursos, de dinheiro, de bens, de conhecimento, de sofrimento e de amor, flua e construa uma nova cultura de paz. Shambhala!

A Value Builders é somente um palco, um campo de energia, em conexão com um campo maior e fará parte do todo sendo todo da parte. Fractal!  Um grupo de humanos inquietos e criativos, buscando a partir do encontro e do fazer desenvolver seus sonhos e empreendimentos.

Não vamos abrir mao de nenhum pedacinho do nossos sonhos. Todos podemos ter 100% de deles realizados. Vamos empreender a mudança que queremos ver no mundo, transformando o mundo e nos transformando.   Trabalhemos e amemos, conectados com nossa essência, essência social e espiritual. Espero, em contínua atividade, que nos próximos 10 anos possamos ver uma rede de negócios e empreendedores ativa, rentável, viva e contemplativa!

Agradeço de coração a todas as pessoas que me proporcionaram encontros, aprendizados e presença nestes 10 anos de “batalha”. Não empreenderia absolutamente nada sem vocês.

Guilherme Plessmann Tiezzi , 2012

Texto originalmente escrito no e-book de 10 anos da Value Builders.

Se você quer salvar o mundo, veganismo não é a solução – por Isabella Tree

A produção intensiva de carne e laticínios é uma praga, assim como as lavouras de soja e milho. Mas há uma alternativa.

“chamados para que adotemos alimentos completamente à base de plantas ignoram algumas das ferramentas mais poderosas que temos para mitigar esses problemas: os animais herbívoros.” Imagem – Matt Kenyon

O veganismo explodiu no Reino Unido nos últimos dois anos – de estimados 500 mil pessoas em 2016 para mais de 3.5 milhões, ou 5% de toda a população hoje. Documentários formadores de opinião como Cowspiracy e What the Health jogaram os holofotes em cima da indústria de carne e laticínios expondo os impactos na saúde animal e humana e no meio ambiente.

Nota: Texto originalmente publicado no The Guardian por Isabella Tree. Os links originais foram mantidos e estão todos em inglês. Tradução livre Eurico Vianna, PhD.

Nossos solos estavam quase mortos. Agora temos 19 tipos de minhocas e 23 espécies de besouro-rola-bosta em um único piquete.

Entretanto os chamados para que adotemos alimentos completamente à base de plantas ignoram algumas das ferramentas mais poderosas que temos para mitigar esses problemas: os animais herbívoros.

Ao invés de sermos seduzidos por exortações para comermos mais produtos produzidos à partir da soja, milho e grãos produzidos industrialmente, nós deveríamos encorajar formas sustentáveis de produzir carne e laticínios baseadas em formas tradicionais de rotação, pastagens permanentes e pecuária regenerativa (NOTA “CONSERVATION GRAZING). Deveríamos, pelo menos, questionar a ética de aumentarmos a demanda por cultivos que requerem quantidades enormes de insumos químicos como fertilizantes, fungicidas, pesticidas e herbicidas, enquanto demonizamos abordagens alternativas para pecuária que podem restaurar os solos e a biodiversidade e sequestrar carbono.

Em 2000 meu esposo e eu mudamos nossa fazenda de 1.400 hectares (3.500 acres) em West Sussex para a produção de gado Longhorn inglês, porcos Tamworth, pôneis Exmoor e veados-vermelho e gamos em pastagens extensivas como parte de um projeto de renaturalização. Durante 17 anos nós passamos dificuldades para manter nossos empreendimentos de laticínios e grãos lucrativos, mas em um solo raso argiloso formado à partir de rochas Weald, nós não podíamos competir com fazendas com solos melhores. A decisão mudou completamente nosso destino. Agora o eco-turismo e o aluguel das edificações rurais e 75 toneladas de carne orgânica criada a pasto por ano contribuem para um negócio lucrativo. E uma vez que os animais vivem soltos o ano todo, com bastante alimento, eles não precisam de suplementação com ração e raramente precisam de veterinário.

Os animais vivem em manadas que se formam naturalmente e vagueiam onde quiserem. Eles chafurdam em córregos e campos encharcados. Eles descansam onde gostam (eles desdenham os celeiros que deixamos abertos como abrigos) e comem o que gostam. O gado e os veados pastejam flores silvestres e capim, mas também em arbustos e árvores. A maneira que pastejam, formam poças e pisoteiam estimula a vegetação de formas diferentes, o que por sua vez cria oportunidades para outras espécies, inclusive de pequenos mamíferos e pássaros.

Corujas Pequenas – uma das cinco espécies de corujas encontradas em Knepp – fazem um banquete no número crescente de besouros-rola-bosta. Foto Ned Burrell.

Primordialmente, porque não usamos ivermictina (o agente anti-parasita rotineiramente usando nos sistemas de produção industrial) ou antibióticos, o estrume deles alimenta as minhocas, bactérias, fungos e invertebrados como besouros-rola-bosta que puxam o estrume para o solo devolvendo nutrientes e estrutura ao solo. A perda de solo por erosão é umas das maiores catástrofes que o mundo enfrenta hoje. Um relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) de 2015 declara que perdemos globalmente de 25 a 40 bilhões de toneladas de solo superior em processos erosivos graças a aragem do solo e plantios intensivos. No Reino Unido a destruição do solo superior foi tão severa em 2014 que a revista de comércio rural Farmers Weekly anunciou que talvez só tenhamos apenas 100 colheitas mais. Deixar terras aráveis em pousio na forma de pastagem herbívoros por um período – como os produtores costumavam fazer antes dos fertilizantes químicos e da mecanização tornarem possível o cultivo contínuo – é a única forma de reverter esse processo, parar a erosão e restaurar o solo de acordo com FAO. A pecuária a pasto além de gerar renda para os produtores, acelera a restauração dos solos por meio do estrume, urina e mesmo a forma como os animais pastejam. O ponto é ser orgânico e manter a taxa de lotação baixa para prevenir sobre-pastoreio.

Há 20 anos nossos solos na fazenda – altamente degradados depois de décadas arando e aportando com químicos – estavam quase biologicamente mortos. Agora temos fungos brotando e orquídeas aparecendo onde antes era área de cultivo, um indicativo de que as redes subterrâneas de micorriza estão se espalhando. Nós temos 19 tipos de minhoca – espécie importantíssima para aerar, renovar, fertilizar, hidratar e até mesmo desintoxicar o solo. Nós encontramos 23 espécies de besouro-rola-bosta em um único piquete, um deles é o geotrupes mutator que há 50 anos não era visto em Sussex. Pássaros que se alimentam de insetos atraídos pelo estrume nutritivo estão aumentando rapidamente. A maneira com que os porcos viram o solo cria oportunidades para a flora nativa e arbustos germinem, incluindo o salgueiro-cinzento, o que criou a maior colônia de Imperador Roxo na Inglaterra, uma das borboletas mais raras que põe seus ovos nas folhas do salgueiro-cinzento.

Esse sistema de pastagem natural além de ajudar o meio ambiente em termos de restauração de solo, biodiversidade, insetos polinizadores, qualidade de água e mitigação de enxurradas, também garante uma vida saudável para os animais, que por sua vez produzem carne que é saudável para nós. Em uma comparação direta com a carne produzida em ração ou engordada em ração em sistemas industrializados, a carne criada somente a pasto tem altas concentrações de beta caroteno, cálcio, selênio, magnésio, potássio, vitaminas E e B e ácido linoleico (um anticâncer poderoso). A carne criada exclusivamente a pasto também tem altas concentrações de ácidos graxos ômega-3 de cadeia longa, vitais para o desenvolvimento cerebral saudável, mas dificílimo de ser obtido em uma dieta vegana.

Já se falou muito do gás metano produzido pela pecuária, mas essa emissão é muito menor em sistemas de pastagem que inclui plantas selvagens como a angélica, um vermicida natural, a bolsa-de-pastor e o cornichão porque contêm ácido fumárico, um composto que quando foi adicionado à dieta de ovinos no Instituto Rowett em Aberdeen reduziu as emissões de metano em até 70%.

Em comparação, o custo do carbono perdido na aragem do solo raramente é considerado. Desde a revolução industrial, de acordo com um relatório do jornal científico Nature de 2017, nós já perdemos cerca de 70% do carbono do solo para a atmosfera nas terras onde usamos o arado.

Aqui temos uma responsabilidade enorme: a não ser que estejamos produzindo alimentos veganos especificamente de forma orgânica e sem arar, estaremos ativamente participando da destruição da biota do solo, promovendo um sistema que priva outras espécies, incluindo pequenos mamíferos, pássaros e répteis de terem as condições ideais para viver. Além de estarmos contribuindo significativamente para as mudanças climáticas.

Nossa ecologia se desenvolveu com herbívores grandes – em manadas de uruz (ancestral do gado), de tarpãs (o ancestral equíno), de uapitis (cervos), de bisões, de ursos, veados-vermelhos, porcos selvagens e milhões de castores. Estas espécies tem interações com o meio ambiente que sustenta e promove a vida. Usar herbívoros como parte dos ciclos de produção rural pode ajudar muito no sentido de criarmos uma agricultura sustentável.

Não há dúvida que deveríamos todos comer muito menos carne e os apelos pelo fim da produção intensiva com altíssima pegada de carbono, poluente, não ética e à base de grãos, são louváveis. Entretanto se suas preocupações como vegano são o meio ambiente, o bem estar animal e sua própria saúde, já não é mais possível fingir que essas metas serão atingidas simplesmente deixando de comer carne e laticínios. Embora possa soar contraditório, ocasionalmente incluir carnes orgânicas criadas à pasto à sua dieta pode ser a melhor maneira de resolver a quadratura do círculo.

A “grande escala” não é a solução, é o problema

A escala de aplicabilidade da agricultura regenerativa é um ponto que tenho abordado muito em aulas, não para criticar a agrofloresta ou qualquer outra abordagem de produção em larga escala ou quaisquer dos seus adeptos, mas para criar diálogo e buscar soluções que, de fato, abordem a raiz do problema.

O trabalho de pesquisadores tarimbados como Sebastião Pinheiro, Ana Primavesi, Miguel Altieri, Pablo Tittonell, Gliessman, entre outros, traz que são os pequenos produtores com propriedades até 2 hectares que produzem a maior parte dos alimentos (não comódites) do mundo. Aqui no Impacto Positivo o Dr Walter Steenbock já explicou como o agronegócio tem contribuido para a degradação do meio ambiente e a perda da biodiversidade, e como juntos esses fatores nos levaram ao Antropoceno; a sexta maior extinção em massa na história do Planeta Terra.

Para viabilizarmos uma “grande escala de produção” no paradigma atual são necessárias grandes propriedades, maquinário, investimento e concentração de renda. A larga escala, então, em qualquer abordagem agropecuária, exclui social e economicamente o pequeno produtor. Mais ainda, ela frequentemente tem que escoar sua produção muito além das fronteiras biorregionais perpetuando assim problemas de poluição relacionados a cadeia de distribuição.

A grande escala de produção agropecuária continua ‘tentando’ resolver um outro problema de escala que criamos ao projetarmos mega-cidades. Esse tipo de urbanismo é um erro social, econômico e ecológico que só foi alcançado graças a abundância de combustíveis fósseis, que já sabemos estar em rápido declínio de extração.

É a velha lógica capitalista… ainda trabalhando na eficiência (no caso a escala) e substituição (a tecnologia agroflorestal ou outra abordagem regenerativa) e não no redesenho (estágios de mudança elaborados Stuart Hill, PhD, para adoção de uma agricultura sustentável). Redesenhar, no caso, seria redesenhar nossos sistemas de produção para incluir mais gente com qualidade de vida e viabilidade econômica e ecológica no campo. O redesenho seria uma produção de pequena e média escala, ligada em rede e coordenada em agroindústrias cooperativas, desinchando e resolvendo em parte o problema que são as grandes cidades.

O gráfico usado no cabeçalho tem circulado na internet com o título “Qual modelo é mais necessário para a sociedade brasileira?”. O gráfico é mais antigo e pode ser encontrado, por exemplo em uma publicação da Escola Milton Santos de Agroecologia de outubro de 2013. Mas é pertinente que tenha sido trazido à tona novamente haja visto a preferência do governo atual (2019) em subsidiar o agronegócio, suas corporações e práticas que degradam a saúde humana e a ecologia. Esse mesmo gráfico também circulou alguns grupos dos quais faço parte e onde cogitamos a utilização da agrofloresta sucessional em larga escala. Mas trabalhos importantes de pesquisadores já citados acima confirmam a noção de que a grande escala é o problema, não a solução.

Então a pergunta que fica é: queremos aumentar escala de produção para atender demandas de um projeto de civilização já falido ou queremos começar outro projeto produzindo de forma holística (social, econômica e ecologicamente harmoniosa)?

Pequenos produtores ligados em rede em suas biorregiões formam uma grande escala, mas o paradigma é outro, é cooperativo, local e descentralizado. Portanto de pouca utilidade para a ideologia vigente, o mercado financeiro e os pouquíssimos que lucram com ele.

A farra do imbecil e o aplauso dos idiotas – por Sara Amargo

A política ambiental atrapalha o desenvolvimento. Essa é uma das máximas do atual presidente, repetida incansavelmente pelo seu fiel escudeiro, ruralista e candidato a deputado não eleito. Com o foco da campanha na matança de javalis e de sem-terra, condenado por improbidade administrativa, foi este o alçado à pasta de chefe maior da pasta ambiental no governo da imbecilidade.

Em 8 de maio de 2019, ex-ministros do meio ambiente das últimas três décadas, com todas as diferenças históricas e ideológicas dos governos que participaram, se reuniram e elaboraram uma carta apontando a preocupação com o desmonte deliberado da agenda socioambiental. No mundo inteiro, o caminho da modernidade e do desenvolvimento tem se dado cada vez mais de forma integrada com políticas socioambientais. E é isso que tem acontecido também no Brasil – em uma velocidade com certeza bem menor do que deveria – mas sempre em um caminho ascendente.

Nas últimas décadas (e isso é fato, não promessa), evoluiu-se muito em termos de instrumentos de análise e de avaliação de impactos ambientais, na fiscalização de crimes ambientais, na adequação do licenciamento ambiental, nas políticas ambientais urbanas, na busca de energia limpa, no ordenamento territorial, na criação e gestão de Unidades de Conservação, na inclusão social em práticas produtivas sustentáveis, nos instrumentos de participação social na elaboração de políticas ambientais, na educação socioambiental, na pesquisa e geração de tecnologias ecoeficientes, na estruturação das instituições responsáveis pela agenda e na adequação de instrumentos legais, protagonizando o Brasil no cenário mundial. Diga-se de passagem, em conjunto com um forte crescimento da economia, na maior parte dos anos deste milênio. E não poderia deixar de ser, considerando que somos o país mais megadiverso do mundo. 

Negligenciar a relação entre conservação e desenvolvimento pode ser útil aos EUA, que detém, em todo o país, um número de espécies de árvores menor do que na área de um campo de futebol na Bahia. Mas esta negligência é uma imbecilidade completa por aqui. E é isso que se está a fazer, com o aplauso de terraplanistas e crentes do marxismo da Revolução Francesa ou do nazismo de esquerda, que acham que tudo isso é coisa de comunista e que comunistas seguem a comer criancinhas pelo mundo e, além disso, dominaram os órgãos de Estado no Brasil, prestes a fazer uma revolução cubana. E, infelizmente, são muitos os aplausos.

O sempre atento ruralista não tardou a responder a carta dos ex-ministros, a qual com certeza deve estar agora já cheia dos mesmos aplausos. Afinal, idiota que é idiota sempre aplaude seus mitos, seja lá qual for a ideia que saia de suas bocas.

Com a imbecilidade digna de quem é condenado por improbidade administrativa, de quem se negou a receber as informações da gestão anterior do Ministério do Meio Ambiente, de quem acha que descobriu a roda quando propõe inovações de gestão que já existem há décadas e de quem não sabe sequer quem foi Chico Mendes, porém com a sagacidade de quem serve eficientemente a interesses de poucos, a resposta enaltece a necessidade de modernidade administrativa, mente descaradamente sobre o sucateamento das Unidades de Conservação, despreza a participação social no maior espaço de discussão e deliberação de políticas ambientais no Brasil – o CONAMA, reitera a “farra” de ONGs que se envolvem como terceiro setor na implementação de políticas ambientais (como prevê, aliás, a Constituição), chama a busca do escancaramento do desmatamento nas áreas de reserva legal de resolução de conflitos e fica surpreso que a palavra governança “tenha entrado na seara do vocabulário ambiental”, sem a mínima noção de quanto ela já fazia parte desta seara quando ele ainda estava na escola. 

Todos têm direito de ser imbecis, mas fazer isso desmontando uma construção social gradativa de décadas – fundamental para a economia – e colocando em risco o futuro do Brasil (e do planeta como conhecemos), em nome de um falso discurso de modernidade, é um completo absurdo. 
Mais absurdo ainda é o aplauso dos idiotas.

Nota: O portal de artigos, assim como a agenda de entrevistas dos podcasts estão à disposição de autores e ativistas que queiram compartilhar suas idéias, ações e projetos de impacto positivo para o meio ambiente nesse momento delicado da História Brasileira. Esse trabalho é fundamental uma vez o governo atual desenrola um plano articulado de desmonte de todos os dispositivos legais e institucionais que possam defender o meio ambiente da degradação causada pelo agronegócio, pelas mineradoras, madereiras e corporações petroquímicas .