Vandana Shiva Semeando Agricultura Familiar

“O alimento é uma arma. Quando você vende armas, armas de verdade, você controla exércitos. Quando você controla o alimento, você controla a sociedade. Quando você controla as sementes, você controla a vida no planeta Terra! … Nós não podemos esperar que governos e corporações mudem, o povo precisa mudar!”, trechos do filme Sementes da Vandana Shiva.

O documentário conta, por meio de familiares e companheiras de ativismo, quem é Vandana Shiva, de onde ela veio, qual é sua missão e como ela se tornou o pior pesadelo da Bayer-Monsanto. Nele, a própria Vandana conta como uma infancia imersa nas florestas do Himalaia e o estudo da Física Quântica nutriram nela o pensamento ecológico da inseparabilidade, da impossibilidade de substituirmos a sabedoria e os resultados de um laboratório natural com 3.8 bilhões de anos de evolução da vida que cria abundância para todos, por tecnologias que concentram renda, poder e terras nas mãos de poucos enquanto degradam as dimensões sociais, ecológicas e econômicas locais para produzir alimentos tóxicos.

As sementes crioulas ou tradicionais tem milhões de anos de evolução pela natureza. As sementes crioulas das espécies por nós domesticadas tem milhares de anos. Essa co-evolução dos seres humanos e das plantas domesticadas garante a soberania alimentar, mas nos tempos atuais garante plantas capazes de se adaptar a intermitência imprevisível dos períodos de secas e enchentes repentinas causados pelas mudanças climáticas. Essa é apenas umas das lições compartilhadas por Vandana Shiva no filme Sementes da Vandana Shiva.

Outra lição muito forte é a do poder que temos quando agimos em nossas vocações e em prol da vida no planeta. Com ajuda de produtoras familiares, ativistas e apoiadoras, Vandana conseguiu nutrir um movimento em prol da agricultura familiar regenerativa, da soberania alimentar e da biodiversidade no planeta.

Em um trecho do filme Vandana conta como o José Lutzemberger compartilhou com ela uma revelação durante uma manifestação com milhares de agricultoras na Índia. Segundo ela ele disse: “Vandana, as corporações estão tentando acabar com a agricultura familiar no planeta porque estas são as últimas pessoas livres na sociedade de consumo!”.

Deixo link para o site dos produtores do filme onde todos podem doar e pedir o acesso ao filme.

Na semana passada eu compartilhei uma conversa muito interessante entre o Russell Brand e Dra. Vandana Shiva.

O Russel tem feito matérias incríveis sobre como as grandes corporações digitais, como Microsoft, Amazon e FaceBook tem investido na mineração de dados pessoais de pessoas da agricultura familiar e oferecido soluções que na verdade são armadilhas para dominar ainda mais território e centralizar ainda mais a produção usando o campo como plataforma de escoamento das corporações de mineração e petroquímicos.

Para essa semana eu deixo link para a entrevista completa (em inglês) e faço aqui um resumo de idéias e frases que podem nos inspirar a construir juntos a mudança que precisamos ver no mundo.

Segundo a Vandana, “temos que ter acesso ao nosso direito de nascença e viver em harmonia com o planeta e uns com os outros”.

Vandana comenta que por causa da nossa arrogância criamos uma imunidade contra nós mesmos, destruímos todas as leis internacionais, destruímos toda a democracia, prendemos as pessoas no medo e com isso temos enormes dificuldades para responsabilizar os verdadeiros criminosos por trás destes crimes contra a humanidadde. 

Ela menciona o debate sobre a questão dos transgênicos na europa, onde criamos leis sobre a regulamentação dos transgênicos e como as corporações que lucram com eles tentam derrubar essas leis.

Vandana nos encoraja e construir um relacionamento sagrado com a comida, a proteger a integralidade do alimento desenvolvido naturalmente no planeta. Segundo ela, as corporações violam essa integralidade do alimento e tentam quebrar nossa relação ancentral com ele. 

Em primeiro lugar, tudo é comida. Tudo é alimento nos vedas, ela explica. “E se você pensar nisso, ecologicamente, o que é o ciclo da nutrição senão o movimento dos alimentos? Então, tudo é comida. Sim, um ciclo ecológico é o movimento dos alimentos, e é por isso que chamo os alimentos de moeda da vida.

Em segundo lugar, o maior dever é cultivar e dar boa comida em abundância. E o pior pecado é deixar alguém passar fome na sua vizinhança; não cultivar bons alimentos; e pior, vender comida ruim.

Temos que trazer, para o centro de nossa vida cotidiana, os rituais que tornam a vida sagrada. Nossa respiração, que é o que nos conecta ao mundo. A água nos conecta ao mundo, a comida nos conecta ao mundo. Esses não são combustíveis para o corpo. A construção cartesiana sobreviveu tanto e está morrendo em nossa era, mas os barões digitais estão tentando dar a ela uma vida um pouco mais longa, estão colocando o pé no acelerador. Dando mais poder ao modelo cartesiano. E nós temos que dizer não! Temos que ser mais espirituais,mais interconectados, mais capazes de celebrar gratuitamente a vida por meio da abundância que podemos criar.

 

Seaspiracy e veganismo comom panaceia

Em um exercício de pensamento crítico, sistêmico e ecológico, não há solução simplista para problemas complexos. É nesse sentido que eu argumento que o veganismo não é uma panaceia para os problemas ambientais e os vários artigos que compartilho abaixo deixam claro que frequentemente a agenda de conversão deste movimento distorce e esconde dados, testemunhos e informações de acordo com sua agenda.

A ideia aqui não é opor o veganismo, como já disse em vários artigos e vídeos, o veganismo é um direito inalienável. O erro é querer elevá-lo a um dever ambiental.

O filme já começa mentindo e dissimulando pela sinopse:

Apaixonado pela vida nos oceanos, um cineasta resolve documentar os danos causados pelo ser humano às espécies marinhas e acaba descobrindo uma rede de corrupção global”.

Ali Tabrizi, o diretor e apresentador do filme, pode até ser apaixonado pela vida nos oceanos, mas o filme já foi concebido desde o roteiro para ser uma propaganda de conversão para o movimento. Inclusive uma busca rápida na internet revela que Seaspiracy já foi idealizado para ser uma continuação do Cowspiracy e, inclusive, tem o mesmo produtor, Kip Andersen.

Eu deixo minhas considerações para o final e passo agora a citar dois especialistas na área, para deixar claro a gravidade desse tipo de manipulação.

Vou citar o professor Daniel Pauly da University of British Columbia. Daniel, que é doutor em biologia marinha, foi nomeado um dos cientistas da American 50 – a lista anual da famosa revista reconhecendo atos notáveis ​​de liderança em ciência e tecnologia em 2020. Pauly é o único cientista na lista de uma universidade canadense.

Pauly tem estudado o declínio da pescas dos mares por mais de 25 anos. Entre suas principais realizações estão dois dos projetos pesqueiros mais importantes do mundo. FishBase é um banco de dados global embalado com informações sobre mais de 27.000 espécies de peixes. Ecopata é um programa de modelagem de ecossistema que prevê como as populações de peixes podem responder a várias pressões. Entre suas muitas homenagens, Pauly foi eleito para a Royal Society of Canada em 2003.

Segundo Pauly “Seaspiracy, a inspiração marítima, faz mais mal do que bem. Ele pega a questão muito séria do impacto devastador da pesca industrial sobre a vida no oceano e a prejudica com uma avalanche de falsidades. Também emprega técnicas de entrevista questionáveis, usa clichês anti-asiáticos e culpa a Comunidade de Conservação do Oceano, ou seja, as próprias ONGs que tentam consertar as coisas, ao invés das corporações industriais que realmente causam o problema.”

Mais importante, ele distorce a narrativa sobre a destruição do oceano para apoiar a ideia de que nós – os assinantes da Netflix em todo o mundo – podemos salvar a biodiversidade do oceano ao nos tornarmos veganos. Ao fazer isso, Seaspiracy mina seu tremendo valor potencial: persuadir as pessoas a trabalharem juntas e pressionar por mudanças nas políticas e regras que irão controlar uma indústria que frequentemente infringe a lei impunemente.”

Ainda segundo Pauly, o Seaspiracy tem problemas com os fatos.

Um exemplo“, Pauly afirma, “é a afirmação de que os oceanos estarão “vazios” em 2048 se continuarmos a pescar como fazemos agora.”

Esta afirmação é uma interpretação errônea de um artigo científico já desatualizado. Seus autores sugeriram que, em 2048, todas as populações de peixes exploradas no mundo estariam tão esgotadas pela pesca que produziriam menos de 10 por cento de suas capturas historicamente mais altas. Existem milhares dessas populações de peixes em todo o mundo, que podem ser consideradas como tendo “colapsado”, mas eles não desapareceram e podem se recuperar. Na verdade, é disso que se trata a gestão atual da pesca em países como os Estados Unidos, que enfatiza a reconstrução de estoques ”.

O irônico aqui é que o Boris Worm, doutor, biólogo marinho e autor do artigo mais citado no Seaspiracy agradeceu publicamente as críticas feitas ao filme pelo colega Daniel Pauly.

Sobre as estratégias e desonestidades do filme, Pauly conclui que “Quando você opta por uma política absurda [no caso o veganismo como única opção], você deve derrubar as alternativas, por mais sensatas que sejam. E assim, Seaspiracy ataca várias das ONGs na conservação dos oceanos, incluindo a Plastic Pollution Coalition e a Oceana.”

E por fim Pauly recomenda: “Se Seaspiracy o alertou sobre os problemas que os oceanos enfrentam, entre em ação e junte-se a uma ONG que está lutando por mudanças. Quanto a este filme, um título melhor seria Maria Antonieta Vai Para o Mar.

Para quem não sabe, Maria Antonieta era conhecida como ‘a louca’.

Segue o link para o artigo O que o Seaspiracy da Netflix entende errado sobre pesca, explicado por um biólogo marinho no Vox.

No Brasil também temos especialistas gabaritados alertam para o desserviço prestado pelo filme.

Cintia Miyaji é bióloga, mestre e doutora em Oceanografia pelo Instituto Oceanográfico da USP. Atualmente Cintia trabalha no fortalecimento da cultura do consumo responsável de pescado no Brasil, através da atuação como consultora na empresa que fundou em 2018, a Paiche.

Cintia também escreve um blog o “Bate papo com Netuno – sua comunicação com o mar e a ciência”, nele ela escreveu o artigo Seaspiracy, a armadilha das meias verdades.

Cintia explica que “embora os problemas apresentados pelo documentário sejam exatamente aqueles que me incomodam todos os dias, como a depleção dos estoques e a sobrepesca, a pesca ilegal, o impacto sobre espécies ameaçadas, as redes fantasma, os descartes e desperdícios, a aquicultura mal manejada, a violação dos direitos humanos, entre tantos outros, Seaspiracy incentiva o público a acreditar que ele tem o poder de mudar esses cenários de horror através de uma solução simplista… parar de comer peixe. E o argumento mais explorado é o de que não há uma forma confiável de se definir uma pesca como sustentável.”

Cintia lamenta que as críticas científicas e embasadas feitas ao filme “jamais alcançarão nem uma pequena fração daqueles que assistiram ao documentário, mas encontrarão eco e repercussão nos meios envolvidos com a pesquisa e a cadeia da pesca.

Ela explica em seguida como o filme leva tantos influenciadores e ativistas a compartilhar as informações falsas e elogiar o filme.

Seaspiracy usa uma estratégia muito bem pensada e arquitetada, de empoderar o espectador (aquele específico do perfil do assinante da Netflix), e dar a ele a sensação de que ao final do filme, uma atitude decorrente de uma decisão sua, consciente e legítima, vai contribuir para alterar as situações que o fizeram se sentir tão mal durante o documentário. Então, ao final, você tem que estar convencido de que não comer pescado é a solução, porque é a única que está ao seu alcance individualmente.

Mas como não existem soluções individuais para problemas sociais, tão pouco soluções simplistas para problemas complexos, Cintia alerta: “Não estamos em condições de aprofundar as diferenças e aumentar as distâncias. Nossa ação conjunta é necessária e urgente. O planeta, o oceano e a humanidade precisam de ações que os preservem. Ajude-nos a melhorar a comunicação entre as pessoas, no seu círculo social, na sua rede de contatos, na sua área de influência, orientando e disseminando informações de fontes seguras e confiáveis, nutrindo, treinando e até desafiando o senso crítico dessas pessoas. Leia, divulgue e apoie iniciativas como o Bate-Papo com Netuno!

O final, o filme deixa duas mensagens claras, como explicam os especialistas Danieal e Cintia: 1) parar de comer pescados e 2) substituir os pescados pelas produtos industrializados disponibilizados nos supermercados.

Entretanto, se o modo de produção pode estar a serviço da regeneração das áreas anteriormente degradadas, da qualidade de vida das pessoas e da economia local, qual seria o problema do pescado ou da carne?

E é aí entra a em dissonância cognitiva da agenda de conversão vegana porque usa argumentos ambientais, mas o foco principal é o antiespecismo.

A recomendação para que todos parem de comer peixe, não está embasada em dados, como mostram os especialistas, mas no antiespecismo. Desta forma deixam de contextualizar que para a grande maioria das pessoas no planeta essa não é uma opção segura. Deixam de recomendar a articulação social e política de base, tão necessária, e levam as pessoas a acreditar que uma solução individual tem eficiência para problemas sociais, o que sabemos ser uma falácia.

Também não se preocupam em investigar e contextualizar o impacto ambiental das altenativas ultraprocessadas à baseas plantas, porque na realidade, os argumentos ambientais, nutricionais e espirituais servem só de apoio ao antiespecismo (e são frequentemente distorcidos para favorecer o foco principal).

Como também explicam os cientistas que fazem as críticas fundamentadas a essas peças da publicidade veganas, o movimento perde credibilidade e a oportunidade de inspirar cooperação e articulação políticas nas bases toda vez que coloca o antiespecismo e as soluções individuais à frente da articulação popular e da complexidade dos diversos contextos humanos no planeta.

Praticamente todos os “documentários” (eu chamaria de propaganda) são chamados a responder por “erros” (acho que é manipulação de dados) depois que são lançados.

O cowspiracy é um desserviço para agricultura familiar regenerativa no mundo. Vários cientistas já desmascararam os dados distorcidos.

O Game Changers, embora tenha mais embasamento, ainda apresenta evidências anedóticas como científicas e “esquece de dizer que o diretor tem 140 milhões de dólares investidos na indústria das carnes falsas.

O Seaspiracy incorre nas mesmas distorções e manipulações, como apontam os especialistas aqui citados.

Se o foco for no antiespecismo, o movimento se torna hegemônico e dá espaço para as corporações das monoculturas e carnes falsas (feitas com produtos da monocultura). Isso porque o mais importante (para o antiespecismo) é buscar alternativas aos produtos de origem animal e de onde vem estas alternativas e os impactos ambientais de sua produção nunca é questionado.

Se lutarmos juntos pela soberania alimentar, que abarca a pluralidade sociocultural, a necessidade de uma agricultura familiar regenerativa e da reforma agrária, o direito ao veganismo está garantido, mas dentro de um paradigma que abarca as escolhas de todos.

Nota: Agradeço a amiga e também doutora em biologia marinha Caroline Codornis por compartilhar o artigo da Cintia e ao perfil Movimento do Onivorismo Ético pelo esforço no esclarecimento das desinformações espalhadas pela agenda de conversão.

A Doutrina do Choque, a pandemia e a pergunta: “Agro pode ser regenerativo?”

Enquanto a fome atinge 19 milhões de brasileiros durante a pandemia, quase a metade das famílias têm algum grau de dificuldade para se alimentar e cerca de 27 milhões de pessoas sobrevivem em média com R$246 reais por mês o Brasil criou 238 bilionários durante a mesma pandemia. Juntos eles têm quase o PIB do Chile.

Não coincidentemente, a maioria desses negócios são bancos, fundos de investimentos e conglomerados de supermercados, ou seja, o tipo de negócio que tira a autonomia da população. E nós seguimos cegos sem uma revolta popular em massa diante desse absurdo. Com certeza e folga poderíamos usar estes recursos para amparar os que passam fome e dificuldade nesse momento tão sofrido da nossa história.

Comento hoje alguns links para documentários, reportagens e aulas que foram compartilhadas em minhas redes desde a semana passada.

O Brasil chega a 238 bilionários em 2020; fortuna total é quase o PIB do Chile – Matéria do caderno de economia do Portal UOL.

Para ajudar a entender como essa apatia diante de crimes tão graves contra a humanidade são possíveis, eu trago o trabalho da ativista e autora Naomi Klein, “A Doutrina do Choque”. O documentário foi compartilhado pela Márcia Silva (@simbioticabioaliemntos), ativista do movimento agroecológico no RS que participa do grupo de Agricultura Regenerativa do telegram.
Nota: Quem quiser participar é só pedir o link por mensagem direta, não disponibilizamos o link para evitar os ataques de robôs).

Naomi traça a genealogia do “Capitalismo de Desastre” desde os experimentos conduzidos pelo psiquiatra Ewen Cameron em parceria com CIA. Esses estudos mostravam como as pessoas ficavam mais suscetíveis a sugestões de comportamentos e confissões após receber eletrochoques e/ou passar por longos períodos de privação sensorial trancafiados sem poder ver o mundo externo, sem cores, sem sentir sabores, texturas e afagos.

Esse link foi compartilhado no grupo alertando para o fato de que a pandemia, embora real e desastrosamente assassina mediante a suposta incompetência de Bolsonaro, pode estar sendo usada como uma Doutrina de Choque para que a população aceite sem questionar as reformas legais, fiscais e privatistas da agenda neoliberal desse governo.

E eu digo suposta incompetência porque quando analisamos a Doutrina do Choque e como ela foi usada por Milton Friedman – o economista guru da escola de Chicago, onde Paulo Guedes se formou – fica claro que o neoliberalismo sempre usou o choque, a desgraça, para fazer com que a população aceitasse reformas que só privilegiam a elite.

Exatamente como estamos agora, em meio à pandemia, aceitamos inertes que 238 bilionários tenham a riqueza de um país inteiro, enquanto 19 milhões de brasileiros passam fome durante a pandemia e 27 milhões de pessoas sobrevivam em média com 246 reais por mês.

A desgraça brasileira atual está à serviço de uma elite sociopata, classista e subserviente a poderes corporativos estrangeiros.

Leiam o livro e assistam o filme. A maior hipocrisia esclarecida é que em nenhum lugar onde a Doutrina do Choque foi utilizada para implementar a economia neoliberal as condições de vida da população melhoraram. Via de regra, a elite mundial força a mão dos grandes impérios, usa de violência, desinformação e controle para concentrar renda, poder e território. É o livre comércio desta elita, nunca foi do bem estar comum.

Tanto o livro quanto o filme trazem vários exemplos dessa hipocrisia desumana indo desde o primeiro laboratório de Friedman, a América Latina, passando pela Inglaterra, Polônia, China, União Soviética e Ásia, até chegar na Guerra do Iraque.

E o agronegócio nesse contexto atual, como fica?

Enquanto a pandemia e as mais de 4 mil mortes diárias são usadas como Doutrina do Choque, o governo desmonta as instituições ambientais, favorecendo o agronegócio, a mineração e a construção civil, que nada tem a ver com produção de alimento, infraestrutura ou moradia. Estas são só fachadas para as maiores plataformas de escoamento de petroquímicos, concentração de renda e poder nas mãos de pouquíssimas corporações transnacionais.

O IBGE, claro! Está sendo desmontado também, porque sem dados e análises sérias sobre como está a população, fica mais fácil governar com a Doutrina do Choque, notícias falsas e propaganda – o Correio Brasiliense traz uma reportagem sobre este tema .

E aí vem a propaganda. Enquanto todas as instituições que poderiam frear os crimes ambientais do agronegócio e documentar sua concentração de renda e terras são desmontadas, as notícias de que o agronegócio pode ser regenerativo aparecem.

O Estado de São Paulo publicou uma reportagem intitulada “Agricultura Regenerativa”. Nela Roberto Rodrigues conta uma estória da Carochinha que os avanços nos últimos 35 anos foram em melhoramento genético (leia-se transgenia), adubação (leia-se escoamento de produtos petroquímicos e mineração) e mecanização (leia-se desemprego no campo e êxodo rural forçados), mas que agora “o mundo rural avalia ações ligadas à biologia”.

Roberto Rodrigues diz que a Agricultura Regenerativa pode ser vista como um agente de paz, mas não aborda em nenhum momento a definição do termo que existe para além da regeneração ambiental, a regeneração sociocultural – que demandaria uma reforma agrária e modos de produção que aplaquem a cultura e qualidade de vida das pessoas no campo – e a regeneração econômica que demanda que os recursos gerados circulem dentro da biorregião onde foram produzidos.

O Globo Rural deste domingo, dia 11/04, traz na reportagem sobre a “Agricultura Regenerativa” a produção de grãos de milho e soja orgânicos em milhares de hectares como um avanço. Em sua versão escrita um dos sócios da empreza informa um quadro com apenas 60 funcionários. A reportagem não explica nem contextualiza como vivem esses funcionários ou vácuo humano causado por sistemas de produção que podem ocupar milhares de hectares com um número tão pequeno de pessoas.

A reportagem também não revela que o que na verdade se desenrola é o mercado de commodities orgânicas. E, que como todo mercado de commodities, esse mercado “orgânico” tem muito mais a ver com concentração de terras, poder, renda e capital especulativo que com produção de alimentos saudáveis regenerando as dimensões socioculturais e econômicas das biorregiões onde esses grãos são produzidos.

A agrofloresta, que em área comparativa com os milhares de hectares dedicados a produção de grãos, é uma parte quase inexistente, é usada como garota propaganda. E por fim, um branco super privilegiado é apresentado como herói, escondendo assim o protagonismo de mulheres, de indígenas, de povos tradicionais, do MST e tantos outros que protagonizam o movimento realmente regenerativo que é a AGROECOLOGIA.

Uma das missões mais importantes que temos hoje é protagonizar a definição, a prática e o exemplo da Agricultura Regenerativa. A definição e as métricas e indicadores desse termo precisam ser amplamente difundidos por nós que protagonizamos a agroecologia, a empatia, a economia biorregional e o êxodo urbano pelo movimento de transição.

Para ser verdadeiramente regenerativo o agro precisa distribuir terras, renda, ter planos de carreira com salários dignos para seus funcionários. Precisa cuidar para que as pessoas que vivem no campo, que são plurais e vão muito além da lógica de produção, tenham tempo livre, qualidade de vida, segurança e soberania sobre seus territórios e alimentos. Precisa regenerar a economia em sua biorregião e não produzir para o mercado financeiro.

O dia que a produção do agro for regenerativa nesses sentidos, talvez ela seja verdadeiramente regenerativa.

Até lá, o que o agro faz ao usar esse termo é usurpar o protagonismo das pessoas do campo, dos movimentos sociais e ativistas. Da mesma maneira que já usurpou e distoreceu os termos “orgânico” e “sustentável”.

Aqui no site eu já escrevi sobre este tema no artigo O que é um produto orgânico? Podemos confiar no rótulo? e sobre Como funciona o controle de danos do Agronegócio explicando como esses conglomerados transnacionais usurpam e distorcem os termos.

Para fechar eu trago para vocês a aula Regeneração de Solos Degradados com Processos Biológicos, do agricultor e ativista Pedro Meza (Instagram @pedro.meza.33).

Um testemunho de como a soberania alimentar, a saúde e a possibilidade de expressarmos nossas vocações em sua plenitude está diretamente ligada ao acesso de um pedaço de chão onde o lar vai do solo à mesa onde comemos. É por isso que digo que só escaparemos essa extinção em massa em Santuários de Sanidade Mental e Ecológica.

Pedro é um artesão, um guardião e um druida do solo! Buscando soluções que trazem autonomia e eficiência para o produtor, Pedro experimenta com vários métodos de regeneração de solos degradados. Tinturas, microorganismos eficientes, chás de composto e outros inoculantes de vida vão para o solo e chegam para a mesa da família com muito carinho, com muita competência e um senso estético de um renascentista da regeneração planetária.

Viver como o Pedro vive, em contato direto com sua vocação, com cheiros, texturas, sabores, cores é um remédio para a privação de sentidos praticada pela doutrina do choque durante a pandemia.

Não temos um conjunto de soluções que não passe necessariamente por uma gestão ecológica, social e economicamente regenerativas, pela reforma agrária e o esvaziamento das cidades, pela agroecologia e pela soberania alimentar!

Se vocês têm se beneficiado pelo meu conteúdo e reflexões, eu peço que se inscrevam no canal do youtube, na lista de emails aqui no site, na plataforma de interação sobre planejamento rural e agricultura regenerativa e que compartilhem o conteúdo com suas recomendações.

Tenho também um link para o financiamento coletivo da produção deste conteúdo no Apoia.se . Nesse sentido, o apoio de vocês é super importante porque me ajuda a construir a base material que preciso para continuar produzindo conteúdo de pensamento crítico, ecológico e sistêmico para compartilhar.

Por fim, quem se interessar pela transição, pelo planejamento rural e por se conectar com uma rede de produtores e ativistas que estamos tecendo, meu próximo curso começa dia 27/04. Vem com a gente fazer parte das soluções! Clique aqui para fazer sua inscrição!

O Agronegócio e a Fome no Brasil

Em uma mistura de dor, ira, nojo e desespero tenho lido, assistido e escutado notícias sobre a fome desde domingo, dia 04/04/21.

Eu compartilho abaixo a curadoria das notícias, mas faço aqui um apelo no sentido de desenvolvermos um pensamento crítico, ecológico e sistêmico! Não é nem uma questão de espectro ideológico à direita ou à esquerda, é uma questão física – de entendermos termodinâmica e ecologia!

De fato, como diz a Rita Von Hunty, “não existe solução individual para problemas sociais”!

De fato, a reforma agrária e a agroecologia são emergências importantíssimas para a construção de um futuro em que escapemos a extinção em massa!

Mas também não encontraremos soluções tecnológicas, reducionistas para problemas complexos nos âmbitos sociais, ambientais e econômicos em que vivemos.

Pouquíssimas notícias abordam o papel central que uma produção primária regenerativa pode ter em captar mais luz solar, em regenerar o ciclo hidrológico, em ciclar mais nutrientes e cobrir o solo e em favorecer a biodiversidade.

E como esses processos ecológicos são indissociáveis, como sem eles não há como sustentarmos a vida, o agronegócio não pode sustentar nenhuma economia.

Pouquíssimas notícias veem ou comentam a inseparabilidade e a magnitude da complexidade que se forma quando pensamos em sociedades e economias nocivas incrustadas em ecossistemas moribundos.

Nenhuma notícia que comentou a fome, criticou a densidade populacional das cidades, a poluição ali gerada, a insanidade ali vivida e as injustiças ali perpetradas pelas elites e sua ideologia. Nenhum reporter lembra Lutzemberger avisando lá na década de 8o que “As cidades são ecossistemas artificiais.

Na verdade a lógica de praticamente todas as notícias continua sendo a pergunta “como o campo vai alimentar as cidades?”. Perpetuando assim a monetização do acesso ao alimento e a subjugação de tudo que há no campo à logica destrutiva das cidades.

Só voltando a ocupar o campo com uma cultura baseada em uma viabilidade econômica atrelada a regeneração da biocapacidade local, baseada na qualidade de vida para produtoras, na soberania para indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, teremos qualquer chance contra a extinção em massa.

Não é só “agroecologia ou colapso” como colocam os cientistas recomendados pela Rita no @temperodrag .

Precisamos de uma gestão verdadeiramente justa, regenerativa e viável que nos auxilie no planejamento do #êxodourbano e das várias transições que precisamos fazer para evitar a extinção em massa.

No rumo que estamos, porque já vivemos um colapso ecológico e econômico, continuaremos matando primeiro as mulheres negras, indígenas, pretos, pobres pardos e campesinos largados à míngua no campo, como mostram as estatísticas nas notícias que comento abaixo.

Precisamos viver em lugares com batatas, inhames e mandioca estocadas em um solo vivo. Com frutas, castanhas e madeira estocadas em sistemas agroflorestais saudáveis. Com carnes de peixe, frango, boi, porco, cordeiros, bodes, coelhos, preás, etc. vivas em volta da casa ou em latas com banha, em varais secando em cima do fogão à lenha ou preservadas no sal. Com queijos, coalhadas e conservas nas prateleiras. Com uma horta colorida e cheirosa na porta da cozinha.

Como diz a Ana Primavesi em seu livro Manejo Agroecológico do solo, até 1970 existia pobreza no Brasil, mas não tínhamos famintos.

A concentração de terra, poder e renda faz parte de um plano que só beneficia a elite. Mas é um plano estúpido, porque ao depletar a própria base de recursos que apoia a vida no planeta essa elite assassina grande parte da população primeiro, mas depois se suicida também.

Como diz o Allan Savory – Em última análise, a única riqueza que pode embasar qualquer comunidade, economia ou nação é derivada do processo fotossintético – plantas saudáveis crescendo em solos se regenerando.

Segue a curadoria comentada para vocês!

Podcast Café da Manhã – Porque o Brasil passa Fomehttps://open.spotify.com/episode/5sHfj8k4jBRH1nDsKJcgaR?si=XY-gkB7ATaSec47xSa8UHQ&utm_source=whatsapp&nd=1

A frase que me marcou mais nesse podcast enviado pelo ativista e permacultor @Marco.Siqueira foi “O acesso ao alimento é monetizado”!

Mas ouvir gera dor, ira, nojo e desespero.

“A fome atingiu 19 milhões de brasileiros durante a crise de covid-19, e quase a metade das famílias têm algum grau de dificuldade para se alimentar. E isso não leva em conta o fim do auxílio emergencial, porque esses dados foram coletados nos últimos 3 meses do ano passado.

Com bolsa família e outros programas sociais a população pobre teve acesso a alimentos e o Brasil saiu do mapa da fome. Com a crise econômica e social intensificada por volta de 2016 a fome voltou com força. E como o acesso urbano ao alimento sempre foi monetizado a insegurança alimentar é pior nos centros urbanos.

Hoje, cerca de 27 milhões de pessoas sobrevivem em média com 246 reais por mês.

A reportagem denuncia o desmonte do PNAE, Programa nacional de Alimentação Escolar, um dos maiores do mundo. Dentro do PNAE, o PAA, Programa de Aquisição de Alimentos, prevê que a compra de 30% desses alimentos precisariam ser de agricultura familiar. Há um ano esse programa também vem sendo desmontado pelo governo atual e sua parceria com a bancada ruralista.

Um depoimento de uma educadora popular negra de Recife revela como o plano eugenista desse governo não deixa opção digna para desempregados nas periferias.

Gostaria de soltar o Paulo Guedes com R$250 no subúrbio de Recife por um mês e ver se ele sobrevive com o que recomenda para os outros

Tempero Drag (@temperodrag) – Agroecologia e Agricultura Familiar

“Não existe solução individual para problemas sociais” é a frase que marca nesse vídeo.

A Rita Von Hunty abre o primeiro de Abril, dia da mentira, com notícias absurdamente graves que ela gostaria que não fossem realidade, mas são. Vale muito a pena conferir! Em qualquer país de primeiro mundo europeu como a França, Espanha ou Alemãnha ou mesmo Chile ou Argentina na América Latina, por exemplo, as pessoas estariam nas ruas paralisando e mudando o país com as próprias mãos.

Depois ela contextualiza uma discussão muito interessante sobre “Emergência, importância e um futuro” e ela defende, citando alguns autores e o movimento ecossocialista, que entramos em uma época em que ou adotamos o Eco-socialismo ou entramos em extinção. Muito embora já estejamos no antropoceno – a era geológica marcada pela sexta maior extinção em massa.

Nesse sentido, ela argumenta, que agroecologia e a reforma agrária são medidas urgentes e importantes que podem construir um futuro viável para a população.

Ela ressalta muito bem o papel negativo do agronegócio na história brasileira impedindo, desde 1500 a reforma agrária.

Acho que do vídeo da Rita vale ressaltar os seguintes dados:

O Brasil usa 500 mil toneladas de agrotóxicos todos os anos. 

Isso soma um gasto de 35 bilhões de Reais! Ou vendo de outra forma, o Brasil sozinho usa 20% de todos os agrotóxicos produzidos no mundo.

Nesse sentido, eu vejo como os objetivos sustentáveis da ONU são ridículos! Um deles é diminuir pela metade o uso de agrotóxicos em 10 anos. Mataremos só a metade das pessoas com câncer. Poluiremos só a metade das águas… e enquanto a lógica econômica for a dominante, matar e poluir menos desde que mantenhamos a economia será válida. Quando na verdade, deveríamos enxergarmos e sentirmos a insanidade que é usar agrotóxicos em qualquer quantia uma vez que sentenciam à morte toda a vida do planeta.

Ela alerta ainda que em função dessa concentração de renda, poder e terras, o agronegócio brasileiro é o que mais mata ativistas ambientais no mundo!

Ela deixa vários links úteis para que a gente possa agir apoiando grupos e projetos já em andamento tanto no campo como na cidade.

Os alertas de Allan Savory (@asavory2018) sobre a falta de pensamento ecológico sistêmico.

O Allan compartilhou um artigo do Washington Post sobre como as emissões de CO2 chegaram a um nível crítico já quase dobrando os níveis pré-industriais.

Segundo Allan a maioria dos jornais são responsáveis pela nossa morosidade no combate às mudanças climáticas porque ficam repetindo crenças como papagaios sem nunca questionar ou avaliar criticamente relatórios e notícias.

A matéria aponta a produção de energia elétrica, os transportes e a indústria como os setores que mais poluem, mas não questionam a desertificação global e os solos destruídos pela agricultura. Assim como não questionam as gigantes queimadas anuais em todo planeta, também ligadas à agricultura.

Segundo ele, quando queimamos um hectare de pastagens emitimos mais poluentes mais danosos que a emissão de 6 mil carros. Só no continente africano ele aponta que queimamos mais de 1 bilhão de hectares. No Brasil são 11,700,000 (onze milhões e 700 mil hectares) todo ano.

Allan explica que a mídia continua repetindo relatórios sobre os riscos da emissão de metano pela pecuária sem nunca avaliar que até o advento da agricultura e pecuária industriais, durante milhões de anos os grandes herbívoros selvagens e domésticos nunca foram um problema.

Deixo aqui os links para o artigo no Washington Post e os comentários do Allan no Facebook:

https://www.washingtonpost.com/weather/2021/04/05/atmospheric-co2-concentration-record/?fbclid=IwAR1cQQAgE6LZqfhShwdblONN0ENnnC13zaugHAwsHbxuoq5P4ValJ3DIDdU

https://www.facebook.com/allan.savory

Nesse sentido, da discussão climática, o companheiro Dr. Sérgio Loyola, que toca comigo a página do podcast Impacto Positivo no FaceBook, compartilhou um artigo da DW, portal de notícias alemão, perguntando a uma dezena de especialistas, de setores indo desde entomologia, oceanografia e climatologia até pesquisa do permafrost, o que mais lhes tira o sono quando o assunto é clima.

Surpresa? Não! Segundo a maioria dos cientistas a maior incógnita é o ser humano. Uma das cientístas, a Ama Klutse do Gana lança a pergunta: “O que você pode fazer, enquanto indivíduo, para evitar o impacto da mudança climática?” E segue dizendo que  “São necessárias políticas governamentais no sentido da resiliência urbana, construir para a comunidade. Aí precisamos daquela ação global.”

https://www.dw.com/pt-br/o-que-tira-o-sono-dos-especialistas-em-clima/a-57112714?fbclid=IwAR1YcDjV7vy_rC1EfSlS0CoUrHOtPDVUidJv1M9T_M6O5eakkjk3FEtCFAc

Hoje, quarta-feira dia 07/04/21 vou fazer uma interação ao vivo pelo YouTube e Instragram para compartilhar e comentar essas notícias.

Peço a todos que compartilhem o conteúdo tanto do Youtube quanto do Instagram facilitando a circulação destas reflexões.

Vamos falar sobre o elefante na sala

Quase toda decisão humana causa consequências indesejadas para nós, nossas finanças e as espécies em nossos ecossistemas simultaneamente. Isso porque essas três coisas: PESSOAS, ECONOMIAS e NATUREZA não são sistemas complexos separados. Esses três são intricadamente conectados, extremamente complexos e compoem um único sistema que se auto organiza. Entretanto, nenhum de nós tem a capacidade cognitiva instintiva para tomar decisões que reflitam [essa complexidade]. Se tivéssemos, naturalmente estaríamos vivendo em equilíbrio com nossos ecossistemas e teríamos que tomar apenas decisões básicas para nós mesmos como qualquer outro animal que usa ferramentas.

Nota: Tradução livre e adaptação Eurico Vianna, PhD.

Mas com o domínio do fogo avançamos muito do uso de tecnologias simples como pedras e lanças. Nosso comportamento social mudou por causa do nosso avanço nas tecnologias e gradualmente começamos a não girir só nós mesmos, mas a natureza também e com o tempo somamos a dimensão econômica.

Nosso processo simples de tomada de decisão não evoluiu para refletir que agora gerimos uma rede enormemente complexa com dimensões sociais, economicas e ecológicas. Isso resultou em nosso processo de tomada de decisão básico causando uma reação em cadeia negativa por todas as dimensões dessa rede complexa.

Nós não notamos que nosso processo de tomada de decisão é a causa da devastação global porque no ato de cada decisão nós frequentemente atingimos nossos objetivos a curto prazo e seguimos adiante. Só mais tarde os animais, as pessoas, as plantas e as economias sofrem as consequências indesejadas… E nesse momento nós usamos o mesmo processo de tomada de decisão ultrapassado para reagir ou adaptar a essas consequências.

O que segue é um exemplo de um completo desastre ecológico causado por uma única decisão reducionista:

Na década de 60 no Zimbábue as comunidades tradicionais foram retiradas das áreas que estavam sendo reservadas para os Parques Nacionais. O objetivo de curto prazo foi alcançado – as pessoas foram removidas daquelas áreas. No que se refere a preocupação que eles tinham a missão foi cumprida e eles presseguiram para a próxima decisão.

Mas eles ’empurraram o primeiro dominó’ e sem querer acionaram uma reação em cadeia enorme e invisível por todo o ecossistema – os elefantes (e outros animais) de repente pararam de migrar e se comportar naturalmente porque o predador alfa havia sido removido do ecossistema (humanos são os únicos predadores de elefantes). Vejam o que aconteceu com o Parque Yellowstone quando os lobos foram removidos.

Uma única decisão reducionista resultou em um comportamente repentino e completamente não natural de milhares e milhares de elefantes (e muitas outras espécies) e durante os próximos anos as consequências indejadas dessa decisão para aqueles ecossistemas se tornaram muito visíveis… e o vasto número de elefantes passou a ser culpado pelos danos ecológicos causados pela decisão.

Então, para resolver o dano, as pessoas usaram exatamente o mesmo processo de tomada de decisão e culparam os elefantes pela devastação ecológica; afirmando que haviam elefantes demais. E aí, para resolver o problema dos elefantes em excesso eles resolveram sacrificar 40.000 elefantes. E o fizeram. Eles conquistaram o objetivo de curto prazo, se livraram da maioria dos elefantes. Missão cumprida e de novo seguiram para a próxima decisão. Mas eles tinham empurrado o primeiro dominó de novo, e a consequência da maior decisão reducionista que eles tomaram foi que durante os próximos anos a degradação ficou muito, muito pior, não melhor.

Tudo porque essas pessoas estavam abordando um sintoma (o pulsar e o impacto não natural dos animais), mas ninguém abordou a causa do problema – a gestão humana.

Comportamento terrivelmente não natural de um elefante em um parque nacional do Zimbábue: ele está desesperadamente tentando conseguir comida e nutrientes suficientes para sobreviver durante a estação seca dada a imensa perda de biodiversidade e desertificação causadas pela nossa gestão reducionista.

Meu pai, Allan Savory, foi a única pessoa envolvida na decisão devastadora daquele governo de sacrificar aqueles elefantes que se posicionou dizendo que eles haviam cometido um erro monumental. Ninguém mais admitiu que eles estavam errados e até hoje ambientalistas/cientistas e mesmo especialistas em elefantes defendem sacrificar, esterelizar ou mudar os animais de localidade. Nas terras das comunidades tradicionais a pecuária é culpada pela devastação… mas quem maneja esses animais? Nos estados unidos as pessoas gerindo os parques nacionais em biomas parecidos não tem elefantes, gado ou outros animais para culpar, então eles dizem que “processos não conhecidos” são a causa.

Perda de biodiversidade extrema em parques nacionais nos Estados Unidos e na África: esse deveria ser o maior aviso para toda humanidade de que nossa gestão está falhando.

Depois do enorme erro com o abate dos elefantes, Allan passou a dedicar sua vida inteira a encontrar soluções para o que quer que seja em nossa gestão que leva à perda de biodiversidade e à desertificação. E ele encontrou.

Com a ajuda de milhares de pessoas durante décadas, ele desenvolveu a estrutura do Gerenciamento Holístico que nos guia pelas dimensões sociais, economicas e ecológicas de nossas decisões e que assegura que não vamos tomar decisões que mais tarde resultam em consequências indesejadas… Nos move a partir de uma gestão reativa, adaptativa para um processo de decisão traz os resultados que queremos proativamente assegurando que cada decisão que tomamos tenha o melhor resultado ecológico possível enquanto considera ao mesmo tempo as circunstâncias sociais e econômicas únicas dentro das quais é tomada.

O Gerenciamento Holístico também ajuda proprietários rurais a aprender como usar animais como ferramenta biológica para regenerar pradarias. Por meio do Planejamento Holístico de Pastagens, animais imitam o relacionamento presa-predador e criam o habitat para vida selvagem desejado. Nos lugares onde proprietários usaram animais para regenerar áreas com grandes populações selvagens os resultados são incríveis. Pradarias se tornam saudáveis de novo e a população de animais silvestres cresce no passo que seu habitat é regenerado.

Imagens de áreas regeneradas usando o Gerenciamento Holístico perto das Cataratas de Vitória no Zimbábue. Com uma imagem das terras da comunais de Hwange que está trabalhando para regenerar a biodiversidade usando o Gerenciamento Holístico e o Planejamento Holístico de Pastagens para seus animais.

Sarah Savory, Novembro 2020.

Porque apoio a Soberania Alimentar e não o Veganismo Fundamentalista

Para a maioria dos adeptos, o veganismo não é uma dieta, é uma ideologia que se opõe ao especismo. O Especismo, é o ponto de vista de que uma espécie, no caso a humana, tem todo o direito de explorar, escravizar e matar as demais espécies de animais por considerá-las inferiores.

Embora o especismo seja a base filosófica, frequentemente apóstolos do veganismo fundamentalista trazem argumentos relacionados ao meio ambiente, a espiritualidade e a nutrição.

Eu não tenho nada contra pessoas veganas, mas não concordo com o especismo como base ideológica e muito menos com os argumentos ecológicos, espirituais e nutricionais. O meu entender é que não é possível defender a agenda de conversão de grande parte do movimento vegano e defender a Soberania Alimentar ao mesmo tempo.

Soberania Alimentar implica que as pessoas têm o direito de decidir sobre sua dieta e de acesso aos meios de produção para mantê-la. A Soberania alimentar também implica o direito a decidir como comercializar se for o caso e se essa comercialização atende a biorregião, o país ou uma agenda de exportação. Dentro desse paradigma a ética que leva cada pessoa a decidir o que comer é um direito.

Eu defendo a Soberania Alimentar e dentro desse paradigma que a produção seja agro-etno-ecológica. Em geral esse termo indica uma produção que se baseia nos princípios ecológicos como é o caso da agrofloresta sucessional ou da agroecologia e isso se aplica também a esses sistemas quando eles integram a produção animal. Nesse caso o sufixo ‘etno’ indica que o sistema de produção garante que durante toda sua vida o animal é criado com sua dieta natural e expressando suas características intrínsecas. Herbívoros criados exclusivamente a pasto. O porco livre para chafurdar expressando sua ‘porquice’… A galinha sua ‘galinhice’… ciscando, tendo acesso a plantas, insetos, vermes e grãos porque é onívora… Em outras palavras nenhum animal é criado em confinamento. E quando falo de pecuária, falo de pecuária com planejamento holístico de pastagens.

O foco na soberania alimentar opera no âmbito das soluções. Constrói o direito de todos a decidir o que comer e aos meios de produção para fazer isso de forma saudável. E por ser uma política inclusiva, isso inclui os veganos também!

Quando se advoga o veganismo com argumentos ambientais o foco está no problema: a carne que degrada o meio ambiente e é produzida em um paradigma que só visa lucro. Aqui vale dizer que uma dieta à base plantas suprida pelo agronegócio via supermercados faz parte do mesmo paradigma destrutivo e degrada da mesma maneira.

Entender que tanto a carne quanto as verduras e legumes vendidos nos supermercados degradam porque participam do mesmo paradigma de produção é essencial. Assim podemos entender que a mudança a ser feita é no sentido de que qualquer alimento seja produzido agro-etno-ecologicamente.

Nesse sentido a propaganda vegana não é honesta. Primeiro porque faz comparações entre a carne e verduras e legumes sem distinguir os meios de produção. Segundo porque sempre usa como base a carne produzida em confinamento ou na pecuária extensiva.

A questão ambiental

Aqui é importantíssimo ressaltar que existe produção animal que restaura o agroecossistema. A procura por esse tipo de carne liga onívoros éticos com produtores locais reforçando uma tendência que restaura ecossistemas, economias e culturas.

Ainda na questão do meio ambiente precisamos entender que aproximadamente dois terços do planeta são compostos por regiões semiáridas ou de latitudes extremas onde a produção local precisa incluir animais. Especialmente se queremos restaurar a cultura e comércio justo biorregionais.

No Brasil temos 3 biomas onde a sazonalidade das chuvas fazem com que os animais sejam fundamentais nos processos de regeneração: a caatinga, o cerrado e os pampas. O nordeste brasileiro tem o semiárido mais populoso do mundo e mais de 20 milhões de hectares já em processo de desertificação causada pela agricultura industrial e a pecuária extensiva (dados da Sudene). Nesse caso o Gerenciamento Holístico de pastagens é o mais indicado por levar em conta as dimensões ecológicas (por planejar as rotações baseado na recuperação da vegetação e biodiversidade), sociais (por priorizar a qualidada de vida dos produtores) e econômicas (porque produz em harmonia com a ecologia). Esse sistema é capaz de restaurar o solo, os lençóis freáticos e a biodiversidade rapidamente.

Dentro desse contexto também vale comentar as pesquisas do Dr Miguel Altieri, agroecologista chileno que publica pela Universidade da Califórnia e argumenta que além de serem mais resilientes e biodiversas, as propriedades com sistemas de produção animal integrados chegam a ser 20 vezes mais energeticamente eficientes que as outras (Altieri, 2014).

Essa eficiência energética é extremamente importante para que a agricultura agro-etno-ecológica não seja dependente de insumos de uma matriz energética que sabemos que não vai durar. Ela também é fundamental para que a escolha alimentar de uns privilegiados não seja subsidiada pela dignidade e saúde dos produtores rurais. (Discuto o papel da pecuária regenerativa na soberania alimentar e biorregionalização das cadeias de produção pós-pandemia nesse artigo )

A questão nutricional

Todos os estudos sobre dietas a base de plantas fazem comparações com a S.A.D, a Standard American Diet ou Dieta padrão americana, ou seja com alimentos altamente processados e de baixíssimo valor nutricional. Não existem estudos comparativos entre dietas à base de plantas com dietas onívoras agro-etno-ecológicas.

Frequentemente as propagandas também comparam a quantidade de proteínas, cálcio ou ferro em determinados alimentos e a carne, mas não comentam sobre a biodisponibilidade, ou seja, que quando esses nutrientes vem de uma carne saudável nosso organismo absorve mais rápido e com menos esforço metabólico.

Na questão nutricional o consenso científico é de que as dietas veganas e vegetarianas podem nos deixar deficientes em muitos nutrientes. Entre eles as vitaminas do complexo B, cálcio, ferro, zinco, ácidos graxos de cadeia longa e as vitaminas A e D, que são solúveis em gordura. Aqui eu deixo links para 3 referências científicas (em inglês):

A Diana Rodgers, nutricionista americana que escreveu o livro Vaca Sagrada (Sacred Cow) que agora está para ser lançado como o documentário;

– o mestre em nutrição Chris Kresser, que tem feito pesquisas e revisões bibliográficas constantes sobre o tema;

– e a Dra Georgia Ede, que tem alertado para o perigo das dietas veganas para a saúde cerebral pela fala de DHA – um ácido graxo ômega 3 chamado docosa-hexaenoico – que as plantas não fornecem. (Fiz uma tradução livre e resumida desse vídeo no artigo A carne e a mente: como nossa saúde neurológica e mental pode estar ligada a ingestão de carnes saudáveis.

A questão espiritual

Na questão espiritual eu também não vejo coerência. Não existe vida sem morte. Não existe natureza sem sofrimento. Ninguém julga a onça por comer a paca, o tamanduá por comer as formigas ou a micorriza por comer os nematóides no solo. As cadeias alimentares fazem parte da estratégia de complexificação da vida para combater a entropia. Comunidades indígenas e tradicionais, que para mim estão entre os seres mais evoluídos exatamente por sua conexão com a natureza, não são veganos. O Dalai-lama não é vegano!

Um senso de espiritualidade que faz com que uns se achem mais evoluidos que outros, não pode nos conectar com a fonte, com o um. Um senso de espiritualidade que nos faz acreditar que podemos viver como seres supremos, supostamente mais evoluidos e por isso desconectados da cadeia alimentar, de novo, não cumpre sua função de nos reconectar com a fonte.

O especismo

Por fim, a questão do especismo para mim não é coerente exatamente por entender que nós evoluimos como seres humanos fazendo parte do ecossistema e das cadeias alimentares, como expliquei acima.

Existe uma relação simbiótica entre várias espécies. As aves que seguem as manadas de herbívoros, os peixes que limpam dos dentes do tubarão, os carniceiros que seguem os que predam em bando. Entre nós que aprendemos a caçar usando aves de rapina e cães. Essa evolução se deu por milhares de anos e por criar relações de benefício mútuo entre as espécies e dessas espécies com os ecossistemas que habitam.

É por isso que temos mais proximidade com algumas espécies e comemos outras. Isso acontece por toda a cadeia alimentar.

E não se enganem. Em um futuro não muito distante a diminuição dos subsídios energéticos vindos dos combustíveis fósseis forçará o exôdo urbano (re)criando as condições para uma vida mais rural. Nesse contexto, um número muito maior de pessoas vai entender que o veganismo é um direito, mas está longe de ser uma alternativa universal viável em grande parte do planeta.

Nos meus cursos, trabalhos e conteúdo que produzo como educador e ativista, eu apresento os animais como uma das ferramentas que temos para reverter os processos de desertificação e mitigar as mudanças climáticas.

Com isso, frequentemente alguns fundamentalistas tentam desqualificar meu trabalho ou as fontes científicas que uso. É aquela velha tática de oratória onde se tenta desqualificar o interlocutor para não ter que dialogar com a idéia. Nesses casos costumo dizer que é nessa atitude que o veganismo progressita encontra a extrema direita. E vejam que os autores com os quais embaso meu trabalho são quase todos progressistas ativistas da agroecologia como é o caso Dra. Ana Primavesi, Dr. Steenbock, Dr. Miguel Altieri, Dr. Pablo Tittonell, Dr. Gliesmann e o próprio Allan Savory.

Afirmo frequentemente que não temos mais tempo para não usar todas as ferramentas possíveis para reverter os processos de desertificação, as mudanças climáticas e o antropoceno. E embora pareça contraditório de início porque a grande maioria das pessoas nunca viu esses sistemas funcionando na regeneração e tem resistência para aceitar essa inovação na ecologia, os animais fazem parte desse conjunto de soluções quando utilizados da maneira correta.

Espero que tenha ficado claro que é exatamente por defender a soberania alimentar que entendo o veganismo como um direito, mas não um dever de todo ambientalista. Como expliquei, não concordo com o viés evangelizador, a propaganda tendenciosa do movimento, nem as manifestações que ferem o direito alheio (como no caso de propriedades invadidas). Mas acredito ser extremamente importante que todas as pessoas tenham o direito de escolher o que comer e tenham acesso aos meios de produção.

E a grande diferença entre esses dois movimentos é que o ramo fundamentalista do movimento vegano cria uma hierarchia falsa onde de acordo com um sistema de crenças os onívoros são supostamente menos ‘ambientalistas’ porque ‘ainda’ comem carne. Enquanto a soberania alimentar, não cria divisões que enfraquecem o ativismo socioambiental, abraça a diversidade e celebra as diferenças defendendo o direito de escolha de todos.

Nota:

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Porque as recomendações do Sir David Attenborough no documentário Nosso Planeta estão fadadas a falhar

Nesse artigo eu faço uma análise do filme David Attenborough e Nosso Planeta sob a luz da Tomada de Decisão Holística, um modelo de gestão criado pelo ecologista Zimbabuano Allan Savory para lidarmos com as complexidades da sociedade, ecologia e economia simultaneamente e no mesmo patamar de importância.

O filme é um testemunho do declínio dos ecossistemas do planeta Terra e um apanhado de sugestões para caminhos futuros.

Durante os 70 anos de carreira do ambientalista David Attenborough, hoje com 93 anos de idade, documentário acompanha:
– o aumento populacional;
– o aumento da poluição (em acréscimo de carbono em partes por milhão na atmosfera);
– e a diminuição da área de habitat natural para a vida selvagem no planeta.

É desesperador constatar que durante os últimos 70 anos nós seres humanos já destruimos em torno de 70% dos ecossistemas do planeta para produzir bens de consumo em um estilo de vida que nos distancia cada vez mais da natureza.

Esse é o contexto da primeira metade do documentário – um choque de realidade mostrando de forma irrefutável o impacto negativo da sociedade de consumo em toda a base natural que sustenta a vida no planeta.

A segunda metade do filme apresenta possíveis soluções para o futuro e é essa parte que eu gostaria de comentar com uma análise baseada na Tomada de Decisão Holística.

Embora existam outras sugestões e mais detalhes, de forma geral as alternativas apontadas são:

1 – Diminuir o espaço de produção agrícola, adotar uma dieta a base de plantas e comer menos carne;

2 – Substituir por completo a matriz energética de recursos fósseis que sustenta o modelo de civilização atual por energia renovável (o filme se tem mais a solar e eólica, mas menciona a geotérmica também);

3 – Praticar um ‘consumo consciente’.

Eu vejo essas sugestões como passo-à-passo simplistas, reducionistas, para uma situação que é complexa. Em muitos casos, elas nem chegam a atuar na raiz do problema. E por essas razões estão fadadas a falhar.

Quando usamos o modelo de gestão do Gerenciamento Holístico para pensar sistemicamente e tomar decisões, nós criamos um contexto que assegura simultaneamente e no mesmo patamar de importância as dimensões sociais, ambientais e econômicas. Até porque, na realidade, elas são inseparáveis. A gestão reducionista, com foco exclusivo no lucro, que nos levou a tentar gerir essas dimensões separadamente.

Devemos diminuir os espaços de produção agrícola ou ocupar todas as áreas de produção com a agricultura regenerativa?

Em relação à sugestão feita no filme de diminuirmos o espaço de produção agrícola, adotarmos uma dieta a base de plantas e comermos menos carne, eu faço a seguinte provocação: e se tivéssemos modelos de produção capazes de restaurar o solo, os lençóis freáticos e a sócio-biodiversidade? Nesse caso precisariamos diminuir os espaços de produção ou ocupar todos eles com esses modelos regenerativos?

Acontece que temos esses modelos de produção. Eles estão presentes na permacutura, agroecologia, agroflorestas sucessionais, plantio de palhada, gerenciamento holístico de pastagens, etc. Isso deixa claro que o problema não é a dieta, nem necessariamente o tamanho da área, uma vez que outros modelos de produção restauram enquanto produzem.

E aqui vale citar dois exemplos do quão ecologicamente eficiente os sistemas regenerativos podem:

O primeiro é dos Sistemas Agroflorestais (SAFs) sucessionais praticados no Brasil. As pesquisas do Dr Walter Steenbock mostram que com esses sistemas podemos produzir entre 40 e 70 toneladas de alimentos, fibras e madeira enquanto fixamos até 6.7 toneladas de carbono no solo por hectare por ano (Steenbock, 2013).

Os SAFs regeneram os processos ecossistêmicos, portanto os habitats naturais, e produzem no mínimo em torno de 25 toneladas a mais de alimento por hectare por ano.

O segundo exemplo é o da Fazenda Carvalho Branco (White Oaks) nos Estados Unidos. Eles trabalham com o modelo de gestão holística na tomada de decisão e no planejamento das pastagens e com isso conseguem fixar 1.3 toneladas de carbono no solo por hectare por ano. Eles compensam mais de 100% do carbono emitido no ciclo de vida de cada animal e até 85% de todas as emissões da fazenda (Stantly, P; Rowtree, J; et. all; 2018).

Se mais pessoas consumissem carne produzida nesse modelo teríamos um número cada vez maior de pessoas contribuindo para mitigar as mudanças climáticas sem perder sua soberania alimentar.

O filme recomenda uma agricultura tecnológica e intensiva, mas não cobre de onde viriam os insumos tanto os tecnológicos (estufas, fazendas verticais, luzes, etc) como os biológicos (adubos, oligoelementos e minerais) que precisamos para que um solo saudável produza alimentos saudáveis. Uma auditoria energética desses meios de produção mostraria que eles não são mais viáveis que a agroecologia, os SAFs ou o gerenciamento holístico de pastagens.

Raramente conseguimos resolver problemas biológicos com soluções tecnológicas.

A questão da matriz energética

Embora a transição dos recursos fósseis para os renováveis seja fundamental se quisermos assegurar qualquer chance de futuro, o documentário não questiona a ordem energética, ou seja, o quão enormemente subsidiados pela matriz fóssil nós somos.

Energias renováveis não podem manter a sociedade de consumo. Isso é um fato. Atualmente 97% das atividades que mantém a civilização baseada no consumo são mantidas pela matriz de combustíveis fósseis. Para fabricarmos mais turbinas, painéis solares e baterias precisamos de minérios e outros elementos que para serem extraídos, processados e fabricados dependem de uma infraestrutura e logística que funciona à base de energia fóssil (Trainer, 2007).

O impacto ambiental do consumo energético nos países de primeiro mundo é enorme. E se quisermos construir um futuro socialmente justo, temos um impasse na questão energética. Ou diminuímos o consumo e o gasto energético dos países desenvolvidos ou continuaremos subsidiando o conforto dos países desenvolvidos com a dignidade das pessoas no Sul Global. Isso porque energia renovável para todos na escala atual é uma impossibilidade termodinâmica.

Entretanto o documentário não questiona nem a impossibilidade de mantermos a civilização global atual com energias renováveis, muito menos o ajuste que precisa ser feito para que todos os povos possam ter acesso à energia renovável gerada.

O consumo consciente

A Economia Ecológica nos mostra muito bem pelo entendimento das Leis da Termodinâmica que uma economia baseada em consumo, não importa em qual escala ou nível de consciência, será sempre destrutiva (Cavalcanti, 2020).

Sugerir o consumo consciente, portanto, não age na raiz do problema: uma economia baseada em bens de consumo, com obsolescência planejada e que para serem fabricados invariavelmente degradam a natureza.

A solução aqui seria redesenhar a cadeia complexa sociedade-natureza-economia de forma holística. Seria entendermos, aplicarmos e vivermos uma economia baseada no gozo de viver, na arte, nas experiências subjetivas e desenvolvimento humano e não no consumo.

O documentário também não aborda a sociedade de consumo e sua economia como raiz do problema da destruição ambiental.

Coda

Embora o documentário tenha uma contribuição enorme no processo de conscientização da sociedade como um todo, as alternativas propostas são reducionistas e por vezes superficiais demais para dar conta da complexidade sociedade-natureza-economia.

Modelo de Produção da Economia Clássiva, por Dr. Clóvis Cavalcanti.

Precisamos ser mais radicais no sentido de agir na raiz dos problemas. E no caso das mudanças climáticas e do antropoceno é preciso tomar decisões holísticas que abarquem simultaneamente e no mesmo patamar de importância as dimensões sociais, ambientais e econômicas.

Com um contexto social, ambiental e econômico para todo o planeta, fica claro que não é possível um capitalismo verde ou regenerativo, é preciso redesenhar todo o sistema econômico para que ele respeite, esteja contido pela biocapacidade do planeta. É isso ou a extinção em massa.

Nota: 

Meus próximos cursos incluindo oficinas com a Tomada de Decisão Holística estão listados no meu linktree.

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Referências:

Cavalcanti, Clóvis. Furtado e o desafio do enfrentamento dos limites ecológicos. 2020

Paige L. Stanleya, Jason E. Rowntreea, David K. Beedea, Marcia S. DeLongeb e Michael W. em Impacts of soil carbon sequestration on life cycle greenhouse gas emissions

in Midwestern USA beef finishing systems, no jornal Agricultural Systems, n.162 (249-258). 2018

Savory, A. e Butterfield, J. (1999). Holistic Management: a new framework for decision making. Island Press, CA-EUA.

Steenbock, et al. (2013). Agrofloresta, Ecologia e Sociedade. Kairós Edições

Trainer, T. (2007). Energias Renováveis não podem manter a sociedade de consumo. Tradução livre Eurico Vianna –

https://www.euricovianna.com.br/2018/06/09/as-energias-renovaveis-nao-sao-a-solucao-para-a-sociedade-de-consumo/

Proteção Contra Queimadas – Entendendo e projetando para proteção contra queimadas

Nota de Introdução do tradutor: As queimadas gravíssimas que atingiram grande parte do planeta em 2019 revelam a inconstância e os extremos climáticos como o novo padrão. Não se passaram ainda 12 meses e a expansão do agronegócio e suas práticas reducionistas e dissociadas dos fundamentos ecológicos já ateou fogo no Brasil mais uma vez. Essas queimadas revelam a necessidade urgentíssima de projetarmos propriedades rurais mais resilientes contra as secas, as enchentes e as queimadas.

Felizmente pessoas muito competentes no mundo inteiro tem feito um esforço coletivo para disponibilizar alternativas de desenho, estratégias e práticas que podem ajudar muito. Grande parte dos entraves que podem dificultar a adoção desse conjunto de soluções, no entanto, são de ordem cultural e burocrática.

As culturais tem a ver com políticas ambientais arcaicas que partem do princípio que toda intervenção humana na natureza e que todo uso de sistemas com animais integrados são aspectos negativos. Esse paradigma também tem a ver com a crença que assume que ‘desastres sempre ocorreram e vão continuar a acontecer no futuro e não há nada que se possa fazer, faz parte do ofício do produtor rural’.

Esse trabalho de tradução nasceu com o intuito de auxiliar clientes e familiares na tarefa de re-projetar suas propriedades e dialogar com os departamentos ambientais por melhores políticas de prevenção e combate às queimadas. Alguns trechos já foram compartilhados em relatórios de consultorias feitas na Chapada Diamantina e estão norteando a elaboração de planos de manejo individuais nesta região.

O que segue abaixo é uma uma tradução livre e resumida preparada por mim (Eurico Vianna, PhD) da sessão 3.56 – Proteção Contra Queimadas: Entendendo e projetando contra queimadas, do Capítulo 3 (Água), do Regrarians Handbook (2019). O livro foi escrito pelo planejador de propriedades rurais Darren J. Doherty, Georgi Pavlov e o ilustrador Andrew Jeeves. Nas referências eu também inclui recursos relacionados ao tema que foram disponibilizados por Doherty em um artigo chamado Recursos para Antes da Queimada (#BeforeTheFire Resources).

Mantenho aqui a organização original do texto seguindo a ordem da Escala de Permanência da Linha Chave. Uso as reticências “…” para indicar trechos não traduzidos. Na medida do possível complementarei as traduções dos trechos de texto e tabelas que não foram incluídos nessa primeira publicação. Se possível e com autorização do Darren, publicarei também as ilustrações originais.

Proteção Contra Queimadas: Entendendo e projetando contra queimadas

ENTENDER AS DINÂMICAS DAS QUEIMADAS

#1.Clima – As regulamentações federais e estaduais que regem os recursos naturais (especialmente os hídricos) podem ser um empecilho para algumas das ações propostas. Como elas são difíceis de serem alteradas e podem limitar o que pode ser feito em determinada propriedade elas se encaixam na camada 1#Clima (no “Clima da Mente”).

Aptidão psicológica, física, prática e Contexto Holístico

O preparo prático e físico deve ser visto em conjunto com o psicológico porque eles se reforçam. Recomendo o desenvolvimento e análise de um Contexto Holístico  para melhor determinar quem são os Tomadores de Decisão, qual é a base de recursos disponíveis, qual a qualidade de vida determinada, ações e comportamentos, quais os indicadores de sucesso, qual é o elo fraco em um dado momento e quais são os passos específicos de gerenciamento da propriedade ou empreendimento (Regrarians Handbook, 2015. pp.258-271).

Histórico Climático

É muito importante pesquisarmos os padrões climáticos e das últimas queimadas pelos últimos 100 anos. Esses padrões (e.g. de quanto em quanto tempo acontecem as queimadas) pode informar decisões estratégicas com mais eficiência que a utilização de dados isolados como precipitação, temperatura, velocidade dos ventos, etc. isoladamente. (Regrarians Handbook, 2015. pp.258-271).

#2.Geografia

A topografia influencia fortemente a direção, velocidade dos ventos e distribuição da matéria combustível, portanto, tendo efeito direto no comportamento das queimadas.

  • Inclinação –  a intensidade e velocidade do fogo aumentam morro acima. Nessas condições o calor irradiado viaja na frente pré-aquecendo e secando matéria orgânica inflamável de antemão. Para cada 10° de inclinação morro acima o fogo dobra de velocidade e para cada 10° de inclinação morro abaixo ele perde metade da velocidade.
  • Orientação – os morros com aspecto solar para o Norte tem maior risco de serem atingidos por queimadas.

Alguns exemplos de preparo comunitário contra queimadas pode incluir:

  • Redução preventiva de matéria orgânica inflamável, especialmente nos setores de maior risco de queimada.
    • [Estratégias propostas/coletadas por mim, Eurico, na Chapada Diamantina] 1- Uma estratégia seria a proposta pelo Nagoy Sol, ativista socioambiental em Rio de Contas, na Chapada Diamantina: fazer mutirões organizados ou abrir as propriedades para a coleta de madeira para as festas juninas. Um problema é que essa estratégia não resolve a questão da matéria orgânica seca nas plantas gramíneas e arbustivas; 2 – Outra estratégia válida a se considerar, talvez usada depois da descrita acima, seria a utilização de ‘fogo frio’ quando e onde apropriado e antes da estação seca.
  • Criação e participação de uma brigada voluntária. Caso já exista uma, aconselho o compartilhamento dessas propostas e o subsequente treinamento/adaptação de todos os envolvidos;
  • Criação de um sistema de mensagens, se possível com um número central alternativo para tornar a comunicação local mais eficiente em emergências;
  • Criação de planos de emergência individuais e biorregionais com pontos de decisão claros para ação ou evacuação;
  • Monitoramento constante dos riscos de queimada;
  • Encorajar a interação e cooperação entre os vários órgãos regionais e federais durante emergências. (Regrarians Handbook, 2015. pp.258-271)

#3.Água

Como vimos no curso após fazer alguns estudos de caso para o dimensionamento de captação de água de chuva, a Chapada Diamantina não tem um problema de escassez de água, mas sim de práticas que façam uso da água disponível. É necessária uma análise geotécnica de solo para a analisar a possibilidade de se construir uma açude na parte mais alta.

O Desenho

  • Usar preferencialmente sistemas com pressão por gravidade para irrigação e combate ao fogo, uma vez que são muito mais seguros que as bombas;
  • É melhor que o sistema de proteção contra queimadas também integre o sistema de irrigação;
  • Todo encanamento deve ser enterrado. Nos locais onde não é possível enterrar é necessário então cobrir o encanamento com uma boa camada de telha e cimento. Qualquer encanamento acima do solo, como torneiras e pontos de acesso devem ser aço galvanizado.

Açudes (Barragens)

  • Sempre que possível açudes devem ser construídos para servir de barreira contra queimadas no setor de risco, prover irrigação por gravidade e servir de fonte de água a ser bombeada para uma cisterna mais alta;
  • Os açudes devem armazenar água suficiente para prevenção e combate ao fogo (entre 20 e 50 mil litros por hectare durante a estação das queimadas);
  • Sempre que possível, tanto quanto a topografia e outros fatores permitam, os açudes devem ser projetados de forma a serem facilmente acessados pela brigada de incêndio. (Regrarians Handbook, 2015. Pp.258-271. Tradução livre Eurico Vianna, PhD).

Cisternas

Ao contrário da propaganda e crença popular, nenhuma cisterna é completamente à prova de fogo, entretanto as cisternas de ferrocimento ou metal oferecem melhores opções resistentes às queimadas que outros materiais. Exposição às queimadas ’empretece’ os tanques de aço inox, mas dependendo da quantidade de água na cisterna e da intensidade da queimada as exposições prolongadas à temperaturas extremas eventualmente destruirá qualquer junta soldada. Cisternas de plástico pode pegar fogo quando expostas as chamas constantes, como é o caso das queimadas. Contrariamente ao que é atestado por alguns fabricantes, as cisternas de metal com revestimento interno de plástico são sensíveis a temperaturas altas. Em uma queimada intensa o revestimento interno se descolará tornando a cisterna inútil. Durante a pesquisa Impacto das Queimadas da Austrália (Australian Fire Impact no original) conduzida pelo Departamento de Ecossistemas Sustentáveis do CSIRO (Organização de Ciência e Pesquisa Industrial da Commonwealth em português) as cisternas de aço inox cilíndricas (Zincalume) se comportaram melhor que as cisternas Aquaplate (circulares achatadas), com seu revestimento interno derretendo a 200°C. Os tanques de fibra de vidro falharam completamente.

  • As cisternas devem ser posicionadas perto da casa, mas não no setor de risco de queimadas;
  • As cisternas destinadas para o combate ao fogo devem ser de metal ou ferro-cimento e, de preferência, posicionadas acima do solo;
  • Cisternas de material plástico devem ser enterradas;
  • As cisternas devem prover armazenamento de água suficiente para o combate ao fogo durante a estação de risco (ver tabela abaixo). Na prática, provavelmente todas as fontes de água serão utilizadas em uma situação de emergência.
  • Na impossibilidade de construir açudes, o dimensionamento das cisternas destinadas a combater queimadas devem chegar o mais perto possível da capacidade recomendada dos açudes (entre 20 e 50 mil litros por hectare durante a estação das queimadas);
  • Cisternas dedicadas ao combate às queimadas precisam ser facilmente identificadas à partir da estrada pública, incluindo placas de sinalização na entrada da propriedade, ser de fácil acesso pela entrada, que deve ser de 4 metros de largura e se estende até 4 metros à partir da cisterna;
  • A base das cisternas pode precisar de reforços contra colapso [em queimadas];
  • Todos as cisternas devem ter encaixes de engate rápido (Storz 65mm) e todas as válvulas, canos e encaixes devem ser de metal;
  • Cisternas subterrâneas devem permitir que caminhões pipa reabasteçam direto delas com uma abertura maior que 200mm;
  • Cisternas expostas aos setores com alto risco de queimada devem ser projetadas com escudos térmicos contra calor e contato direto com labaredas. (Regrarians Handbook, 2015. Pp.258-271. Tradução livre Eurico Vianna, PhD)

Valas de Infiltração e Sistemas de tratamento alternativo (WET Systems)

  • Quando utilizados com plantas resistentes ao fogo, swales podem funcionar como barreiras ao fogo;
  • Em áreas áridas ou semiáridas os swales podem, até certo ponto, reumidificar o solo diminuindo o risco de queimadas;
  • Os swales também devem ser projetados de forma a funcionar como acesso para motos ou pessoas até açudes, estradas públicas ou trilhas de fuga de emergência;
  • WET Systems podem ser implantados nos setores de maior risco de fogo.

É sempre importante presumir que sistemas elétricos, bombas e aspersores podem falhar quando mais precisamos deles. Com essa atitude garantimos o desenho de sistemas redundantes e alternativos (quase sempre por gravidade).

Nota do tradutor:

Em 2019 eu contactei o Darren informando que estava trabalhando nessa tradução. Na ocasião ele me pediu que não publicasse trechos e pela falta de tempo a tradução integral foi sendo postergada.

Dado o contexto atual do Brasil, com grande parte de seus biomas mais uma vez ardendo em chamas, eu resolvi publicar a tradução como ela está e, na medida do possível, me comprometendo a disponibilizar o texto na íntegra. Ainda faltam trechos abordando as camadas:
#4.Acesso,
– #5.Sistemas Florestais,
– #6.Edificações,
– #7.Cercas e Subdivisões e
#8.Solo

O próximo curso online de introdução ao planejamento de propriedades rurais com base na Escala de Permanência começa do dia 13 de Outubro.

O objetivo principal do curso é harmonizar as vocações das pessoas, a maneira como querem viver e se expressar com as aptidões do terreno. É criar resiliência ecológica e hídrica para os sistemas de produção que, por sua vez, trarão a viabilidade econômica.

Outra missão importante é fazer com que cada participante saia com uma visão integral da propriedade. É criar um roteiro de implementação de intervenções realistas que respeitem a saúde e qualidade de vida de todos. Tudo dentro de uma ordem de prioridade na execução de forma que as pessoas, o ecossistema e a economia estejam cada vez mais saudáveis.

Link para o evento no FaceBook aqui.

Link para o formuário de inscrições aqui.

Curadoria de notícias Impacto Positivo – 11/09/20

A curadoria das notícias que circularam em nossas redes essa semana cobrem desde a alta do Cacique Raoni, passa pelo questionamento da validade dos títulos verdes e volta ao documentário Ser Tão Velho Cerrado que denuncia como o agronegócio tem degradado o berço das águas de várias bacias hidrográficas no país e aponta as soluções realmente ecológica e economicamente viáveis para essa região.

Nota: Curadoria feita por Vitor Signori, Felipe Maia e Eurico Vianna. 

Começamos a semana com a ótima notícia compartilhada por Horacio Luz da recuperação e alta hospitalar do líder indígena cacique Raoni, um sopro de esperança em meio a tanto caos. Segue o link:

https://twitter.com/InstitutoRaoni/status/1301929535772987394?s=20

No começo da semana tivemos uma conversa muito boa sobre os prós e contras do veganismo e onivorismo ético. O senso comum foi de que precisamos focar a energia naquilo que nos une que é a regeneração sócio ambiental do planeta. Segue um vídeo bem bacana do movimento Slow Food e o Bem Estar Animal compartilhado pela Marcia Silva. Veganos e onívoros éticos seguindo unidos pela restauração. Segue o link:

Joyce Lemos compartilha o Podcast do Boletim do Fim do Mundo com Bruno Torturra, uma conversa com o ex-diretor de proteção ambiental do IBAMA, Luciano de Meneses Evaristo, que foi exonerado por Bolsonaro. Luciano é um dos responsáveis pelos anos de fortalecimento do Instituto e queda recorde no desmatamento. Ele dá um panorama sobre a situação dos fiscais ambientais no Brasil de hoje. Crime organizado na floresta, garimpo ilegal, a perspectiva do chão da floresta e como o órgão mais importante de fiscalização ambiental do país está ruindo.

Um outro debate que rolou em nossas redes foi em volta da notícia da primeira emissão certificada de título verde para um agricultor no mundo. O Eurico Vianna comentou que o grande desafio para essa tendência, uma vez que ela vem da lógica do mercado de especulação financeira, além de ter métricas verdadeiramente regenerativas para os ecossistema onde funcionam, é restaurar a saúde e qualidade de vida das pessoas no campo e o acesso à terra. Segundo o Eurico, pouco adianta criarmos um mercado de comódites orgânico que nada faz pela agricultura familiar e que continua concentrando terra e renda. Segue o link:

https://ciorganicos.com.br/biblioteca/rizoma-e-grupo-ecoagro-realizam-primeira-emissao-certificada-de-titulo-verde-do-mundo/

Vilmar Lermem compartilhou o documentário Ser Tão Velho Cerrado, apesar de se tratar de um documentário de 2018, infelizmente o assunto é muito atual, pois aborda como o agronegócio tem desmatado o Cerrado, o segundo bioma mais biodiverso do Brasil para produzir grãos para exportação. O documentário também mostra a importância do cerrado na composição das bacias hidrográficas brasileiras. Apesar de chocante pelos fatos, o documentário mostra o ecoturismo e a bioeconomia como saídas economicamente viáveis para preservação desse bioma:

Gabriela Toledo compartilhou a notícia do Movimento dos Pequenos Agricultores divulgando o Curso Nacional com Sebastião Pinheiro: AGROECOLOGIA E BIOPODER CAMPONÊS. O objetivo do seminário é desenvolver a capacidade de agricultores(as) e camponeses(as) como criadores(as) de biopoder para a produção de alimentos, a partir da agroecologia. Há uma emergência e todos somos como células em um corpo mundial sincronizado, ativo como nunca no mundo, exposto às ações fascistas da eugenia exploratória, devastadora e branca. Segue o link:

https://mpabrasil.org.br/noticias/mpa-convida-para-o-curso-nacional-com-sebastiao-pinheiro-agroecologia-e-biopoder-campones/

Nosso querido Felipe Maia compartilhou o link para Sete vídeo-aulas sobre pensadores negros e suas obras, O pensamento social brasileiro deve muito às obras de grandes autores negros e negras. No entanto, a produção de intelectuais afrodescendentes não é tema recorrente de destaque. Fica a dica:

https://almapreta.com/editorias/realidade/sete-video-aulas-sobre-pensadores-negros-e-suas-obras

David e Tatiana Peebles, pai e filha que tocam juntos o Yaguara Ecológico, um verdadeiro atelier de gastronomia, produção rural e restauração ecológica estarão com a gente no #podcastimpactopositivo nesse domingo, dia 13/09 as 19h. Eles preservam, cultivam e criam alimentos regidos pelo ritmo da natureza. São artesãos da ecogastronomia e tem um sentimento de pertença e conexão especial com chão que pisam em Taquaritinga, PE. Eurico vai aproveitar a oportunidade para lançar a edição de Outubro do Curso de Introdução ao Planejamento de Propriedades Rurais. Segue o link para o podcast com a família do Yaguara Ecológico esse domingo:

https://www.youtube.com/channel/UC8q65PXvwIoURL272bymW-A

O objetivo principal do curso é harmonizar as vocações das pessoas, a maneira como querem viver e se expressar com as aptidões do agro-ecossistema onde vivem. É criar resiliência ecológica e hídrica para os sistemas de produção que, por sua vez, trarão a viabilidade econômica. Compartilhamos aqui também o link para o formulário de inscrição:

https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSdtcBRbKos-OFyCJvuNQrm_iPM4VwWrnafnAHXVInma0o_viQ/viewform

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Mudança boa se faz em boa companhia!

Como funciona o controle de danos do agronegócio

A questão do uso dos agrotóxicos no Brasil não é polêmica, é econômica e gira na casa dos bilhões! Só em isenção para as corporações que vendem agrotóxicos o Brasil deixa de arrecadar anualmente 10 bilhões em impostos. “Esse pacote de isenções, revelado por um esforço de pesquisa da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e pelos pesquisadores da Fiocruz e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro passou a ser chamado “bolsa-agrotóxico“!

Mas isso é só no Brasil e só em isenções fiscais. No mundo as 10 maiores empresas que produzem agrotóxicos lucram 39.62 bilhões por ano com a agricultura da morte.

O agronegócio diz que é preciso subsidiar a indústria do veneno porque sem ela não seria possível produzir alimentos acessíveis. Mentira! O agronegócio produz mais comódites em grãos e produtos transgênicos que alimento. Na verdade sairia muito mais barato taxar apropriadamente essa indústria da morte e subsidiar a produção de alimentos saudáveis para a população por meio da agricultura familiar, que já produz em torno de 70% do alimento usando apenas 20% das terras aráveis e 30% da água usada na agricultura.

Um estudo publicado na revista Saúde Pública revela que para cada US$ 1 gasto com a compra de agrotóxicos no Paraná, são gastos U$$ 1,28 no SUS com tratamento de intoxicações agudas — aquelas que ocorrem imediatamente após a aplicação.

Agravando ainda mais os custos que essas empresas empurram para a sociedade, estudos científicos sérios apontam que os casos crônicos de doenças como o câncer causadas pelo uso de agrotóxicos no Brasil são subnotificados. A realidade é que para cada caso notificado existem 50 que passam despercebidos ou são deliberadamente escondidos por essa indústria bilionária (PIRES, D.; CALDAS, E.; RECENA, M.C., 2005)! Isso implica que entre 2007 e 2014, mais de um milhão de brasileiros foram intoxicados por agrotóxicos. Em 2015 o governo deixou de publicar os casos de intoxicação por agrotóxicos o que dificulta muito a continuação das pesquisas.

Esses e outros dados alarmantes estão disponíveis no livro Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Européia, da Dra Larissa Bombardi, uma adaptação da tese de pós doutoramento da autora publicada pela USP.

Mas existem também os custos ambientais, que também são empurrados para a sociedade por essas corporações dos agroquímicos. O Fórum Econômico mundial estima que a pandemia atual custará entre 8.1 a  15.8 TRILHÕES de dólares para a população mundial e o consenso científico é de que quanto maior as taxas de desmatamento, quanto mais centralizada a produção, maior o risco de novas pandemias.

Ilustração mostrando como o desmatramento aumenta as chances de termos novas pandemias

Essas corporações bilionárias investem milhões anualmente em propaganda para impedir a disseminação de conhecimento sobre os custos reais de suas ações na saúde, na sociedade e no meio ambiente.

Essa estratégia de marketing é chamada ‘controle de danos’. Nesse momento, a estratégia do governo Bolsonaro no Brasil, por exemplo, é relativizar e questionar os estudos científicos que apontam o impacto negativo do agronegócio no meio ambiente e na saúde, não com pesquisas de igual rigor científico, mas com campanhas propagando falsas informações.

O ‘controle de danos’ visa mitigar danos causados à credibilidade, reputação ou imagem pública dessas empresas de agroquímicos, e consequentemente aos seus lucros. Isso porque as consequências genocidas do uso desses produtos está se tornando uma unanimidade científica que tem informado a população em geral.

O Brasil permite 5000 vezes mais glifosato na água potável que países desenvolvidos – em Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia.

Só no Brasil, essa “bolsa-agrotóxico” inclui investimentos públicos milionários em gigantes transnacionais do setor agroquímico. Um levantamento feito pela Repórter Brasil e a Agência Pública mostra que, nos últimos 14 anos, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) emprestou R$ 358,3 milhões a empresas agroquímicas (com juros subsidiados pelo governo) e a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), agência do governo que financia inovação em empresas, transferiu R$ 390 milhões a grandes produtores de pesticidas para pesquisa e inovação. Esses são os valores que bancam a pseudociência em muitas das faculdades de agronomia, engenharia florestal, zootecnia e veterinária no Brasil.

Essa é a estratégia usada pelo agronegócio no Brasil. Vídeos, artigos e memes tem circulado a internet e as mídias sociais, relativizando o impacto ambiental negativo e a gravidade da intoxicação direta e indireta causada pelo uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos nas lavouras e pecuária no Brasil.

Dentro da estratégia de ‘controle de danos’ essa abordagem é chamada de re-enquadramento. Ela consiste na mudança sutil do foco, do enquadramento, tirando do centro do debate a questão dos malefícios causados por esse modelo industrial de produção e fazendo com que as pessoas pensem a discutir, por exemplo, que o Brasil está atrasado em relação a outros países supostamente mais desenvolvidos e que ainda é o país com maior área de florestas em pé.

Ratos alimentados com milho transgênico e água com glifosato, Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia.

Entretanto, o que está em questão é que toda a abordagem da agricultura e pecuária industrial está ultrapassada em qualquer lugar e que devastação nenhuma é aceitável. Em todos os países onde é utilizada ela degrada o meio ambiente e a saúde das pessoas enquanto concentra dinheiro, território e poder.

Os setores simpatizantes desse governo, os acadêmicos ‘colonizados’ e os departamentos de marketing dessas corporações seguem estágios dentro da estratégia de ‘controle de danos’.

Primeiro, ignoram os dados e pesquisas contrários ao agronegócio enquanto for possível. Depois ridicularizam e descrevem as pesquisas e a agricultura regenerativa de forma imprecisa. Em último caso conduzem pesquisas e comparações falsas e difamam pessoas e instituições com opinião contrária para, finalmente, desacreditar as alternativas socialmente, ecologicamente e economicamente viáveis. (Mulligan, M. e  Hill, S. em Ecological pioneers: A social history of Australian ecological thought and action. 2001).

A contra-inteligência é uma das práticas comuns no “controle de danos”. Ela consiste em inundar os meios de comunicação com desinformação pintando como polêmico ou controverso o fato já comprovado pela ciência de que os agroquímicos causam câncer e outras doenças crônicas graves e que a agricultura industrial é uma das maiores causas do Antropoceno, a sexta maior extinção em massa na história da vida no planeta. Isso, simplesmente porque o consenso científico vai contra o imperativo de lucro de umas poucas corporações internacionais.

A verdade é que a única maneira de alimentar a população mundial sem causar devastação ambiental, doenças crônicas degenerativas e o êxodo rural é com a agricultura familiar agroecológica. São os pequenos produtores rurais ao redor do mundo, na grande maioria mulheres, que produzem de 50 a 75% da comida que alimenta a população mundial.

E elas fazem isso usando apenas de 25 a 30% da terra arável, 30% da água e 20% dos combustíveis fósseis usados na agricultura (Altieri, 2015; Tittonell, 2014).

A verdade econômica também é muito clara! Sem os subsídios fiscais, os perdões anuais de dívidas bilionárias e somando o custo da destruição ambiental e da saúde humana à produção agroindustrial, nenhuma dessas corporações se sustenta economica ou ecologicamente.

A única maneira de garantirmos um futuro com água e ar limpos e alimentos verdadeiramente nutritivos para as próximas gerações é gerindo nossos recursos de maneira socialmente justa, ecologicamente restauradora e economicamente viável e isso só a agricultura familiar agroecológica pode fazer.