Um apelo aos Veganos

Todos nós, não só os veganos, deveríamos estar na batalha todos os dias fazendo tudo que podemos para acabar com a produção de animais em sistemas industrializados de confinamento. É bárbaro, cruel, nocivo e totalmente devastador para nosso meio ambiente.

Infelizmente, a raiva a esse tipo de pecuária levou a maioria dos veganos a condenar cegamente todos os produtores e todas as criações animais. Esse é o ponto onde os veganos começam a fazer mais mal do que bem. O único argumento válido que veganos podem, e devem, usar no que toca a pecuária é: “Todo manejo reducionista e produção de animais em confinamento degrada o meio ambiente, o que leva a desertificação e mudanças climáticas.” Isso é verdade.

Entretanto os veganos nunca deveriam alegar que: “Todo tipo de pecuária degrada o meio ambiente.” Isso não é verdade.

Tem sido irrefutavelmente e cientificamente provado em milhares de artigos em jornais especializados e casos empíricos por todo o planeta que a pecuária manejada por meio do processo de planejamento holístico de pastagens podem (e estão) regenerando as pradarias para a vida selvagem, trazendo os rios de volta a vida e restaurando a biodiversidade.

Veganos, pelo amor que vocês tenham ao planeta e a vida que nele habita, por favor, aprendam a diferença vital que o gerenciamento faz. O gerenciamento reducionista leva a agropecuária degradante, cruel e nociva. Isso, para todas as plantas e animais.

Mas o gerenciamento holístico prioriza a saúde do meio ambiente e seus sistemas de apoio à vida, o que leva a uma prática agropecuária saudável, regenerativa e ambientalmente benéfica. Isso, para todas as plantas e animais.

O futuro e bem estar de todas as criaturas no planeta depende de vocês aprenderem essa diferença.

Nota: Texto publicado originalmente em inglês por Sarah Savory em sua página no Facebook e traduzido por Eurico Vianna.

Cursos de Impacto Positivo em 2019

“O papel da agricultura é produzir alimentos e fibra enquanto o solo é constantemente melhorado”*. Durante os meses de Maio e Julho estarei ministrando alguns cursos com parceiros e apoiadores super engajados nas causas socioambientais. Confira o roteiro e o conteúdo dos cursos para participar e fazer parte do time que constrói Santuários de Sanidade Mental e Ecológica pelo país afora.

* P.A. Yeomans (1958). The Challenge of Landscape.

Curso de Agricultura Regenerativa com a Escola de Permacultura – entre os dias 20 a 29 de maio, na Serra da Mantiqueira, sul de Minas Gerais, Brasil. Esse curso aborda a Tomada de Decisão Holística e Escala de Permanência da Linha Chave para promover a produtividade e a qualidade de vida para a agricultura familiar.

Esse curso aprofunda e retifica conceitos chaves para os que já estudam a permacultura como ciência de desenho ecológico. Também é uma excelente oportunidade para aqueles que querem projetar com segurança uma transição para o campo.

Imersão Agroflorestal na Fazenda Bella – entre os dia 1 d 15 de Junho estarei ministrando essa vivência com o Osmany Segall e o Sérgio Olaya.

A imersão é composta por dois cursos teóricos, duas vivências e duas visitas guiadas (ver link acima) equipando os participantes com o conhecimento e a prática necessários para desenhar, implementar e manejar sistemas agroflorestais. Durante a vivência os participantes terão a chance de desenhar consórcios, plantar, colher e ver a comercialização dos produtos.

Introdução ao Desenho Ecológico para Propriedades Rurais com Eurico Vianna – entre os dias 20 e 23 de Junho em Soracaba, SP.

Esse curso apresenta os 4 processos ecossistêmicos e a Escala de Permanência da Linha Chave como uma introdução ao desenho regenerativo de propriedades rurais. O conteúdo e formato foi desenvolvido para as as pessoas que querem reconectar com a natureza, empreender com responsabilidade socioambiental ou simplesmente conhecer mais sobre a Escala de Permanência da Linha Chave (EPLC).

Curso de Gerenciamento Holístico em Sorocaba entre os dias 25 e 30 de Junho em Sorocaba, SP. A Fazenda São Benedito está fazendo a transição para agropecuária regenerativa e o curso traz a oportunidade de acompanhar o inicio do planejamento de um sistema baseado no Gerenciamento Holístico. Esse curso é divido em 3 módulos: O curso é divido em 3 módulos:
Tomada de Decisão Holística,
– Gerenciamento Holístico Financeiro e
– Manejo Holístico de Pastagens.ministrado
E será ministrado por Graeme Hand, educador e consultor australiano com mais de 20 anos de experiência internacional nessa abordagem.

Consultoria Aberta com Graeme Hand na Agropecuária Kehrle. Essa consultoria é ideal para as pessoas que já estão envolvidas na pecuária regenerativa ou que já decidiram fazer a transição. A Agropecuária Kehrle é uma propriedade inovadora, que já usa o GH há 5 anos e que prima pela produção do gado criado a pasto, garantindo a saúde aos animais e os cuidados com o meio ambiente. Nessa consultoria, portanto, a troca de conhecimentos com o Graeme será de altíssimo nível e os participantes poderão ver como a abordagem do GH se adequa ao contexto específico de cada família e sua propriedade.

Curso de Gerenciamento Holístico no Santuária Ecológico Fazenda EcoAraguaia entre os dias 7 e 12 de Julho. Esse curso vai acontecer as beiras do Rio Araguaia usando a pecuária na EcoAraguaia como estudo de caso de transição para o Gerenciamento Holístico. A EcoAraguaia é líder na implementação do Sistema Integração Lavoura Pecuária (ILP) e co-fundadora da Associação Brasileira de Produtores de Carne Carbono Neutro (ABCCN).
O curso é divido em 3 módulos:
Tomada de Decisão Holística,
– Gerenciamento Holístico Financeiro e
– Manejo Holístico de Pastagens.ministrado
E será ministrado por Graeme Hand, educador e consultor australiano com mais de 20 anos de experiência internacional nessa abordagem.


Edificações Móveis, Empreendedorismo rural e a Escala de Permanência da Linha Chave

Na Escala de Permanência da Linha Chave as edificações vem em sexto lugar. Isso quer dizer que ao invés de chegar em uma propriedade, escolher a melhor vista para colocar a moradia ou posicionar a moradia em função de estradas de acesso construídas anteriormente e depois colocar a maior parte das outras edificações em função dessa decisão, a gente primeiro pensa o Clima, a Geografia, a Água, o Acesso e os Sistemas Florestais, para então decidir onde vamos colocar as edificações.

Joel Salatin – O Fazendeiro Lunático

No artigo “Faça Tudo Sobrepondo Funções“, Joel Salatin faz umas perguntas importantes sobre as edificações (e investimentos de um modo geral) em propriedades rurais:

1 – Qual será o impacto econômico dessa construção ou aquisição na fazenda?
2 – De que outras maneiras eu posso usar essa edificação ou aquisição (equipamento, maquinário, etc.) na fazenda se meus planos atuais mudarem?
3 – Além do uso básico (planejado originalmente) de que outras formas posso usar essa estrutura? 
4 – Emocionalmente, você poderia demolir essa edificação no próximo ano e recomeçar com algo mais funcional? Se você não quer mais a edificação no local atual, você conseguiria movê-la para outro lugar facilmente?

Levando em consideração a ordem a que devemos dar prioridade ao desenvolvimento de uma propriedade segundo a Escala de Permanência e as perguntas de Joel Salatin, vemos que a maioria das pessoas posiciona suas casas e edificações na fazenda da forma errada. No sentido de trazer humildade para a área do design, o arquiteto e autor do livro Cradle to Cradle: Remaking the Way We Make Things, William Mcdonough, nos lembra que levamos 5.000 anos para colocar rodas nas nossas malas. De fato, inovações levam tempo para serem adotadas em larga escala, mas a realização de que podemos ter estruturas móveis em propriedades rurais tem motivado uma verdadeira revolução na gestão e produtividade de propriedades rurais do mundo inteiro.

Casa miniatura sobre rodas vista por trás.

As casas miniatura sobre rodas, por exemplo, estão revolucionando a maneira como as pessoas pensam a ‘casa própria’ e os custos exorbitantes de um financiamento de longo prazo. Pessoas e famílias de idades e tamanhos variadas perceberam o quanto os preços dos financiamentos tornaram a opção da casa própria quase impossível ou talvez apenas inviável se considerarmos o tamanho do sacrifício.

O deck, que também pode ser transportado, faz a conexão dos ambientes internos e externos.
A janela ampla valoriza a vista para trazer amplitude.

A mobilidade, o preço mais acessível, o baixo impacto ambiental e a maneira como essas casas nos fazem reconectar com a natureza a nossa volta tem feito muitas pessoas adotar esse estilo de vida e moradia. Outra vantagem que as casas miniatura sobre roda trazem, é que em muitos países, pelo fato de serem móveis, essas casas escapam da burocracia das regulamentações.

Mas a revolução da mobilidade não está só nas casas. Propriedades rurais no mundo inteiro perceberam que edificações móveis aumentam a produtividade regenerando os ecossistemas. Isso porque nos permitem imitar os fluxos migratórios da natureza e sobrepor empreendimentos em uma mesma área.

Um dos modelos do Ovomóvel na Polyfaces.

O ovo-móvel de Joel Salatin é um exemplo clássico. Nesse caso a áreas de pasto são otimizadas com galinheiro móvel sendo instalado logo após a saída do gado de um determinado piquete. Parte da alimentação das galinhas vem do que seriam pragas no pasto por conta da alta concentração de adubo das vacas quando manejadas intensamente em cada área. Por exemplo as moscas, os insetos, carrapatos, parasitas, etc. que tendem a se proliferar demais na falta de predadores naturais. Outra função do ovo-móvel é usar as galinhas para espalhar ainda mais (porque ciscam a área) o adubo deixado pelo gado.

Foi em grande parte com estruturas móveis e buscando inspiração na natureza que Joel Salatin conseguiu fazer a Polyfaces, sua fazenda de 100 acres, produzir anualmente 18.100Kg de carne de boi, 13.600kg de carne de porco, 10.000 frangos, 1.200 perus, 1000 coelhos e 35.000 dúzias de ovos. Tudo isso é produzido recuperando florestas, pastagens e o solo! Sem nenhum adubo ou pesticida químicos, rações de crescimento com hormônios ou antibióticos.

Abatedouro móvel desenvolvido por Mike Callicrate usando a caçamba de um caminhão.

Outro exemplo inteligente do uso dessas estruturas são os abatedouros móveis. Nem sempre eles são realmente móveis, mas o fato de serem construído sobre permite esquivar de regulamentações injustas para o pequeno produtor. Talvez o exemplo mais emblemático seja o do Mike Callicrate, um rancheiro estadounidense que defende que as fazendas de pecuária devem ser regenerativas e mantidas como negócios familiares e não corporativos. Quando o ativismo de Mike fez com que abatedouros de grande escala boicotassem sua produção, ele construiu um abatedouro sobre rodas. Essa solução também permitiu que Mike usasse todas as carcaças dos animais como biochar, fechando um ciclo e mantendo grande parte da fertilidade na propriedade.

Vacas Jersey em uma ordenhadeira móvel na fazenda de Bartele e Rioanne Holtrop na Holanda.
Ordenhadeira móvel pequena.

Na produção de leite começaram a surgir as ordenhadeiras móveis. Variando desde uma unidade manual portátil, até unidades com capacidade para ordenhar várias vacas por vez, essa inovação permite um melhor fluxo nas rotações das pastagens uma vez que a ordenha pode ser feita em piquetes diferentes. O fato da ordenhadeira ir até o piquete ao invés das vacas virem até o curral, também tem outras vantagens. Evita a erosão e compactação causada pelas trilhas do gado e faz com que a urina e o estrume sejam um recurso espalhado na propriedade e não uma poluição concentrada em apenas uma parte ao redor da ordenha.

Outro modelo de ordenha móvel. Essa puxada por um trator.

Usar infraestrutura móvel e sobrepor empreendimentos, como nos convida a fazer Joel Salatin, e saber a ordem de prioridade em termos de tomada de decisão e investimento de tempo e recursos como na Escala de Permanência da Linha Chave, de fato, revoluciona o modo de pensar e projetar propriedades e empreendimentos rurais. Eu compartilho mais sobre a abordagem de Joel Salatin para o que ele chama de ‘fazenda móvel’ no artigo 10 Passos para Empreender com Sucesso na Fazenda. Nesse paradigma, tanto as edificações quando os animais passam a ser recursos com funções múltiplas, elementos móveis que nos permitem imitar os fluxos da natureza em uma micro-escala. O que, por sua vez, nos permite realizar melhor nosso papel de agentes regenerativos das paisagens nas quais habitamos e às quais pertencemos.

Estudo revela que melhor planejamento da agricultura poderia previnir perda de 80% da biodiversidade

  • Resultados de uma nova pesquisa mostram que aproximadamente 90% da biodiversidade que os cientistas preveem que será perdida com a expansão da agricultura poderia ser salva se usássemos planejamentos de ocupação de terra mais eficazes para áreas com menor número de espécies.
  • A pesquisa concluiu que 10 países compartilham grande parte desse potencial por eles e que poderiam, por eles mesmos, reduzir a perda da biodiversidade em até 33%.
  • Entretanto, existem ressalvas. Os pesquisadores alertam que a maioria desses países está entre os “20 piores” ranqueados em termos de impacto ambiental e tem problemas políticos e de governabilidade que impediriam o uso eficaz do planejamento de ocupação rural em nível nacional. Os pesquisadores também alertam que a otimização do uso de áreas rurais visando a proteção dos recursos naturais em alguns dos países mais biodiversos podem acontecer “as custas das próprias oportunidades de produção e desenvolvimento econômico.”
  • Os pesquisadores revelam que para que os países mais biodiversos do mundo possam atingir seu pontencial máximo de conservação enquanto fornecem alimentos para suas comunidades humanas as políticas globais de uso de terras precisam integrar melhor os desafios de governabilidade, políticas públicas e economia presentes nesses países.

Artigo escrito originalmente em inglês por Morgan Erickson-Davis, dia 16 de Março de 2018. Tradução livre feita por Eurico Vianna, PhD. dia 20 de março de 2019.

Um planejamento melhor poderia salvar muita vida selvagem é o que revela um estudo publicado recentemente na Global Change Biology. A pesquisa revelou que aproximadamente 90% da biodiversidade que os cientistas preveem que será perdida com a expansão da agricultura poderia ser salva se usássemos um planejamentos de ocupação de terra mais eficaz dirigido para áreas com menor número de espécies.

Para esse estudo os pesquisadores das instituições alemãs como o Centro para Pesquisa Ambiental de Helmholtz (UFZ) e Centro de Pesquisa para Biodiversidade Integrativa (iDiv) pesquisaram dados sobre a distruibuição e habitat para quase 20.000 espécies de vertebrados fazendo projeções de intensificação da agricultura e de cenários com otimização da utilização das áreas disponíveis.

Os pesquisadores revelaram que se a expansão da agricultura fosse otimizada por áreas por meio de uma coordenação global que as direcionasse para as áreas com menos biodiversidade, até 88% das perdas de biodiversidade projetadas poderiam ser evitadas. Se coordenadas apenas em nível nacional, o estudo revela que minimização da perda seria de 61%.If coordinated at the national level, their study indicates that number would be 61 percent.

A pesquisa revelou ainda que 10 países compartilham grande parte desse potencial por eles e que poderiam, por eles mesmos, reduzir a perda da biodiversidade em até 33%.

Área ao lado da floresta tropical no Parque Nacional Gunung Leuser na Indonésia desmatada para plantio de óleo de palma (azeite de dendê).

“Alguns poucos países tropicais incluindo a Índia, o Brasil ou a Indonésia teriam de longe o maior poder de alavanca para tornar a produção de alimentos mais sustentável”, declarou o co-autor do estudo e pesquisador do iDiv e da Universidade de Leipzig, Carsten Meyer.

A pesquisa revela que esses resultados implicam “ganhos de eficiência enormes” podem ser alcançados por meio da cooperação internacional, mas que existem algumas ressalvas.

Os pesquisadores declaram que a maioria desses países estão ranqueados entre os “20 piores países” em termos de impactos ambientais e que eles tem problemas políticos e de governabilidade que impedem o planejamento para uso eficaz de suas terras em nível nacional.

“Infelizmente esses países também são frequentemente caracterizados por conflitos internos relacionados ao uso de suas terras assim como por instituições relativamente fracas na gestão das terras, ambas essas características inibem a otimização do uso das terras”, disse Meyer.

De acordo com o autor principal, Lukas Egli, pesquisador da Universidade de Göttingen e do UFZ, existe ainda outro fator complicador. Ele disse que a otimização do uso das terras de forma a proteger os recursos naturais dos países mais biodiversos, podem acontecer “as custas das próprias oportunidades de produção e desenvolvimento econômico [desses países]”.

“A não ser que esses interesses nacionais conflitantes possam ser acomodados de alguma forma dentro de políticas de sustentabilidade internacionais, uma cooperação global parece improvável e pode gerar novas dependências socio-econômicas”, disse Egli.

Os pesquisadores revelam que para que os países mais biodiversos do mundo possam atingir seu pontencial máximo de conservação enquanto fornecem alimentos para suas comunidades humanas as políticas globais de uso de terras precisam integrar melhor os desafios de governabilidade, políticas públicas e economia presentes nesses países. Os pesquisadores declaram que os resultados do estudo poderiam ser usados para “guiar doadores internacionais e as instituições emponderadoras no uso estratégico de investimentos.

“Esforços focados são necessários para melhorarmos a capacidade de integração do planejamento do uso de terras com a sustentabilidade”, disse Meyer.

Referência:
Egli, L., Meyer, C., Scherber, C., Kreft, H., & Tscharntke, T. (2018). Winners and losers of national and global efforts to reconcile agricultural intensification and biodiversity conservation. Global change biology.

A Escala de Friabilidade – uma nova forma de enxergar os ecossistemas

O segundo insight do Gerenciamento Holístico consiste em uma nova forma de classificar ecossistemas de acordo com um contínuo que vai de não-friável (1) até muito friável (10) dependendo de como a umidade é distribuída ao longo do ano e como a serrapilheira (vegetação morta) se decompõe. Nos extremos dessa escala os ecossistemas respondem de maneira diferente a influencias iguais. O descanso, por exemplo, restaura a paisagem em ecossistemas não friáveis, mas causa danos nas paisagens muito friáveis.

Mas primeiramente, vamos esclarecer o que é ‘friável’. Segundo Allan Savory, “friabilidade não é o mesmo que fragilidade” (Savory, A. e Butterfield, J. 2000: 30).

“Dentro de várias classificações ambientais”, ele explica, “existem áreas facilmente perturbadas por uma série de forças e comunidades robustas que aguentam muito mais abuso. Entretanto comunidades frágeis podem existir em ambientes não-friáveis (por exemplo, uma camada de samambaias em uma floresta), e alguns ecossistemas bastante friáveis podem não ser frágeis (por exemplo, as savanas africanas ou as pradarias norte americanas).” (Savory, A. e Butterfield, J. 2000: 30)

Outra confusão que acontece com frequência é acreditar que a vulnerabilidade de determinado ecossistema aos processos de desertificação está ligada somente ao índice pluviométrico. Isso se dá por causa da correlação que os dois extremos da Escala tem com esse índice. Entretanto, essa vulnerabilidade é determinada mais pelo grau de friabilidade do que pela precipitação total.

Quanto mais perto chegamos do 10 na Escala de Friabilidade, mesmo com índices pluviométricos entre 750 e 2000 mm, mais rápido a região vai deteriorar sob as práticas da agricultura moderna. Mas isso não é para indicar que não-friável signifique não vulnerável à deterioração, como os grandes desmatamentos das florestas tropicais deixam claro (Savory, A. e Butterfield, J. 2000).

Não existe um corte claro indicando onde um ecossistema passa de não-friável para muito friável. Mais do que a quantidade de chuva que cai por ano, o que melhor caracteriza a posição de um ecossistema na escala então é a distribuição da chuva e da umidade relativa do ar durante todo ano. “Para o extremo muito friável da escala, os ecossistemas tem caracteristicamente uma distribuição errática tanto das chuvas como da umidade relativa do ar durante o ano” (Savory, A. e Butterfield, J. 2000: 30).

Todos os ecossistemas se encontram em algum ponto entre 1 e 10 na escala. A maneira mais fácil de determinar onde é olhar várias áreas [dentro do mesmo ecossistema] e avaliar como a maior parte da vegetação está se decompondo. No extremo não-friável a decomposição será 100% biológica. Isso diminui regularmente na medida em que um ecossistema se aproxima da friabilidade e a decomposição física e química aumentam. Você deve se preocupar como como a maior parte da matéria orgânica se decompõe ao longo de todo o ano. (Savory, A. e Butterfield, J. 2000: 35-36).

Outra forma de identificarmos o grau de friabilidade é a quantidade de solo exposto que encontramos em determinada área. Isso porque na ponta não-friável da escala “é extremamente difícil, se não impossível, de criarmos grandes áreas de solo exposto e mantê-las assim (Savory, A. e Butterfield, J. 2000: 36).

Falamos muito em ‘sucessão natural’, especialmente quando tratamos de sistemas agroflorestais, mas frequentemente nos esquecemos que fauna e flora evoluíram juntas. Esquecemos a interdependência entre insetos, animais e plantas das mais variadas espécies. Nos ecossistemas friáveis como as savanas africanas e as pradarias norte americanas, eram as grandes manadas de herbívoros em constante movimento migratório que complementavam a umidade relativa por meio da urina e fezes. A altíssima densidade dessas manadas, devido a conexão presa-predador, também ajudava na decomposição da matéria orgânica por meio do pisoteio.

Juntamente com os outros 3 insights do Gerenciamento Holístico, a classificação de ecossistemas de acordo com a Escala de Friabilidade, nos auxilia a avaliar a necessidade e utilidade dos animais herbívoros como ferramenta para restaurar a saúde de um ecossistema.

Referência: Savory, A. e Butterfield, J. (2000). Holistic Management: A New Framework for Decision Making. Island Press. EUA. (Tradução livre Eurico Vianna)

Nota sobre o Impacto Positivo e a turnê Gerenciamento Holístico 2019 – Solto esse programa já em meio a preparações de outra viagem para o Brasil na qual estarei promovendo junto com o educador/consultor Australiano Graeme Hand o Gerenciamento Holístico no Brasil. Vou trabalhar com a Escola de Permacultura, com a Fazenda Bella e com novos parceiros no interior de São Paulo, mas preciso da ajuda de todas as pessoas que gostam do conteúdo para divulgar essa turnê! Peço a todos que compartilhem o conteúdo específico do Gerenciamento Holístico para eu possa encontrar parceiros que viabilizem esse projeto e os podcasts de maneira geral como forma de mostrar que outro mundo é possível, já existe, é viável e muito mais digno, saudável e harmonioso.

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Os 4 Isights do Gerenciamento Holístico

O Gerenciamento Holístico se baseia primordialmente em 4 insights. O primeiro é de que uma perspectiva holística é essencial no gerenciamento. O segundo de que os ecossistemas podem ser classificados dentro de um contínuo que vai de não-friável até muito friável. O terceiro se baseia na conexão presa-predador. E o quarto na descoberta que é o tempo e não o número de animais em determinada área que causa o sobrepastoreio.

1 – Uma perspectiva holística é essencial no gerenciamento. Se baseamos decisões de gestão em qualquer outra perspectiva, nós provavelmente teremos resultados diferentes dos planejados porque só o todo é real.

2 – Os ecossistemas podem ser classificados dentro de um contínuo que vai de não-friável até muito friável de acordo com o quão bem a humidade é distribuída e a velocidade que a vegetação morta se decompõe. Nos extremos dessa escala os ecossistemas respondem de maneira diferente a influencias iguais. O descanso, por exemplo, restaura a paisagem em ecossistemas não friáveis, mas causa danos nas paisagens muito friáveis.

3 – Nos ecossistemas friáveis um número relativamente alto de grandes herbívoros em manada, mantidos concentrados e em constante movimento como esses animais se comportam naturalmente na presença de predadores que caçam em grupo, é vital para se manter a saúde das paisagens que pensávamos que eles destruíam.

4 – Em qualquer ecossistema o sobrepastoreio e a compactação pelo pisoteamento praticamente não tem relação com o número de animais. Ao contrário, tem relação com a quantidade de tempo que as plantas e o solo são expostos aos animais.

Referência: Savory, A. e Butterfield, J. (2000). Holistic Management: A New Framework for Decision Making. Island Press. EUA. (Tradução livre Eurico Vianna)

Nota sobre o Impacto Positivo e a turnê Gerenciamento Holístico 2019 – Solto esse programa já em meio a preparações de outra viagem para o Brasil na qual estarei promovendo junto com o educador/consultor Australiano Graeme Hand o Gerenciamento Holístico no Brasil. Vou trabalhar com a Escola de Permacultura, com a Fazenda Bella e com novos parceiros no interior de São Paulo, mas preciso da ajuda de todas as pessoas que gostam do conteúdo para divulgar essa turnê! Peço a todos que compartilhem o conteúdo específico do Gerenciamento Holístico para eu possa encontrar parceiros que viabilizem esse projeto e os podcasts de maneira geral como forma de mostrar que outro mundo é possível, já existe, é viável e muito mais digno, saudável e harmonioso.

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O que significa pecuária corretamente manejada?

O gado ou mais amplamente a pecuária tem sido demonizado por veganos, vegetarianos e ambientalistas. Essas pessoas, por mais bem intencionadas que sejam, culpam a pecuária pela degradação ambiental, quando na verdade o verdadeiro culpado é o modelo de produção. No texto que segue, Allan Savory explica o que significa a pecuária manejada de forma correta e como ela pode reverter os processos de desertificação e combater o aquecimento global.

Nota: O texto que segue é uma tradução livre do artigo “O que significa pecuária manejada corretamente?” escrito por Allan Savory e traduzido por Eurico Vianna e Filipe Suleiman. O artigo original foi publicado em inglês no dia 17 de Abril de 2016 e pode ser encontrado nesse link.

No meu sexto post no blog, eu discuti porque a pecuária manejada de forma correta é essencial para salvar a civilização como a conhecemos. Agora, vamos discutir o que a pecuária manejada de forma correta significa, porque somente ao manejá-la adequadamente poderemos abordar seriamente a complexidade envolvida na desertificação global e nas mudanças climáticas.

Primeiro deixe-me ser claro sobre o que não é uma boa gestão na pecuária.

Pecuária industrial

O senso comum nos diz que a agricultura precisa se basear nas ciências biológicas. A agricultura industrializada, no entanto, baseia-se na química e na tecnologia promovida pelas universidades, corporações, grandes financiadores filantrópicos, governos e agências internacionais – uma consequência da gestão e políticas reducionistas.

Literalmente milhões de bovinos, suínos e aves são  manejados em Operações de Alimentação Animal Concentrada (CAFOs na sigla em inglês, mas também conhecida em português por pecuária de confinamento). Esses incluem porcos criados em pequenas gaiolas com pouco espaço para as mães se moverem. Isto não constitui um pecuária manejada de forma correta. A Union of Concerned Scientists (União de Cientistas Preocupados) tem criticado essas práticas. Veganos e vegetarianos que expressaram sua indignação estão – a meu ver – tais práticas não são apenas desumanas para os animais, mas tratar os animais de tal maneira também é degradante para os humanos. Além de ser desumano e degradante, os CAFOs também são prejudiciais ao meio ambiente, à economia e à saúde humana. Em qualquer nação que se proclame civilizada, tal manejo de animais deveria ser ilegal. Infelizmente, a pecuária de confinamento leva muitos na sociedade a difamar a pecuária [como um todo] em vez de reconhecer que os animais são inocentes, enquanto a gestão e políticas reducionistas são o problema.

O pecuária corretamente manejada começa com o manejo dos animais na terra de maneira que seja boa para a terra e toda a vida – bem cuidados até que suas vidas sejam terminadas o mais humanamente possível. Assim como você e eu gostaríamos de ser tratados.

Manejando animais na terra.

Aqui eu preciso distinguir entre o manejo da pecuária nos ambientes úmidos o ano todo (cerca de um terço das terras do mundo), e manejá-la nas maiores áreas do mundo, que são ambientes sazonalmente úmidos e depois secos. Os primeiros são ambientes não-friáveis [ou resilientes], nos quais folhas mortas e caules se desfazem suavemente em sua mão. O segundo são ambientes friáveis, onde as folhas mortas e os caules são tão friáveis que se quebram em fragmentos na mão.

Ambientes úmidos não-friáveis.

Lembre-se que a zona rural ao redor de Londres é verde o ano todo, enquanto a de Joanesburgo com maior precipitação média, é seca, poeirenta e marrom a maior parte do ano, porque essas cidades estão em ecossistemas completamente diferentes.

Nos ambientes mais úmidos, digamos, das costas leste e noroeste da América, ou grande parte da Europa, a pecuária tem um papel essencial a desempenhar na regeneração da vida e da saúde do solo para sequestrar carbono da atmosfera, mas não para tratar da desertificação. Nesse ambientes tão úmidos – lembre-se de meus posts anteriores – nenhuma quantidade de sobre pastoreio ou descanso (repouso parcial ou total das pastagens) causa a desertificação.

Em ambientes úmidos, enquanto os animais estiverem fora, no pasto e bem tratados, existem muitas maneiras de manejá-los. No passado, e no presente, práticas seculares envolveram pastoreio contínuo ou pastoreio rotacional. O cientista francês de pastagens Andre Voisin trouxe à luz as limitações do pastoreio rotativo. Ele desenvolveu uma forma simples de planejar o pastoreio na pecuária que ele chamou de pastoreio “racional” – ou seja, bem pensado e planejado, em vez de simplesmente girar através de pastagens.

Aqui eu preciso fazer uma digressão para discutir a confusão que reina sobre as várias maneiras que argumentam como o manejo de pasto deve ser feito.

Causa de confusão pública sobre o manejo do pasto.

Everett Rogers em seu livro seminal Diffusion of Innovations [Difusão das Inovações] descreve como o novo conhecimento se espalha na sociedade. Por sermos humanos com egos, quando aprendemos algo novo, damos o que aprendemos um novo nome e adaptamos para que pareça uma ideia nossa – e dessa forma novas idéias se espalham de uma maneira um tanto desordenada, mas eventualmente eficaz. Tanto à partir do trabalho de Voisin como do meu, as pessoas criaram muitos novos “sistemas de pastoreio”. Alguns exemplos desses sistemas de pastoreio são: o pastoreio em massa, o pastoreio de curta duração, o manejo intensivo das pastagens, o pastoreio de alta densidade, o pastoreio de piquetes e o pastoreio adaptativo de múltiplos piquetes.

Tragicamente, ao dar um novo nome e adaptar o trabalho dos outros, a própria razão do sucesso [dos sistemas originais] se perdeu. Como se eu contasse uma piada sua como se fosse minha, mas esquecesse a frase que dá graça à piada! A ‘frase esquecida’ [no caso do Gerenciamento Holístico], foi obviamente, a Tomada de Decisão Holística e o processo de planejamento [das rotações e pastagens].

O que as pessoas nas empresas entendem com facilidade é, por algum motivo, difícil para a maioria dos fazendeiros e cientistas de campo. As pessoas de negócios entendem que um sistema de gerenciamento prescritivo lhes serve bem onde as coisas no negócio são previsíveis. Por exemplo, eles usam um sistema de contabilidade ou de controle de estoque – o que significa um sistema de gerenciamento prescritivo. No entanto, eles não sonhariam em gerenciar todo o seu negócio e toda sua imprevisibilidade usando qualquer “sistema de negócios” prescritivo.

Essa confusão que surge entre os produtores, fazendeiros e acadêmicos de administração do campo e nos resultados públicos vem, eu acredito, do nosso uso da palavra “sistema” para explicar duas coisas diferentes. Nós nos referimos ao eco-‘sistema’ e a outros ‘sistemas’ complexos querendo dizer que ‘o todo’ ou ‘o sistema’ é complexo – funciona em conjuntos e padrões, auto-organizados e que, de fato, são complexos. Em meu segundo post desta série, discuti por que nossa incapacidade de administrar o que é complexo está afundando o barco da humanidade. Tudo o que administramos envolve organizações humanas e natureza – ambas definidas como sistemas complexos que se auto-organizam. Embora isso seja bastante claro, a confusão reina quando usamos a palavra ‘sistema’ em um sentido diferente, para descrever uma maneira prescritiva predeterminada de manejar animais em pastagens no campo. Fazemos isso com os sistemas de rotação e muitos outros sistemas de pastoreio. Ao fazermos isso, ignoramos em grande parte a complexidade social, cultural, econômica e ambiental e apresentamos um sistema de pastoreio recomendado (como um sistema de contabilidade ou sistema de controle de inventário) que os produtores e fazendeiros deveriam usar.

Então, em resumo, qualquer um dos inúmeros sistemas de pastoreio pode ser usado em regiões mais úmidas, onde a terra não desertifica, desde que os animais sejam tratados com humanidade durante toda a vida. A terra deve melhorar contanto que os animais sejam agrupados mais e mantidos em movimento. As pessoas ficarão felizes, como, de fato, muitas pessoas boas e aquelas que as aconselham estão ficando com o que estão fazendo porque não vêem os custos ocultos. Para a maioria das pequenas propriedades em regiões mais úmidas, o processo de planejamento simples do Voisin é excelente e superior a qualquer sistema de pastoreio. Minha esposa e eu tivemos o livro de Voisin republicado pela Island Press para tornar seu trabalho original mais disponível para aqueles que querem fazer melhor do que qualquer sistema de pastoreio pode fazer.

Agora chegamos às regiões que estão desertificando, como nos EUA e na maior parte do mundo. Áreas onde as chuvas são sazonais, irregulares e predominantemente abaixo de 400 mm (16 polegadas) de chuva por ano – áreas onde nenhuma tecnologia, plantio de árvores ou qualquer coisa além da pecuária pode praticamente reverter a desertificação e lidar com as mudanças climáticas. Aqui precisamos prestar atenção porque esses ambientes friáveis (ou quebradiços) cobrem a maior área do nosso planeta – uma área muito maior do que as florestas tropicais e regiões úmidas.

Ambientes friáveis (quebradiços) com umidade sazonal.

Quando, na década de 1960, percebi que não tínhamos outra opção senão usar o pecuária para reverter a desertificação na maior parte do mundo, enfrentei um dilema sério. Como isso poderia ser feito?

Conforme explicado em minha palestra no TED sobre desertificação, tivemos a experiência de mais de 10.000 anos de pastores experientes pastoreando seus animais, protegendo-os de predadores e constantemente movendo-os, assim como eles ainda fazem hoje. Mas isso levou ao desenvolvimento dos grandes desertos da antiguidade criados pelo homem e a desertificação ainda está avançando enquanto escrevo. Claramente o pastoreio de rebanhos, como sempre foi e ainda é feito, não reverteria a desertificação.

Jovem pastor sul-africano – Imagem Savory Global

Então tivemos a experiência de cerca de um século de uma gestão moderna de fazendas orientada por cientistas de campo, e isso aumentou a desertificação mais rapidamente do que os pastores haviam feito ao longo de milhares de anos. Esse tipo de manejo incluiu muitos sistemas de pastoreio, cercas, distribuição de água, uso de máquinas, fogo e produtos químicos. Envolveu também a redução constante do número de cabeças de pecuária que levaram ao genocídio pastoral na África, Israel, China e outros lugares, bem como a uma decadente cultura de pecuária ocidental nos EUA – claramente nenhum desses está funcionando. Então, o que deveríamos fazer? O que devemos fazer?

Tudo o que eu sabia há décadas atrás era que tínhamos que aprender a usar o comportamento de pastoreio e rebanho da pecuária de uma maneira similar a como eles evoluíram na presença de predadores que caçam manadas. De alguma forma, tínhamos que usar a pecuária como uma ferramenta e como representante de populações intactas de herbívoros e predadores do passado que não existem mais.

Ao administrar a pecuária de uma forma que imitasse a natureza, também tivemos que administrar situações socialmente, ambientalmente e economicamente muito complexas. Voisin nos deu uma pista – use algum processo de planejamento para abordar o que é complexo. Eu tentei o planejamento de Voisin, mas como foi desenvolvido para pastagens verdejantes (sem períodos de seca) na Europa, não podia lidar com a complexidade maior que enfrentamos nas savanas africanas. O planejamento de Voisin tampouco podia lidar com a complexidade social e econômica. Como nós, ecologistas, nunca enfrentamos algo assim, comecei a pesquisar outras disciplinas para ver se alguém havia lidado com tanta complexidade. O que encontrei de mais semelhante foi na experiência militar desenvolvida ao longo dos séculos na Europa.  

Os planejadores militares tinham sido forçados a desenvolver maneiras cada vez mais bem-sucedidas de planejar situações extremamente complicadas e em rápida mudança, em condições imediatas do campo de batalha. Para fazer isso, mentes inteligentes desenvolveram uma maneira simples de produzir o melhor plano possível a qualquer momento, em uma situação muitas vezes caótica e em constante mudança. Ao invés de reinventar a roda, eu simplesmente copiei o que me ensinaram como oficial do exército Rodesiano do Colégio Militar Britânico de Sandhurst – e isso se tornou o Holistic Planned Grazing.

Planejamento Holístico de Pastagens (adequado para todos os ecossistemas).

Nesse processo bem-sucedido e replicável, a primeira etapa é feita para que aqueles que gerenciam usem a estrutura holística para gerenciar o que é complexo – começando por desenvolver seu próprio contexto holístico para orientar o gerenciamento. Este é o estágio essencial quando as pessoas determinam por si mesmas, por interesse próprio, até se a pecuária deve ser gerenciada e, em caso afirmativo, como. Qualquer produtor rural ou corporação, por exemplo, em uma floresta tropical brasileira, perceberia que o pecuária não deveria estar lá. Criar gado em pastagens em uma área de floresta tropical desmatada seria socialmente, ambientalmente e economicamente insalubre, e não estaria no interesse de longo prazo de qualquer pessoa, corporação ou nação.

Se, de acordo com seu contexto holístico, aqueles que estavam gerenciando determinassem que a pecuária era essencial para melhorar suas vidas, e que nada mais poderia fazê-lo naquela situação, então o planejamento da gestão da pecuária na área prosseguiria. Se prosseguiria com o conhecimento de que era a coisa certa a fazer socialmente, ambientalmente e economicamente para suas próprias vidas e as das futuras gerações.

Como é feito o Planejamento Holístico de Pastagem?

As mentes militares haviam desenvolvido a idéia profundamente simples de transformar uma situação complicada em pequenas partes digeríveis para considerar uma por uma. Mesmo uma mente estressada pode fazer isso. E depois, tendo considerando cuidadosamente um pequeno ponto, passe para o próximo, com cada passo construindo sobre aqueles de antes para chegar ao melhor plano possível. Eu podia ver como esse processo poderia lidar com uma situação incrivelmente complicada, mesmo para pessoas estressadas e exaustas em batalha, mas havia outro problema. Batalhas são travadas por um curto período de tempo. As pessoas que administram a pecuária têm que planejar por meses ou anos à frente. Eles têm que planejar considerando mudanças climáticas sem padrões definidos, queimadas, plantas venenosas, predadores, cultivos, outros usos da terra, as necessidades do conjunto de vida selvagem e muito mais. Ao mesmo tempo, eles têm que planejar considerando a mudança das necessidades nutricionais dos animais à medida que passam por seus ciclos de reprodução. Como eu poderia usar a ideia de planejamento militar e resolver tal complexidade por muitos meses? Facilmente.

Simplesmente estabelecendo o planejamento em um gráfico poderíamos refletir dimensões de tempo, área, números e muitos problemas, questões, mudanças de estações e muito mais em um pedaço de papel. Tão simples. Nós fizemos isso e funcionou imediatamente. Embora eu tenha visto milhares de fazendeiros e pecuaristas falharem no planejamento, ainda não vi o Planejamento Holístico de Pastagens fracassar em nenhum país. Até porque, todo esse processo é baseado em mais de 300 anos de experiência de mentes brilhantes.

O Planejamento Holístico de Pastagens é ensinado rapidamente e é fácil o suficiente para crianças entenderem. Na África, os jovens recém-saídos do ensino médio, sem experiência [na pecuária] aprenderam a planejar [os movimentos nas] pastagens em um dia. Na verdade, fazer o planejamento é divertido para qualquer família ou equipe, muito parecido com um jogo, com o conhecimento na cabeça de todos derramando-se no gráfico e, finalmente, planejando o movimento animal para produzir o resultado desejado. A inexperiência ainda tem que se provar uma dificuldade, porque a ignorância não bloqueia a aprendizagem da maneira que já sabemos que os nossos egos bloqueiam a aprendizagem.

Criança com o Mapa de Planejamento – Imagem Savory Global.

Os passos para o planejamento do pastoreio estão contidos em um Aide Memoire (auxiliar de memória, em francês) por causa da origem em faculdades militares. Esse auxiliar de memória garante que passos pequenos e simples sejam seguidos, criando, da maneira como eles fazem, o plano final. O auxiliar de memória é universal (aplicável em todos os ecossistemas e em todos os tipos de situações), refletindo as experiências de milhares de agricultores, pecuaristas e pastores no campo. O treinamento, incluindo materiais de auto-aprendizagem, está disponível e constantemente atualizado pelo Savory Institute e sua rede mundial de hubs liderados e gerenciados localmente.

E uma versão simples, juntamente com materiais de mobilização da comunidade (desenvolvidos com assistência financeira do Escritório de Assistência a Desastres Estrangeiros na USAID), está disponível para pessoas semi-alfabetizadas, ONGs e outras organizações na África.

Jovem facilitando uma oficina para que pessoas semi-analfabetas em uma vila no Zimbabue possam planejar a rotação holística de seus animais nos piquetes de pasto – Imagem Savory Global.

O Planejamento Holístico de Pastagens funciona?

Você pode se perguntar se o que eu escrevo é apoiado por resultados ou reconhecimento de órgãos respeitáveis. Os resultados foram demonstrados repetidamente por quase meio século. Naturalmente, as pessoas fizeram o que fizeram com níveis variados de habilidade, mas os sucessos foram tão grandes que o processo de Planejamento Holístico de Pastagens agora é praticado em mais de vinte milhões de hectares em seis continentes. Nos EUA, produtores que manejam holisticamente dominaram as premiações por boa administração e cuidado com o campo. Até o momento algumas organizações de renome reconheceram esse trabalho, apesar do fato de que o uso da pecuária para reverter a desertificação é um tapa na cara das crenças da sociedade e, portanto, das instituições:

• Prêmio Internacional Australiano Banksia 2003 – “para a pessoa ou organização que mais faz pelo meio ambiente em escala global”.

• Prêmio Estadunidense Buckminster Fuller em 2010 – “por uma estratégia que melhor atenda às questões mais urgentes da humanidade”.

• Western A Price 2015 “pela integridade e persistência na ciência”.

• Atualmente é finalista do Virgin Earth Challenge, prêmio de US$25 milhões de Sir Richard Branson por formas escalonáveis e sustentáveis de remover gases do efeito estufa do ar.

Críticas e falhas.

Administrar o que é tão complexo foi desenvolvido ao longo de décadas de críticas, ajudando a encontrar falhas seja na lógica ou na ciência, como normalmente avançam a ciência e o conhecimento. Apesar dos apelos que fiz e ainda faço a todos os cientistas para ajudar a identificar quaisquer falhas na lógica ou na ciência, desde o início da década de 1980 que não encontramos novas falhas e apenas mudanças cosméticas ocorreram na abordagem holística. Lembre-se de que este é um processo de tomada de decisão e planejamento que utiliza toda a ciência disponível, bem como outras fontes de conhecimento.

Dito isso, no entanto, qualquer pessoa que fizer uma pesquisa no Google encontrará críticas constantemente recicladas de que o Planejamento Holístico de Pastagens não se baseia nem é apoiado pela ciência. E que também não foi comprovado experimentalmente. Tais alegações, que os oponentes usam as mídias sociais para espalhar amplamente, surgem de trabalhos, relatórios e artigos produzidos por veganos, ambientalistas e por professores de universidades respeitáveis, acrescentando “legitimidade como cientistas objetivos”.

Mesmo sempre lendo os artigos dos críticos e publicações especializadas em jornais científicos para o caso de terem encontrado algo novo, descobrimos que esse ainda não é o caso. Apesar de suas credenciais acadêmicas, os autores de tais trabalhos têm consistentemente estudado uma ou outra das muitas derivações do sistema de pastejo, mas não o processo de Planejamento Holístico de Pastagens. Esses autores também citam um ao outro repetidamente. Em uma publicação de 8 autores (todos com PhD), 19 artigos foram citados em apoio às suas críticas, mas quando todas essas citações foram checadas, incluindo os artigos citados por esses autores, nenhum jamais estudou o Planejamento Holístico de Pastagens. Afirmar que porque os sistemas de pastoreio que eles estudaram não reverteram a desertificação, então, o Planejamento Holístico de Pastagens, não é comprovado pela ciência experimental, é de fato uma lógica distorcida. Este comportamento é talvez melhor descrito em The Structure of Scientific Revolutions, de Thomas Kuhn.

Entretanto, nós nunca devemos relaxar e é minha esperança que todos vocês lendo a minha série de posts desafiarão tudo que eu escrevo. Por favor, sinta-se à vontade para fazê-lo, para compartilhar com críticos e céticos que você conheça ou que possa localizar usando o Google, os convidando a participar do diálogo. Com a grave situação que a humanidade enfrenta e pelo bem das futuras gerações, tudo o que peço é que você não seja apático.

No meu próximo artigo, vou resumir porque é que somente gerenciando o que é complexo holisticamente – usando a pecuária, manejada de forma correta, combinado com a tecnologia para desenvolver energia benigna em massa – podemos abordar seriamente a mudança climática e assim oferecer às futuras gerações a esperança que merecem . Até lá.

Nota sobre o Impacto Positivo e a turnê Gerenciamento Holístico 2019 – Solto esse programa já em meio a preparações de outra viagem para o Brasil na qual estarei promovendo junto com o educador/consultor Australiano Graeme Hand o Gerenciamento Holístico no Brasil. Vou trabalhar com a Escola de Permacultura, com a Fazenda Bella e com novos parceiros no interior de São Paulo, mas preciso da ajuda de todas as pessoas que gostam do conteúdo para divulgar essa turnê! Peço a todos que compartilhem o conteúdo específico do Gerenciamento Holístico para eu possa encontrar parceiros que viabilizem esse projeto e os podcasts de maneira geral como forma de mostrar que outro mundo é possível, já existe, é viável e muito mais digno, saudável e harmonioso.

– Se você usa um celular Android se inscreva no Stitcher ou se usa iPhone, se inscreva no iTunes.  Aproveite e deixe sua avaliação por lá, isso faz muita diferença em como o podcast passa a ser ‘oferecido’ nos mecanismos de busca 😉
– Compartilhe as entrevistas e artigos com seus comentários nas suas mídias sociais.
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Santuários de Sanidade Mental e Ecológica

“Nós abusamos da terra por acreditarmos que é uma comódite que nos pertence. Quando vermos a terra como uma comunidade a qual pertencemos, nós podemos começar a usá-la com amor e respeito” (Aldo Leopold). É nesses Santuários de Sanidade Mental e Ecológica, que já brotam por toda a parte, que quero estar de mãos dadas com as pessoas que já são conscientes das limitações desse projeto de civilização e de que um novo viver, autônomo e harmonioso, precisa ser inventado urgentemente.

Desde que o novo governo foi eleito eu venho dizendo que, pelo menos supostamente, há uma coisa boa em tudo isso de ruim que está acontecendo no Brasil. Saber que o que aparenta ser um retrocesso social, ambiental, cultural e educacional, na verdade não é um retrocesso, é o estado atual da maioria no Brasil.

A previdência está sendo alterada e o lucro que se concentra nas mãos de poucos virá também as custas de pessoas mais velhas, frequentemente pobres. Isso acontece apesar da nossa herança cultural dos povos africanos e indígenas que sempre nos ensinou a cuidar, respeitar e valorizar os mais velhos.

As leis ambientais estão sendo flexibilizadas mesmo em meio a crimes ambientais que mataram centenas, como nas represas da Vale em Mariana e Brumadinho. Como nos casos de atentados a agentes da FUNAI, ICMBIO e IBAMA. Enquanto nossa herança cultural dos povos africanos e indígenas sempre nos ensinou a viver em harmonia com o planeta.

Nossa comida está sendo cada vez mais envenenada, enquanto Hipócrates já nos ensinava a fazer do alimento nossa medicina.

São mazelas… sociais, ambientais e mentais mesmo. Na Medicina Tradicional Chinesa, quando uma mazela se apresenta devemos ser gratos por poder identificá-la e trabalhar na cura. Mas esse lado positivo é só ‘supostamente’ bom porque para existir ‘tratamento’ o afligido precisa não só estar consciente de sua mazela, mas querer ser tratado.

Aí fico imaginando quantos escravos defendiam seus senhores e capitães do mato ou quantos campesinos ou plebeus defendiam o feudalismo? Digo isso porque nunca a concentração de renda e poder foi tão desigual e escancarada! Nunca foi tão claro que esse sistema vigente esvai a empatia, a humanidade, nos faz degradar a natureza (e nós mesmos como parte integrante dela). E ainda assim há muitos que defendem o quadro que piora dia-a-dia.

Mas o fato é que não vejo possibilidade de “tratamento”, de esperança, para esse projeto de civilização.

Os que defendem esse sistema, seus líderes e sua viabilidade vão enterrar muitos inocentes, como já fazem há muito tempo em nome do lucro. Em nome do lucro também envenenamos as pessoas, os animais e o meio ambiente. Durante esse processo de criação de uma economia sociopata extinguimos 200 espécies todo dia, na Era que passou a ser chamada de Antropoceno. Nossa poluição dispara ciclos de feedback auto-reforçados que deixam o planeta cada vez mais febril, reforçando ainda mais a extinção de tudo e todos.

Não há sentido no “ninguém solta a mão de ninguém” se for para nos apoiarmos dentro do projeto atual de civilização. Precisamos abandonar rapidamente os que perderam sua humanidade e não querem ajuda! Precisamos rapidamente encontrar os que já acordaram para a gravidade da situação e já estão dispostos a abandonar esse modelo para criar outro, de fato, humano e harmonioso.

Nas palavras de Clarisse Lispector contidas em uma mensagem que uma amiga me mandou, “liberdade para mim é pouco, o que eu quero ainda não existe.” Por isso precisamos criar santuários de sanidade mental e ecológica! Precisamos restaurar o planeta enquanto nos tornamos responsáveis pelo nosso viver. Precisamos que haja uma possibilidade saudável e digna para que as gerações futuras possam habitar o planeta. O foco deve ser na criação desses lugares, não na conversão ideológica dos que querem conquistar e desfrutar de privilégios as custas da saúde do planeta e das futuras gerações que o habitarão.

Só lugares assim sobreviverão ao colapso econômico, energético e ambiental que já se forma rapidamente. E no caso de uma hecatombe geral, como uma extinção em massa ainda maior do que a que está em curso causada pelo aquecimento global repentino (já anunciada em pesquisas publicadas nos jornais especializados) sejamos corajosos! Porque só em lugares assim manteremos a dignidade humana, a compaixão e a empatia até o final.

Nesses santuários de sanidade mental não pode haver espaço para fundamentalismos, para caixinhas que facilitem o sentimento de pertença excluindo ‘o diferente’. O diferente trará lições desde que a humanidade, a compaixão e a empatia estejam presentes.

À partir desses lugares pode haver uma mudança genuína que torne o atual obsoleto, como dizia Buckminster.

São nesses lugares, que já brotam por toda a parte, que quero estar de mãos dadas com vocês. Com as pessoas que não são melhores que ninguém, mas que são conscientes de suas limitações, das limitações do modelo atual e por isso já constroem outro viver.

Fiquem bem! Procurem as companhias e atividades que alimentem e mantenham a sua chama brilhando! Mudança boa a gente faz em boa companhia!

Nota: Das sincronicidades da vida… esse artigo surgiu como desabafo e resposta de apoio a uma amiga muito iluminada e super alinhada com as causas da saúde humana e da Mãe Terra. Além de tantas notícias péssimas para saúde humana e do meio ambiente já anunciadas por esse governo, ela tem se esgotado em diálogos ‘tentando ajudar’ as pessoas que apoiaram ou ainda apoiam o projeto de governo atual. Ela tem disponibilizando livros, artigos científicos e dados nas áreas em que ela atua e possui várias pós-graduações e especializações (nutrição e medicina tradicional chinesa) e doado seu tempo e energia para essas pessoas. No mesmo dia em que escrevi a versão original para ela, outro amigo me escreveu dizendo que a dominação da natureza e subsequente degradação é ‘natural’ do ‘homem’. Que o conceito de ecologia é novo, mas que a ‘cultura’ sempre dominou a ‘natureza’. Respondi que esse é o paradigma que nos trouxe ao ponto crítico de devastação que chegamos. Ainda no mesmo dia recebo a citação de Aldo Leopold que abre o artigo.

Gerenciamento Holístico: Parte 3 – Sistemas e Comportamentos e a Base de Recursos Futuros

Allan Savory, produtor rural, doutor em ecologia e criador do Gerenciamento Holístico originário do Zimbabue nos alerta para a necessidade especificarmos (listando) na construção de nosso Contexto Holístico para tomada de decisão coisas como “equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal” ou mesmo “ter um plano de aposentadoria”. Segundo ele essas coisas só serão produzidas ou só acontecerão se forem incluídas na nossa Declaração de Qualidade de Vida”. Nessa parte da série dos artigos sobre Gerenciamento Holístico eu abordo o passo-à-passo da construção dos Sistemas e Comportamentos e da Base de Recursos Futuros, últimos passos para a criação de um Contexto Holístico para tomada de decisão.

Nota: Esse material foi preparado primeiramente para guiar o trabalho que fazemos na Fazenda Bella. Posteriormente, depois de participar de cursos de Gerenciamento Holístico na Austrália e de reutilizar o mesmo material para outros empreendimentos e consultorias, surgiu a ideia de aprimorá-lo para compartilhar com outras pessoas no Brasil. Grande parte desse material, entretanto, é formado por compilações e traduções de outras fontes (originalmente publicadas em inglês). Uma parte menor foi de fato desenvolvida por mim. Apresento todas as fontes usadas na lista de referências ao final do texto.

Eurico Vianna, PhD. Lennox Head, Austrália, Janeiro de 2018.

No artigo anterior, Gerenciamento Holístico: Parte 2 – O Contexto Holístico, eu introduzi o conceito e exemplifiquei como podemos definir nossa Declaração de Propósito e Declaração de Qualidade de Vida, que garante que não sacrifiquenos nossa qualidade de vida para alcançar nossos objetivos. Esse artigo damos seguimento a construção do Contexto Holístico, que na verdade é formado por vários conceitos, práticas e atitudes que passam também pelo exercício da tomada de decisão com as perguntas teste e com a avaliação constante das decisões tomadas.

Formas de Produção ou ‘Sistemas e Comportamentos’

As Formas de Produção são definidas por Allan Savory como tudo aquilo que precisamos produzir para criar a qualidade de vida que descrevemos. Entretanto Allan Savory nos aconselha a focar no quê e não no como. “Você quer listar somente o que precisa ser produzido, não como vai ser produzido. O como algo é produzido é uma decisão que precisa ser testada” (Holistic Management, p. 77).

Mais uma vez uma adaptação feita pelo educador da permacultura canadense e instrutor do módulo de Tomada de Decisão Holística da Plataforma Regrarians, Javan Bernakovitch nos ajuda a pensar e desenvolver melhor esse conceito para que o uso seja mais eficiente. Javan usa ‘Sistemas e Comportamentos’ ou invés da definição clássica ‘Sistemas de Produção’. Eu prefiro usar ‘Comportamentos e Sistemas’ porque o termo define e indica bem o fato de que, por muitas vezes, o que precisa ser mudado são comportamentos. São falhas conscientes ou inconscientes em como abordamos as várias coisas que produzimos. O componente ‘sistemas’ também engloba bem o elemento ‘produção’ abordado no termo clássico original ‘formas de produção’.

Allan Savory explica que para definirmos nossas Formas de Produção (ou Comportamentos e Sistemas) “não basta simplesmente seguir a Declaração de Qualidade de Vida criando um produto para cada frase ou item”. É necessário nos perguntarmos “O quê nós não temos agora ou o quê não estamos fazendo agora, que nos impede de alcançar a qualidade de vida que listamos?”. Depois de analisarmos nossas próprias respostas nós editamos a resposta criando uma frase em termos positivos, descobrindo assim o que precisamos produzir, como precisamos nos comportar e quais são os sistemas que precisamos colocar em prática. Uma Forma de Produção (ou Comportamento e Sistema) pode ser a resposta para várias necessidades e vice versa. Por exemplo, se uma das qualidades de vida expressadas foi “ter prazer no que fazemos no dia-a-dia”, essa necessidade poderia ser resolvida tendo (ou melhor produzindo) “um equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal” ou “tempo suficiente para planejamento estratégico”, ou tantas outras formas (Holistic Management, p.75)

Outra observação importante feita por Allan Savory é de que algumas pessoas questionam a necessidade de especificar (listar) coisas como “equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal” ou mesmo “ter um plano de aposentadoria”, “mas essas coisas só serão produzidas se forem incluídas na Declaração de Qualidade de Vida” (Holistic Management, p.75).

Embora um Comportamento e Sistema possa prover para várias necessidades, na experiência de Dan Palmer da VEG, elas tendem a funcionar melhor quando respondem a cada necessidade. Veja o exemplo dos Comportamentos e Sistemas (Formas de Produção) da VEG, que declara ser uma empresa “profissional, organizada e calma”:

  • Nós nos apresentamos bem,
  • Nós nos preparamos bem para cada trabalho,
  • Nós nos asseguramos de que nossos clientes terão expectativas claras a respeito dos serviços que serão prestados,
  • Nós nos asseguramos de que todos os papéis e responsabilidades dentro da VEG são claramente definidos e todas as tarefas são distribuídas para o devido setor,
  • Nós não pegamos serviços demais,
  • Nós temos acordos claros quando estabelecemos parcerias com outras pessoas ou empresas,
  • Nós usamos sistemas de gerenciamento de tempo, pessoas e materiais que são claros e fáceis de usar.

A ideia, segundo Dan, é de que se cada uma dessas coisas (Comportamentos e Sistemas) forem alcançadas, a empresa deles será “profissional, organizada e calma”. É nessa etapa da articulação do Contexto Holístico que as transformações começam a acontecer. Ter nossas necessidades ou aspirações listadas, como fizemos nas etapas de Declaração de Propósito e de Qualidade de Vida, é um exercício que muitos já fizeram, mas sem os Comportamentos e Sistemas para complementar o contexto, elas quase sempre caem em esquecimento ou são vistas como clichês. Especificando os Comportamentos e Sistemas, no entanto, nós temos a certeza do que precisa se tornar realidade em nosso dia-a-dia para que possamos, de fato, realizar nossa Declaração de Propósito de maneira a conseguir alcançar todas as qualidades de vida listadas.

A Fazenda Oito Acres traz Comportamentos e Sistemas mais simples, por exemplo.

  • Nós produzimos gado (vendendo carne e animais vivos),
  • Nós produzimos um apiário (vendendo colmeias, mel e cera de abelha),
  • Nós produzimos sabonetes e óleos essenciais naturais,
  • Nós produzimos galinhas (animais vivos e ovos)?,
  • Nós produzimos hortaliças?

Notem como o processo é fluido. Os dois últimos itens das Formas de Produção da Fazenda Oito Acres estão marcados com uma interrogação. Isso demonstra que eles vão testar e decidir se esses Comportamentos e Sistemas são, de fato, viáveis dentro do contexto deles.

Dan Palmer dá o exemplo da Declaração de Qualidade de Vida de sua família e os Comportamentos e Sistemas necessários para mantê-las da seguinte maneira:

Nós somos fisicamente e mentalmente fortes.

Como Dan mesmo alerta, mas como garantir que essas qualidades sejam uma realidade diante das adversidades da vida? Eles então criaram seus Comportamentos e Sistemas:

  • Nós respiramos ar puro,
  • Nós bebemos água pura e viva,
  • Nosso alimento é nutritivo e saudável,
  • Nós dormimos bem,
  • Nós vivemos e trabalhamos em ambientes livres de toxina, claros, secos e aconchegantes,
  • Nós somos fisicamente ativos,
  • Nós somos conectados com pessoas da área da saúde que nos ajudam quando necessário.

Futura Base de Recursos (Future Resource Base)

Nessa última etapa desse exercício de formulação do seu Contexto Holístico você descreve como é a sua Futura Base de Recursos, nesse curso também chamada de Indicadores Futuros (Regrarians, 2017). O que você vê em termos de pessoas, terra (sua propriedade) e comunidade precisa ser capaz de prover as Qualidades de Vida e os Comportamentos e Sistemas declarados anteriormente.  De novo algumas perguntas se tornam chave para completarmos essa etapa.

    • Como será a paisagem do seu todo dentro de 10 anos? Dentro de 50 anos? E que tal, e porque não, dentro de 200 anos? Lembre-se que praticamente qualquer ‘todo’ sob gerenciamento depende de algum ecossistema em algum lugar para mantê-lo.
  • Quais são os serviços necessários que serão prestados pela comunidade para manter suas Formas de Produção? Quais caraterísticas você gostaria que sua comunidade local e regional tenham em um futuro longínquo? Entretanto, ao descrever as pessoas em sua Futura Base de Recursos, você deve focar em como você e o seu ‘todo’ (negócio ou organização) são, porque isso está dentro da sua esfera de controle. Embora o comportamento dos outros esteja fora de nosso controle, a maneira como somos vistos por essas pessoas tem grande influencia na maneira como essas pessoas agem com a gente.

Na opinião de Dan Palmer é melhor definir a Futura Base de Recursos de acordo com o que seus Comportamentos e Sistemas precisam no presente e no futuro. Resumindo, quais são os recursos (que você provavelmente incluiu na sua Base de Recursos quando você definiu o ‘todo sob gerenciamento’) dos quais você depende para conseguir fazer as coisas que mantém sua Declaração de Qualidade de Vida verdadeira? Além disso, como estes recursos precisam ser no futuro para continuar mantendo a Qualidade de Vida que você articulou? A Futura Base de Recursos da VEG foi definida assim:

  • Boa vontade dos clientes,
  • Competência dos funcionários,
  • Galpão organizado,
  • Relacionamentos de trabalho saudáveis,
  • Relacionamento com fornecedores,
  • Nós fornecemos resiliência,
  • Sistemas completos, elegantes e eficientes,
  • Marca forte, coerente e reconhecível,
  • Website bonito, funcional e atualizado,
  • Veículos e ferramentas mantidos em bom estado,
  • Bons relacionamentos e reputação com organizações parceiras e colegas.

Novamente a Fazenda Oito Acres articula seu contexto de forma sucinta e direta. Para eles a Futura Base de Recursos é apresentada também como “Coisas que nós podemos usar” e a lista segue assim:

  • Pastagens perenes,
  • Açudes e poços artesianos,
  • Biodiversidade (em árvores e animais),
  • Temos nossos vizinhos nos vendo como pessoas trabalhadores e produtivas,
  • Temos nossos clientes valorizando nossos produtos como produtos bons e de qualidade.

Ter nossa Futura Base de Recursos listada e descrita é muito importante pois ela se torna um parâmetro de avaliação para sabermos se nossas decisões estão nos guiando na direção que escolhemos. Se um ou vários desses recursos começam a se degenerar com o passar do tempo, nós sabemos que estamos com problemas pois parte da fundação que apoia nossa existência está erodindo.

Para que a nossa Declaração de Propósito e Qualidade de Vida sejam mantidos como queremos é necessário que nossa Futura Base de Recursos seja mantida, ou melhor ainda, sempre aprimorada.

As Declarações de Propósito e Qualidade de Vida focam no tempo presente, quando muito em futuro próximo. Elas funcionam com a seguinte pergunta: o que eu quero que seja verdade sobre o ‘todo sob gerenciamento’ agora e o que eu preciso fazer para realizar isso? A Futura Base de Recursos requer que mudemos o nosso foco do momento presente para o futuro a médio e longo prazo e para os indicadores de que estamos no caminho certo.

Se você seguiu os passos e articulou sua Declaração de Propósito, seus Comportamentos e Sistemas e sua Futura Base de Recursos você completou seu Contexto Holístico temporário. Javan Bernakovitch resume bem o que é e qual sua função explicando que o Contexto Holístico é uma forma de saber o que você quer, o que fazer para conseguir o que você quer e como saber se essas duas partes estão alinhadas. Ele explica dizendo que: “se eu quero X, eu preciso fazer Y (para que X aconteça) e vou saber se X e Y estão alinhados quando Z acontecer” (Bernakevitch, J. na Platoforma Regrarians, 2017-18). Nesse sentido X e Y formam respectivamente nossa Declaração de Propósito (ou Missão) e a Declaração de Qualidade de Vida, Y nossos Comportamentos e Sistemas e Z nossos Indicadores Futuros.

O infográfico abaixo mostra todas as partes que formam um Contexto Holístico para tomada de decisão e gestão do Todo Sob Gerenciamento (Bernakevitch, J. 2017).

Nós chamamos esse Contexto Holístico de temporário porque provavelmente você irá alterá-lo e refiná-lo assim que começar a usá-lo para tomar decisões. Abaixo eu compartilho alguns Contextos Holísticos que foram desenvolvidos durante o curso de Agricultura Regenerativa ministrado por mim na Escola de Permacultura no ano passado (2018).

Esse primeiro exemplo foi desenvolvido pela Thais e pelo Guilherme, casal engajado que toca o Porakaa, um centro que, entre vários outros serviços, presta consultoria em comportamento animal, recuperação de áreas degradas e planejamento para produção agroecológica.

O Contexto Holístico abaixo foi desenvolvido pelo designer e produtor rural Wilson Torres, do Sítio Rincão e do Sagrado Verde. Antes de articular a Base de Recursos Futuros nesse formato em fluxograma, o Wilson versou sobre como ele se via com sua companheira no sítio em um futuro mais distante. O uso de uma linguagem bem pessoal, que realmente traduz quem você é e quais são seus valores mais profundos é muito importante na elaboração de um Contexto Holístico.

Por último eu gostaria de compartilhar o Contexto Holístico desenvolvido pelo José Alejandro, a quem carinhosamente chamamos de “Chepe”. Chepe é filho de produtores rurais convencionais mexicanos e estava no Brasil se aprimorando na permacultura, agrofloresta e agricultura regenerativa para transformar a produção convencional de tomates da família em uma policultura agroecológica financeiramente viável. Influenciado pelos movimentos indígenas e anarquistas que influenciaram o pensamento progressista no México, Chepe realmente tomou posse dos conceitos para elaborar seu Contexto Holístico.

Começando pelo inventário do todo, Chepe incluiu no Capital Vivo de seu contexto os seres humanos. Mas sua cosmovisão foi além e influenciou um Contexto Holístico belo, funcional e profundo. A imagem abaixo foi gerada à partir das notas de aula do Chepe enquanto desenvolvia seu Contexto. No centro temos a Declaração de Propósito -“Existimos para construir um futuro melhor!”(em preto). Em volta dela a Declaração de Qualidade de Vida centrada em 4 conceitos fundamentais para ele – “Somos Rebeldes, Somos Organizados, Somos Humanos e Somos uma Comunidade” (em azul). Em cada uma dessas 4 declarações Chepe desenvolveu ‘sub-declarações’ que se alinham com cada uma das áreas. Em verde Chepe desenvolveu os Comportamentos e Sistemas que garantirão a materialização e autenticidade das qualidades de vida determinadas. Embora essa versão ainda tenha alguns erros conceituais, ela mostra bem como devemos tomar posse dos conceitos e usar a linguagem que melhor traduza nossa alma e valores.

 


Na próxima parte abordarei as Perguntas Teste que no começo ou até que todo o procedimento seja automatizado mentalmente, serão usadas toda vez que precisarmos tomar decisões dentro do nosso Todo Sob Gerenciamento

Esses artigos sobre o Gerenciamento Holístico visam, além de divulgar essa abordagem regenerativa no Brasil, encontrar parceiros para uma turnê de cursos englobando a Tomada de Decisão Holística, a gestão holística financeira e o manejo holístico de pastagens. Caso você tenha interesse em hospedar um curso ou consultoria em sua propriedade, entre em contato conosco pelo email info_at_euricovianna.com.br .

A turnê está sendo produzida por mim (Eurico Vianna) e pelo Filipe Suleiman. Os cursos serão ministrados pelo produtor rural e educador em Gerenciamento Holístico com mais de 25 anos de experiência, Graeme Hand (com tradução minha).

Referências:

Nota: Compartilho desde esse primeiro artigo a bibliografia comentada que norteia toda a série.

Very Edible Gardens (VEG) – a VEG é uma empresa de consultoria e educação permacultural australiana que se tornou referência na área. Dan Palmer e Adam Grubb escrevem frequentemente sobre como melhorar o uso da Permacultura para projetar um futuro de escassez energética onde todos possam viver em abundância.

  • Bernakevitch, J.  (2017 – 2018) Módulo de Formulação de um Contexto Holístico para Tomada Decisão Holistica no REX® Online Farm Planning Program produzido pela plataforma Regrarians.

A Plataforma Regrarians foi criada por Darren J. Doherty integrando o Gerenciamento Holístico e outras modalidades de desenho ecológico à Escala de Permanência da Linha Chave; metodologia de planejamento de propriedades rurais criada pelo australiano P. A. Yeomans. A praticidade, profundidade e eficiência na restauração de áreas degradadas tem feito da Plataforma Regrarians uma das abordagens de planejamento de propriedades rurais que mais cresce no mundo hoje.

O Instituto de Gerenciamento Holístico do Canadá tem uma gama enorme de recursos para o ensino/aprendizagem dessa plataforma. O Instituto tem ajudado muitos produtores rurais no Canadá e fomentado muito o estudo a aplicação do Gerenciamento Holístico por meio de cursos e simpósios.

Liz e seu marido Pete criaram e tocam juntos uma fazenda de 258 acres com empreendimentos que variam do gado para corte e leite, galinhas caipiras para produção de ovos até produtos apiários. O site Eigth Acres foi criado para comercializarem seus produtos e compartilhar as ferramentas que tem usado com sucesso para gerenciar seus empreendimentos.

Alberto Miguel é o único consultor em Gerenciamento Holístico oficialmente credenciado no Brasil. Seu blog é uma fonte riquíssima de conteúdo no assunto.

  • Savory, A. e Butterfield, J. (1999). Holistic Management: a new framework for decision making. Island Press, CA-EUA.

O Manual do Gerenciamento Holístico escrito por Allan Savory e sua esposa Jody Butterfild é o livro que lança essa plataforma de tomada de decisão. Comumente em cursos, dada a quantidade enorme de informações compartilhada, esse livro vem acompanhado do livro ‘Manual Prático’ e de um fichário com instruções para exercícios e o aprendizado do Gerenciamento Holístico de Pastagens.

A Plataforma Regrarians foi criada por Darren Doherty, designer regenerativo que começou sua carreira na Permacultura como aluno do co-criador, Bill Mollison. Darren passou a usar o método de planejamento Linha Chave (Keyline), desenvolvido pelo Australiano P. A. Yeomans, com algumas alterações. O Planejamento de Linha Chave da forma como é ensinado por Darren e sua equipe dentro da plataforma Regrarians está se tornando rapidamente o método mais utilizado por designers para o planejamento de fazendas no mundo todo.

  • 8 Formas de Capital, escrito por Roland, E. e Landua, G. e traduzido por Colaborama. Acessado em 15/01/2018 em https://pt.prepareforchange.net/2016/04/14/as-8-formas-de-capital-uma-nova-forma-de-olhar-para-a-economia/

O conceito foi desenvolvido por Ethan Roland e Gregory Landua para facilitar o entendimento das várias relações econômicas nas quais nos envolvemos e fazemos parte. As 8 Formas de Capital enumeram “todos os diferentes recursos valiosos que um indivíduo ou entidade podem reunir ou trocar” e tem sido usados largamente em cursos de Permacultura para trazer a realização de que se nos falta um tipo de capital, nós provavelmente temos outros com os quais podemos contar para o desenvolvimento de nossos projetos.

 

Alimentos Transgênicos: O que você precisa saber e o que você pode fazer

O Dr. Zack Bush tem feito comparações entre a saúde do meio ambiente e a saúde humana. Ele argumenta que assim como um sistema de produção de alimentos saudável precisa de bactérias, fungos para as plantas possam ser saudáveis e nutritivas, nossa flora intestinal também precisa das bactérias e fungos para promover a saúde do corpo como um todo. Embasado em pesquisas científicas já publicadas em jornais especializados o Dr. Zack Bush vem liderando um movimento pela adoção da agricultura regenerativa nos Estados Unidos. Segundo ele o uso do glifosato tem relação direta com doenças como o câncer, mal de Parkinson, Alzheimer, autismo e intestino poroso. No artigo abaixo ele explica a correlação e compartilha o que pode ser feito para reverter esse quadro sombrio.

Nota do tradutor: O artigo que segue foi publicado originalmente em inglês na newsletter ZackBushMD.com e posteriormente no site do Instituto Rodale, portanto é uma publicação voltada para o público leigo, não científico. A versão em português é uma tradução livre feita por Eurico Vianna.

Todas as partes em negrito constam no artigo original. Eu acrescentei notas de rodapé para contextualizar ou explicar termos mais científicos. Também acrescentei comentários onde entendi que valia à pena contextualizar as diferenças no uso do glifosato no Brasil em comparação com outros países. 

Ao final do texto podem ser encontrados 3 artigos publicados em jornais especializados abordando os efeitos nocivos do glifosato para saúde humana. Os artigos foram publicados pelo Dr. Zack Bush e sua equipe de pesquisadores 


No decorrer dos anos eu tive muitas experiências com pacientes que me levaram a questionar a forma com a qual a medicina ocidental aborda doenças e tratamentos. Na maioria dos casos o objetivo se tornou gerenciar as doenças ao invés de criar as condições ideias para a saúde.

Meus questionamentos me levaram a descobrir estatísticas desconfortavelmente estarrecedoras. À partir dos anos 90 algo alarmante começou a acontecer nos Estados Unidos.

Doenças – no que pareciam órgãos completamente diferentes se tornaram epidêmicas quase simultaneamente.

  • A demência aumentou nas mulheres.
  • O Mal de Parkinson aumentou nos homens.
  • Doenças autoimunes atingiram níveis nunca vistos.
  • Hoje uma em cada duas pessoas serão diagnosticadas com câncer antes de morrer.
  • Uma em cada 36 crianças são diagnosticadas com Autismo comparado com uma em cada 5.000 nos anos 1970

Por que tantas doenças, em partes tão distintas do corpo, estão aumentando em ritmo tão acelerado? Qual a relação entre elas?

A inflamação crônica é o fator que conecta tudo.

E a inflamação crônica é a raiz de todas as doenças.

Por definição inflamação é, na verdade, uma resposta biológica normal a uma lesão. É a reação do corpo a um dano causado ao tecido ou célula por um patógeno nocivo ou outro estímulo qualquer.

Nosso intestino tem uma membrana muito fina que protege suas células de compostos e bactérias que causam inflamação.

Se essa membrana se torna permeável nosso sistema imunológico inteiro sente os efeitos e nós entramos em um processo inflamatório.

Nós sabemos que nossa dieta certamente tem um papel na saúde intestinal, mas infelizmente nós não podemos simplesmente abandonar os doces, começar a comer verduras e legumes e esperar que nossa saúde dê uma reviravolta completa. Isso pode ajudar, mas como eu descobri, isso é só uma peça do quebra-cabeças.

Eu tenho me concentrado em saúde holística e alimentos ricos em nutrientes para curar doenças por anos na Clínica M. Mas inicialmente as estatísticas não foram tão boas quanto eu esperava.

Cerca de 30% dos meus pacientes tiveram uma virada de cura completa e miraculosa depois de adotar mudanças alimentares. Outros 30% dos meus pacientes tiveram alguma melhora. Mas surpreendentemente 40% deles não teve melhora alguma ou pioraram depois de implementar planos com foco na saúde.

Então eu perguntei: “Se a causa das doenças é a inflamação, o que está levando nosso intestino a ser tão afetado e os nossos corpos a ficar tão inflamados? Se o problema não é reduzir o açúcar e comer mais legumes e verduras, então qual é?!”.

Para responder essa pergunta nós precisamos primeiro entender parte da história da origem de nossos alimentos e das áreas de produção rural em nossos países.

Depois da Segunda Guerra Mundial os Estados Unidos acabaram com um excesso de petróleo para os quais eles não tinham uso mais. Eles descobriram que petróleo podia ser usado como fertilizante químico e passaram a comercializá-lo como tal.

Pela primeira vez na história produtores rurais ignoraram boas práticas agriculturais desenvolvidas pela sabedoria ancestral. Eles pararam de descansar o solo e pararam de praticar a rotação de plantios. Eles esqueceram das duras lições das Tempestades de Areia dos anos 1930.

Produtores rurais se convenceram que adubar o plantio com fertilizantes químicos economizava tempo, aumentava a produtividade e produzia plantas mais saudáveis e verdes.

As plantas ficaram mais verdes, mas não ficaram mais saudáveis. Elas estavam agora fracas e deficientes de nutrientes fundamentais. De fato, um tomate produzido hoje não tem quase nenhum licopeno[1] se comparado com um produzido em 1950.

Plantas fracas são mais suscetíveis a doenças e pragas então a solução passou a ser usar mais químicos, dessa vez na forma de pesticidas (que em essência são antibióticos) para o solo e ignorar que bem abaixo da superfície a biologia entrava em colapso.

Era, e ainda é, uma versão ambiental da maneira exata com a qual tratamos doenças em humanos hoje em dia.

O pesticida comercial mais amplamente usado é herbicida à base de glifosato chamado Roundup. Hoje o uso do Roundup é tão excessivo que, de maneira geral, se tornou impossível evitar seus efeitos. De fato, 99.99% do Roundup usado nunca atinge uma erva daninha, ao invés disso, mais que tudo, ele encontrado no escoamento e acaba contaminando a água que bebemos e o ar que respiramos. No sul dos Estados Unidos 75% do ar e da chuva estão contaminados com glifosato.

Nota do tradutor: A exposição da população brasileira aos agrotóxicos é gravíssima. Segundo Alan Tygel, da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, o brasileiro médio consome 5.2 litros de veneno por ano em sua comida. O agronegócio no Brasil faz uso de 504 agrotóxicos, dos quais 30% são proibidos na União Européia. Desde 2008 o Brasil é pais que mais usa agrotóxicos no mundo. O uso do glifosato no Brasil varia entre 5 e 9 kg por hectare, enquanto na União Europeia é limitado a 2kg por hectare.

Enquanto na União Europeia a quantidade máxima do herbicida glifosato que pode ser encontrada na água é de 0,1 miligramas por litro, o Brasil permite 5 mil vezes mais.

O livro Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Européia, escrito por Larissa Bombardi e publicado em 2017, revela que 8 brasileiros são contaminados por dia, segundo dados oficiais conservadores. Uma pesquisa da Fiocruz, no entanto, estima que para cada caso notificado, 50 casos não são notificados. Isso implica que entre 2007 e 2014, mais de um milhão de brasileiros foram intoxicados por agrotóxicos.

Mas a situação é ainda mais grave. Nos Estados Unidos começam a surgir pesquisas comprovando a correlação do aumento de doenças com o uso de glifosato nas lavouras. Entre as doenças causadas pelo glifosato estão o cancer, Mal de Parkinson, Alzheimer, autismo, doença celíaca, intestino poroso, inflamações crônicas, etc. Enquanto isso no Brasil, desde 2015 o governo deixou de publicar os casos de intoxicação por agrotóxicos, o que dificulta estudar os casos de intoxicação direta ou indireta por esses agentes químicos.

Mesmo antes de dar uma mordida no alimento você está sendo agredido com um antibiótico toda vez que inspira.

Então como, mais especificamente, esse agente químico prolífico afeta nossa saúde? Agentes químicos à base de glifosato aumentam a permeabilidade da membrana intestinal. Isso significa que os efeitos colaterais do Roundup são lesões diretas à própria estrutura de proteínas que mantém nosso intestino inteiro como órgão. E todas as macro-membranas no seu corpo são mantidas estruturalmente pelas mesmas tight junctions (estruturas formadas por proteínas que mantém a integridade física e funcional das membranas celulares) que o intestino tem.

Nosso ambiente nos transformou em peneiras furadas e os mesmo vasos sanguíneos em nosso corpo que supostamente deveriam carregar as respostas imunológicas ou buscar nutrientes também estão vazando e afetando a Barreira Hematoencefálica[2] (BHE) levando a uma abundância de desordens neurológicas como Mal de Parkinson, Alzheimer e Autismo.

Quando respiramos, bebemos, comemos ou tomamos chuva, nós estamos sendo sujeitos a antibióticos que estão matando as bactérias saudáveis que precisamos para prosperar. A capacidade natural que temos de curar a nós mesmos está sendo arrancada porque nosso bioma foi obliterado pelo glifosato.

Nós criamos uma guerra tanto no nosso meio ambiente externo como no interno. Então como concertamos essa realidade sombria? Por onde começamos?

Uma notícia boa é que a Monsanto (a multinacional que distribui o Roundup) deixou vazar uma estatística encorajadora. Se 16% da comida consumida nos Estados Unidos fosse orgânica a indústria de fertilizantes químicos perderia sua estabilidade financeira.

Apenas 16%. A verdade é que se parássemos de usar o Roundup amanhã, ainda levaria 50 anos para que os níveis tóxicos baixassem. Mas existem bactérias e fungos no solo que conseguem digerir o glifosato. Nosso planeta, assim como nossos corpos, tem uma capacidade natural que curar a si mesmo. Se nós permitirmos.

Nós precisamos começar a fazer as coisas de um modo diferente.

Seguindo as taxas atuais de declínio da saúde, no ano de 2035, uma em cada 3 crianças serão diagnosticadas com autismo. Apenas essa estatística já é suficiente para enviar o país para um colapso financeiro. Uma mudança precisa acontecer e pode acontecer.

Nós os consumidores somos a solução.

Então quais são as medidas que eu recomendo que tomemos para ajudar a mudar as coisas para nossa própria saúde e para o futuro da sociedade?

Mudanças de Macro Ecossistemas

Respire em tantos ambientes diferentes quanto seja possível. Isso significa sair de casa. Deixar seu gramado imaculado. Subir uma montanha. Sentar ao lado de uma cachoeira. Ler debaixo de uma árvore musguenta. Vá ao um pântano. Entre em tantos ecossistemas quanto seja possível para você e simplesmente respire eles por algumas horas. Mudar seu ambiente é uma das maneiras mais simples de repovoar seu micro-bioma (a rejuvenescer a sua saúde mental).

Coma comidas fermentadas

Antes do advento da refrigeração nós usávamos a fermentação como método de preservação de alimentos. Como nós perdemos esse necessidade, nós também perdemos seus benefícios. Alimentos fermentados contém bactérias que reforçam o sistema imunológico e você só precisa comer algumas garfadas de chucrute caseiro para obter a dose diária necessária.

Compre alimentos orgânicos

Essa medida é para melhorar sua saúde, é claro, mas é também para melhorar nosso futuro. Lembre-se: se apenas 16% da população consumir alimentos orgânicos a Monsanto faliria. Alimentos orgânicos geralmente são mais caros, mas se todos nós encontrássemos maneiras de nos sacrificar agora, o preço dos alimentos naturais baixaria dramaticamente assim que os pesticidas químicos parassem de ser usados.

Compartilhe essa mensagem

Faça com que as pessoas comecem a pensar e conversar sobre esses assuntos e os vários equívocos que o cercam. Assista a última entrevista feita com Rich Roll (em inglês) e compartilhe com amigos, família e produtores rurais na sua área.

Nota do tradutor: No Brasil, para os que não dominam o idioma inglês, vale compartilhar essa tradução, o artigo assim como o artigo O agro esconde, o agro mente, o agro mata, assim como o livro Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Européia (2017), escrito por Larissa Bombardi.

A esperança humana é contagiosa e, se apenas alguns de nós nos tornarmos mais conscientes de nós mesmos, de nosso ambiente e de nossas comunidades, isso causa uma reação em cadeia.

A mudança pode acontecer rápido. E precisa ser assim. Faça o que você pode, onde você pode e com o que você tiver.

O Dr. Zach Bush, é um dos poucos médicos estadunidenses especializado em 3 áreas: medicina interna, endocrinologia e metabolismo e internação e cuidados paliativos. Aprenda mais sobre o trabalho inovativo do Dr. Zack Bush nos sites:  ZachBushMD.com, IntrinsicHealthSeries.com, e FarmersFootprint.us.


Publicações científicas sobre os efeitos nocivos do glifosato para saúde humana (em inglês):

 – Gildea J, Roberts D, Bush ZM (as Senior/corresponding author). Protective Effects of Lignite Extract Supplement on Intestinal Barrier Function in Glyphosate-mediated Tight Junction Injury. [Self-Funded Original Research] (Under Review – BioMed Central – Public Health).

– Gildea J, Roberts D, Bush ZM (as Senior/corresponding author). Gliadin and glyphosate independently, and in combination, induce tight junction injury, and epithelial membrane leak in small bowel and colon epithelial membrane. [Self-Funded Original Research] (Under Review J Gastroenterology).

– Gildea J, Roberts D, Bush ZM (as Senior/corresponding author). Protection against Gluten-mediated Tight Junction Injury with a Novel Lignite Extract Supplement. [Self-Funded Original Research] J Nutr Food Sci 2016, 6:5

O currículo do Dr. Zack Bush, assim como uma lista mais completa de seu trabalho e pesquisa podem ser encontradas em inglês nesse link.


Notas de rodapé:

[1]Licopeno uma substância carotenoide que dá a cor avermelhada ao tomate, melancia, goiaba, entre outros alimentos. É um antioxidante que, quando absorvido pelo organismo, ajuda a impedir e reparar os danos às células causados pelos radicais livres.

[2]A Barreira hematoencefálica (BHE) é uma estrutura de permeabilidade altamente seletiva que protege o Sistema Nervoso Central (SNC) de substâncias potencialmente neurotóxicas presentes no sangue e sendo essencial para a função metabólica normal do cérebro. É composta de células endoteliais estreitamente unidas, astrócitos, pericitos e diversas proteinas.