Empreendedorismo rural em redes distribuídas por Guilherme Tiezzi

“Novos modelos de negócios estão emergindo.  Estruturas abertas, descentralizadas, auto-organizadas permitem que projetos e empreendimentos avancem de maneira diferente, permitindo que não o empreendedor, mas o grupo de empreendedores, possam compartilhar seus sonhos e fazer com que o empreendimento, alem da dimensão econômica, possa resgatar ou fazer brotar, as questões filosóficas na essência do empreendimento.” É essa a proposta que Guilherme Tiezzi traz para o campo, para a agricultura regenerativa. Uma visão holística que engloba teoria, prática, qualidade de vida, ética, espiritualidade e economia.

Guilherme é empreendedor, designer e animador de redes colaborativas com foco especial em redes de negócios entre grandes e pequenas organizações. É cofundador Value Builders – RVA (Rede de Empreendedores Colaborativos) e da Agenttia (Inovação e Negócios em Redes de Distribuição). Atualmente ele traz esses conceitos e práticas para a EcoAraguaia, a primeira fazenda a ser idealizada dentro do conceito Fazenda do Futuro, dentro do qual a Natureza é reconhecida com um ser com direitos como os humanos. A EcoAraguaia busca gerar prosperidade e rentabilidade integrando-se à comunidade local e ao meio ambiente. É mais um Santuário de Sanidade Mental e Ecológica que surge construindo uma realidade na qual nos entendemos como Natureza e onde nosso viver otimiza a vida como um todo no planeta.

Hoje a agricultura convencional trabalha com tecnologia petroquímica, transmutações genéticas e maquinário para produzir comódites para o mercado financeiro. Ela concentra renda e terras nas mãos de corporações e é responsável por mais de 30% da emissão dos gases poluentes que aceleram as mudanças climáticas e a sexta maior extinção em massa da história da Mãe Terra. Ela também é responsável pela degradação de solos em escala planetária. Para esconder o fato de que esse modelo de produção nada tem a ver com produção de alimento, milhões são gastos todo ano mentindo, confundindo e desinformando para seguir lucrando com a devastação.

Cabe a nós, proponentes e co-criadores do paradigma regenerativo, produzir, educar e informar com a verdade e segurança ecológica necessárias. Cabe a nós gerenciar nossos recursos de forma holística englobando a qualidade de vida, a restauração ecológica e a viabilidade econômica de quem produz no campo. E essa é uma contribuição importantíssima do Guilherme – a visão, knowhow e dedicação para os empreendimentos rurais, além de regenerativos, sejam realizados em redes distribuídas confirmando em nossas transações econômicas e interpessoais a abundância da Natureza.

No texto que segue Guilherme compartilha sua visão da gravidade dos desafios e como podemos transporte-los. Obrigado, irmão! As pessoas e lugares à sua volta tem mais vida e sentido por conta da sua dedicação!

Aja agora! Estamos em Batalha….

Segundo uma lenda Tibetana* um período sombrio e ameaçador dominado por poderosos bárbaros ameaçará nosso planeta com armas de alta tecnologia e devastador poder de destruição. Enquanto os bárbaros colocam toda sua energia na destruição de uns aos outros  emerge em nosso planeta o Reino de Shambhala.

Um reino sem terras, sem propriedades; você não pode ir lá ! Um reino que  existe no coração e mente de cada guerreiro Shambhala. Esses guerreiros não são reconhecidos por uniformes, marcas,  logos ou por pertencerem a uma organização. Não possuem armas de destruição mas precisam vencer os bárbaros dentro de seu campo de atuação,  penetrando no seu centro de poder e comando, onde suas decisões são tomadas.

Chega o momento onde os guerreiros Shambhala precisam de uma enorme coragem, uma coragem tanto física como moral. Eles precisam enfrentar e desarmar os poderosos bárbaros e sabem que podem e precisam fazer isso. Sabem também que as armas são criações da mente humana e, por essa mesma razão, podem ser destruídas também por ela. Os guerreiros Shambhala sabem que o grande perigo que ameaça a terra não vem de forças externas. Sabem que esse perigo e terrível medo vem de nossas próprias escolhas e relacionamentos.    

Duas armas são utilizadas pelos Shambhala: a compaixão e a intuição.  Ambas são necessárias.  

A primeira nos dá o combustível para agir e nos mover em benefício de todos os outros seres humanos. Mas sozinha ela pode nos queimar!   Precisamos então da segunda também. Precisamos  da intuição  para sentir a interconectividade entre tudo e todos. Ela nos faz perceber que a batalha não é entre pessoas do bem e pessoas do mal, nos faz perceber que a batalha entre o bem e o mal está dentro do coração de cada um de nós. Através dela uma ação aparentemente isolada pode afetar toda a rede que pertencemos, trazendo consequências imensuráveis e inimagináveis.

Mas intuição sozinha pode ser muito fria para nos manter em movimento. Pode nos congelar! Por isso precisamos do calor da compaixão e a continua abertura e inquietude pelas dores do mundo. As duas armas ou ferramentas são necessárias para os Guerreiros Shambhala!

Precisamos agir! Agir com compaixão e intuição. Agir com atenção e equilíbrio. O momento é o agora. Presente. Não violento. Pacífico.

Temos que para isso sonhar, planejar, fazer e celebrar. De cada 1.000 projetos sonhados, 100 passam para a fase de planejamento, 10 são realizados e 1 é celebrado e segue em um novo ciclo empreendedor.  A principal razão está na estrutura hierárquica, centralizada e controladora em que os projetos são concebidos e na forte dependência do capital. É nesta estrutura que o empreendedor se isola e solitariamente empreende e sofre com negócios onde a única dimensão a ser buscada é a  dimensão econômica. As pessoas, inclusive o empreendedor, são continuadamente diminuídas. São recursos desumanos. Toda relação passa a ser um relação utilitarista e transacional, uma relação entre cliente e fornecedor, de compra e venda, onde cada vez mais, o outro é um objeto!

Nestes 10 anos convivi intensamente com vários empreendedores de vários setores, portes e gerações e para a grande maioria deles o “sonho” esta fora da empresa.  Existe uma “desconexão” entre  seus valores mais íntimos, humanos e colaborativos, e as atitudes severas e desumanas consideradas necessárias para a sobrevivência do negócio. A maioria tem olhares para um mundo da escassez onde o acumulo rápido de recursos a eliminação do concorrente é o que realmente importa. Bárbaro!  

O sonho de resgate do trabalho com significado, da colaboração e da valorização de ser humano está tomando força a cada pequena ação, a cada atividade, a cada projeto a cada empreendimento, no coração de cada um de nós. Novas tecnologias de comunicação, redes sociais, novas gerações de empreendedores e um velho mundo definhando por esgotamento de recursos são ingredientes para a emergência do novo.

Novos modelos de negócios estão emergindo. Estruturas abertas, descentralizadas, auto-organizadas permitem que projetos e empreendimentos avancem de maneira diferente, permitindo que não o empreendedor, mas o grupo de empreendedores, possam compartilhar seus sonhos e fazer com que o empreendimento, alem da dimensão econômica, possa resgatar ou fazer brotar, as questões filosóficas na essência do empreendimento.  

Empreendimentos buscam a reconexao do humano com o humano e destes com o planeta terra. Resgate de nossa natureza! Um novo empreendedor em rede, conectado, espiritualizado, esta formando e sendo formado por um novo e vivo ecossistema, em vários lugares, ao mesmo tempo, com o mesmo impulso… esse novo empreendedor vê um mundo com olhos da abundância, permitindo que o fluxo incondicional de recursos, de dinheiro, de bens, de conhecimento, de sofrimento e de amor, flua e construa uma nova cultura de paz. Shambhala!

A Value Builders é somente um palco, um campo de energia, em conexão com um campo maior e fará parte do todo sendo todo da parte. Fractal!  Um grupo de humanos inquietos e criativos, buscando a partir do encontro e do fazer desenvolver seus sonhos e empreendimentos.

Não vamos abrir mao de nenhum pedacinho do nossos sonhos. Todos podemos ter 100% de deles realizados. Vamos empreender a mudança que queremos ver no mundo, transformando o mundo e nos transformando.   Trabalhemos e amemos, conectados com nossa essência, essência social e espiritual. Espero, em contínua atividade, que nos próximos 10 anos possamos ver uma rede de negócios e empreendedores ativa, rentável, viva e contemplativa!

Agradeço de coração a todas as pessoas que me proporcionaram encontros, aprendizados e presença nestes 10 anos de “batalha”. Não empreenderia absolutamente nada sem vocês.

Guilherme Plessmann Tiezzi , 2012

Texto originalmente escrito no e-book de 10 anos da Value Builders.

Se você quer salvar o mundo, veganismo não é a solução – por Isabella Tree

A produção intensiva de carne e laticínios é uma praga, assim como as lavouras de soja e milho. Mas há uma alternativa.

“chamados para que adotemos alimentos completamente à base de plantas ignoram algumas das ferramentas mais poderosas que temos para mitigar esses problemas: os animais herbívoros.” Imagem – Matt Kenyon

O veganismo explodiu no Reino Unido nos últimos dois anos – de estimados 500 mil pessoas em 2016 para mais de 3.5 milhões, ou 5% de toda a população hoje. Documentários formadores de opinião como Cowspiracy e What the Health jogaram os holofotes em cima da indústria de carne e laticínios expondo os impactos na saúde animal e humana e no meio ambiente.

Nota: Texto originalmente publicado no The Guardian por Isabella Tree. Os links originais foram mantidos e estão todos em inglês. Tradução livre Eurico Vianna, PhD.

Nossos solos estavam quase mortos. Agora temos 19 tipos de minhocas e 23 espécies de besouro-rola-bosta em um único piquete.

Entretanto os chamados para que adotemos alimentos completamente à base de plantas ignoram algumas das ferramentas mais poderosas que temos para mitigar esses problemas: os animais herbívoros.

Ao invés de sermos seduzidos por exortações para comermos mais produtos produzidos à partir da soja, milho e grãos produzidos industrialmente, nós deveríamos encorajar formas sustentáveis de produzir carne e laticínios baseadas em formas tradicionais de rotação, pastagens permanentes e pecuária regenerativa (NOTA “CONSERVATION GRAZING). Deveríamos, pelo menos, questionar a ética de aumentarmos a demanda por cultivos que requerem quantidades enormes de insumos químicos como fertilizantes, fungicidas, pesticidas e herbicidas, enquanto demonizamos abordagens alternativas para pecuária que podem restaurar os solos e a biodiversidade e sequestrar carbono.

Em 2000 meu esposo e eu mudamos nossa fazenda de 1.400 hectares (3.500 acres) em West Sussex para a produção de gado Longhorn inglês, porcos Tamworth, pôneis Exmoor e veados-vermelho e gamos em pastagens extensivas como parte de um projeto de renaturalização. Durante 17 anos nós passamos dificuldades para manter nossos empreendimentos de laticínios e grãos lucrativos, mas em um solo raso argiloso formado à partir de rochas Weald, nós não podíamos competir com fazendas com solos melhores. A decisão mudou completamente nosso destino. Agora o eco-turismo e o aluguel das edificações rurais e 75 toneladas de carne orgânica criada a pasto por ano contribuem para um negócio lucrativo. E uma vez que os animais vivem soltos o ano todo, com bastante alimento, eles não precisam de suplementação com ração e raramente precisam de veterinário.

Os animais vivem em manadas que se formam naturalmente e vagueiam onde quiserem. Eles chafurdam em córregos e campos encharcados. Eles descansam onde gostam (eles desdenham os celeiros que deixamos abertos como abrigos) e comem o que gostam. O gado e os veados pastejam flores silvestres e capim, mas também em arbustos e árvores. A maneira que pastejam, formam poças e pisoteiam estimula a vegetação de formas diferentes, o que por sua vez cria oportunidades para outras espécies, inclusive de pequenos mamíferos e pássaros.

Corujas Pequenas – uma das cinco espécies de corujas encontradas em Knepp – fazem um banquete no número crescente de besouros-rola-bosta. Foto Ned Burrell.

Primordialmente, porque não usamos ivermictina (o agente anti-parasita rotineiramente usando nos sistemas de produção industrial) ou antibióticos, o estrume deles alimenta as minhocas, bactérias, fungos e invertebrados como besouros-rola-bosta que puxam o estrume para o solo devolvendo nutrientes e estrutura ao solo. A perda de solo por erosão é umas das maiores catástrofes que o mundo enfrenta hoje. Um relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) de 2015 declara que perdemos globalmente de 25 a 40 bilhões de toneladas de solo superior em processos erosivos graças a aragem do solo e plantios intensivos. No Reino Unido a destruição do solo superior foi tão severa em 2014 que a revista de comércio rural Farmers Weekly anunciou que talvez só tenhamos apenas 100 colheitas mais. Deixar terras aráveis em pousio na forma de pastagem herbívoros por um período – como os produtores costumavam fazer antes dos fertilizantes químicos e da mecanização tornarem possível o cultivo contínuo – é a única forma de reverter esse processo, parar a erosão e restaurar o solo de acordo com FAO. A pecuária a pasto além de gerar renda para os produtores, acelera a restauração dos solos por meio do estrume, urina e mesmo a forma como os animais pastejam. O ponto é ser orgânico e manter a taxa de lotação baixa para prevenir sobre-pastoreio.

Há 20 anos nossos solos na fazenda – altamente degradados depois de décadas arando e aportando com químicos – estavam quase biologicamente mortos. Agora temos fungos brotando e orquídeas aparecendo onde antes era área de cultivo, um indicativo de que as redes subterrâneas de micorriza estão se espalhando. Nós temos 19 tipos de minhoca – espécie importantíssima para aerar, renovar, fertilizar, hidratar e até mesmo desintoxicar o solo. Nós encontramos 23 espécies de besouro-rola-bosta em um único piquete, um deles é o geotrupes mutator que há 50 anos não era visto em Sussex. Pássaros que se alimentam de insetos atraídos pelo estrume nutritivo estão aumentando rapidamente. A maneira com que os porcos viram o solo cria oportunidades para a flora nativa e arbustos germinem, incluindo o salgueiro-cinzento, o que criou a maior colônia de Imperador Roxo na Inglaterra, uma das borboletas mais raras que põe seus ovos nas folhas do salgueiro-cinzento.

Esse sistema de pastagem natural além de ajudar o meio ambiente em termos de restauração de solo, biodiversidade, insetos polinizadores, qualidade de água e mitigação de enxurradas, também garante uma vida saudável para os animais, que por sua vez produzem carne que é saudável para nós. Em uma comparação direta com a carne produzida em ração ou engordada em ração em sistemas industrializados, a carne criada somente a pasto tem altas concentrações de beta caroteno, cálcio, selênio, magnésio, potássio, vitaminas E e B e ácido linoleico (um anticâncer poderoso). A carne criada exclusivamente a pasto também tem altas concentrações de ácidos graxos ômega-3 de cadeia longa, vitais para o desenvolvimento cerebral saudável, mas dificílimo de ser obtido em uma dieta vegana.

Já se falou muito do gás metano produzido pela pecuária, mas essa emissão é muito menor em sistemas de pastagem que inclui plantas selvagens como a angélica, um vermicida natural, a bolsa-de-pastor e o cornichão porque contêm ácido fumárico, um composto que quando foi adicionado à dieta de ovinos no Instituto Rowett em Aberdeen reduziu as emissões de metano em até 70%.

Em comparação, o custo do carbono perdido na aragem do solo raramente é considerado. Desde a revolução industrial, de acordo com um relatório do jornal científico Nature de 2017, nós já perdemos cerca de 70% do carbono do solo para a atmosfera nas terras onde usamos o arado.

Aqui temos uma responsabilidade enorme: a não ser que estejamos produzindo alimentos veganos especificamente de forma orgânica e sem arar, estaremos ativamente participando da destruição da biota do solo, promovendo um sistema que priva outras espécies, incluindo pequenos mamíferos, pássaros e répteis de terem as condições ideais para viver. Além de estarmos contribuindo significativamente para as mudanças climáticas.

Nossa ecologia se desenvolveu com herbívores grandes – em manadas de uruz (ancestral do gado), de tarpãs (o ancestral equíno), de uapitis (cervos), de bisões, de ursos, veados-vermelhos, porcos selvagens e milhões de castores. Estas espécies tem interações com o meio ambiente que sustenta e promove a vida. Usar herbívoros como parte dos ciclos de produção rural pode ajudar muito no sentido de criarmos uma agricultura sustentável.

Não há dúvida que deveríamos todos comer muito menos carne e os apelos pelo fim da produção intensiva com altíssima pegada de carbono, poluente, não ética e à base de grãos, são louváveis. Entretanto se suas preocupações como vegano são o meio ambiente, o bem estar animal e sua própria saúde, já não é mais possível fingir que essas metas serão atingidas simplesmente deixando de comer carne e laticínios. Embora possa soar contraditório, ocasionalmente incluir carnes orgânicas criadas à pasto à sua dieta pode ser a melhor maneira de resolver a quadratura do círculo.

A “grande escala” não é a solução, é o problema

A escala de aplicabilidade da agricultura regenerativa é um ponto que tenho abordado muito em aulas, não para criticar a agrofloresta ou qualquer outra abordagem de produção em larga escala ou quaisquer dos seus adeptos, mas para criar diálogo e buscar soluções que, de fato, abordem a raiz do problema.

O trabalho de pesquisadores tarimbados como Sebastião Pinheiro, Ana Primavesi, Miguel Altieri, Pablo Tittonell, Gliessman, entre outros, traz que são os pequenos produtores com propriedades até 2 hectares que produzem a maior parte dos alimentos (não comódites) do mundo. Aqui no Impacto Positivo o Dr Walter Steenbock já explicou como o agronegócio tem contribuido para a degradação do meio ambiente e a perda da biodiversidade, e como juntos esses fatores nos levaram ao Antropoceno; a sexta maior extinção em massa na história do Planeta Terra.

Para viabilizarmos uma “grande escala de produção” no paradigma atual são necessárias grandes propriedades, maquinário, investimento e concentração de renda. A larga escala, então, em qualquer abordagem agropecuária, exclui social e economicamente o pequeno produtor. Mais ainda, ela frequentemente tem que escoar sua produção muito além das fronteiras biorregionais perpetuando assim problemas de poluição relacionados a cadeia de distribuição.

A grande escala de produção agropecuária continua ‘tentando’ resolver um outro problema de escala que criamos ao projetarmos mega-cidades. Esse tipo de urbanismo é um erro social, econômico e ecológico que só foi alcançado graças a abundância de combustíveis fósseis, que já sabemos estar em rápido declínio de extração.

É a velha lógica capitalista… ainda trabalhando na eficiência (no caso a escala) e substituição (a tecnologia agroflorestal ou outra abordagem regenerativa) e não no redesenho (estágios de mudança elaborados Stuart Hill, PhD, para adoção de uma agricultura sustentável). Redesenhar, no caso, seria redesenhar nossos sistemas de produção para incluir mais gente com qualidade de vida e viabilidade econômica e ecológica no campo. O redesenho seria uma produção de pequena e média escala, ligada em rede e coordenada em agroindústrias cooperativas, desinchando e resolvendo em parte o problema que são as grandes cidades.

O gráfico usado no cabeçalho tem circulado na internet com o título “Qual modelo é mais necessário para a sociedade brasileira?”. O gráfico é mais antigo e pode ser encontrado, por exemplo em uma publicação da Escola Milton Santos de Agroecologia de outubro de 2013. Mas é pertinente que tenha sido trazido à tona novamente haja visto a preferência do governo atual (2019) em subsidiar o agronegócio, suas corporações e práticas que degradam a saúde humana e a ecologia. Esse mesmo gráfico também circulou alguns grupos dos quais faço parte e onde cogitamos a utilização da agrofloresta sucessional em larga escala. Mas trabalhos importantes de pesquisadores já citados acima confirmam a noção de que a grande escala é o problema, não a solução.

Então a pergunta que fica é: queremos aumentar escala de produção para atender demandas de um projeto de civilização já falido ou queremos começar outro projeto produzindo de forma holística (social, econômica e ecologicamente harmoniosa)?

Pequenos produtores ligados em rede em suas biorregiões formam uma grande escala, mas o paradigma é outro, é cooperativo, local e descentralizado. Portanto de pouca utilidade para a ideologia vigente, o mercado financeiro e os pouquíssimos que lucram com ele.

A farra do imbecil e o aplauso dos idiotas – por Sara Amargo

A política ambiental atrapalha o desenvolvimento. Essa é uma das máximas do atual presidente, repetida incansavelmente pelo seu fiel escudeiro, ruralista e candidato a deputado não eleito. Com o foco da campanha na matança de javalis e de sem-terra, condenado por improbidade administrativa, foi este o alçado à pasta de chefe maior da pasta ambiental no governo da imbecilidade.

Em 8 de maio de 2019, ex-ministros do meio ambiente das últimas três décadas, com todas as diferenças históricas e ideológicas dos governos que participaram, se reuniram e elaboraram uma carta apontando a preocupação com o desmonte deliberado da agenda socioambiental. No mundo inteiro, o caminho da modernidade e do desenvolvimento tem se dado cada vez mais de forma integrada com políticas socioambientais. E é isso que tem acontecido também no Brasil – em uma velocidade com certeza bem menor do que deveria – mas sempre em um caminho ascendente.

Nas últimas décadas (e isso é fato, não promessa), evoluiu-se muito em termos de instrumentos de análise e de avaliação de impactos ambientais, na fiscalização de crimes ambientais, na adequação do licenciamento ambiental, nas políticas ambientais urbanas, na busca de energia limpa, no ordenamento territorial, na criação e gestão de Unidades de Conservação, na inclusão social em práticas produtivas sustentáveis, nos instrumentos de participação social na elaboração de políticas ambientais, na educação socioambiental, na pesquisa e geração de tecnologias ecoeficientes, na estruturação das instituições responsáveis pela agenda e na adequação de instrumentos legais, protagonizando o Brasil no cenário mundial. Diga-se de passagem, em conjunto com um forte crescimento da economia, na maior parte dos anos deste milênio. E não poderia deixar de ser, considerando que somos o país mais megadiverso do mundo. 

Negligenciar a relação entre conservação e desenvolvimento pode ser útil aos EUA, que detém, em todo o país, um número de espécies de árvores menor do que na área de um campo de futebol na Bahia. Mas esta negligência é uma imbecilidade completa por aqui. E é isso que se está a fazer, com o aplauso de terraplanistas e crentes do marxismo da Revolução Francesa ou do nazismo de esquerda, que acham que tudo isso é coisa de comunista e que comunistas seguem a comer criancinhas pelo mundo e, além disso, dominaram os órgãos de Estado no Brasil, prestes a fazer uma revolução cubana. E, infelizmente, são muitos os aplausos.

O sempre atento ruralista não tardou a responder a carta dos ex-ministros, a qual com certeza deve estar agora já cheia dos mesmos aplausos. Afinal, idiota que é idiota sempre aplaude seus mitos, seja lá qual for a ideia que saia de suas bocas.

Com a imbecilidade digna de quem é condenado por improbidade administrativa, de quem se negou a receber as informações da gestão anterior do Ministério do Meio Ambiente, de quem acha que descobriu a roda quando propõe inovações de gestão que já existem há décadas e de quem não sabe sequer quem foi Chico Mendes, porém com a sagacidade de quem serve eficientemente a interesses de poucos, a resposta enaltece a necessidade de modernidade administrativa, mente descaradamente sobre o sucateamento das Unidades de Conservação, despreza a participação social no maior espaço de discussão e deliberação de políticas ambientais no Brasil – o CONAMA, reitera a “farra” de ONGs que se envolvem como terceiro setor na implementação de políticas ambientais (como prevê, aliás, a Constituição), chama a busca do escancaramento do desmatamento nas áreas de reserva legal de resolução de conflitos e fica surpreso que a palavra governança “tenha entrado na seara do vocabulário ambiental”, sem a mínima noção de quanto ela já fazia parte desta seara quando ele ainda estava na escola. 

Todos têm direito de ser imbecis, mas fazer isso desmontando uma construção social gradativa de décadas – fundamental para a economia – e colocando em risco o futuro do Brasil (e do planeta como conhecemos), em nome de um falso discurso de modernidade, é um completo absurdo. 
Mais absurdo ainda é o aplauso dos idiotas.

Nota: O portal de artigos, assim como a agenda de entrevistas dos podcasts estão à disposição de autores e ativistas que queiram compartilhar suas idéias, ações e projetos de impacto positivo para o meio ambiente nesse momento delicado da História Brasileira. Esse trabalho é fundamental uma vez o governo atual desenrola um plano articulado de desmonte de todos os dispositivos legais e institucionais que possam defender o meio ambiente da degradação causada pelo agronegócio, pelas mineradoras, madereiras e corporações petroquímicas .

Os objetivos da Linha Chave

“O objetivo do Plano da Linha Chave é aprimorar as áreas de agricultura e pecuária revertendo a tendência de deterioração da terra sob ocupação humana. … Ele se baseia na crença de que toda busca da agricultura ou pecuária são em si mesmas meios de melhorar cada vez mais a fertilidade no solo.” P. A. Yeomans em O Desafio da Paisagem escrito 1958.

Nota: Tradução livre feita por Eurico Vianna, PhD, em Abril de 2019 do capítulo The Aims of Keyline (Os Objetivos da Linha Chave) no livro The Challenge of Landscape (O Desafio da Paisagem), escrito por P.A. Yeomans e publicado pela Keyline Publishing em 1958 na Austrália.

Yeomans, P.A. (1958). The Aims of Keyline in The Challenge of Landscape. Keyline Publishing PTY. Australia.

O Plano da Linha Chave é um plano para áreas de produção rural baseado primeiramente na minha própria concepção do que é o solo, como ele se desenvolveu naturalmente e como podemos desenvolvê-lo ainda mais e, em segundo lugar, no clima e na topografia de cada propriedade na qual o plano é aplicado.

Ele se baseia na crença de que toda busca da agricultura ou pecuária são em si mesmas meios de melhorar cada vez mais a fertilidade no solo. As técnicas do Plano da Linha Chave foram desenvolvidas com essa finalidade.

O objetivo do Plano da Linha Chave é aprimorar as áreas de agricultura e pecuária revertendo a tendência de deterioração da terra sob ocupação humana – tornando essas áreas estáveis e permanentes em uma paisagem que se restaura de modo geral. Seu objetivo é melhorar qualquer solo agriculturável à partir do solo mais pobre até os mais ricos para muito além do que se desenvolveria naturalmente em determinada região climática. A evolução do solo na natureza à partir de solos sem vida e rochas pode ter levado períodos de tempo consideráveis. Os seres humanos com tempo limitado felizmente têm muitas maneiras e processos por meio dos quais podem rapidamente melhorar qualquer solo natural.

Todas as técnicas do Plano da Linha Chave são projetadas para melhorar o clima do solo contrapondo o histórico das condições climáticas gerais que afetam e que largamente criaram o solo.

O Plano da Linha Chave foi desenvolvido na Nova Gales do Sul, na Austrália, e seu desenvolvimento provavelmente foi influenciado pelas condições gerais da forma que se aplicam à maioria das nossas terras produtivas. Visto que a Linha Chave se baseia no estudo do clima e da topografia, ela se adequa de forma prática a qualquer tipo de paisagem agriculturável. Suas várias técnicas serão aplicadas em maior escala nos aspectos mais amplos da agricultura nas regiões que abarcam a produção de grãos, ovinos e bovinos na Austrália e em outras terras.

Enquanto a Linha Chave rejeita as abordagens ‘santificadas’  ou predominantemente químicas com fertilizantes artificiais geralmente usadas na agricultura ortodoxa, ela encontra grande valor em alguns ‘artificiais’ de uma abordagem nova ou não-ortodoxa. Muito embora a Linha Chave não seja classificada como agricultura orgânica, ela usa meios naturais de restauração do solo com muitos benefícios.

 Os métodos ortodoxos de melhoria de pastagens não são Linha Chave. A Linha Chave consegue resultados maiores e mais rápidos na restauração de pastagens com ênfase na melhoria do solo, usando e melhorando as pastagens durante o processo.

Ela não segue a abordagem ou usa os métodos de conservação do solo porque a técnica da Linha Chave tem o efeito de melhorar o solo rapidamente, restaurando e prevenindo erosão. Ela preserva e assegura a topografia natural do terreno melhorando o ambiente climático do solo. A erosão do solo então deixa de ser um fator que requer consideração especial.

Geralmente o plano busca conservar no solo tanta água da chuva quanto seja necessária para que o solo possa promover sua própria restauração em cada estágio de desenvolvimento em particular. Se toda a chuva que cai se faz necessária, então toda ela é conservada para ser usada de forma produtiva. Todo excedente do escoamento é armazenado em açudes de vários tipos projetados para usos específicos.

Quando a água escoa além das necessidades de conservação do solo e da capacidade máxima dos açudes, ela segue as linhas de fluxo natural. O fluxo de água que se forma nos talvegues não causa danos aos vales em programa com a Linha Chave.

Quando a água é um fator limitante, o armazenamento é projetado para captar o maior coeficiente de escoamento e não o escoamento anual mínimo como ortodoxamente recomendado.

O Plano da Linha Chave, como muitos outros, promove o plantio de árvores, mas fornece um padrão de planejado para todos os plantios.

De novo, o plano torna os solos mais profundos. Tem sido dito que talvez tenha levado séculos para formar 2,5 centímetros de solo natural. Mas os humanos podem controlar os fatores envolvidos de tal maneira que é possível formar muitos centímetros de solo à partir de rochas decompostas e solos mortos em 3 anos, embora em muitos casos seja possível produzir pastagens nesses solos dentro de um ano.

O Plano da Linha Chave se desenvolve principalmente à partir de uma técnica de planejamento global que se baseia em uma nova concepção de topografia como amparo poderoso para o desenvolvimento agrário. E o que baseia seu planejamento é o padrão derivado do fluxo natural da água. Isso pode ser melhor ilustrado da seguinte maneira: os talvegues de cabeceira macios, de formato arrendados, sejam eles pequenos, de uns poucos acres, ou grandes, com centenas de acres, geralmente tem duas inclinações distintas ao longo da sua linha central; primeiro a inclinação mais aguda que cai à partir da colina ou cumeeira, segundo a inclinação mais suave que geralmente é constante em relação a sua junção com o curso de água abaixo. O ponto de mudança entre esses dois declives – o ponto onde o primeiro declive mais alto e agudo encontra o declive mais suave eu chamei de Ponto Chave do talvegue no meu livro anterior, “O Plano da Linha Chave”.

Uma linha cruzando esse ponto e se estendendo para direita e para esquerda, podendo ser em curva de nível ou com leve caimento dependendo das circunstancias do clima e da topografia que influenciarão o planejamento de cada propriedade, é a Linha Chave do Talvegue (ou do vale na terminologia em inglês, nota do tradutor). Agora, esses dois declives do talvegue são um elemento constante da topografia e o talvegue com seu ambiente imediato é primeiro ou principal a ser considerado para captação de água.

A próxima e maior área de captação é aquela que inclui duas, três ou várias dessas áreas de captação primárias. Dentro dessa segunda área de captação, em uma região de caráter geológico uniforme, os Pontos Chaves de cada talvegue (ou vale) primário se relacionam entre si; eles tem uma relação ascendente em terrenos elevados. Dessa forma, o planejamento geral com a Linha Chave é baseado, primeiramente, nesses elementos geralmente constantes da topografia, depois, na subdivisão geral do terreno que pode ser feita de acordo com essas formas naturais e reveladas pelos vários padrões do fluxo da água.

Informações sobre os cursos entre Maio e Junho

Curso de Agricultura Regenerativa com a Escola de Permacultura – entre os dias 20 a 29 de maio, na Serra da Mantiqueira, sul de Minas Gerais, Brasil. Esse curso aborda a Tomada de Decisão Holística e Escala de Permanência da Linha Chave para promover a produtividade e a qualidade de vida para a agricultura familiar.

Esse curso aprofunda e retifica conceitos chaves para os que já estudam a permacultura como ciência de desenho ecológico. Também é uma excelente oportunidade para aqueles que querem projetar com segurança uma transição para o campo.

Imersão Agroflorestal na Fazenda Bella – entre os dia 1 d 15 de Junho estarei ministrando essa vivência com o Osmany Segall e o Sérgio Olaya. 

A imersão é composta por dois cursos teóricos, duas vivências e duas visitas guiadas (ver link acima) equipando os participantes com o conhecimento e a prática necessários para desenhar, implementar e manejar sistemas agroflorestais. Durante a vivência os participantes terão a chance de desenhar consórcios, plantar, colher e ver a comercialização dos produtos.

Introdução ao Desenho Ecológico para Propriedades Rurais com Eurico Vianna – entre os dias 20 e 23 de Junho em Soracaba, SP. 

Esse curso apresenta os 4 processos ecossistêmicos e a Escala de Permanência da Linha Chave como uma introdução ao desenho regenerativo de propriedades rurais. O conteúdo e formato foi desenvolvido para as as pessoas que querem reconectar com a natureza, empreender com responsabilidade socioambiental ou simplesmente conhecer mais sobre a Escala de Permanência da Linha Chave (EPLC).

Curso de Gerenciamento Holístico em Sorocaba entre os dias 25 e 30 de Junho em Sorocaba, SP. A Fazenda São Benedito está fazendo a transição para agropecuária regenerativa e o curso traz a oportunidade de acompanhar o inicio do planejamento de um sistema baseado no Gerenciamento Holístico. Esse curso é divido em 3 módulos: O curso é divido em 3 módulos:
– Tomada de Decisão Holística,
– Gerenciamento Holístico Financeiro e
– Manejo Holístico de Pastagens.ministrado
E será ministrado por Graeme Hand, educador e consultor australiano com mais de 20 anos de experiência internacional nessa abordagem.

Consultoria Aberta com Graeme Hand na Agropecuária Kehrle. Essa consultoria é ideal para as pessoas que já estão envolvidas na pecuária regenerativa ou que já decidiram fazer a transição. A Agropecuária Kehrle é uma propriedade inovadora, que já usa o GH há 5 anos e que prima pela produção do gado criado a pasto, garantindo a saúde aos animais e os cuidados com o meio ambiente. Nessa consultoria, portanto, a troca de conhecimentos com o Graeme será de altíssimo nível e os participantes poderão ver como a abordagem do GH se adequa ao contexto específico de cada família e sua propriedade.

Curso de Gerenciamento Holístico no Santuária Ecológico Fazenda EcoAraguaia entre os dias 7 e 12 de Julho. Esse curso vai acontecer as beiras do Rio Araguaia usando a pecuária na EcoAraguaia como estudo de caso de transição para o Gerenciamento Holístico. A EcoAraguaia é líder na implementação do Sistema Integração Lavoura Pecuária (ILP) e co-fundadora da Associação Brasileira de Produtores de Carne Carbono Neutro (ABCCN).
O curso é divido em 3 módulos:
– Tomada de Decisão Holística,
– Gerenciamento Holístico Financeiro e
– Manejo Holístico de Pastagens.ministrado
E será ministrado por Graeme Hand, educador e consultor australiano com mais de 20 anos de experiência internacional nessa abordagem.

O Caso – Passado, Presente e Futuro – pela Agricultura REGENERATIVA

Todas as civilizações que surgiram e colapsaram antes do surgimento da civilização ocidental e da revolução industrial entraram em colapso praticando uma “agricultura orgânica”. Isso é lógico dado que os combustíveis fósseis ainda não haviam sido encontrados e, portanto, uma agricultura dependente em insumos químicos ainda não era possível. O uso indevido dos recursos naturais foi definitivamente um fator importante no colapso dessas civilizações. E do ponto de vista evolucionário nosso cérebro, hoje, é o mesmo que foi usado por aqueles que cortaram a última árvore na Ilha de Páscoa ou daqueles que transformaram o Crescente Fértil em uma área desertificada.

Meu ponto aqui, relembrando esses fatos, é primeiramente que “o destino das civilizações segue o destino da agricultura”, como explica Allan Savory, ou como colocado pelo presidente estadunidense Roosevelt após as grandes tempestades de poeira que assolaram seu país no anos 30 é que “uma nação que destrói seu solo, é uma nação que destrói a si mesma”. Um outro ponto igualmente importante é que estamos claramente em um desses momentos de virada histórica onde nossa mentalidade extrativista e desarmonizada com Gaia está nos levando a um colapso, mas dessa vez em escala global.

E no Brasil o governo eleito ao invés de usar sabiamente os recursos que ainda nos restam para garantir a soberania nacional e o bem estar da população, resolveu ser subserviente as corporações estrangeiras do petróleo e agronegócio e entregar a fertilidade de nossos solos, a biodiversidade de nossos biomas, e nosso petróleo e minerais para manter os privilégios de uns poucos às contas do futuro de todas as gerações brasileiras.

O que chamamos de agricultura, de um modo geral, pode ser definido como a produção de alimentos e fibras à partir dos solos e águas do planeta. Essa definição abrange também a pesca e a pecuária. Mas o que mais se ‘exporta’ nesse paradigma da agricultura corporativa atual é o solo! Estimativas da FAO e outros pesquisadores indicam que para cada 500kg de alimento produzido por ano, por pessoa no planeta, o agronegócio perde até 20 toneladas de solo pela erosão que seus métodos causam. Também já é sabido e comprovado que o que a agricultura industrial não é nem economicamente viável nem ecologicamente segura. Sem os subsídios energéticos dos combustíveis fósseis, sem os perdões constantes das dívidas e calculando os custos das ‘externalidades’ (a degradação ambiental, social e da saúde) essa indústria já teria sido abandonada há muito tempo.  Mas a agricultura industrial não se baseia em eficiência energética ou econômica.

A agricultura industrial se baseia no uso do petróleo, do marketing (que mente e ilude), da tecnologia e da ‘socialização’ das externalidades para gerar lucro. Isso se dá porque durante o processo de produção, o agronegócio concentra renda, o acesso a terra e aos meios de produção enquanto ‘socializa’ para os governos e a população os custos da degradação ambiental, da quebra do tecido social e do envenenamento das pessoas pelo uso de químicos nocivos. Para se ter uma ideia um coquetel com 27 agrotóxicos foi encontrado em 1 em cada 4 municípios no Brasil. O glifosato, agrotóxico mais usado na agricultura industrial, sabidamente causa câncer. Além disso, muitos cientistas já afirmam também que o glifosato causará autismo em 50% das crianças até 2025.

As corporações petroleiras, o agronegócio e os ambientalistas sabem que já entramos em uma era de escassez energética. Tanto sabem que desde o Acordo de Paris em 2015 as principais corporações petroleiras já gastaram mais de 200 milhões de dólares em marketing de ‘controle de danos’ para confundir a população e evitar que tomemos as devidas providências contra elas.

Precisamos, urgentemente, adotar uma agricultura baseada nas ciências biológicas, baseadas nos princípios da natureza. Mas para isso, como disse acima, não basta adotarmos uma ‘agricultura orgânica’, ou métodos de produção da agroecologia, da permacultura, da agricultura natural ou da agrofloresta. É preciso adotarmos um paradigma de tomada de decisão no qual gerenciamos ao mesmo tempo a terra, as comunidades e a economia. É preciso que os índices econômicos não se baseiem no mito do crescimento infinito, mas sejam baseados na qualidade de vida das pessoas e em uma produção regenerativa, energeticamente eficiente, que sequestra carbono e restaura os solos que usa para alimentar a população.

Kuhikugu, é a maior cidade pré- colombiana já descoberta na região do Xingu na Amazônia.

Em alguns momentos da História da evolução humana, no entanto, nós conseguimos viver em harmonia com o planeta. Alguns povos que habitaram a Amazônia, por exemplo, construíram uma civilização com cerca de 7 milhões de pessoas que ao produzir seu alimento melhoravam o solo que utilizam. Esse solo é chamado Terra Preta de Índio e em vários lugares da Amazônia chega a ter mais de 2 metros de profundidade. Os aborígenes australianos manipulavam os ecossistemas e usavam sistemas florestais, de piscicultura, gramíneas perenes e tubérculos para produção grãos, pães, proteínas e tubérculos há mais de 50.000 anos.

Ilustração do Sistema Ahupua’a.

Os Havaianos criaram um sistema de divisão de terras baseado em micro-bacias e em um manejo ecológico que aprimorava muito a eficiência energética de sua caça e coleta. Esse sistema era chamado Ahupua’a. Os Aztecas criaram as chinampas, um sistema de produção integrado com árvores onde se criavam ilhas de produção suspensas em áreas alagadiças nas quais a interação humana restaurava os nutrientes no ato da produção.

Essas poucas civilizações, que podemos chamar de ‘regenerativas’ porque eram energeticamente eficientes, viviam em harmonia com o ecossistema a qual pertenciam e geravam mais recursos do que utilizavam, tinham algumas coisas em comum. Entre elas a noção de que não dominavam a natureza, mas faziam parte dela, e a ideia de que a terra em que viviam e os recursos que utilizavam eram recebidos das gerações anteriores e emprestados pelas gerações futuras. Outro conceito comum de vários povos indígenas é a noção de que as decisões que tomamos hoje precisam garantir os recursos naturais para 7 gerações futuras. Esse princípio foi incorporado pelo co-originador da Permacultura, David Holmgren.

Infelizmente todas essas civilizações ‘regenerativas’ também tinham outra coisa em comum. Todas elas eram ecologicamente, espiritualmente e emocionalmente mais evoluídas que a civilização ocidental, mas não eram belicamente mais ‘evoluídas’ e, portanto, foram dizimadas durante os processos de expansão da civilização ocidental. Embora sejamos educados para acreditar que o modelo de civilização ocidental é o ápice da evolução humana, a verdade é que, muito provavelmente, esse modelo seja só o ápice bélico, exploratório e conquistador de um dos tantos ciclos civilizatórios que já tivemos. Quando voltarmos a gerenciar a terra holisticamente, junto com a economia e a cultura, quando tivermos o cuidado de deixar para nossas 7 gerações futuras um mundo abundante, com água e ar limpos, com alimentos verdadeiramente nutritivos e produzidos em ecossistemas biodiversos, poderemos chamar toda nossa agricultura, ou o manejo dos solos e águas do planeta para produzir alimentos, fibra e combustíveis, de AGRICULTURA REGENERATIVA.

Referências:

Walter Steebock – Apostila Economia em Sistemas Florestais (2018).

Allan Savory na palestra de abertura da Conferência de Inverno No-till on the Plains em 30 de Janeiro de 2018.

Bruce Pascoe (2014). Dark Emu: Black seeds agriculture or accident?

Nota:
Durante os meses de Maio, Junho e Julho estarei no Brasil com uma agenda de cursos de desenho ecológico, agrofloresta e pecuária regenerativa.

Imersão Agroflorestal na Fazenda Bella – entre os dia 1 d 15 de Junho estarei ministrando essa vivência com o Osmany Segall e o Sérgio Olaya.

A imersão é composta por dois cursos teóricos, duas vivências e duas visitas guiadas (ver link acima) equipando os participantes com o conhecimento e a prática necessários para desenhar, implementar e manejar sistemas agroflorestais. Durante a vivência os participantes terão a chance de desenhar consórcios, plantar, colher e ver a comercialização dos produtos.

Para mais detalhes sobre todos os cursos, datas e links para inscrição visite o link dos Cursos de Impacto Positivo 2019.




Um apelo aos Veganos

Todos nós, não só os veganos, deveríamos estar na batalha todos os dias fazendo tudo que podemos para acabar com a produção de animais em sistemas industrializados de confinamento. É bárbaro, cruel, nocivo e totalmente devastador para nosso meio ambiente.

Infelizmente, a raiva a esse tipo de pecuária levou a maioria dos veganos a condenar cegamente todos os produtores e todas as criações animais. Esse é o ponto onde os veganos começam a fazer mais mal do que bem. O único argumento válido que veganos podem, e devem, usar no que toca a pecuária é: “Todo manejo reducionista e produção de animais em confinamento degrada o meio ambiente, o que leva a desertificação e mudanças climáticas.” Isso é verdade.

Entretanto os veganos nunca deveriam alegar que: “Todo tipo de pecuária degrada o meio ambiente.” Isso não é verdade.

Tem sido irrefutavelmente e cientificamente provado em milhares de artigos em jornais especializados e casos empíricos por todo o planeta que a pecuária manejada por meio do processo de planejamento holístico de pastagens podem (e estão) regenerando as pradarias para a vida selvagem, trazendo os rios de volta a vida e restaurando a biodiversidade.

Veganos, pelo amor que vocês tenham ao planeta e a vida que nele habita, por favor, aprendam a diferença vital que o gerenciamento faz. O gerenciamento reducionista leva a agropecuária degradante, cruel e nociva. Isso, para todas as plantas e animais.

Mas o gerenciamento holístico prioriza a saúde do meio ambiente e seus sistemas de apoio à vida, o que leva a uma prática agropecuária saudável, regenerativa e ambientalmente benéfica. Isso, para todas as plantas e animais.

O futuro e bem estar de todas as criaturas no planeta depende de vocês aprenderem essa diferença.

Nota: Texto publicado originalmente em inglês por Sarah Savory em sua página no Facebook e traduzido por Eurico Vianna.

Cursos de Impacto Positivo em 2019

“O papel da agricultura é produzir alimentos e fibra enquanto o solo é constantemente melhorado”*. Durante os meses de Maio e Julho estarei ministrando alguns cursos com parceiros e apoiadores super engajados nas causas socioambientais. Confira o roteiro e o conteúdo dos cursos para participar e fazer parte do time que constrói Santuários de Sanidade Mental e Ecológica pelo país afora.

* P.A. Yeomans (1958). The Challenge of Landscape.

Curso de Agricultura Regenerativa com a Escola de Permacultura – entre os dias 20 a 29 de maio, na Serra da Mantiqueira, sul de Minas Gerais, Brasil. Esse curso aborda a Tomada de Decisão Holística e Escala de Permanência da Linha Chave para promover a produtividade e a qualidade de vida para a agricultura familiar.

Esse curso aprofunda e retifica conceitos chaves para os que já estudam a permacultura como ciência de desenho ecológico. Também é uma excelente oportunidade para aqueles que querem projetar com segurança uma transição para o campo.

Imersão Agroflorestal na Fazenda Bella – entre os dia 1 d 15 de Junho estarei ministrando essa vivência com o Osmany Segall e o Sérgio Olaya.

A imersão é composta por dois cursos teóricos, duas vivências e duas visitas guiadas (ver link acima) equipando os participantes com o conhecimento e a prática necessários para desenhar, implementar e manejar sistemas agroflorestais. Durante a vivência os participantes terão a chance de desenhar consórcios, plantar, colher e ver a comercialização dos produtos.

Introdução ao Desenho Ecológico para Propriedades Rurais com Eurico Vianna – entre os dias 20 e 23 de Junho em Soracaba, SP.

Esse curso apresenta os 4 processos ecossistêmicos e a Escala de Permanência da Linha Chave como uma introdução ao desenho regenerativo de propriedades rurais. O conteúdo e formato foi desenvolvido para as as pessoas que querem reconectar com a natureza, empreender com responsabilidade socioambiental ou simplesmente conhecer mais sobre a Escala de Permanência da Linha Chave (EPLC).

Curso de Gerenciamento Holístico em Sorocaba entre os dias 25 e 30 de Junho em Sorocaba, SP. A Fazenda São Benedito está fazendo a transição para agropecuária regenerativa e o curso traz a oportunidade de acompanhar o inicio do planejamento de um sistema baseado no Gerenciamento Holístico. Esse curso é divido em 3 módulos: O curso é divido em 3 módulos:
Tomada de Decisão Holística,
– Gerenciamento Holístico Financeiro e
– Manejo Holístico de Pastagens.ministrado
E será ministrado por Graeme Hand, educador e consultor australiano com mais de 20 anos de experiência internacional nessa abordagem.

Consultoria Aberta com Graeme Hand na Agropecuária Kehrle. Essa consultoria é ideal para as pessoas que já estão envolvidas na pecuária regenerativa ou que já decidiram fazer a transição. A Agropecuária Kehrle é uma propriedade inovadora, que já usa o GH há 5 anos e que prima pela produção do gado criado a pasto, garantindo a saúde aos animais e os cuidados com o meio ambiente. Nessa consultoria, portanto, a troca de conhecimentos com o Graeme será de altíssimo nível e os participantes poderão ver como a abordagem do GH se adequa ao contexto específico de cada família e sua propriedade.

Curso de Gerenciamento Holístico no Santuária Ecológico Fazenda EcoAraguaia entre os dias 7 e 12 de Julho. Esse curso vai acontecer as beiras do Rio Araguaia usando a pecuária na EcoAraguaia como estudo de caso de transição para o Gerenciamento Holístico. A EcoAraguaia é líder na implementação do Sistema Integração Lavoura Pecuária (ILP) e co-fundadora da Associação Brasileira de Produtores de Carne Carbono Neutro (ABCCN).
O curso é divido em 3 módulos:
Tomada de Decisão Holística,
– Gerenciamento Holístico Financeiro e
– Manejo Holístico de Pastagens.ministrado
E será ministrado por Graeme Hand, educador e consultor australiano com mais de 20 anos de experiência internacional nessa abordagem.


Edificações Móveis, Empreendedorismo rural e a Escala de Permanência da Linha Chave

Na Escala de Permanência da Linha Chave as edificações vem em sexto lugar. Isso quer dizer que ao invés de chegar em uma propriedade, escolher a melhor vista para colocar a moradia ou posicionar a moradia em função de estradas de acesso construídas anteriormente e depois colocar a maior parte das outras edificações em função dessa decisão, a gente primeiro pensa o Clima, a Geografia, a Água, o Acesso e os Sistemas Florestais, para então decidir onde vamos colocar as edificações.

Joel Salatin – O Fazendeiro Lunático

No artigo “Faça Tudo Sobrepondo Funções“, Joel Salatin faz umas perguntas importantes sobre as edificações (e investimentos de um modo geral) em propriedades rurais:

1 – Qual será o impacto econômico dessa construção ou aquisição na fazenda?
2 – De que outras maneiras eu posso usar essa edificação ou aquisição (equipamento, maquinário, etc.) na fazenda se meus planos atuais mudarem?
3 – Além do uso básico (planejado originalmente) de que outras formas posso usar essa estrutura? 
4 – Emocionalmente, você poderia demolir essa edificação no próximo ano e recomeçar com algo mais funcional? Se você não quer mais a edificação no local atual, você conseguiria movê-la para outro lugar facilmente?

Levando em consideração a ordem a que devemos dar prioridade ao desenvolvimento de uma propriedade segundo a Escala de Permanência e as perguntas de Joel Salatin, vemos que a maioria das pessoas posiciona suas casas e edificações na fazenda da forma errada. No sentido de trazer humildade para a área do design, o arquiteto e autor do livro Cradle to Cradle: Remaking the Way We Make Things, William Mcdonough, nos lembra que levamos 5.000 anos para colocar rodas nas nossas malas. De fato, inovações levam tempo para serem adotadas em larga escala, mas a realização de que podemos ter estruturas móveis em propriedades rurais tem motivado uma verdadeira revolução na gestão e produtividade de propriedades rurais do mundo inteiro.

Casa miniatura sobre rodas vista por trás.

As casas miniatura sobre rodas, por exemplo, estão revolucionando a maneira como as pessoas pensam a ‘casa própria’ e os custos exorbitantes de um financiamento de longo prazo. Pessoas e famílias de idades e tamanhos variadas perceberam o quanto os preços dos financiamentos tornaram a opção da casa própria quase impossível ou talvez apenas inviável se considerarmos o tamanho do sacrifício.

O deck, que também pode ser transportado, faz a conexão dos ambientes internos e externos.
A janela ampla valoriza a vista para trazer amplitude.

A mobilidade, o preço mais acessível, o baixo impacto ambiental e a maneira como essas casas nos fazem reconectar com a natureza a nossa volta tem feito muitas pessoas adotar esse estilo de vida e moradia. Outra vantagem que as casas miniatura sobre roda trazem, é que em muitos países, pelo fato de serem móveis, essas casas escapam da burocracia das regulamentações.

Mas a revolução da mobilidade não está só nas casas. Propriedades rurais no mundo inteiro perceberam que edificações móveis aumentam a produtividade regenerando os ecossistemas. Isso porque nos permitem imitar os fluxos migratórios da natureza e sobrepor empreendimentos em uma mesma área.

Um dos modelos do Ovomóvel na Polyfaces.

O ovo-móvel de Joel Salatin é um exemplo clássico. Nesse caso a áreas de pasto são otimizadas com galinheiro móvel sendo instalado logo após a saída do gado de um determinado piquete. Parte da alimentação das galinhas vem do que seriam pragas no pasto por conta da alta concentração de adubo das vacas quando manejadas intensamente em cada área. Por exemplo as moscas, os insetos, carrapatos, parasitas, etc. que tendem a se proliferar demais na falta de predadores naturais. Outra função do ovo-móvel é usar as galinhas para espalhar ainda mais (porque ciscam a área) o adubo deixado pelo gado.

Foi em grande parte com estruturas móveis e buscando inspiração na natureza que Joel Salatin conseguiu fazer a Polyfaces, sua fazenda de 100 acres, produzir anualmente 18.100Kg de carne de boi, 13.600kg de carne de porco, 10.000 frangos, 1.200 perus, 1000 coelhos e 35.000 dúzias de ovos. Tudo isso é produzido recuperando florestas, pastagens e o solo! Sem nenhum adubo ou pesticida químicos, rações de crescimento com hormônios ou antibióticos.

Abatedouro móvel desenvolvido por Mike Callicrate usando a caçamba de um caminhão.

Outro exemplo inteligente do uso dessas estruturas são os abatedouros móveis. Nem sempre eles são realmente móveis, mas o fato de serem construído sobre permite esquivar de regulamentações injustas para o pequeno produtor. Talvez o exemplo mais emblemático seja o do Mike Callicrate, um rancheiro estadounidense que defende que as fazendas de pecuária devem ser regenerativas e mantidas como negócios familiares e não corporativos. Quando o ativismo de Mike fez com que abatedouros de grande escala boicotassem sua produção, ele construiu um abatedouro sobre rodas. Essa solução também permitiu que Mike usasse todas as carcaças dos animais como biochar, fechando um ciclo e mantendo grande parte da fertilidade na propriedade.

Vacas Jersey em uma ordenhadeira móvel na fazenda de Bartele e Rioanne Holtrop na Holanda.
Ordenhadeira móvel pequena.

Na produção de leite começaram a surgir as ordenhadeiras móveis. Variando desde uma unidade manual portátil, até unidades com capacidade para ordenhar várias vacas por vez, essa inovação permite um melhor fluxo nas rotações das pastagens uma vez que a ordenha pode ser feita em piquetes diferentes. O fato da ordenhadeira ir até o piquete ao invés das vacas virem até o curral, também tem outras vantagens. Evita a erosão e compactação causada pelas trilhas do gado e faz com que a urina e o estrume sejam um recurso espalhado na propriedade e não uma poluição concentrada em apenas uma parte ao redor da ordenha.

Outro modelo de ordenha móvel. Essa puxada por um trator.

Usar infraestrutura móvel e sobrepor empreendimentos, como nos convida a fazer Joel Salatin, e saber a ordem de prioridade em termos de tomada de decisão e investimento de tempo e recursos como na Escala de Permanência da Linha Chave, de fato, revoluciona o modo de pensar e projetar propriedades e empreendimentos rurais. Eu compartilho mais sobre a abordagem de Joel Salatin para o que ele chama de ‘fazenda móvel’ no artigo 10 Passos para Empreender com Sucesso na Fazenda. Nesse paradigma, tanto as edificações quando os animais passam a ser recursos com funções múltiplas, elementos móveis que nos permitem imitar os fluxos da natureza em uma micro-escala. O que, por sua vez, nos permite realizar melhor nosso papel de agentes regenerativos das paisagens nas quais habitamos e às quais pertencemos.

Estudo revela que melhor planejamento da agricultura poderia previnir perda de 80% da biodiversidade

  • Resultados de uma nova pesquisa mostram que aproximadamente 90% da biodiversidade que os cientistas preveem que será perdida com a expansão da agricultura poderia ser salva se usássemos planejamentos de ocupação de terra mais eficazes para áreas com menor número de espécies.
  • A pesquisa concluiu que 10 países compartilham grande parte desse potencial por eles e que poderiam, por eles mesmos, reduzir a perda da biodiversidade em até 33%.
  • Entretanto, existem ressalvas. Os pesquisadores alertam que a maioria desses países está entre os “20 piores” ranqueados em termos de impacto ambiental e tem problemas políticos e de governabilidade que impediriam o uso eficaz do planejamento de ocupação rural em nível nacional. Os pesquisadores também alertam que a otimização do uso de áreas rurais visando a proteção dos recursos naturais em alguns dos países mais biodiversos podem acontecer “as custas das próprias oportunidades de produção e desenvolvimento econômico.”
  • Os pesquisadores revelam que para que os países mais biodiversos do mundo possam atingir seu pontencial máximo de conservação enquanto fornecem alimentos para suas comunidades humanas as políticas globais de uso de terras precisam integrar melhor os desafios de governabilidade, políticas públicas e economia presentes nesses países.

Artigo escrito originalmente em inglês por Morgan Erickson-Davis, dia 16 de Março de 2018. Tradução livre feita por Eurico Vianna, PhD. dia 20 de março de 2019.

Um planejamento melhor poderia salvar muita vida selvagem é o que revela um estudo publicado recentemente na Global Change Biology. A pesquisa revelou que aproximadamente 90% da biodiversidade que os cientistas preveem que será perdida com a expansão da agricultura poderia ser salva se usássemos um planejamentos de ocupação de terra mais eficaz dirigido para áreas com menor número de espécies.

Para esse estudo os pesquisadores das instituições alemãs como o Centro para Pesquisa Ambiental de Helmholtz (UFZ) e Centro de Pesquisa para Biodiversidade Integrativa (iDiv) pesquisaram dados sobre a distruibuição e habitat para quase 20.000 espécies de vertebrados fazendo projeções de intensificação da agricultura e de cenários com otimização da utilização das áreas disponíveis.

Os pesquisadores revelaram que se a expansão da agricultura fosse otimizada por áreas por meio de uma coordenação global que as direcionasse para as áreas com menos biodiversidade, até 88% das perdas de biodiversidade projetadas poderiam ser evitadas. Se coordenadas apenas em nível nacional, o estudo revela que minimização da perda seria de 61%.If coordinated at the national level, their study indicates that number would be 61 percent.

A pesquisa revelou ainda que 10 países compartilham grande parte desse potencial por eles e que poderiam, por eles mesmos, reduzir a perda da biodiversidade em até 33%.

Área ao lado da floresta tropical no Parque Nacional Gunung Leuser na Indonésia desmatada para plantio de óleo de palma (azeite de dendê).

“Alguns poucos países tropicais incluindo a Índia, o Brasil ou a Indonésia teriam de longe o maior poder de alavanca para tornar a produção de alimentos mais sustentável”, declarou o co-autor do estudo e pesquisador do iDiv e da Universidade de Leipzig, Carsten Meyer.

A pesquisa revela que esses resultados implicam “ganhos de eficiência enormes” podem ser alcançados por meio da cooperação internacional, mas que existem algumas ressalvas.

Os pesquisadores declaram que a maioria desses países estão ranqueados entre os “20 piores países” em termos de impactos ambientais e que eles tem problemas políticos e de governabilidade que impedem o planejamento para uso eficaz de suas terras em nível nacional.

“Infelizmente esses países também são frequentemente caracterizados por conflitos internos relacionados ao uso de suas terras assim como por instituições relativamente fracas na gestão das terras, ambas essas características inibem a otimização do uso das terras”, disse Meyer.

De acordo com o autor principal, Lukas Egli, pesquisador da Universidade de Göttingen e do UFZ, existe ainda outro fator complicador. Ele disse que a otimização do uso das terras de forma a proteger os recursos naturais dos países mais biodiversos, podem acontecer “as custas das próprias oportunidades de produção e desenvolvimento econômico [desses países]”.

“A não ser que esses interesses nacionais conflitantes possam ser acomodados de alguma forma dentro de políticas de sustentabilidade internacionais, uma cooperação global parece improvável e pode gerar novas dependências socio-econômicas”, disse Egli.

Os pesquisadores revelam que para que os países mais biodiversos do mundo possam atingir seu pontencial máximo de conservação enquanto fornecem alimentos para suas comunidades humanas as políticas globais de uso de terras precisam integrar melhor os desafios de governabilidade, políticas públicas e economia presentes nesses países. Os pesquisadores declaram que os resultados do estudo poderiam ser usados para “guiar doadores internacionais e as instituições emponderadoras no uso estratégico de investimentos.

“Esforços focados são necessários para melhorarmos a capacidade de integração do planejamento do uso de terras com a sustentabilidade”, disse Meyer.

Referência:
Egli, L., Meyer, C., Scherber, C., Kreft, H., & Tscharntke, T. (2018). Winners and losers of national and global efforts to reconcile agricultural intensification and biodiversity conservation. Global change biology.