A farra do imbecil e o aplauso dos idiotas – por Sara Amargo

A política ambiental atrapalha o desenvolvimento. Essa é uma das máximas do atual presidente, repetida incansavelmente pelo seu fiel escudeiro, ruralista e candidato a deputado não eleito. Com o foco da campanha na matança de javalis e de sem-terra, condenado por improbidade administrativa, foi este o alçado à pasta de chefe maior da pasta ambiental no governo da imbecilidade.

Em 8 de maio de 2019, ex-ministros do meio ambiente das últimas três décadas, com todas as diferenças históricas e ideológicas dos governos que participaram, se reuniram e elaboraram uma carta apontando a preocupação com o desmonte deliberado da agenda socioambiental. No mundo inteiro, o caminho da modernidade e do desenvolvimento tem se dado cada vez mais de forma integrada com políticas socioambientais. E é isso que tem acontecido também no Brasil – em uma velocidade com certeza bem menor do que deveria – mas sempre em um caminho ascendente.

Nas últimas décadas (e isso é fato, não promessa), evoluiu-se muito em termos de instrumentos de análise e de avaliação de impactos ambientais, na fiscalização de crimes ambientais, na adequação do licenciamento ambiental, nas políticas ambientais urbanas, na busca de energia limpa, no ordenamento territorial, na criação e gestão de Unidades de Conservação, na inclusão social em práticas produtivas sustentáveis, nos instrumentos de participação social na elaboração de políticas ambientais, na educação socioambiental, na pesquisa e geração de tecnologias ecoeficientes, na estruturação das instituições responsáveis pela agenda e na adequação de instrumentos legais, protagonizando o Brasil no cenário mundial. Diga-se de passagem, em conjunto com um forte crescimento da economia, na maior parte dos anos deste milênio. E não poderia deixar de ser, considerando que somos o país mais megadiverso do mundo. 

Negligenciar a relação entre conservação e desenvolvimento pode ser útil aos EUA, que detém, em todo o país, um número de espécies de árvores menor do que na área de um campo de futebol na Bahia. Mas esta negligência é uma imbecilidade completa por aqui. E é isso que se está a fazer, com o aplauso de terraplanistas e crentes do marxismo da Revolução Francesa ou do nazismo de esquerda, que acham que tudo isso é coisa de comunista e que comunistas seguem a comer criancinhas pelo mundo e, além disso, dominaram os órgãos de Estado no Brasil, prestes a fazer uma revolução cubana. E, infelizmente, são muitos os aplausos.

O sempre atento ruralista não tardou a responder a carta dos ex-ministros, a qual com certeza deve estar agora já cheia dos mesmos aplausos. Afinal, idiota que é idiota sempre aplaude seus mitos, seja lá qual for a ideia que saia de suas bocas.

Com a imbecilidade digna de quem é condenado por improbidade administrativa, de quem se negou a receber as informações da gestão anterior do Ministério do Meio Ambiente, de quem acha que descobriu a roda quando propõe inovações de gestão que já existem há décadas e de quem não sabe sequer quem foi Chico Mendes, porém com a sagacidade de quem serve eficientemente a interesses de poucos, a resposta enaltece a necessidade de modernidade administrativa, mente descaradamente sobre o sucateamento das Unidades de Conservação, despreza a participação social no maior espaço de discussão e deliberação de políticas ambientais no Brasil – o CONAMA, reitera a “farra” de ONGs que se envolvem como terceiro setor na implementação de políticas ambientais (como prevê, aliás, a Constituição), chama a busca do escancaramento do desmatamento nas áreas de reserva legal de resolução de conflitos e fica surpreso que a palavra governança “tenha entrado na seara do vocabulário ambiental”, sem a mínima noção de quanto ela já fazia parte desta seara quando ele ainda estava na escola. 

Todos têm direito de ser imbecis, mas fazer isso desmontando uma construção social gradativa de décadas – fundamental para a economia – e colocando em risco o futuro do Brasil (e do planeta como conhecemos), em nome de um falso discurso de modernidade, é um completo absurdo. 
Mais absurdo ainda é o aplauso dos idiotas.

Nota: O portal de artigos, assim como a agenda de entrevistas dos podcasts estão à disposição de autores e ativistas que queiram compartilhar suas idéias, ações e projetos de impacto positivo para o meio ambiente nesse momento delicado da História Brasileira. Esse trabalho é fundamental uma vez o governo atual desenrola um plano articulado de desmonte de todos os dispositivos legais e institucionais que possam defender o meio ambiente da degradação causada pelo agronegócio, pelas mineradoras, madereiras e corporações petroquímicas .

Os objetivos da Linha Chave

“O objetivo do Plano da Linha Chave é aprimorar as áreas de agricultura e pecuária revertendo a tendência de deterioração da terra sob ocupação humana. … Ele se baseia na crença de que toda busca da agricultura ou pecuária são em si mesmas meios de melhorar cada vez mais a fertilidade no solo.” P. A. Yeomans em O Desafio da Paisagem escrito 1958.

Nota: Tradução livre feita por Eurico Vianna, PhD, em Abril de 2019 do capítulo The Aims of Keyline (Os Objetivos da Linha Chave) no livro The Challenge of Landscape (O Desafio da Paisagem), escrito por P.A. Yeomans e publicado pela Keyline Publishing em 1958 na Austrália.

Yeomans, P.A. (1958). The Aims of Keyline in The Challenge of Landscape. Keyline Publishing PTY. Australia.

O Plano da Linha Chave é um plano para áreas de produção rural baseado primeiramente na minha própria concepção do que é o solo, como ele se desenvolveu naturalmente e como podemos desenvolvê-lo ainda mais e, em segundo lugar, no clima e na topografia de cada propriedade na qual o plano é aplicado.

Ele se baseia na crença de que toda busca da agricultura ou pecuária são em si mesmas meios de melhorar cada vez mais a fertilidade no solo. As técnicas do Plano da Linha Chave foram desenvolvidas com essa finalidade.

O objetivo do Plano da Linha Chave é aprimorar as áreas de agricultura e pecuária revertendo a tendência de deterioração da terra sob ocupação humana – tornando essas áreas estáveis e permanentes em uma paisagem que se restaura de modo geral. Seu objetivo é melhorar qualquer solo agriculturável à partir do solo mais pobre até os mais ricos para muito além do que se desenvolveria naturalmente em determinada região climática. A evolução do solo na natureza à partir de solos sem vida e rochas pode ter levado períodos de tempo consideráveis. Os seres humanos com tempo limitado felizmente têm muitas maneiras e processos por meio dos quais podem rapidamente melhorar qualquer solo natural.

Todas as técnicas do Plano da Linha Chave são projetadas para melhorar o clima do solo contrapondo o histórico das condições climáticas gerais que afetam e que largamente criaram o solo.

O Plano da Linha Chave foi desenvolvido na Nova Gales do Sul, na Austrália, e seu desenvolvimento provavelmente foi influenciado pelas condições gerais da forma que se aplicam à maioria das nossas terras produtivas. Visto que a Linha Chave se baseia no estudo do clima e da topografia, ela se adequa de forma prática a qualquer tipo de paisagem agriculturável. Suas várias técnicas serão aplicadas em maior escala nos aspectos mais amplos da agricultura nas regiões que abarcam a produção de grãos, ovinos e bovinos na Austrália e em outras terras.

Enquanto a Linha Chave rejeita as abordagens ‘santificadas’  ou predominantemente químicas com fertilizantes artificiais geralmente usadas na agricultura ortodoxa, ela encontra grande valor em alguns ‘artificiais’ de uma abordagem nova ou não-ortodoxa. Muito embora a Linha Chave não seja classificada como agricultura orgânica, ela usa meios naturais de restauração do solo com muitos benefícios.

 Os métodos ortodoxos de melhoria de pastagens não são Linha Chave. A Linha Chave consegue resultados maiores e mais rápidos na restauração de pastagens com ênfase na melhoria do solo, usando e melhorando as pastagens durante o processo.

Ela não segue a abordagem ou usa os métodos de conservação do solo porque a técnica da Linha Chave tem o efeito de melhorar o solo rapidamente, restaurando e prevenindo erosão. Ela preserva e assegura a topografia natural do terreno melhorando o ambiente climático do solo. A erosão do solo então deixa de ser um fator que requer consideração especial.

Geralmente o plano busca conservar no solo tanta água da chuva quanto seja necessária para que o solo possa promover sua própria restauração em cada estágio de desenvolvimento em particular. Se toda a chuva que cai se faz necessária, então toda ela é conservada para ser usada de forma produtiva. Todo excedente do escoamento é armazenado em açudes de vários tipos projetados para usos específicos.

Quando a água escoa além das necessidades de conservação do solo e da capacidade máxima dos açudes, ela segue as linhas de fluxo natural. O fluxo de água que se forma nos talvegues não causa danos aos vales em programa com a Linha Chave.

Quando a água é um fator limitante, o armazenamento é projetado para captar o maior coeficiente de escoamento e não o escoamento anual mínimo como ortodoxamente recomendado.

O Plano da Linha Chave, como muitos outros, promove o plantio de árvores, mas fornece um padrão de planejado para todos os plantios.

De novo, o plano torna os solos mais profundos. Tem sido dito que talvez tenha levado séculos para formar 2,5 centímetros de solo natural. Mas os humanos podem controlar os fatores envolvidos de tal maneira que é possível formar muitos centímetros de solo à partir de rochas decompostas e solos mortos em 3 anos, embora em muitos casos seja possível produzir pastagens nesses solos dentro de um ano.

O Plano da Linha Chave se desenvolve principalmente à partir de uma técnica de planejamento global que se baseia em uma nova concepção de topografia como amparo poderoso para o desenvolvimento agrário. E o que baseia seu planejamento é o padrão derivado do fluxo natural da água. Isso pode ser melhor ilustrado da seguinte maneira: os talvegues de cabeceira macios, de formato arrendados, sejam eles pequenos, de uns poucos acres, ou grandes, com centenas de acres, geralmente tem duas inclinações distintas ao longo da sua linha central; primeiro a inclinação mais aguda que cai à partir da colina ou cumeeira, segundo a inclinação mais suave que geralmente é constante em relação a sua junção com o curso de água abaixo. O ponto de mudança entre esses dois declives – o ponto onde o primeiro declive mais alto e agudo encontra o declive mais suave eu chamei de Ponto Chave do talvegue no meu livro anterior, “O Plano da Linha Chave”.

Uma linha cruzando esse ponto e se estendendo para direita e para esquerda, podendo ser em curva de nível ou com leve caimento dependendo das circunstancias do clima e da topografia que influenciarão o planejamento de cada propriedade, é a Linha Chave do Talvegue (ou do vale na terminologia em inglês, nota do tradutor). Agora, esses dois declives do talvegue são um elemento constante da topografia e o talvegue com seu ambiente imediato é primeiro ou principal a ser considerado para captação de água.

A próxima e maior área de captação é aquela que inclui duas, três ou várias dessas áreas de captação primárias. Dentro dessa segunda área de captação, em uma região de caráter geológico uniforme, os Pontos Chaves de cada talvegue (ou vale) primário se relacionam entre si; eles tem uma relação ascendente em terrenos elevados. Dessa forma, o planejamento geral com a Linha Chave é baseado, primeiramente, nesses elementos geralmente constantes da topografia, depois, na subdivisão geral do terreno que pode ser feita de acordo com essas formas naturais e reveladas pelos vários padrões do fluxo da água.

Informações sobre os cursos entre Maio e Junho

Curso de Agricultura Regenerativa com a Escola de Permacultura – entre os dias 20 a 29 de maio, na Serra da Mantiqueira, sul de Minas Gerais, Brasil. Esse curso aborda a Tomada de Decisão Holística e Escala de Permanência da Linha Chave para promover a produtividade e a qualidade de vida para a agricultura familiar.

Esse curso aprofunda e retifica conceitos chaves para os que já estudam a permacultura como ciência de desenho ecológico. Também é uma excelente oportunidade para aqueles que querem projetar com segurança uma transição para o campo.

Imersão Agroflorestal na Fazenda Bella – entre os dia 1 d 15 de Junho estarei ministrando essa vivência com o Osmany Segall e o Sérgio Olaya. 

A imersão é composta por dois cursos teóricos, duas vivências e duas visitas guiadas (ver link acima) equipando os participantes com o conhecimento e a prática necessários para desenhar, implementar e manejar sistemas agroflorestais. Durante a vivência os participantes terão a chance de desenhar consórcios, plantar, colher e ver a comercialização dos produtos.

Introdução ao Desenho Ecológico para Propriedades Rurais com Eurico Vianna – entre os dias 20 e 23 de Junho em Soracaba, SP. 

Esse curso apresenta os 4 processos ecossistêmicos e a Escala de Permanência da Linha Chave como uma introdução ao desenho regenerativo de propriedades rurais. O conteúdo e formato foi desenvolvido para as as pessoas que querem reconectar com a natureza, empreender com responsabilidade socioambiental ou simplesmente conhecer mais sobre a Escala de Permanência da Linha Chave (EPLC).

Curso de Gerenciamento Holístico em Sorocaba entre os dias 25 e 30 de Junho em Sorocaba, SP. A Fazenda São Benedito está fazendo a transição para agropecuária regenerativa e o curso traz a oportunidade de acompanhar o inicio do planejamento de um sistema baseado no Gerenciamento Holístico. Esse curso é divido em 3 módulos: O curso é divido em 3 módulos:
– Tomada de Decisão Holística,
– Gerenciamento Holístico Financeiro e
– Manejo Holístico de Pastagens.ministrado
E será ministrado por Graeme Hand, educador e consultor australiano com mais de 20 anos de experiência internacional nessa abordagem.

Consultoria Aberta com Graeme Hand na Agropecuária Kehrle. Essa consultoria é ideal para as pessoas que já estão envolvidas na pecuária regenerativa ou que já decidiram fazer a transição. A Agropecuária Kehrle é uma propriedade inovadora, que já usa o GH há 5 anos e que prima pela produção do gado criado a pasto, garantindo a saúde aos animais e os cuidados com o meio ambiente. Nessa consultoria, portanto, a troca de conhecimentos com o Graeme será de altíssimo nível e os participantes poderão ver como a abordagem do GH se adequa ao contexto específico de cada família e sua propriedade.

Curso de Gerenciamento Holístico no Santuária Ecológico Fazenda EcoAraguaia entre os dias 7 e 12 de Julho. Esse curso vai acontecer as beiras do Rio Araguaia usando a pecuária na EcoAraguaia como estudo de caso de transição para o Gerenciamento Holístico. A EcoAraguaia é líder na implementação do Sistema Integração Lavoura Pecuária (ILP) e co-fundadora da Associação Brasileira de Produtores de Carne Carbono Neutro (ABCCN).
O curso é divido em 3 módulos:
– Tomada de Decisão Holística,
– Gerenciamento Holístico Financeiro e
– Manejo Holístico de Pastagens.ministrado
E será ministrado por Graeme Hand, educador e consultor australiano com mais de 20 anos de experiência internacional nessa abordagem.

O Caso – Passado, Presente e Futuro – pela Agricultura REGENERATIVA

Todas as civilizações que surgiram e colapsaram antes do surgimento da civilização ocidental e da revolução industrial entraram em colapso praticando uma “agricultura orgânica”. Isso é lógico dado que os combustíveis fósseis ainda não haviam sido encontrados e, portanto, uma agricultura dependente em insumos químicos ainda não era possível. O uso indevido dos recursos naturais foi definitivamente um fator importante no colapso dessas civilizações. E do ponto de vista evolucionário nosso cérebro, hoje, é o mesmo que foi usado por aqueles que cortaram a última árvore na Ilha de Páscoa ou daqueles que transformaram o Crescente Fértil em uma área desertificada.

Meu ponto aqui, relembrando esses fatos, é primeiramente que “o destino das civilizações segue o destino da agricultura”, como explica Allan Savory, ou como colocado pelo presidente estadunidense Roosevelt após as grandes tempestades de poeira que assolaram seu país no anos 30 é que “uma nação que destrói seu solo, é uma nação que destrói a si mesma”. Um outro ponto igualmente importante é que estamos claramente em um desses momentos de virada histórica onde nossa mentalidade extrativista e desarmonizada com Gaia está nos levando a um colapso, mas dessa vez em escala global.

E no Brasil o governo eleito ao invés de usar sabiamente os recursos que ainda nos restam para garantir a soberania nacional e o bem estar da população, resolveu ser subserviente as corporações estrangeiras do petróleo e agronegócio e entregar a fertilidade de nossos solos, a biodiversidade de nossos biomas, e nosso petróleo e minerais para manter os privilégios de uns poucos às contas do futuro de todas as gerações brasileiras.

O que chamamos de agricultura, de um modo geral, pode ser definido como a produção de alimentos e fibras à partir dos solos e águas do planeta. Essa definição abrange também a pesca e a pecuária. Mas o que mais se ‘exporta’ nesse paradigma da agricultura corporativa atual é o solo! Estimativas da FAO e outros pesquisadores indicam que para cada 500kg de alimento produzido por ano, por pessoa no planeta, o agronegócio perde até 20 toneladas de solo pela erosão que seus métodos causam. Também já é sabido e comprovado que o que a agricultura industrial não é nem economicamente viável nem ecologicamente segura. Sem os subsídios energéticos dos combustíveis fósseis, sem os perdões constantes das dívidas e calculando os custos das ‘externalidades’ (a degradação ambiental, social e da saúde) essa indústria já teria sido abandonada há muito tempo.  Mas a agricultura industrial não se baseia em eficiência energética ou econômica.

A agricultura industrial se baseia no uso do petróleo, do marketing (que mente e ilude), da tecnologia e da ‘socialização’ das externalidades para gerar lucro. Isso se dá porque durante o processo de produção, o agronegócio concentra renda, o acesso a terra e aos meios de produção enquanto ‘socializa’ para os governos e a população os custos da degradação ambiental, da quebra do tecido social e do envenenamento das pessoas pelo uso de químicos nocivos. Para se ter uma ideia um coquetel com 27 agrotóxicos foi encontrado em 1 em cada 4 municípios no Brasil. O glifosato, agrotóxico mais usado na agricultura industrial, sabidamente causa câncer. Além disso, muitos cientistas já afirmam também que o glifosato causará autismo em 50% das crianças até 2025.

As corporações petroleiras, o agronegócio e os ambientalistas sabem que já entramos em uma era de escassez energética. Tanto sabem que desde o Acordo de Paris em 2015 as principais corporações petroleiras já gastaram mais de 200 milhões de dólares em marketing de ‘controle de danos’ para confundir a população e evitar que tomemos as devidas providências contra elas.

Precisamos, urgentemente, adotar uma agricultura baseada nas ciências biológicas, baseadas nos princípios da natureza. Mas para isso, como disse acima, não basta adotarmos uma ‘agricultura orgânica’, ou métodos de produção da agroecologia, da permacultura, da agricultura natural ou da agrofloresta. É preciso adotarmos um paradigma de tomada de decisão no qual gerenciamos ao mesmo tempo a terra, as comunidades e a economia. É preciso que os índices econômicos não se baseiem no mito do crescimento infinito, mas sejam baseados na qualidade de vida das pessoas e em uma produção regenerativa, energeticamente eficiente, que sequestra carbono e restaura os solos que usa para alimentar a população.

Kuhikugu, é a maior cidade pré- colombiana já descoberta na região do Xingu na Amazônia.

Em alguns momentos da História da evolução humana, no entanto, nós conseguimos viver em harmonia com o planeta. Alguns povos que habitaram a Amazônia, por exemplo, construíram uma civilização com cerca de 7 milhões de pessoas que ao produzir seu alimento melhoravam o solo que utilizam. Esse solo é chamado Terra Preta de Índio e em vários lugares da Amazônia chega a ter mais de 2 metros de profundidade. Os aborígenes australianos manipulavam os ecossistemas e usavam sistemas florestais, de piscicultura, gramíneas perenes e tubérculos para produção grãos, pães, proteínas e tubérculos há mais de 50.000 anos.

Ilustração do Sistema Ahupua’a.

Os Havaianos criaram um sistema de divisão de terras baseado em micro-bacias e em um manejo ecológico que aprimorava muito a eficiência energética de sua caça e coleta. Esse sistema era chamado Ahupua’a. Os Aztecas criaram as chinampas, um sistema de produção integrado com árvores onde se criavam ilhas de produção suspensas em áreas alagadiças nas quais a interação humana restaurava os nutrientes no ato da produção.

Essas poucas civilizações, que podemos chamar de ‘regenerativas’ porque eram energeticamente eficientes, viviam em harmonia com o ecossistema a qual pertenciam e geravam mais recursos do que utilizavam, tinham algumas coisas em comum. Entre elas a noção de que não dominavam a natureza, mas faziam parte dela, e a ideia de que a terra em que viviam e os recursos que utilizavam eram recebidos das gerações anteriores e emprestados pelas gerações futuras. Outro conceito comum de vários povos indígenas é a noção de que as decisões que tomamos hoje precisam garantir os recursos naturais para 7 gerações futuras. Esse princípio foi incorporado pelo co-originador da Permacultura, David Holmgren.

Infelizmente todas essas civilizações ‘regenerativas’ também tinham outra coisa em comum. Todas elas eram ecologicamente, espiritualmente e emocionalmente mais evoluídas que a civilização ocidental, mas não eram belicamente mais ‘evoluídas’ e, portanto, foram dizimadas durante os processos de expansão da civilização ocidental. Embora sejamos educados para acreditar que o modelo de civilização ocidental é o ápice da evolução humana, a verdade é que, muito provavelmente, esse modelo seja só o ápice bélico, exploratório e conquistador de um dos tantos ciclos civilizatórios que já tivemos. Quando voltarmos a gerenciar a terra holisticamente, junto com a economia e a cultura, quando tivermos o cuidado de deixar para nossas 7 gerações futuras um mundo abundante, com água e ar limpos, com alimentos verdadeiramente nutritivos e produzidos em ecossistemas biodiversos, poderemos chamar toda nossa agricultura, ou o manejo dos solos e águas do planeta para produzir alimentos, fibra e combustíveis, de AGRICULTURA REGENERATIVA.

Referências:

Walter Steebock – Apostila Economia em Sistemas Florestais (2018).

Allan Savory na palestra de abertura da Conferência de Inverno No-till on the Plains em 30 de Janeiro de 2018.

Bruce Pascoe (2014). Dark Emu: Black seeds agriculture or accident?

Nota:
Durante os meses de Maio, Junho e Julho estarei no Brasil com uma agenda de cursos de desenho ecológico, agrofloresta e pecuária regenerativa.

Imersão Agroflorestal na Fazenda Bella – entre os dia 1 d 15 de Junho estarei ministrando essa vivência com o Osmany Segall e o Sérgio Olaya.

A imersão é composta por dois cursos teóricos, duas vivências e duas visitas guiadas (ver link acima) equipando os participantes com o conhecimento e a prática necessários para desenhar, implementar e manejar sistemas agroflorestais. Durante a vivência os participantes terão a chance de desenhar consórcios, plantar, colher e ver a comercialização dos produtos.

Para mais detalhes sobre todos os cursos, datas e links para inscrição visite o link dos Cursos de Impacto Positivo 2019.




Um apelo aos Veganos

Todos nós, não só os veganos, deveríamos estar na batalha todos os dias fazendo tudo que podemos para acabar com a produção de animais em sistemas industrializados de confinamento. É bárbaro, cruel, nocivo e totalmente devastador para nosso meio ambiente.

Infelizmente, a raiva a esse tipo de pecuária levou a maioria dos veganos a condenar cegamente todos os produtores e todas as criações animais. Esse é o ponto onde os veganos começam a fazer mais mal do que bem. O único argumento válido que veganos podem, e devem, usar no que toca a pecuária é: “Todo manejo reducionista e produção de animais em confinamento degrada o meio ambiente, o que leva a desertificação e mudanças climáticas.” Isso é verdade.

Entretanto os veganos nunca deveriam alegar que: “Todo tipo de pecuária degrada o meio ambiente.” Isso não é verdade.

Tem sido irrefutavelmente e cientificamente provado em milhares de artigos em jornais especializados e casos empíricos por todo o planeta que a pecuária manejada por meio do processo de planejamento holístico de pastagens podem (e estão) regenerando as pradarias para a vida selvagem, trazendo os rios de volta a vida e restaurando a biodiversidade.

Veganos, pelo amor que vocês tenham ao planeta e a vida que nele habita, por favor, aprendam a diferença vital que o gerenciamento faz. O gerenciamento reducionista leva a agropecuária degradante, cruel e nociva. Isso, para todas as plantas e animais.

Mas o gerenciamento holístico prioriza a saúde do meio ambiente e seus sistemas de apoio à vida, o que leva a uma prática agropecuária saudável, regenerativa e ambientalmente benéfica. Isso, para todas as plantas e animais.

O futuro e bem estar de todas as criaturas no planeta depende de vocês aprenderem essa diferença.

Nota: Texto publicado originalmente em inglês por Sarah Savory em sua página no Facebook e traduzido por Eurico Vianna.

Cursos de Impacto Positivo em 2019

“O papel da agricultura é produzir alimentos e fibra enquanto o solo é constantemente melhorado”*. Durante os meses de Maio e Julho estarei ministrando alguns cursos com parceiros e apoiadores super engajados nas causas socioambientais. Confira o roteiro e o conteúdo dos cursos para participar e fazer parte do time que constrói Santuários de Sanidade Mental e Ecológica pelo país afora.

* P.A. Yeomans (1958). The Challenge of Landscape.

Curso de Agricultura Regenerativa com a Escola de Permacultura – entre os dias 20 a 29 de maio, na Serra da Mantiqueira, sul de Minas Gerais, Brasil. Esse curso aborda a Tomada de Decisão Holística e Escala de Permanência da Linha Chave para promover a produtividade e a qualidade de vida para a agricultura familiar.

Esse curso aprofunda e retifica conceitos chaves para os que já estudam a permacultura como ciência de desenho ecológico. Também é uma excelente oportunidade para aqueles que querem projetar com segurança uma transição para o campo.

Imersão Agroflorestal na Fazenda Bella – entre os dia 1 d 15 de Junho estarei ministrando essa vivência com o Osmany Segall e o Sérgio Olaya.

A imersão é composta por dois cursos teóricos, duas vivências e duas visitas guiadas (ver link acima) equipando os participantes com o conhecimento e a prática necessários para desenhar, implementar e manejar sistemas agroflorestais. Durante a vivência os participantes terão a chance de desenhar consórcios, plantar, colher e ver a comercialização dos produtos.

Introdução ao Desenho Ecológico para Propriedades Rurais com Eurico Vianna – entre os dias 20 e 23 de Junho em Soracaba, SP.

Esse curso apresenta os 4 processos ecossistêmicos e a Escala de Permanência da Linha Chave como uma introdução ao desenho regenerativo de propriedades rurais. O conteúdo e formato foi desenvolvido para as as pessoas que querem reconectar com a natureza, empreender com responsabilidade socioambiental ou simplesmente conhecer mais sobre a Escala de Permanência da Linha Chave (EPLC).

Curso de Gerenciamento Holístico em Sorocaba entre os dias 25 e 30 de Junho em Sorocaba, SP. A Fazenda São Benedito está fazendo a transição para agropecuária regenerativa e o curso traz a oportunidade de acompanhar o inicio do planejamento de um sistema baseado no Gerenciamento Holístico. Esse curso é divido em 3 módulos: O curso é divido em 3 módulos:
Tomada de Decisão Holística,
– Gerenciamento Holístico Financeiro e
– Manejo Holístico de Pastagens.ministrado
E será ministrado por Graeme Hand, educador e consultor australiano com mais de 20 anos de experiência internacional nessa abordagem.

Consultoria Aberta com Graeme Hand na Agropecuária Kehrle. Essa consultoria é ideal para as pessoas que já estão envolvidas na pecuária regenerativa ou que já decidiram fazer a transição. A Agropecuária Kehrle é uma propriedade inovadora, que já usa o GH há 5 anos e que prima pela produção do gado criado a pasto, garantindo a saúde aos animais e os cuidados com o meio ambiente. Nessa consultoria, portanto, a troca de conhecimentos com o Graeme será de altíssimo nível e os participantes poderão ver como a abordagem do GH se adequa ao contexto específico de cada família e sua propriedade.

Curso de Gerenciamento Holístico no Santuária Ecológico Fazenda EcoAraguaia entre os dias 7 e 12 de Julho. Esse curso vai acontecer as beiras do Rio Araguaia usando a pecuária na EcoAraguaia como estudo de caso de transição para o Gerenciamento Holístico. A EcoAraguaia é líder na implementação do Sistema Integração Lavoura Pecuária (ILP) e co-fundadora da Associação Brasileira de Produtores de Carne Carbono Neutro (ABCCN).
O curso é divido em 3 módulos:
Tomada de Decisão Holística,
– Gerenciamento Holístico Financeiro e
– Manejo Holístico de Pastagens.ministrado
E será ministrado por Graeme Hand, educador e consultor australiano com mais de 20 anos de experiência internacional nessa abordagem.


Edificações Móveis, Empreendedorismo rural e a Escala de Permanência da Linha Chave

Na Escala de Permanência da Linha Chave as edificações vem em sexto lugar. Isso quer dizer que ao invés de chegar em uma propriedade, escolher a melhor vista para colocar a moradia ou posicionar a moradia em função de estradas de acesso construídas anteriormente e depois colocar a maior parte das outras edificações em função dessa decisão, a gente primeiro pensa o Clima, a Geografia, a Água, o Acesso e os Sistemas Florestais, para então decidir onde vamos colocar as edificações.

Joel Salatin – O Fazendeiro Lunático

No artigo “Faça Tudo Sobrepondo Funções“, Joel Salatin faz umas perguntas importantes sobre as edificações (e investimentos de um modo geral) em propriedades rurais:

1 – Qual será o impacto econômico dessa construção ou aquisição na fazenda?
2 – De que outras maneiras eu posso usar essa edificação ou aquisição (equipamento, maquinário, etc.) na fazenda se meus planos atuais mudarem?
3 – Além do uso básico (planejado originalmente) de que outras formas posso usar essa estrutura? 
4 – Emocionalmente, você poderia demolir essa edificação no próximo ano e recomeçar com algo mais funcional? Se você não quer mais a edificação no local atual, você conseguiria movê-la para outro lugar facilmente?

Levando em consideração a ordem a que devemos dar prioridade ao desenvolvimento de uma propriedade segundo a Escala de Permanência e as perguntas de Joel Salatin, vemos que a maioria das pessoas posiciona suas casas e edificações na fazenda da forma errada. No sentido de trazer humildade para a área do design, o arquiteto e autor do livro Cradle to Cradle: Remaking the Way We Make Things, William Mcdonough, nos lembra que levamos 5.000 anos para colocar rodas nas nossas malas. De fato, inovações levam tempo para serem adotadas em larga escala, mas a realização de que podemos ter estruturas móveis em propriedades rurais tem motivado uma verdadeira revolução na gestão e produtividade de propriedades rurais do mundo inteiro.

Casa miniatura sobre rodas vista por trás.

As casas miniatura sobre rodas, por exemplo, estão revolucionando a maneira como as pessoas pensam a ‘casa própria’ e os custos exorbitantes de um financiamento de longo prazo. Pessoas e famílias de idades e tamanhos variadas perceberam o quanto os preços dos financiamentos tornaram a opção da casa própria quase impossível ou talvez apenas inviável se considerarmos o tamanho do sacrifício.

O deck, que também pode ser transportado, faz a conexão dos ambientes internos e externos.
A janela ampla valoriza a vista para trazer amplitude.

A mobilidade, o preço mais acessível, o baixo impacto ambiental e a maneira como essas casas nos fazem reconectar com a natureza a nossa volta tem feito muitas pessoas adotar esse estilo de vida e moradia. Outra vantagem que as casas miniatura sobre roda trazem, é que em muitos países, pelo fato de serem móveis, essas casas escapam da burocracia das regulamentações.

Mas a revolução da mobilidade não está só nas casas. Propriedades rurais no mundo inteiro perceberam que edificações móveis aumentam a produtividade regenerando os ecossistemas. Isso porque nos permitem imitar os fluxos migratórios da natureza e sobrepor empreendimentos em uma mesma área.

Um dos modelos do Ovomóvel na Polyfaces.

O ovo-móvel de Joel Salatin é um exemplo clássico. Nesse caso a áreas de pasto são otimizadas com galinheiro móvel sendo instalado logo após a saída do gado de um determinado piquete. Parte da alimentação das galinhas vem do que seriam pragas no pasto por conta da alta concentração de adubo das vacas quando manejadas intensamente em cada área. Por exemplo as moscas, os insetos, carrapatos, parasitas, etc. que tendem a se proliferar demais na falta de predadores naturais. Outra função do ovo-móvel é usar as galinhas para espalhar ainda mais (porque ciscam a área) o adubo deixado pelo gado.

Foi em grande parte com estruturas móveis e buscando inspiração na natureza que Joel Salatin conseguiu fazer a Polyfaces, sua fazenda de 100 acres, produzir anualmente 18.100Kg de carne de boi, 13.600kg de carne de porco, 10.000 frangos, 1.200 perus, 1000 coelhos e 35.000 dúzias de ovos. Tudo isso é produzido recuperando florestas, pastagens e o solo! Sem nenhum adubo ou pesticida químicos, rações de crescimento com hormônios ou antibióticos.

Abatedouro móvel desenvolvido por Mike Callicrate usando a caçamba de um caminhão.

Outro exemplo inteligente do uso dessas estruturas são os abatedouros móveis. Nem sempre eles são realmente móveis, mas o fato de serem construído sobre permite esquivar de regulamentações injustas para o pequeno produtor. Talvez o exemplo mais emblemático seja o do Mike Callicrate, um rancheiro estadounidense que defende que as fazendas de pecuária devem ser regenerativas e mantidas como negócios familiares e não corporativos. Quando o ativismo de Mike fez com que abatedouros de grande escala boicotassem sua produção, ele construiu um abatedouro sobre rodas. Essa solução também permitiu que Mike usasse todas as carcaças dos animais como biochar, fechando um ciclo e mantendo grande parte da fertilidade na propriedade.

Vacas Jersey em uma ordenhadeira móvel na fazenda de Bartele e Rioanne Holtrop na Holanda.
Ordenhadeira móvel pequena.

Na produção de leite começaram a surgir as ordenhadeiras móveis. Variando desde uma unidade manual portátil, até unidades com capacidade para ordenhar várias vacas por vez, essa inovação permite um melhor fluxo nas rotações das pastagens uma vez que a ordenha pode ser feita em piquetes diferentes. O fato da ordenhadeira ir até o piquete ao invés das vacas virem até o curral, também tem outras vantagens. Evita a erosão e compactação causada pelas trilhas do gado e faz com que a urina e o estrume sejam um recurso espalhado na propriedade e não uma poluição concentrada em apenas uma parte ao redor da ordenha.

Outro modelo de ordenha móvel. Essa puxada por um trator.

Usar infraestrutura móvel e sobrepor empreendimentos, como nos convida a fazer Joel Salatin, e saber a ordem de prioridade em termos de tomada de decisão e investimento de tempo e recursos como na Escala de Permanência da Linha Chave, de fato, revoluciona o modo de pensar e projetar propriedades e empreendimentos rurais. Eu compartilho mais sobre a abordagem de Joel Salatin para o que ele chama de ‘fazenda móvel’ no artigo 10 Passos para Empreender com Sucesso na Fazenda. Nesse paradigma, tanto as edificações quando os animais passam a ser recursos com funções múltiplas, elementos móveis que nos permitem imitar os fluxos da natureza em uma micro-escala. O que, por sua vez, nos permite realizar melhor nosso papel de agentes regenerativos das paisagens nas quais habitamos e às quais pertencemos.

Estudo revela que melhor planejamento da agricultura poderia previnir perda de 80% da biodiversidade

  • Resultados de uma nova pesquisa mostram que aproximadamente 90% da biodiversidade que os cientistas preveem que será perdida com a expansão da agricultura poderia ser salva se usássemos planejamentos de ocupação de terra mais eficazes para áreas com menor número de espécies.
  • A pesquisa concluiu que 10 países compartilham grande parte desse potencial por eles e que poderiam, por eles mesmos, reduzir a perda da biodiversidade em até 33%.
  • Entretanto, existem ressalvas. Os pesquisadores alertam que a maioria desses países está entre os “20 piores” ranqueados em termos de impacto ambiental e tem problemas políticos e de governabilidade que impediriam o uso eficaz do planejamento de ocupação rural em nível nacional. Os pesquisadores também alertam que a otimização do uso de áreas rurais visando a proteção dos recursos naturais em alguns dos países mais biodiversos podem acontecer “as custas das próprias oportunidades de produção e desenvolvimento econômico.”
  • Os pesquisadores revelam que para que os países mais biodiversos do mundo possam atingir seu pontencial máximo de conservação enquanto fornecem alimentos para suas comunidades humanas as políticas globais de uso de terras precisam integrar melhor os desafios de governabilidade, políticas públicas e economia presentes nesses países.

Artigo escrito originalmente em inglês por Morgan Erickson-Davis, dia 16 de Março de 2018. Tradução livre feita por Eurico Vianna, PhD. dia 20 de março de 2019.

Um planejamento melhor poderia salvar muita vida selvagem é o que revela um estudo publicado recentemente na Global Change Biology. A pesquisa revelou que aproximadamente 90% da biodiversidade que os cientistas preveem que será perdida com a expansão da agricultura poderia ser salva se usássemos um planejamentos de ocupação de terra mais eficaz dirigido para áreas com menor número de espécies.

Para esse estudo os pesquisadores das instituições alemãs como o Centro para Pesquisa Ambiental de Helmholtz (UFZ) e Centro de Pesquisa para Biodiversidade Integrativa (iDiv) pesquisaram dados sobre a distruibuição e habitat para quase 20.000 espécies de vertebrados fazendo projeções de intensificação da agricultura e de cenários com otimização da utilização das áreas disponíveis.

Os pesquisadores revelaram que se a expansão da agricultura fosse otimizada por áreas por meio de uma coordenação global que as direcionasse para as áreas com menos biodiversidade, até 88% das perdas de biodiversidade projetadas poderiam ser evitadas. Se coordenadas apenas em nível nacional, o estudo revela que minimização da perda seria de 61%.If coordinated at the national level, their study indicates that number would be 61 percent.

A pesquisa revelou ainda que 10 países compartilham grande parte desse potencial por eles e que poderiam, por eles mesmos, reduzir a perda da biodiversidade em até 33%.

Área ao lado da floresta tropical no Parque Nacional Gunung Leuser na Indonésia desmatada para plantio de óleo de palma (azeite de dendê).

“Alguns poucos países tropicais incluindo a Índia, o Brasil ou a Indonésia teriam de longe o maior poder de alavanca para tornar a produção de alimentos mais sustentável”, declarou o co-autor do estudo e pesquisador do iDiv e da Universidade de Leipzig, Carsten Meyer.

A pesquisa revela que esses resultados implicam “ganhos de eficiência enormes” podem ser alcançados por meio da cooperação internacional, mas que existem algumas ressalvas.

Os pesquisadores declaram que a maioria desses países estão ranqueados entre os “20 piores países” em termos de impactos ambientais e que eles tem problemas políticos e de governabilidade que impedem o planejamento para uso eficaz de suas terras em nível nacional.

“Infelizmente esses países também são frequentemente caracterizados por conflitos internos relacionados ao uso de suas terras assim como por instituições relativamente fracas na gestão das terras, ambas essas características inibem a otimização do uso das terras”, disse Meyer.

De acordo com o autor principal, Lukas Egli, pesquisador da Universidade de Göttingen e do UFZ, existe ainda outro fator complicador. Ele disse que a otimização do uso das terras de forma a proteger os recursos naturais dos países mais biodiversos, podem acontecer “as custas das próprias oportunidades de produção e desenvolvimento econômico [desses países]”.

“A não ser que esses interesses nacionais conflitantes possam ser acomodados de alguma forma dentro de políticas de sustentabilidade internacionais, uma cooperação global parece improvável e pode gerar novas dependências socio-econômicas”, disse Egli.

Os pesquisadores revelam que para que os países mais biodiversos do mundo possam atingir seu pontencial máximo de conservação enquanto fornecem alimentos para suas comunidades humanas as políticas globais de uso de terras precisam integrar melhor os desafios de governabilidade, políticas públicas e economia presentes nesses países. Os pesquisadores declaram que os resultados do estudo poderiam ser usados para “guiar doadores internacionais e as instituições emponderadoras no uso estratégico de investimentos.

“Esforços focados são necessários para melhorarmos a capacidade de integração do planejamento do uso de terras com a sustentabilidade”, disse Meyer.

Referência:
Egli, L., Meyer, C., Scherber, C., Kreft, H., & Tscharntke, T. (2018). Winners and losers of national and global efforts to reconcile agricultural intensification and biodiversity conservation. Global change biology.

A Escala de Friabilidade – uma nova forma de enxergar os ecossistemas

O segundo insight do Gerenciamento Holístico consiste em uma nova forma de classificar ecossistemas de acordo com um contínuo que vai de não-friável (1) até muito friável (10) dependendo de como a umidade é distribuída ao longo do ano e como a serrapilheira (vegetação morta) se decompõe. Nos extremos dessa escala os ecossistemas respondem de maneira diferente a influencias iguais. O descanso, por exemplo, restaura a paisagem em ecossistemas não friáveis, mas causa danos nas paisagens muito friáveis.

Mas primeiramente, vamos esclarecer o que é ‘friável’. Segundo Allan Savory, “friabilidade não é o mesmo que fragilidade” (Savory, A. e Butterfield, J. 2000: 30).

“Dentro de várias classificações ambientais”, ele explica, “existem áreas facilmente perturbadas por uma série de forças e comunidades robustas que aguentam muito mais abuso. Entretanto comunidades frágeis podem existir em ambientes não-friáveis (por exemplo, uma camada de samambaias em uma floresta), e alguns ecossistemas bastante friáveis podem não ser frágeis (por exemplo, as savanas africanas ou as pradarias norte americanas).” (Savory, A. e Butterfield, J. 2000: 30)

Outra confusão que acontece com frequência é acreditar que a vulnerabilidade de determinado ecossistema aos processos de desertificação está ligada somente ao índice pluviométrico. Isso se dá por causa da correlação que os dois extremos da Escala tem com esse índice. Entretanto, essa vulnerabilidade é determinada mais pelo grau de friabilidade do que pela precipitação total.

Quanto mais perto chegamos do 10 na Escala de Friabilidade, mesmo com índices pluviométricos entre 750 e 2000 mm, mais rápido a região vai deteriorar sob as práticas da agricultura moderna. Mas isso não é para indicar que não-friável signifique não vulnerável à deterioração, como os grandes desmatamentos das florestas tropicais deixam claro (Savory, A. e Butterfield, J. 2000).

Não existe um corte claro indicando onde um ecossistema passa de não-friável para muito friável. Mais do que a quantidade de chuva que cai por ano, o que melhor caracteriza a posição de um ecossistema na escala então é a distribuição da chuva e da umidade relativa do ar durante todo ano. “Para o extremo muito friável da escala, os ecossistemas tem caracteristicamente uma distribuição errática tanto das chuvas como da umidade relativa do ar durante o ano” (Savory, A. e Butterfield, J. 2000: 30).

Todos os ecossistemas se encontram em algum ponto entre 1 e 10 na escala. A maneira mais fácil de determinar onde é olhar várias áreas [dentro do mesmo ecossistema] e avaliar como a maior parte da vegetação está se decompondo. No extremo não-friável a decomposição será 100% biológica. Isso diminui regularmente na medida em que um ecossistema se aproxima da friabilidade e a decomposição física e química aumentam. Você deve se preocupar como como a maior parte da matéria orgânica se decompõe ao longo de todo o ano. (Savory, A. e Butterfield, J. 2000: 35-36).

Outra forma de identificarmos o grau de friabilidade é a quantidade de solo exposto que encontramos em determinada área. Isso porque na ponta não-friável da escala “é extremamente difícil, se não impossível, de criarmos grandes áreas de solo exposto e mantê-las assim (Savory, A. e Butterfield, J. 2000: 36).

Falamos muito em ‘sucessão natural’, especialmente quando tratamos de sistemas agroflorestais, mas frequentemente nos esquecemos que fauna e flora evoluíram juntas. Esquecemos a interdependência entre insetos, animais e plantas das mais variadas espécies. Nos ecossistemas friáveis como as savanas africanas e as pradarias norte americanas, eram as grandes manadas de herbívoros em constante movimento migratório que complementavam a umidade relativa por meio da urina e fezes. A altíssima densidade dessas manadas, devido a conexão presa-predador, também ajudava na decomposição da matéria orgânica por meio do pisoteio.

Juntamente com os outros 3 insights do Gerenciamento Holístico, a classificação de ecossistemas de acordo com a Escala de Friabilidade, nos auxilia a avaliar a necessidade e utilidade dos animais herbívoros como ferramenta para restaurar a saúde de um ecossistema.

Referência: Savory, A. e Butterfield, J. (2000). Holistic Management: A New Framework for Decision Making. Island Press. EUA. (Tradução livre Eurico Vianna)

Nota sobre o Impacto Positivo e a turnê Gerenciamento Holístico 2019 – Solto esse programa já em meio a preparações de outra viagem para o Brasil na qual estarei promovendo junto com o educador/consultor Australiano Graeme Hand o Gerenciamento Holístico no Brasil. Vou trabalhar com a Escola de Permacultura, com a Fazenda Bella e com novos parceiros no interior de São Paulo, mas preciso da ajuda de todas as pessoas que gostam do conteúdo para divulgar essa turnê! Peço a todos que compartilhem o conteúdo específico do Gerenciamento Holístico para eu possa encontrar parceiros que viabilizem esse projeto e os podcasts de maneira geral como forma de mostrar que outro mundo é possível, já existe, é viável e muito mais digno, saudável e harmonioso.

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Os 4 Isights do Gerenciamento Holístico

O Gerenciamento Holístico se baseia primordialmente em 4 insights. O primeiro é de que uma perspectiva holística é essencial no gerenciamento. O segundo de que os ecossistemas podem ser classificados dentro de um contínuo que vai de não-friável até muito friável. O terceiro se baseia na conexão presa-predador. E o quarto na descoberta que é o tempo e não o número de animais em determinada área que causa o sobrepastoreio.

1 – Uma perspectiva holística é essencial no gerenciamento. Se baseamos decisões de gestão em qualquer outra perspectiva, nós provavelmente teremos resultados diferentes dos planejados porque só o todo é real.

2 – Os ecossistemas podem ser classificados dentro de um contínuo que vai de não-friável até muito friável de acordo com o quão bem a humidade é distribuída e a velocidade que a vegetação morta se decompõe. Nos extremos dessa escala os ecossistemas respondem de maneira diferente a influencias iguais. O descanso, por exemplo, restaura a paisagem em ecossistemas não friáveis, mas causa danos nas paisagens muito friáveis.

3 – Nos ecossistemas friáveis um número relativamente alto de grandes herbívoros em manada, mantidos concentrados e em constante movimento como esses animais se comportam naturalmente na presença de predadores que caçam em grupo, é vital para se manter a saúde das paisagens que pensávamos que eles destruíam.

4 – Em qualquer ecossistema o sobrepastoreio e a compactação pelo pisoteamento praticamente não tem relação com o número de animais. Ao contrário, tem relação com a quantidade de tempo que as plantas e o solo são expostos aos animais.

Referência: Savory, A. e Butterfield, J. (2000). Holistic Management: A New Framework for Decision Making. Island Press. EUA. (Tradução livre Eurico Vianna)

Nota sobre o Impacto Positivo e a turnê Gerenciamento Holístico 2019 – Solto esse programa já em meio a preparações de outra viagem para o Brasil na qual estarei promovendo junto com o educador/consultor Australiano Graeme Hand o Gerenciamento Holístico no Brasil. Vou trabalhar com a Escola de Permacultura, com a Fazenda Bella e com novos parceiros no interior de São Paulo, mas preciso da ajuda de todas as pessoas que gostam do conteúdo para divulgar essa turnê! Peço a todos que compartilhem o conteúdo específico do Gerenciamento Holístico para eu possa encontrar parceiros que viabilizem esse projeto e os podcasts de maneira geral como forma de mostrar que outro mundo é possível, já existe, é viável e muito mais digno, saudável e harmonioso.

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O que significa pecuária corretamente manejada?

O gado ou mais amplamente a pecuária tem sido demonizado por veganos, vegetarianos e ambientalistas. Essas pessoas, por mais bem intencionadas que sejam, culpam a pecuária pela degradação ambiental, quando na verdade o verdadeiro culpado é o modelo de produção. No texto que segue, Allan Savory explica o que significa a pecuária manejada de forma correta e como ela pode reverter os processos de desertificação e combater o aquecimento global.

Nota: O texto que segue é uma tradução livre do artigo “O que significa pecuária manejada corretamente?” escrito por Allan Savory e traduzido por Eurico Vianna e Filipe Suleiman. O artigo original foi publicado em inglês no dia 17 de Abril de 2016 e pode ser encontrado nesse link.

No meu sexto post no blog, eu discuti porque a pecuária manejada de forma correta é essencial para salvar a civilização como a conhecemos. Agora, vamos discutir o que a pecuária manejada de forma correta significa, porque somente ao manejá-la adequadamente poderemos abordar seriamente a complexidade envolvida na desertificação global e nas mudanças climáticas.

Primeiro deixe-me ser claro sobre o que não é uma boa gestão na pecuária.

Pecuária industrial

O senso comum nos diz que a agricultura precisa se basear nas ciências biológicas. A agricultura industrializada, no entanto, baseia-se na química e na tecnologia promovida pelas universidades, corporações, grandes financiadores filantrópicos, governos e agências internacionais – uma consequência da gestão e políticas reducionistas.

Literalmente milhões de bovinos, suínos e aves são  manejados em Operações de Alimentação Animal Concentrada (CAFOs na sigla em inglês, mas também conhecida em português por pecuária de confinamento). Esses incluem porcos criados em pequenas gaiolas com pouco espaço para as mães se moverem. Isto não constitui um pecuária manejada de forma correta. A Union of Concerned Scientists (União de Cientistas Preocupados) tem criticado essas práticas. Veganos e vegetarianos que expressaram sua indignação estão – a meu ver – tais práticas não são apenas desumanas para os animais, mas tratar os animais de tal maneira também é degradante para os humanos. Além de ser desumano e degradante, os CAFOs também são prejudiciais ao meio ambiente, à economia e à saúde humana. Em qualquer nação que se proclame civilizada, tal manejo de animais deveria ser ilegal. Infelizmente, a pecuária de confinamento leva muitos na sociedade a difamar a pecuária [como um todo] em vez de reconhecer que os animais são inocentes, enquanto a gestão e políticas reducionistas são o problema.

O pecuária corretamente manejada começa com o manejo dos animais na terra de maneira que seja boa para a terra e toda a vida – bem cuidados até que suas vidas sejam terminadas o mais humanamente possível. Assim como você e eu gostaríamos de ser tratados.

Manejando animais na terra.

Aqui eu preciso distinguir entre o manejo da pecuária nos ambientes úmidos o ano todo (cerca de um terço das terras do mundo), e manejá-la nas maiores áreas do mundo, que são ambientes sazonalmente úmidos e depois secos. Os primeiros são ambientes não-friáveis [ou resilientes], nos quais folhas mortas e caules se desfazem suavemente em sua mão. O segundo são ambientes friáveis, onde as folhas mortas e os caules são tão friáveis que se quebram em fragmentos na mão.

Ambientes úmidos não-friáveis.

Lembre-se que a zona rural ao redor de Londres é verde o ano todo, enquanto a de Joanesburgo com maior precipitação média, é seca, poeirenta e marrom a maior parte do ano, porque essas cidades estão em ecossistemas completamente diferentes.

Nos ambientes mais úmidos, digamos, das costas leste e noroeste da América, ou grande parte da Europa, a pecuária tem um papel essencial a desempenhar na regeneração da vida e da saúde do solo para sequestrar carbono da atmosfera, mas não para tratar da desertificação. Nesse ambientes tão úmidos – lembre-se de meus posts anteriores – nenhuma quantidade de sobre pastoreio ou descanso (repouso parcial ou total das pastagens) causa a desertificação.

Em ambientes úmidos, enquanto os animais estiverem fora, no pasto e bem tratados, existem muitas maneiras de manejá-los. No passado, e no presente, práticas seculares envolveram pastoreio contínuo ou pastoreio rotacional. O cientista francês de pastagens Andre Voisin trouxe à luz as limitações do pastoreio rotativo. Ele desenvolveu uma forma simples de planejar o pastoreio na pecuária que ele chamou de pastoreio “racional” – ou seja, bem pensado e planejado, em vez de simplesmente girar através de pastagens.

Aqui eu preciso fazer uma digressão para discutir a confusão que reina sobre as várias maneiras que argumentam como o manejo de pasto deve ser feito.

Causa de confusão pública sobre o manejo do pasto.

Everett Rogers em seu livro seminal Diffusion of Innovations [Difusão das Inovações] descreve como o novo conhecimento se espalha na sociedade. Por sermos humanos com egos, quando aprendemos algo novo, damos o que aprendemos um novo nome e adaptamos para que pareça uma ideia nossa – e dessa forma novas idéias se espalham de uma maneira um tanto desordenada, mas eventualmente eficaz. Tanto à partir do trabalho de Voisin como do meu, as pessoas criaram muitos novos “sistemas de pastoreio”. Alguns exemplos desses sistemas de pastoreio são: o pastoreio em massa, o pastoreio de curta duração, o manejo intensivo das pastagens, o pastoreio de alta densidade, o pastoreio de piquetes e o pastoreio adaptativo de múltiplos piquetes.

Tragicamente, ao dar um novo nome e adaptar o trabalho dos outros, a própria razão do sucesso [dos sistemas originais] se perdeu. Como se eu contasse uma piada sua como se fosse minha, mas esquecesse a frase que dá graça à piada! A ‘frase esquecida’ [no caso do Gerenciamento Holístico], foi obviamente, a Tomada de Decisão Holística e o processo de planejamento [das rotações e pastagens].

O que as pessoas nas empresas entendem com facilidade é, por algum motivo, difícil para a maioria dos fazendeiros e cientistas de campo. As pessoas de negócios entendem que um sistema de gerenciamento prescritivo lhes serve bem onde as coisas no negócio são previsíveis. Por exemplo, eles usam um sistema de contabilidade ou de controle de estoque – o que significa um sistema de gerenciamento prescritivo. No entanto, eles não sonhariam em gerenciar todo o seu negócio e toda sua imprevisibilidade usando qualquer “sistema de negócios” prescritivo.

Essa confusão que surge entre os produtores, fazendeiros e acadêmicos de administração do campo e nos resultados públicos vem, eu acredito, do nosso uso da palavra “sistema” para explicar duas coisas diferentes. Nós nos referimos ao eco-‘sistema’ e a outros ‘sistemas’ complexos querendo dizer que ‘o todo’ ou ‘o sistema’ é complexo – funciona em conjuntos e padrões, auto-organizados e que, de fato, são complexos. Em meu segundo post desta série, discuti por que nossa incapacidade de administrar o que é complexo está afundando o barco da humanidade. Tudo o que administramos envolve organizações humanas e natureza – ambas definidas como sistemas complexos que se auto-organizam. Embora isso seja bastante claro, a confusão reina quando usamos a palavra ‘sistema’ em um sentido diferente, para descrever uma maneira prescritiva predeterminada de manejar animais em pastagens no campo. Fazemos isso com os sistemas de rotação e muitos outros sistemas de pastoreio. Ao fazermos isso, ignoramos em grande parte a complexidade social, cultural, econômica e ambiental e apresentamos um sistema de pastoreio recomendado (como um sistema de contabilidade ou sistema de controle de inventário) que os produtores e fazendeiros deveriam usar.

Então, em resumo, qualquer um dos inúmeros sistemas de pastoreio pode ser usado em regiões mais úmidas, onde a terra não desertifica, desde que os animais sejam tratados com humanidade durante toda a vida. A terra deve melhorar contanto que os animais sejam agrupados mais e mantidos em movimento. As pessoas ficarão felizes, como, de fato, muitas pessoas boas e aquelas que as aconselham estão ficando com o que estão fazendo porque não vêem os custos ocultos. Para a maioria das pequenas propriedades em regiões mais úmidas, o processo de planejamento simples do Voisin é excelente e superior a qualquer sistema de pastoreio. Minha esposa e eu tivemos o livro de Voisin republicado pela Island Press para tornar seu trabalho original mais disponível para aqueles que querem fazer melhor do que qualquer sistema de pastoreio pode fazer.

Agora chegamos às regiões que estão desertificando, como nos EUA e na maior parte do mundo. Áreas onde as chuvas são sazonais, irregulares e predominantemente abaixo de 400 mm (16 polegadas) de chuva por ano – áreas onde nenhuma tecnologia, plantio de árvores ou qualquer coisa além da pecuária pode praticamente reverter a desertificação e lidar com as mudanças climáticas. Aqui precisamos prestar atenção porque esses ambientes friáveis (ou quebradiços) cobrem a maior área do nosso planeta – uma área muito maior do que as florestas tropicais e regiões úmidas.

Ambientes friáveis (quebradiços) com umidade sazonal.

Quando, na década de 1960, percebi que não tínhamos outra opção senão usar o pecuária para reverter a desertificação na maior parte do mundo, enfrentei um dilema sério. Como isso poderia ser feito?

Conforme explicado em minha palestra no TED sobre desertificação, tivemos a experiência de mais de 10.000 anos de pastores experientes pastoreando seus animais, protegendo-os de predadores e constantemente movendo-os, assim como eles ainda fazem hoje. Mas isso levou ao desenvolvimento dos grandes desertos da antiguidade criados pelo homem e a desertificação ainda está avançando enquanto escrevo. Claramente o pastoreio de rebanhos, como sempre foi e ainda é feito, não reverteria a desertificação.

Jovem pastor sul-africano – Imagem Savory Global

Então tivemos a experiência de cerca de um século de uma gestão moderna de fazendas orientada por cientistas de campo, e isso aumentou a desertificação mais rapidamente do que os pastores haviam feito ao longo de milhares de anos. Esse tipo de manejo incluiu muitos sistemas de pastoreio, cercas, distribuição de água, uso de máquinas, fogo e produtos químicos. Envolveu também a redução constante do número de cabeças de pecuária que levaram ao genocídio pastoral na África, Israel, China e outros lugares, bem como a uma decadente cultura de pecuária ocidental nos EUA – claramente nenhum desses está funcionando. Então, o que deveríamos fazer? O que devemos fazer?

Tudo o que eu sabia há décadas atrás era que tínhamos que aprender a usar o comportamento de pastoreio e rebanho da pecuária de uma maneira similar a como eles evoluíram na presença de predadores que caçam manadas. De alguma forma, tínhamos que usar a pecuária como uma ferramenta e como representante de populações intactas de herbívoros e predadores do passado que não existem mais.

Ao administrar a pecuária de uma forma que imitasse a natureza, também tivemos que administrar situações socialmente, ambientalmente e economicamente muito complexas. Voisin nos deu uma pista – use algum processo de planejamento para abordar o que é complexo. Eu tentei o planejamento de Voisin, mas como foi desenvolvido para pastagens verdejantes (sem períodos de seca) na Europa, não podia lidar com a complexidade maior que enfrentamos nas savanas africanas. O planejamento de Voisin tampouco podia lidar com a complexidade social e econômica. Como nós, ecologistas, nunca enfrentamos algo assim, comecei a pesquisar outras disciplinas para ver se alguém havia lidado com tanta complexidade. O que encontrei de mais semelhante foi na experiência militar desenvolvida ao longo dos séculos na Europa.  

Os planejadores militares tinham sido forçados a desenvolver maneiras cada vez mais bem-sucedidas de planejar situações extremamente complicadas e em rápida mudança, em condições imediatas do campo de batalha. Para fazer isso, mentes inteligentes desenvolveram uma maneira simples de produzir o melhor plano possível a qualquer momento, em uma situação muitas vezes caótica e em constante mudança. Ao invés de reinventar a roda, eu simplesmente copiei o que me ensinaram como oficial do exército Rodesiano do Colégio Militar Britânico de Sandhurst – e isso se tornou o Holistic Planned Grazing.

Planejamento Holístico de Pastagens (adequado para todos os ecossistemas).

Nesse processo bem-sucedido e replicável, a primeira etapa é feita para que aqueles que gerenciam usem a estrutura holística para gerenciar o que é complexo – começando por desenvolver seu próprio contexto holístico para orientar o gerenciamento. Este é o estágio essencial quando as pessoas determinam por si mesmas, por interesse próprio, até se a pecuária deve ser gerenciada e, em caso afirmativo, como. Qualquer produtor rural ou corporação, por exemplo, em uma floresta tropical brasileira, perceberia que o pecuária não deveria estar lá. Criar gado em pastagens em uma área de floresta tropical desmatada seria socialmente, ambientalmente e economicamente insalubre, e não estaria no interesse de longo prazo de qualquer pessoa, corporação ou nação.

Se, de acordo com seu contexto holístico, aqueles que estavam gerenciando determinassem que a pecuária era essencial para melhorar suas vidas, e que nada mais poderia fazê-lo naquela situação, então o planejamento da gestão da pecuária na área prosseguiria. Se prosseguiria com o conhecimento de que era a coisa certa a fazer socialmente, ambientalmente e economicamente para suas próprias vidas e as das futuras gerações.

Como é feito o Planejamento Holístico de Pastagem?

As mentes militares haviam desenvolvido a idéia profundamente simples de transformar uma situação complicada em pequenas partes digeríveis para considerar uma por uma. Mesmo uma mente estressada pode fazer isso. E depois, tendo considerando cuidadosamente um pequeno ponto, passe para o próximo, com cada passo construindo sobre aqueles de antes para chegar ao melhor plano possível. Eu podia ver como esse processo poderia lidar com uma situação incrivelmente complicada, mesmo para pessoas estressadas e exaustas em batalha, mas havia outro problema. Batalhas são travadas por um curto período de tempo. As pessoas que administram a pecuária têm que planejar por meses ou anos à frente. Eles têm que planejar considerando mudanças climáticas sem padrões definidos, queimadas, plantas venenosas, predadores, cultivos, outros usos da terra, as necessidades do conjunto de vida selvagem e muito mais. Ao mesmo tempo, eles têm que planejar considerando a mudança das necessidades nutricionais dos animais à medida que passam por seus ciclos de reprodução. Como eu poderia usar a ideia de planejamento militar e resolver tal complexidade por muitos meses? Facilmente.

Simplesmente estabelecendo o planejamento em um gráfico poderíamos refletir dimensões de tempo, área, números e muitos problemas, questões, mudanças de estações e muito mais em um pedaço de papel. Tão simples. Nós fizemos isso e funcionou imediatamente. Embora eu tenha visto milhares de fazendeiros e pecuaristas falharem no planejamento, ainda não vi o Planejamento Holístico de Pastagens fracassar em nenhum país. Até porque, todo esse processo é baseado em mais de 300 anos de experiência de mentes brilhantes.

O Planejamento Holístico de Pastagens é ensinado rapidamente e é fácil o suficiente para crianças entenderem. Na África, os jovens recém-saídos do ensino médio, sem experiência [na pecuária] aprenderam a planejar [os movimentos nas] pastagens em um dia. Na verdade, fazer o planejamento é divertido para qualquer família ou equipe, muito parecido com um jogo, com o conhecimento na cabeça de todos derramando-se no gráfico e, finalmente, planejando o movimento animal para produzir o resultado desejado. A inexperiência ainda tem que se provar uma dificuldade, porque a ignorância não bloqueia a aprendizagem da maneira que já sabemos que os nossos egos bloqueiam a aprendizagem.

Criança com o Mapa de Planejamento – Imagem Savory Global.

Os passos para o planejamento do pastoreio estão contidos em um Aide Memoire (auxiliar de memória, em francês) por causa da origem em faculdades militares. Esse auxiliar de memória garante que passos pequenos e simples sejam seguidos, criando, da maneira como eles fazem, o plano final. O auxiliar de memória é universal (aplicável em todos os ecossistemas e em todos os tipos de situações), refletindo as experiências de milhares de agricultores, pecuaristas e pastores no campo. O treinamento, incluindo materiais de auto-aprendizagem, está disponível e constantemente atualizado pelo Savory Institute e sua rede mundial de hubs liderados e gerenciados localmente.

E uma versão simples, juntamente com materiais de mobilização da comunidade (desenvolvidos com assistência financeira do Escritório de Assistência a Desastres Estrangeiros na USAID), está disponível para pessoas semi-alfabetizadas, ONGs e outras organizações na África.

Jovem facilitando uma oficina para que pessoas semi-analfabetas em uma vila no Zimbabue possam planejar a rotação holística de seus animais nos piquetes de pasto – Imagem Savory Global.

O Planejamento Holístico de Pastagens funciona?

Você pode se perguntar se o que eu escrevo é apoiado por resultados ou reconhecimento de órgãos respeitáveis. Os resultados foram demonstrados repetidamente por quase meio século. Naturalmente, as pessoas fizeram o que fizeram com níveis variados de habilidade, mas os sucessos foram tão grandes que o processo de Planejamento Holístico de Pastagens agora é praticado em mais de vinte milhões de hectares em seis continentes. Nos EUA, produtores que manejam holisticamente dominaram as premiações por boa administração e cuidado com o campo. Até o momento algumas organizações de renome reconheceram esse trabalho, apesar do fato de que o uso da pecuária para reverter a desertificação é um tapa na cara das crenças da sociedade e, portanto, das instituições:

• Prêmio Internacional Australiano Banksia 2003 – “para a pessoa ou organização que mais faz pelo meio ambiente em escala global”.

• Prêmio Estadunidense Buckminster Fuller em 2010 – “por uma estratégia que melhor atenda às questões mais urgentes da humanidade”.

• Western A Price 2015 “pela integridade e persistência na ciência”.

• Atualmente é finalista do Virgin Earth Challenge, prêmio de US$25 milhões de Sir Richard Branson por formas escalonáveis e sustentáveis de remover gases do efeito estufa do ar.

Críticas e falhas.

Administrar o que é tão complexo foi desenvolvido ao longo de décadas de críticas, ajudando a encontrar falhas seja na lógica ou na ciência, como normalmente avançam a ciência e o conhecimento. Apesar dos apelos que fiz e ainda faço a todos os cientistas para ajudar a identificar quaisquer falhas na lógica ou na ciência, desde o início da década de 1980 que não encontramos novas falhas e apenas mudanças cosméticas ocorreram na abordagem holística. Lembre-se de que este é um processo de tomada de decisão e planejamento que utiliza toda a ciência disponível, bem como outras fontes de conhecimento.

Dito isso, no entanto, qualquer pessoa que fizer uma pesquisa no Google encontrará críticas constantemente recicladas de que o Planejamento Holístico de Pastagens não se baseia nem é apoiado pela ciência. E que também não foi comprovado experimentalmente. Tais alegações, que os oponentes usam as mídias sociais para espalhar amplamente, surgem de trabalhos, relatórios e artigos produzidos por veganos, ambientalistas e por professores de universidades respeitáveis, acrescentando “legitimidade como cientistas objetivos”.

Mesmo sempre lendo os artigos dos críticos e publicações especializadas em jornais científicos para o caso de terem encontrado algo novo, descobrimos que esse ainda não é o caso. Apesar de suas credenciais acadêmicas, os autores de tais trabalhos têm consistentemente estudado uma ou outra das muitas derivações do sistema de pastejo, mas não o processo de Planejamento Holístico de Pastagens. Esses autores também citam um ao outro repetidamente. Em uma publicação de 8 autores (todos com PhD), 19 artigos foram citados em apoio às suas críticas, mas quando todas essas citações foram checadas, incluindo os artigos citados por esses autores, nenhum jamais estudou o Planejamento Holístico de Pastagens. Afirmar que porque os sistemas de pastoreio que eles estudaram não reverteram a desertificação, então, o Planejamento Holístico de Pastagens, não é comprovado pela ciência experimental, é de fato uma lógica distorcida. Este comportamento é talvez melhor descrito em The Structure of Scientific Revolutions, de Thomas Kuhn.

Entretanto, nós nunca devemos relaxar e é minha esperança que todos vocês lendo a minha série de posts desafiarão tudo que eu escrevo. Por favor, sinta-se à vontade para fazê-lo, para compartilhar com críticos e céticos que você conheça ou que possa localizar usando o Google, os convidando a participar do diálogo. Com a grave situação que a humanidade enfrenta e pelo bem das futuras gerações, tudo o que peço é que você não seja apático.

No meu próximo artigo, vou resumir porque é que somente gerenciando o que é complexo holisticamente – usando a pecuária, manejada de forma correta, combinado com a tecnologia para desenvolver energia benigna em massa – podemos abordar seriamente a mudança climática e assim oferecer às futuras gerações a esperança que merecem . Até lá.

Nota sobre o Impacto Positivo e a turnê Gerenciamento Holístico 2019 – Solto esse programa já em meio a preparações de outra viagem para o Brasil na qual estarei promovendo junto com o educador/consultor Australiano Graeme Hand o Gerenciamento Holístico no Brasil. Vou trabalhar com a Escola de Permacultura, com a Fazenda Bella e com novos parceiros no interior de São Paulo, mas preciso da ajuda de todas as pessoas que gostam do conteúdo para divulgar essa turnê! Peço a todos que compartilhem o conteúdo específico do Gerenciamento Holístico para eu possa encontrar parceiros que viabilizem esse projeto e os podcasts de maneira geral como forma de mostrar que outro mundo é possível, já existe, é viável e muito mais digno, saudável e harmonioso.

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