Vamos falar sobre o elefante na sala

Quase toda decisão humana causa consequências indesejadas para nós, nossas finanças e as espécies em nossos ecossistemas simultaneamente. Isso porque essas três coisas: PESSOAS, ECONOMIAS e NATUREZA não são sistemas complexos separados. Esses três são intricadamente conectados, extremamente complexos e compoem um único sistema que se auto organiza. Entretanto, nenhum de nós tem a capacidade cognitiva instintiva para tomar decisões que reflitam [essa complexidade]. Se tivéssemos, naturalmente estaríamos vivendo em equilíbrio com nossos ecossistemas e teríamos que tomar apenas decisões básicas para nós mesmos como qualquer outro animal que usa ferramentas.

Nota: Tradução livre e adaptação Eurico Vianna, PhD.

Mas com o domínio do fogo avançamos muito do uso de tecnologias simples como pedras e lanças. Nosso comportamento social mudou por causa do nosso avanço nas tecnologias e gradualmente começamos a não girir só nós mesmos, mas a natureza também e com o tempo somamos a dimensão econômica.

Nosso processo simples de tomada de decisão não evoluiu para refletir que agora gerimos uma rede enormemente complexa com dimensões sociais, economicas e ecológicas. Isso resultou em nosso processo de tomada de decisão básico causando uma reação em cadeia negativa por todas as dimensões dessa rede complexa.

Nós não notamos que nosso processo de tomada de decisão é a causa da devastação global porque no ato de cada decisão nós frequentemente atingimos nossos objetivos a curto prazo e seguimos adiante. Só mais tarde os animais, as pessoas, as plantas e as economias sofrem as consequências indesejadas… E nesse momento nós usamos o mesmo processo de tomada de decisão ultrapassado para reagir ou adaptar a essas consequências.

O que segue é um exemplo de um completo desastre ecológico causado por uma única decisão reducionista:

Na década de 60 no Zimbábue as comunidades tradicionais foram retiradas das áreas que estavam sendo reservadas para os Parques Nacionais. O objetivo de curto prazo foi alcançado – as pessoas foram removidas daquelas áreas. No que se refere a preocupação que eles tinham a missão foi cumprida e eles presseguiram para a próxima decisão.

Mas eles ’empurraram o primeiro dominó’ e sem querer acionaram uma reação em cadeia enorme e invisível por todo o ecossistema – os elefantes (e outros animais) de repente pararam de migrar e se comportar naturalmente porque o predador alfa havia sido removido do ecossistema (humanos são os únicos predadores de elefantes). Vejam o que aconteceu com o Parque Yellowstone quando os lobos foram removidos.

Uma única decisão reducionista resultou em um comportamente repentino e completamente não natural de milhares e milhares de elefantes (e muitas outras espécies) e durante os próximos anos as consequências indejadas dessa decisão para aqueles ecossistemas se tornaram muito visíveis… e o vasto número de elefantes passou a ser culpado pelos danos ecológicos causados pela decisão.

Então, para resolver o dano, as pessoas usaram exatamente o mesmo processo de tomada de decisão e culparam os elefantes pela devastação ecológica; afirmando que haviam elefantes demais. E aí, para resolver o problema dos elefantes em excesso eles resolveram sacrificar 40.000 elefantes. E o fizeram. Eles conquistaram o objetivo de curto prazo, se livraram da maioria dos elefantes. Missão cumprida e de novo seguiram para a próxima decisão. Mas eles tinham empurrado o primeiro dominó de novo, e a consequência da maior decisão reducionista que eles tomaram foi que durante os próximos anos a degradação ficou muito, muito pior, não melhor.

Tudo porque essas pessoas estavam abordando um sintoma (o pulsar e o impacto não natural dos animais), mas ninguém abordou a causa do problema – a gestão humana.

Comportamento terrivelmente não natural de um elefante em um parque nacional do Zimbábue: ele está desesperadamente tentando conseguir comida e nutrientes suficientes para sobreviver durante a estação seca dada a imensa perda de biodiversidade e desertificação causadas pela nossa gestão reducionista.

Meu pai, Allan Savory, foi a única pessoa envolvida na decisão devastadora daquele governo de sacrificar aqueles elefantes que se posicionou dizendo que eles haviam cometido um erro monumental. Ninguém mais admitiu que eles estavam errados e até hoje ambientalistas/cientistas e mesmo especialistas em elefantes defendem sacrificar, esterelizar ou mudar os animais de localidade. Nas terras das comunidades tradicionais a pecuária é culpada pela devastação… mas quem maneja esses animais? Nos estados unidos as pessoas gerindo os parques nacionais em biomas parecidos não tem elefantes, gado ou outros animais para culpar, então eles dizem que “processos não conhecidos” são a causa.

Perda de biodiversidade extrema em parques nacionais nos Estados Unidos e na África: esse deveria ser o maior aviso para toda humanidade de que nossa gestão está falhando.

Depois do enorme erro com o abate dos elefantes, Allan passou a dedicar sua vida inteira a encontrar soluções para o que quer que seja em nossa gestão que leva à perda de biodiversidade e à desertificação. E ele encontrou.

Com a ajuda de milhares de pessoas durante décadas, ele desenvolveu a estrutura do Gerenciamento Holístico que nos guia pelas dimensões sociais, economicas e ecológicas de nossas decisões e que assegura que não vamos tomar decisões que mais tarde resultam em consequências indesejadas… Nos move a partir de uma gestão reativa, adaptativa para um processo de decisão traz os resultados que queremos proativamente assegurando que cada decisão que tomamos tenha o melhor resultado ecológico possível enquanto considera ao mesmo tempo as circunstâncias sociais e econômicas únicas dentro das quais é tomada.

O Gerenciamento Holístico também ajuda proprietários rurais a aprender como usar animais como ferramenta biológica para regenerar pradarias. Por meio do Planejamento Holístico de Pastagens, animais imitam o relacionamento presa-predador e criam o habitat para vida selvagem desejado. Nos lugares onde proprietários usaram animais para regenerar áreas com grandes populações selvagens os resultados são incríveis. Pradarias se tornam saudáveis de novo e a população de animais silvestres cresce no passo que seu habitat é regenerado.

Imagens de áreas regeneradas usando o Gerenciamento Holístico perto das Cataratas de Vitória no Zimbábue. Com uma imagem das terras da comunais de Hwange que está trabalhando para regenerar a biodiversidade usando o Gerenciamento Holístico e o Planejamento Holístico de Pastagens para seus animais.

Sarah Savory, Novembro 2020.

Porque apoio a Soberania Alimentar e não o Veganismo Fundamentalista

Para a maioria dos adeptos, o veganismo não é uma dieta, é uma ideologia que se opõe ao especismo. O Especismo, é o ponto de vista de que uma espécie, no caso a humana, tem todo o direito de explorar, escravizar e matar as demais espécies de animais por considerá-las inferiores.

Embora o especismo seja a base filosófica, frequentemente apóstolos do veganismo fundamentalista trazem argumentos relacionados ao meio ambiente, a espiritualidade e a nutrição.

Eu não tenho nada contra pessoas veganas, mas não concordo com o especismo como base ideológica e muito menos com os argumentos ecológicos, espirituais e nutricionais. O meu entender é que não é possível defender a agenda de conversão de grande parte do movimento vegano e defender a Soberania Alimentar ao mesmo tempo.

Soberania Alimentar implica que as pessoas têm o direito de decidir sobre sua dieta e de acesso aos meios de produção para mantê-la. A Soberania alimentar também implica o direito a decidir como comercializar se for o caso e se essa comercialização atende a biorregião, o país ou uma agenda de exportação. Dentro desse paradigma a ética que leva cada pessoa a decidir o que comer é um direito.

Eu defendo a Soberania Alimentar e dentro desse paradigma que a produção seja agro-etno-ecológica. Em geral esse termo indica uma produção que se baseia nos princípios ecológicos como é o caso da agrofloresta sucessional ou da agroecologia e isso se aplica também a esses sistemas quando eles integram a produção animal. Nesse caso o sufixo ‘etno’ indica que o sistema de produção garante que durante toda sua vida o animal é criado com sua dieta natural e expressando suas características intrínsecas. Herbívoros criados exclusivamente a pasto. O porco livre para chafurdar expressando sua ‘porquice’… A galinha sua ‘galinhice’… ciscando, tendo acesso a plantas, insetos, vermes e grãos porque é onívora… Em outras palavras nenhum animal é criado em confinamento. E quando falo de pecuária, falo de pecuária com planejamento holístico de pastagens.

O foco na soberania alimentar opera no âmbito das soluções. Constrói o direito de todos a decidir o que comer e aos meios de produção para fazer isso de forma saudável. E por ser uma política inclusiva, isso inclui os veganos também!

Quando se advoga o veganismo com argumentos ambientais o foco está no problema: a carne que degrada o meio ambiente e é produzida em um paradigma que só visa lucro. Aqui vale dizer que uma dieta à base plantas suprida pelo agronegócio via supermercados faz parte do mesmo paradigma destrutivo e degrada da mesma maneira.

Entender que tanto a carne quanto as verduras e legumes vendidos nos supermercados degradam porque participam do mesmo paradigma de produção é essencial. Assim podemos entender que a mudança a ser feita é no sentido de que qualquer alimento seja produzido agro-etno-ecologicamente.

Nesse sentido a propaganda vegana não é honesta. Primeiro porque faz comparações entre a carne e verduras e legumes sem distinguir os meios de produção. Segundo porque sempre usa como base a carne produzida em confinamento ou na pecuária extensiva.

A questão ambiental

Aqui é importantíssimo ressaltar que existe produção animal que restaura o agroecossistema. A procura por esse tipo de carne liga onívoros éticos com produtores locais reforçando uma tendência que restaura ecossistemas, economias e culturas.

Ainda na questão do meio ambiente precisamos entender que aproximadamente dois terços do planeta são compostos por regiões semiáridas ou de latitudes extremas onde a produção local precisa incluir animais. Especialmente se queremos restaurar a cultura e comércio justo biorregionais.

No Brasil temos 3 biomas onde a sazonalidade das chuvas fazem com que os animais sejam fundamentais nos processos de regeneração: a caatinga, o cerrado e os pampas. O nordeste brasileiro tem o semiárido mais populoso do mundo e mais de 20 milhões de hectares já em processo de desertificação causada pela agricultura industrial e a pecuária extensiva (dados da Sudene). Nesse caso o Gerenciamento Holístico de pastagens é o mais indicado por levar em conta as dimensões ecológicas (por planejar as rotações baseado na recuperação da vegetação e biodiversidade), sociais (por priorizar a qualidada de vida dos produtores) e econômicas (porque produz em harmonia com a ecologia). Esse sistema é capaz de restaurar o solo, os lençóis freáticos e a biodiversidade rapidamente.

Dentro desse contexto também vale comentar as pesquisas do Dr Miguel Altieri, agroecologista chileno que publica pela Universidade da Califórnia e argumenta que além de serem mais resilientes e biodiversas, as propriedades com sistemas de produção animal integrados chegam a ser 20 vezes mais energeticamente eficientes que as outras (Altieri, 2014).

Essa eficiência energética é extremamente importante para que a agricultura agro-etno-ecológica não seja dependente de insumos de uma matriz energética que sabemos que não vai durar. Ela também é fundamental para que a escolha alimentar de uns privilegiados não seja subsidiada pela dignidade e saúde dos produtores rurais. (Discuto o papel da pecuária regenerativa na soberania alimentar e biorregionalização das cadeias de produção pós-pandemia nesse artigo )

A questão nutricional

Todos os estudos sobre dietas a base de plantas fazem comparações com a S.A.D, a Standard American Diet ou Dieta padrão americana, ou seja com alimentos altamente processados e de baixíssimo valor nutricional. Não existem estudos comparativos entre dietas à base de plantas com dietas onívoras agro-etno-ecológicas.

Frequentemente as propagandas também comparam a quantidade de proteínas, cálcio ou ferro em determinados alimentos e a carne, mas não comentam sobre a biodisponibilidade, ou seja, que quando esses nutrientes vem de uma carne saudável nosso organismo absorve mais rápido e com menos esforço metabólico.

Na questão nutricional o consenso científico é de que as dietas veganas e vegetarianas podem nos deixar deficientes em muitos nutrientes. Entre eles as vitaminas do complexo B, cálcio, ferro, zinco, ácidos graxos de cadeia longa e as vitaminas A e D, que são solúveis em gordura. Aqui eu deixo links para 3 referências científicas (em inglês):

A Diana Rodgers, nutricionista americana que escreveu o livro Vaca Sagrada (Sacred Cow) que agora está para ser lançado como o documentário;

– o mestre em nutrição Chris Kresser, que tem feito pesquisas e revisões bibliográficas constantes sobre o tema;

– e a Dra Georgia Ede, que tem alertado para o perigo das dietas veganas para a saúde cerebral pela fala de DHA – um ácido graxo ômega 3 chamado docosa-hexaenoico – que as plantas não fornecem. (Fiz uma tradução livre e resumida desse vídeo no artigo A carne e a mente: como nossa saúde neurológica e mental pode estar ligada a ingestão de carnes saudáveis.

A questão espiritual

Na questão espiritual eu também não vejo coerência. Não existe vida sem morte. Não existe natureza sem sofrimento. Ninguém julga a onça por comer a paca, o tamanduá por comer as formigas ou a micorriza por comer os nematóides no solo. As cadeias alimentares fazem parte da estratégia de complexificação da vida para combater a entropia. Comunidades indígenas e tradicionais, que para mim estão entre os seres mais evoluídos exatamente por sua conexão com a natureza, não são veganos. O Dalai-lama não é vegano!

Um senso de espiritualidade que faz com que uns se achem mais evoluidos que outros, não pode nos conectar com a fonte, com o um. Um senso de espiritualidade que nos faz acreditar que podemos viver como seres supremos, supostamente mais evoluidos e por isso desconectados da cadeia alimentar, de novo, não cumpre sua função de nos reconectar com a fonte.

O especismo

Por fim, a questão do especismo para mim não é coerente exatamente por entender que nós evoluimos como seres humanos fazendo parte do ecossistema e das cadeias alimentares, como expliquei acima.

Existe uma relação simbiótica entre várias espécies. As aves que seguem as manadas de herbívoros, os peixes que limpam dos dentes do tubarão, os carniceiros que seguem os que predam em bando. Entre nós que aprendemos a caçar usando aves de rapina e cães. Essa evolução se deu por milhares de anos e por criar relações de benefício mútuo entre as espécies e dessas espécies com os ecossistemas que habitam.

É por isso que temos mais proximidade com algumas espécies e comemos outras. Isso acontece por toda a cadeia alimentar.

E não se enganem. Em um futuro não muito distante a diminuição dos subsídios energéticos vindos dos combustíveis fósseis forçará o exôdo urbano (re)criando as condições para uma vida mais rural. Nesse contexto, um número muito maior de pessoas vai entender que o veganismo é um direito, mas está longe de ser uma alternativa universal viável em grande parte do planeta.

Nos meus cursos, trabalhos e conteúdo que produzo como educador e ativista, eu apresento os animais como uma das ferramentas que temos para reverter os processos de desertificação e mitigar as mudanças climáticas.

Com isso, frequentemente alguns fundamentalistas tentam desqualificar meu trabalho ou as fontes científicas que uso. É aquela velha tática de oratória onde se tenta desqualificar o interlocutor para não ter que dialogar com a idéia. Nesses casos costumo dizer que é nessa atitude que o veganismo progressita encontra a extrema direita. E vejam que os autores com os quais embaso meu trabalho são quase todos progressistas ativistas da agroecologia como é o caso Dra. Ana Primavesi, Dr. Steenbock, Dr. Miguel Altieri, Dr. Pablo Tittonell, Dr. Gliesmann e o próprio Allan Savory.

Afirmo frequentemente que não temos mais tempo para não usar todas as ferramentas possíveis para reverter os processos de desertificação, as mudanças climáticas e o antropoceno. E embora pareça contraditório de início porque a grande maioria das pessoas nunca viu esses sistemas funcionando na regeneração e tem resistência para aceitar essa inovação na ecologia, os animais fazem parte desse conjunto de soluções quando utilizados da maneira correta.

Espero que tenha ficado claro que é exatamente por defender a soberania alimentar que entendo o veganismo como um direito, mas não um dever de todo ambientalista. Como expliquei, não concordo com o viés evangelizador, a propaganda tendenciosa do movimento, nem as manifestações que ferem o direito alheio (como no caso de propriedades invadidas). Mas acredito ser extremamente importante que todas as pessoas tenham o direito de escolher o que comer e tenham acesso aos meios de produção.

E a grande diferença entre esses dois movimentos é que o ramo fundamentalista do movimento vegano cria uma hierarchia falsa onde de acordo com um sistema de crenças os onívoros são supostamente menos ‘ambientalistas’ porque ‘ainda’ comem carne. Enquanto a soberania alimentar, não cria divisões que enfraquecem o ativismo socioambiental, abraça a diversidade e celebra as diferenças defendendo o direito de escolha de todos.

Nota:

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Porque as recomendações do Sir David Attenborough no documentário Nosso Planeta estão fadadas a falhar

Nesse artigo eu faço uma análise do filme David Attenborough e Nosso Planeta sob a luz da Tomada de Decisão Holística, um modelo de gestão criado pelo ecologista Zimbabuano Allan Savory para lidarmos com as complexidades da sociedade, ecologia e economia simultaneamente e no mesmo patamar de importância.

O filme é um testemunho do declínio dos ecossistemas do planeta Terra e um apanhado de sugestões para caminhos futuros.

Durante os 70 anos de carreira do ambientalista David Attenborough, hoje com 93 anos de idade, documentário acompanha:
– o aumento populacional;
– o aumento da poluição (em acréscimo de carbono em partes por milhão na atmosfera);
– e a diminuição da área de habitat natural para a vida selvagem no planeta.

É desesperador constatar que durante os últimos 70 anos nós seres humanos já destruimos em torno de 70% dos ecossistemas do planeta para produzir bens de consumo em um estilo de vida que nos distancia cada vez mais da natureza.

Esse é o contexto da primeira metade do documentário – um choque de realidade mostrando de forma irrefutável o impacto negativo da sociedade de consumo em toda a base natural que sustenta a vida no planeta.

A segunda metade do filme apresenta possíveis soluções para o futuro e é essa parte que eu gostaria de comentar com uma análise baseada na Tomada de Decisão Holística.

Embora existam outras sugestões e mais detalhes, de forma geral as alternativas apontadas são:

1 – Diminuir o espaço de produção agrícola, adotar uma dieta a base de plantas e comer menos carne;

2 – Substituir por completo a matriz energética de recursos fósseis que sustenta o modelo de civilização atual por energia renovável (o filme se tem mais a solar e eólica, mas menciona a geotérmica também);

3 – Praticar um ‘consumo consciente’.

Eu vejo essas sugestões como passo-à-passo simplistas, reducionistas, para uma situação que é complexa. Em muitos casos, elas nem chegam a atuar na raiz do problema. E por essas razões estão fadadas a falhar.

Quando usamos o modelo de gestão do Gerenciamento Holístico para pensar sistemicamente e tomar decisões, nós criamos um contexto que assegura simultaneamente e no mesmo patamar de importância as dimensões sociais, ambientais e econômicas. Até porque, na realidade, elas são inseparáveis. A gestão reducionista, com foco exclusivo no lucro, que nos levou a tentar gerir essas dimensões separadamente.

Devemos diminuir os espaços de produção agrícola ou ocupar todas as áreas de produção com a agricultura regenerativa?

Em relação à sugestão feita no filme de diminuirmos o espaço de produção agrícola, adotarmos uma dieta a base de plantas e comermos menos carne, eu faço a seguinte provocação: e se tivéssemos modelos de produção capazes de restaurar o solo, os lençóis freáticos e a sócio-biodiversidade? Nesse caso precisariamos diminuir os espaços de produção ou ocupar todos eles com esses modelos regenerativos?

Acontece que temos esses modelos de produção. Eles estão presentes na permacutura, agroecologia, agroflorestas sucessionais, plantio de palhada, gerenciamento holístico de pastagens, etc. Isso deixa claro que o problema não é a dieta, nem necessariamente o tamanho da área, uma vez que outros modelos de produção restauram enquanto produzem.

E aqui vale citar dois exemplos do quão ecologicamente eficiente os sistemas regenerativos podem:

O primeiro é dos Sistemas Agroflorestais (SAFs) sucessionais praticados no Brasil. As pesquisas do Dr Walter Steenbock mostram que com esses sistemas podemos produzir entre 40 e 70 toneladas de alimentos, fibras e madeira enquanto fixamos até 6.7 toneladas de carbono no solo por hectare por ano (Steenbock, 2013).

Os SAFs regeneram os processos ecossistêmicos, portanto os habitats naturais, e produzem no mínimo em torno de 25 toneladas a mais de alimento por hectare por ano.

O segundo exemplo é o da Fazenda Carvalho Branco (White Oaks) nos Estados Unidos. Eles trabalham com o modelo de gestão holística na tomada de decisão e no planejamento das pastagens e com isso conseguem fixar 1.3 toneladas de carbono no solo por hectare por ano. Eles compensam mais de 100% do carbono emitido no ciclo de vida de cada animal e até 85% de todas as emissões da fazenda (Stantly, P; Rowtree, J; et. all; 2018).

Se mais pessoas consumissem carne produzida nesse modelo teríamos um número cada vez maior de pessoas contribuindo para mitigar as mudanças climáticas sem perder sua soberania alimentar.

O filme recomenda uma agricultura tecnológica e intensiva, mas não cobre de onde viriam os insumos tanto os tecnológicos (estufas, fazendas verticais, luzes, etc) como os biológicos (adubos, oligoelementos e minerais) que precisamos para que um solo saudável produza alimentos saudáveis. Uma auditoria energética desses meios de produção mostraria que eles não são mais viáveis que a agroecologia, os SAFs ou o gerenciamento holístico de pastagens.

Raramente conseguimos resolver problemas biológicos com soluções tecnológicas.

A questão da matriz energética

Embora a transição dos recursos fósseis para os renováveis seja fundamental se quisermos assegurar qualquer chance de futuro, o documentário não questiona a ordem energética, ou seja, o quão enormemente subsidiados pela matriz fóssil nós somos.

Energias renováveis não podem manter a sociedade de consumo. Isso é um fato. Atualmente 97% das atividades que mantém a civilização baseada no consumo são mantidas pela matriz de combustíveis fósseis. Para fabricarmos mais turbinas, painéis solares e baterias precisamos de minérios e outros elementos que para serem extraídos, processados e fabricados dependem de uma infraestrutura e logística que funciona à base de energia fóssil (Trainer, 2007).

O impacto ambiental do consumo energético nos países de primeiro mundo é enorme. E se quisermos construir um futuro socialmente justo, temos um impasse na questão energética. Ou diminuímos o consumo e o gasto energético dos países desenvolvidos ou continuaremos subsidiando o conforto dos países desenvolvidos com a dignidade das pessoas no Sul Global. Isso porque energia renovável para todos na escala atual é uma impossibilidade termodinâmica.

Entretanto o documentário não questiona nem a impossibilidade de mantermos a civilização global atual com energias renováveis, muito menos o ajuste que precisa ser feito para que todos os povos possam ter acesso à energia renovável gerada.

O consumo consciente

A Economia Ecológica nos mostra muito bem pelo entendimento das Leis da Termodinâmica que uma economia baseada em consumo, não importa em qual escala ou nível de consciência, será sempre destrutiva (Cavalcanti, 2020).

Sugerir o consumo consciente, portanto, não age na raiz do problema: uma economia baseada em bens de consumo, com obsolescência planejada e que para serem fabricados invariavelmente degradam a natureza.

A solução aqui seria redesenhar a cadeia complexa sociedade-natureza-economia de forma holística. Seria entendermos, aplicarmos e vivermos uma economia baseada no gozo de viver, na arte, nas experiências subjetivas e desenvolvimento humano e não no consumo.

O documentário também não aborda a sociedade de consumo e sua economia como raiz do problema da destruição ambiental.

Coda

Embora o documentário tenha uma contribuição enorme no processo de conscientização da sociedade como um todo, as alternativas propostas são reducionistas e por vezes superficiais demais para dar conta da complexidade sociedade-natureza-economia.

Modelo de Produção da Economia Clássiva, por Dr. Clóvis Cavalcanti.

Precisamos ser mais radicais no sentido de agir na raiz dos problemas. E no caso das mudanças climáticas e do antropoceno é preciso tomar decisões holísticas que abarquem simultaneamente e no mesmo patamar de importância as dimensões sociais, ambientais e econômicas.

Com um contexto social, ambiental e econômico para todo o planeta, fica claro que não é possível um capitalismo verde ou regenerativo, é preciso redesenhar todo o sistema econômico para que ele respeite, esteja contido pela biocapacidade do planeta. É isso ou a extinção em massa.

Nota: 

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Referências:

Cavalcanti, Clóvis. Furtado e o desafio do enfrentamento dos limites ecológicos. 2020

Paige L. Stanleya, Jason E. Rowntreea, David K. Beedea, Marcia S. DeLongeb e Michael W. em Impacts of soil carbon sequestration on life cycle greenhouse gas emissions

in Midwestern USA beef finishing systems, no jornal Agricultural Systems, n.162 (249-258). 2018

Savory, A. e Butterfield, J. (1999). Holistic Management: a new framework for decision making. Island Press, CA-EUA.

Steenbock, et al. (2013). Agrofloresta, Ecologia e Sociedade. Kairós Edições

Trainer, T. (2007). Energias Renováveis não podem manter a sociedade de consumo. Tradução livre Eurico Vianna –

https://www.euricovianna.com.br/2018/06/09/as-energias-renovaveis-nao-sao-a-solucao-para-a-sociedade-de-consumo/

Proteção Contra Queimadas – Entendendo e projetando para proteção contra queimadas

Nota de Introdução do tradutor: As queimadas gravíssimas que atingiram grande parte do planeta em 2019 revelam a inconstância e os extremos climáticos como o novo padrão. Não se passaram ainda 12 meses e a expansão do agronegócio e suas práticas reducionistas e dissociadas dos fundamentos ecológicos já ateou fogo no Brasil mais uma vez. Essas queimadas revelam a necessidade urgentíssima de projetarmos propriedades rurais mais resilientes contra as secas, as enchentes e as queimadas.

Felizmente pessoas muito competentes no mundo inteiro tem feito um esforço coletivo para disponibilizar alternativas de desenho, estratégias e práticas que podem ajudar muito. Grande parte dos entraves que podem dificultar a adoção desse conjunto de soluções, no entanto, são de ordem cultural e burocrática.

As culturais tem a ver com políticas ambientais arcaicas que partem do princípio que toda intervenção humana na natureza e que todo uso de sistemas com animais integrados são aspectos negativos. Esse paradigma também tem a ver com a crença que assume que ‘desastres sempre ocorreram e vão continuar a acontecer no futuro e não há nada que se possa fazer, faz parte do ofício do produtor rural’.

Esse trabalho de tradução nasceu com o intuito de auxiliar clientes e familiares na tarefa de re-projetar suas propriedades e dialogar com os departamentos ambientais por melhores políticas de prevenção e combate às queimadas. Alguns trechos já foram compartilhados em relatórios de consultorias feitas na Chapada Diamantina e estão norteando a elaboração de planos de manejo individuais nesta região.

O que segue abaixo é uma uma tradução livre e resumida preparada por mim (Eurico Vianna, PhD) da sessão 3.56 – Proteção Contra Queimadas: Entendendo e projetando contra queimadas, do Capítulo 3 (Água), do Regrarians Handbook (2019). O livro foi escrito pelo planejador de propriedades rurais Darren J. Doherty, Georgi Pavlov e o ilustrador Andrew Jeeves. Nas referências eu também inclui recursos relacionados ao tema que foram disponibilizados por Doherty em um artigo chamado Recursos para Antes da Queimada (#BeforeTheFire Resources).

Mantenho aqui a organização original do texto seguindo a ordem da Escala de Permanência da Linha Chave. Uso as reticências “…” para indicar trechos não traduzidos. Na medida do possível complementarei as traduções dos trechos de texto e tabelas que não foram incluídos nessa primeira publicação. Se possível e com autorização do Darren, publicarei também as ilustrações originais.

Proteção Contra Queimadas: Entendendo e projetando contra queimadas

ENTENDER AS DINÂMICAS DAS QUEIMADAS

#1.Clima – As regulamentações federais e estaduais que regem os recursos naturais (especialmente os hídricos) podem ser um empecilho para algumas das ações propostas. Como elas são difíceis de serem alteradas e podem limitar o que pode ser feito em determinada propriedade elas se encaixam na camada 1#Clima (no “Clima da Mente”).

Aptidão psicológica, física, prática e Contexto Holístico

O preparo prático e físico deve ser visto em conjunto com o psicológico porque eles se reforçam. Recomendo o desenvolvimento e análise de um Contexto Holístico  para melhor determinar quem são os Tomadores de Decisão, qual é a base de recursos disponíveis, qual a qualidade de vida determinada, ações e comportamentos, quais os indicadores de sucesso, qual é o elo fraco em um dado momento e quais são os passos específicos de gerenciamento da propriedade ou empreendimento (Regrarians Handbook, 2015. pp.258-271).

Histórico Climático

É muito importante pesquisarmos os padrões climáticos e das últimas queimadas pelos últimos 100 anos. Esses padrões (e.g. de quanto em quanto tempo acontecem as queimadas) pode informar decisões estratégicas com mais eficiência que a utilização de dados isolados como precipitação, temperatura, velocidade dos ventos, etc. isoladamente. (Regrarians Handbook, 2015. pp.258-271).

#2.Geografia

A topografia influencia fortemente a direção, velocidade dos ventos e distribuição da matéria combustível, portanto, tendo efeito direto no comportamento das queimadas.

  • Inclinação –  a intensidade e velocidade do fogo aumentam morro acima. Nessas condições o calor irradiado viaja na frente pré-aquecendo e secando matéria orgânica inflamável de antemão. Para cada 10° de inclinação morro acima o fogo dobra de velocidade e para cada 10° de inclinação morro abaixo ele perde metade da velocidade.
  • Orientação – os morros com aspecto solar para o Norte tem maior risco de serem atingidos por queimadas.

Alguns exemplos de preparo comunitário contra queimadas pode incluir:

  • Redução preventiva de matéria orgânica inflamável, especialmente nos setores de maior risco de queimada.
    • [Estratégias propostas/coletadas por mim, Eurico, na Chapada Diamantina] 1- Uma estratégia seria a proposta pelo Nagoy Sol, ativista socioambiental em Rio de Contas, na Chapada Diamantina: fazer mutirões organizados ou abrir as propriedades para a coleta de madeira para as festas juninas. Um problema é que essa estratégia não resolve a questão da matéria orgânica seca nas plantas gramíneas e arbustivas; 2 – Outra estratégia válida a se considerar, talvez usada depois da descrita acima, seria a utilização de ‘fogo frio’ quando e onde apropriado e antes da estação seca.
  • Criação e participação de uma brigada voluntária. Caso já exista uma, aconselho o compartilhamento dessas propostas e o subsequente treinamento/adaptação de todos os envolvidos;
  • Criação de um sistema de mensagens, se possível com um número central alternativo para tornar a comunicação local mais eficiente em emergências;
  • Criação de planos de emergência individuais e biorregionais com pontos de decisão claros para ação ou evacuação;
  • Monitoramento constante dos riscos de queimada;
  • Encorajar a interação e cooperação entre os vários órgãos regionais e federais durante emergências. (Regrarians Handbook, 2015. pp.258-271)

#3.Água

Como vimos no curso após fazer alguns estudos de caso para o dimensionamento de captação de água de chuva, a Chapada Diamantina não tem um problema de escassez de água, mas sim de práticas que façam uso da água disponível. É necessária uma análise geotécnica de solo para a analisar a possibilidade de se construir uma açude na parte mais alta.

O Desenho

  • Usar preferencialmente sistemas com pressão por gravidade para irrigação e combate ao fogo, uma vez que são muito mais seguros que as bombas;
  • É melhor que o sistema de proteção contra queimadas também integre o sistema de irrigação;
  • Todo encanamento deve ser enterrado. Nos locais onde não é possível enterrar é necessário então cobrir o encanamento com uma boa camada de telha e cimento. Qualquer encanamento acima do solo, como torneiras e pontos de acesso devem ser aço galvanizado.

Açudes (Barragens)

  • Sempre que possível açudes devem ser construídos para servir de barreira contra queimadas no setor de risco, prover irrigação por gravidade e servir de fonte de água a ser bombeada para uma cisterna mais alta;
  • Os açudes devem armazenar água suficiente para prevenção e combate ao fogo (entre 20 e 50 mil litros por hectare durante a estação das queimadas);
  • Sempre que possível, tanto quanto a topografia e outros fatores permitam, os açudes devem ser projetados de forma a serem facilmente acessados pela brigada de incêndio. (Regrarians Handbook, 2015. Pp.258-271. Tradução livre Eurico Vianna, PhD).

Cisternas

Ao contrário da propaganda e crença popular, nenhuma cisterna é completamente à prova de fogo, entretanto as cisternas de ferrocimento ou metal oferecem melhores opções resistentes às queimadas que outros materiais. Exposição às queimadas ’empretece’ os tanques de aço inox, mas dependendo da quantidade de água na cisterna e da intensidade da queimada as exposições prolongadas à temperaturas extremas eventualmente destruirá qualquer junta soldada. Cisternas de plástico pode pegar fogo quando expostas as chamas constantes, como é o caso das queimadas. Contrariamente ao que é atestado por alguns fabricantes, as cisternas de metal com revestimento interno de plástico são sensíveis a temperaturas altas. Em uma queimada intensa o revestimento interno se descolará tornando a cisterna inútil. Durante a pesquisa Impacto das Queimadas da Austrália (Australian Fire Impact no original) conduzida pelo Departamento de Ecossistemas Sustentáveis do CSIRO (Organização de Ciência e Pesquisa Industrial da Commonwealth em português) as cisternas de aço inox cilíndricas (Zincalume) se comportaram melhor que as cisternas Aquaplate (circulares achatadas), com seu revestimento interno derretendo a 200°C. Os tanques de fibra de vidro falharam completamente.

  • As cisternas devem ser posicionadas perto da casa, mas não no setor de risco de queimadas;
  • As cisternas destinadas para o combate ao fogo devem ser de metal ou ferro-cimento e, de preferência, posicionadas acima do solo;
  • Cisternas de material plástico devem ser enterradas;
  • As cisternas devem prover armazenamento de água suficiente para o combate ao fogo durante a estação de risco (ver tabela abaixo). Na prática, provavelmente todas as fontes de água serão utilizadas em uma situação de emergência.
  • Na impossibilidade de construir açudes, o dimensionamento das cisternas destinadas a combater queimadas devem chegar o mais perto possível da capacidade recomendada dos açudes (entre 20 e 50 mil litros por hectare durante a estação das queimadas);
  • Cisternas dedicadas ao combate às queimadas precisam ser facilmente identificadas à partir da estrada pública, incluindo placas de sinalização na entrada da propriedade, ser de fácil acesso pela entrada, que deve ser de 4 metros de largura e se estende até 4 metros à partir da cisterna;
  • A base das cisternas pode precisar de reforços contra colapso [em queimadas];
  • Todos as cisternas devem ter encaixes de engate rápido (Storz 65mm) e todas as válvulas, canos e encaixes devem ser de metal;
  • Cisternas subterrâneas devem permitir que caminhões pipa reabasteçam direto delas com uma abertura maior que 200mm;
  • Cisternas expostas aos setores com alto risco de queimada devem ser projetadas com escudos térmicos contra calor e contato direto com labaredas. (Regrarians Handbook, 2015. Pp.258-271. Tradução livre Eurico Vianna, PhD)

Valas de Infiltração e Sistemas de tratamento alternativo (WET Systems)

  • Quando utilizados com plantas resistentes ao fogo, swales podem funcionar como barreiras ao fogo;
  • Em áreas áridas ou semiáridas os swales podem, até certo ponto, reumidificar o solo diminuindo o risco de queimadas;
  • Os swales também devem ser projetados de forma a funcionar como acesso para motos ou pessoas até açudes, estradas públicas ou trilhas de fuga de emergência;
  • WET Systems podem ser implantados nos setores de maior risco de fogo.

É sempre importante presumir que sistemas elétricos, bombas e aspersores podem falhar quando mais precisamos deles. Com essa atitude garantimos o desenho de sistemas redundantes e alternativos (quase sempre por gravidade).

Nota do tradutor:

Em 2019 eu contactei o Darren informando que estava trabalhando nessa tradução. Na ocasião ele me pediu que não publicasse trechos e pela falta de tempo a tradução integral foi sendo postergada.

Dado o contexto atual do Brasil, com grande parte de seus biomas mais uma vez ardendo em chamas, eu resolvi publicar a tradução como ela está e, na medida do possível, me comprometendo a disponibilizar o texto na íntegra. Ainda faltam trechos abordando as camadas:
#4.Acesso,
– #5.Sistemas Florestais,
– #6.Edificações,
– #7.Cercas e Subdivisões e
#8.Solo

O próximo curso online de introdução ao planejamento de propriedades rurais com base na Escala de Permanência começa do dia 13 de Outubro.

O objetivo principal do curso é harmonizar as vocações das pessoas, a maneira como querem viver e se expressar com as aptidões do terreno. É criar resiliência ecológica e hídrica para os sistemas de produção que, por sua vez, trarão a viabilidade econômica.

Outra missão importante é fazer com que cada participante saia com uma visão integral da propriedade. É criar um roteiro de implementação de intervenções realistas que respeitem a saúde e qualidade de vida de todos. Tudo dentro de uma ordem de prioridade na execução de forma que as pessoas, o ecossistema e a economia estejam cada vez mais saudáveis.

Link para o evento no FaceBook aqui.

Link para o formuário de inscrições aqui.

Curadoria de notícias Impacto Positivo – 11/09/20

A curadoria das notícias que circularam em nossas redes essa semana cobrem desde a alta do Cacique Raoni, passa pelo questionamento da validade dos títulos verdes e volta ao documentário Ser Tão Velho Cerrado que denuncia como o agronegócio tem degradado o berço das águas de várias bacias hidrográficas no país e aponta as soluções realmente ecológica e economicamente viáveis para essa região.

Nota: Curadoria feita por Vitor Signori, Felipe Maia e Eurico Vianna. 

Começamos a semana com a ótima notícia compartilhada por Horacio Luz da recuperação e alta hospitalar do líder indígena cacique Raoni, um sopro de esperança em meio a tanto caos. Segue o link:

https://twitter.com/InstitutoRaoni/status/1301929535772987394?s=20

No começo da semana tivemos uma conversa muito boa sobre os prós e contras do veganismo e onivorismo ético. O senso comum foi de que precisamos focar a energia naquilo que nos une que é a regeneração sócio ambiental do planeta. Segue um vídeo bem bacana do movimento Slow Food e o Bem Estar Animal compartilhado pela Marcia Silva. Veganos e onívoros éticos seguindo unidos pela restauração. Segue o link:

Joyce Lemos compartilha o Podcast do Boletim do Fim do Mundo com Bruno Torturra, uma conversa com o ex-diretor de proteção ambiental do IBAMA, Luciano de Meneses Evaristo, que foi exonerado por Bolsonaro. Luciano é um dos responsáveis pelos anos de fortalecimento do Instituto e queda recorde no desmatamento. Ele dá um panorama sobre a situação dos fiscais ambientais no Brasil de hoje. Crime organizado na floresta, garimpo ilegal, a perspectiva do chão da floresta e como o órgão mais importante de fiscalização ambiental do país está ruindo.

Um outro debate que rolou em nossas redes foi em volta da notícia da primeira emissão certificada de título verde para um agricultor no mundo. O Eurico Vianna comentou que o grande desafio para essa tendência, uma vez que ela vem da lógica do mercado de especulação financeira, além de ter métricas verdadeiramente regenerativas para os ecossistema onde funcionam, é restaurar a saúde e qualidade de vida das pessoas no campo e o acesso à terra. Segundo o Eurico, pouco adianta criarmos um mercado de comódites orgânico que nada faz pela agricultura familiar e que continua concentrando terra e renda. Segue o link:

https://ciorganicos.com.br/biblioteca/rizoma-e-grupo-ecoagro-realizam-primeira-emissao-certificada-de-titulo-verde-do-mundo/

Vilmar Lermem compartilhou o documentário Ser Tão Velho Cerrado, apesar de se tratar de um documentário de 2018, infelizmente o assunto é muito atual, pois aborda como o agronegócio tem desmatado o Cerrado, o segundo bioma mais biodiverso do Brasil para produzir grãos para exportação. O documentário também mostra a importância do cerrado na composição das bacias hidrográficas brasileiras. Apesar de chocante pelos fatos, o documentário mostra o ecoturismo e a bioeconomia como saídas economicamente viáveis para preservação desse bioma:

Gabriela Toledo compartilhou a notícia do Movimento dos Pequenos Agricultores divulgando o Curso Nacional com Sebastião Pinheiro: AGROECOLOGIA E BIOPODER CAMPONÊS. O objetivo do seminário é desenvolver a capacidade de agricultores(as) e camponeses(as) como criadores(as) de biopoder para a produção de alimentos, a partir da agroecologia. Há uma emergência e todos somos como células em um corpo mundial sincronizado, ativo como nunca no mundo, exposto às ações fascistas da eugenia exploratória, devastadora e branca. Segue o link:

https://mpabrasil.org.br/noticias/mpa-convida-para-o-curso-nacional-com-sebastiao-pinheiro-agroecologia-e-biopoder-campones/

Nosso querido Felipe Maia compartilhou o link para Sete vídeo-aulas sobre pensadores negros e suas obras, O pensamento social brasileiro deve muito às obras de grandes autores negros e negras. No entanto, a produção de intelectuais afrodescendentes não é tema recorrente de destaque. Fica a dica:

https://almapreta.com/editorias/realidade/sete-video-aulas-sobre-pensadores-negros-e-suas-obras

David e Tatiana Peebles, pai e filha que tocam juntos o Yaguara Ecológico, um verdadeiro atelier de gastronomia, produção rural e restauração ecológica estarão com a gente no #podcastimpactopositivo nesse domingo, dia 13/09 as 19h. Eles preservam, cultivam e criam alimentos regidos pelo ritmo da natureza. São artesãos da ecogastronomia e tem um sentimento de pertença e conexão especial com chão que pisam em Taquaritinga, PE. Eurico vai aproveitar a oportunidade para lançar a edição de Outubro do Curso de Introdução ao Planejamento de Propriedades Rurais. Segue o link para o podcast com a família do Yaguara Ecológico esse domingo:

https://www.youtube.com/channel/UC8q65PXvwIoURL272bymW-A

O objetivo principal do curso é harmonizar as vocações das pessoas, a maneira como querem viver e se expressar com as aptidões do agro-ecossistema onde vivem. É criar resiliência ecológica e hídrica para os sistemas de produção que, por sua vez, trarão a viabilidade econômica. Compartilhamos aqui também o link para o formulário de inscrição:

https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSdtcBRbKos-OFyCJvuNQrm_iPM4VwWrnafnAHXVInma0o_viQ/viewform

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Mudança boa se faz em boa companhia!

Como funciona o controle de danos do agronegócio

A questão do uso dos agrotóxicos no Brasil não é polêmica, é econômica e gira na casa dos bilhões! Só em isenção para as corporações que vendem agrotóxicos o Brasil deixa de arrecadar anualmente 10 bilhões em impostos. “Esse pacote de isenções, revelado por um esforço de pesquisa da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e pelos pesquisadores da Fiocruz e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro passou a ser chamado “bolsa-agrotóxico“!

Mas isso é só no Brasil e só em isenções fiscais. No mundo as 10 maiores empresas que produzem agrotóxicos lucram 39.62 bilhões por ano com a agricultura da morte.

O agronegócio diz que é preciso subsidiar a indústria do veneno porque sem ela não seria possível produzir alimentos acessíveis. Mentira! O agronegócio produz mais comódites em grãos e produtos transgênicos que alimento. Na verdade sairia muito mais barato taxar apropriadamente essa indústria da morte e subsidiar a produção de alimentos saudáveis para a população por meio da agricultura familiar, que já produz em torno de 70% do alimento usando apenas 20% das terras aráveis e 30% da água usada na agricultura.

Um estudo publicado na revista Saúde Pública revela que para cada US$ 1 gasto com a compra de agrotóxicos no Paraná, são gastos U$$ 1,28 no SUS com tratamento de intoxicações agudas — aquelas que ocorrem imediatamente após a aplicação.

Agravando ainda mais os custos que essas empresas empurram para a sociedade, estudos científicos sérios apontam que os casos crônicos de doenças como o câncer causadas pelo uso de agrotóxicos no Brasil são subnotificados. A realidade é que para cada caso notificado existem 50 que passam despercebidos ou são deliberadamente escondidos por essa indústria bilionária (PIRES, D.; CALDAS, E.; RECENA, M.C., 2005)! Isso implica que entre 2007 e 2014, mais de um milhão de brasileiros foram intoxicados por agrotóxicos. Em 2015 o governo deixou de publicar os casos de intoxicação por agrotóxicos o que dificulta muito a continuação das pesquisas.

Esses e outros dados alarmantes estão disponíveis no livro Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Européia, da Dra Larissa Bombardi, uma adaptação da tese de pós doutoramento da autora publicada pela USP.

Mas existem também os custos ambientais, que também são empurrados para a sociedade por essas corporações dos agroquímicos. O Fórum Econômico mundial estima que a pandemia atual custará entre 8.1 a  15.8 TRILHÕES de dólares para a população mundial e o consenso científico é de que quanto maior as taxas de desmatamento, quanto mais centralizada a produção, maior o risco de novas pandemias.

Ilustração mostrando como o desmatramento aumenta as chances de termos novas pandemias

Essas corporações bilionárias investem milhões anualmente em propaganda para impedir a disseminação de conhecimento sobre os custos reais de suas ações na saúde, na sociedade e no meio ambiente.

Essa estratégia de marketing é chamada ‘controle de danos’. Nesse momento, a estratégia do governo Bolsonaro no Brasil, por exemplo, é relativizar e questionar os estudos científicos que apontam o impacto negativo do agronegócio no meio ambiente e na saúde, não com pesquisas de igual rigor científico, mas com campanhas propagando falsas informações.

O ‘controle de danos’ visa mitigar danos causados à credibilidade, reputação ou imagem pública dessas empresas de agroquímicos, e consequentemente aos seus lucros. Isso porque as consequências genocidas do uso desses produtos está se tornando uma unanimidade científica que tem informado a população em geral.

O Brasil permite 5000 vezes mais glifosato na água potável que países desenvolvidos – em Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia.

Só no Brasil, essa “bolsa-agrotóxico” inclui investimentos públicos milionários em gigantes transnacionais do setor agroquímico. Um levantamento feito pela Repórter Brasil e a Agência Pública mostra que, nos últimos 14 anos, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) emprestou R$ 358,3 milhões a empresas agroquímicas (com juros subsidiados pelo governo) e a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), agência do governo que financia inovação em empresas, transferiu R$ 390 milhões a grandes produtores de pesticidas para pesquisa e inovação. Esses são os valores que bancam a pseudociência em muitas das faculdades de agronomia, engenharia florestal, zootecnia e veterinária no Brasil.

Essa é a estratégia usada pelo agronegócio no Brasil. Vídeos, artigos e memes tem circulado a internet e as mídias sociais, relativizando o impacto ambiental negativo e a gravidade da intoxicação direta e indireta causada pelo uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos nas lavouras e pecuária no Brasil.

Dentro da estratégia de ‘controle de danos’ essa abordagem é chamada de re-enquadramento. Ela consiste na mudança sutil do foco, do enquadramento, tirando do centro do debate a questão dos malefícios causados por esse modelo industrial de produção e fazendo com que as pessoas pensem a discutir, por exemplo, que o Brasil está atrasado em relação a outros países supostamente mais desenvolvidos e que ainda é o país com maior área de florestas em pé.

Ratos alimentados com milho transgênico e água com glifosato, Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia.

Entretanto, o que está em questão é que toda a abordagem da agricultura e pecuária industrial está ultrapassada em qualquer lugar e que devastação nenhuma é aceitável. Em todos os países onde é utilizada ela degrada o meio ambiente e a saúde das pessoas enquanto concentra dinheiro, território e poder.

Os setores simpatizantes desse governo, os acadêmicos ‘colonizados’ e os departamentos de marketing dessas corporações seguem estágios dentro da estratégia de ‘controle de danos’.

Primeiro, ignoram os dados e pesquisas contrários ao agronegócio enquanto for possível. Depois ridicularizam e descrevem as pesquisas e a agricultura regenerativa de forma imprecisa. Em último caso conduzem pesquisas e comparações falsas e difamam pessoas e instituições com opinião contrária para, finalmente, desacreditar as alternativas socialmente, ecologicamente e economicamente viáveis. (Mulligan, M. e  Hill, S. em Ecological pioneers: A social history of Australian ecological thought and action. 2001).

A contra-inteligência é uma das práticas comuns no “controle de danos”. Ela consiste em inundar os meios de comunicação com desinformação pintando como polêmico ou controverso o fato já comprovado pela ciência de que os agroquímicos causam câncer e outras doenças crônicas graves e que a agricultura industrial é uma das maiores causas do Antropoceno, a sexta maior extinção em massa na história da vida no planeta. Isso, simplesmente porque o consenso científico vai contra o imperativo de lucro de umas poucas corporações internacionais.

A verdade é que a única maneira de alimentar a população mundial sem causar devastação ambiental, doenças crônicas degenerativas e o êxodo rural é com a agricultura familiar agroecológica. São os pequenos produtores rurais ao redor do mundo, na grande maioria mulheres, que produzem de 50 a 75% da comida que alimenta a população mundial.

E elas fazem isso usando apenas de 25 a 30% da terra arável, 30% da água e 20% dos combustíveis fósseis usados na agricultura (Altieri, 2015; Tittonell, 2014).

A verdade econômica também é muito clara! Sem os subsídios fiscais, os perdões anuais de dívidas bilionárias e somando o custo da destruição ambiental e da saúde humana à produção agroindustrial, nenhuma dessas corporações se sustenta economica ou ecologicamente.

A única maneira de garantirmos um futuro com água e ar limpos e alimentos verdadeiramente nutritivos para as próximas gerações é gerindo nossos recursos de maneira socialmente justa, ecologicamente restauradora e economicamente viável e isso só a agricultura familiar agroecológica pode fazer.

O que aconteceria com a agricultura se nossa gestão fosse holística? Um estudo de caso em políticas públicas com parlamentares no Zimbábue.

Em 2013 no Zimbabwe 35 parlamentares fizeram uma oficina para o desenvolvimento de políticas públicas usando o Gerenciamento Holístico, abordagem de gestão de recursos, propriedades e pecuária, criada pelo ecologista Allan Savory.

Nota: Tradução livre e adaptação por Eurico Vianna, PhD. à partir de trechos retirados do livro texto do Gerenciamento Holístico pelo autor.

Referência: Savory, A. e Butterfield, J. (2000). Holistic Management: A New Framework for Decision Making. Island Press. EUA.

Historicamente nós desenvolvemos uma forma de tomar decisões e desenvolver políticas públicas que são sempre baseadas em uma necessidade, desejo ou problema,  o que constitui uma gestão reducionista e reativa. O paradigma de gestão holística, por outro lado, acolhe no mesmo patamar de importância e de forma indissociável as dimensões, sociais, ambientais e econômicas do nosso viver, implicando em uma gestão integral e proativa.

No entanto, “não é possível ‘usar’ o Gerenciamento Holístico para resolver um problema, você precisa abordar o problema dentro de um Contexto Holístico” (Sarah Savory).

A intenção da oficina de Gerenciamento Holístico com o Allan Savory e os 35 parlamentares era explorar possibilidades para a agricultura nacional que havia sido desmantelada por governos anteriores. Outro objetivo era mostrar como um Contexto Holístico pode unir partidos e ideologias supostamente antagônicas em prol de ações e políticas públicas que tenham interesse genuíno em gerir e restaurar as dimensões sociais, ambientais e ecológicas de um país.

O Contexto Holístico nacional que foi usado para o propósito da oficina foi o seguinte:

Nós queremos famílias estáveis, vivendo suas vidas em paz, prosperidade e segurança física enquanto ao mesmo tempo livres para praticar suas crenças religiosas. Queremos alimentos nutritivos e água limpa. Queremos acesso a boa educação e saúde, vivendo vidas equilibradas com tempo para família, amigos, comunidade e lazer para atividades culturais e afins.

Tudo isso assegurado, para muitas gerações futuras, em uma base de solos e comunidades biodiversas se regenerando nas terras, rios, lagos e oceanos da Terra, materializada por nossa atitude positiva: sendo abertos, tolerantes, sem julgamentos, honestos e respeitosos com todos, garantindo apoio e respeito mútuo na “equipe humanidade” enquanto vivemos em harmonia uns com os outros e com o meio ambiente.

Com esse contexto em mente os parlamentares chegaram à primeira pergunta óbvia:

  • Qual o papel do governo nesse caso?

A resposta era óbvia: o papel do governo era elaborar políticas públicas que pudessem ajudar a revitalizar a agricultura e redistribuir terras de forma igualitária.

E como isso poderia ser feito? Depois de muita discussão o grupo resumiu tudo em dois princípios amplos:

  1. Usar as políticas públicas para recompensar os produtores por sua criatividade e produtividade.
  2. Usar as políticas públicas para encorajar formas de produção que estivessem alinhadas com o Contexto Holístico e desencorajar práticas que não estivessem.
Imagem traduzida e adaptada de Sarah Savory

A tarefa dos parlamentares agora era, sem detalhar muito, elaborar possíveis ações que pudessem criar políticas viáveis baseadas na maximização da criatividade e produtividade. Elas deveriam também recompensar ou penalizar o comportamento dos produtores com base no alinhamento (ou a falta dele) com o Contexto Holístico nacional.

Depois de algumas horas o grupo tinha uma lista sólida de possíveis ações que se alinhavam com o Contexto Holístico e que provavelmente levariam a um aumento significativo da produção agrícola enquanto simultaneamente abordassem o problema do acesso desigual à terra. Essas ações incluíam o seguinte:

  • Isenção completa de imposto de renda para produção agrícola de produtores legítimos.
  • Todos os produtores genuínos pagariam impostos sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR) de acordo com o tamanho da propriedade e a região agroecológica (e.g. índice pluviométrico e tipos de solo).
  • O ITR seria reduzido anualmente baseado no número de famílias vivendo e trabalhando na propriedade, não somente para trazer famílias de volta para o campo, mas para encorajar o uso do trabalho manual sobre o do maquinário (isso porque o Zimbábue não produz nem maquinário nem petróleo).
  • Os impostos de renda das pessoas vivendo e trabalhando nas fazendas seriam arrecadados pelos produtores e enviados ao governo como evidência do número de pessoas trabalhando na fazenda.
  • O ITR seria reduzido de acordo com o número de produtos produzidos e comercializados na propriedade.
  • O ITR seria reduzido de acordo com a pureza da água que escoa da fazenda nas divisas mais baixas.

À partir daí todos os parlamentares argumentaram sobre a probabilidade dessas políticas públicas serem bem sucedidas e todos concordaram que elas trariam como resultado:

  • um aumento gigantesco na produção e diversidade de alimentos,
  • que as propriedades ociosas seriam colocadas à venda,
  • que milhares de pessoas voltariam para as áreas rurais,
  • que o solo sería regenerado,
  • o alimento produzido nutritivo e sem veneno, e
  • que a arrecadação de imposto pelo governo aumentaria dramaticamente a um custo reduzido.

Nota do tradutor: As lições mais resumidas aqui, então, são:

  • que a elaboração de um Contexto Holístico garante que não vamos tomar decisões reducionistas baseadas apenas em suprir necessidades ou locupletar desejos imediatistas ou resolver um problema desconsiderando a qualidade de vida e a base de recursos que sustenta toda a vida no planeta.
  • que não é possível ‘usar’ o Gerenciamento Holístico para resolver um problema, e sim abordar o problema dentro de um Contexto Holístico (Sarah Savory) que cria outra realidade mais integral e restauradora das dimensões sociais, ambientais e ecológicas,
  • o uso de um Contexto Holístico para tomada de decisão permite com que honremos a dignidade e qualidade de vida de quem vive ou se propõe a viver no campo, assim como harmoniza as vocações humanas mais profundas com as aptidões do terreno ocupado.

O Fim do Normal por John Doyle

“Os seguintes fatos me ocorreram no contexto das deliberações da Foresight aqui em Bruxelas.

Reflexões com o Inter Diretor Geral da Foresight e grupos de Mudanças Climáticas sobre o fim do normal:

a. As crises do “COVID” podem não terminar (provavelmente não irão) dentro do próximo século;

b. As mutações COVID II, III e outras virão – forçando a humanidade a re-estabelecer um lugar mais normal na teia interconectada da vida – ou (bem possivelmente) a se extinguir;

c. Essa evolução não está mais nem especificadamente sob o controle humano: incidências aceleradas de “novos” tipos de SARS virus e a nossa inabilidade de exercitar “controle” nos levarão ao um mundo em retração e mais localizado. Viagens internacionais permanecerão muito arriscadas por gerações e o mesmo acontecerá com o comércio global de bens de consumo. A regionalização será o novo normal que emergirá (de novo por força das circunstâncias) and a re-generação das barreiras biodiversas naturais entre a espécie humana e os nossos assim chamados “inimigos” virais também ocorrerão naturalmente na medida em que nos retrairmos em número e dispersão física;

d. Novos hábitos alimentares são inevitáveis como a única defesa contra nossos competidores/parasitas por décadas;
e. Modelos econômicos baseados em capital e dívida já estão claramente obsoletos e serão completamente esquecidos dentro de 10 a 15 anos. O novo mecanismo que garantirá a produção do que queremos e precisamos está emergindo, mas também trará um campo fértil para especulações para os muitos e redundantes economistas que estarão disponíveis para consultorias (com seus trabalhos na área sendo finalizados para a satisfação de seus supervisores);

f. Nós não fabricaremos mais carros alemães;

g.  Na medida em que mais de 20% das partículas sólidas que causam a poluição atmosférica caem levando especialmente muitas cidades no norte da Europa a extremos de temperatura ‘de bulbo úmido’, faremos planos para as temperaturas extremas desse verão no norte da Europa.

Eu presumo que essa linha de investigação será amplamente informada pelo irresistível desenrolar dos eventos, [porque] certamente não será motivada por “ideias” nem “palavras”.”

Essa mensagem foi enviada por John Doyle para colegas da Foresight no dia 02 de Abril de 2020. 

John Doyle é Coordenador de Desenvolvimento de Políticas Públicas Sustentáveis da Comissão Europeia, Diretor Geral da Information Society and Media. Atualmente John trabalha com Desenvolvimento Sustentável em larga escala (mainstream) na Diretoria Geral da Information Society com foco especial em Parcerias Empresariais na obtenção de segurança Climática e Energética.

A Foresight é parte da Comissão Européia e é um grupo dedicado à exploração de diferentes cenários de forma sistemática para enfrentar desafios complexos criando um futuro melhor futuras alternativas cientistas e lideranças

 

 

 

As contradições do mercado de “carnes falsas” como alternativa para o ativismo ambiental

Você sabia que são necessários 4.000m2 para produzir 1kg da proteina vegetal TRANSGÊNICA que imita o sabor e suculência da carne nos hambúrgueres vegetais? Você sabia que toda a produção de alimentos vegetais industrializados degrada, desmata e polui tanto quanto a pecuária de confinamento ou extensiva? Onívoros e veganos tem se dividido, mas a verdadeira causa da degradação está no modelo de gestão reducionista e não na soberania alimentar de cada um.

É isso mesmo, não é o consumo de carne que causa problemas ambientais. Os problemas ambientais são causados por um modelo de gestão reducionista que enxerga o meio ambiente como parte da economia e não o contrário. Um modelo que visa só o lucro e tem a degradação como ‘externalidade’. Esse mesmo modelo é responsável por toda a cadeia de produção alimentar industrializada que abastece os grandes centros urbanos; o que inclui TODA alimentação vegana também.

A desconexão de grande parte do movimento vegano faz com que muitos acreditem ser possível adotarmos soluções tecnológicas para problemas causados por desequilíbrios biológicos ou de gestão reducionista. O consumo de carne não é o problema, assim como alimentos veganos/vegerarianos comprados em supermercados não são a solução.

A grande maioria das carnes falsas, por exemplo, contém leg-hemoglobina (ou legHb) de soja, uma proteína que nesse caso é geneticamente modificada para dar um gosto e visual de carne suculenta. Esses alimentos fazem parte de uma indústria multibilionária que se associa ao agronegócio e as corporações petroleiras para explorar a falta de conhecimento ecológico e energético de pessoas muito bem intencionadas.

As corporações líderes dessa indústria estão tendo que se explicar ao FDA (departamento estadunidense responsável pela proteção e promoção da saúde pública) sobre os efeitos colaterais da legHb transgênica como dificuldade em ganhar peso, mudanças no metabolismo sanguíneo e sinais de anemia.

Outra questão é a enorme pegada de carbono e impacto ambiental por conta de como os grãos são produzidos, deoutros ingredientes usados e das grandes fábricas envolvidas na produção dessas carnes falsas. “Documentos mostram que os produtores do “Impossible Foods” ignoraram os avisos do FDA sobre a segurança da legHb de soja geneticamente modificada [que é] chave em seu hamburger”.

O maior problema encontrado pela ‘Impossible Foods’ [empresa líder na fabricação de carne falsa] é que é preciso 1 acre (4.000m2) de soja (quase sempre transgênica também) para produzir apenas um quilo de de leghemoglobina.

De um modo geral, apesar de em escala um pouco menos drástica, esse é o problema de lutarmos contra o consumo de carne e não contra TODO O SISTEMA DE PRODUÇÃO INDUSTRIALIZADA. Todo alimento do agronegócio participa de uma cadeia de produção que concentra renda e poder, que devasta o meio ambiente e é altamente dependente dos recursos fósseis para sua produção. 

Enquanto as empresas tentam ganhar ainda mais mercado por conta dessa miopia ecológica e energética do movimento vegano, pequenos produtores ao redor do mundo que são 20 vezes mais energeticamente eficientes porque integram animais em sua produção agro-etno-ecológica ficam sem o devido apoio dos consumidores urbanos. Esses produtores são responsáveis por até 70% da produão dos alimentos, em apenas 20% das terras agriculturáveis, com 30% da água usada pelo agronegócio e 20 vezes menos insumos químicos. Esses produtores alimentam 30 pessoas por ano por hectare com proteínas animais (Altieri, 2014).

É nesse sentido que o #govegan é um desserviço cultural, ambiental e nutricional.

Allan Savory usando uma manada para restaurar habitat para vida selvagem e as comunidades da região no Centro Africano para o Gerenciamento Holístico.

Gado (ou qualquer outro animal) criado a pasto (só pasto) em manejo holístico, por outro lado, implica:
– uma plataforma de decisão capaz de lidar com complexidade,
– métricas sociais (qualidade de vida e cultura) verificáveis,
– métricas de restauração ambiental verificáveis. Isso desde a otimização da fotossíntese, passando por ciclagem biológica de nutrientes (que constrói solo sequestrando carbono) até o ciclo hidrológico melhorando a capacidade de infiltração e retenção da água no solo. Incluindo inclusive o aumento da biodiversidade.
– métricas e abordagem econômicas que visam a melhorar a autonomia e resiliência econômica do produtor rural.

Em resumo: existem métodos de produção regenerativos para proteínas animais com métricas científicas que garantem a eficiência da restauração ecológica, social e econômica. 

Deveríamos TODOS apoiar a produção agro-etno-ecológica biorregional. Dessa forma estaremos apoiando quem mais precisa enquanto restauramos todas as áreas em que produzimos. Dessa forma não criamos uma agenda de propaganda desleal e colonizadora.

Quando toda a produção acontecer no paradigma regenerativo a soberania alimentar de todos independentemente da escolha de seu alimento estará garantindo nosso futuro como espécie no planeta. Até lá, enquanto ficarmos criando uma hierarquia de ‘capital ambiental’ onde onívoros (pequenos produtores entre esses) são ‘menos’ conscientes ou ‘menos’ ambientalistas, estaremos todos sendo explorados pelas corporações que e ideologia que causam o problema.

Ativismo socioambiental e onivorismo ético

Os pequenos produtores rurais ao redor do mundo produzem de 50 a 75% da comida que alimenta a população mundial usando apenas de 25 a 30% das terras aráveis, 30% da água e 20% dos combustíveis fósseis usados na agricultura (Altieri, 2015; Tittonell, 2014).

Os pequenos produtores rurais que fazem uso de métodos regenerativos como a agroecologia, agrofloresta ou permacultura (em sistemas que integram a produção animal) são 20 vezes mais energeticamente eficientes do que o agronegócio e os grandes latifúndios (Altieri, 2015).

Enquanto o método mais eficiente do agronegócio tem que investir 1kcal para produzir 1.5kcal, um pequeno produtor rural investe 1kcal para produzir 30kcal de alimento por hectare. Enquanto produz grãos, tubérculos, frutas, castanhas, etc. o pequeno produtor rural ainda consegue fornecer proteína animal suficiente para alimentar 34 pessoas por ano por hectare (Altieri, 2015). Se temos qualquer chance de uma cadeia de produção e consumo baseada em métodos agro-etno-ecológicos biorregional e descentralizada, é com a agricultura familiar!

Por isso, qualquer ativismo socioambiental coerente tem que primeiramente trabalhar em prol da alfabetização ecológica e energética com bases científicas e levando em conta o bem estar e a qualidade de vida dos pequenos produtores rurais. A qualidade de vida desse grupo, juntamente com sua cultura e soberania alimentar (que inclui animais nos sistemas de produção) deve ser sempre mantida no mesmo patamar de importância da restauração ecológica e da viabilidade econômica.

Um ativismo socioambiental coerente tem que levar em conta o bem estar e soberania alimentar das populações tradicionais que são as que vivem mais harmonizadas com a Mãe Terra e são onívoros. Tem que levar em conta as populações em situação de risco alimentar, como por exemplo a caatinga brasileira, que tem a maior concentração populacional de todos os biomas áridos e semiáridos do mundo e onde não é possível viver sem integrar animais em seus sistemas de produção. E aqui podemos agregar dados para a alfabetização ecológica de todos que buscam um viver com impacto positivo, os cerrados e pradarias também são ambientes onde a produção regenerativa precisa dos herbívoros para ciclar biologicamente a matéria orgânica (grande maioria gramíneas) produzida no período das chuvas .

Vemos então que o argumento que pede o fim do especismo em prol de uma relação equânime com a natureza, de um paradigma ecocêntrico utópico onde seres humanos não ‘exploram’ outros animais não tem bases ecológicas nem energéticas. O especismo também é comumente chamado de ‘carnismo’, um termo pejorativo cunhado pela propaganda vegana para descrever as pessoas onívoras. A crítica, nesse caso, é no sentido de que os seres humanos criaram uma hierarquia de existência onde outros animais viveriam exclusivamente para nos servir.

Mas essa questão não é tão simples assim. Por um lado, todas as espécies, sem exceção, buscam alterar o meio ambiente a seu favor. O equlíbrio energético das cadeias tróficas garantiu que nos últimos 3.8 bilhões da história da evolução no planeta o jogo de vida e morte entre todas as espécies tenha servido para complexificar a vida e lutar contra a entropia.

Infográfico da Fazenda WhiteOaksPastures.com mostrando a quantidade de carbono sequestrado durante a produção regenerativa.

É por isso que uma visão ecocentrica coerente, embora celebre a existência e importância de todas as espécies, não pode excluir humanos como animais onívoros que são.

Por outro lado, embora ajamos como todas as outras espécies que alteram seu habitat para favorecer sua existência, nossa desconexão da natureza e gestão reducionista aliada ao subsídio dos recursos fósseis (que por sua vez também é causa da desconexão) nos torna a espécie mais destruidora.

Desse ponto de vista, o ‘especismo’ é inescapável. Perguntemo-nos, por exemplo, se a natureza julga uma onça por comer um veado? Ou se dentro de uma casa em chamas onde se encontram um bebê e gato, a pessoa que salvasse primeiro o gato não seria gravemente julgada por outros humanos?

Infográfico do site Sacredcow.info mostrando o consumo de água na pecuária regenrativa em comparação com a carne do agronegócio.

No entanto, dentro de um paradigma holístico de gestão onde o social, o ecológico e o econômico habitam o mesmo patamar, o onivorismo ético em cadeias de produção agroetnoecológicas biorregionais é a única opção que pode ao mesmo tempo abarcar:

  • a segurança alimentar por sua eficiência energética (veja Altieri e Tittonell acima e no link),
  • a qualidade de vida do produtor rural por conta das conexões de benefício mútuo que se formam em sistemas integrados de produção,
  • as questões ambientais porque as abordagens regenerativas compõem até 30% das soluções que podem resolver as mudanças climáticas (ver Drawdown e Charles Massy 2018). Nesse paradigma humanos mantém sua posição na cadeia trófica como onívoros, porém gerando sempre mais vida,
  • as questões de SOBERANIA alimentar porque as pessoas tem o direito de escolher sua dieta e viver de acordo com suas culturas (desde que a dieta seja suprida por métodos regenerativos) sem que uma agenda hegemônica de um ativismo míope as julgue por isso.

Infográfico so site Sacrecow.info explicando como a eliminação da carne causaria mais problemas que soluções.

Outra afirmação fora de contexto do movimento vegano é a de que a produção vegetal é 90% mais eficiente. Isso não é verdade como ! Essas afirmações precisam ser propriamente contextualizadas para que possamos discutir ciência e não propaganda. Em sistemas integrados de produção (agropecuária regenerativa) os animais são um recurso na restauração. O ‘etno’ do termo agroETNOecológico indica que viverão expressando seus comportamentos inerentes. Ademais, a eficiência dos sistemas integrados está no fato de que herbívoros (com os 4 estômagos que tem) convertem plantas não comestíveis (em terras marginais) para os seres humanos em alimento altamente nutritivo (com biodisponibilidade de nutrientes e eficiência de absorção incomparáveis).

O #govegan, com a constante manipulação dos dados e miopia para as causas reais dos problemas ecológicos é um desserviço ambiental. As causas reais dos problemas ecológicos estão na gestão reducionista do sistema vigente. Em um paradigma que insiste em enxergar a natureza como parte da economia e não o contrário. O foco de todos deve ser na produção agro-etno-ecológica biorregional DE TODOS OS ALIMENTOS, em uma gestão holística que tenha sempre no mesmo patamar as questões sociais, as ambientais e as econômicas.

As estratégias mais comuns são:
– o compartilhamento de ‘dados científicos’ fora de contexto,
– a omissão ‘do tipo de produção’ das proteinas ou das alternativas regenerativas,
– a comparação de dietas a base de plantas com a S.A.D. (Standard American Diet – basicamente uma mistura de alimentos altamente processados, açúcares refinados e gorduras saturadas) ao invés de com dietas onívoras saudáveis,
– os memes apelativos com sofismas por falsa premissa como o último que diz que várias das últimas epidemias que assolaram a humanidade vieram da ingestão da carne. Isso é outra mentira. Nós evoluimos nos últimos 300 mil anos com uma dieta onívora. O que causa as doenças é o desmatamento e a produção industrial – práticas que resultam da gestão reducionista de recursos, como expliquei acima.

Essas estratégias de propaganda, no meu ver, se alinham muito mais com o facismo da ultra-direita internacional do que com um ativismo socioambiantal progressivo e inclusivo.

Fontes (todas em inglês):

A carne e a mente: como nossa saúde neurológica e mental pode estar ligada a ingestão de carnes saudáveis;
Os Pequenos Produtores Rurais Contra o Agronegócio;
O que significa a pecuária propriamente manejada;
A Escala de Friabilidade: uma nova forma de enxergar os ecossistemas;
Site da nutricionista americana e produtora do documentário SacredCow;
Artigo no site da Fazenda White Oaks explicando o resultado das pesquisas sobre pecuária regenerativa  no sequestro de carbono atmosférico;
Site Regenerateland.com com uma compilação de artigos científicos que compartilham os efeitos da pecuária regenrativa na restauração de áreas degradadas e sequestro de carbono atmosférico.