Santuários de Sanidade Mental e Ecológica

“Nós abusamos da terra por acreditarmos que é uma comódite que nos pertence. Quando vermos a terra como uma comunidade a qual pertencemos, nós podemos começar a usá-la com amor e respeito” (Aldo Leopold). É nesses Santuários de Sanidade Mental e Ecológica, que já brotam por toda a parte, que quero estar de mãos dadas com as pessoas que já são conscientes das limitações desse projeto de civilização e de que um novo viver, autônomo e harmonioso, precisa ser inventado urgentemente.

Desde que o novo governo foi eleito eu venho dizendo que, pelo menos supostamente, há uma coisa boa em tudo isso de ruim que está acontecendo no Brasil. Saber que o que aparenta ser um retrocesso social, ambiental, cultural e educacional, na verdade não é um retrocesso, é o estado atual da maioria no Brasil.

A previdência está sendo alterada e o lucro que se concentra nas mãos de poucos virá também as custas de pessoas mais velhas, frequentemente pobres. Isso acontece apesar da nossa herança cultural dos povos africanos e indígenas que sempre nos ensinou a cuidar, respeitar e valorizar os mais velhos.

As leis ambientais estão sendo flexibilizadas mesmo em meio a crimes ambientais que mataram centenas, como nas represas da Vale em Mariana e Brumadinho. Como nos casos de atentados a agentes da FUNAI, ICMBIO e IBAMA. Enquanto nossa herança cultural dos povos africanos e indígenas sempre nos ensinou a viver em harmonia com o planeta.

Nossa comida está sendo cada vez mais envenenada, enquanto Hipócrates já nos ensinava a fazer do alimento nossa medicina.

São mazelas… sociais, ambientais e mentais mesmo. Na Medicina Tradicional Chinesa, quando uma mazela se apresenta devemos ser gratos por poder identificá-la e trabalhar na cura. Mas esse lado positivo é só ‘supostamente’ bom porque para existir ‘tratamento’ o afligido precisa não só estar consciente de sua mazela, mas querer ser tratado.

Aí fico imaginando quantos escravos defendiam seus senhores e capitães do mato ou quantos campesinos ou plebeus defendiam o feudalismo? Digo isso porque nunca a concentração de renda e poder foi tão desigual e escancarada! Nunca foi tão claro que esse sistema vigente esvai a empatia, a humanidade, nos faz degradar a natureza (e nós mesmos como parte integrante dela). E ainda assim há muitos que defendem o quadro que piora dia-a-dia.

Mas o fato é que não vejo possibilidade de “tratamento”, de esperança, para esse projeto de civilização.

Os que defendem esse sistema, seus líderes e sua viabilidade vão enterrar muitos inocentes, como já fazem há muito tempo em nome do lucro. Em nome do lucro também envenenamos as pessoas, os animais e o meio ambiente. Durante esse processo de criação de uma economia sociopata extinguimos 200 espécies todo dia, na Era que passou a ser chamada de Antropoceno. Nossa poluição dispara ciclos de feedback auto-reforçados que deixam o planeta cada vez mais febril, reforçando ainda mais a extinção de tudo e todos.

Não há sentido no “ninguém solta a mão de ninguém” se for para nos apoiarmos dentro do projeto atual de civilização. Precisamos abandonar rapidamente os que perderam sua humanidade e não querem ajuda! Precisamos rapidamente encontrar os que já acordaram para a gravidade da situação e já estão dispostos a abandonar esse modelo para criar outro, de fato, humano e harmonioso.

Nas palavras de Clarisse Lispector contidas em uma mensagem que uma amiga me mandou, “liberdade para mim é pouco, o que eu quero ainda não existe.” Por isso precisamos criar santuários de sanidade mental e ecológica! Precisamos restaurar o planeta enquanto nos tornamos responsáveis pelo nosso viver. Precisamos que haja uma possibilidade saudável e digna para que as gerações futuras possam habitar o planeta. O foco deve ser na criação desses lugares, não na conversão ideológica dos que querem conquistar e desfrutar de privilégios as custas da saúde do planeta e das futuras gerações que o habitarão.

Só lugares assim sobreviverão ao colapso econômico, energético e ambiental que já se forma rapidamente. E no caso de uma hecatombe geral, como uma extinção em massa ainda maior do que a que está em curso causada pelo aquecimento global repentino (já anunciada em pesquisas publicadas nos jornais especializados) sejamos corajosos! Porque só em lugares assim manteremos a dignidade humana, a compaixão e a empatia até o final.

Nesses santuários de sanidade mental não pode haver espaço para fundamentalismos, para caixinhas que facilitem o sentimento de pertença excluindo ‘o diferente’. O diferente trará lições desde que a humanidade, a compaixão e a empatia estejam presentes.

À partir desses lugares pode haver uma mudança genuína que torne o atual obsoleto, como dizia Buckminster.

São nesses lugares, que já brotam por toda a parte, que quero estar de mãos dadas com vocês. Com as pessoas que não são melhores que ninguém, mas que são conscientes de suas limitações, das limitações do modelo atual e por isso já constroem outro viver.

Fiquem bem! Procurem as companhias e atividades que alimentem e mantenham a sua chama brilhando! Mudança boa a gente faz em boa companhia!

Nota: Das sincronicidades da vida… esse artigo surgiu como desabafo e resposta de apoio a uma amiga muito iluminada e super alinhada com as causas da saúde humana e da Mãe Terra. Além de tantas notícias péssimas para saúde humana e do meio ambiente já anunciadas por esse governo, ela tem se esgotado em diálogos ‘tentando ajudar’ as pessoas que apoiaram ou ainda apoiam o projeto de governo atual. Ela tem disponibilizando livros, artigos científicos e dados nas áreas em que ela atua e possui várias pós-graduações e especializações (nutrição e medicina tradicional chinesa) e doado seu tempo e energia para essas pessoas. No mesmo dia em que escrevi a versão original para ela, outro amigo me escreveu dizendo que a dominação da natureza e subsequente degradação é ‘natural’ do ‘homem’. Que o conceito de ecologia é novo, mas que a ‘cultura’ sempre dominou a ‘natureza’. Respondi que esse é o paradigma que nos trouxe ao ponto crítico de devastação que chegamos. Ainda no mesmo dia recebo a citação de Aldo Leopold que abre o artigo.

Gerenciamento Holístico: Parte 3 – Sistemas e Comportamentos e a Base de Recursos Futuros

Allan Savory, produtor rural, doutor em ecologia e criador do Gerenciamento Holístico originário do Zimbabue nos alerta para a necessidade especificarmos (listando) na construção de nosso Contexto Holístico para tomada de decisão coisas como “equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal” ou mesmo “ter um plano de aposentadoria”. Segundo ele essas coisas só serão produzidas ou só acontecerão se forem incluídas na nossa Declaração de Qualidade de Vida”. Nessa parte da série dos artigos sobre Gerenciamento Holístico eu abordo o passo-à-passo da construção dos Sistemas e Comportamentos e da Base de Recursos Futuros, últimos passos para a criação de um Contexto Holístico para tomada de decisão.

Nota: Esse material foi preparado primeiramente para guiar o trabalho que fazemos na Fazenda Bella. Posteriormente, depois de participar de cursos de Gerenciamento Holístico na Austrália e de reutilizar o mesmo material para outros empreendimentos e consultorias, surgiu a ideia de aprimorá-lo para compartilhar com outras pessoas no Brasil. Grande parte desse material, entretanto, é formado por compilações e traduções de outras fontes (originalmente publicadas em inglês). Uma parte menor foi de fato desenvolvida por mim. Apresento todas as fontes usadas na lista de referências ao final do texto.

Eurico Vianna, PhD. Lennox Head, Austrália, Janeiro de 2018.

No artigo anterior, Gerenciamento Holístico: Parte 2 – O Contexto Holístico, eu introduzi o conceito e exemplifiquei como podemos definir nossa Declaração de Propósito e Declaração de Qualidade de Vida, que garante que não sacrifiquenos nossa qualidade de vida para alcançar nossos objetivos. Esse artigo damos seguimento a construção do Contexto Holístico, que na verdade é formado por vários conceitos, práticas e atitudes que passam também pelo exercício da tomada de decisão com as perguntas teste e com a avaliação constante das decisões tomadas.

Formas de Produção ou ‘Sistemas e Comportamentos’

As Formas de Produção são definidas por Allan Savory como tudo aquilo que precisamos produzir para criar a qualidade de vida que descrevemos. Entretanto Allan Savory nos aconselha a focar no quê e não no como. “Você quer listar somente o que precisa ser produzido, não como vai ser produzido. O como algo é produzido é uma decisão que precisa ser testada” (Holistic Management, p. 77).

Mais uma vez uma adaptação feita pelo educador da permacultura canadense e instrutor do módulo de Tomada de Decisão Holística da Plataforma Regrarians, Javan Bernakovitch nos ajuda a pensar e desenvolver melhor esse conceito para que o uso seja mais eficiente. Javan usa ‘Sistemas e Comportamentos’ ou invés da definição clássica ‘Sistemas de Produção’. Eu prefiro usar ‘Comportamentos e Sistemas’ porque o termo define e indica bem o fato de que, por muitas vezes, o que precisa ser mudado são comportamentos. São falhas conscientes ou inconscientes em como abordamos as várias coisas que produzimos. O componente ‘sistemas’ também engloba bem o elemento ‘produção’ abordado no termo clássico original ‘formas de produção’.

Allan Savory explica que para definirmos nossas Formas de Produção (ou Comportamentos e Sistemas) “não basta simplesmente seguir a Declaração de Qualidade de Vida criando um produto para cada frase ou item”. É necessário nos perguntarmos “O quê nós não temos agora ou o quê não estamos fazendo agora, que nos impede de alcançar a qualidade de vida que listamos?”. Depois de analisarmos nossas próprias respostas nós editamos a resposta criando uma frase em termos positivos, descobrindo assim o que precisamos produzir, como precisamos nos comportar e quais são os sistemas que precisamos colocar em prática. Uma Forma de Produção (ou Comportamento e Sistema) pode ser a resposta para várias necessidades e vice versa. Por exemplo, se uma das qualidades de vida expressadas foi “ter prazer no que fazemos no dia-a-dia”, essa necessidade poderia ser resolvida tendo (ou melhor produzindo) “um equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal” ou “tempo suficiente para planejamento estratégico”, ou tantas outras formas (Holistic Management, p.75)

Outra observação importante feita por Allan Savory é de que algumas pessoas questionam a necessidade de especificar (listar) coisas como “equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal” ou mesmo “ter um plano de aposentadoria”, “mas essas coisas só serão produzidas se forem incluídas na Declaração de Qualidade de Vida” (Holistic Management, p.75).

Embora um Comportamento e Sistema possa prover para várias necessidades, na experiência de Dan Palmer da VEG, elas tendem a funcionar melhor quando respondem a cada necessidade. Veja o exemplo dos Comportamentos e Sistemas (Formas de Produção) da VEG, que declara ser uma empresa “profissional, organizada e calma”:

  • Nós nos apresentamos bem,
  • Nós nos preparamos bem para cada trabalho,
  • Nós nos asseguramos de que nossos clientes terão expectativas claras a respeito dos serviços que serão prestados,
  • Nós nos asseguramos de que todos os papéis e responsabilidades dentro da VEG são claramente definidos e todas as tarefas são distribuídas para o devido setor,
  • Nós não pegamos serviços demais,
  • Nós temos acordos claros quando estabelecemos parcerias com outras pessoas ou empresas,
  • Nós usamos sistemas de gerenciamento de tempo, pessoas e materiais que são claros e fáceis de usar.

A ideia, segundo Dan, é de que se cada uma dessas coisas (Comportamentos e Sistemas) forem alcançadas, a empresa deles será “profissional, organizada e calma”. É nessa etapa da articulação do Contexto Holístico que as transformações começam a acontecer. Ter nossas necessidades ou aspirações listadas, como fizemos nas etapas de Declaração de Propósito e de Qualidade de Vida, é um exercício que muitos já fizeram, mas sem os Comportamentos e Sistemas para complementar o contexto, elas quase sempre caem em esquecimento ou são vistas como clichês. Especificando os Comportamentos e Sistemas, no entanto, nós temos a certeza do que precisa se tornar realidade em nosso dia-a-dia para que possamos, de fato, realizar nossa Declaração de Propósito de maneira a conseguir alcançar todas as qualidades de vida listadas.

A Fazenda Oito Acres traz Comportamentos e Sistemas mais simples, por exemplo.

  • Nós produzimos gado (vendendo carne e animais vivos),
  • Nós produzimos um apiário (vendendo colmeias, mel e cera de abelha),
  • Nós produzimos sabonetes e óleos essenciais naturais,
  • Nós produzimos galinhas (animais vivos e ovos)?,
  • Nós produzimos hortaliças?

Notem como o processo é fluido. Os dois últimos itens das Formas de Produção da Fazenda Oito Acres estão marcados com uma interrogação. Isso demonstra que eles vão testar e decidir se esses Comportamentos e Sistemas são, de fato, viáveis dentro do contexto deles.

Dan Palmer dá o exemplo da Declaração de Qualidade de Vida de sua família e os Comportamentos e Sistemas necessários para mantê-las da seguinte maneira:

Nós somos fisicamente e mentalmente fortes.

Como Dan mesmo alerta, mas como garantir que essas qualidades sejam uma realidade diante das adversidades da vida? Eles então criaram seus Comportamentos e Sistemas:

  • Nós respiramos ar puro,
  • Nós bebemos água pura e viva,
  • Nosso alimento é nutritivo e saudável,
  • Nós dormimos bem,
  • Nós vivemos e trabalhamos em ambientes livres de toxina, claros, secos e aconchegantes,
  • Nós somos fisicamente ativos,
  • Nós somos conectados com pessoas da área da saúde que nos ajudam quando necessário.

Futura Base de Recursos (Future Resource Base)

Nessa última etapa desse exercício de formulação do seu Contexto Holístico você descreve como é a sua Futura Base de Recursos, nesse curso também chamada de Indicadores Futuros (Regrarians, 2017). O que você vê em termos de pessoas, terra (sua propriedade) e comunidade precisa ser capaz de prover as Qualidades de Vida e os Comportamentos e Sistemas declarados anteriormente.  De novo algumas perguntas se tornam chave para completarmos essa etapa.

    • Como será a paisagem do seu todo dentro de 10 anos? Dentro de 50 anos? E que tal, e porque não, dentro de 200 anos? Lembre-se que praticamente qualquer ‘todo’ sob gerenciamento depende de algum ecossistema em algum lugar para mantê-lo.
  • Quais são os serviços necessários que serão prestados pela comunidade para manter suas Formas de Produção? Quais caraterísticas você gostaria que sua comunidade local e regional tenham em um futuro longínquo? Entretanto, ao descrever as pessoas em sua Futura Base de Recursos, você deve focar em como você e o seu ‘todo’ (negócio ou organização) são, porque isso está dentro da sua esfera de controle. Embora o comportamento dos outros esteja fora de nosso controle, a maneira como somos vistos por essas pessoas tem grande influencia na maneira como essas pessoas agem com a gente.

Na opinião de Dan Palmer é melhor definir a Futura Base de Recursos de acordo com o que seus Comportamentos e Sistemas precisam no presente e no futuro. Resumindo, quais são os recursos (que você provavelmente incluiu na sua Base de Recursos quando você definiu o ‘todo sob gerenciamento’) dos quais você depende para conseguir fazer as coisas que mantém sua Declaração de Qualidade de Vida verdadeira? Além disso, como estes recursos precisam ser no futuro para continuar mantendo a Qualidade de Vida que você articulou? A Futura Base de Recursos da VEG foi definida assim:

  • Boa vontade dos clientes,
  • Competência dos funcionários,
  • Galpão organizado,
  • Relacionamentos de trabalho saudáveis,
  • Relacionamento com fornecedores,
  • Nós fornecemos resiliência,
  • Sistemas completos, elegantes e eficientes,
  • Marca forte, coerente e reconhecível,
  • Website bonito, funcional e atualizado,
  • Veículos e ferramentas mantidos em bom estado,
  • Bons relacionamentos e reputação com organizações parceiras e colegas.

Novamente a Fazenda Oito Acres articula seu contexto de forma sucinta e direta. Para eles a Futura Base de Recursos é apresentada também como “Coisas que nós podemos usar” e a lista segue assim:

  • Pastagens perenes,
  • Açudes e poços artesianos,
  • Biodiversidade (em árvores e animais),
  • Temos nossos vizinhos nos vendo como pessoas trabalhadores e produtivas,
  • Temos nossos clientes valorizando nossos produtos como produtos bons e de qualidade.

Ter nossa Futura Base de Recursos listada e descrita é muito importante pois ela se torna um parâmetro de avaliação para sabermos se nossas decisões estão nos guiando na direção que escolhemos. Se um ou vários desses recursos começam a se degenerar com o passar do tempo, nós sabemos que estamos com problemas pois parte da fundação que apoia nossa existência está erodindo.

Para que a nossa Declaração de Propósito e Qualidade de Vida sejam mantidos como queremos é necessário que nossa Futura Base de Recursos seja mantida, ou melhor ainda, sempre aprimorada.

As Declarações de Propósito e Qualidade de Vida focam no tempo presente, quando muito em futuro próximo. Elas funcionam com a seguinte pergunta: o que eu quero que seja verdade sobre o ‘todo sob gerenciamento’ agora e o que eu preciso fazer para realizar isso? A Futura Base de Recursos requer que mudemos o nosso foco do momento presente para o futuro a médio e longo prazo e para os indicadores de que estamos no caminho certo.

Se você seguiu os passos e articulou sua Declaração de Propósito, seus Comportamentos e Sistemas e sua Futura Base de Recursos você completou seu Contexto Holístico temporário. Javan Bernakovitch resume bem o que é e qual sua função explicando que o Contexto Holístico é uma forma de saber o que você quer, o que fazer para conseguir o que você quer e como saber se essas duas partes estão alinhadas. Ele explica dizendo que: “se eu quero X, eu preciso fazer Y (para que X aconteça) e vou saber se X e Y estão alinhados quando Z acontecer” (Bernakevitch, J. na Platoforma Regrarians, 2017-18). Nesse sentido X e Y formam respectivamente nossa Declaração de Propósito (ou Missão) e a Declaração de Qualidade de Vida, Y nossos Comportamentos e Sistemas e Z nossos Indicadores Futuros.

O infográfico abaixo mostra todas as partes que formam um Contexto Holístico para tomada de decisão e gestão do Todo Sob Gerenciamento (Bernakevitch, J. 2017).

Nós chamamos esse Contexto Holístico de temporário porque provavelmente você irá alterá-lo e refiná-lo assim que começar a usá-lo para tomar decisões. Abaixo eu compartilho alguns Contextos Holísticos que foram desenvolvidos durante o curso de Agricultura Regenerativa ministrado por mim na Escola de Permacultura no ano passado (2018).

Esse primeiro exemplo foi desenvolvido pela Thais e pelo Guilherme, casal engajado que toca o Porakaa, um centro que, entre vários outros serviços, presta consultoria em comportamento animal, recuperação de áreas degradas e planejamento para produção agroecológica.

O Contexto Holístico abaixo foi desenvolvido pelo designer e produtor rural Wilson Torres, do Sítio Rincão e do Sagrado Verde. Antes de articular a Base de Recursos Futuros nesse formato em fluxograma, o Wilson versou sobre como ele se via com sua companheira no sítio em um futuro mais distante. O uso de uma linguagem bem pessoal, que realmente traduz quem você é e quais são seus valores mais profundos é muito importante na elaboração de um Contexto Holístico.

Por último eu gostaria de compartilhar o Contexto Holístico desenvolvido pelo José Alejandro, a quem carinhosamente chamamos de “Chepe”. Chepe é filho de produtores rurais convencionais mexicanos e estava no Brasil se aprimorando na permacultura, agrofloresta e agricultura regenerativa para transformar a produção convencional de tomates da família em uma policultura agroecológica financeiramente viável. Influenciado pelos movimentos indígenas e anarquistas que influenciaram o pensamento progressista no México, Chepe realmente tomou posse dos conceitos para elaborar seu Contexto Holístico.

Começando pelo inventário do todo, Chepe incluiu no Capital Vivo de seu contexto os seres humanos. Mas sua cosmovisão foi além e influenciou um Contexto Holístico belo, funcional e profundo. A imagem abaixo foi gerada à partir das notas de aula do Chepe enquanto desenvolvia seu Contexto. No centro temos a Declaração de Propósito -“Existimos para construir um futuro melhor!”(em preto). Em volta dela a Declaração de Qualidade de Vida centrada em 4 conceitos fundamentais para ele – “Somos Rebeldes, Somos Organizados, Somos Humanos e Somos uma Comunidade” (em azul). Em cada uma dessas 4 declarações Chepe desenvolveu ‘sub-declarações’ que se alinham com cada uma das áreas. Em verde Chepe desenvolveu os Comportamentos e Sistemas que garantirão a materialização e autenticidade das qualidades de vida determinadas. Embora essa versão ainda tenha alguns erros conceituais, ela mostra bem como devemos tomar posse dos conceitos e usar a linguagem que melhor traduza nossa alma e valores.

 


Na próxima parte abordarei as Perguntas Teste que no começo ou até que todo o procedimento seja automatizado mentalmente, serão usadas toda vez que precisarmos tomar decisões dentro do nosso Todo Sob Gerenciamento

Esses artigos sobre o Gerenciamento Holístico visam, além de divulgar essa abordagem regenerativa no Brasil, encontrar parceiros para uma turnê de cursos englobando a Tomada de Decisão Holística, a gestão holística financeira e o manejo holístico de pastagens. Caso você tenha interesse em hospedar um curso ou consultoria em sua propriedade, entre em contato conosco pelo email info_at_euricovianna.com.br .

A turnê está sendo produzida por mim (Eurico Vianna) e pelo Filipe Suleiman. Os cursos serão ministrados pelo produtor rural e educador em Gerenciamento Holístico com mais de 25 anos de experiência, Graeme Hand (com tradução minha).

Referências:

Nota: Compartilho desde esse primeiro artigo a bibliografia comentada que norteia toda a série.

Very Edible Gardens (VEG) – a VEG é uma empresa de consultoria e educação permacultural australiana que se tornou referência na área. Dan Palmer e Adam Grubb escrevem frequentemente sobre como melhorar o uso da Permacultura para projetar um futuro de escassez energética onde todos possam viver em abundância.

  • Bernakevitch, J.  (2017 – 2018) Módulo de Formulação de um Contexto Holístico para Tomada Decisão Holistica no REX® Online Farm Planning Program produzido pela plataforma Regrarians.

A Plataforma Regrarians foi criada por Darren J. Doherty integrando o Gerenciamento Holístico e outras modalidades de desenho ecológico à Escala de Permanência da Linha Chave; metodologia de planejamento de propriedades rurais criada pelo australiano P. A. Yeomans. A praticidade, profundidade e eficiência na restauração de áreas degradadas tem feito da Plataforma Regrarians uma das abordagens de planejamento de propriedades rurais que mais cresce no mundo hoje.

O Instituto de Gerenciamento Holístico do Canadá tem uma gama enorme de recursos para o ensino/aprendizagem dessa plataforma. O Instituto tem ajudado muitos produtores rurais no Canadá e fomentado muito o estudo a aplicação do Gerenciamento Holístico por meio de cursos e simpósios.

Liz e seu marido Pete criaram e tocam juntos uma fazenda de 258 acres com empreendimentos que variam do gado para corte e leite, galinhas caipiras para produção de ovos até produtos apiários. O site Eigth Acres foi criado para comercializarem seus produtos e compartilhar as ferramentas que tem usado com sucesso para gerenciar seus empreendimentos.

Alberto Miguel é o único consultor em Gerenciamento Holístico oficialmente credenciado no Brasil. Seu blog é uma fonte riquíssima de conteúdo no assunto.

  • Savory, A. e Butterfield, J. (1999). Holistic Management: a new framework for decision making. Island Press, CA-EUA.

O Manual do Gerenciamento Holístico escrito por Allan Savory e sua esposa Jody Butterfild é o livro que lança essa plataforma de tomada de decisão. Comumente em cursos, dada a quantidade enorme de informações compartilhada, esse livro vem acompanhado do livro ‘Manual Prático’ e de um fichário com instruções para exercícios e o aprendizado do Gerenciamento Holístico de Pastagens.

A Plataforma Regrarians foi criada por Darren Doherty, designer regenerativo que começou sua carreira na Permacultura como aluno do co-criador, Bill Mollison. Darren passou a usar o método de planejamento Linha Chave (Keyline), desenvolvido pelo Australiano P. A. Yeomans, com algumas alterações. O Planejamento de Linha Chave da forma como é ensinado por Darren e sua equipe dentro da plataforma Regrarians está se tornando rapidamente o método mais utilizado por designers para o planejamento de fazendas no mundo todo.

  • 8 Formas de Capital, escrito por Roland, E. e Landua, G. e traduzido por Colaborama. Acessado em 15/01/2018 em https://pt.prepareforchange.net/2016/04/14/as-8-formas-de-capital-uma-nova-forma-de-olhar-para-a-economia/

O conceito foi desenvolvido por Ethan Roland e Gregory Landua para facilitar o entendimento das várias relações econômicas nas quais nos envolvemos e fazemos parte. As 8 Formas de Capital enumeram “todos os diferentes recursos valiosos que um indivíduo ou entidade podem reunir ou trocar” e tem sido usados largamente em cursos de Permacultura para trazer a realização de que se nos falta um tipo de capital, nós provavelmente temos outros com os quais podemos contar para o desenvolvimento de nossos projetos.

 

Alimentos Transgênicos: O que você precisa saber e o que você pode fazer

O Dr. Zack Bush tem feito comparações entre a saúde do meio ambiente e a saúde humana. Ele argumenta que assim como um sistema de produção de alimentos saudável precisa de bactérias, fungos para as plantas possam ser saudáveis e nutritivas, nossa flora intestinal também precisa das bactérias e fungos para promover a saúde do corpo como um todo. Embasado em pesquisas científicas já publicadas em jornais especializados o Dr. Zack Bush vem liderando um movimento pela adoção da agricultura regenerativa nos Estados Unidos. Segundo ele o uso do glifosato tem relação direta com doenças como o câncer, mal de Parkinson, Alzheimer, autismo e intestino poroso. No artigo abaixo ele explica a correlação e compartilha o que pode ser feito para reverter esse quadro sombrio.

Nota do tradutor: O artigo que segue foi publicado originalmente em inglês na newsletter ZackBushMD.com e posteriormente no site do Instituto Rodale, portanto é uma publicação voltada para o público leigo, não científico. A versão em português é uma tradução livre feita por Eurico Vianna.

Todas as partes em negrito constam no artigo original. Eu acrescentei notas de rodapé para contextualizar ou explicar termos mais científicos. Também acrescentei comentários onde entendi que valia à pena contextualizar as diferenças no uso do glifosato no Brasil em comparação com outros países. 

Ao final do texto podem ser encontrados 3 artigos publicados em jornais especializados abordando os efeitos nocivos do glifosato para saúde humana. Os artigos foram publicados pelo Dr. Zack Bush e sua equipe de pesquisadores 


No decorrer dos anos eu tive muitas experiências com pacientes que me levaram a questionar a forma com a qual a medicina ocidental aborda doenças e tratamentos. Na maioria dos casos o objetivo se tornou gerenciar as doenças ao invés de criar as condições ideias para a saúde.

Meus questionamentos me levaram a descobrir estatísticas desconfortavelmente estarrecedoras. À partir dos anos 90 algo alarmante começou a acontecer nos Estados Unidos.

Doenças – no que pareciam órgãos completamente diferentes se tornaram epidêmicas quase simultaneamente.

  • A demência aumentou nas mulheres.
  • O Mal de Parkinson aumentou nos homens.
  • Doenças autoimunes atingiram níveis nunca vistos.
  • Hoje uma em cada duas pessoas serão diagnosticadas com câncer antes de morrer.
  • Uma em cada 36 crianças são diagnosticadas com Autismo comparado com uma em cada 5.000 nos anos 1970

Por que tantas doenças, em partes tão distintas do corpo, estão aumentando em ritmo tão acelerado? Qual a relação entre elas?

A inflamação crônica é o fator que conecta tudo.

E a inflamação crônica é a raiz de todas as doenças.

Por definição inflamação é, na verdade, uma resposta biológica normal a uma lesão. É a reação do corpo a um dano causado ao tecido ou célula por um patógeno nocivo ou outro estímulo qualquer.

Nosso intestino tem uma membrana muito fina que protege suas células de compostos e bactérias que causam inflamação.

Se essa membrana se torna permeável nosso sistema imunológico inteiro sente os efeitos e nós entramos em um processo inflamatório.

Nós sabemos que nossa dieta certamente tem um papel na saúde intestinal, mas infelizmente nós não podemos simplesmente abandonar os doces, começar a comer verduras e legumes e esperar que nossa saúde dê uma reviravolta completa. Isso pode ajudar, mas como eu descobri, isso é só uma peça do quebra-cabeças.

Eu tenho me concentrado em saúde holística e alimentos ricos em nutrientes para curar doenças por anos na Clínica M. Mas inicialmente as estatísticas não foram tão boas quanto eu esperava.

Cerca de 30% dos meus pacientes tiveram uma virada de cura completa e miraculosa depois de adotar mudanças alimentares. Outros 30% dos meus pacientes tiveram alguma melhora. Mas surpreendentemente 40% deles não teve melhora alguma ou pioraram depois de implementar planos com foco na saúde.

Então eu perguntei: “Se a causa das doenças é a inflamação, o que está levando nosso intestino a ser tão afetado e os nossos corpos a ficar tão inflamados? Se o problema não é reduzir o açúcar e comer mais legumes e verduras, então qual é?!”.

Para responder essa pergunta nós precisamos primeiro entender parte da história da origem de nossos alimentos e das áreas de produção rural em nossos países.

Depois da Segunda Guerra Mundial os Estados Unidos acabaram com um excesso de petróleo para os quais eles não tinham uso mais. Eles descobriram que petróleo podia ser usado como fertilizante químico e passaram a comercializá-lo como tal.

Pela primeira vez na história produtores rurais ignoraram boas práticas agriculturais desenvolvidas pela sabedoria ancestral. Eles pararam de descansar o solo e pararam de praticar a rotação de plantios. Eles esqueceram das duras lições das Tempestades de Areia dos anos 1930.

Produtores rurais se convenceram que adubar o plantio com fertilizantes químicos economizava tempo, aumentava a produtividade e produzia plantas mais saudáveis e verdes.

As plantas ficaram mais verdes, mas não ficaram mais saudáveis. Elas estavam agora fracas e deficientes de nutrientes fundamentais. De fato, um tomate produzido hoje não tem quase nenhum licopeno[1] se comparado com um produzido em 1950.

Plantas fracas são mais suscetíveis a doenças e pragas então a solução passou a ser usar mais químicos, dessa vez na forma de pesticidas (que em essência são antibióticos) para o solo e ignorar que bem abaixo da superfície a biologia entrava em colapso.

Era, e ainda é, uma versão ambiental da maneira exata com a qual tratamos doenças em humanos hoje em dia.

O pesticida comercial mais amplamente usado é herbicida à base de glifosato chamado Roundup. Hoje o uso do Roundup é tão excessivo que, de maneira geral, se tornou impossível evitar seus efeitos. De fato, 99.99% do Roundup usado nunca atinge uma erva daninha, ao invés disso, mais que tudo, ele encontrado no escoamento e acaba contaminando a água que bebemos e o ar que respiramos. No sul dos Estados Unidos 75% do ar e da chuva estão contaminados com glifosato.

Nota do tradutor: A exposição da população brasileira aos agrotóxicos é gravíssima. Segundo Alan Tygel, da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, o brasileiro médio consome 5.2 litros de veneno por ano em sua comida. O agronegócio no Brasil faz uso de 504 agrotóxicos, dos quais 30% são proibidos na União Européia. Desde 2008 o Brasil é pais que mais usa agrotóxicos no mundo. O uso do glifosato no Brasil varia entre 5 e 9 kg por hectare, enquanto na União Europeia é limitado a 2kg por hectare.

Enquanto na União Europeia a quantidade máxima do herbicida glifosato que pode ser encontrada na água é de 0,1 miligramas por litro, o Brasil permite 5 mil vezes mais.

O livro Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Européia, escrito por Larissa Bombardi e publicado em 2017, revela que 8 brasileiros são contaminados por dia, segundo dados oficiais conservadores. Uma pesquisa da Fiocruz, no entanto, estima que para cada caso notificado, 50 casos não são notificados. Isso implica que entre 2007 e 2014, mais de um milhão de brasileiros foram intoxicados por agrotóxicos.

Mas a situação é ainda mais grave. Nos Estados Unidos começam a surgir pesquisas comprovando a correlação do aumento de doenças com o uso de glifosato nas lavouras. Entre as doenças causadas pelo glifosato estão o cancer, Mal de Parkinson, Alzheimer, autismo, doença celíaca, intestino poroso, inflamações crônicas, etc. Enquanto isso no Brasil, desde 2015 o governo deixou de publicar os casos de intoxicação por agrotóxicos, o que dificulta estudar os casos de intoxicação direta ou indireta por esses agentes químicos.

Mesmo antes de dar uma mordida no alimento você está sendo agredido com um antibiótico toda vez que inspira.

Então como, mais especificamente, esse agente químico prolífico afeta nossa saúde? Agentes químicos à base de glifosato aumentam a permeabilidade da membrana intestinal. Isso significa que os efeitos colaterais do Roundup são lesões diretas à própria estrutura de proteínas que mantém nosso intestino inteiro como órgão. E todas as macro-membranas no seu corpo são mantidas estruturalmente pelas mesmas tight junctions (estruturas formadas por proteínas que mantém a integridade física e funcional das membranas celulares) que o intestino tem.

Nosso ambiente nos transformou em peneiras furadas e os mesmo vasos sanguíneos em nosso corpo que supostamente deveriam carregar as respostas imunológicas ou buscar nutrientes também estão vazando e afetando a Barreira Hematoencefálica[2] (BHE) levando a uma abundância de desordens neurológicas como Mal de Parkinson, Alzheimer e Autismo.

Quando respiramos, bebemos, comemos ou tomamos chuva, nós estamos sendo sujeitos a antibióticos que estão matando as bactérias saudáveis que precisamos para prosperar. A capacidade natural que temos de curar a nós mesmos está sendo arrancada porque nosso bioma foi obliterado pelo glifosato.

Nós criamos uma guerra tanto no nosso meio ambiente externo como no interno. Então como concertamos essa realidade sombria? Por onde começamos?

Uma notícia boa é que a Monsanto (a multinacional que distribui o Roundup) deixou vazar uma estatística encorajadora. Se 16% da comida consumida nos Estados Unidos fosse orgânica a indústria de fertilizantes químicos perderia sua estabilidade financeira.

Apenas 16%. A verdade é que se parássemos de usar o Roundup amanhã, ainda levaria 50 anos para que os níveis tóxicos baixassem. Mas existem bactérias e fungos no solo que conseguem digerir o glifosato. Nosso planeta, assim como nossos corpos, tem uma capacidade natural que curar a si mesmo. Se nós permitirmos.

Nós precisamos começar a fazer as coisas de um modo diferente.

Seguindo as taxas atuais de declínio da saúde, no ano de 2035, uma em cada 3 crianças serão diagnosticadas com autismo. Apenas essa estatística já é suficiente para enviar o país para um colapso financeiro. Uma mudança precisa acontecer e pode acontecer.

Nós os consumidores somos a solução.

Então quais são as medidas que eu recomendo que tomemos para ajudar a mudar as coisas para nossa própria saúde e para o futuro da sociedade?

Mudanças de Macro Ecossistemas

Respire em tantos ambientes diferentes quanto seja possível. Isso significa sair de casa. Deixar seu gramado imaculado. Subir uma montanha. Sentar ao lado de uma cachoeira. Ler debaixo de uma árvore musguenta. Vá ao um pântano. Entre em tantos ecossistemas quanto seja possível para você e simplesmente respire eles por algumas horas. Mudar seu ambiente é uma das maneiras mais simples de repovoar seu micro-bioma (a rejuvenescer a sua saúde mental).

Coma comidas fermentadas

Antes do advento da refrigeração nós usávamos a fermentação como método de preservação de alimentos. Como nós perdemos esse necessidade, nós também perdemos seus benefícios. Alimentos fermentados contém bactérias que reforçam o sistema imunológico e você só precisa comer algumas garfadas de chucrute caseiro para obter a dose diária necessária.

Compre alimentos orgânicos

Essa medida é para melhorar sua saúde, é claro, mas é também para melhorar nosso futuro. Lembre-se: se apenas 16% da população consumir alimentos orgânicos a Monsanto faliria. Alimentos orgânicos geralmente são mais caros, mas se todos nós encontrássemos maneiras de nos sacrificar agora, o preço dos alimentos naturais baixaria dramaticamente assim que os pesticidas químicos parassem de ser usados.

Compartilhe essa mensagem

Faça com que as pessoas comecem a pensar e conversar sobre esses assuntos e os vários equívocos que o cercam. Assista a última entrevista feita com Rich Roll (em inglês) e compartilhe com amigos, família e produtores rurais na sua área.

Nota do tradutor: No Brasil, para os que não dominam o idioma inglês, vale compartilhar essa tradução, o artigo assim como o artigo O agro esconde, o agro mente, o agro mata, assim como o livro Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Européia (2017), escrito por Larissa Bombardi.

A esperança humana é contagiosa e, se apenas alguns de nós nos tornarmos mais conscientes de nós mesmos, de nosso ambiente e de nossas comunidades, isso causa uma reação em cadeia.

A mudança pode acontecer rápido. E precisa ser assim. Faça o que você pode, onde você pode e com o que você tiver.

O Dr. Zach Bush, é um dos poucos médicos estadunidenses especializado em 3 áreas: medicina interna, endocrinologia e metabolismo e internação e cuidados paliativos. Aprenda mais sobre o trabalho inovativo do Dr. Zack Bush nos sites:  ZachBushMD.com, IntrinsicHealthSeries.com, e FarmersFootprint.us.


Publicações científicas sobre os efeitos nocivos do glifosato para saúde humana (em inglês):

 – Gildea J, Roberts D, Bush ZM (as Senior/corresponding author). Protective Effects of Lignite Extract Supplement on Intestinal Barrier Function in Glyphosate-mediated Tight Junction Injury. [Self-Funded Original Research] (Under Review – BioMed Central – Public Health).

– Gildea J, Roberts D, Bush ZM (as Senior/corresponding author). Gliadin and glyphosate independently, and in combination, induce tight junction injury, and epithelial membrane leak in small bowel and colon epithelial membrane. [Self-Funded Original Research] (Under Review J Gastroenterology).

– Gildea J, Roberts D, Bush ZM (as Senior/corresponding author). Protection against Gluten-mediated Tight Junction Injury with a Novel Lignite Extract Supplement. [Self-Funded Original Research] J Nutr Food Sci 2016, 6:5

O currículo do Dr. Zack Bush, assim como uma lista mais completa de seu trabalho e pesquisa podem ser encontradas em inglês nesse link.


Notas de rodapé:

[1]Licopeno uma substância carotenoide que dá a cor avermelhada ao tomate, melancia, goiaba, entre outros alimentos. É um antioxidante que, quando absorvido pelo organismo, ajuda a impedir e reparar os danos às células causados pelos radicais livres.

[2]A Barreira hematoencefálica (BHE) é uma estrutura de permeabilidade altamente seletiva que protege o Sistema Nervoso Central (SNC) de substâncias potencialmente neurotóxicas presentes no sangue e sendo essencial para a função metabólica normal do cérebro. É composta de células endoteliais estreitamente unidas, astrócitos, pericitos e diversas proteinas.

Gerenciamento Holístico: Parte 2 – O Contexto Holístico

A definição de um Contexto Holístico para a vida pessoal ou empreendimento torna possível tomar decisões que beneficiam todas as áreas e pessoas dentro do Todo definido. Dessa forma o Gerenciamento Holístico nos ensina a definir e refinar as prioridades do Todo Sob Gerenciamento. Nos ajuda encontrar problemas ou bloqueios dentro de nossos projetos ou empreendimentos. Por fim, melhora os pontos fracos e cria um sistema de avaliação que melhora o monitoramento e promove o sucesso.

O artigo anterior abordou como definir o Todo Sob Gerenciamento. Esse artigo começa a compartilhar os passos necessários para definirmos o Contexto Holístico que vai reger a desde a Tomada de Decisão até o Manejo Holístico de Pastagens, passando também pelas questões de segurança ecológica e de viabilidade econômica de nosso Todo ou projeto.

 

Nota: Esse material foi preparado primeiramente para guiar o trabalho que fazemos na Fazenda Bella. Posteriormente, depois de participar de cursos de Gerenciamento Holístico na Austrália e de reutilizar o mesmo material para outros empreendimentos e consultorias, surgiu a ideia de aprimorá-lo para compartilhar com outras pessoas no Brasil. Grande parte desse material, entretanto, é formado por compilações e traduções de outras fontes (originalmente publicadas em inglês). Uma parte menor foi de fato desenvolvida por mim. Apresento todas as fontes usadas na lista de referências ao final do texto.

Eurico Vianna, PhD. Lennox Head, Austrália, Janeiro de 2018.

As pessoas que se propõem a empreender na agricultura regenerativa enfrentam diversos desafios políticos, econômicos e culturais. Dentre as dificuldades causadas por paradigmas culturais podemos citar os 3 mais recorrentes: o complexo de herói, as tendências cognitivas (também conhecidas como tendências de confirmação) e o hábito de colocar os objetivos acima da qualidade de vida (Regrarians, 2017).

  • O complexo de herói, vem da certeza que temos de que é necessário tornar o agronegócio e a sociedade de consumo obsoletos antes que juntos destruam todo o planeta e com ele os seres humanos. A consciência da urgência, então, nos faz sacrificar muitas coisas em prol dessa missão tão digna e necessária.
  • As tendências de confirmação fazem com que tentemos buscar informações que confirmem nossas crenças e descartemos evidências que confirmem conclusões contrárias ou diferentes. Em suma fazem com que ao invés de buscarmos evidências para depois formarmos uma opinião, nós busquemos as evidências que confirmem opiniões formadas à priori.
  • O hábito de colocar os objetivos acima da qualidade de vida é fruto de um dualismo reducionista do modelo de civilização ocidental. Em uma sociedade cada vez mais competitiva e materialista o que conquistamos se tornou mais importante do que como vivemos e isso traz muitas consequências negativas inesperadas.

Em sua genealogia o Gerenciamento Holístico se baseia primordialmente em 4 insights, o primeiro deles sendo o mais importante para a etapa de elaboração de um Contexto Holístico para tomada de decisão (Savory, A. e Butterfield, J. 2000):

1 – Uma perspectiva holística é essencial no gerenciamento. Se baseamos decisões de gestão em qualquer outra perspectiva, nós provavelmente teremos resultados diferentes dos planejados porque só o todo é real.

2 – Os ecossistemas podem ser classificados dentro de um contínuo que vai de não friável até muito friável de acordo com o quão bem a humidade é distribuída e a velocidade que a vegetação morta se decompõe. Nos extremos dessa escala os ecossistemas respondem de maneira diferente a influencias iguais. O descanso, por exemplo, restaura a paisagem em ecossistemas não friáveis, mas causa danos nas paisagens muito friáveis.

3 – Nos ecossistemas friáveis um número relativamente alto de grandes herbívoros em manada, mantidos concentrados e em constante movimento como esses animais se comportam naturalmente na presença de predadores que caçam em grupo, é vital para se manter a saúde das paisagens que pensávamos que eles destruíam.

4 – Em qualquer ecossistema o sobrepastoreio e a compactação pelo pisoteamento praticamente não tem relação com o número de animais. Ao contrário, tem relação com a quantidade de tempo que as plantas e o solo são expostos aos animais.

Savory, A. e Butterfield, J. (2000). Holistic Management: A New Framework for Decision Making. Island Press. EUA. (Tradução livre Eurico Vianna)

Como a natureza opera em todos, o primeiro passo para a tomada de decisão holística é definer um Contexto Holístico. O Contexto Holístico, por sua vez, é formado o por 4 partes: A Declaração de Propósito, a Declaração de Qualidade de Vida, as Formas de Produção e a Futura Base de Recursos. Quando essas partes são articuladas em um conjunto coerente elas formam uma base sólida com um sistema de feedback inerente que nos permite avaliar constantemente se estamos ou não no caminho certo.

A Declaração de Propósito

A Declaração de Propósito deve ser o mais simples e curta possível, mas deve descrever o porquê da existência do seu ‘todo sob gerenciamento’ (sua vida e/ou profissão ou empreendimento). Quando lida, essa declaração deve te lembrar o que te motiva a gerenciar esse ‘todo’. Em outras palavras, sua declaração é a razão ou o “por quê?” o seu Todo existe.

Javan Bernakovitch desenvolveu uma diferenciação desse conceito. Ele trabalha a Declaração de Propósito Destino, sua razão de ser maior, com a Declaração Diária de Propósito, que foca na fraqueza atual do seu Todo (Regrarians, 2017). Particularmente, eu me identifico com essa abordagem pela sua praticidade e funcionalidade e passei a adotar as duas declarações em conjunto.

A elaboração da Declaração de Propósito não deve tomar mais que 20 minutos. Ela também não precisa ser concatenada em um parágrafo coerente. Usar frases soltas é válido nesse estágio. No entanto, essas frases precisam ser escritas no presente (como se já fossem realidade) e devem te inspirar e motivar a tocar seus projetos. A declaração deve cobrir as seguintes áreas da sua vida, projeto ou empreendimento:

  • Bem estar econômico;
  • Relacionamentos;
  • Crescimento e desafio;
  • Propósito e contribuição

Com o uso constante e reavaliação do Contexto Holístico é possível chegarmos a uma declaração mais concisa que ainda cubra todas as áreas necessárias.  Mas inicialmente o foco deve ser em cobrir as 4 áreas citadas acima.

O exemplo de Declaração de Propósito abaixo é de uma empresa que presta serviços de design permacultural na Austrália (Very Edible Gardens – VEG):

A VEG existe para apoiar o desenvolvimento de comunidades, paisagens e estilos de vida saudáveis e abundantes usando por meio do design e da criação de ecossistemas regenerativos que proveem para a vida humana.

A Declaração de Propósito da Fazenda Oito Acres na Austrália é um exemplo simples, porém completo. Ela segue assim:

Nossa função é produzir comida suficiente para nós mesmos e excedente para compartilhar localmente, é desenvolver conhecimento e habilidades para que possamos usar e compartilhar o máximo possível, é prover lucro o suficiente para que não precisemos trabalhar fora da fazenda, é nutrir nossa criatividade, nosso prazer de trabalhar juntos e prazer de estar na natureza.

A Declaração de Qualidade de Vida

A Declaração da Qualidade de Vida é composta por todas as coisas que os tomadores de decisão querem que seja verdade sobre o ‘todo’ que eles gerenciam. Nas palavras de Allan Savory,

A parte da Qualidade de Vida que compõe seu Contexto Holístico expressa as razões pelas quais você faz o que faz, o que você é e no que você quer se transformar. É um reflexo do que melhor te motiva. Essa declaração deve te inspirar. Ela fala de necessidades que você quer satisfazer agora, mas também da missão que você procura cumprir a longo prazo. É o seu senso coletivo do que é importante com suas razões (Holistic Management, p. 71).

Isso é importante porque “os seres humanos vão sempre influenciar qualquer decisão que tomem – mesmo em experimentos controlados rigorosamente – na direção do que eles realmente querem (p.272). A Declaração de Qualidade de Vida da VEG segue assim:

  • Nós somos profissionais, organizados e calmos,
  • Nós temos uma cultura em nosso negócio que é baseada em respeito mútuo, comunicação aberta e complementaridade de diversidade,
  • Nós criamos modos de vida (empregos ou negócios) que são significativos e gratificantes,
  • Nós temos um lucro razoável e a VEG tem um fluxo de caixa saudável,
  • Nós oferecemos uma relação custo-benefício genuína para os nossos clientes,
  • Nós aprendemos e contribuímos constantemente para um entendimento mais amplo da Permacultura,
  • Nós conduzimos o nosso negócio de maneira ética, íntegra e genuína,
  • Nós somos resilientes e nos adaptamos de forma consciente a um futuro de escassez energética.

Já a Declaração de Qualidade de Vida da Fazenda Oito Acres é bem mais sucinta:

  • Nós não temos dívida,
  • Trabalhamos muito pouco fora da fazenda,
  • Temos relacionamentos positivos com vizinhos e a comunidade mais ampla,
  • Nosso trabalho, embora técnico e desafiador, é prazeroso.

Um exemplo de uma Declaração de Qualidade de Vida pessoal (em desenvolvimento) poderia ser algo assim:

  • Sou financeiramente independente e próspero,
  • Eu vivo uma vida feliz e saudável gozando de bom preparo físico,
  • Minha vida em família é prazerosa, harmoniosa e repleta de amor,
  • Tenho laços fortes de amizade em minha comunidade e sou sempre bem amparado pelos meus amigos,
  • Meus projetos profissionais são desafios prazerosos que trazem crescimento constante,
  • Meu exemplo de vida inspira minha família, amigos e comunidade a viverem de maneira harmoniosa, economicamente próspera, socialmente justa e ecologicamente regenerativa.

Outra dica importante dada por Dan Palmer da VEG é priorizar o uso de verbos ao invés de substantivos quando escrevemos nossa Declaração de Propósito. Por exemplo, ao invés de escrever ‘Eu mantenho relacionamentos saudáveis que são respeitosos e íntegros com meus clientes’, seria melhor escrever, ‘Eu me relaciono de maneira respeitosa e integra com meus clientes’. O uso dos verbos, explica Dan, resumem melhor a intenção e são quase sempre melhor fundamentados e diretos ao ponto.

Nesse momento inicial da elaboração do Contexto Holístico mais vale ter algo escrito na direção certa e que pode ser aprimorado com o uso e experiência do que ficar bloqueado tentando escrever declarações perfeitas.

De novo Dan Palmer da VEG dá conselhos e usa técnicas importantes para ajudar no processo. Ele faz as seguintes perguntas aos seus clientes para que eles desenvolvam boas Declarações de Qualidade de Vida:

  • O que você quer que seja verdade sobre o seu envolvimento com _______________ (nome do ‘todo’ sendo gerenciado)? O que você quer desse envolvimento e o que você pode oferecer?
  • Descreva como será o/a  ______________ daqui há 10 anos? O que está acontecendo e como isso faz você se sentir?
  • O que você acha que poderia impedir a/o ____________ de atingir seu maior potencial?

Depois de respondidas essas questões, elas podem ser passadas à limpo em melhores Declarações de Qualidade de Vida. Mas o processo é de aprimoramento constante por meio do uso dessas ferramentas em nossos processos de tomada de decisão.

Na próxima parte abordarei as Formas de Produção (ou Sistemas e Comportamentos) e a Futura Base de Recursos com modelos de Contexto Holístico desenvolvidos durante o curso de Agricultura Regenerativa na Escola de Permacultura

Esses artigos sobre o Gerenciamento Holístico visam, além de divulgar essa abordagem regenerativa no Brasil, encontrar parceiros para uma turnê de cursos englobando a Tomada de Decisão Holística, a gestão holística financeira e o manejo holístico de pastagens. Caso você tenha interesse em hospedar um curso ou consultoria em sua propriedade, entre em contato conosco pelo email info_at_euricovianna.com.br .

A turnê está sendo produzida por mim (Eurico Vianna) e pelo Filipe Suleiman. Os cursos serão ministrados pelo produtor rural e educador em Gerenciamento Holístico com mais de 25 anos de experiência, Graeme Hand (com tradução minha).

Referências:

Nota: Compartilho desde esse primeiro artigo a bibliografia comentada que norteia toda a série.

Very Edible Gardens (VEG) – a VEG é uma empresa de consultoria e educação permacultural australiana que se tornou referência na área. Dan Palmer e Adam Grubb escrevem frequentemente sobre como melhorar o uso da Permacultura para projetar um futuro de escassez energética onde todos possam viver em abundância.

  • Bernakevitch, J.  (2017 – 2018) Módulo de Formulação de um Contexto Holístico para Tomada Decisão Holistica no REX® Online Farm Planning Program produzido pela plataforma Regrarians.

A Plataforma Regrarians foi criada por Darren J. Doherty integrando o Gerenciamento Holístico e outras modalidades de desenho ecológico à Escala de Permanência da Linha Chave; metodologia de planejamento de propriedades rurais criada pelo australiano P. A. Yeomans. A praticidade, profundidade e eficiência na restauração de áreas degradadas tem feito da Plataforma Regrarians uma das abordagens de planejamento de propriedades rurais que mais cresce no mundo hoje.

O Instituto de Gerenciamento Holístico do Canadá tem uma gama enorme de recursos para o ensino/aprendizagem dessa plataforma. O Instituto tem ajudado muitos produtores rurais no Canadá e fomentado muito o estudo a aplicação do Gerenciamento Holístico por meio de cursos e simpósios.

Liz e seu marido Pete criaram e tocam juntos uma fazenda de 258 acres com empreendimentos que variam do gado para corte e leite, galinhas caipiras para produção de ovos até produtos apiários. O site Eigth Acres foi criado para comercializarem seus produtos e compartilhar as ferramentas que tem usado com sucesso para gerenciar seus empreendimentos.

Alberto Miguel é o único consultor em Gerenciamento Holístico oficialmente credenciado no Brasil. Seu blog é uma fonte riquíssima de conteúdo no assunto.

  • Savory, A. e Butterfield, J. (1999). Holistic Management: a new framework for decision making. Island Press, CA-EUA.

O Manual do Gerenciamento Holístico escrito por Allan Savory e sua esposa Jody Butterfild é o livro que lança essa plataforma de tomada de decisão. Comumente em cursos, dada a quantidade enorme de informações compartilhada, esse livro vem acompanhado do livro ‘Manual Prático’ e de um fichário com instruções para exercícios e o aprendizado do Gerenciamento Holístico de Pastagens.

A Plataforma Regrarians foi criada por Darren Doherty, designer regenerativo que começou sua carreira na Permacultura como aluno do co-criador, Bill Mollison. Darren passou a usar o método de planejamento Linha Chave (Keyline), desenvolvido pelo Australiano P. A. Yeomans, com algumas alterações. O Planejamento de Linha Chave da forma como é ensinado por Darren e sua equipe dentro da plataforma Regrarians está se tornando rapidamente o método mais utilizado por designers para o planejamento de fazendas no mundo todo.

  • 8 Formas de Capital, escrito por Roland, E. e Landua, G. e traduzido por Colaborama. Acessado em 15/01/2018 em https://pt.prepareforchange.net/2016/04/14/as-8-formas-de-capital-uma-nova-forma-de-olhar-para-a-economia/

O conceito foi desenvolvido por Ethan Roland e Gregory Landua para facilitar o entendimento das várias relações econômicas nas quais nos envolvemos e fazemos parte. As 8 Formas de Capital enumeram “todos os diferentes recursos valiosos que um indivíduo ou entidade podem reunir ou trocar” e tem sido usados largamente em cursos de Permacultura para trazer a realização de que se nos falta um tipo de capital, nós provavelmente temos outros com os quais podemos contar para o desenvolvimento de nossos projetos.

 

Gerenciamento Holístico: Parte 1 Definindo e inventariando o Todo Sob Gerenciamento

O Gerenciamento Holístico é uma ferramenta de gestão criada por Allan Savory, um produtor rural e doutor em ecologia do Zimbabue, para que produtores rurais pudessem ser produtivos sem que isso comprometesse a qualidade de vida e a saúde ecológica de suas propriedades. Essa abordagem traz contribuições importantes para a alfabetização ecológica daqueles que se propõem a trabalhar dentro do paradigma da agricultura regenerativa. Nos próximos meses eu vou compartilhar mais artigos com intuito de promover essa abordagem no Brasil.

Resumidamente, o Gerenciamento Holístico é formado por 4 módulos: Tomada de Decisão Holística, Gerenciamento Holístico Financeiro, Manejo Holístico de Pastagens e planejamento de propriedades rurais. Nessa primeira etapa, vou compartilhar insights, experiências e conteúdo sobre a Tomada de Decisão Holística, módulo que tem me ajudado muito a melhorar minha eficiência de trabalho e qualidade de vida ao mesmo tempo. Esse módulo foi desenvolvido para que produtores rurais pudessem tomar decisões complexas englobando a saúde ecológica e financeira da propriedade ou empreendimento sem deixar de fora a qualidade de vida das pessoas envolvidas.

Os artigos seguintes descrevem o ‘passo-à-passo’ para a construção de um Contexto Holístico, que é o que rege a Tomada de Decisão Holística.

 

Nota: Esse material foi preparado primeiramente para guiar o trabalho que fazemos na Fazenda Bella. Posteriormente, depois de participar de cursos de Gerenciamento Holístico na Austrália e de reutilizar o mesmo material para outros empreendimentos e consultorias, surgiu a ideia de aprimorá-lo para compartilhar com outras pessoas no Brasil. Grande parte desse material, entretanto, é formado por compilações e traduções de outras fontes (originalmente publicadas em inglês). Uma parte menor foi de fato desenvolvida por mim. Apresento todas as fontes usadas na lista de referências ao final do texto.

Eurico Vianna, PhD. Lennox Head, Austrália, Janeiro de 2018.

 

A criação de um Contexto Holístico que guie nossas decisões e ações dentro dos projetos, organizações ou empreendimentos que tocamos forma uma base sólida para que nossas decisões possam, de fato, ser financeiramente viáveis, ambientalmente regenerativas e socialmente justas. O Contexto Holístico é uma ferramenta muito poderosa que nos permite inverter a maneira como traçamos e executamos nossas metas. Ou seja, com nosso Contexto Holístico formado, ao invés de estabelecermos uma meta e adaptarmos ou sacrificarmos nosso estilo de vida para atingi-la, nós estabelecemos a qualidade de vida que queremos e trabalhamos para que nossas metas possam apoiá-las.

Mas antes de articularmos nosso Contexto Holístico nós precisamos definir o campo ou o ‘todo’ dentro do qual vamos atuar.

O Todo Sob Gerenciamento

Para definirmos ‘o todo sob gerenciamento’, primeiramente precisamos definir quem são as pessoas que tomam as decisões nesse ‘todo’. As pessoas que tomam as decisões, comumente são as pessoas que tem poder de vetar (ou pelo menos afetar drasticamente) as decisões ou projetos em um ‘todo’ sendo gerenciado. Um exemplo claro é uma pequena empresa onde os donos são claramente os tomadores de decisão, mas devido à influência e autonomia de uma funcionária (digamos um gerente geral), seria interessante que ela fosse incluída como parte dos Tomadores de Decisão (Decision Makers).

Embora não tenha sido muito comum nos primeiros anos em que o Gerenciamento Holístico começou a ser difundido, um número cada vez maior de pessoas tem achado válido criar um Contexto Holístico para suas próprias vidas. Nesse caso só existe um Tomador de Decisão e ‘o todo sob gerenciamento’ é a vida pessoal e profissional da pessoa em questão. Desenvolver um Contexto Holístico também tem se popularizado para gerir relacionamentos ou empreendimentos que não são diretamente ligados com propriedades rurais. Nesse caso os Tomadores de Decisão são as pessoas envolvidas no relacionamento ou empreendimento.

Os Tomadores de Decisão

Pare por um momento e pense quem são os Tomadores de Decisão no ‘todo sob gerenciamento’ que que você está gerindo. Existem 3 tipo de Tomadores de Decisão: os Primários fazem parte da gestão e decisão diárias e tem poder de veto; os Secundários, que tem influência nos Primários ou Todo; e os Terciários, que podem ser levados em consideração.

A Base de Recursos e as Oito Formas de Capital:

Nessa etapa inicial do exercício de elaboração do Contexto Holístico que apoiará nossos processos de tomada de decisão nós precisamos fazer um inventário dos nossos recursos. Frequentemente nós ignoramos recursos importantes que já possuímos ou que estão à nossa disposição por conta da maneira que fomos treinados a pensar. Por essa razão essa etapa do exercício é muito importante. Ela pode ser verdadeiramente libertadora em termos de criatividade e recursos alternativos para começarmos nossos projetos ou empreendimentos.

Dentro do Gerenciamento Holístico ‘clássico’ consideramos 3 categorias mais amplas de recursos: Os recursos Humanos, os de Conhecimento e os Físicos ou Materiais.

Os recursos Humanos são todas aquelas pessoas com as quais podemos contar em maior ou menor grau, direta ou indiretamente para realizar as funções do nosso ‘todo sob gerenciamento’. São elas: parentes, amigos, clientes (passados e presentes), pessoas em nossa Rede Contato profissional ou em uma Comunidade de Prática (grupos online ou presenciais que se reúnem para trocar idéias e informações para aprimorar uma prática que têm em comum).

Os recursos De Conhecimento são todas as nossas qualificações acadêmicas, treinamentos técnicos/vocacionais (serralheria, carpintaria, mecânica, etc.) e aptidões (predisposição para determinadas áreas do conhecimento, das artes, tipos específicos de trabalho, etc.).

Já os Recursos Físicos ou materiais são os bens que possuímos ou temos acesso facilitado. Por exemplo um carro, trator, computador, ferramentas, etc. Muitas vezes, é melhor até que não seja necessário possuir um bem que tenha o valor elevado e que não vá ser usado frequentemente.

Dinheiro

No Gerenciamento Holístico entendemos por Dinheiro toda forma de recursos financeiros dos quais podemos dispor para realizar as tarefas, projetos ou funções do nosso ‘todo sob gerenciamento’. Empréstimos pessoais ou por meio de instituições, com ou sem juros, fazem parte dessa categoria. Quais são os recursos financeiros disponíveis para o seu ‘todo’?

As Oito Formas de Capital

Esse conceito foi desenvolvido por Ethan Roland e Gregory Landua para facilitar o entendimento das várias relações econômicas nas quais nos envolvemos e fazemos parte. O primeiro artigo foi publicado em 2011 e desde então o conceito foi expandido pelos autores em formato de um livro. Para muitas pessoas as 8 Formas de Capital são uma forma mais precisa de fazermos um inventário do que está disponível para o nosso Todo Sob Gerenciamento. Essa forma difere do Gerenciamento Holístico clássico e foi introduzida no curso de planejamento de fazendas da Plataforma Regrarians (2017) por Javan Bernakovitch. Pela precisão e escopo do inventário e capacidade de pensamento lateral que traz, eu prefiro trabalhar com essa abordagem quando faço inventário ou facilito cursos e consultorias.

As 8 Formas de Capital enumeram “todos os diferentes recursos valiosos que um indivíduo ou entidade podem reunir ou trocar” (2011). O que segue abaixo é uma lista das formas de capital acompanhada por uma breve explicação de cada um deles.

O Capital Espiritual é ligado com nossos mitos de origem (religiosos ou não), com as formas de ligação com nosso ser interior ou de autoconhecimento. “Muitas das religiões do mundo incluem um conceito do “grande encadeamento do ser”, uma compreensão hierárquica da existência, onde a realização espiritual (neste contexto, a acumulação de capital espiritual) leva a diferentes níveis de estar” (2011) e por consequência de agir no mundo. O karma Budista, é um exemplo de Capital Espiritual que se pode se ‘acumular’ ou ‘dever’. Você tem crenças ou práticas que podem ser interpretadas como Capital Espiritual?

O Capital Social é formado pela rede de contatos, amigos e familiares que uma pessoa tem e que pode ser usada para influenciar decisões, pedir favores e articular ações e movimentos na comunidade. O Capital Social pode ser acumulado, ou seja, você pode ter vários favores para pedir dentro de sua rede pelas boas ações que já praticou. Por outro lado, você pode ‘dever’ favores a outras pessoas.

O Capital Intelectual é um ‘bem’ em forma de conhecimento. A educação formal em todos os países foca na transmissão do Capital Intelectual. “Ter o capital intelectual é apontado como a melhor forma de ser bem-sucedido. … Por exemplo, ‘ir para a universidade’ é essencialmente uma troca de capital financeiro por capital intelectual”. A educação formal, ou o Capital Financeiro é supostamente a melhor maneira de preparar as pessoas para o resto de suas vidas no mundo. Quais são as qualificações formais que estão disponíveis como Capital Financeiro para o Todo Sob Gerenciamento?

O Capital Material é formado pelos objetos físicos não-vivos. “Os recursos brutos e processados como pedra, metal, madeira e os combustíveis fósseis são combinados uns com os outros para criar materiais ou estruturas mais sofisticadas. Edifícios modernos, pontes e outras peças de infraestrutura, juntamente com ferramentas, computadores e outras tecnologias são formas combinadas de capital material.” (2011).

O Capital Financeiro pode ser representado pelo dinheiro, moedas, títulos e outros instrumentos do sistema financeiro global.  O Capital Financeiro “é a nossa principal ferramenta para a troca de bens e serviços com outros seres humanos. Ele pode ser uma poderosa ferramenta para a opressão ou, potencialmente, libertação” (2011).

O Capital Experiencial (ou Humano) é a experiência que acumulamos quando organizamos algum projeto em nossa comunidade. Pode ser quando construímos uma casa usando técnicas de Bioconstrução ou quando completamos um projeto de desenho permacultural. “A maneira mais eficaz de aprender alguma coisa é através da combinação do  capital intelectual com o experiencial … o “capital humano” é uma combinação de capital social, intelectual e experiencial, e todas as facetas de uma pessoa que podem ser captadas e transferidas em quantidades essencialmente ilimitadas” (2011). Quais são suas experiências que podem colaborar para o sucesso dos projetos no seu Todo?

O capital cultural “descreve os processos partilhados internos e externos de uma comunidade – as obras de arte e de teatro, as canções que cada criança aprende, a capacidade de se unir em celebração das colheitas ou durante um feriado religioso. O capital cultural não pode ser captado pelas pessoas, individualmente. Pode ser visto como uma propriedade emergente do complexo sistema de trocas de capital que ocorre numa aldeia, numa cidade, num biótopo ou nação” (2011). Quais são as atividades culturais compartilhadas pela sua comunidade que pode colaborar no seu Todo?

O Capital Vivo é composto por animais, plantas, água e solo da nossa terra – a verdadeira base para a vida no nosso planeta. A analista e consultora financeira “Catherine Austin Fitts recomenda que nós diversifiquemos e ‘meçamos a nossa riqueza em onças [metais preciosos], acres [de terra], e animais'” (2011). Qual o Capital Vivo disponível no seu Todo?

No próximo artigo vou abordar os primeiros passos para a construção de um Contexto Holístico.

Esses artigos sobre o Gerenciamento Holístico visam, além de divulgar essa abordagem regenerativa no Brasil, encontrar parceiros para uma turnê de cursos englobando a Tomada de Decisão Holística, a gestão holística financeira e o manejo holístico de pastagens. Caso você tenha interesse em hospedar um curso ou consultoria em sua propriedade, entre em contato conosco pelo email info_at_euricovianna.com.br .

A turnê está sendo produzida por mim (Eurico Vianna) e pelo Filipe Suleiman. Os cursos serão ministrados pelo produtor rural e educador em Gerenciamento Holístico com mais de 25 anos de experiência, Graeme Hand (com tradução minha).

Referências:

Nota: Compartilho desde esse primeiro artigo a bibliografia comentada que norteia toda a série.

Very Edible Gardens (VEG) – a VEG é uma empresa de consultoria e educação permacultural australiana que se tornou referência na área. Dan Palmer e Adam Grubb escrevem frequentemente sobre como melhorar o uso da Permacultura para projetar um futuro de escassez energética onde todos possam viver em abundância.

O Instituto de Gerenciamento Holístico do Canadá tem uma gama enorme de recursos para o ensino/aprendizagem dessa plataforma. O Instituto tem ajudado muitos produtores rurais no Canadá e fomentado muito o estudo a aplicação do Gerenciamento Holístico por meio de cursos e simpósios.

Liz e seu marido Pete criaram e tocam juntos uma fazenda de 258 acres com empreendimentos que variam do gado para corte e leite, galinhas caipiras para produção de ovos até produtos apiários. O site Eigth Acres foi criado para comercializarem seus produtos e compartilhar as ferramentas que tem usado com sucesso para gerenciar seus empreendimentos.

Alberto Miguel é o único consultor em Gerenciamento Holístico oficialmente credenciado no Brasil. Seu blog é uma fonte riquíssima de conteúdo no assunto.

  • Savory, A. e Butterfield, J. (1999). Holistic Management: a new framework for decision making. Island Press, CA-EUA.

O Manual do Gerenciamento Holístico escrito por Allan Savory e sua esposa Jody Butterfild é o livro que lança essa plataforma de tomada de decisão. Comumente em cursos, dada a quantidade enorme de informações compartilhada, esse livro vem acompanhado do livro ‘Manual Prático’ e de um fichário com instruções para exercícios e o aprendizado do Gerenciamento Holístico de Pastagens.

A Plataforma Regrarians foi criada por Darren Doherty, designer regenerativo que começou sua carreira na Permacultura como aluno do co-criador, Bill Mollison. Darren passou a usar o método de planejamento Linha Chave (Keyline), desenvolvido pelo Australiano P. A. Yeomans, com algumas alterações. O Planejamento de Linha Chave da forma como é ensinado por Darren e sua equipe dentro da plataforma Regrarians está se tornando rapidamente o método mais utilizado por designers para o planejamento de fazenda no mundo todo.

  • 8 Formas de Capital, escrito por Roland, E. e Landua, G. e traduzido por Colaborama. Acessado em 15/01/2018 em https://pt.prepareforchange.net/2016/04/14/as-8-formas-de-capital-uma-nova-forma-de-olhar-para-a-economia/

O conceito foi desenvolvido por Ethan Roland e Gregory Landua para facilitar o entendimento das várias relações econômicas nas quais nos envolvemos e fazemos parte. As 8 Formas de Capital enumeram “todos os diferentes recursos valiosos que um indivíduo ou entidade podem reunir ou trocar” e tem sido usados largamente em cursos de Permacultura para trazer a realização de que se nos falta um tipo de capital, nós provavelmente temos outros com os quais podemos contar para o desenvolvimento de nossos projetos.

 

“Se a poluição é o preço do desenvolvimento, estamos dispostos a pagá-lo”. Uma Genealogia da Política Ambiental Brasileira por Walter Steenbock

Se a poluição é o preço do desenvolvimento, estamos dispostos a pagá-lo.

Esta foi a postura do governo brasileiro na primeira conferência mundial sobre meio ambiente, ocorrida em Estocolmo, em 1972. Há quase meio século, portanto, no frenesi de seu milagre econômico, o Brasil ficou marcado não só como grande poluidor, mas como interessado em pagar qualquer preço pelo desenvolvimento (e disso a imensa dívida externa contraída neste período não deixa dúvidas).

Naquela época, não havia Relatório Brundtland e ninguém ainda havia pensado no tripé econômico, social e ambiental de um tal conceito de desenvolvimento sustentável. Não havia Agenda 21, nem Protocolo de Kyoto, nem muito menos Acordo de Paris. O mundo estava ensaiando a elaboração de acordos internacionais sobre meio ambiente. Mesmo assim, a postura radical brasileira foi suficiente para a proposição de sanções internacionais importantes, cobrando do governo federal a implementação de uma política ambiental.

E foi assim que, nove anos depois, em 1981, criamos a nossa Lei no 6.938/81 – a Política Nacional de Meio Ambiente. Paradoxalmente, ainda sob regime militar criamos uma das legislações ambientais consideradas, até hoje, das mais progressistas e mais capazes de associar conservação da natureza e desenvolvimento. E, literalmente (e infelizmente), apenas para inglês ver.

Os ingleses e o mundo inteiro viram e nos livramos das sanções, muito embora a falta de intenção de implementar a tal política, manifestada pela quase inércia de sua regulamentação até o fim do regime militar. Porém, querendo ou não, tínhamos então uma lei federal sobre o tema, que ensejava sua implementação.

Em 1988, a maior parte dos princípios e diretrizes da Política Nacional de Meio Ambiente encontraram reflexo em dispositivos da nova Constituição Federal. Todavia, faltavam instituições que viessem a implementar tais dispositivos. Então, logo em 1989, cria-se o IBAMA e nos primeiros anos da década de 90 foram criados a maior parte dos órgãos estaduais de meio ambiente.

Mas para a implementação da Lei faltava, ainda, dois componentes fundamentais: gente e regulamentos. Ou seja, o quadro de servidores do IBAMA e dos órgãos estaduais de meio ambiente era imensamente reduzido para a missão a que se propunham e, como se não bastasse, não era suficiente que a Constituição declarasse, por exemplo, que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, que seria necessário a elaboração de Estudos de Impacto Ambiental para o licenciamento de empreendimentos com significativo impacto ambiental ou que haveria sanções a crimes ambientais. Para a atuação dos órgãos ambientais, era necessária a regulamentação destes dispositivos.

Com muito esforço e articulação, foi basicamente nos últimos anos da década de 90 que ocorreu a construção de regulamentações importantes. Foi somente entre 1997 e 2000 que finalmente criamos instrumentos legais para detalhar procedimentos e regulamentações em relação à gestão de recursos hídricos, ao licenciamento ambiental, à educação ambiental, aos mecanismos de sanções a crimes ambientais e à criação de Unidades de Conservação, entre outros temas abordados pela Lei 6.938/81 e pela Constituição Federal. Há esta época, nossa Política, elaborada para inglês ver, já atingia a maioridade.

Ainda faltava (e ainda falta) gente suficiente para colocar em prática, de forma eficiente, os tais dispositivos. Entretanto, ao menos em nível federal, os primeiros anos do novo milênio viram a quantidade de servidores do IBAMA praticamente triplicar, em sucessivos concursos públicos (os primeiros da instituição). Em processos de seleção cuja relação candidato/vaga era de centenas de candidatos para cada vaga, o IBAMA veio a receber uma grande turma de novos servidores, a maioria jovens, de diferentes formações e muitos com pós-graduação, que se embrenharam nos quatro cantos do país.

O licenciamento ambiental federal deixou de ser cartorial; grandes operações de fiscalização foram executadas, com foco especial no combate ao desmatamento; a educação ambiental superficial passou a ser educação para a gestão ambiental pública. Nada novo. Apenas estava se começando a colocar massivamente em prática o que estava escrito, há mais de 20 anos, na Lei. E os avanços foram incontáveis.

Em relação à gestão de Unidades de Conservação (UCs) federais, os avanços se fizeram mais notáveis a partir de 2007, com a criação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Com a missão de “proteger o patrimônio natural e promover o desenvolvimento socioambiental”, o ICMBio responde pela implementação, gestão, proteção, fiscalização e monitoramento de, atualmente, 335 UCs instituídas pela União sob sua responsabilidade – que correspondem a cerca de 10% do território continental e 26% da zona econômica exclusiva marinha. As UCs federais abrigam doze categorias de manejo – desde as Áreas de Proteção Ambiental, em que prevalecem as medidas de ordenamento territorial, às Reservas Biológicas, desenhadas para preservar patrimônio biológico. Concursos públicos e muita luta pela sua estruturação trouxeram aportes importantes ao ICMBio, que hoje é considerado, mundialmente, como órgão de excelência na gestão de Unidades de Conservação.

Fazer a lei funcionar, entretanto, gera reação a quem não a segue. Não foram poucos os grandes produtores rurais que passaram a se mobilizar para a flexibilização “destas novas leis do IBAMA”; não foram poucos e nem pouco poderosos os grandes empresários que passaram a se mobilizar para a “flexibilização do licenciamento ambiental”; e não foram poucos os políticos que recepcionaram estas demandas, ou mesmo que foram autuados em crimes ambientais. É o caso, por exemplo, do próprio presidente eleito, que fora multado por estar pescando ilegalmente em uma Estação Ecológica.

O autuado virou presidente, quase meio século depois da criação da nossa Política Nacional de Meio Ambiente; e justamente quando, somente há poucos anos, a mesma passa ser mais efetivamente implementada. Como promessas de campanha, a redução de direitos aos quilombolas, nenhum centímetro a mais de terra para os indígenas, garantias de políticas de expansão da fronteira agrícola na Amazônia e acabar com a “indústria de multas” do IBAMA e do ICMBio. Já após eleito, mas antes ainda da posse, a proposta de agregar o Ministério do Meio Ambiente na pasta da Agricultura (seja oficialmente ou condicionando o funcionamento da agenda ambiental a esta pasta), a desistência do Brasil em sediar a Conferência do Clima da ONU em 2019, as declarações de rompimento com o Acordo de Paris e as declarações irritadas de seu fiel escudeiro sobre o quanto a Noruega precisa aprender conosco a cuidar do ambiente são apenas amostras do que está por vir.

Para quem estudou história, sabe que ela é uma roda gigante. É óbvio que virão sanções internacionais às novas versões da postura de que “se a poluição é o preço do desenvolvimento, estamos dispostos a pagá-lo”, sanções estas adaptadas a uma organização mundial muito mais complexa e condicionada por acordos que nem se sonhava existir a meio século atrás. Economicamente, portanto, o desastre será grande e novamente seremos pressionados à maior responsabilização ambiental. E o faremos, em médio prazo, para inglês ver ou não.

Porém, quando o fizermos, talvez não faça mais sentido, já que o desastre maior será ambiental e social e, em muitos aspectos, irreversível. Levamos quase 50 anos para estruturar o funcionamento de uma política ambiental. Neste período, apesar de todos os esforços, vimos o desastre de Mariana, vimos a expulsão de indígenas de suas terras, vimos o imenso desmatamento da Amazônia… agora, estamos prestes a tornar regra o desastre, e não o seu controle. E, muito provavelmente, não teremos mais tempo e nem capacidade social ou institucional para reconstruir o que será destruído.

Walter Steenbock é doutor em ciências pela Universidade Federal de Santa Catarina e leciona disciplinas relacionadas com a Legislação Ambiental, Avaliação de Impactos Ambientais e Política Ambiental. Walter também é pesquisador e autor com interesse especial pela agroecologia, agricultura familiar e uso de sistemas agroflorestais para recuperação de áreas degradadas. Desde 2002, Walter tem atuado como analista ambiental do IBAMA e posteriormente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Extinção prevista, Extinção Ignorada

Grande parte dessas pessoas que negam o aquecimento global, não está interessada de verdade em mitigar o aquecimento global. O que elas querem é manter seus privilégios até o final, mesmo que isso acarrete a extinção de todos.

Tradução livre, Eurico Vianna, PhD.

O texto que segue é uma tradução livre de um artigo do Professor Eméritos da Universidade do Arizona, Dr. Guy C. McPherson em seu website no dia 17 de novembro de 2018. Suas áreas de pesquisa e ensino por décadas foram Recursos Naturais, Biologia Evolutiva e Ecologia. Desde 2009 quando Guy começou a anunciar que os resultados de suas pesquisas apontavam para um aquecimento global repentino com a subsequente extinção em massa da vida no planeta, ele passou a viver em um sítio e a dedicar seu tempo para difundir suas descobertas.

Guy, que é atacado no nível pessoal por alguns críticos, ainda não recebeu críticas consistentes sobre as fontes usadas, os dados e os resultados publicados. Ou seja, para alguns é mais fácil denigrir o mensageiro do que encarar a realidade da mensagem.

De fato vivemos em tempos estranhos. Enquanto alguns declaram “não acreditar” em aquecimento global, centenas de cientistas sérios ao redor do mundo já discutem a possibilidade de que ele seja repentino e devastador. Grande parte dessas pessoas que negam o aquecimento global, não está interessada de verdade  em mitigar o aquecimento global. O que elas querem é manter seus privilégios até o final, mesmo que isso acarrete a extinção de todos.

Esse é o exemplo do presidente estadunidense Donald Trump, que diz “não acreditar” em aquecimento global. Quando na verdade suas declarações são movidas por interesses financeiros. Sua administração acaba de tentar abafar o relatório sobre os perigosos impactos do aquecimento global para o seu país lançando o relatório durante a Black Friday (dia em que a maioria dos cidadãos estadunidenses vãs as compras para aproveitar os descontos da data). O relatório, assinado por mais de 300 cientistas e repleto de pesquisas revisadas por especialistas, diz que:

o aquecimento global gera novos riscos e exacerba vulnerabilidades existentes nas comunidades por todo os EUA, apresentando desafios crescentes para a saúde humana, segurança, qualidade de vida e crescimento econômico.

Já no Brasil, o atual governo ilegítimo de Michel Temer, que é suspeito de ter recebido propina da construtora Oderbrecht, mas que recebeu imunidade parlamentar, retirou a candidatura do país para sediar a COP-25 em 2019. O presidente eleito Bolsonaro, avisou durante campanha, em 2017, que em seu governo não haverá “nem um centímetro [de terra] para quilombola ou reserva indígena”. Ele também defende a exploração econômica de terras indígenas e avisou que vai limitar o poder de fiscalização do IBAMA e ICMBIO. Essas medidas já teriam grande impacto ambiental, por uma série de razões: a) é sabido que a preservação ambiental tem muito mais sucesso em terras indígenas e quilombolas, por conta do paradigma cultural vivido por essas comunidades; b) são exatamente essas comunidades que podem nos ensinar como viver mais harmoniosamente com Gaia, e não o contrário; c) é sabido que tanto o ICMBIO quanto o IBAMA, apesar de muita dedicação, não tem recursos humanos suficientes para monitorar a devastação criminosa que acontece por todo o pais.

Para piorar ainda mais a questão ambiental, o presidente eleito já anunciou a representante das empresas de agrotóxicos no congresso, Teresa Cristina, para o Ministério da Agricultura e o presidente da União Democrática Ruralista, Nabhan Garcia, para a secretaria de assuntos fundiários. Todo esse quadro absurdo, coloca o Brasil no liderança do retrocesso mundial sobre as questões ambientais e climáticas.

Tanto Trump, como Bolsonaro, são exemplos claros do tipo de ser humano que, para manter seus privilégios, são capazes de comprometer o futuro de todos no planeta.

Mas enquanto para alguns a notícia de que pode ser tarde demais para mitigar os impactos devastadores de um aquecimento global repentino, para outros como eu, a notícia só reforça a missão de viver na plenitude a conexão com a natureza e de criar santuários de sanidade mental e ecológica, mesmo que só sejam eternos enquanto durarem (para parafrasear Vinícius)

Extinção prevista, Extinção Ignorada

Por Dr. Guy McPherson (17/11/2018)

Quando ameaçadas com a própria extinção, grande parte das linhagens, humanas ou não, não fazem nada espcial para evitá-la.

~ George C. Williams

O cientista Americano da biologia evolutiva C. Williams morreu em setembro de 2010 aos 83 anos de idade. Eu duvido que ele soubesse que estamos enfrentando nossa própria extinção eminente. Quando Williams morreu eu já vinha soando o alarme nessa área há 3 anos. E eu não estava sozinho. Os avisos mencionados nesse curto artigo não foram os primeiros sobre as catástrofes climáticas que provavelmente resultarão da queima de combustíveis fósseis.

Pouco tempo usando sua ferramenta de busca favorita na internet o levará a encontrar George Perkins Marsh soando o alarme em 1847, ao importante artigo de jornal escrito por Svente Arrhenius em 1896, às versões mais jovens de Al Gore, Carl Sagan e James Hansen testemunhando diante do congresso estadunidense na década de 1980. Existem muitos mais, claro, mas todos ignorados por pouco dinheiro em alguns poucos bolsos.

A projeção do ritmo gradual das mudanças climáticas, baseada no modelo do PIMC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) já ultrapassa 10.000 vezes a resposta adaptativa (capacidade de adaptação genética) dos animais vertebrados. Mais próximos dos Homo sapiens, os mamíferos não conseguem evoluir rápido o suficiente para escapar a crise de extinção em massa já em andamento. Os humanos são mamíferos vertebrados.

Acreditar que nossa espécie pode evitar a própria extinção mesmo quando outros mamíferos vertebrados desaparecem é a clássica soberba humana envolta em um manto quente de mitos baseados em supremacia humana. A evidência aponta para o fato de que os humanos se juntarão a aniquilação de toda a vida no planeta, como relatado no jornal científico de 13 de novembro de 2018 (https://www.nature.com/articles/s41598-018-35068-1). Afinal, os seres humanos estão vivos, embora uns mais que outros. O catastrófico derretimento descontrolado das plantas nucleares do mundo seriam suficientes, mas não necessárias, para extinção a curto prazo da vida na Terra. “Só” o aquecimento global repentino é necessário para extinguir toda a vida no planeta.

Qual foi a resposta a esses avisos durante a História? A mudança de parâmetros. Ignorar a quantidade enorme de trabalhos científicos. Jogar a cautela pela janela. A mídia corporativa, os governos e a maioria dos climatologistas continuam a aderir à meta de 2°C proposta pelo economista William Nordhaus em 1977 : “Se houvesse um aumento das temperaturas globais que ultrapassasse a atual temperatura média em torno de 2°C ou 3°C, isso levaria o clima para fora das variações observadas nas últimas centenas de milhares de anos.”

Sabemos mais sobre climatologia hoje que sabíamos em 1977. E cientistas verdadeiros sabiam, mesmo naquela época, que economistas não deveriam ser tratados como cientistas. Não é de se admirar que Nordhaus tenha sido laureado com um Prêmio Nobel em Economia baseado em motivações políticas no começo do ano. Não me surpreenderia se ele tivesse sido laureado com o Nobel da Paz se juntando ao time de especialistas em genocídio Henry Kissinger e Barack Obama.

Atualmente o planeta está 1.73°C acima do parâmetro estabelecido em 1750 no começo da Revolução Industrial. De acordo com um artigo científico publicado por James Hansen e colegas na Earth System Dynamics, essa temperatura média global é a mais alta desde o surgimento do Homo sapiens. Em outras palavras, nossa espécie nunca viveu em um planeta mais quente do que o que agora vive a atual crise de refugiados causada pelo desaparecimento do habitat para humanos. E nós nem chegamos ao limite de 2°C (sic) estipulado por Nordhaus. A resposta da abordagem convencional à crise, que se acelera cada vez mais e é conhecida como aquecimento global repentino é mudar os parâmetros do que é aceitável. Ao invés de admitir que o planeta está quase 2°C acima dos parâmetros de 1950, governos e muitos cientistas determinaram que o parâmetro na realidade é 1981-2010 ou mais. Aderir ao Princípio da Precaução obviamente está fora de moda.

Por décadas nós sabemos que a meta de 2°C , gravada em pedra por Nordhaus, é perigosa. De acordo com o chefe do Instituto Americano de Petróleo, nós já estávamos atrasados para lidar com gases de efeito estufa em 1965. Ao final de junho de 1989, Noel Brown, o diretor do Programa do Meio Ambiente das Nações Unidas em Nova York, disse que teríamos apenas até o ano 2000 para evitarmos um aquecimento global catastrófico. Cerca de 16 meses depois do aviso de Brown, em outubro de 1990, o Conselho das Nações Unidas para Gases de Efeito Estufa determinou o aumento máximo absoluto (da temperatura média do planeta) em 1°C. Em outubro de 2014 o climatólogo e autor David Spratt disse que 0.5°C seria o limite máximo (https://vimeo.com/63614114).

Provavelmente já era tarde demais para reverter o aquecimento global repentino e irreversível em 1977 quando Nordhaus compartilhou sua opnião genocida. Já era certamente tarde demais em 1989. E deixando de lado as palavras de conforto, nós não fizemos nada para prevenir nossa extinção desde que os avisos, perto ou longe, começaram a aparecer.

Em outubro de 2018 o PIMC da ONU indicou que temos até 2030 para evitarmos que as temperaturas médias globais aumentem 1.5°C acima dos parâmetros que não param de ser flexibilizados. Sim, é isso mesmo. A ONU está recomendando uma temperatura média bem abaixo da temperatura atual como ‘alvo’. Mas fica pior, claro. O Secretário Geral da ONU António Guterres diz que temos até 2020 para virar o jogo. Até agora a única forma pela qual nós humanos podemos mudar as temperatura média global, para cima ou para baixo, é a redução da atividade industrial, o que alivia o efeito da camada de aerossóis e, portanto, leva rapidamente a temperatura média global a níveis ainda mais altos. Mas se estamos interessados em manter o habitat para vertebrados e mamíferos no planeta, essa não é a direção que queremos que a temperatura tome. A perda da camada de aerossóis significa a perda de habitat para os humanos e a nossa extinção em seguida.

O cenário fica inimaginavelmente pior a cada dia, claro. As últimas informações publicadas em jornais científicos finalmente concordou comigo concluindo que a sexta maior extinção em massa (o Antropoceno) pode aniquilar toda vida na Terra (https://www.sbs.com.au/news/climate-change-may-cause-mass-extinctions-new-report-shows). Um artigo científico publicado na Science Reports chega nessa conclusão baseado no ritmo das mudanças ambientais, o que consiste com minhas próprias conclusões. Como uma pessoa que ama a vida, minha satisfação com uma das fontes mais conservadoras é assoberbada pela tristeza da perda.

Colocando de forma simples, nosso destino como espécie está fadado. Nós estamos indo rumo a extinção rápida, mesmo tendo sido avisados por mais 150 anos. É um conto trágico. E como foi dito pelo cientista da biologia evolutiva George C. Williams, nossa espécie mal fez um gemido quando o martelo bateu.

O agro esconde, o agro mente, o agro mata!

A questão do uso dos agrotóxicos no Brasil não é polêmica, é econômica e gira na casa dos bilhões  de Reais. A relativização e o questionamento dos estudos científicos que apontam o impacto negativo do agronegócio no meio ambiente e na saúde, fazem parte de uma estratégia de marketing chamada ‘controle de danos’.

O “controle de danos” visa mitigar danos causados à credibilidade, reputação ou imagem pública de uma empresa causados por uma ação ou declaração duvidosa ou má fé no exercício de suas funções. E é exatamente essa estratégia que agronegócio usa no Brasil e no mundo. Novas pesquisas interdisciplinares tem revelado o impacto negativo do modelo de produção agricultural e pecuarista do agronegócio tanto para o meio ambiente, como para a saúde pública. Consequentemente o agronegócio tem produzido vídeos, artigos e memes, que tem circulado a internet e as mídias sociais, relativizando seu impacto ambiental negativo e a gravidade da intoxicação direta e indireta causada pelo uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos nas lavouras e pecuária.

Umas das propriedades de P.A. Yeomans, projetadas com a Escala de Permanência da Linha Chave. O manejo da água nessas propriedades garante resiliência contra secas e queimadas e água para produção de alimentos durante todo ano.

Pesquisadores da agroecologia como Pablo Tittonell, Stephen R. GliessmannMiguel Altieri e abordagens do desenho regenerativo como a permacultura, a Escala de Permanência da Linha Chave e o Gerenciamento Holístico tem mostrado que é possível produzir mais alimentos sem o uso de herbicidas, pesticidas e fertilizantes químicos. Essas áreas de pesquisa, desenho e movimentos sociais vão além, eles mostram que o modelo de produção da agricultura familiar produz alimentos mais nutritivos, geram mais empregos, trazem soberania alimentar e qualidade de vida para os envolvidos e conseguem fazer tudo isso regenerando os ecossistemas nos quais se baseiam.

Para termos uma ideia, o agronegócio produz apenas 30% do alimento para população mundial usando de 70 a 80% das terras aráveis, 70% da água e 80% dos combustíveis fósseis. A agricultura familiar, por outro lado, produz de 50 a 75% do alimento da população mundial usando apenas de 25 a 30% das terras aráveis, 30% da água e 20% dos combustíveis fósseis usados em toda a agricultura (Altieri, 2015; Tittonell, 2014). Em muitos casos a agricultura familiar chega a ser 20 vezes mais energeticamente eficiente do que o agronegócio. Além de de produzir Alguns pequenos produtores rurais grãos, tubérculos, frutas, castanhas, etc. o pequeno produtor rural ainda consegue fornecer proteína animal suficiente para alimentar 34 pessoas por ano por hectare (Altieri, 2015). Para uma comparação mais detalhada entre o agronegócio e a agricultura familiar veja o artigo Os Pequenos Produtores Rurais Contra o Agronegócio.

Antes (1963) e depois (2003) de uma propriedade manejada dentro dos preceitos do Gerenciamento Holístico no México.

Todos esses dados e pesquisas mostram que o modelo de produção do agronegócio está definivamente ultrapassado do ponto de vista social e ambiental. Resta a questão econômica. Segundo estimativas da CNA (Conferação deAgricultura e Pecuária no Brasil) a agricultura e o agronegócio contribuíram com 23.5% dos R$6,6 trilhões do PIB (Produto Interno Bruto) do país em 2017. Todo esse lucro não leva em conta as chamadas externalidades, ou seja, os custos da devastação ambiental, do êxodo rural e dos problemas de saúde causados pelo uso dos agrotóxicos. A distribuição dessa renda no Brasil e o que vai para o estrangeiro também é outro fato que sempre fica fora das estatísticas apresentadas; outra tática de marketing de comunicação dessas corporações.

Tendo em vista que todo esse conhecimento trás uma péssima reputação para o agronegócio, as estratégias de “controle de danos” pela indústria, pelos setores simpatizantes do governo e pelos acadêmicos ‘colonizados’ são as de sempre. Primeiro, ignorar os dados e pesquisas contrários ao agronegócio enquanto for possível. Depois ridicularizar e descrever as pesquisas e os meios de produção alternativos de forma imprecisa, conduzir pesquisas e comparações falsas para, finalmente, desacreditar as alternativas (Mulligan, M. e  Hill, S. em Ecological pioneers: A social history of Australian ecological thought and action. 2001).

Meme do MBL com informações e comparações fora de contexto e fontes imprecisas. Exemplo clássico de marketing a favor das grandes corporações.

Grande parte do material de marketing e propaganda do agronegócio que tem vindo à tona usa meias verdades, linguagem científica e até mesmo cita publicações que não foram revisadas por especialistas ou que tiveram times inteiros de pesquisadores comprados como forma de “controle de dano”. Também é muito comum a técnica de “enquadramento” de editorial da mídia corporativa. Um exemplo clássico é um dos vídeos que tem circulado a internet onde uma apresentadora com ares de jornalista imparcial faz comparações da área usada para a agricultura industrial no Brasil e em outros países. As comparações, assim como a linguagem do vídeo, leva a audiência a pensar que em relação a outros países o Brasil deveria estar usando ainda mais área para desenvolver o agronegócio. De maneira sutil o enquadramento muda, tira de questão os malefícios desse modo de produção e faz a audiência pensar que o Brasil está atrasado em relação a outros países industrializados. Na verdade, o que está em questão é que toda a abordagem da agricultura e pecuária industrial está ultrapassada em qualquer lugar. Em todos os países onde é utilizada ela degrada o meio ambiente e a saúde das pessoas.

Um meme usando fatos verdadeiros, porém fora de contexto, sobre a água para mostrar como as campanhas de “controle de danos” funcionam.

A mesma prática foi usada em um meme do MBL, movimento bancado pelos think-tanks da ultra-direita e por partidos neoliberais como o MDB e o PSDB. No meme 5 “fatos” sobre os alimentos orgânicos são apresentados. Nomes de organizações internacionais são usadas para validar os “fatos”, mas nenhuma delas é utilizada de forma que as informações possam ser verificadas. É uma estratégia de contra-inteligência do “controle de danos” que consiste em inundar os meios de comunicação com meias-verdades pintando como polêmico ou controverso um assunto que a ciência séria já comprovou, mas que os resultados não são favoráveis para as corporações.

O documentário O Mundo Segundo a Monsanto, da cineasta francesa Marie-Monique Robin já denunciava as práticas de “controle de danos”, marketing e coação dessa gigante do agronegócio desde 2008. Mais recentemente outros documentos e mensagens eletrônicas da empresa vieram à público revelando a empresa já sabia que seu principal produto químico, o glifosato, é altamente cancerígeno. Essas práticas, no entanto, são largamente praticadas entre as corporações multinacionais do agronegócio.

A cerca da gravidade dos problemas trazidos trazidos pelo agronegócio, a ONU já emitiu um relatório dizendo que precisamos entregar a produção de alimentos para os pequenos produtores antes que seja tarde demais.

Os resultados do relatório em muitos aspectos parecem repetir os resultados do relatório emitido pelas Nações Unidas em 2010 (link para relatório original em inglês). O relatório anterior basicamente informava que a melhor maneira para ‘alimentarmos a população mundial’ é produção orgânica de pequena escala e não a monocultura e o uso OGM.

De acordo com o novo relatório das Nações Unidas precisamos de mudanças drásticas em nossa alimentação, agricultura e comércio. E essas mudanças devem ser em direção aos pequenos produtores rurais e a um sistema de abastecimento alimentar local.

Precisamos, portanto, usar de muito pensamento crítico ao assistir vídeos ou ler artigos que defendam o agronegócio, os alimentos geneticamente modificados e o uso de herbicidas, pesticidas e fertilizantes químicos. De um modo geral, ao analizarmos notícias, artigos e vídeos que defendam o agronegócio, devemos pensar e buscar fontes confiáveis para sabermos se é ecologicamente seguro, se é socialmente justo (e aqui se inclui as questões de saúde) e, por fim, se o lucro gerado é bem distribuido e fortalece a economia das regiões onde se dá a produção.

Abaixo eu contextualizo algumas áreas severamente impactadas pelo agronegócio e suas práticas e compartilho ainda mais fontes de pesquisas que comprovam o quão nocivo esses produtos podem ser para a saúde dos humanos e do planeta.

Impacto na saúde

Nós últimos anos várias pesquisas de mestrado, doutorado, livros e artigos científicos foram publicadas e revisadas por especialistas, revelando a ligação de alimentos geneticamente modificados, herbicidas, pesticidas e fertilizantes químicos com doenças como câncer, Alzheimer, Parkinson, asma e diabetes. No Brasil, os documentários O Veneno Está na Mesa (2011) e O Veneno Está na Mesa 2 (2014) de Sílvio Tendler, o livro Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Européia (2017), de Larissa Bombardi e movimentos como a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida são boas referências para reflexão e comparação com os materiais publicados pelo agronegócio e mídia corporativa porque citam fontes sérias e trabalhos que foram revisados por especialistas ou avaliados por bancas. São essas referências que revelam por meio de pesquisas sérias que o Brasil está entre os maiores usuários de agrotóxicos no mundo.

A exposição da população brasileira a esses venenos é gravíssima. Segundo Alan Tygel, da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, o brasileiro médio consome 5.2 litros de veneno por ano em sua comida. O agronegócio no Brasil faz uso de 504 agrotóxicos, dos quais 30% são proibidos na União Européia. Desde 2008 o Brasil é pais que mais usa agrotóxicos no mundo. O uso do glifosato, agrotóxico comprovadamente cancerígeno, no Brasil varia entre 5 e 9 kg por hectare, enquanto na União Europeia é limitado a 2kg por hectare. Outro problema grave é que o uso desses agentes químicos acaba contaminando os lençóis freáticos e por conseguinte a população por meio da água potável. Enquanto na União Europeia a quantidade máxima do herbicida glifosato que pode ser encontrada na água é de 0,1 miligramas por litro, o Brasil permite 5 mil vezes mais.

O trabalho da Larissa Bombardi revela que 8 brasileiros são contaminados por dia, segundo dados oficiais conservadores. Uma pesquisa da Fiocruz, no entanto, estima que para cada caso notificado, 50 casos não são notificados. Isso implica que entre 2007 e 2014, mais de um milhão de brasileiros foram intoxicados por agrotóxicos. Desde 2015 o governo deixou de publicar os casos de intoxicação por agrotóxicos, o que dificulta estudar os casos de intoxicação direta ou indireta por esses agentes químicos.

Sobre a questão do impacto dos alimentos transgênicos em nossa saúde, o livro Roleta Genética, de Jeffrey Smith publicado em 2009, ainda é uma das melhores referências. Nele, Smith revela documentos com informações pouco – ou não divulgadas – sobre testes de segurança de alimentos transgênicos que mostram claramente que não podemos confiar nessas grandes corporações para produzir nosso alimento.

Perda da Biodiversidade

A questão da perda da biodiversidade pelo uso de sementes transgênicas e pelo cartel criado pelas grandes multinacionais do agronegócio traz riscos enormes à segurança alimentar para a população de todo o planeta. John Tomanio produziu um infográfico para a National Geographic mostrando que entre 1903 e 1983 a industrialização da agricultura nos Estados Unidos causou uma perda de 93% das variedades de sementes. A tendência em todos os lugares onde a agricultura é industrializada é a mesma; de perda de biodiversidade e consequentemente da segurança alimentar. O aumento da temperatura média do planeta e os eventos climáticos extremos como enchentes, enxurradas, secas e ciclones agravam ainda mais essa questão da segurança alimentar uma vez que as monoculturas industrializadas são muito pouco resistentes a essas variações.

A perda da biodiversidade pelo modelo de produção do agronegócio, entretanto, vai além da questão do monopólio das sementes. O uso de pesticidas na agricultura e nas lavouras geneticamente modificadas tem causado a morte em massa de abelhas e outros polinizadores. O avanço do desmatamento tanto da Amazônia e do Cerrado brasileiros, dois dos biomas mais biodiversos do planeta, também é causado em grande parte pelo agronegócio. O desmatamento, por sua vez, traz a extinção de várias espécies que perdem seu habitat natural.

Esgotamento de Recursos

Como mencionei acima, o agronegócio usa de 70 a 80% das terras aráveis, 70% da água e 80% dos combustíveis fósseis usados na agricultura para produzir apenas 30% do alimento (Altieri, 2015).

A produção e distribuição de alimentos industrializados (o agronegócio) é totalmente dependente do petróleo. São os combustíveis fósseis que abastecem os tratores que aram, plantam e colhem os cultivos. Os adubos químicos, pesticidas e herbicidas são todos derivados de petróleo. E também são os combustíveis fósseis que mantém os padrões de mobilidade global (o trânsito internacional de produtos e pessoas). Agravando ainda mais a situação, segundo dados da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), a erosão causada pelo agronegócio chega a perder até 20 toneladas de solo por ano para produzir 500 quilos de alimento por pessoa. E segundo dados da ONU, até 2025 em torno de 50% da população mundial será impactada pela escassez de água.

Esse é outro grande problema do modelo industrial de agricultura e pecuária, ele esgota os próprios recursos que precisa no decorrer de sua produção se tornando cada mais caro e inviável.

Promovendo Segurança Alimentar e Restaurando a Bacia do Descoberto usando SAFs com o MST

Em setembro de 2018 estive com o Osmany Segall visitando 4 famílias assentadas em um acampamento do MST no Distrito Federal. Essas famílias participam, do Programa Água Brasil, “que visa à conservação de recursos hídricos” no país. O programa, que é fruto de uma parceria entre a WWF e a Fundação Banco do Brasil, tem foco exclusivo em soluções para problemas relacionados ao tema. Osmany foi convidado para da elaboração e implementação do projeto pelos amigos do Mutirão Agroflorestal Igor Aveline e Fabiana Penereiro. O projeto apresentado pelo time, no entanto, também foca na problemática da segurança alimentar e viabilidade econômica entre os integrantes do MST e apresenta a implementação de sistemas agroflorestais como solução interdisciplinar para todas essas questões de recuperação de recursos hídricos, segurança alimentar e viabilidade econômica.

A primeira etapa do projeto, que já vem sendo desenvolvido há 8 meses, atendeu 8 famílias nos assentamentos Gabriela, Graziele e Canaã e já implementou sistemas agroflorestais em aproximadamente 4 hectares. A segunda etapa do projeto que começa agora na estação das chuvas visa aumentar a área implantada na Bacia do Descoberto para 17.8 hectares somando a participação de 37 famílias assentadas. Para a primeira etapa, dois cursos de capacitação foram ministrados nos assentamentos como pré-requisito para a participação das famílias. Subsequentemente mutirões de implementação foram organizados entre os coordenadores do projeto e os participantes para estabelecer as primeiras 8 áreas de plantio e a participação coletiva também era pré-requisito para as famílias que queriam participar.

Em todos os casos as famílias foram ouvidas em um processo de diagnóstico participativo que orientou o desenho, também participativo, das áreas de acordo com necessidades e contextos específicos. Ainda assim, a criação de 3 áreas distintas de implementação em cada terreno foi comum na grande maioria dos casos. Foram essas: áreas de enriquecimento, áreas (de plantio) intensivas e áreas de engorda de solo.

Um canteiro de engorda de solo à esquerd e um de plantio intenso à direita no terreno da Tânia e Silvano.

Para as áreas onde já haviam árvores frutíferas, do cerrado ou hortas sendo manejadas pelas famílias foram criadas áreas de enriquecimento. Nessas áreas o objetivo principal foi a diversificação das espécies e da estratificação do sistema.

Áreas intensivas foram criadas onde já haviam árvores nativas, pomares ou hortas de forma a aumentar uma produção já existente. Nesses casos foram estabelecidos sistemas de plantio denso com árvores frutíferas, de madeira e hortaliças. Via de regra, essas áreas com foco mais específico na segurança alimentar e viabilidade econômica da famílias atendidas, eram menores por conta da necessidade de manejo intenso.

Para terrenos muito compactados e degradados foram criadas áreas de engorda, usando o entendimento da sucessão ecológica para recuperar o solo, foram plantadas nessas áreas plantas forrageiras, fixadoras de nitrogênio e capins. O feijão guandú, o feijão de porco e a crotalária, por exemplo, foram utilizados tanto para poda quando para produção de matéria orgânica para cobertura do solo. Essas plantas integram um conjunto chamado nos sistemas agroflorestais de plantas adubadeiras.

O contexto específico de cada família, assim como a topografia do terreno e pomares já estabelecidos exigiu abordagens e técnicas diferentes na implementação de cada SAF. Abaixo eu sintetizo o contexto e soluções utilizadas nas áreas que visitamos.

Seu Gilberto mostrando um Araticum-de-raposa (Annona cornifolia), um arbusto frutífero do Cerrado.

Seu Gilberto é originalmente da região rural e semiárida do Piauí. Como muitos outros campesinos a falta de políticas públicas e acesso ao conhecimento que poderia torná-lo produtivo em sua região de origem, Seu Gilberto abandonou a vida que gostava para procurar trabalho nos grandes centros urbanos. Depois de muito tempo e esforço para dar aos filhos acesso a educação, Seu Gilberto continuava sofrendo com a vida urbana em pobreza. Com apoio de sua esposa, ele então se juntou ao MST para conseguir um terreno onde pudesse voltar a plantar, produzir e viver no campo.

Em seu terreno já haviam uma roça com mandioca, feijão e milho e um pomar com algumas frutíferas convencionais e do cerrado. Após fazer o curso de capacitação Seu Gilberto escolheu implementar uma área nova para aprender e só depois diversificar os sistemas já existentes. A área de SAF implementada no terreno é de aproximadamente 3000m2 e visa a produção de frutas e madeira em médio prazo. Como Seu Gilberto já tinha uma área de roça, a produção de hortaliça foi planejada nos canteiros de árvores e para subsistência apenas.

SAF com 8 meses na casa do Seu Gilberto.

Como antes do curso de capacitação Seu Gilberto não entendia a sucessão natural e a importância da cobertura e do acúmulo de matéria orgânica no solo, ele cuidou de sua área capinando impecavelmente qualquer planta invasora. O resultado foi um solo exposto, pobre e compactado que dificultou muito o estabelecimento do Capim-mombaça (Megathyrsus maximus) nas entrelinhas. Com a estação das chuvas chegando, o plano é semear novamente em algumas áreas e fazer roça de mandioca, milho, feijão e abóbora com adubação nos berços em outras.

Um canteiro mostrando um Eucalipto Cheiroso (Corymbia citriodora) ocupando o estrato emergente.

Grande parte dos assentamentos na Bacia do Descoberto foram estabelecidos em áreas que foram degradadas pela monocultura do eucalipto (E. Grandis), o que deixou essa espécie bastante estigmatizada na região. Como as árvores madeireiras de crescimento rápido são usadas para podas continuas que promovem a cobertura e recuperação do solo nos SAFs, Osmany e Igor, então convenceram Seu Gilberto a usar o Eucalipto cheiroso (Corymbia Citriodora) para essa função.

Outra peculiaridade do terreno e do contexto do Seu Gilberto era o risco de erosão e a escolha de várias frutíferas de estrato alto (porém de portes variados). Nesse caso a solução foi estabelecer as linhas do sistema perpendiculares ao declive e posicionar os consórcios com árvores mais altas na parte sul (e mais baixa) do terreno. Usando uma terminologia do desenho permacultural, foi feita uma análise de setor para identificar o aspecto solar e as áreas propensas à erosão. O posicionamento das árvores de maior porte ao sul do terreno consiste em uma técnica chamada ‘armadilha solar’ na permacultura.

Seu Gilberto compartilhou com a gente é que ele está mais saudável, mais ativo por conta do trabalho com o SAF. Ele comenta que tanto a quantidade como a qualidade de frutas, verduras e legumes na sua dieta melhorou muito. Ele também conta que é tão interessante ver os sistemas se desenvolvendo, tão gratificante fazer parte do manejo que otimiza a vida, que seus filhos estão começando a se interessar pela vida no campo.

Dona Tânia e Ana Júlia caminhando pelo SAF.

A próxima parada foi no terreno da Dona Tânia e Seu Silvano. Eles tem uma família grande e a geração de renda por meio dos sistemas agroflorestais era urgente. No caso deles então, uma área maior, de aproximadamente 4.000m2, foi estabelecida e a abordagem com as áreas de enriquecimento, intensiva e de engorda foi essencial.

Um pomar que já existia com mangueiras e outras frutas foi diversificado. Nessa área, além de outras árvores para compor os vários estratos, foram usados o feijão-de-porco, o milho e o Mombaça de forma a produzir alimentos, mas também matéria orgânica para cobrir e adubar o solo. Uma parcela de aproximadamente 1500 m2 com solo degradado foi trabalhada com a implementação de uma área de engorda. Nesse caso as linhas que receberiam árvores receberam plantas fixadoras de nitrogênio de ciclos de vida mais curto e o Mombaça foi plantado nas entrelinhas para ser usado como cobertura. E uma área intensa de 1500m2 foi estabelecida com hortaliças para consumo e venda do excedente.

Silvano orgulho do canteiro de engorda já com bananas.

Dona Tânia compartilhou que a dieta da família melhorou muito. Ela também comentou que abundância de alimentos produzidos em SAFs demanda um conhecimento específico no processamento dos produtos. Ela e Seu Silvano, que já haviam ampliado seus sistemas por conta própria, estavam com excedente de vários produtos como pimenta dedo-de-moça e repolho roxo com os quais gostariam de fazer conservas e geleias. A infraestrutura para esse tipo de processamento dos produtos ainda não está disponível nos assentamentos, mas Dona Tânia comentou que alguns dos produtores já estão se articulando para montar uma cooperativa.

Osmany e Mateus visitando o SAF na casa da Dona Andréia.

A terceira propriedade visitada foi a da Dona Andréia, que já estava inserida em um contexto convencional de produção de hortaliças com uso de fertilizantes e pesticidas químicos junto com seu irmão Alexandre. Dona Andréia participou do curso de capacitação com seu irmão e com seu filho, Mateus. Juntos eles fizeram a transição para uma produção completamente agroecológica em uma área de 3.000m2. Os SAFs foram implementados fazendo bastante uso das áreas intensiva e de engorda.

Dona Andréia, Alexandre e Mateus organizaram o desenho das áreas implementadas de forma a colher sementes e mudas para um viveiro que estão montando. Outra peculiaridade do sistemas deles foi alternar estratos altos e baixos em uma linha com médios e emergentes em outra, de forma a otimizar a entrada de luz, minimizar o manejo com podas e produzir hortaliças por mais tempo entre as linhas.

Eurico e ‘Professor’, genro da Dona Maria, conversando sobre o Mombaça plantado nas entrelinhas.

Por último visitamos a casa da Dona Maria. Assistida por sua filha e genro, a Dona Maria está implementando uma área de 4.000m2. No terreno dela, porque todos trabalham fora, as hortaliças não foram implementadas nas entrelinhas. Muito resistentes ao uso do eucalipto, eles escolheram substituir essa espécie pela Acácia mangium.

Nas entrelinhas foi usada uma combinação do Mombaça com o mileto (Pennisetum glaucum). Uma estratégia para compensar a falta da matéria orgânica que viria do eucalipto foi plantar o feijão Guandú junto com outras mudas de árvores para fixar nitrogênio e gerar biomassa. Onde não foi possível usar o Guandú, foi utilizado o feijão-de-porco com a mesma finalidade. Combinando essas estratégias foi possível implementar uma área consideravelmente grande para que fosse manejada por poucas pessoas e em dentro de poucos dias por semana.

Notas finais.

Quase todas as áreas foram implementadas ao final do período das chuvas, o que não é o ideal. Em alguns casos áreas muito grandes tiveram que ser aguadas à mão por uma pessoa só, até que um sistema de irrigação pudesse ser instalado. Todos os sistemas de irrigação instalados foram por gotejamento por conta da relação custo-benefício e também da necessidade de economizar água. Ainda assim, com exceção das áreas de entrelinha no terreno do seu Gilberto, todos os sistemas implantados tiveram uma ótima taxa de germinação e desenvolvimento. Enquanto novas áreas são implantadas nesse período de chuvas, as 8 famílias que participaram da etapa piloto vão aprimorar suas técnicas de manejo com podas.

Como forma de complementar a ajuda a essas famílias, o Osmany tem escoado o excedente de produção deles no ponto de entrega e feiras feitas pela Fazenda Bella em Brasília. Essa abordagem, que não foi planejada no projeto inicial, mas que tem se mostrado muito importante, também será ampliada nas próximas etapas.

De um modo geral, e por conhecer a realidade das pessoas mais pobres no Brasil, eu fiquei maravilhado com o trabalho dessas famílias. Elas fazem parte do MST, um movimento demonizado pelas elites e mídia corporativa por pregar a reforma agrária. Sem exceção, eles tem uma vida dura, marginalizados por não conseguirem participar da sociedade de consumo. Ainda assim, frequentemente com jornadas duplas de trabalho e com dificuldades financeiras enormes, estão zelando por seus terrenos e aprendendo a produzir alimentos em harmonia com a natureza. Ainda assim, não perdem a generosidade… Não houve uma casa onde não nos oferecessem um café e um lanche, onde não insistissem que ficássemos mais tempo. A dedicação deles, à revelia de tantas provações, mostra que é possível produzir alimentos recuperando lençóis freáticos, a biodiversidade local e acima de tudo promovendo justiça social. Parabéns ao Igor Avelino, Osmany Segall, Fabiana Penereiro e as 8 famílias que abraçaram os sistemas agroflorestais para mostrar ao mundo o que é possível quando se tem esperança, boa vontade, conhecimento e companhia!

Aprendendo com a Agrofloresta na Fazenda Bella

No sábado dia 15 de Setembro (2018) recebemos na Fazenda Bella uma visita informal de uma equipe do Ministério do Desenvolvimento Social que trabalha com o desenvolvimento de políticas públicas para a segurança alimentar. As perguntas trazidas pelo grupo são comuns nas visitas guiadas e cursos na fazenda. Elas também contam a história da evolução dos nossos sistemas e algumas práticas e abordagens que desenvolvemos ao longo desses últimos anos.

Embora já viéssemos fazendo um trabalho sério com a produção de frutas e hortaliças em sistemas agroflorestais desde março de 2015, ano passado a Fazenda Bella ganhou, juntamente com outras pessoas e organizações, o prêmio “Boas Práticas Sustentáveis em Áreas Rurais” da Secretaria de Agricultura do Distrito Federal. O prêmio trouxe mais visibilidade para nosso trabalho como educadores, trazendo um público maior para as visitas guiadas e para os cursos de agrofloresta, permacultura e bioconstrução que acontecem na Fazenda.

Além de buscar mais entendimento sobre como se dá a produção de hortaliças e frutas nos sistemas agroflorestais, a equipe que nos visitou estava interessada na qualidade dos alimentos produzidos, na viabilidade desses sistemas para a agricultura familiar e em como esses sistemas recuperam os processos ecossistêmicos enquanto produzem. Abaixo nós resumimos e agrupamos algumas das perguntas e respostas

Qual a melhor orientação desses sistemas em relação ao aspecto solar?
A resposta, que frequentemente incomoda as pessoas que buscam um entendimento simplificado e metodizado desses sistemas, é que a melhor orientação depende de uma série de variáveis como tipo de produção que será priorizada, qual a direção da inclinação do terreno, o quão íngreme é essa inclinação e qual a latitude da propriedade, por exemplo.

Embora nossos sistemas não tenham sido implementados em curva de nível, eles foram posicionados no sentido leste-oeste e relativamente perpendiculares à inclinação do terreno. No caso da Fazenda Bella, no entanto, o declive é virado para o norte. Escolhemos essa disposição porque, embora exija bastante atenção e manejo para que a quantidade de luz seja ideal, ela favorece a produção de hortaliças, um dos empreendimentos que queríamos desenvolver.

Se tivéssemos um foco maior na produção de frutas e madeiras, nós provavelmente teríamos implementado os sistemas com uma orientação norte-sul. No caso do nosso relevo essa orientação maximizaria o aproveitamento da luz solar.

Qual a distância ideal entre as linhas de árvores?
De novo, não existe ‘receita de bolo’. Os 3 primeiros sistemas que implementamos nós dispusemos as linhas de árvores à 5 metros de distância umas das outras com canteiros de hortaliças nas entrelinhas.

Durante o primeiro ano e meio em que estabelecemos esses 3 sistemas nós não tivemos um foco específico em nenhuma espécie de árvore. Ao contrário, nossa atenção foi na diversificação de espécies para que pudéssemos acelerar nosso aprendizado. Nós também não desenhamos canteiros para a produção de capim para ser usado como cobertura. O que aprendemos foi que, com boas condições de crescimento e nesse espaçamento as copas das árvores de estrato alto podem se fechar muito rapidamente (aproximadamente 2 anos), atrapalhando a produção de hortaliças e demandando trabalho extra com podas para otimizar a entrada de luz. Também pudemos perceber que a produção de hortaliças demandava mais matéria orgânica para a cobertura de canteiros e mais frequentemente que esperávamos.

Como o CEASA do DF fica no caminho que normalmente fazemos para ir e voltar da fazenda para entregas e outros serviços, nós contatamos alguns motoristas de caminhões de entrega que usam palha para proteger seus produtos. Com isso a caminhonete que voltaria vazia, passou a voltar das entregas carregada de palha para cobrir os canteiros. Um recurso de oportunidade, como diz a permacultura.

Um lado positivo dessa disposição de canteiros foi que embora nós não tivéssemos focado em frutíferas específicas para o estrato alto, nós focamos nos cítricos (estrato médio) e café (estrato baixo) e esses espécies se desenvolveram muito bem com essa disposição de canteiros. Nessas áreas nós acrescentamos algumas jabuticabas intercaladas à cada dois pés de café.

Já levando em conta o aprendizado com a implementação e manejo dos primeiros talhões, no ano passado nós implementamos uma área de aproximadamente 4.000m2. Dessa vez as linhas de árvores ficaram espaçadas à cada 8 metros, de forma a otimizar a entrada de luz solar por mais tempo o que por sua vez também mantém a produção de hortaliças por mais tempo.

Outra decisão que tomamos foi a de estabelecer o canteiro de árvores à partir de sementes. Fizemos bastante uso do feijão de porco e do guandú como adubadeiras e para produzir matéria orgânica para cobertura de solo. Também decidimos focar em uma árvore específica para o estrato alto, nesse caso a moringa.

Os canteiros de árvores de desenvolveram muito bem à partir das sementes e mudas de bananeira. Os consórcios de hortaliças também vinham muito bem e deixamos uma área para o cultivo de uma roça entre algumas das linhas de árvore. Nesse caso produzimos feijão, milho, mandioca, abóbora e quiabo. Com aproximadamente 6 meses com uma produção muito boa, as vacas estouraram a cerca elétrica e fizeram um banquete. A roça já havia sido colhida mas perdemos vários cultivos especiais de hortaliça que vínhamos preparando para nossos clientes. Depois de reforçar a cerca e fazer um trabalho de recuperação dos canteiros e novo plantio, a área recuperou bem aprodução.

Como fica a questão da utilização e dependência de insumos externos?
O ideal na implantação desses sistemas é encarar as plantas e a sucessão natural como ferramentas que nos ajudem a melhorar o fluxo energético (maximizando os processos fotossintéticos), a ciclagem de minerais e nutrientes (por meio da poda e cobertura do solo), o ciclo hidrológico (por meio da interação das árvores e suas raizes com a água da chuva e dos lençóis freáticos) e a dinâmica das comunidades (o enriquecimento da biodivesidade no solo e acima dele). No entanto, nem sempre o contexto do produtor rural permite que desenvolvamos essa agricultura de processos e acabamos por ter que utilizar alguns insumos.

Novamente decidimos não plantar capins para cobertura entre as linhas de árvore e hortaliça. Implementamos canteiros de capim ao redor da área como um todo e passamos a usar matéria orgânica dos aceros que fazemos para mitigar os altos riscos de queimada.

Também passamos a produzir nosso próprio adubo orgânico. Temos produzido o bokashi e temos aprendido a prepara-lo de acordo com necessidades e disponibilidades específicas do solo e matérias primas, respectivamente.

É realmente necessário trabalhar com eucaliptos?
Obs: Essa pergunta foi feita no sentido do eucalipto ser uma espécie exótica no Brasil com fama de degradar oslençóis freáticos onde plantado em monocultura.

Mais uma vez a resposta é contextual. Em condições ideais o eucalyptus grandis, espécie mais utilizada nesses sistemas, pode crescer até 4.5 metros por ano. Essa espécie é originária da Austrália, um continente com solos muito antigos e onde a população indígena fez uso do fogo para manejar a paisagem por milhares de anos. Por ter evoluído nessas condições o eucalipto se adapta bem a solos degradados no Brasil gerando muito matéria orgânica para o enriquecimento e cobertura do solo.

No contexto da Fazenda Bella a poda apical dos eucaliptos é feita quando estes atingem em torno de 6 metros de altura. Depois das primeiras podas é comum conseguirmos podar as mesmas árvores até 3 vezes por ano. O manejo de poda é feito nessa altura para produção de caibros utilizados nas bioconstruções da fazenda. No entanto, manter a poda dos eucaliptos nessa altura exige mais conhecimento específico e gasta mais tempo e energia no manejo. Por essas razões é comum ver o eucalipto com poda apical feita tem torno de 2 a 2.5 metros de altura em outros sistemas agroflorestais. O preço e disponibilidade da muda do eucalipto também é um fator que pesa na escolha. Uma vez que a grande maioria dos produtores rurais brasileiros pode facilmente comprar essas mudas por R$0,25 centavos.

A mutamba (Guazuma ulmifolia), uma árvore endêmica das Américas Central e do Sul, é uma ótima opção de árvore de estrato alto para esse tipo de sistemas agroflorestais. A mutamba tem taxa de crescimento semelhante ao do eucalipto, que produz uma fruta da qual pode se extrair um néctar, é melífera, a casca de seu tronco, folhas e frutos são medicinais, pode ser usada como forragem para o gado e outras criações e produz uma madeira melhor (mais densa) que a do eucalipto. No entanto, o preço da muda gira em torno de R$15 Reais e nem sempre pode ser encontrada com facilidade. Na Fazenda Bella estamos investindo na coleta de sementes e propagação de mudas que serão usadas no estabelecimento de novas áreas.