Novo relatório da ONU diz que precisamos entregar a produção de alimentos para pequenos produtores antes que seja tarde demais.

Apesar do governo dos Estados Unidos continuar a pressionar para que produtores rurais usem métodos de produção corporativo que fazem uso intenso de químicos como monocultura de plantas geneticamente modificadas no mundo inteiro, as Nações Unidas mais uma vez soam o alarme para necessidade de retornarmos (e desenvolvermos) urgentemente métodos e sistemas mais sustentáveis, naturais e orgânicos.

Artigo original escrito em inglês por Nick Meyer e traduzido por Eurico Vianna, PhD.

Esse foi um dos pontos principais de uma publicação recente da Comissão de Comércio e Desenvolvimento nas Nações Unidas (UNCTAD) intitulada “Comércio e Meio Ambiente Revisão de 2013: Acorde antes que seja tarde demais” (link para relatório original em inglês). O relatório inclui contribuições de mais de 60 especialistas de todo o mundo.

A capa do relatório parece o material promocional de um documentário hollywoodiano e a natureza dramática do título não pode ser subestimada: O momento de virada de volta para nossas raízes agrárias e métodos de produção natural é agora.

O novo relatório sobre Produção Rural das Nações Unidas “Acorde Antes que Seja Tarde Demais”
Os resultados do relatório em muitos aspectos parecem repetir os resultados do relatório emitido pelas Nações Unidas em 2010 (link para relatório original em inglês). O relatório anterior basicamente informava que a melhor maneira para ‘alimentarmos a população mundial’ é produção orgânica de pequena escala e não a monocultura e o uso OGM.

De acordo com o novo relatório das Nações Unidas precisamos de mudanças drásticas em nossa alimentação, agricultura e comércio. E essas mudanças devem ser em direção aos pequenos produtores rurais e a um sistema de abastecimento alimentar local.

A diversificação das fazendas, a diminuição do uso de adubos químicos e outras mudanças são recomendações urgentes segundo o relatório das Nações Unidas que também foram ressaltadas em outro artigo do Instituto de Políticas Públicas para a Agricultura e Comércio (original em inglês).

O artigo do Instituto de Políticas Públicas para a Agricultura e Comércio também recomenda que as regras do comércio internacional sejam reformadas para possibilitar as mudanças necessárias. Os acordos de comércio internacional como a Parceria Transpacífica (TPP) e o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP), infelizmente, se movem na direção contrária, ou seja, da industrialização e dependência química da agricultura.

O Instituto ressaltou que esses acordos pendentes são “projetados principalmente para fortalecer o poder das corporações multinacionais e das firmas do mercado financeiro na economia global…” e não para acatar as necessidades urgentes de mudança na agricultura descritas no relatório das Nações Unidas.

Ainda de acordo com o relatório até mesmo a segurança global pode estar em risco na medida em os preços dos alimentos (e a especulação de preços no mercado de comódites) continuam a subir.

“Isso implica uma mudança rápida e significativa de formas de produção convencionais de monocultura altamente dependentes de insumos químicos para formas de produção sustentáveis diversificadas e sistemas de produção regenerativos que procurem aumentar a produção dos pequenos produtores rurais”, o relatório conclui.

Mais informações sobre o relatório podem ser encontradas nesse website.

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E se todo mundo parasse de comer carne?

“Você alguma vez já imaginou o que aconteceria se todo mundo adotasse uma dieta vegana e parássemos de criar animais para produção de carne?” Robyn Francis, uma das pioneiras do movimento mundial da Permacultura e diretora fundadora do primeiro colégio técnico de Permacultura na Austrália, recentemente escreveu um artigo refletindo sobre essa pergunta. Segue um resumo da tradução acompanhado de alguns de meus pensamentos e reflexões sobre o tema.

O debate acerca da ‘dieta ideal’ tem se acirrado nos últimos tempos na medida em que as pessoas se conscientizam dos problemas ambientais. E muito embora esse movimento de conscientização seja importante, frequentemente as discussões tem sido baseadas em argumentos sem a contextualização devida ou em meias verdades. Recentemente eu discuti o assunto em um artigo chamado O Vegetarianismo/Veganismo e a Agricultura Regenerativa. Vale à pena repetir dois de meus argumentos compartilhados no artigo anterior. Primeiramente o que causa o impacto ambiental não é a dieta onívora ou vegetariana/vegana, é a maneira como o alimento é produzido. Segundo, nosso foco e energia deve ser contra carne e grãos produzidos pelo agronegócio e não em combatermos uns aos outros criando ainda mais divisão em nossa sociedade. Encontrei muitas das minhas opiniões e preocupações no artigo da Robyn Francis e compartilho com ela o respeito pela opção de todos escolherem sua dieta livres de julgamento. Mas o artigo dela traz várias outras perguntas e reflexões importantes que comumente são deixadas de fora do debate e que se o argumento é ambiental, valem à pena serem discutidos. Segue abaixo a tradução de alguns trechos acompanhados de comentários.

Um artigo do jornal Inglês Independent, traz o seguinte argumento:

Se todos os animais fossem removidos do planeta, a quantidade de comida disponível para os humanos aumentaria 23%. Isso se dá porque os grãos que atualmente são produzidos para alimentar os animais poderiam ser consumidos pelos humanos. (ênfase do tradutor/autor)

Robyn, que acha esse tipo de raciocínio perturbador, incrivelmente egoísta e antropocêntrico, pergunta como os animais seriam “simplesmente removidos?

O argumento vegetariano/vegano, segundo a Robyn, é movido pela perspectiva emocional de salvar bilhões de vidas animais de um fim nos abatedouros para consumo humano. Os mais radicais, Robyn complementa, propõem o fim da ‘exploração animal’ em sistemas de produção de comida, lã, laticínios, produção de ovos ou mesmo como forma de transporte. Mas as perguntas que seguem no artigo dela são:

O que faríamos com os 23.000.000.000 de animais salvos? Afinal são 996 milhões de cabeça de gado, 1.9 bilhões de ovinos e caprinos, 980 milhões de suínos e mais 19 bilhões de galinhas (artigo original em inglês nesse link). Isso sem contar patos, perus, coelhos, alpacas, búfalos-asiáticos e outros animais criados para o consumo, reflete Robyn Francis.

Esses animais serão soltos? Os machos serão castrados para evitar que proliferem pelo planeta? Qual o custo de uma operação nessa escala? Os animais serão todos levados para santuários? Se os santuários forem a opção escolhida, as pessoas tem noção de qual seria a área de terra necessária para abrigar 23.000.000.000 de animais?

Essas perguntas são elementares para uma pessoa mais conectada com a simbiose entre humanos e animais e com o mundo da produção regenerativa de alimentos como a Robyn. Mais ainda, essas perguntas deixam claro a inviabilidade de opiniões e medidas radicais geralmente vindas de pessoas das classes mais abastadas e que vivem nos grandes centros urbanos com pouquíssimo contato com a produção alimentar. Outro alerta que Robyn faz é que assim como várias espécies de animais e plantas que evoluíra juntos para compor os ecossistemas do planeta,  humanos e animais criados para o abate se desenvolveram em simbiose nos últimos 10.000 anos. Várias das espécies foram desenvolvidas e, de uma forma ou de outra, fazem parte integral da vida no campo como alimento, transporte ou força de trabalho decorrem dessa relação simbiótica. Temos o direito de tomar decisões que levariam essas espécies a extinção?

Existem ainda outras implicações que Robyn compartilha como parte de suas reflexões. Produtos animais, que em grande parte são subprodutos do processamento deles como alimento, são peças chaves na produção de plásticos, cosméticos, camisinhas, cola de madeira, ácido esteárico (usado em fogos de artifícios e pneus), pasta de dente, tintas, canetas, shampoo e condicionadores, amaciante de roupas, borracha, químicos anti-congelantes (usados em países frios e em aditivo de radiadores), papel celofane, cimento, agentes químicos impermeabilizantes, discos de vinil, fósforos, argamassa (usada em construção), vidro, remédios, hormônios, enzimas e vitaminas, insulina, suturas cirúrgicas, colas de compensado, tecidos, tinturas, esmeris, papeis de parede, velas, materiais de escritório, chicletes, açúcar refinado, vidros, cerâmicas, cordas musicais, aromatizantes, gelatinas e o mais importante: o adubo natural fornecido para produção de frutas, verduras e legumes.

Robyn reconhece que alguns substitutos já existem, como couro e tecidos sintéticos feitos quase que exclusivamente de derivados de petróleo – que são ótimos para indústria dos combustíveis fósseis. Infelizmente, Robyn alerta, a maior parte das alternativas para produzir os produtos descritos acima gastariam energia demais, seriam em grande parte baseados em derivados de petróleo e altamente poluentes. Por fim, ela alerta, alguns desses produtos não podem ser substituídos nem por derivados de petróleo nem por componentes orgânicos como o cânhamo, a soja, o milho, o óleo de palmeiras e outros produtos com base vegetal. Além disso, os animais criados para abate na agricultura regenerativa fornecem outros serviços ecológicos como controle de biomassa, fertilização, dispersão de sementes, manejo de pastagens e paisagens, manutenção da relação simbiótica entre plantas e animais. Isso sem falar de outras funções que esses animais tem no transporte, na força de trabalho, geração de energia e até mesmo como companhia para os seres humanos.

Outra lógica do vegetarianismo/veganismo que Robyn compartilha é a de que a soja e o milho produzidos para alimentar animais são os maiores responsáveis pelo desmatamento. Dentro desse raciocínio se parássemos de comer esses animais, esses grãos poderiam alimentar os seres humanos. O problema é que 90% da soja produzida é direcionada para a produção de óleo, de bio-combustíveis ou de produtos industriais (como tinta para indústria automobilística). Diga-se de passagem, quase toda soja é transgênica e produzida usando métodos que poluem e degradam o meio ambiente. Ou seja, o impacto ambiental regenerativo seria de apenas 10%. Grande parte do subproduto da soja vai para animais e para produtos alimentícios processados (que por sua vez tem causado um aumento enorme de casos de alergia por conta da maneira que é produzida).

Outro argumento compartilhado por Robyn e por mim em meu último artigo é que uma dieta baseada em grãos (quase sempre do agronegócio) também tem um impacto ambiental enorme. A produção de grãos está diretamente ligada a indústria do petróleo desde o maquinário até os insumos usados na produção. A agricultura convencional de grãos também é responsável pelos maiores índices de erosão da agricultura. Segundo relatórios da FAO a agronegócio perde 20 toneladas de solo superior para produzir 500 kilos de alimento por pessoa a cada ano. Além disso, Robyn compartilha, a produção convencional de grãos também é responsável pela morte de bilhões de animais de pequeno porte como pássaros, lagartos, anfíbios, cobras e pequenos marsupiais. Isso sem abordarmos a vida no solo que também se extingue na monocultura industrial causando ainda outros impactos como a interrupção dos ciclos hidrológicos e a diminuição drástica de nutrientes essenciais na formação dos alimentos produzidos dentro desses sistemas.

E se o problema for o metano gerado na produção de animais para o abate, pergunta Robyn?

Se o problema for metano, Robyn reflete, por quê não se comenta que a produção de arroz em áreas alagadiças produz praticamente a mesma quantidade de metano que os criados para o abate em sistemas industrializados? Isso sem falar que esse método de produção de arroz também é uma das principais causas de desmatamento em países asiáticos. Quando a poluição é causada na produção de grãos ela não conta na lógica desse debate? Robyn faz essa pergunta e exige a devida coerência. Por quê, ela pergunta, não vemos manchetes e memes na internet pedindo que todos parem de comer arroz.

Vastas porções de terra que não servem para produção de hortaliças ficariam abandonadas e inutilizadas se os animais fossem removidos do sistema de produção alimentar. Os dois terços áridos e semiáridos do mundo não servem para produção de grãos ou hortaliças e para as pessoas que vivem nessas áreas a dieta onívora é uma questão de segurança alimentar. Se a questão é ambiental, mais uma vez o problema é de onde vem nosso alimento e não o quê comemos Robyn deixa claro.

Por séculos a ingestão de carne complementou uma dieta com tubérculos, legumes e hortaliças e as receitas aproveitavam o animal sacrificado do pé à cabeça nos alimentar. Só nos últimos 70 anos, entretanto, a indústria do petróleo passou a permitir e subsidiar o consumismo alimentar gerando um impacto ambiental e desperdícios enormes no sistema de produção industrializado. Outra questão levantada por Robyn é que 40% dos alimentos produzidos hoje são desperdiçados. Ou seja, mesmo se não considerarmos o tipo de dieta e a maneira com que esse alimento é produzido, combater os 40% de desperdício já economizaria quase o dobro dos alimentos que o mundo inteiro economizaria adotando uma dieta vegana.

Mais uma vez eu pergunto: o problema (ambiental) é a dieta ou a maneira com a qual nossos alimentos são produzidos? Para os que tem mais contato e conexão com as maneiras regenerativas de produção alimentar e com as classes mais baixas que vivem em áreas rurais a resposta é clara: é possível produzir alimentos para todos enquanto regeneramos o meio ambiente, mas só se pequenos produtores rurais forem responsáveis por uma produção e distribuição local baseada em sistemas diversificados que incluam animais.

Robyn Francis é designer e educadora em Permacultura. Ela desenvolveu a propriedade ‘Djanbung Gardens’, que mais tarde serviu de sede para o primeiro colégio técnico em Permacultura no mundo (http://permaculture.com.au/happen-animals-everyone-went-vegan/).

O Vegetarianismo/Veganismo e a Agricultura Regenerativa

Existe um número cada vez maior de pessoas adotando o vegetarianismo ou veganismo por questões ambientais, espirituais ou de saúde. Embora as razões espirituais também possam ser discutidas, contextualizadas e analisadas criticamente, eu discuto aqui só algumas das questões ambientais e de saúde. De antemão também já esclareço que o objetivo não é argumentar a favor ou contra uma ou outra dieta em específico. Ao contrário, meu objetivo é contextualizar alguns dos argumentos usados de ambos os lados para que possamos avançar no debate.

É muito comum na produção de cursos e eventos, tanto no Brasil como aqui na Austrália, que ofereçamos opções de refeição vegetarianas. De fato, é cada vez mais comum entre as pessoas com inclinações ambientalistas a expectativa de que todas as refeições sejam pelo menos ovo-lácteo-vegetarianas se não completamente veganas (dieta que exclui todo e qualquer produto derivado de animais). Essa expectativa, assim como algumas crenças presentes nos debates sobre qual dieta tem menos impacto ambiental, nem sempre são baseadas em fatos. Frequentemente também alguns argumentos são baseados em ‘meias verdades’.

Primeiramente eu quero contextualizar alguns dos argumentos usados por vegetarianos/veganos e onívoros. O argumento de que a produção da carne tem maior impacto ambiental, por exemplo, é comum. Ele também é verdadeiro. Mas só quando se trata da carne, laticínios e ovos produzidos pelo agronegócio. Quando os métodos usados são regenerativos como na agroecologia, na permacultura ou no gerenciamento holístico, por exemplo, a produção de carne, laticínios e ovos podem contribuir para a criação de solo, o aumento da biodiversidade e a recuperação dos lençóis freáticos. Essa possibilidade quase sempre não é mencionada pelos que advogam em prol do vegetarianismo ou veganismo.

As pessoas que promovem o vegetarianismo/veganismo frequentemente também não abordam o fato de que a base alimentar da grande maioria dos ocidentais hoje em dia são os grãos (trigo, arroz, milho, soja, etc.) produzidos pelo agronegócio. Ou seja, mesmo quando não comemos carne, se a base da nossa dieta não é fornecida por pequenos produtores rurais, nossa dieta continua destruindo o planeta. E é fácil comprar verduras e legumes em CSAs e feiras orgânicas, mas não é tão fácil comprar arroz, feijão, milho e tubérculos, por exemplo nos mesmos lugares. Em suma, enquanto a base da nossa pirâmide alimentar (composta em sua grande maioria por carboidratos) for suprida pelo agronegócio, o debate em torno de qual dieta tem menos impacto ambiental é praticamente inútil.

Outra questão muito pouca discutida nesse debate é a do bioma ou região climática onde as pessoas vivem. É bem verdade que em regiões tropicais, com água abundante (em chuva, humidade relativa, rios e açudes) uma dieta vegetariana ou vegana é possível e os alimentos relativamente fáceis de serem encontrados (ou produzidos). Mas dois terços da população do planeta vivem em áreas semi-áridas ou áridas. E nessas partes do globo o argumento de que podemos comer as plantas diretamente ao invés de comer os animais que as comem cai por terra. Nessas regiões herbívoros e outros animais conseguem sobreviver porque eles conseguem digerir as plantas que vivem bem nessas regiões mas que não são comestíveis para os seres humanos. Nesse caso o animal converte essas plantas não comestíveis para humanos em nutrientes, calorias, sais minerais e vitaminas indispensáveis para nossa saúde.

Em grande parte, a falta de contextualização, ou seja, de entendimento das variáveis que estão sendo discutidas vem do fato de que as pessoas se distanciaram demais da produção de seu próprio alimento. Outra fração do problema está relacionado com o fato da nossa cultura cientificista ter criado um ambientalismo onde o ser humano não é parte integral do bioma a ser preservado. Ou seja, para preservar é necessário a nossa própria exclusão. Esse tipo de ambientalismo dificulta ainda mais o entendimento ecológico necessário para que nós possamos adotar as práticas e abordagens que, por copiar a forma como a natureza funciona, podem produzir nossos alimentos enquanto regeneram os lugares onde são produzidos.

Os onívoros que são muito apegados ao consumo exagerado da carne, por outro lado, também incorrem nos mesmos erros. Um exemplo clássico disso é a maneira como alguns produtores rurais tem usado as descobertas do Gerenciamento Holístico, criado por Allan Savory, para promover um consumo exagerado da carne. Savory descobriu que as manadas enormes de herbívoros de vários tamanhos que habitam as savanas ajudam a compor a humidade e a fertilidade dessas regiões. Segundo ele, a quantidade de fezes e urina espalhados pelas manadas durante seus processos migratórios são parte integral do ciclos hidrológicos dessas regiões. O insight da gestão rotacionada de grandes manadas em pastagens sequenciais é parte importante do Gerenciamento Holístico. O problema é que esse método tem sido usado em áreas tropicais, criando e mantendo pastagens onde a Agricultura Sintrópica de Ernst Gotsh, e as florestas que ela cria, seria mais apropriada. Mais uma vez temos um argumento usado fora de contexto por conta da falta de conhecimento ecológico e conexão com a região onde vivemos.

Os onívoros frequentemente também argumentam que uma dieta vegetariana/vegana não é capaz de suprir todos os nutrientes necessários para uma vida saudável. Quando o assunto é saúde, entretanto, a discussão fica difícil porque existem pesquisas científicas que embasam os dois lados. E, se por um lado as pesquisas que favorecem uma dieta onívora podem ter sido influenciadas pelo agronegócio, por outro as que favorecem o vegetarianismo/veganismo podem ter sido influenciadas pela ideologia naturalista. Meu ponto é de que não existe ciência 100% neutra. É importante saber de onde a pesquisa veio, como foi financiada, qual hipótese deu origem ao trabalho, etc. E isso vale para qualquer pesquisa nos dois lados desse debate. Mas verdade seja dita, a carne produzida pelo agronegócio e vendida em pacotes no super mercado não fornece os mesmos nutrientes que a carne produzida de maneira regenerativa com animais criados soltos. Isso porque quando fazemos parte do sistema que produz a carne, o envolvimento nos traz consciência do sacrifício daquela vida e consequentemente aproveitamos todas as partes possíveis daquele animal, otimizando assim a absorção de nutrientes, cálcio, colágeno, etc. De novo, a regra é a mesma: pensamento crítico e engajamento. Se a dieta é onívora, de onde vem o animal, como foi criado, quem o produziu, como posso aproveitar o máximo possível a vida sacrificada?

Meu objetivo com esse artigo não é esgotar, de maneira alguma a discussão, mas trazer mais informações para o debate. Outra parte do problema que temos tem haver com a escala das nossas cidades e maneira com a qual nossas habitações não fecham os ciclos de nutrientes como os ecossistemas fazem. O tamanho das nossas cidades muita vezes inviabiliza a produção local simplesmente porque o que é produzido nos arredores não é capaz de suprir a demanda dos habitantes. A questão dos ciclos dos nutrientes exige um entendimento básico de como os ecossistemas funcionam. Por exemplo, na natureza os animais se alimentam do mesmo ecossistema onde seus dejetos e carcaças são depositados. Os nutrientes, apesar de ‘viajar’ um pouco com os movimentos migratórios, normalmente ficam dentro do ecossistema a que pertencem. Da mesma forma, quando um animal é criado para o abate usando abordagens regenerativas como a Agroecologia, a Permacultura ou o Gerenciamento Holístico), grande parte dos nutrientes ficam no sistema por meio de suas fezes e urina durante sua vida e das carcaças depois que são abatidos e processados. Com mais de 75% da população mundial vivendo nas cidades, nós causamos um verdadeiro estrago ‘exportando’ nutrientes em forma de alimentos (grãos, hortaliças, laticínios e carne) do campo para cidade. E o que é pior, ao invés de usarmos nossos dejetos como um recurso (fertilizante) para produzir nosso alimento, como é feito naturalmente por todos os outros animais nos ecossistemas em que vivem, nós concentramos esses dejetos em estações de tratamento onde eles se tornam poluentes quebrando assim os ciclos naturais.

A grande verdade é que as nossas opções de dieta são conversas fúteis, que frequentemente criam divisões e exclusão social quando elas não nos guiam para uma vida harmoniosa com a natureza. A grande mudança de dieta que precisamos fazer é passarmos de consumidores do agronegócio a produtores regenerativos. Eu sei que não é possível termos toda a divisão de trabalho de nossas sociedades de maneira que todos produzam o suficiente para ser autossuficientes. Mas é possível redesenhar nossas sociedades de maneira a produzir 100% de toda nossa pirâmide alimentar em um sistema de produção alimentar que visa a INTERdependência de todos os envolvidos. Precisamos, entretanto, começar por algum lugar. Se é a dieta que é importante para você, passe a entender de onde vem seu alimento e como ele é produzido. Mas é mais importante gastar sua energia suprindo todos os ingredientes da pirâmide alimentar com alimentos produzidos localmente e de maneira regenerativa, do que tentando ‘converter’ os outros a sua escolha de dieta. Como dizia Bill Mollison, co-criador da Permacultura

A maior mudança que precisamos de fazer é a do consumo para a produção, mesmo que em pequena escala, nos nossos próprios quintais. Se apenas 10% de nós fizermos isto, haverá o suficiente para todos. Daí a futilidade dos revolucionários que não têm quintais, que dependem do próprio sistema que atacam, e que produzem palavras e balas, não comida e abrigo. (Bill Mollison)

Obs: A ideia do artigo é promover o conhecimento das formas de produção alimentar, mais que uma ou outra dieta como disse acima. Havendo interesse suficiente em forma de perguntas e críticas (construtivas) podemos marcar um dia para fazer uma sessão ao vivo pelo FaceBook de forma a facilitar a participação de todos.

Referências:

Mark Sheppard traz uma contextualização mais detalhada de como sistemas de produção de alimentos devem ser desenvolvidos de acordo com a vegetação e o clima de determinada região e de como a agricultura baseada em grãos é nociva ao planeta.

Sheppard, M. (2013). Restoration Agriculture: Real-World Permacultura for Farmers. Acres USA. USA

Allan Savory é um ecologista Sul Africano que criou o Gerenciamento Holístico. Sua abordagem de pastagem rotacionada permite a criação de solos, a recuperação dos ciclos hidrológicos e combate os processos de desertificação em qualquer região, mas mais especificamente nas regiões áridas e semi-áridas do planeta.

Savory, A. (2013). How to fight desertification and reverse climate change. TedTalk acessado em 02/01/2018 – https://www.ted.com/talks/allan_savory_how_to_green_the_world_s_deserts_and_reverse_climate_change

Outra fonte muito boa mostrando como é possível unir a agropecuária regenerativa ao empreendedorismo é o filme Polyfaces: A world of many choices, disponível por esse link. O documentário relata a abordagem de Joel Salatin para a produção de carne, laticínios e ovos e conta com depoimentos de especialistas como Michael Pollan, que escreveu O Dilema do Onívoro.

 

 

O que é um produto orgânico? Podemos confiar no rótulo?

A palavra “orgânico” assim como o conceito que ela implica foram cunhados por J. I. Rodale o editor e fundador da revista Organic Gardening and Farming nos EUA há aproximadamente 70 anos. Desde então a certificação de produtos orgânicos foi desenvolvida por produtores e ambientalistas que defendiam a produção de alimentos tendo a natureza como modelo e combatiam a utilização de maquinário pesado e a utilização fertilizantes, pesticidas e herbicidas químicos derivados de petróleo em cultivos de monocultura. No entanto, nos últimos anos pequenos produtores, cooperativas e associações tem optado por certificações alternativas, muitas vezes usando outros conceitos. Essas opções alternativas sofrem muitas críticas dos que lutaram pelo conceito orgânico por tantas décadas. Mas quais são os benefícios das certificações alternativas? Quais são os riscos que corremos buscando rotas alternativas?

A indústria dos produtos orgânicos é uma das que mais tem crescido no Brasil e em outros países nos últimos anos. Exatamente por isso, o lobby do agronegócio tem feito um esforço enorme para cooptar o conceito de produto “orgânico”. A influência do agronegócio nos órgãos certificadores é palpável. Assim como é visível o esforço das corporações e do agronegócio para sequestrar conceitos representados pelos termos “orgânico” e “sustentável”. A ultima campanha do agronegócio no Brasil, por exemplo, traz imagens “verdes” e “saudáveis” de frutas, verduras e legumes produzidos por trabalhadores felizes e sorridentes com slogan “o agro é pop, o agro é tech, o agro é tudo”. Mas a verdade é que o agronegócio vem perdendo muita popularidade e mercado na medida em que as pessoas se conscientizam que seus produtos envenenam o meio ambiente, os produtores e os consumidores com sua ‘tecnologia’.

O sequestro do conceito orgânico pelo agronegócio cresce na medida em que a população tenta optar por produtos saudáveis que sejam produzidos em harmonia com a natureza. Em um artigo recente no CounterPunch Francis Thicke relata a decadência da certificação “orgânica” nos EUA. O artigo de Francis conta que a NOSB (Conselho Nacional para os Parâmetros Orgânicos Norte Americano) votou a favor da certificação orgânica para produtos cultivados em hidroponia. Ainda segundo Francis, a decisão não deve ter sido uma surpresa para os que vem acompanhando de perto o movimento dos produtos orgânicos serem cooptados pelo agronegócio Norte Americano desde 1990.

Mandioca e milho produzidos em SAF na Fazenda Bella.

Mas se não é mais possível confiarmos nos produtos certificados, qual a solução? Pois já sabemos que no Brasil todo o alimento produzido pelo agronegócio nos envenena e degrada o meio ambiente. O Ministério da Agricultura informa que “para um produto, in natura ou processado, ser considerado orgânico ele precisa ser produzido em um sistema agropecuário orgânico ou ter sido extraído de maneira sustentável e não prejudicial ao ecossistema local” (Orgânicos, 2016). Mas se aplicarmos as definições originais dos conceitos ‘orgânico’ e ‘sustentável’ ao que é produzido pelo agronegócio, praticamente nada poderia ser chamado de orgânico. Primeiro porque o conceito original de um produto orgânico era o de uma verdura, fruta ou legume produzido em solos saudáveis e de maneira harmonizada com a natureza. Segundo porque o cultivo de monocultura de grãos, frutas ou hortaliças em áreas desmatadas e utilizando irrigação que bombeia água dos lençóis freáticos, mesmo que não faça uso de adubos, pesticidas e herbicidas químicos, não é harmonioso com a natureza.

Para que esses produtos possam ser comercializados, informa o Ministério da Agricultura, “os produtos orgânicos deverão ser certificados por organizações credenciados no Ministério da Agricultura, sendo dispensados da certificação somente aqueles produzidos por agricultores familiares que fazem parte de organizações de controle social cadastradas no Ministério, que comercializam exclusivamente em venda direta aos consumidores”(Orgânicos, 2016). Ou seja, os pequenos produtores podem até vender seus produtos na feira, mas se quiserem vender produtos com valor agregado como pães, geleias, conservas, farinhas, ou quaisquer outros produtos processados com a certificação orgânica, eles precisam passar pelo crivo do Ministério da Agricultura. Mas a burocracia, os custos e os parâmetros de construção das infraestruturas que fabricam ou processam esses produtos foram desenvolvidas para regulamentar grandes empresas e praticamente impedem o pequeno produtor de comercializar tais produtos. Produtos que diga-se de passagem são muito mais lucrativos do que as frutas e hortaliças não processadas.

A certificação dos orgânicos tem, então, dois problemas centrais. Primeiro, o lobby do agronegócio que atua de maneira a favorecer as corporações no que diz respeito a legislação que rege essa indústria. A legislação aprovada, por sua vez, dilui o contexto original do “orgânico” e permite que o agronegócio sequestre o conceito para enganar os consumidores que procuram alternativas saudáveis para sua dieta. Segundo, a centralização do poder de certificação nos órgãos do governo. Nesse caso, o poder fica nas mãos do Ministério da Agricultura, ou organizações chanceladas, que como vimos estão sujeitos à influência do lobby do agronegócio ou à mercê do contexto político vigente de qualquer governo.

Steven Gorelick, que participou do NOSB por 5 anos se desligou do conselho após a votação que permitiu a inclusão de produtos hidropônicos na lista dos orgânicos. Em seu discurso de despedida Gorelick disse que “talvez nós não devêssemos nos surpreender com o fato de que as grandes corporações estejam assumindo o poder dentro do programa de orgânicos do USDA (Departamento Norte Americano de Agricultura) porque a influência do capital corrói todos os níveis do nosso governo” (Link, tradução do autor). Gorelick afirma que uma das saídas mais viáveis seria a adoção de uma ‘extensão’ ao rótulo “orgânico” pelos produtores que estão dispostos a produzir produtos verdadeiramente orgânicos para satisfazer consumidores informados e exigentes. A recomendação de Gorelick enfrenta críticas dos vem lutando por décadas para tornar viável e confiável o selo e a certificação de produtos orgânicos. Essas críticas vem principalmente dos produtores que tiveram que enfrentar toda a burocracia e pagar todos os custos envolvidos para conseguirem a certificação. Outro argumento frequente é de que a certificação, mesmo que centralizada, e melhor que a falta de regulamentação generalizada.

Joel Salatin, autor de renome entre os adeptos de uma produção rural regenerativa, também alerta para a diluição do conceito “orgânico” quando usado pelas corporações. Segundo Salatin, “um número cada vez maior de pessoas está se conscientizando da corrupção e adulteração dentro da indústria dos “orgânicos” sancionados e certificados pelo governo. Essas pessoas estão cansadas de ouvir que 6000 galinhas confinadas em um galpão com uma área menor que 1 metro quadrado para cada uma possam ser certificadas ‘orgânicas’” (Link, tradução do autor). Gorelick também chama a atenção para incoerência que é rotular de “orgânico” laticínios e carne produzidos em confinamento, gastando quantidades absurdas de água e poluindo os lençóis freáticos com o chorume de esgoto concentrado que escoa das áreas de confinamento. Mais grave ainda é a denúncia feita por Gorelick de que os inspetores do USDA avisam ao agronegócio quando estão para fazer uma visita de inspeção de modo que todas as irregularidades possam ser sanadas (temporariamente) nos dias de visita.

Salatin defende que a melhor certificação ou maneira de saber se os produtos que está comprando são verdadeiramente saudáveis é fazer uma visita surpresa ao produtor rural para checar a fazenda, ver como seus produtos são produzidos e quais livros o produtor está lendo. Isso mesmo, os livros. Segundo Salatin, é vendo como o produtor alimenta seus pensamentos e emoções que podemos verificar seu caráter e convicções. Salatin, afirma que a maneira que ele produz um frango para o abate é um reflexo da visão de mundo que ele tem. E ele diz que seus clientes podem aprender mais sobre a visão de mundo dele vendo os livros que se ele lê do que se ele preenchesse um monte de formulários em uma repartição pública para ter uma certificação sancionada pelo governo (Joel Salatin em The Omnivore’s Dilema, Pollan, 2006).

Há alguns anos Salatin tem feito uso de uma ‘extensão’ ao conceito “orgânico”. Depois de enfrentar várias barreiras burocráticas para certificação orgânica dos ovos, leite e carne bovina, suína e de aves produzidas em sua fazenda, ele passou a chamar seus produtos “mais que orgânicos”. “Nossos clientes”, Salatin compartilha, “aderem rapidamente a ideia dos nossos produtos serem ‘mais que orgânicos’ porque essa ideia reverbera com a decepção que eles sofrem com a certificação orgânica oferecida pelo governo” (Link, tradução do autor).

Brócoli produzido em SAF na Fazenda Bella

A certificação participativa tem sido umas das soluções alternativas adotadas para que pequenos produtores possam contornar a burocracia e muitas vezes os custos de uma certificação sancionada por um órgão federal. A certificação participativa é largamente adotada pelas associações de produtores agroecológicos em vários estados brasileiros. A certificação participativa também tem alcançado sucesso na Austrália. Em vários condados australianos produtores que querem certificar seus produtos mas enfrentam dificuldades com os órgãos oficiais, tem se organizado em associações regionais. Esses produtores tem seus solos testados e suas áreas de produção visitadas regularmente por membros da associação e comunidade. Os membros tem acesso a encontros profissionalizantes, à rede de contato da associação, e ao uso da logomarca e carimbo de certificação.

Em suma, a mudança que precisa ser feita é de hábito e não de rótulos. Tanto do produtor quando do consumidor.

O consumidor que confia em uma corporação para suprir sua dieta corre, de fato, o risco de estar sendo enganado mesmo quando opta e paga mais caro pelos produtos “orgânicos”. Isso sem mencionar o fato de que provavelmente está participando da degradação ambiental. Já o consumidor que muda de hábito e procura saber quem produz seu alimento tem mais chances de comprar produtos verdadeiramente saudáveis e a preços mais justos, independente do tipo de certificação usada. Apoiando o produtor local o consumidor também estará colaborando com a regeneração do meio ambiente.

O produtor rural que não busca alternativas nos processos de certificação, fica à mercê de um poder centralizado e, por vezes, corrupto como vimos acima. Embora a certificação alternativa talvez não seja o caminho mais simples, muitas vezes buscar alternativas descentralizadas, que possam a longo prazo ser mais justas e sustentáveis (por serem mais acessíveis para todos) é necessário. Especialmente quando conceitos importantes como o “orgânico” passam a ser corrompidos pelo uso das corporações.

Referências:

Thicke, F. (11/12/2017). What does “organic” mean?. Acessado em  https://www.counterpunch.org/2017/12/11/what-does-organic-mean/

Pollan, M. (2006). The Omnivore’s Dillema: A Natural History of Four Meals. Penguin Press. USA.

Phelps, M. (September, 2009). Joel Salatin: a Beyond Organic Local Food Activist. Retrieved from https://www.motherearthnews.com/nature-and-environment/joel-salatin-local-food-zmaz09aszraw

Ministério da Agricultura (08/01/2016). Orgânicos. Acessado em http://www.agricultura.gov.br/assuntos/sustentabilidade/organicos

Nota:
Durante os meses de Maio, Junho e Julho estarei no Brasil com uma agenda de cursos de desenho ecológico, agrofloresta e pecuária regenerativa.

Imersão Agroflorestal na Fazenda Bella – entre os dia 1 d 15 de Junho estarei ministrando essa vivência com o Osmany Segall e o Sérgio Olaya.

A imersão é composta por dois cursos teóricos, duas vivências e duas visitas guiadas (ver link acima) equipando os participantes com o conhecimento e a prática necessários para desenhar, implementar e manejar sistemas agroflorestais. Durante a vivência os participantes terão a chance de desenhar consórcios, plantar, colher e ver a comercialização dos produtos.

Para mais detalhes sobre todos os cursos, datas e links para inscrição visite o link dos Cursos de Impacto Positivo 2019.

Testando o Valor Nutritivo dos alimentos

Como podemos ter certeza de que o dinheiro e o tempo que investimos plantando, colhendo ou as frutas e hortaliças que comemos está sendo convertido em refeições nutritivas? Uma das maneiras mais práticas e baratas de testar as frutas e hortaliças é usando um refractômetro de mão. Esse equipamento é usado para medir o percentual de açúcares naturais (sacarose, frutose) em líquidos. Nesse caso o suco extraído das frutas e hortaliças que queremos testar.

Ler mais…Testando o Valor Nutritivo dos alimentos