O papel da Pecuária Regenerativa na Soberania Alimentar e Biorregionalização das cadeias de produção e consumo pós-pandemia.

O momento que passamos será chave na maneira como rearrumamos os espaços e abordagens de produção, distribuição e consumo de alimentos. A pandemia atual deixa bem claro que o sistema econômico vigente visa apenas o lucro e não o bem estar dos seres humanos e da Mãe Terra.
 
Grande parte da cadeia de produção atual, tanto de carne como de grãos e outros alimentos vegetais, é totalmente dependente dos recursos fósseis. A malha que distribui todo tipo de alimentos hoje também é altamente centralizadora e projetada para beneficiar a produção em grande escala, mas totalmente incapaz de lidar com a relocalização dos sistemas de produção seja por um colapso biológico (uma pandemia), de recursos (escassez de combustíveis) ou econômico (a incapacidade de remunerar a força de trabalho).
 
Isso não acontece por acaso. O agronegócio foi projetado como plataforma de escoamento do petróleo e seus derivados, ele não foi projetado para alimentar a população mundial. Para ser fabricado, o maquinário depende da mineração, que por sua vez também depende dos combustíveis fósseis. A industria que fabrica esses implementos também depende de muita energia para se manter. Quando colocado em uso, esse maquinário depende dos combustíveis para funcionar (arando, plantando, colhendo e armazenando). Os plantios, por sua vez, também dependem de insumos, pesticidas e fungicidas químicos derivados do petróleo.
 
Em seguida toda a cadeia de distribuição depende das embalagens plásticas, de transporte rodoviário, marítimo e, por vezes aéreo, para serem distribuídos. Os consumidores, por sua vez dirigem ou usam os transporte público para chegar aos supermercados e depois voltarem para suas casas. Os resíduos gerados precisam ser coletados, separados e empilhados nos lixões…
 
A cada ano os lucros dos produtores do agronegócio caem porque sua maneira de produzir repleta o solo, a água e a biodiversidade que embasa a vida. As dívidas crescem todo ano e a viabilidade econômica desse modelo de produção depende da socialização dos prejuízos, com o Estado pagando as dívidas. Enquanto os lucros ficam privatizados nas mãos das corporações.
 
Entretanto, não há ABSOLUTAMENTE nada de errado com esse sistema. Ele faz exatamente o que foi projetado para fazer: concentrar renda e poder as custas dos recursos naturais e dos trabalhadores envolvidos da cadeia de produção. Mas a maneira que produzimos, distribuimos e consumimos nosso alimento não precisa ser assim.

 

Pequenas propriedades que operam com sistemas integrados incluindo animais produzidos agro-etno-ecologicamente – uma abordagem que coopera com os animais respeitando seus comportamentos e necessidades específicas – já são as que mais produzem alimento para o mundo. E fazem isso usando menos água, em áreas menores e empregando mais pessoas.

O Gerenciamento Holístico (GH), uma abordagem em engloba a pecuária regenerativa tem muito a somar nesse quadro. Mas o GH não é uma abordagem de rotação de pastagens ou uma modalidade específica de pecuária. É uma plataforma de gestão de recursos e tomada de decisão!
Dentro dessa abordagem é possível planejar as rotações, por meio de uma metodologia específica que leva em conta a ecologia (e.g. habitats de outras espécies, períodos de reprodução ou migração, infestações, etc.), a viabilidade econômica e a qualidade de vida das pessoas envolvidas nos projetos.
Lote adensado sendo manejado no Centro Africano para o Gerenciamento Holístico. (Foto cedida com autorização)
Entre outras coisas, essa abordagem capacita o produtor a:
  • priorizar sua qualidade de vida e base de recursos naturais enquanto busca seus objetivos financeiros,
  • ter métricas específicas para acompanhar a restauração,
  • diminuir seus riscos em relação às secas,
  • otimizar a chuva disponível fixando carbono no solo,
  • alimentar os animais sem insumos ou cilagem,
  • usar os animais para aumentar a biodiversidade de fauna, flora e fungos da propriedade,
  • fazer o controle das pastagens ou vegetação indesejada com a prática do “impacto animal“,
  • planejar a qualidade de vida para os que vivem no campo.
 
  1.  A natureza opera em todos e padrões. Uma perspectiva holística é essencial no gerenciamento. Se baseamos decisões de gestão em qualquer outra perspectiva, nós provavelmente teremos resultados diferentes dos planejados porque só o todo é real.
  2. A Escala de Friabilidade. Os ecossistemas podem ser classificados dentro de um contínuo que vai de não-friável até muito friável de acordo com o quão bem a humidade é distribuída e a velocidade que a vegetação morta se decompõe. Nos extremos dessa escala os ecossistemas respondem de maneira diferente a influencias iguais. O descanso, por exemplo, restaura a paisagem em ecossistemas não friáveis, mas causa danos nas paisagens muito friáveis.
  3. A conexão presa-predador. Nos ecossistemas friáveis um número relativamente alto de grandes herbívoros em manada, mantidos concentrados e em constante movimento como esses animais se comportam naturalmente na presença de predadores que caçam em grupo, é vital para se manter a saúde das paisagens que pensávamos que eles destruíam.
  4. É o tempo e não o número de animais presentes que causa a degradação dos ecossistemas. Em qualquer ecossistema o sobrepastoreio e a compactação pelo pisoteamento praticamente não tem relação com o número de animais. Ao contrário, tem relação com a quantidade de tempo que as plantas e o solo são expostos aos animais.
 
As métricas ecológicas presentes no GH garantem o monitoramento eficiente dos processos de restauração. Garentem que o fluxo energético, o ciclo hidrológico, a ciclagem de nutrientes e a biodiversidade estão sendo melhorados na medida em que produzimos.
 
A crise econômica mundial de 2008, a greve dos caminhoneiros de 2018 no Brasil e a pandemia do Covid-19 nos mostram claramente que se queremos ter qualquer resilência nesses momentos precisamos garantir a existência de redes de produção, distruibuição e consumo biorregionais. Precisamos garantir a diversidade e a soberania alimentar de TODAS AS PESSOAS. Precisamos também garantir que após o colapso nossas sociedades e o sistema econômico não retornem ao seu modo de gestão reducionista que só consegue produzir alimentos, moradia e bens de consumo às custas da Mãe Terra e da saúde e bem estar humanos.
 
Nesse sentido o Gerenciamento Holístico, como plataforma de tomada de decisão para gestão de recursos em sistemas complexos e para uma produção de carne, ovos e laticínios que seja regenerativa e atenda a demanda de todas as pessoas, é uma ferramenta essencial.
 
O vídeo abaixo mostra alguns casos de sucesso na restauração do solo e ciclos hidrológicos usando a pecuária regenerativa.

 

 

Veganos, esse vai especialmente para vocês!

Tudo que consumimos ou usamos vem da terra e eventualmente volta para ela. Quanto mais anti-natural for o processo usado para produzir [alimentos], criar [animais] ou manufaturar [produtos], no fim das contas mais ele terá um impacto danoso para o meio ambiente. 

Nota: Artigo originalmente publicado em inglês por Sarah Savory e posteriormente traduzido por Eurico Vianna, PhD, com permissão da autora. 

De forma para que para todos os veganos, se você não quer comer carne nem usar produtos de origem animal, não o faça. Mas pelo amor que você tenha a toda a vida em nosso lindo planeta e o pelo futuro dela, não troque cegamente essas opções por produtos de origem animal falsa, porque a longo prazo os processos usados para produzir todas essas coisas artificiais causará muito mais devastação ao nosso meio ambiente. 

“O Santo Cálice da sustentabilidade é um sistema de cadeia fechada”. Por exemplo, na questão do couro a natureza criou seu próprio ‘sistema de cadeia fechada’. A carcaça de um animal pode se decompor no chão nutrindo plantas que serão consumidas pela próxima geração daquela espécie. O couro artificial, por outro lado, não se decompõe e não pode ser refeito como outro item de couro artificial a não ser que passasse por um processo de quebra completa da cadeia molecular para só então poder ser reutilizado. 

Veja, por exemplo, os ingredientes necessários para a produção completamente anti-natural do hamburger vegetal da Beyond Meat, e isso sem nem discutirmos os químicos e outros produtos necessários para construir e operar os laboratórios onde a “carne” é produzida: água, isolado de proteína de ervilha, óleo de canola prensado por expeller, óleo de coco refinado, proteína de arroz, sabores naturais, manteiga de cacau, proteína de feijão de Mung, metilcelulose, amido de batata, extrato de maçã, sal, cloreto de potássio, vinagre, concentrado de suco de limão, lecitina de girassol, pó de suco de romã, extrato de suco de beterraba e trigo geneticamente modificado. Agora analise a produção de cada um desses ingredientes separadamente e pesquise o impacto deles no meio ambiente. 

Quando mais anti-natural (ou artificialmente fabricado) o produto é mais impacto negativo ele tem em nosso meio ambiente. Os animais produzidos pela pecuária intensiva industrial, por exemplo, são produzidos de maneira completamente artificial, o que não é apenas cruel e bárbaro, mas também destrutivo para o meio ambiente. O mesmo serve para qualquer cultivo na agricultura industrial ou organismos geneticamente modificados.

Em última instância, qualquer coisa que degrada o meio ambiente, destrói nossa cultura, nossa sociedade e nossa economia porque essas coisas estão intricadamente conectadas em um Todo complexo: pessoas, terra, economia… nenhuma dessas coisas pode funcionar isoladas umas das outras.

Allan Savory com sua filha Sarah e netos no Centro Africano para o Gerenciamento Holístico.

A Tomada de Decisão Holística respeita esse fato e se assegura de estar sempre levando todos eles em conta simultaneamente. Isso significa que independente de quem somos, de onde vivemos, de quais são nossas opções pessoais, ou quais são nossas diferenças culturais, nós estaremos sempre tomando a melhor decisão possível para o meio ambiente que sustenta [toda] a vida.

E a Estrutura do Gerenciamento Holístico introduz as produtoras a uma ferramenta biológica nova para restaurar as pastagens [pradarias e savanas]: os organismos vivos.

A Natureza não se preocupa com o indivíduo. É a força do todo que é vital.

Uma manada é tão forte quanto seus integrantes mais fracos e é por isso que a natureza desenvolveu predadores que atuam em bandos [alcatéias]. 

Esses predadores tem duas funções essenciais:  

A primeira é assegurar o impacto preciso de manadas enormes. Os predadores mantém as manadas bem agrupadas e em constante movimento de forma que suas patas estão sempre estimulando e aerando o solo enquanto pisoteiam e fertilizam a vegetação com suas fezes e urina e suas entranhas fornecem a umidade vital que os micro-organismos precisam durante as longas estiagens para se manterem ativos e capazes de decompor biologicamente a matéria orgânica seca; formando assim uma camada protetora perfeita, com uma cobertura de solo fértil (mulch) que o mantém protegido até as próximas chuvas.

O outro trabalho vital do predadores é selecionar os animais mais fracos de maneira a manter aquela manada ou espécie tão forte quanto seja possível. 

Entretanto nós surgimos com um novo poder sobre o fogo e o uso de tecnologia e começamos a desconsiderar e desrespeitar completamente as rigorosas leis e equilíbrio da natureza. Nós exterminamos as grandes manadas, cercamos os animais, removemos os predadores do topo da cadeia alimentar (incluindo nós mesmos) dos ecossistemas, nós tomamos decisões infindáveis por espécies em isolamento do todo e isso bagunçou tudo de forma que agora até nossa própria existência está em risco. Está na hora de corrigirmos isso.

Muitas pessoas já estão usando o planejamento holístico de pastagens como ferramenta na pecuária para imitar o movimento natural das manadas que as pradarias precisam ter para sobreviver – emprestando as patas dos herbívoros para restaurar o solo até que consigamos mais uma vez aumentar a biodiversidade e os números da vida selvagem para que ela possa, em primeiro lugar, desempenhar novamente a função para a qual foi desenvolvida pela natureza.

O Gerenciamento Holístico conectando tudo, porque tudo está conectado. 

O que a Permacultura não é – Um estudo resumido

A permacultura foi criada como resposta para um contexto social, econômico e ecológico específico – o de um colapso gravíssimo que já vem se desenrolando desde a revolução industrial.

Na medida em que ela ganha tração como ferramenta que fortalece os que se propõem a fazer a transição seja por opção ou já por necessidade, ela encontra resistência entre aqueles que tem dificuldade de aceitar que já vivemos uma crise ecológica e econômica de proporções globais e sem retorno. 

Para a maioria das pessoas é difícil imaginar um projeto de civilização que não seja o capitalista sem que sejam remetidos a um dualismo limitante. O que surge imediatamente para a maioria é um medo do comunismo ou socialismo tanto pela maneira que se manifestaram no passado quanto pela distorção da propaganda ocidental.

Muitas dessas pessoas que não conseguem ver um viver que vá além do capitalismo tem se apropriado da permacultura trazendo incoerência e confusão para os que buscam nela uma ferramenta eficiente de transição. Esse trabalho busca abordar de maneira resumida porque essa apropriação acontece e o que podemos fazer para evitá-la.  

A permacultura foi criada como resposta a uma ideologia que já falhava com os seres humanos e a natureza na década de 1970. Nessa perspectiva ela se pautou, entre várias outras fontes, pelo relatório Limites do Crescimento. Um estudo acompanhado de uma simulação computadorizada lançado em 1972 e que desde aquela época já dizia que não podemos sustentar uma economia que exige crescimento infinito explorando os recursos limitados do planeta. 

Naquela época ainda vivíamos dentro da capacidade do planeta e as recomendações eram no sentido de usarmos os recursos restantes, principalmente os combustíveis fósseis para preparar uma transição para outros modos de viver com outras fontes de energia. Mais de 30 anos se passaram e grande parte das simulações se concretizaram:

    • O nível do mar subiu de 10 a 20 cm desde 1900. As geleiras que existem fora das calotas polares estão derretendo e a extensão e profundidade das camadas de gelo marinho no Ártico estão diminuindo durante o verão;
    • Em 1998 mais de 45% da população mundial já vivia com menos que $2 dólares por dia em média. Enquanto isso o ⅕ mais rico da população mundial já detinha 85% do PIB mundial e a distância entre ricos e pobres cada vez aumenta mais,
    • Em 2002 a FAO, departamento de agricultura da ONU, estimou que em torno de 75% das áreas de pesca já haviam chegado ao seu limite ou extrapolado sua capacidade. A indústria pesqueira do bacalhau no Atlântico Norte, antes sustentável por séculos, colapsou e muitas espécies foram extintas.
    • A primeira avaliação global de perda de solo superior por erosão, baseada em estudos de centenas de especialistas, descobriu que 38%, ou em torno de 1.4 bilhões de acres de terras agriculturáveis já foram degradadas.
    • 54 nações tiveram seu PIB per capita em declínio entre 1990 e 2001.

Esses são dados do site da Donella Meadows e alguns de seus colegas em uma avaliação 30 anos após o relatório original e já com quase 20 anos de publicação. Outro dado que não mencionei é que desde a década de 1970 que a dívida pública mundial SEMPRE CRESCE MAIS QUE A SOMA DOS PIBs de todos os países (Nate Hagens, 2012). 

A preocupação da permacultura com a sustentabilidade e o pico do petróleo se revela pela afinidade com o trabalho do ecologista Howard Odum e uma obsessão constante pela auditoria e eficiência energética dos sistemas propostos.

Do ponto de vista social, essa estudo revela as origens da permacultura no movimento anarquista, no sentido daquelas organizações sociais mais igualitárias e distribuídas onde todos participam diretamente das decisões. Revela também um planejamento deliberado de interações e atitudes que visam restaurar os tecidos sociais rompidos pela competitividade extremada do sistema vigente. 

É essa base anárquica que enxerga e visa a cooperação e não a competição como característica evolutiva que permitiu a humanidade chegar até aqui. Também é essa base que busca tornar governos e estruturas centralizadoras obsoletas por meio de um desenho de vida no qual somos mais responsáveis pela nossa moradia, energia, água, alimentos e resíduos gerados.

E aqui vale ressaltar o trabalho do Paulo Campos, ativista ambientalista do Crato, no Ceará, que tem garimpado as citações e referências ao pensamento anarquista na literatura da permacultura desde o Permacultura 1, o livro que lançou essa abordagem, até os mais atuais.

Então a gente vê como a ética da permacultura – o cuidado com a Terra (e aqui devemos ver ‘terra’ tanto como o terreno que ocupamos e produzimos até a Mãe Terra), o cuidado com o próximo e a partilha do excedente – é embasada em limites ecológicos e energéticos muito concretos já há muito tempo cientificamente comprovados.

E é a constatação desses limites ecológicos e energéticos que também rege o ‘desenho de comportamento’, os princípios eco-anarco-sociais que visam descentralizar e redistribuir a utilização de recursos e a tomada de decisões.

A Permacultura como ferramenta 

Não me considero um permacultor, um porta-voz e menos ainda um guardião.

Eu enxergo e aplico a permacultura como uma das ferramentas interdisciplinares para entender sistemas ecológicos, sociais e agroecológicos, para promover alfabetização ecológica, noções de economia biofísica e integrar junto com outras abordagens meus planejamentos de áreas.

A Agricultura Natural concebida pelo Fukuoka, o Gerenciamento Holístico do ecologista Allan Savory, a agrofloresta sucessional que se desenvolve no Brasil hoje são outras ferramentas que uso. E aprendi a organizar essas ferramentas dentro da Escala de Permanência do Australiano P.A. Yeomans, muito pela influência de outro australiano, o Darren J. Doherty.

Entretanto, quando encontramos uma ferramenta boa, existe uma tendência de querermos explorar suas capacidades, seus limites, as várias maneiras como pode ser usada muitas vezes para além das finalidades para qual ela foi criada. Para explorar todas essas possibilidades é necessário um aprofundamento, uma análise ontológica mesmo, aquela que vai além da infinidade de definições existentes para revelar sua natureza plena e integral.

O que a permacultura não é e onde ela não deve ser usada

A permacultura tem como princípio o foco nas soluções e não ‘no problema’. Como recomendava Buckminster, o ideal é criarmos uma nova realidade que automaticamente torne o problema ou paradigma anterior obsoleto.

Esse princípio frequentemente guia a gente para que não gastemos tempo com interações pouco proveitosas seja pessoalmente ou na internet. Isso tem causado um vácuo de conteúdo que permite o surgimento de ‘expoentes’ por vezes mal informados e por outras mal intencionados para ocupar esse espaço. Isso se dá mesma maneira que um sistema pouco diverso ou o solo descoberto convidam as chamadas ‘ervas daninhas’ para colonizar os nichos que ficaram abertos.

Por ter essa perspectiva e por entender a internet como uma oportunidade descentralizada de disseminação de ideias e alternativas eu me pego interagindo em situações nas quais muitos dos educadores mais velhos não interagem.

E foi essa preocupação com a permacultura como ferramenta, como meio de alcançarmos alternativas viáveis, que me motivou a escrever esse texto.

Não vejo a permacultura como fim, como um objeto ou instituição que precisa de normas ou guardiões. Mas gosto de deixar minhas ferramentas afiadas e prontas para cumprirem suas funções da melhor maneira possível. Por isso tenho investido tempo interagindo em alguns grupos frequentemente compartilhando minha visão do que a permacultura não é.

A permacultura não tem religião!

E não é plataforma de lançamento de falsos Xamãs ou gurus. A permacultura não precisa de complementação religiosa ou espiritual! Ela reverencia a natureza e facilita nossa conexão com ela por meio da leitura de paisagem e ensinando seus princípios de uma maneira que cria pontes para que à partir do entendimento intelectual possamos chegar a percepção mais profunda de que também somos natureza. É assim que ela cumpre sua função de religare, palavra latina que deu origem ao termo ‘religião’ e que significa uma reconexão com a natureza que nos cerca.

A permacultura não é vegetariana, nem Vegana!

Nem poderia ser pois ela tem como base a ecologia cultivada, o entendimento das pirâmides tróficas para aumentar a eficiência energética nos sistemas projetados. Especialmente na pequena e média escalas que favorecem a agricultura familiar e pensando na grande maioria que vive em situação de risco social e alimentar.

Sua função, portanto, é entender e usar essa rede intricada com seus processos de adaptação, de competição e cooperação e de conexão presa-predador de forma a restaurar os ecossistemas onde atua enquanto provê para nós seres humanos.

Como princípio, a permacultura prega o foco na solução. De forma que se a carne produzida pela agroindústria é um dos problemas ambientais para o qual o veganismo se apresenta como resposta, a solução não é deixarmos de comer carne, é comermos a carne produzida de forma regenerativa. 

A permacultura nunca pregou o vegetarianismo ou veganismo como alternativas para o ativismo ambiental. As escolhas pessoais devem ser respeitadas. Mas apresentar o veganismo como ‘uma evolução’ na permacultura, da consciência ambiental e dos sistemas de produção regenerativos devem ser combatidas é uma distorção sem base na ecologia ou na teoria da abordagem.

Bill Mollison explicava isso muito bem e tanto seus livros quanto aulas gravadas tem registro desse posicionamento. David Holmgren e sua companheira Su Dennett levam sua propriedade, Melliodora, como um estudo de caso a longo prazo detalhado tanto a produção anual como as conquistas em direção a auto-sustentabilidade. Apesar de uma dieta majoritariamente ovo-láctea variadíssima, eles também comem carne de caça e dos frangos que criam.

A permacultura não é hippie! 

Pelo menos não no sentido atual onde as pessoas que negam “o sistema” terceirizam para os outros o financiamento de sua educação, bem estar ou oportunidade de experiências transcendentais. Para esses hippies o argumento é sempre “não ter recursos”, enquanto de alguma forma milagrosa não faltam recursos para as drogas de sua preferência, sejam elas o que forem… açúcar, café, álcool, cigarro, maconha, dmt, md, baladas, festivais, viagens… etc. 

Agora, no sentido original, anticolonialista onde o movimento de abandono da sociedade de consumo é uma decisão minimamente coerente em busca da autonomia, como foi o caso de Gandhi na Índia contra o colonialismo Britânico, aí sim ela hippie.

Hippie no sentido de entendermos que devemos produzir mais do nosso alimento, das nossas roupas, cuidar mais da água que mantém nossa vida e de como lidamos com o lixo que geramos… No sentido de tudo isso ser um processo contínuo, uma direção, um norte e de que estamos juntos seguindo essa trilha, uns mais a frente, outros mais atrás e está tudo bem assim. Nesse sentido alguns podem classificá-la como “coisa de hippie”; e nesse caso isso é um elogio!

E por último…

A permacultura não é liberal, nem neoliberal e muito menos anarcocapitalista.

Todas essas ideologias enxergam a natureza como parte da economia e não a economia como parte da natureza. Elas endeusam a propriedade privada e justificam o acúmulo de privilégios a partir de uma pseudo-meritocracia. Essas ideologias são, portanto, incapazes de cumprir com os princípios éticos do cuidado com a terra, do cuidado com próximo e a da partilha do excedente. 

Embora haja exceções, via de regra a filantropia capitalista tem como objetivos principais a isenção fiscal e o marketing pessoal e social. Muito raramente os que se alinham com qualquer versão da ideologia capitalista conseguem se alinhar com “a partilha do excedente”. E incluir a partilha do excedente como ética fundamental foi a maneira que os co-criadores encontraram de embutir na permacultura a distribuição de renda, terra ou qualquer outro tipo de excedente e garantir que a abordagem e o movimento fossem sempre progressistas e estivessem sempre alinhados com a justiça social e não com a caridade.

Nada impede que pessoas de qualquer inclinação usem práticas sustentáveis ou regenerativas, mas como muito bem explica minha amiga Camila Bianchi, “elencar ecotécnicas não é fazer permacultura”. 

Ações, práticas e projetos tocados por pessoas alinhadas com qualquer versão da ideologia vigente não constituem a prática da permacultura pois não conseguem conceber a partilha de qualquer que seja o excedente gerado.

Portanto, a permacultura é política! Porque, de novo, como a Camila coloca muito bem, quando decidimos como usamos e ocupamos o solo e outros recursos naturais, como planejamos de forma integral os fluxos e ciclos, como aliamos conhecimentos tradicionais com tecnologias contemporâneas são todas decisões políticas. 

E no caso da permacultura são decisões políticas com bases eco-anarco-socialistas muito bem documentadas na literatura e exemplo dos co-criadores. Agora…

Como difundir amplamente a permacultura como alternativa para um novo modo de ocuparmos o planeta? Como garantir que a abordagem e o movimento social se mantenham fiéis às suas bases ideológicas? 

A resposta curta para a primeira pergunta é: estudando e praticando da forma mais coerente possível a literatura e o exemplo deixado pelos seus co-criadores.

A resposta curta para a segunda pergunta é: não há como ter essas garantias! 

A apropriação da permacultura por pessoas e movimentos totalmente desalinhados com ela como o liberalismo, o anarcocapitalismo e outros absurdos como o MGTOW (os Homens Seguindo Seu Próprio Caminho) é a prova de que não há garantias nesse sentido.

Apresentar a permacultura como alternativa ampla, autônoma, replicável e com difusão em redes distribuídas é um desafio de proporções gigantescas.

O sistema vigente apodrece as relações humanas, rompe com as fábricas do tecido social e assassina a natureza e não existe uma solução única para situações complexas.

Mas a permacultura já foi criada como solução para esses problemas e com o intuito de ser uma alternativa que pudesse se difundir rapidamente. Quando o Bill Mollison autoriza qualquer pessoa que tenha um certificado de um PDC nas mãos a ensinar tão logo termine o curso, ele está compartilhando o excedente em autoridade que ele tinha. 

Mais ainda, ele está se valendo dos princípios anárquicos para criar uma rede onde o poder e o conhecimento estão distribuídos igualmente. Ele está apoiando a criação de uma rede que quando começa e se replicar, faz isso de maneira rizomática e se estabelece sem centro definido, dificultando portanto qualquer iniciativa de combatê-la.

É óbvio que a preocupação com a qualidade é necessária e importante. Mas se nos posicionamos como guardiões não estaremos sendo coerentes com a origem e princípios anárquicos da permacultura.

As pessoas alinhadas com ideologias capitalistas tem se apropriado da permacultura e de sua narrativa, como uma ‘erva daninha’ que coloniza um espaço onde o solo está exposto, como disse acima, mas essa ‘colonização’ não é regenerativa. A melhor maneira de salvaguardarmos a qualidade da permacultura ensinada é ocupando os espaços disponíveis com conteúdo POLITIZADO de qualidade. 

É tendo planos detalhados de multiplicação e  apoio para novos ativistas, cada um na sua vocação. Uns ensinando, outras produzindo no campo, outras desenvolvendo tecnologias apropriadas, outras projetando, e alguns fazendo um pouco de tudo. 

Eu fiquei muito feliz, depois de insistir na necessidade de sucessão do movimento já há um tempo, de ver o David Holmgren em uma entrevista recente dizer que:

“Sucessão é enormemente difícil, especialmente entre pensadores e ativistas ambientalistas radicais e individualistas. … Aprender como navegar essas mudanças que inevitavelmente chegarão para todos nós enquanto envelhecemos é um caminho muito importante para o futuro. E é muito importante no contexto da cisma crescente em equidade entre os jovens que não tem acesso à terra e as pessoas mais velhas que tem propriedades simplesmente por conta do acaso da história, das bolhas imobiliárias e outras dinâmicas que não tem nada a ver com nosso trabalho duro ou o que fizemos sensivelmente. Então esses assuntos são delicados e eu não acredito que existam respostas fáceis, mas [a sucessão] é central no pensamento de vários pioneiros da permacultura, no sentido de como o trabalho deles pode continuar de alguma forma” (Entrevista para o Gardening Australia, 07/02/2020)  

Eu só acrescentaria que a partilha da autoridade como excedente acumulado, como disse antes, também é central.

Então, em resumo, como possibilidades para que alcancemos uma massa crítica em tempo de preparar Santuários de Sanidade Mental e Ecológica (que é como eu venho chamando esses espaços), em tempo de salvar a humanidade da extinção iminente eu recomendaria:

    • Facilitarmos o acesso dos jovens, principalmente os de baixa renda, à permacultura com vistas na formação de agentes locais,
    • A construção de comunidades de prática com foco no fomento (e não vigília),
    • A produção de conteúdo multimídia de qualidade amarrando as ligações entre as bases ideológicas e as técnicas utilizadas, 
    • O hábito deliberado de endossar o trabalho dos novos talentos, de estabelecer referenciação cruzada entre as diferentes gerações, 
    • O enfrentamento direto da apropriação com base na literatura e exemplos dos co-criadores.

Eu realmente acredito que existem muito mais alternativas, mas essas são algumas das que eu vejo mais claramente se alinhando com a intenção original dos co-criadores, na minha interpretação é claro, e que podem explorar melhor o espaço da internet para difundir uma permacultura de qualidade.

Muito obrigado!
Eurico Vianna

Nota de edição 19/02/20 – À partir do feedback de amigos e colegas fiz algumas edições no texto. Uma das dificuldades com esse texto é que foi produzido para guiar uma fala e não como artigo. Na medida do possível irei adaptando as versões.
– O título foi alterado trocando ‘ontologia’ por ‘estudo’ por sugestão do Bernardo do grupo ‘Só Permacultura’. Segundo ele, filosoficamente ‘ontologia’ não é aplicada quando a narrativa escolhida é definir pelo que não é. Embora na sociologia esse recurso seja usado, achei válida a sugestão.
– A Suzana, educadora e ativista do Yvy Porã em SC, sugeriu explicar melhor os conceitos de ecologia cultivada. Também achei válida a sugestão.  

Empreendedorismo rural em redes distribuídas por Guilherme Tiezzi

“Novos modelos de negócios estão emergindo.  Estruturas abertas, descentralizadas, auto-organizadas permitem que projetos e empreendimentos avancem de maneira diferente, permitindo que não o empreendedor, mas o grupo de empreendedores, possam compartilhar seus sonhos e fazer com que o empreendimento, alem da dimensão econômica, possa resgatar ou fazer brotar, as questões filosóficas na essência do empreendimento.” É essa a proposta que Guilherme Tiezzi traz para o campo, para a agricultura regenerativa. Uma visão holística que engloba teoria, prática, qualidade de vida, ética, espiritualidade e economia.

Guilherme é empreendedor, designer e animador de redes colaborativas com foco especial em redes de negócios entre grandes e pequenas organizações. É cofundador Value Builders – RVA (Rede de Empreendedores Colaborativos) e da Agenttia (Inovação e Negócios em Redes de Distribuição). Atualmente ele traz esses conceitos e práticas para a EcoAraguaia, a primeira fazenda a ser idealizada dentro do conceito Fazenda do Futuro, dentro do qual a Natureza é reconhecida com um ser com direitos como os humanos. A EcoAraguaia busca gerar prosperidade e rentabilidade integrando-se à comunidade local e ao meio ambiente. É mais um Santuário de Sanidade Mental e Ecológica que surge construindo uma realidade na qual nos entendemos como Natureza e onde nosso viver otimiza a vida como um todo no planeta.

Hoje a agricultura convencional trabalha com tecnologia petroquímica, transmutações genéticas e maquinário para produzir comódites para o mercado financeiro. Ela concentra renda e terras nas mãos de corporações e é responsável por mais de 30% da emissão dos gases poluentes que aceleram as mudanças climáticas e a sexta maior extinção em massa da história da Mãe Terra. Ela também é responsável pela degradação de solos em escala planetária. Para esconder o fato de que esse modelo de produção nada tem a ver com produção de alimento, milhões são gastos todo ano mentindo, confundindo e desinformando para seguir lucrando com a devastação.

Cabe a nós, proponentes e co-criadores do paradigma regenerativo, produzir, educar e informar com a verdade e segurança ecológica necessárias. Cabe a nós gerenciar nossos recursos de forma holística englobando a qualidade de vida, a restauração ecológica e a viabilidade econômica de quem produz no campo. E essa é uma contribuição importantíssima do Guilherme – a visão, knowhow e dedicação para os empreendimentos rurais, além de regenerativos, sejam realizados em redes distribuídas confirmando em nossas transações econômicas e interpessoais a abundância da Natureza.

No texto que segue Guilherme compartilha sua visão da gravidade dos desafios e como podemos transporte-los. Obrigado, irmão! As pessoas e lugares à sua volta tem mais vida e sentido por conta da sua dedicação!

Aja agora! Estamos em Batalha….

Segundo uma lenda Tibetana* um período sombrio e ameaçador dominado por poderosos bárbaros ameaçará nosso planeta com armas de alta tecnologia e devastador poder de destruição. Enquanto os bárbaros colocam toda sua energia na destruição de uns aos outros  emerge em nosso planeta o Reino de Shambhala.

Um reino sem terras, sem propriedades; você não pode ir lá ! Um reino que  existe no coração e mente de cada guerreiro Shambhala. Esses guerreiros não são reconhecidos por uniformes, marcas,  logos ou por pertencerem a uma organização. Não possuem armas de destruição mas precisam vencer os bárbaros dentro de seu campo de atuação,  penetrando no seu centro de poder e comando, onde suas decisões são tomadas.

Chega o momento onde os guerreiros Shambhala precisam de uma enorme coragem, uma coragem tanto física como moral. Eles precisam enfrentar e desarmar os poderosos bárbaros e sabem que podem e precisam fazer isso. Sabem também que as armas são criações da mente humana e, por essa mesma razão, podem ser destruídas também por ela. Os guerreiros Shambhala sabem que o grande perigo que ameaça a terra não vem de forças externas. Sabem que esse perigo e terrível medo vem de nossas próprias escolhas e relacionamentos.    

Duas armas são utilizadas pelos Shambhala: a compaixão e a intuição.  Ambas são necessárias.  

A primeira nos dá o combustível para agir e nos mover em benefício de todos os outros seres humanos. Mas sozinha ela pode nos queimar!   Precisamos então da segunda também. Precisamos  da intuição  para sentir a interconectividade entre tudo e todos. Ela nos faz perceber que a batalha não é entre pessoas do bem e pessoas do mal, nos faz perceber que a batalha entre o bem e o mal está dentro do coração de cada um de nós. Através dela uma ação aparentemente isolada pode afetar toda a rede que pertencemos, trazendo consequências imensuráveis e inimagináveis.

Mas intuição sozinha pode ser muito fria para nos manter em movimento. Pode nos congelar! Por isso precisamos do calor da compaixão e a continua abertura e inquietude pelas dores do mundo. As duas armas ou ferramentas são necessárias para os Guerreiros Shambhala!

Precisamos agir! Agir com compaixão e intuição. Agir com atenção e equilíbrio. O momento é o agora. Presente. Não violento. Pacífico.

Temos que para isso sonhar, planejar, fazer e celebrar. De cada 1.000 projetos sonhados, 100 passam para a fase de planejamento, 10 são realizados e 1 é celebrado e segue em um novo ciclo empreendedor.  A principal razão está na estrutura hierárquica, centralizada e controladora em que os projetos são concebidos e na forte dependência do capital. É nesta estrutura que o empreendedor se isola e solitariamente empreende e sofre com negócios onde a única dimensão a ser buscada é a  dimensão econômica. As pessoas, inclusive o empreendedor, são continuadamente diminuídas. São recursos desumanos. Toda relação passa a ser um relação utilitarista e transacional, uma relação entre cliente e fornecedor, de compra e venda, onde cada vez mais, o outro é um objeto!

Nestes 10 anos convivi intensamente com vários empreendedores de vários setores, portes e gerações e para a grande maioria deles o “sonho” esta fora da empresa.  Existe uma “desconexão” entre  seus valores mais íntimos, humanos e colaborativos, e as atitudes severas e desumanas consideradas necessárias para a sobrevivência do negócio. A maioria tem olhares para um mundo da escassez onde o acumulo rápido de recursos a eliminação do concorrente é o que realmente importa. Bárbaro!  

O sonho de resgate do trabalho com significado, da colaboração e da valorização de ser humano está tomando força a cada pequena ação, a cada atividade, a cada projeto a cada empreendimento, no coração de cada um de nós. Novas tecnologias de comunicação, redes sociais, novas gerações de empreendedores e um velho mundo definhando por esgotamento de recursos são ingredientes para a emergência do novo.

Novos modelos de negócios estão emergindo. Estruturas abertas, descentralizadas, auto-organizadas permitem que projetos e empreendimentos avancem de maneira diferente, permitindo que não o empreendedor, mas o grupo de empreendedores, possam compartilhar seus sonhos e fazer com que o empreendimento, alem da dimensão econômica, possa resgatar ou fazer brotar, as questões filosóficas na essência do empreendimento.  

Empreendimentos buscam a reconexao do humano com o humano e destes com o planeta terra. Resgate de nossa natureza! Um novo empreendedor em rede, conectado, espiritualizado, esta formando e sendo formado por um novo e vivo ecossistema, em vários lugares, ao mesmo tempo, com o mesmo impulso… esse novo empreendedor vê um mundo com olhos da abundância, permitindo que o fluxo incondicional de recursos, de dinheiro, de bens, de conhecimento, de sofrimento e de amor, flua e construa uma nova cultura de paz. Shambhala!

A Value Builders é somente um palco, um campo de energia, em conexão com um campo maior e fará parte do todo sendo todo da parte. Fractal!  Um grupo de humanos inquietos e criativos, buscando a partir do encontro e do fazer desenvolver seus sonhos e empreendimentos.

Não vamos abrir mao de nenhum pedacinho do nossos sonhos. Todos podemos ter 100% de deles realizados. Vamos empreender a mudança que queremos ver no mundo, transformando o mundo e nos transformando.   Trabalhemos e amemos, conectados com nossa essência, essência social e espiritual. Espero, em contínua atividade, que nos próximos 10 anos possamos ver uma rede de negócios e empreendedores ativa, rentável, viva e contemplativa!

Agradeço de coração a todas as pessoas que me proporcionaram encontros, aprendizados e presença nestes 10 anos de “batalha”. Não empreenderia absolutamente nada sem vocês.

Guilherme Plessmann Tiezzi , 2012

Texto originalmente escrito no e-book de 10 anos da Value Builders.

Se você quer salvar o mundo, veganismo não é a solução – por Isabella Tree

A produção intensiva de carne e laticínios é uma praga, assim como as lavouras de soja e milho. Mas há uma alternativa.

“chamados para que adotemos alimentos completamente à base de plantas ignoram algumas das ferramentas mais poderosas que temos para mitigar esses problemas: os animais herbívoros.” Imagem – Matt Kenyon

O veganismo explodiu no Reino Unido nos últimos dois anos – de estimados 500 mil pessoas em 2016 para mais de 3.5 milhões, ou 5% de toda a população hoje. Documentários formadores de opinião como Cowspiracy e What the Health jogaram os holofotes em cima da indústria de carne e laticínios expondo os impactos na saúde animal e humana e no meio ambiente.

Nota: Texto originalmente publicado no The Guardian por Isabella Tree. Os links originais foram mantidos e estão todos em inglês. Tradução livre Eurico Vianna, PhD.

Nossos solos estavam quase mortos. Agora temos 19 tipos de minhocas e 23 espécies de besouro-rola-bosta em um único piquete.

Entretanto os chamados para que adotemos alimentos completamente à base de plantas ignoram algumas das ferramentas mais poderosas que temos para mitigar esses problemas: os animais herbívoros.

Ao invés de sermos seduzidos por exortações para comermos mais produtos produzidos à partir da soja, milho e grãos produzidos industrialmente, nós deveríamos encorajar formas sustentáveis de produzir carne e laticínios baseadas em formas tradicionais de rotação, pastagens permanentes e pecuária regenerativa (NOTA “CONSERVATION GRAZING). Deveríamos, pelo menos, questionar a ética de aumentarmos a demanda por cultivos que requerem quantidades enormes de insumos químicos como fertilizantes, fungicidas, pesticidas e herbicidas, enquanto demonizamos abordagens alternativas para pecuária que podem restaurar os solos e a biodiversidade e sequestrar carbono.

Em 2000 meu esposo e eu mudamos nossa fazenda de 1.400 hectares (3.500 acres) em West Sussex para a produção de gado Longhorn inglês, porcos Tamworth, pôneis Exmoor e veados-vermelho e gamos em pastagens extensivas como parte de um projeto de renaturalização. Durante 17 anos nós passamos dificuldades para manter nossos empreendimentos de laticínios e grãos lucrativos, mas em um solo raso argiloso formado à partir de rochas Weald, nós não podíamos competir com fazendas com solos melhores. A decisão mudou completamente nosso destino. Agora o eco-turismo e o aluguel das edificações rurais e 75 toneladas de carne orgânica criada a pasto por ano contribuem para um negócio lucrativo. E uma vez que os animais vivem soltos o ano todo, com bastante alimento, eles não precisam de suplementação com ração e raramente precisam de veterinário.

Os animais vivem em manadas que se formam naturalmente e vagueiam onde quiserem. Eles chafurdam em córregos e campos encharcados. Eles descansam onde gostam (eles desdenham os celeiros que deixamos abertos como abrigos) e comem o que gostam. O gado e os veados pastejam flores silvestres e capim, mas também em arbustos e árvores. A maneira que pastejam, formam poças e pisoteiam estimula a vegetação de formas diferentes, o que por sua vez cria oportunidades para outras espécies, inclusive de pequenos mamíferos e pássaros.

Corujas Pequenas – uma das cinco espécies de corujas encontradas em Knepp – fazem um banquete no número crescente de besouros-rola-bosta. Foto Ned Burrell.

Primordialmente, porque não usamos ivermictina (o agente anti-parasita rotineiramente usando nos sistemas de produção industrial) ou antibióticos, o estrume deles alimenta as minhocas, bactérias, fungos e invertebrados como besouros-rola-bosta que puxam o estrume para o solo devolvendo nutrientes e estrutura ao solo. A perda de solo por erosão é umas das maiores catástrofes que o mundo enfrenta hoje. Um relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) de 2015 declara que perdemos globalmente de 25 a 40 bilhões de toneladas de solo superior em processos erosivos graças a aragem do solo e plantios intensivos. No Reino Unido a destruição do solo superior foi tão severa em 2014 que a revista de comércio rural Farmers Weekly anunciou que talvez só tenhamos apenas 100 colheitas mais. Deixar terras aráveis em pousio na forma de pastagem herbívoros por um período – como os produtores costumavam fazer antes dos fertilizantes químicos e da mecanização tornarem possível o cultivo contínuo – é a única forma de reverter esse processo, parar a erosão e restaurar o solo de acordo com FAO. A pecuária a pasto além de gerar renda para os produtores, acelera a restauração dos solos por meio do estrume, urina e mesmo a forma como os animais pastejam. O ponto é ser orgânico e manter a taxa de lotação baixa para prevenir sobre-pastoreio.

Há 20 anos nossos solos na fazenda – altamente degradados depois de décadas arando e aportando com químicos – estavam quase biologicamente mortos. Agora temos fungos brotando e orquídeas aparecendo onde antes era área de cultivo, um indicativo de que as redes subterrâneas de micorriza estão se espalhando. Nós temos 19 tipos de minhoca – espécie importantíssima para aerar, renovar, fertilizar, hidratar e até mesmo desintoxicar o solo. Nós encontramos 23 espécies de besouro-rola-bosta em um único piquete, um deles é o geotrupes mutator que há 50 anos não era visto em Sussex. Pássaros que se alimentam de insetos atraídos pelo estrume nutritivo estão aumentando rapidamente. A maneira com que os porcos viram o solo cria oportunidades para a flora nativa e arbustos germinem, incluindo o salgueiro-cinzento, o que criou a maior colônia de Imperador Roxo na Inglaterra, uma das borboletas mais raras que põe seus ovos nas folhas do salgueiro-cinzento.

Esse sistema de pastagem natural além de ajudar o meio ambiente em termos de restauração de solo, biodiversidade, insetos polinizadores, qualidade de água e mitigação de enxurradas, também garante uma vida saudável para os animais, que por sua vez produzem carne que é saudável para nós. Em uma comparação direta com a carne produzida em ração ou engordada em ração em sistemas industrializados, a carne criada somente a pasto tem altas concentrações de beta caroteno, cálcio, selênio, magnésio, potássio, vitaminas E e B e ácido linoleico (um anticâncer poderoso). A carne criada exclusivamente a pasto também tem altas concentrações de ácidos graxos ômega-3 de cadeia longa, vitais para o desenvolvimento cerebral saudável, mas dificílimo de ser obtido em uma dieta vegana.

Já se falou muito do gás metano produzido pela pecuária, mas essa emissão é muito menor em sistemas de pastagem que inclui plantas selvagens como a angélica, um vermicida natural, a bolsa-de-pastor e o cornichão porque contêm ácido fumárico, um composto que quando foi adicionado à dieta de ovinos no Instituto Rowett em Aberdeen reduziu as emissões de metano em até 70%.

Em comparação, o custo do carbono perdido na aragem do solo raramente é considerado. Desde a revolução industrial, de acordo com um relatório do jornal científico Nature de 2017, nós já perdemos cerca de 70% do carbono do solo para a atmosfera nas terras onde usamos o arado.

Aqui temos uma responsabilidade enorme: a não ser que estejamos produzindo alimentos veganos especificamente de forma orgânica e sem arar, estaremos ativamente participando da destruição da biota do solo, promovendo um sistema que priva outras espécies, incluindo pequenos mamíferos, pássaros e répteis de terem as condições ideais para viver. Além de estarmos contribuindo significativamente para as mudanças climáticas.

Nossa ecologia se desenvolveu com herbívores grandes – em manadas de uruz (ancestral do gado), de tarpãs (o ancestral equíno), de uapitis (cervos), de bisões, de ursos, veados-vermelhos, porcos selvagens e milhões de castores. Estas espécies tem interações com o meio ambiente que sustenta e promove a vida. Usar herbívoros como parte dos ciclos de produção rural pode ajudar muito no sentido de criarmos uma agricultura sustentável.

Não há dúvida que deveríamos todos comer muito menos carne e os apelos pelo fim da produção intensiva com altíssima pegada de carbono, poluente, não ética e à base de grãos, são louváveis. Entretanto se suas preocupações como vegano são o meio ambiente, o bem estar animal e sua própria saúde, já não é mais possível fingir que essas metas serão atingidas simplesmente deixando de comer carne e laticínios. Embora possa soar contraditório, ocasionalmente incluir carnes orgânicas criadas à pasto à sua dieta pode ser a melhor maneira de resolver a quadratura do círculo.

A Escala de Friabilidade – uma nova forma de enxergar os ecossistemas

O segundo insight do Gerenciamento Holístico consiste em uma nova forma de classificar ecossistemas de acordo com um contínuo que vai de não-friável (1) até muito friável (10) dependendo de como a umidade é distribuída ao longo do ano e como a serrapilheira (vegetação morta) se decompõe. Nos extremos dessa escala os ecossistemas respondem de maneira diferente a influencias iguais. O descanso, por exemplo, restaura a paisagem em ecossistemas não friáveis, mas causa danos nas paisagens muito friáveis.

Mas primeiramente, vamos esclarecer o que é ‘friável’. Segundo Allan Savory, “friabilidade não é o mesmo que fragilidade” (Savory, A. e Butterfield, J. 2000: 30).

“Dentro de várias classificações ambientais”, ele explica, “existem áreas facilmente perturbadas por uma série de forças e comunidades robustas que aguentam muito mais abuso. Entretanto comunidades frágeis podem existir em ambientes não-friáveis (por exemplo, uma camada de samambaias em uma floresta), e alguns ecossistemas bastante friáveis podem não ser frágeis (por exemplo, as savanas africanas ou as pradarias norte americanas).” (Savory, A. e Butterfield, J. 2000: 30)

Outra confusão que acontece com frequência é acreditar que a vulnerabilidade de determinado ecossistema aos processos de desertificação está ligada somente ao índice pluviométrico. Isso se dá por causa da correlação que os dois extremos da Escala tem com esse índice. Entretanto, essa vulnerabilidade é determinada mais pelo grau de friabilidade do que pela precipitação total.

Quanto mais perto chegamos do 10 na Escala de Friabilidade, mesmo com índices pluviométricos entre 750 e 2000 mm, mais rápido a região vai deteriorar sob as práticas da agricultura moderna. Mas isso não é para indicar que não-friável signifique não vulnerável à deterioração, como os grandes desmatamentos das florestas tropicais deixam claro (Savory, A. e Butterfield, J. 2000).

Não existe um corte claro indicando onde um ecossistema passa de não-friável para muito friável. Mais do que a quantidade de chuva que cai por ano, o que melhor caracteriza a posição de um ecossistema na escala então é a distribuição da chuva e da umidade relativa do ar durante todo ano. “Para o extremo muito friável da escala, os ecossistemas tem caracteristicamente uma distribuição errática tanto das chuvas como da umidade relativa do ar durante o ano” (Savory, A. e Butterfield, J. 2000: 30).

Todos os ecossistemas se encontram em algum ponto entre 1 e 10 na escala. A maneira mais fácil de determinar onde é olhar várias áreas [dentro do mesmo ecossistema] e avaliar como a maior parte da vegetação está se decompondo. No extremo não-friável a decomposição será 100% biológica. Isso diminui regularmente na medida em que um ecossistema se aproxima da friabilidade e a decomposição física e química aumentam. Você deve se preocupar como como a maior parte da matéria orgânica se decompõe ao longo de todo o ano. (Savory, A. e Butterfield, J. 2000: 35-36).

Outra forma de identificarmos o grau de friabilidade é a quantidade de solo exposto que encontramos em determinada área. Isso porque na ponta não-friável da escala “é extremamente difícil, se não impossível, de criarmos grandes áreas de solo exposto e mantê-las assim (Savory, A. e Butterfield, J. 2000: 36).

Falamos muito em ‘sucessão natural’, especialmente quando tratamos de sistemas agroflorestais, mas frequentemente nos esquecemos que fauna e flora evoluíram juntas. Esquecemos a interdependência entre insetos, animais e plantas das mais variadas espécies. Nos ecossistemas friáveis como as savanas africanas e as pradarias norte americanas, eram as grandes manadas de herbívoros em constante movimento migratório que complementavam a umidade relativa por meio da urina e fezes. A altíssima densidade dessas manadas, devido a conexão presa-predador, também ajudava na decomposição da matéria orgânica por meio do pisoteio.

Juntamente com os outros 3 insights do Gerenciamento Holístico, a classificação de ecossistemas de acordo com a Escala de Friabilidade, nos auxilia a avaliar a necessidade e utilidade dos animais herbívoros como ferramenta para restaurar a saúde de um ecossistema.

Referência: Savory, A. e Butterfield, J. (2000). Holistic Management: A New Framework for Decision Making. Island Press. EUA. (Tradução livre Eurico Vianna)

Nota sobre o Impacto Positivo e a turnê Gerenciamento Holístico 2019 – Solto esse programa já em meio a preparações de outra viagem para o Brasil na qual estarei promovendo junto com o educador/consultor Australiano Graeme Hand o Gerenciamento Holístico no Brasil. Vou trabalhar com a Escola de Permacultura, com a Fazenda Bella e com novos parceiros no interior de São Paulo, mas preciso da ajuda de todas as pessoas que gostam do conteúdo para divulgar essa turnê! Peço a todos que compartilhem o conteúdo específico do Gerenciamento Holístico para eu possa encontrar parceiros que viabilizem esse projeto e os podcasts de maneira geral como forma de mostrar que outro mundo é possível, já existe, é viável e muito mais digno, saudável e harmonioso.

Para ouvir e apoiar o Podcast Impacto Positivo, se inscreva no Stitcher (Android) ou iTunes (iPhone). Aproveite e deixe sua avaliação por lá, isso faz muita diferença em como o podcast passa a ser ‘oferecido’ nos mecanismos de busca 
– Compartilhe as entrevistas e artigos com seus comentários nas suas mídias sociais.
– Se você prefere assistir as entrevistas em vídeo, se inscreva no canal no YouTube.
– Curta a página do Podcast no Facebook
– Se inscreva na mala direta para receber artigos, entrevistas e cursos em primeira mão.

Os 4 Isights do Gerenciamento Holístico

O Gerenciamento Holístico se baseia primordialmente em 4 insights. O primeiro é de que uma perspectiva holística é essencial no gerenciamento. O segundo de que os ecossistemas podem ser classificados dentro de um contínuo que vai de não-friável até muito friável. O terceiro se baseia na conexão presa-predador. E o quarto na descoberta que é o tempo e não o número de animais em determinada área que causa o sobrepastoreio.

1 – Uma perspectiva holística é essencial no gerenciamento. Se baseamos decisões de gestão em qualquer outra perspectiva, nós provavelmente teremos resultados diferentes dos planejados porque só o todo é real.

2 – Os ecossistemas podem ser classificados dentro de um contínuo que vai de não-friável até muito friável de acordo com o quão bem a humidade é distribuída e a velocidade que a vegetação morta se decompõe. Nos extremos dessa escala os ecossistemas respondem de maneira diferente a influencias iguais. O descanso, por exemplo, restaura a paisagem em ecossistemas não friáveis, mas causa danos nas paisagens muito friáveis.

3 – Nos ecossistemas friáveis um número relativamente alto de grandes herbívoros em manada, mantidos concentrados e em constante movimento como esses animais se comportam naturalmente na presença de predadores que caçam em grupo, é vital para se manter a saúde das paisagens que pensávamos que eles destruíam.

4 – Em qualquer ecossistema o sobrepastoreio e a compactação pelo pisoteamento praticamente não tem relação com o número de animais. Ao contrário, tem relação com a quantidade de tempo que as plantas e o solo são expostos aos animais.

Referência: Savory, A. e Butterfield, J. (2000). Holistic Management: A New Framework for Decision Making. Island Press. EUA. (Tradução livre Eurico Vianna)

Nota sobre o Impacto Positivo e a turnê Gerenciamento Holístico 2019 – Solto esse programa já em meio a preparações de outra viagem para o Brasil na qual estarei promovendo junto com o educador/consultor Australiano Graeme Hand o Gerenciamento Holístico no Brasil. Vou trabalhar com a Escola de Permacultura, com a Fazenda Bella e com novos parceiros no interior de São Paulo, mas preciso da ajuda de todas as pessoas que gostam do conteúdo para divulgar essa turnê! Peço a todos que compartilhem o conteúdo específico do Gerenciamento Holístico para eu possa encontrar parceiros que viabilizem esse projeto e os podcasts de maneira geral como forma de mostrar que outro mundo é possível, já existe, é viável e muito mais digno, saudável e harmonioso.

Para ouvir e apoiar o Podcast Impacto Positivo, se inscreva no Stitcher (Android) ou iTunes (iPhone). Aproveite e deixe sua avaliação por lá, isso faz muita diferença em como o podcast passa a ser ‘oferecido’ nos mecanismos de busca 😉
– Compartilhe as entrevistas e artigos com seus comentários nas suas mídias sociais.
– Se você prefere assistir as entrevistas em vídeo, se inscreva no canal no YouTube.
– Curta a página do Podcast no Facebook
– Se inscreva na mala direta para receber artigos, entrevistas e cursos em primeira mão.

Santuários de Sanidade Mental e Ecológica

“Nós abusamos da terra por acreditarmos que é uma comódite que nos pertence. Quando vermos a terra como uma comunidade a qual pertencemos, nós podemos começar a usá-la com amor e respeito” (Aldo Leopold). É nesses Santuários de Sanidade Mental e Ecológica, que já brotam por toda a parte, que quero estar de mãos dadas com as pessoas que já são conscientes das limitações desse projeto de civilização e de que um novo viver, autônomo e harmonioso, precisa ser inventado urgentemente.

Desde que o novo governo foi eleito eu venho dizendo que, pelo menos supostamente, há uma coisa boa em tudo isso de ruim que está acontecendo no Brasil. Saber que o que aparenta ser um retrocesso social, ambiental, cultural e educacional, na verdade não é um retrocesso, é o estado atual da maioria no Brasil.

A previdência está sendo alterada e o lucro que se concentra nas mãos de poucos virá também as custas de pessoas mais velhas, frequentemente pobres. Isso acontece apesar da nossa herança cultural dos povos africanos e indígenas que sempre nos ensinou a cuidar, respeitar e valorizar os mais velhos.

As leis ambientais estão sendo flexibilizadas mesmo em meio a crimes ambientais que mataram centenas, como nas represas da Vale em Mariana e Brumadinho. Como nos casos de atentados a agentes da FUNAI, ICMBIO e IBAMA. Enquanto nossa herança cultural dos povos africanos e indígenas sempre nos ensinou a viver em harmonia com o planeta.

Nossa comida está sendo cada vez mais envenenada, enquanto Hipócrates já nos ensinava a fazer do alimento nossa medicina.

São mazelas… sociais, ambientais e mentais mesmo. Na Medicina Tradicional Chinesa, quando uma mazela se apresenta devemos ser gratos por poder identificá-la e trabalhar na cura. Mas esse lado positivo é só ‘supostamente’ bom porque para existir ‘tratamento’ o afligido precisa não só estar consciente de sua mazela, mas querer ser tratado.

Aí fico imaginando quantos escravos defendiam seus senhores e capitães do mato ou quantos campesinos ou plebeus defendiam o feudalismo? Digo isso porque nunca a concentração de renda e poder foi tão desigual e escancarada! Nunca foi tão claro que esse sistema vigente esvai a empatia, a humanidade, nos faz degradar a natureza (e nós mesmos como parte integrante dela). E ainda assim há muitos que defendem o quadro que piora dia-a-dia.

Mas o fato é que não vejo possibilidade de “tratamento”, de esperança, para esse projeto de civilização.

Os que defendem esse sistema, seus líderes e sua viabilidade vão enterrar muitos inocentes, como já fazem há muito tempo em nome do lucro. Em nome do lucro também envenenamos as pessoas, os animais e o meio ambiente. Durante esse processo de criação de uma economia sociopata extinguimos 200 espécies todo dia, na Era que passou a ser chamada de Antropoceno. Nossa poluição dispara ciclos de feedback auto-reforçados que deixam o planeta cada vez mais febril, reforçando ainda mais a extinção de tudo e todos.

Não há sentido no “ninguém solta a mão de ninguém” se for para nos apoiarmos dentro do projeto atual de civilização. Precisamos abandonar rapidamente os que perderam sua humanidade e não querem ajuda! Precisamos rapidamente encontrar os que já acordaram para a gravidade da situação e já estão dispostos a abandonar esse modelo para criar outro, de fato, humano e harmonioso.

Nas palavras de Clarisse Lispector contidas em uma mensagem que uma amiga me mandou, “liberdade para mim é pouco, o que eu quero ainda não existe.” Por isso precisamos criar santuários de sanidade mental e ecológica! Precisamos restaurar o planeta enquanto nos tornamos responsáveis pelo nosso viver. Precisamos que haja uma possibilidade saudável e digna para que as gerações futuras possam habitar o planeta. O foco deve ser na criação desses lugares, não na conversão ideológica dos que querem conquistar e desfrutar de privilégios as custas da saúde do planeta e das futuras gerações que o habitarão.

Só lugares assim sobreviverão ao colapso econômico, energético e ambiental que já se forma rapidamente. E no caso de uma hecatombe geral, como uma extinção em massa ainda maior do que a que está em curso causada pelo aquecimento global repentino (já anunciada em pesquisas publicadas nos jornais especializados) sejamos corajosos! Porque só em lugares assim manteremos a dignidade humana, a compaixão e a empatia até o final.

Nesses santuários de sanidade mental não pode haver espaço para fundamentalismos, para caixinhas que facilitem o sentimento de pertença excluindo ‘o diferente’. O diferente trará lições desde que a humanidade, a compaixão e a empatia estejam presentes.

À partir desses lugares pode haver uma mudança genuína que torne o atual obsoleto, como dizia Buckminster.

São nesses lugares, que já brotam por toda a parte, que quero estar de mãos dadas com vocês. Com as pessoas que não são melhores que ninguém, mas que são conscientes de suas limitações, das limitações do modelo atual e por isso já constroem outro viver.

Fiquem bem! Procurem as companhias e atividades que alimentem e mantenham a sua chama brilhando! Mudança boa a gente faz em boa companhia!

Nota: Das sincronicidades da vida… esse artigo surgiu como desabafo e resposta de apoio a uma amiga muito iluminada e super alinhada com as causas da saúde humana e da Mãe Terra. Além de tantas notícias péssimas para saúde humana e do meio ambiente já anunciadas por esse governo, ela tem se esgotado em diálogos ‘tentando ajudar’ as pessoas que apoiaram ou ainda apoiam o projeto de governo atual. Ela tem disponibilizando livros, artigos científicos e dados nas áreas em que ela atua e possui várias pós-graduações e especializações (nutrição e medicina tradicional chinesa) e doado seu tempo e energia para essas pessoas. No mesmo dia em que escrevi a versão original para ela, outro amigo me escreveu dizendo que a dominação da natureza e subsequente degradação é ‘natural’ do ‘homem’. Que o conceito de ecologia é novo, mas que a ‘cultura’ sempre dominou a ‘natureza’. Respondi que esse é o paradigma que nos trouxe ao ponto crítico de devastação que chegamos. Ainda no mesmo dia recebo a citação de Aldo Leopold que abre o artigo.

Promovendo Segurança Alimentar e Restaurando a Bacia do Descoberto usando SAFs com o MST

Em setembro de 2018 estive com o Osmany Segall visitando 4 famílias assentadas em um acampamento do MST no Distrito Federal. Essas famílias participam, do Programa Água Brasil, “que visa à conservação de recursos hídricos” no país. O programa, que é fruto de uma parceria entre a WWF e a Fundação Banco do Brasil, tem foco exclusivo em soluções para problemas relacionados ao tema. Osmany foi convidado para da elaboração e implementação do projeto pelos amigos do Mutirão Agroflorestal Igor Aveline e Fabiana Penereiro. O projeto apresentado pelo time, no entanto, também foca na problemática da segurança alimentar e viabilidade econômica entre os integrantes do MST e apresenta a implementação de sistemas agroflorestais como solução interdisciplinar para todas essas questões de recuperação de recursos hídricos, segurança alimentar e viabilidade econômica.

A primeira etapa do projeto, que já vem sendo desenvolvido há 8 meses, atendeu 8 famílias nos assentamentos Gabriela, Graziele e Canaã e já implementou sistemas agroflorestais em aproximadamente 4 hectares. A segunda etapa do projeto que começa agora na estação das chuvas visa aumentar a área implantada na Bacia do Descoberto para 17.8 hectares somando a participação de 37 famílias assentadas. Para a primeira etapa, dois cursos de capacitação foram ministrados nos assentamentos como pré-requisito para a participação das famílias. Subsequentemente mutirões de implementação foram organizados entre os coordenadores do projeto e os participantes para estabelecer as primeiras 8 áreas de plantio e a participação coletiva também era pré-requisito para as famílias que queriam participar.

Em todos os casos as famílias foram ouvidas em um processo de diagnóstico participativo que orientou o desenho, também participativo, das áreas de acordo com necessidades e contextos específicos. Ainda assim, a criação de 3 áreas distintas de implementação em cada terreno foi comum na grande maioria dos casos. Foram essas: áreas de enriquecimento, áreas (de plantio) intensivas e áreas de engorda de solo.

Um canteiro de engorda de solo à esquerd e um de plantio intenso à direita no terreno da Tânia e Silvano.

Para as áreas onde já haviam árvores frutíferas, do cerrado ou hortas sendo manejadas pelas famílias foram criadas áreas de enriquecimento. Nessas áreas o objetivo principal foi a diversificação das espécies e da estratificação do sistema.

Áreas intensivas foram criadas onde já haviam árvores nativas, pomares ou hortas de forma a aumentar uma produção já existente. Nesses casos foram estabelecidos sistemas de plantio denso com árvores frutíferas, de madeira e hortaliças. Via de regra, essas áreas com foco mais específico na segurança alimentar e viabilidade econômica da famílias atendidas, eram menores por conta da necessidade de manejo intenso.

Para terrenos muito compactados e degradados foram criadas áreas de engorda, usando o entendimento da sucessão ecológica para recuperar o solo, foram plantadas nessas áreas plantas forrageiras, fixadoras de nitrogênio e capins. O feijão guandú, o feijão de porco e a crotalária, por exemplo, foram utilizados tanto para poda quando para produção de matéria orgânica para cobertura do solo. Essas plantas integram um conjunto chamado nos sistemas agroflorestais de plantas adubadeiras.

O contexto específico de cada família, assim como a topografia do terreno e pomares já estabelecidos exigiu abordagens e técnicas diferentes na implementação de cada SAF. Abaixo eu sintetizo o contexto e soluções utilizadas nas áreas que visitamos.

Seu Gilberto mostrando um Araticum-de-raposa (Annona cornifolia), um arbusto frutífero do Cerrado.

Seu Gilberto é originalmente da região rural e semiárida do Piauí. Como muitos outros campesinos a falta de políticas públicas e acesso ao conhecimento que poderia torná-lo produtivo em sua região de origem, Seu Gilberto abandonou a vida que gostava para procurar trabalho nos grandes centros urbanos. Depois de muito tempo e esforço para dar aos filhos acesso a educação, Seu Gilberto continuava sofrendo com a vida urbana em pobreza. Com apoio de sua esposa, ele então se juntou ao MST para conseguir um terreno onde pudesse voltar a plantar, produzir e viver no campo.

Em seu terreno já haviam uma roça com mandioca, feijão e milho e um pomar com algumas frutíferas convencionais e do cerrado. Após fazer o curso de capacitação Seu Gilberto escolheu implementar uma área nova para aprender e só depois diversificar os sistemas já existentes. A área de SAF implementada no terreno é de aproximadamente 3000m2 e visa a produção de frutas e madeira em médio prazo. Como Seu Gilberto já tinha uma área de roça, a produção de hortaliça foi planejada nos canteiros de árvores e para subsistência apenas.

SAF com 8 meses na casa do Seu Gilberto.

Como antes do curso de capacitação Seu Gilberto não entendia a sucessão natural e a importância da cobertura e do acúmulo de matéria orgânica no solo, ele cuidou de sua área capinando impecavelmente qualquer planta invasora. O resultado foi um solo exposto, pobre e compactado que dificultou muito o estabelecimento do Capim-mombaça (Megathyrsus maximus) nas entrelinhas. Com a estação das chuvas chegando, o plano é semear novamente em algumas áreas e fazer roça de mandioca, milho, feijão e abóbora com adubação nos berços em outras.

Um canteiro mostrando um Eucalipto Cheiroso (Corymbia citriodora) ocupando o estrato emergente.

Grande parte dos assentamentos na Bacia do Descoberto foram estabelecidos em áreas que foram degradadas pela monocultura do eucalipto (E. Grandis), o que deixou essa espécie bastante estigmatizada na região. Como as árvores madeireiras de crescimento rápido são usadas para podas continuas que promovem a cobertura e recuperação do solo nos SAFs, Osmany e Igor, então convenceram Seu Gilberto a usar o Eucalipto cheiroso (Corymbia Citriodora) para essa função.

Outra peculiaridade do terreno e do contexto do Seu Gilberto era o risco de erosão e a escolha de várias frutíferas de estrato alto (porém de portes variados). Nesse caso a solução foi estabelecer as linhas do sistema perpendiculares ao declive e posicionar os consórcios com árvores mais altas na parte sul (e mais baixa) do terreno. Usando uma terminologia do desenho permacultural, foi feita uma análise de setor para identificar o aspecto solar e as áreas propensas à erosão. O posicionamento das árvores de maior porte ao sul do terreno consiste em uma técnica chamada ‘armadilha solar’ na permacultura.

Seu Gilberto compartilhou com a gente é que ele está mais saudável, mais ativo por conta do trabalho com o SAF. Ele comenta que tanto a quantidade como a qualidade de frutas, verduras e legumes na sua dieta melhorou muito. Ele também conta que é tão interessante ver os sistemas se desenvolvendo, tão gratificante fazer parte do manejo que otimiza a vida, que seus filhos estão começando a se interessar pela vida no campo.

Dona Tânia e Ana Júlia caminhando pelo SAF.

A próxima parada foi no terreno da Dona Tânia e Seu Silvano. Eles tem uma família grande e a geração de renda por meio dos sistemas agroflorestais era urgente. No caso deles então, uma área maior, de aproximadamente 4.000m2, foi estabelecida e a abordagem com as áreas de enriquecimento, intensiva e de engorda foi essencial.

Um pomar que já existia com mangueiras e outras frutas foi diversificado. Nessa área, além de outras árvores para compor os vários estratos, foram usados o feijão-de-porco, o milho e o Mombaça de forma a produzir alimentos, mas também matéria orgânica para cobrir e adubar o solo. Uma parcela de aproximadamente 1500 m2 com solo degradado foi trabalhada com a implementação de uma área de engorda. Nesse caso as linhas que receberiam árvores receberam plantas fixadoras de nitrogênio de ciclos de vida mais curto e o Mombaça foi plantado nas entrelinhas para ser usado como cobertura. E uma área intensa de 1500m2 foi estabelecida com hortaliças para consumo e venda do excedente.

Silvano orgulho do canteiro de engorda já com bananas.

Dona Tânia compartilhou que a dieta da família melhorou muito. Ela também comentou que abundância de alimentos produzidos em SAFs demanda um conhecimento específico no processamento dos produtos. Ela e Seu Silvano, que já haviam ampliado seus sistemas por conta própria, estavam com excedente de vários produtos como pimenta dedo-de-moça e repolho roxo com os quais gostariam de fazer conservas e geleias. A infraestrutura para esse tipo de processamento dos produtos ainda não está disponível nos assentamentos, mas Dona Tânia comentou que alguns dos produtores já estão se articulando para montar uma cooperativa.

Osmany e Mateus visitando o SAF na casa da Dona Andréia.

A terceira propriedade visitada foi a da Dona Andréia, que já estava inserida em um contexto convencional de produção de hortaliças com uso de fertilizantes e pesticidas químicos junto com seu irmão Alexandre. Dona Andréia participou do curso de capacitação com seu irmão e com seu filho, Mateus. Juntos eles fizeram a transição para uma produção completamente agroecológica em uma área de 3.000m2. Os SAFs foram implementados fazendo bastante uso das áreas intensiva e de engorda.

Dona Andréia, Alexandre e Mateus organizaram o desenho das áreas implementadas de forma a colher sementes e mudas para um viveiro que estão montando. Outra peculiaridade do sistemas deles foi alternar estratos altos e baixos em uma linha com médios e emergentes em outra, de forma a otimizar a entrada de luz, minimizar o manejo com podas e produzir hortaliças por mais tempo entre as linhas.

Eurico e ‘Professor’, genro da Dona Maria, conversando sobre o Mombaça plantado nas entrelinhas.

Por último visitamos a casa da Dona Maria. Assistida por sua filha e genro, a Dona Maria está implementando uma área de 4.000m2. No terreno dela, porque todos trabalham fora, as hortaliças não foram implementadas nas entrelinhas. Muito resistentes ao uso do eucalipto, eles escolheram substituir essa espécie pela Acácia mangium.

Nas entrelinhas foi usada uma combinação do Mombaça com o mileto (Pennisetum glaucum). Uma estratégia para compensar a falta da matéria orgânica que viria do eucalipto foi plantar o feijão Guandú junto com outras mudas de árvores para fixar nitrogênio e gerar biomassa. Onde não foi possível usar o Guandú, foi utilizado o feijão-de-porco com a mesma finalidade. Combinando essas estratégias foi possível implementar uma área consideravelmente grande para que fosse manejada por poucas pessoas e em dentro de poucos dias por semana.

Notas finais.

Quase todas as áreas foram implementadas ao final do período das chuvas, o que não é o ideal. Em alguns casos áreas muito grandes tiveram que ser aguadas à mão por uma pessoa só, até que um sistema de irrigação pudesse ser instalado. Todos os sistemas de irrigação instalados foram por gotejamento por conta da relação custo-benefício e também da necessidade de economizar água. Ainda assim, com exceção das áreas de entrelinha no terreno do seu Gilberto, todos os sistemas implantados tiveram uma ótima taxa de germinação e desenvolvimento. Enquanto novas áreas são implantadas nesse período de chuvas, as 8 famílias que participaram da etapa piloto vão aprimorar suas técnicas de manejo com podas.

Como forma de complementar a ajuda a essas famílias, o Osmany tem escoado o excedente de produção deles no ponto de entrega e feiras feitas pela Fazenda Bella em Brasília. Essa abordagem, que não foi planejada no projeto inicial, mas que tem se mostrado muito importante, também será ampliada nas próximas etapas.

De um modo geral, e por conhecer a realidade das pessoas mais pobres no Brasil, eu fiquei maravilhado com o trabalho dessas famílias. Elas fazem parte do MST, um movimento demonizado pelas elites e mídia corporativa por pregar a reforma agrária. Sem exceção, eles tem uma vida dura, marginalizados por não conseguirem participar da sociedade de consumo. Ainda assim, frequentemente com jornadas duplas de trabalho e com dificuldades financeiras enormes, estão zelando por seus terrenos e aprendendo a produzir alimentos em harmonia com a natureza. Ainda assim, não perdem a generosidade… Não houve uma casa onde não nos oferecessem um café e um lanche, onde não insistissem que ficássemos mais tempo. A dedicação deles, à revelia de tantas provações, mostra que é possível produzir alimentos recuperando lençóis freáticos, a biodiversidade local e acima de tudo promovendo justiça social. Parabéns ao Igor Avelino, Osmany Segall, Fabiana Penereiro e as 8 famílias que abraçaram os sistemas agroflorestais para mostrar ao mundo o que é possível quando se tem esperança, boa vontade, conhecimento e companhia!

De onde vem e como se desenvolveram os Eucaliptos usados em SAFs

Muitos dos que conheceram o eucalipto em cursos de agrofloresta ou manejando Sistemas Agroflorestais (SAFs) defendem veementemente a importância deles nesses sistemas. Os que só conhecem o eucalipto por meio dos desertos verdes que eles formam quando cultivados em monocultura, abominam seu uso. O eucalipto é acusado de secar lençóis freáticos por demandar muita água. Também é acusado de exalar uma secreção química em suas raízes para inibir o crescimento de outras espécies à sua volta, efeito conhecido como alelopático. Ainda assim várias espécies do gênero estão sendo usadas para recuperar áreas degradas, produzir alimento e restaurar os lençóis freáticos.

Podcast Impacto Positivo - Muda Clonada de Eucalyptus grandisEm um de nossos trabalhos para o Podcast Impacto Positivo o Sérgio Olaya, que usa muito esse gênero de árvores em SAFs, me perguntou o que eu sabia sobre o eucalipto na Austrália. Meu conhecimento técnico sobre a evolução dessas árvores é limitado. Embora soubesse o que é senso comum para quem trabalha com SAFs. Os eucaliptos são uma espécie de árvore que acumula várias funções nos sistemas agroflorestais. São extremamente resistentes e conseguem se estabelecer em solos muito degradados. Várias espécies de eucaliptos podem ser usadas para acelerar a sucessão ecológica uma vez que estas espécies estão entre as árvores de crescimento mais rápido e que quando manejadas corretamente ocupam apenas 20% do espaço de estratificação das florestas. Exatamente por que crescem muito rápido, os eucaliptos também são uma fonte muito boa de matéria orgânica para o sistema (com folhas e galhos sendo usado para cobrir o solo). Além de tudo isso podem colhidos em aproximadamente 4 anos para serem usados como uma madeira muito versátil para construção, o que aumenta a viabilidade econômica do produtor familiar e abre clareiras nos SAFs para renovação de novos plantios.

O pouquíssimo conhecimento técnico que tinha veio de uma palestra do Bill Mollison, co-criador da Permacultura que assisti há alguns anos. Na palestra ele explicava a evolução desse gênero no ecossistema australiano. Ele contava que as Florestas de Eucalipto da Austrália se desenvolveram ao longo de milhares de anos nas encostas rochosas litorâneas onde tempestades com raios eram frequentes, mas que essas florestas ficavam limitadas à essas áreas. Segundo Mollison, nos últimos 150 mil anos esse ecossistema teria sido alterado pela ação dos povos aborígenes da Austrália que fazem uso constante do fogo para caçar e manejar a paisagem. O uso frequente do fogo por todo o país teria privilegiado espécies que dependem das queimadas para se reproduzir, como é o caso do eucalyptos grandis, mas que antes ficavam limitadas as áreas onde só ocorriam incêndios naturais e frequentes.

Como o Sérgio pediu que tentasse encontrar livros sobre o assunto, eu perguntei dentro da rede social da Regrarians, uma plataforma criada pelo designer de propriedades rurais Darren Doherty. A plataforma foi criada para intercâmbio e cooperação de designers regenerativos no mundo todo. O texto que segue é uma colagem, com tradução livre minha, dos comentários que foram gentilmente cedidos pelos camaradas Darren Doherty, Dan Harris-Pascal, Shane Ward e Byron Joel.

Como sempre os fatos e contextos que explicam a evolução das espécies são multifacetados. De uma forma bastante resumida, Darren explica que a leitura dele é de que essas espécies se desenvolveram sob o domínio completo e total da megafauna Australiana. Dan Harris-Pascal chama atenção para o fato de que antes do surgimento dos eucaliptos grande parte da Austrália tinha uma vegetação muito parecida com o que as florestas da Nova Zelândia e do Chile que são dominadas por árvores do gênero Nothofagus ou as Faias do Sul como também são chamadas as árvores desse grupo de 43 espécies. A intensificação da ação aborígene, que fazia uso do fogo para caçar e manejar a paisagem, com um clima que vinha secando gradualmente, criou florestas e paisagens mais propensas ao fogo e portanto mais adaptadas a ele.

Muito embora os eucaliptos possam ser usados em sistemas florestais para acelerar o fenômeno conhecido como sucessão ecológica, é provável que nunca saibamos qual a real extensão de sua função nos ecossistemas Australianos antes da chegada e consequente degradação causada pelos europeus. Um pequeno exemplo disso é o fato de grande parte da madeira dos eucaliptos nessas florestas era quebrada e digerida por fungos que eram espalhados pelos marsupiais escavadores. Esses animais também faziam túneis e ninhos subterrâneos que além de depositar mais madeira em decomposição no subsolo, também facilitava a infiltração da água. Com a chegada dos gatos, raposas e roedores grande parte desses marsupiais se extinguiu ou está em risco de extinção. Isso sem falar nos milhões de koalas mortos para fabricação de gorros de inverno. Tudo isso mudou muito o ecossistema do qual os eucaliptos faziam parte.

Shane Ward nos apontou referências acadêmicas importantes na paleoecologia sobre a ligação da extinção da megafauna Australiana (provavelmente causada pela pressão da caça) e a mudança do ecossistema em decorrência da perda de animais herbívoros interagindo com as florestas úmidas de clima temperado. Essa cadeia de eventos também influenciou a evolução de uma paisagem dominada por espécies adaptadas ao fogo. Os títulos ou palavras chaves para encontrar esses artigos (em inglês) online são: “The Aftermath of Megafaunal Extinction- Ecosystem Transformation in Pleistocene Australia”, “Humans rather than climate the primary cause of Pleistocene megafaunal extinction in Australia” e “Abrupt vegetation change after the Late Quaternary megafaunal extinction in southeastern Australia”. Alguns estudos indicam que essa mudança no ecossistema também pode ter influenciado para que o clima da Austrália se tornasse mais seco.

Ainda assim, Byron Joel, chama atenção para o fato de que algumas dúvidas pairam no ar. O fato dos ecossistemas australianos serem diferentes é senso comum. Mas mais especificamente como eles são diferentes? E como o pleistoceno funcionou na Austrália? Onde estavam os animais que caçam em bandos? Os herbívoros da megafauna se moviam em manadas? Porque a megafauna australiana se extinguiu por completo? Os solos australianos são pobres por conta da lixiviação ao longo de milhares de anos ou eles perderam toda sua vida por ‘descanso’ excessivo (ausência de interação com animais endêmicos)?

Da conversa com os colegas na plataforma Regrarians ficaram algumas dicas de livros (em inglês) que também foram recomendados por Shane Ward:

  • “The Future Eaters” de Tim Flannary. O livro discute a chegada precoce dos humanos na Austrália.
  • “The Biggest Estate of Earth”, escrito por Bill Gammage e abordando o manejo da paisagem pelos Aborígenes.
  • “Dark Emu, Black Seed” escrito pelo Aborígene Bruce Pascoe e que levanta a hipótese, muito bem fundamentada por documentos históricos, que os os povos Aborígenes da Austrália não eram caçadores e coletores, mas exímios agricultores.

Outra fonte muito boa de informações sobre os eucaliptos são os livros e apostilas do CSIRO (Departamento de Meio Ambiente da Austrália).


Nota
: Para os que estão interessados na utilização de SAFs como uma forma financeiramente viável de recuperar terrenos degradados, assim como na utilização das técnicas da permacultura e outras formas de desenho regenerativo para tocar suas propriedades e empreendimentos, durante o mês de Junho estarei no Brasil ministrando alguns cursos e oficinas.
– Entre os dias 1 e 15 de Junho teremos a Vivência de Agrofloresta na Fazenda Bella com o Osmany Segall e o Sérgio Olaya. A vivência conta com:
2 cursos / 2 estágios / 2 visitas guiadas
Curso 1 – Introdução aos Sistemas Agroflorestais com Osmany Segall
Curso 2 – Poda em Altura com Sergio Olaya
Estágio 1 – desenho, plantio, manejo e colheita.
Estágio 2 – manejo de bananeiras e poda
Visita 1 – projeto Águas Brasil – agrofloresta para restauração de lençóis freáticos e segurança alimentar com assentados do MST (17 hectares)
Visita 2 – visita aos SAFs do agrônomo Rômulo Araújo (exibido nos filmes da Agenda Gotsch)

Os interessados podem participar dos cursos separadamente.