Sua liberdade não começa onde termina a do outro! Sua liberdade alcança e só pode ser mantida até onde vai a dos mais oprimidos na sociedade!

August Landmesser - Podcast Imapacto Positivo

Em 1936 um trabalhador alemão se recusou a saudar Hitler. Ele era, supostamente, August Landmesser. August se filiou ao partido Nazista em 1931 com esperanças de conseguir um emprego. Em 1935 ele e Irma Eckler, uma mulher judia, noivaram, tiveram uma filha e ele foi expulso do partido. Em 1937 August e sua família tentaram escapar da Alemanha Nazista para Dinamarca, mas August foi acusado de “desonrar a raça”. Ainda assim o casal manteve abertamente seu relacionamento e em 1938 August foi preso e enviado para um campo de concentração. Sua esposa, Eckler, também foi presa e teve a segunda filha do casal enquanto era enviada para vários campos de concentração até que por fim foi levada para o Centro de Eutanásia de Bernburg onde foi assassinada junto com outras 14 mil pessoas.

A Dra. Julie Ponesse, professora de ética da Universidade de Huron em Ontário no Canadá conta que todo ano, ao mostrar a foto de August e perguntar se seus alunos fariam o mesmo, em torno de 80% deles dizem que sim. Mas segundo ela, as pesquisas da psicologia indicam que menos de 10% das pessoas conseguem se libertar da pressão por conformidade exercida por grandes grupos de pessoas.

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Como de costume aviso que não sou sanitarista, médico virologista ou biólogo e, portanto, as informações e opiniões que compartilho aqui não devem ser vistas como recomendações. Acredito que, ao compartilhar minhas decisões pessoais, essas reflexões valham como construção de um pensamento crítico, ecológico e sistêmico para outras pessoas.

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Não tem sido diferente com os povos indígenas que vêm sendo dizimados por todo o mundo. A liberdade desses povos de viver como querem, atrapalha o avanço do capital sobre a natureza! A grande maioria de nós condena e repudia esse genocídio, mas segue adormecida no que toca ações reais em defesa desses povos e focada em “vencer” na sociedade de consumo.

O maior holocausto de todos os tempos não aconteceu porque a maioria era racista. Aconteceu porque a elite financeira se beneficiava da escravidão, financiava a produção científica da época, era protegida pelo status quo e a igreja (a mídia da época) e os dissidentes ficaram submissos.

No segundo maior holocausto, mais de 6 milhões de judeus foram assassinados por Hitler. Mas isso não teria sido possível sem o silêncio do padeiro, da enfermeira, do açougueiro, da vizinha, do médico, etc. enquanto o plano nefasto se desenrolava.

A maioria das pessoas não se sente segura quando se alimenta com produtos transgênicos produzidos com agrotóxicos cancerígenos. De fato, as epidemias de doenças causadas pelos agrotóxicos e os alimentos ultraprocessados, hoje matam mais que o COVID-19. No entanto grandes somas de dinheiro passaram a ser injetadas à partir da década de 30 do século passado para garantir que as pesquisas em biologia molecular caminhassem para a transgenia, que a propaganda apresentasse esses desenvolvimentos como avanço para humanidade e que o lobby fizesse com que esses cientistas fossem laureados com o prêmio Nobel.

É por conta da maneira como Judeus foram usados como cobaias por uma ciência que beneficiava uma agenda racista e hegemônica que temos o Tratado de Nuremberg assegurando os princípios éticos da pesquisa com seres humanos.

Foi em função da promoção de uma ciência que coloca em risco a vida das pessoas, do animais e a integridade da natureza pelas farmacêuticas que a Declaração Universal Sobre Bioética e Direitos Humanos foi aprovada assegurando, entre outros direitos inalienáveis, que “qualquer intervenção médica preventiva, diagnóstica e terapêutica só deve ser realizada com o consentimento prévio, livre e esclarecido do indivíduo envolvido, baseado em informação adequada” (art. 6a da Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos).

Mas foi em nome do controle da população e do aparelhamento dos estados para favorecer corporações e seus lucros exorbitantes que muitos países aprovaram leis “emergenciais” suspendendo esses direitos humanos inalienáveis.

Quando alguém defende arbitrariedades, imposições e segregação porque não concorda com a maneira com que outras pessoas lidam com a crise atual, na verdade está enfraquecendo sua própria liberdade. O que está defendendo mesmo é o aparelhamento do estado para controlar a população, é a impunidade das farmacêuticas e o poder de um grupo muito pequeno de pessoas determinar como a grande maioria pode ou deve viver.

No contexto atual, quem apoia os passaportes sanitários, não está defendendo um pacto coletivo, está sendo conivente com a opressão de direitos humanos inalienáveis. Talvez seja por incapacidade de entender o totalitarismo que se desenrola em nome do capital. Mas vejo que para a maioria, é por achar que vale a pena ser cobaia de experimentos médicos e de controle social para “voltar ao normal”. O “normal” que dizimou negros, indígenas e judeus e dessacraliza a natureza em prol de um viver onde a liberdade é definida pela capacidade de consumo.

Um pacto coletivo que submete toda a população do planeta, inclusive crianças à partir dos dois anos de idade (como recomendam “as autoridades“) aos riscos de lesão e morte oferecidos por uma ciência fraudada como mostram as publicações do Jornal de Medicina Britânico, não é pacto, é coação!

Um pacto coletivo que submete todas as pessoas ao risco e os dissidentes à segregação enquanto lucros anuais na casa dos 450 bilhões de dólares se concentra nas mãos de meia dúzia de corporações, não é pacto coletivo é subserviência ao neoliberalismo.

Se não lutarmos para que a liberdade seja realmente de todos, estaremos deixando corporações e democracias sem representatividade definir até onde nossas liberdades alcançam. Exatamente o tipo de apatia que permite o genocídio dos povos indígenas, que permitiu a escravidão, o holocausto e o apartheid econômico que vivemos.

Lembre-se: a sua liberdade não começa onde termina a do outro. Sua liberdade alcança e só pode ser mantida até onde vai a liberdade das pessoas mais oprimidas na sociedade!

Mais do que nunca precisamos que a maioria que ao olhar para o passado acredita que agiria como August Landmesser, faça isso no presente.

Pense bem em que lado da História você quer estar!

Adaptação Profunda: navegando a realidade do caos climático

O conceito Adaptação Profunda foi cunhado em um artigo publicado pelo professor Jem Bendell como alternativa ao termo mais comumente usado ‘adaptação climática’. A palavra ‘profunda’ indica que medidas fortes são necessárias para nos adaptarmos ao colapso do estilo de vida ocidental industrializado. Desde sua publicação em 2018 mais de 1 milhão cópias foram baixadas pela internet.

O artigo Adaptação Profunda: Um Mapa para Navegar pela Tragédia Climática analisou estudos recentes sobre as mudanças climáticas e suas implicações para nossos ecossistemas, economias e sociedades e propôs que, dada a dificuldade de revertermos as tendências de mudanças climáticas drásticas, o colapso social de curto prazo é o cenário mais provável com graves consequências para a humanidade.

Adaptação Profunda é um termo amplo que pode significar um ethos, uma abordagem analítica, um movimento ou comunidade.

Tanto a abordagem como o movimento presumem que eventos climáticos extremos e outros efeitos das mudanças climáticas irão causar rupturas nos sistemas alimentares, hídricos e de moradia, assim como os de poder e governança. Essas rupturas irão provavelmente ou inevitavelmente causar um colapso social desigual nas próximas datas.

O ethos é compromisso para que trabalhemos juntos fazendo o que será útil durante a grande ruptura ou colapso da sociedade em função do impacto direto e indireto da degradação ambiental e mudanças climáticas.

A abordagem analítica é um enquadramento que ajuda as pessoas a explorar idéias sobre como reagir à degradação ambiental, a perda da biodiversidade e às mudanças climáticas. Essa abordagem traz 4 perguntas, também chamadas de ‘4 Rs’.

A primeira é sobre Resiliência. O que mais valorizamos e queremos manter durante o colapso e como vamos fazer isso?

A segunda é sobre Renúncia. Do que precisamos abrir mão a fim de não piorar ainda mais a situação?

Restauração é o tema da terceira pergunta. O que podemos trazer de volta (de um passado pré-industrial) para nos ajudar nesses tempos difíceis?

E a Reconciliação constitui a quarta pergunta. Com quem e o que podemos fazer as pazes quando acordamos para nossa mortalidade mútua.

Quando acordamos para a extensão do estrago já feito e a magnitude da crise vindo em nossa direção ficamos assoberbados, perturbados e nos faltam ferramentas para conversar sobre o tema. Daí a importância da estratégia ser deliberadamente baseada em perguntas. Assim evitamos nos apressar nas respostas e soluções rápidas que nos tornam menos criativos e curiosos como poderíamos ser.

O Fórum para Adaptação Profunda surgiu para que pudéssemos debater sobre o impacto dessas perguntas em nossas vidas e como reagir.

Do Fórum também surgiu uma comunidade de apoio mútuo que busca amparar os processos emocionais vividos pelos participantes que, por sua vez, buscam antecipar a ruptura e colapso. A comunidade também é de prática e os participantes se apoiam e se capacitam no sentido de melhorar a comunicação sobre o tema e de como redesenhar suas vidas daqui para frente.

À partir da abordagem, do Fórum e da comunidade surgiu um movimento que, em muitas partes do globo, busca garantir a soberania alimentar, o acesso a água e a medicamentos naturais em uma situação de colapso. A agenda do movimento inclui valores como não-violência, compaixão, curiosidade e respeito em uma abordagem para ação construtiva.

Em muitos núcleos da Adaptação Profunda, quando a pandemia rendeu milhares de pessoas sem assistência e ainda mais refugiados políticos e climáticos, a abordagem e a articulação já existente permitiu com que muitas pessoas pudessem ser amparadas de imediato.

Jem Bendell alerta para o fato de que os maiores centros de pesquisa apontam a crescente degradação ambiental como principal possível causa de novas pandemias. Ele alerta também para o fato de que as instituições públicas, privadas e do terceiro setor apontam as mudanças climáticas e a degradação ambiental como principal ameaça para nossos sistemas alimentares. Bendell é mais um acadêmico que ao fazer o estudo profundo dos sistemas de suporte a vida no planeta, perceber e sentir a gravidade da crise que já se estabelece rapidamente, nos urge a praticar o protagonismo coletivo e a cultura da dádiva e a buscar alternativas locais autogeridas para suprirmos nossas necessidades de moradia, alimentação, água, saúde e transporte.

E você, como tem planejado suprir essas áreas essenciais na sua vida em um mundo que colapsa cada vez mais rápido?

As 10 Estratégias de Manipulação da Mídia, por Noam Chomsky

Noam Chomsky diz que “A propaganda representa para a democracia aquilo que o cassetete significa para o estado totalitário”. Mas quando os fundos de campanha bancados por corporações elegem mais que o povo, temos uma democracia? Quando os votos dos parlamentares são comprados para legislar em prol de banqueiros, mineradoras, farmacêuticas, indústria dos ultraprocessados, indústria armamentista e o agronegócio, podemos dizer que temos um sistema representativo?

Quando passaportes sanitários* estão sendo implementados, com uma droga experimental que nem imuniza, nem previne a transmissão, favorecendo corporações com lucro anual que ultrapassam mais de 100 bilhões de dólares, podemos afirmar, com certeza, que essa é a melhor estratégia para a saúde das pessoas? 

Quando em torno de 80% das pessoas com casos graves e óbitos estão entre pessoas obesas, com diabetes tipo 2, doenças cardíacas e crônicas causadas por uma alimentação com ultraprocessados, sedentarismo e hábitos nocivos para a saúde e o foco principal do governo e da grande mídia não está em reverter essa epidemia de obesidade, doenças crônicas e sedentarismo podemos confiar que as medidas sendo implementadas visam o bem estar de todos? Entender essas 10 estratégias é um instrumento poderoso para avaliar os enquadramentos das notícias. Para que mesmo que não saibamos quais os interesses escondidos, possamos perceber a manipulação. Ter conhecimento histórico sobre como governos e corporações agem juntos para cercear as liberdades e autonomia da população favorecendo a elite do sistema vigente também auxilia muito na avaliação crítica das notícias atuais. (Ver A Doutrina do Choque de Naomi Klein)

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Como de costume aviso que não sou sanitarista, médico virologista ou biólogo e, portanto, as informações e opiniões que compartilho aqui não devem ser vistas como recomendações. Acredito que, ao compartilhar minhas decisões pessoais, essas reflexões valham como construção de um pensamento crítico, ecológico e sistêmico para outras pessoas.

Artigos anteriores sobre temas relacionados:

Se você gotaria de interagir sobre os artigos e traduções que publico, entre em contato educadamente e não envie links sem se dar o trabalho de desenvolver uma linha de raciocínio própria. Se sua mensagem/comentário não for respeitosa, ela será ignorada ou deletada.

 

Noam Chomsky é linguista, filósofo, cientista cognitivo e um dos maiores comentaristas e ativistas políticos de nosso tempo. As 10 Estratégias de Manipulação da Mídia são um resumo do livro Fabricando Consentimento: A Economia Política da Grande Mídia*, escrito em 1988 por Edward S. Herman e Noam Chomsky. O livro também deu origem a um documentário com o mesmo nome. 

Leia abaixo as 10 Estratégias de Manipulação da Mídia e tenha elas em mente para avaliar as notícias sobre economia, política e saúde pública. Se pergunte: essas medidas me dão mais ou menos autonomia e condições para viver uma vida com dignidade, respeito e liberdade? Essas medidas estão sendo elaboradas por quem, a quem elas mais favorecem?

* Como estou usando as 10 Estratégias de Manipulação da Mídia para fazer uma leitura crítica sobre os riscos de aceitarmos políticas nacionais e internacionais de passaporte sanitário, faço aqui a ressalva de que o Chomsky já se manifestou a favor dos mesmos. Na minha opinião uma grande incoerência já que outros pensadores de nosso tempo como Edward Snowdem tem alertado para o perigo de entregarmos nossos dados e autonomia sem pensar como o Estado não abrirá mão dos poderes ampliados nesse momento. 

* Título original Manufacturing Consent: The Political Economy of the Mass Media

1 – A Estratégia da Distração.

O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças que são decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundação de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir o público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais na área da ciência, economia, psicologia, neurobiologia ou cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais” (citação do texto ‘Armas Silenciosas para Guerras Tranquilas’).

2 – Criar problemas e depois oferecer soluções.

Este método também se denomina “Problema-Reação-Solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que seja este quem exija medidas que se deseja fazer com que aceitem. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja quem demande leis de segurança e políticas de cerceamento da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer com que aceitem como males necessários o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

3 – A Estratégia da Gradualidade.

Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradualmente, com conta-gotas, por anos consecutivos. Dessa maneira as condições sócio-econômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990. Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego massivo, salários que já não asseguram rendas decentes, tantas mudanças que provocariam uma revolução se fossem aplicadas de uma vez só.

4 – A Estratégia de Diferir.

Outra maneira de fazer com que se aceite uma decisão impopular é a de apresentá-la como “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro porque o esforço não é empregado imediatamente. Logo, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para se acostumar com a idéia da mudança e aceitá-la com resignação quando chegar o momento.

5 – Dirigir-se ao público como a criaturas de pouca idade.

A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discursos, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse uma criatura de pouca idade ou um deficiente mental. Quanto mais se pretende enganar o espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por que? “Se alguém se dirige a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos ou menos, então, em razão da sugestão, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos (ver ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.

6 – Utilizar o aspecto emocional muito mais que a reflexão.

Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto-curcuito na análise racional, e, finalmente, no sentido crítico dos indivíduos. Por outro lado, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou injetar ideias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos.

 

7 – Manter o público na ignorância e na mediocridade.

Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância planejada entre as classes inferiores e as classes sociais superiores seja e permaneça impossível de ser alcançada para as classes inferiores (ver ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.

8 – Estimular o público a ser complacente com a mediocridade.

Promover a crença do público de que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto.

9 – Reforçar a auto-culpabilidade.

Fazer crer ao indivíduo que somente ele é culpado por sua própria desgraça devido à insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, em vez de se rebelar contra o sistema econômico, o indivíduo se menospreza e se culpa, o que gera um estado depressivo, cujo um dos efeitos é a inibição da ação do indivíduo. E sem ação não há revolução!

10 – Conhecer os indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem.

No decurso dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência geraram uma crescente brecha entre os conhecimentos do público e aqueles que possuem e utilizam as elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” desfrutou de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicológica. O sistema conseguiu conhecer melhor o indivíduo comum do que este conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos, maior que o dos indivíduos sobre si mesmos.

 

Quem deve diminuir o consumo e de que tipo de carne?

O número de pessoas que argumenta em prol de uma dieta à base de plantas ou mesmo do veganismo como direção única para o movimento ambiental tem crescido muito nos últimos anos. O argumento geral é que “precisamos comer menos carne para evitar a degradação ambiental”. Mas quem precisa diminuir o consumo de carne? De que tipo de carne estamos falando? Quem tem o direito de decidir ou influenciar a dieta de uma pluralidade enorme de pessoas vivendo em ecossistemas tão diversos?

A tendência ao veganismo ou a dieta à base de plantas nasceu nos grandes centros urbanos entre grupos privilegiados da população e tem encontrado campo fértil entre as pessoas que buscam um viver ‘sustentável’ e apoiam o desenvolvimento de políticas públicas para ‘reformar’ os sistemas de produção alimentar. Entretanto, essa abordagem é tão simplista e generalista que caracteriza uma miopia analítica, um desserviço para a ecologia, para a nutrição e para o ativismo ambiental. 

O problema é que não é possível reformar o sistema industrial de produção alimentar, assim como não é possível reformar o capitalismo. O sistema alimentar industrial faz exatamente o que foi projetado para fazer; ele concentra renda, poder e território nas mãos das corporações – empresas de capital aberto criadas pelo capitalismo para maximizar o lucro de um dia para o outro a qualquer preço. Não é o que se come que degrada as dimensões social e ecológica, o que caracteriza o problema é o como, onde, porquê e por quem é produzido, também o como, para quem, para onde e por quem é escoado. 

O que precisamos é de um novo modelo de gestão econômica que entenda e se comporte de acordo com a realidade física e biológica do planeta – a de que atividade econômica, de fato, está contida na biocapacidade dos lugares onde se realiza. E em termos de sistemas alimentares, o que precisamos é desenvolver sistemas descentralizados, distribuídos, capazes de lidar com as complexidades climáticas, geográficas, hídricas, biológicas, socioeconômicas e culturais dos lugares onde vivemos e produzimos nosso alimento.

E nós temos tanto um modelo de gestão como um sistema alimentar capazes de lidar com essas complexidades. 

A Economia Ecológica (EE) é um campo de estudo transdisciplinar que reconhece a interdependência da atividade econômica e dos ecossistemas naturais ao longo do espaço e do tempo. A EE se distingue da economia ambiental que se baseia na teoria da economia clássica, incorpora a atividade econômica na natureza e reconhece que os limites do crescimento material estão diretamente relacionados com a biocapacidade dos ecossistemas onde esta atividade se viabiliza.

O conceito de Soberania Alimentar foi definido pela Via Campesina, uma organização de pequenas e médias agricultoras familiares, indígenas e trabalhadoras rurais que visa a transição de uma agricultura industrial baseada em insumos químicos que degrada as dimensões social, ambiental e econômica para uma baseada nos princípios ecológicos. A soberania alimentar é um conceito inclusivo, sensível e plural que constrói o direito de todos os povos a alimentos nutritivos, limpos e culturalmente apropriados, assim como do acesso aos meios de produção para manter sua dieta. A soberania alimentar também implica o direito a decidir como comercializar se for o caso e se essa comercialização deve atender primeiramente a biorregião, o país ou uma agenda de exportação.

Os grandes centros urbanos são ecossistemas artificiais, mantidos pelos combustíveis fósseis e, portanto, são altamente poluentes, como José Lutzenberger já alertava na década de 80. A busca por uma vida sustentável nesses centros, como hoje alerta Ailton Krenak, é uma busca egoísta. Visa mais negociar e aplacar culpas ambientais que resolver problemas sistêmicos. Não faz o menor sentido criarmos uma direção, uma tendência vegana ou à base de plantas para todos, nivelando assim o viver e as necessidades das famílias campesinas, da agricultura familiar agroecológica, dos povos tradicionais, de ribeirinhos e indígenas com o viver altamente poluente dos urbanóides.

Essa tendência não faz sentido nutricional porque toda a produção industrial desperdiça em torno de 30% do que produz e entrega os outros 70% envenenados para a população que pode pagar. Durante a pandemia tivemos quase 20 milhões de pessoas passando fome e quase a metade das famílias brasileiras com alguma dificuldade para se alimentar. Todo alimento produzido pelo modelo industrial degrada as dimensões social e ecológica e isso inclui a produção de grãos, frutas e verduras, então, por quê criar uma tendência que limita só o consumo da carne ao invés de lutar pela soberania alimentar? Por quê criar uma tendência que diminui o consumo de carne se esse é o alimento com maior densidade nutricional? 

A CIÊNCIA produzida no campo da agroecologia já comprovou que as pequenas propriedades com sistemas integrados de produção são enormemente mais produtivas que a larga escala. São fazendas com menos de 2 hectares que produzem mais de 70% da comida do mundo. Isso usando menos terras aráveis, menos insumos químicos e menos água, mas para isso precisam integrar animais. Essa integração permite que uma produtora rural familiar use 20 vezes menos combustíveis fósseis que a produção industrial, enquanto produz grãos, tubérculos, frutas, castanhas… ao mesmo tempo que fornece proteína animal suficiente para alimentar 34 pessoas por ano por hectare (Altieri, 2015; ver também Pablo Tittonell, Stephen Gliessman e Ana Primavesi). Ignorar esses dados e a força que a pequena escala ligada em rede tem para rearranjar a produção e distribuição bioregional em um contexto de escassez energética é criminoso. 

Essa tendência não faz sentido ecológico por várias razões. 

Primeiro, quando grande parte da população mundial ainda vive em déficit nutricional, o foco deve ser em produzir mais carne agroecológica e não em combater o consumo da carne industrial. Se a carne consumida fez parte de um sistema que regenera o ecossistema onde foi produzida, traz mais viabilidade para as famílias que produzem e para economia local, quanto mais gente se alimentando dela melhor. E nós já temos abordagens capazes de produzir carne assim. 

Segundo, nossos sistemas de produção devem ser biorregionais de modo a lidar com as especificidades climáticas e ecológicas. Aproximadamente dois terços do planeta é composto por regiões de clima semiárido e nessas regiões a agricultura familiar não se viabiliza sem animais. 

Terceiro, não precisamos de mais área para produzir carne, podemos usar a produção animal com um planejamento holístico de pastagens – que considera a ecologia, a economia e a qualidade de vida – para ciclar toda a matéria orgânica e regenerar as áreas já degradadas. Esses sistemas imitam os movimentos migratórios e conseguem aumentar muito o número de animais por área com a vantagem de diminuir enormemente o risco de queimadas.

Na questão do ativismo essa tendência de promover veganismo ou dietas à base de plantas ao invés da soberania alimentar, também não faz sentido. A soberania alimentar dá conta das complexidades, é plural, inclusiva e foi elaborada por uma diversidade enorme de pessoas que vivem a realidade rural nos vários biomas do planeta. A soberania alimentar garante o direito inalienável ao veganismo em suas várias vertentes de movimento, assim como uma dieta à base de planta ou qualquer outro tipo. Já a tendência de transformar o veganismo ou mesmo a redução do consumo da carne em uma direção para o movimento ambiental exclui indígenas, ribeirinhos, caatingueiros, quilombolas e as pessoas da agricultura familiar agroecológica que passam a se sentir atrasadas em relação a uma agenda criada nos centros urbanos por pessoas com um impacto ambiental imensamente mais danoso que o delas.

Um ativismo saudável e inclusivo focado em soluções deve apoiar a soberania alimentar, o êxodo urbano por uma reforma agrária bem planejada e concentrar sua energia em ensinar as pessoas a comprar TODOS os seus alimentos de quem produz agro-etno-ecologicamente em sua biorregião. Esse foco pode mitigar até 30% dos gases de efeito estufa que causam as mudanças climáticas no modelo INDUSTRIAL de sociedade enquanto promove a viabilidade econômica das pequenas produtoras e a qualidade de vida de quem vive no campo.

O que precisamos é de pensamento sistêmico, crítico e ecológico, de coragem, protagonismo coletivo e muita articulação em rede para descentralizarmos a tomada de decisão, a governança e o desenvolvimento de políticas públicas. Só em um viver biorregional onde a viabilidade econômica surge da pluralidade de ideias, da equanimidade entre as pessoas e da regeneração da saúde do solo, das pessoas e dos coletivos teremos um sistema alimentar digno, limpo e nutritivo para todas as pessoas.

A dissonância cognitiva dos filhos do agronegócio e quem realmente alimenta o Brasil

Na segunda-feira (dia 27/09/2021) o jornalista Fábio Pannunzio afirmou no Jornal Despertador, de seu próprio canal TV Democracia, no YouTube, que a permacultura, uma ciência do desenho ecológico, e a produção de alimentos orgânicos gastam três vezes mais terra do que a produção industrial, que tais abordagens não passam de “discurso bonitinho” e que só seriam capazes de alimentar em torno de 30 mil pessoas no planeta. O texto que segue é uma contribuição no sentido de desmentir tais absurdos e nesse intuito traz referências acadêmicas e argumentos apoiando a posição contrária a do jornalista Fábio Pannunzio.

Depois de lamentar os prejuízos trazidos pelas queimadas e apresentar grande parte de suas tendências cognitivas a favor do agronegócio e do uso dos pivôs centrais que hoje gastam em torno de 80% dos recursos hídricos do país em uma reportagem gravada na fazenda de sua mãe, Pannunzio destilou autoritarismo e ignorância ao impedir o colega Eumano Silva de expor sua opinião. Eumano começava a defender modelos alternativos de planejamento rural e agricultura como a Permacultura e os sistemas agroflorestais sucessionais, mas foi impedido de seguir argumentando. Ao pedir desculpas, Fábio disse: “Pode colocar sua opinião, mas vou confrontar você, te aviso, porque seu argumento está errado…” e seguiu:

“A informação técnica é a seguinte: permacultura, produção de orgânicos gasta três vezes mais terra, mais área agricultável do que a produção industrial. Essa é a realidade! Se todo mundo passasse a consumir alimentação orgânica 2/3 da população da Terra passariam fome porque a área agricultável não existe. E outra coisa, o dano ambiental seria gigante porque você precisaria desmatar praticamente toda a Amazônia para produzir a mesma quantidade de comida. Então, tem um discurso muito bonitinho… vegano, orgânico, e o escambal… isso serve para 30 mil pessoas, não serve para 7 bilhões. Essa é a posição correta… e aí não tem discussão porque esses dados são dados da própria ONU. Não tem o que fazer. E com toda essa produção industrial tão mal vista, ainda tem 1 bilhão de pessoas passando fome no planeta” (Fábio Pannunzio no Jornal Despertador, dia 27/09/2021, grifo meu).

As afirmações e atitudes do Fábio Pannunzio escancaram desinformações, mentiras, incoerências e seu viés de confirmação pró-agronegócio. Atitudes que persistiram durante as edições seguintes do programa.

Para além da incoerência de termos o criador da TV Democracia usando de grosserias e autoritarismo para silenciar a opinião de um jornalista que ele mesmo convidou para o programa, temos o uso incorreto das fontes e dos dados compartilhados. Segundo o Fábio, são relatórios da ONU que afirmam que a agricultura orgânica precisaria de mais espaço para produzir alimentos, muito embora ele não tenha compartilhado essas fontes. Fica evidende que o jornalismo do Fábio funciona só até que a matéria não critique o modelo de produção da fazenda da própria mãe, uma incoerência enorme.

À partir desse ponto, fica claro o viés de confirmação pró-agro mesmo que em sua retórica Fábio se posicione como pessoa que se importa com o colapso ecológico que estamos vivendo. Fábio não é capaz de admitir que o modelo de produção de sua família é parte do problema, não é capaz de ouvir um colega sobre as alternativas possíveis. A arrogância, a incapacidade de admitir que outras pessoas chegaram a princípios e práticas mais socialmente justas, ecologicamente regenerativas e economicamente viáveis impede o avanço das mudanças que precisamos realizar urgentemente!

As grosserias do Fábio deixaram claro que a dificuldade dele é ouvir que existem alternativas muito mais viáveis do que o modelo do agronegócio incorporado na fazenda da própria mãe. E Pannunzio é apenas um entre tantos que reconhecem que precisamos mudar, mas não se o custo da mudança questionar o modelo econômico atual e a viabilidade da familia com a agricultura industrial. É muita dissonância cognitiva!

O agronegócio não produz alimento, produz commodities para especulação no mercado financeiro às custas de muito subsídio hídrico, energético e econômico. Esse modelo, que transforma a agricultura em plataforma de escoamento para petroquímicos, também está intimamente ligado com a indústria dos ultraprocessados que causa a obesidade, diabetes tipo 2 e várias doenças crônicas que associadas com o coronavírus tem causado praticamente 80% das mortes durante a pandemia. E neste contexto, as declarações de Pannunzio, além de incoerentes e mal-educadas, são um desserviço! Mais ainda, são classistas porque defendem que o que temos disponível para a população pobre é o alimento industrial.

A agricultura industrial é uma das maiores causadoras dos processos de desertificação e mudanças climáticas que degradam severamente a natureza. Entretanto ela também está entre os setores que mais vão sofrer as consequências desses processos degradantes.

Dois esclarecimentos se fazem necessários. A Permacultura é uma ciência do desenho ecológico que combina estratégias energeticamente eficientes e socialmente justas para o manejo ecológico da água e dos efluentes, da produção alimentar (usando várias práticas e a integração animal), para a produção energética, para a construção de moradias e para a elaboração de políticas públicas e sistemas econômicos. A produção orgânica, na minha análise, já foi cooptada pelo modelo econômico vigente e portanto, não serve mais como direcionadora do movimento regenerativo. Nesse sentido trago aqui referências e argumentos pela agroecologia e a agrofloresta sucessional. Vamos aos fatos, cientificamente referenciados, para desfazer o desserviço do Fábio e sua linha editorial pró-agro.

“Qual modelo é mais necessário para a sociedade brasileira?”. O gráfico pode ser encontrado em uma publicação da Escola Milton Santos de Agroecologia de outubro de 2013.

A origem dos movimentos de conservação do solo no mundo todo vem das tempestades de poeira da década de 30 do século passado. Desde então, os cientistas sabem que a origem dessas tempestades é o hábito de cultivar (arar) o solo e produzir alimentos em sistemas monoculturais com solo exposto, ou seja, o modelo industrial de produção.

Sobre este modelo industrial de produção, a economista Maria-Helena Semedo, Diretora Adjunta da Organização de Alimentação e Agricultura (FAO) da ONU, declarou no forum do Dia Mundial do Solo em 2014 que se prosseguíssemos com o modelo industrial de agricultura teriamos apenas 60 anos restantes de colheitas até o colapso completo do solo nas áreas agricultáveis.

Miguel Altieri, doutor em agronomia, cientista prolífico e professor da Universidade da California explica que:

O desafio imediato que a agricultura sofre é como aumentar a produção alimentar para dar conta da população que cresce enquanto regeneramos os ecossistemas que já degradamos até o momento presente. Essa virada precisa ser feita usando a mesma quantidade de terra, menos petróleo, menos água e menos nitrogênio em um cenário regido pelo aquecimento global, conturbações sociais e crise financeira. A situação atual de falta de acesso ao alimento produzido, perda de diversidade biológica, erosão do solo superior e as doenças causadas pelo uso de agrotóxicos e alimentos geneticamente modificados, por exemplo, mostram claramente que esse desafio não pode ser vencido pelo modelo de produção do agronegócio (Altieri, 2015)”.

Durante o programa de segunda-feira e nos subsequentes, Fábio constantemente argumenta à favor do modelo industrial por sua eficiência e uso da tecnologia inovadora. A dissonância cognitiva do Fábio faz ele separar o modelo de produção da agricultura industrial do modelo econômico, como se o primeiro não fosse consequência dos valores do segundo. Fábio diz que o agricultor produz, mas o sistema não é competente na entrega, mas ele não qualifica esse ‘agricultor’ e segue empurrando a culpa para outro setor, afinal, a fazenda da mãe não pode ser parte do problema. Mas Altieri, de novo, explica melhor o que Fábio faz questão de não ver:

“A razão pela qual a fome no mundo continua crescendo não é porque não produzimos alimento o suficiente. O problema é o acesso à comida e a desigualdade social e econômica. Nos Estados Unidos e na Europa cada pessoa joga fora em média 115kg de comida por ano, enquanto aproximadamente 2/3 da população mundial em países em desenvolvimento ainda vive na pobreza, ganha menos de $3 dólares por dia e não consegue comprar alimento suficiente para sobreviver. A razão verdadeira porque temos fome no mundo é porque a agricultura é controlada por corporações. E essas corporações controlam o que (e como) os produtores devem produzir e o que os consumidores podem consumir (Altieri, 2015)”.

Os argumentos de Fábio pela eficiência também não se sustentam quando vemos os dados das pesquisas de Altieri sobre a produção primária global. Segundo Altieri, além da produção de alimento pelo agronegócio só alimentar 30% da população mundial, ela usa de 70 a 80% das terras aráveis, 70% da água e 80% dos combustíveis fósseis usados na agricultura (2015). Agravando ainda mais a situação, segundo dados da FAO, a erosão causada pelo agronegócio perde em torno de 12 a 15 toneladas de solo por hectare por ano! Ou seja, o modelo do agronegócio, produz mais solo erodido que aliementos por hectare ano.

Os pequenos produtores rurais ao redor do mundo, em comparação com o agronegócio, produzem de 50 a 75% da comida que alimenta a população mundial usando apenas de 25 a 30% da terra arável, 30% da água e 20% dos combustíveis fósseis usados na agricultura (Altieri, 2015; Tittonell, 2014). O que é mais importante, os pequenos produtores rurais que fazem uso de métodos regenerativos como a agroecologia, por exemplo, são 20 vezes mais energeticamente eficientes do que o agronegócio e os grandes latifúndios. Enquanto o método mais eficiente do agronegócio tem que investir 1kcal para produzir 1.5kcal, um pequeno produtor rural investe 1kcal para produzir 30kcal de alimento por hectare. Outra informação importante é que enquanto produz grãos, tubérculos, frutas, castanhas, etc. o pequeno produtor rural ainda consegue fornecer proteína animal suficiente para alimentar 34 pessoas por ano por hectare (Altieri, 2015).

No Brasil temos dados ainda mais convincentes sobre métodos de produção da agricultura familiar e os que levam em conta a ecologia florestal. O Dr. Walter Steenbock, autor de vários outros livros e artigos científicos, compila uma série de dados reveladores em sua última obra, A Arte de Guardar o Sol. Dados do Atlas do Agronegócio citados no livro revelam que: 453 milhões de hectares do Brasil estão em uso privado e 45% das propriedades com mais de 1000 hectares compoem apenas 1% dos imóveis rurais. O livro de Steenbock traz ainda, por meio de dados do Censo Agropecuário de 2006 que: a agricultura familiar, com apenas de 10 a 15% do crédito rural e apenas 24% da área produtiva total, produz 70% dos alimentos e emprega 70% da mão de obra (Steenbock, 2021).

O que os dados sobre a agroecologia e as agroflorestas revelam no Brasil e no mundo é que o agronegócio não é sustentável nas dimensões social, ecológica e nem econômica. Ter 20% do território de uma fazenda do agronegócio, em reservas legais (normalmente onde as máquinas não conseguem operar) não compensa uma agricultura industrial que cria desemprego no campo, desmata, desperdiça e contamina a água e erode o solo para implementar monoculturas (frequentemente trasngênicas) em 80% do território que ocupa.

Precisamos ter coragem de admitir que nosso modelo econômico atual e a produção industrial de alimentos são responsáveis pelo colapso ecológico que estamos vivendo. Precisamos ter coragem para parar de usar desculpas como ‘a transição leva tempo’, ‘isso é maniqueismo’ ou ‘não podemos ser tão radicais’! Até porque essa retórica só favorece um grupo minúsculo de privilegiados enquanto lança toda a vida no planeta para extinção em massa.

Sobre a velocidade com que conseguimos mudar quando necessário, dois episódios ilustram bem o que é culturalmente e tecnologicamente possível. Ao final da Segunda Guerra Mundial os americanos já haviam implantado 20 milhões de Hortas da Vitória (Victory Gardens) que supriam 40% de todas as hortaliças e tubérculos que alimentavam o país à época. Isso levou menos de 5 anos! Durante a Guerra Fria, depois de saber que os soviéticos haviam enviado uma espaçonave não tripulada para a Lua, os americanos levaram apenas 10 anos para levar uma espaçonave tripulada! David Suzuki, o ecologista e autor canadense, narra o esforço científico e econômico coletivo necessário para conseguir esse feito para nos mostrar que com a mentalidade certa somos capazes, sim, de grandes mudanças rapidamente. Como temos meros 5% de chance de reverter as mudanças climáticas em tempo de evitar uma hecatombe, ele reforça construir essa mentalidade é uma questão de vida ou morte, literalmente.

É com essa mentalidade e velocidade que precisamos implementar a reforma agrária agroecológica, alcançar a soberania alimentar que garante a alimentação saudável para todos e a biorregionalização das cadeias de produção e consumo. Do contrário, estaremos assinando a cumplicidade com a extinção em massa.

Todas as áreas produtivas devem passar por essas transições rapidamente até que sejam 100% regenerativas no social (trazendo justiça e dignidade para as pessoas do campo), no ecológico (produzindo com princípios e práticas que melhoram os processos ecossistêmicos) e no econômico (trazendo equanimidade para todas as pessoas). Como diz Muhammad Yunus, prêmio Nobel de Economia, se quisermos escapar a extinção em massa que estamos causando, precisamos de Um Mundo com 3 Zeros – zero emissões de gases de efeito estufa, zero desemprego com todos sendo empreendedores em suas vocações e zero concentração de renda.

Nota 1: É importante dizer que o plantio direto em palhada, apresentado por Pannunzio como uma prática “sustentável”, é evidentemente melhor que o plantio com solo exposto, mas não é capaz de substituir a biodiversidade e os serviços ecológicos prestados pela vegetação nativa do cerrado ou das florestas Atlânticas ou Amazônicas.

Nota 2: Não recomendo assistirem tamanha grosseria e autoritarismo vindos de um jornalista que se diz democrata, mas deixo o link para o programa junto com as referências para quem quiser conferir.

Nota 3: A lista de referências com economistas, agronomos, cientistas climáticos, ecologistas é muito mais extensa do que o que apresento aqui. Na verdade, o que a ciência idonea traz é que o modelo industrial de produção de alimentos é um risco para a humanidade e o planeta. A única ‘ciência’ que discorda dessa premissa é a produzida pelas corporações dos petroquímicos, transgênicos e maquinário industrial, mas para o escopo de uma resposta informativa e transparente aos desserviços de Fábio Pannunzio os links ao longo do texto, as referências citadas e as deixadas como sugestão de leitura abaixo representam os argumentos centrais com bastante propriedade.

Referencias:

ALTIERI, M. A. (2015). Agroecology: Who will feed us in a planet in crisis. Paper presented at the Earth Talk. https://www.youtube.com/watch?v=LKfiabQ-j0E

ALTIERI, M. Agroecologia: bases científicas para uma agricultura sustentável. 3 ed. São Paulo: Expressão Popular; Rio de Janeiro: AS-PTA, 2012. 400 p.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo Agropecuário 2006: agricultura familiar, primeiros resultados. Brasil, Grandes Regiões e Unidades da Federação. Rio de Janeiro: IBGE; 2006

FAO – Food and Agriculture Organization of the United Nations. State of knowledge of soil biodiversity: satus, challenges and potentialities. Rome, FAO, 2020

GLIESSMAN, S. R. Agroecologia: processos ecológicos em agricultura sustentável. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2000

Jornal Despertador, TV Democracia, dia 27/09/2021 – https://www.youtube.com/watch?v=KLcCbMhlidU&t=3814s

SANTOS, M.; GLASS, V. (orgs). Atlas do agronegócio: fatos e números sobre as corporações que controlam o que comemos. Rio de Janeiro: Fundação Heinrich Böll, 2018

STEENBOCK, W. A arte de guardar o sol: padrões da natureza na reconexão entre florestas, cultivos e gentes. Rio de Janeiro, Bambual Editora, 2021.

Soil Erosion: the greatest challenge for sustainable soil management – http://www.fao.org/3/ca4395en/ca4395en.pdf

TITTONELL, P. (2014). Feeding the world with Agroecology Paper presented at the TEDx Ede https://www.youtube.com/watch?v=iKtrwdsvIko

A economia do Colapso

Como bactérias que crescem exponencialmente em uma solução de glicose dentro de um tubo de ensaio, o crescimento populacional do modelo de civilização ocidental embasado pelos combustíveis fósseis é um evento com dias contados.

As desigualdades sociais, os processos de desertificação, as mudanças climáticas, o aquecimento global e a sexta maior extinção em massa causados pelos seres humanos que participam do monoteísmo de mercado ocidental, são evidências irrefutáveis do colapso social, econômico e ecológico que estamos vivendo.

A economia convencional, tem como principal indicador de sua ‘saúde’ o crescimento e para medi-lo usa o PIB – definido como a soma das riquezas produzidas ou a quantidade de dinheiro que circula por uma economia em um dado ano.

A destruição ambiental que sustenta essa produção de riquezas é definida como uma “externalidade”, ou seja, como custo que permanece de fora do cálculo econômico. A concentração cada vez maior dessas riquezas nas mãos de um número cada vez menor de pessoas também não faz parte desse cálculo. E essa concentração destrói culturas, usurpa a dignidade, degrada a qualidade de vida e a autonomia da maioria das pessoas envolvidas no processo que mói recursos naturais para gerar riquezas para poucos.

Em nome desse crescimento uma pequena e poderosa classe de pessoas modificou a lógica da alimentação, da saúde, da moradia, do comércio e até mesmo do nosso viver. Esta classe desenhou uma produção industrial de alimentos que nada tem a ver com nutrição, de medicamentos que não promovem saúde e de casas que não propiciam aconchego e autonomia. Essas áreas foram transformadas em plataformas de escoamento dos combustíveis fósseis e criação de dívidas que só favorecem as indústrias do agronegócio, dos alimentos ultraprocessados, das farmacêuticas, da mineração e dos bancos.

Na lógica do crescimento econômico, quanto mais energia tivermos ao nosso dispor e quanto mais essa energia for utilizada para transformar recursos naturais em riquezas, melhor. Melhor para a concentração de renda, poder e território dessa elite, não para os ecossistemas onde vivemos e produzimos nosso alimento; não para a grande maioria das pessoas; não para a pluralidade de ideias e expressões culturais que ainda temos.

Em outras palavras, dentro do paradigma econômico atual, quanto mais energia tivermos a nosso dispor, quanto mais crescimento econômico tivermos, mais rápido caminharemos para o colapso social e econômico e para a extinção em massa. Nesse cenário, a pandemia atual é só um sintoma, uma pequena amostra do que nos espera se continuarmos como cúmplices desse modelo.

O que é mais desolador para quem entende essa relação, para quem sabe que qualquer atividade economia está contida e, portanto, restrita pela biocapacidade dos ecossistemas onde vivemos é que grande parte do campo supostamente progressista do Brasil (e do mundo) ainda insiste no modelo econômico de crescimento, ainda insiste no trabalhismo, na ideia idiota de “emprego pleno”. Não precisamos de emprego, precisamos dominar os meios de produção para viabilizar uma vida baseada na dignidade, no bem-viver humano e em uma economia que esteja atrelada à regeneração dos ecossistemas e culturas já degradados até aqui.

É por acreditar que existem alternativas viáveis e por não querer ser cúmplice deste colapso já em andamento que não vejo muito sentido em investir minha energia pessoal na macro-política, que faço críticas às lideranças pseudo-progressistas e às políticas públicas que não abordam as raízes dos problemas atuais como a pandemia.

Não acho útil apoiar um progressismo já falido, incapaz de trazer alternativas realmente capazes de construir um futuro viável para toda a vida no planeta. Por isso, muitos colegas e contatos dizem que estou polemizando ou que as mudanças que eu proponho são muito utópicas e “não acontecem da noite para o dia”.

Só que a história da humanidade contraria essa crença morosa, fraca de vontade e imaginação. A história é repleta de mudanças rápidas, a grande maioria impulsionadas por guerras, desastres naturais, colapsos regionais e o crescimento econômico, é verdade. Entretanto, estamos em mais um desses momentos nos quais uma virada se faz necessária. Estamos vivendo a sexta maior extinção em massa da história do planeta. É a mais acelerada, a que atinge a maior quantidade de espécies ao mesmo tempo e a única causada por uma única espécie, a humana. Ou abraçamos a possibilidade de mudanças rápidas e radicais por toda a vida no planeta ou aceitamos o protagonismo da extinção em massa para continuar gerando lucros exorbitantes para uns poucos.

À direita, não existe problema moral em usar recursos naturais para gerar lucro, mesmo que cause a extinção em massa.

À esquerda, pelo menos da que se apresenta hoje, não existe problema moral em negociar com corporações um Pacto de Aceleração do Crescimento (PAC) que gere emprego pleno (mesmo que indigno), que crie programas de distribuição de renda mesmo sem reformas estruturais e que apoie a agricultura familiar mesmo sem reforma agrária.

Aplicando um pensamento crítico, ecológico e sistêmico fica evidente que todas as lideranças atuais, à direita e à (pseudo)esquerda, continuam rendendo a humanidade causadora da extinção em massa.

Na urgência da pandemia e no contexto do antropoceno, nossas decisões pessoais e nossas políticas públicas no nível coletivo precisam ser desenvolvidas de acordo com o fato de que nossa estabilidade física e econômica depende completamente e são inseparáveis da saúde dos sistemas ambientais que dão suporte à vida no planeta (Sarah Savory).

O momento exige que entendamos, reconheçamos e exerçamos o poder das soluções pequenas, distribuídas e ligadas em rede. O pacto coletivo do momento deve ser em prol da reforma agrária, do êxodo urbano, da soberania alimentar, da agroecologia e cadeias biorregionais de produção e consumo. Deve ser em prol da Economia Ecológica que preconiza sua viabilidade econômica atuando na restauração dos ecossistemas já degradados, no bem-viver humano, no biorregionalismo e na autonomia e resiliência energética dessas regiões.

Pactos coletivos que não tenham seu foco principal nessas ações, não estarão atuando na raiz do problema (o colapso ecológico causado pela economia de crescimento) e, portanto, são ineficientes para evitar as crises energéticas, sanitárias, ecológicas, sociais e econômicas que já estão a caminho.

Nota: Esse texto faz parte de uma série de textos que embasam meu próximo curso sobre a Economia da Dádiva como forma de preparo para o colapso. Use o @eurico_vianna para acompanhar meus textos, redes sociais e vídeos no YouTube.

Qual o verdadeiro papel das vacinas?

Durante essa pandemia duas questões tem me assombrado muito. A primeira é a maneira como estamos coletivamente encarando o papel das vacinas e a pandemia em si. A segunda é uma pergunta que tenho feito para mim mesmo dentro desse contexto – qual é o mundo ‘pós-pandemia’ que estamos criando com nossas decisões atuais?

Muito mais graves e urgentes para serem resolvidos são o colapso ecológico e o risco de uma guerra nuclear. Crises que a grande mídia insiste em não abordar com a profundidade e o escopo necessários, porque exigem novas perguntas, uma honestidade e uma humildade coletivas na abordagem que invariavelmente levam à uma conclusão óbvia: o projeto de civilização ocidental baseado no monoteísmo de mercado falhou com a pluralidade de povos, com a Mãe Terra e consigo mesmo ao delinear uma economia em que a viabilidade é realizada com a destruição da própria base de recursos.

Nota: Se você quer apoiar meu trabalho com artigos, entrevistas e traduções clique aqui. Você pode fazer doações únicas ou mensais que ajudam a manter o fluxo de trabalho.
Com o tipo de artigo que tenho escrito, não sei por quanto tempo as redes sociais manterão meus perfis. Se você quer ficar em contato direto, pode se inscrever na mala direta aqui no site e no canal do podcast impacto positivo no Telegram.
Como de costume aviso que não sou sanitarista, médico virologista ou biólogo e, portanto, as informações e opiniões que compartilho aqui não devem ser vistas como recomendações. Acredito que, ao compartilhar minhas decisões pessoais, essas reflexões valham como construção de um pensamento crítico, ecológico e sistêmico para outras pessoas.

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Se você gotaria de interagir sobre os artigos e traduções que publico, entre em contato educadamente e não envie links sem se dar o trabalho de desenvolver uma linha de raciocínio própria. Se sua mensagem/comentário não for respeitosa, ela será ignorada ou deletada.

A pandemia inclusive, é só um dos sintomas deste colapso que caso continue seguindo seu curso acelerado, tornará inviável a vida humana no planeta. A pandemia também é um sintoma da praga do neoliberalismo, que traz o colapso socioeconômico do mercado, como explica Noam Chomsky (vídeo em inglês):

Resolvi compartilhar minhas reflexões sobre como encaro o papel das vacinas porque cada vez mais pessoas tem pedido minha opinião e porque um número pequeno de parentes, amigos e colegas ao ouvir minhas opiniões em conversas particulares diz que, apesar de coerentes não devo compartilhá-las em público “para não dar munição para o outro lado.”

Indo diretamente ao ponto, eu sou contra a vacinação obrigatória, sou contra o passaporte sanitário (na lógica atual) e, se conseguir escapar, não quero tomar as vacinas que foram disponibilizadas até agora.

Pronto, agora muitos leitores pseudo-progressistas podem automaticamente me colocar em uma daquelas categorias pejorativas como ‘anti-vacina’ ou ‘negacionista’ para não ter que lidar com os argumentos que trago. O texto segue para aqueles que pediram minha opinião sobre o assunto e para os que ainda conseguem sustentar o diálogo pelo valor dos argumentos e não pela (des)qualificação dos interlocutores.

Mas vale um aviso: não sou sanitarista, médico virologista ou biólogo e, portanto, as informações e opiniões que compartilho aqui não devem ser vistas como recomendações. Acredito que, ao compartilhar minhas decisões pessoais, essas reflexões valham como construção de um pensamento crítico, ecológico e sistêmico.

A vacinação no contexto atual é um direito e não um dever coletivo!

Primeiro vamos aos fatos.

Todas as vacinas liberadas até agora foram liberadas em caráter especial. Isso significa que não passaram pela mesma quantidade de testes e pelo tempo necessário para avaliar as possíveis reações adversas. Para que fossem liberadas em regime de urgência as corporações farmacêuticas exigiram isenção de qualquer responsabilidade legal sobre efeitos colaterais ou mortes que as vacinas possam causar. A omissão ou minimização desse contexto pelas autoridades e mídia, caracteriza má fé e manipulação de informação.

A obrigatoriedade das vacinas e do passaporte sanitário é bem recebida por grande parte da população por acreditar que as vacinas impedem a transmissão do vírus; o que não é verdade. As vacinas que foram disponibilizadas foram desenvolvidas apenas para atenuar os sintomas da infecção.

A eficácia de 95% divulgada pela grande mídia foi calculada pelas próprias empresas tendo como base o objetivo de atenuar sintomas e não o de prevenir a transmissão da doença. Essa informação também não é propriamente contextualizada pela mídia.

A eficácia das vacinas na atenuação de sintomas só é válida para a primeira cepa do vírus. As vacinas não trazem imunidade contra e nem impedem a transmissão de novas variantes como a Delta, por exemplo.

Os testes feitos até aqui mostram que a vacina impede a replicação do vírus nos pulmões, mas não nas narinas e nasofaringe, vias por onde é mais comumente transmitido.

Uma pesquisa recente conduzida em Israel atesta que “a imunidade natural confere proteção mais forte e por mais tempo contra infecção sintomática e hospitalizações causadas pela variante Delta que as duas doses da vacina da Pfizer”.

Outras 15 pesquisas feitas em vários outros países também atestam que a imunidade natural é mais eficiente que as vacinas oferecidas. Vale ressaltar que não estou argumentando pela teoria da ‘imunidade de rebanho’. Estou analisando a eficiência das vacinas com base nestes fatos e pesquisas e não me sinto seguro para tomar uma vacina ainda em fase de teste e elaborada para a primeira cepa do vírus, uma vez que a cepa dominante agora já é outra.

No vídeo abaixo, a Dra. Christina Parks, doutora em biologia celular e molecular pela Escola Médica da Universidade de Michigan, explica que “nossas políticas públicas não podem ser construídas baseadas na esperança que temos que algo faça o que queremos que faça, mas no que os dados, de fato, nos informam” (vídeo em inglês).

Na minha opinião, o dever dos governos, das farmacêuticas e da mídia é esclarecer detalhadamente que quem quiser se vacinar está concordando em participar, como cobaia, de um programa de vacinação global ainda em fase de teste e que as vacinas disponibilizadas até agora não são eficientes contra novas variantes.

Outra maneira de contextualizarmos a situação é deixando claro que um programa de vacinação ainda em fase de teste não deve ser transformado em obrigação ou responsabilidade coletiva que socializa os riscos enquanto privatiza bilhões em lucro para corporações que não tem compromisso real com a saúde da população.

Ah, mas os benefícios das vacinas são maiores do que os riscos que elas trazem!

Na verdade, não temos como saber qual é essa relação.

A mídia inculcou pavor na maioria da população que por desespero resolveu apoiar a liberação das vacinas em ‘caráter especial’. Podemos ter uma geração de pessoas inférteis, de bebês com problemas ou uma propensão a desenvolver doenças debilitantes que só se manifestarão em um futuro próximo. Ainda assim, corremos o risco das corporações, governos e mídia esconderem estes fatos caso venham à tona, como é costume nestes setores.

Vejo que, no geral, as pessoas estão muito mais interessadas na vacina como chance de voltar ao ‘normal’ que causou a pandemia do que em adotar hábitos que realmente abordem a raiz do problema.

A grande maioria dos que foram hospitalizados ou que morreram é composta por pessoas com doenças crônicas diretamente ligadas com um estilo de vida e dietas nocivas para a saúde humana. Para termos uma ideia, 40% das mortes nos Estados Unidos foram entre pessoas com diabetes, 78% dos que foram hospitalizados ou morreram eram obesos e no mundo todo, 88% das mortes estão em países com altas taxas de obesidade.

Não estou culpando essas pessoas, muito menos propondo que, como sociedade, deixemos indivíduos com qualquer tipo de comorbidade à mercê do vírus. Entretanto, se estivermos realmente investidos em diminuir as internações e as mortes em quase 90% da população mundial, deveríamos estar discutindo como as pandemias de diabetes tipo 2 e de obesidade são causadas por essas corporações e como elas precedem e agravam a pandemia do COVID-19.

Em países pobres ou muito desiguais, como é o caso do Brasil, muitas pessoas passaram de magras famintas para obesas mal nutridas em função da propaganda e lobby do agronegócio e da indústria dos alimentos ultraprocessados. E isso sem que nunca tivéssemos discutido de forma responsável, democrática e transparente que tipo de agricultura e de alimentos queremos.

Queremos uma agricultura que combate as mudanças climáticas, fornece alimentos nutritivos, saudáveis e sem veneno e que fortalece a economia local? Ou queremos uma agricultura industrial que melhora o PIB causando o colapso ecológico, câncer nas pessoas que produzem e consomem estes alimentos, e que concentra o lucro nas mãos de poucas corporações?

A primeira agricultura é a familiar agroecológica e ela tem um papel central na cura das doenças crônicas, diabetes e obesidade que agravam a atuação do vírus causando a maioria das mortes.

Se queremos sair fortalecidos dessa pandemia e em melhores condições de enfrentar outras que certamente virão em decorrência do colapso ecológico que provocamos, precisamos lutar pelas soluções que abordam as raízes do problema e não por alternativas questionáveis para continuar propagando o modelo de sociedade que causou esse colapso.

Concordar com esse pacto mal esclarecido proposto pelos governos, pelas corporações farmacêuticas e pela grande mídia implica em abrirmos mão de sabermos quais são os riscos reais que estamos aceitando. Implica em não termos como responsabilizar as farmacêuticas por possíveis sequelas e mortes causadas pelas vacinas e em permitir que os Estados sejam aparelhados para beneficiar as corporações.

O que sabemos sobre as corporações

“Falar sobre a ganância das corporações não faz sentido. As corporações são gananciosas por natureza. Elas não são outra coisa – são instrumentos para interferir com os mercados maximizando o lucro, a riqueza e o controle de mercado. Não podemos torná-las mais ou menos gananciosas, talvez consigamos forçá-las, mas é como dialogar com um Estado totalitário e dizer ‘seja menos brutal’. Talvez você consiga fazer um estado totalitário ser menos brutal, mas esse não é o ponto, o ponto não é fazer uma tirania ser menos brutal, mas se livrar dela” (Noam Chomsky). De fato, o que precisamos é nos livrar das corporações, mas retomo essa proposta na sessão seguinte.

Em 2021 as farmacêuticas fabricantes de vacina contra o covid-19 vão lucrar juntas mais de U$100 BILHÕES de dólares. Se aproveitando da pandemia essas corporações engajam no que a autora e ativista socioambiental Naomi Klein chama de Doutrina do Choque.

Milton Friedman, o economista guru da escola de Chicago onde Paulo Guedes se formou dizia que “só uma crise – real ou percebida – produz uma mudança real”. E que “quando essa crise ocorre, as ações tomadas dependem das ideias que estão por aí.”

Aprendemos com a Doutrina do Choque que o neoliberalismo sempre usou a desgraça, os desastres naturais, os conflitos e as guerras para fazer com que a população aceitasse reformas que só privilegiam a elite financeira. E quando se trata de assegurar a maximização de seus lucros, o histórico das corporações deixa claro que a saúde das pessoas, o bem comum e da natureza pouco interessam.

Em 1950, ao enfrentar cada vez mais evidências científicas ligando o tabagismo a doenças graves e ao câncer, as corporações do tabaco criaram o Manual de Estratégias da Indústria do Tabaco. As táticas incluem:

  • Inculcar medo, incerteza e dúvida por meio de estudos delineados para sabotar o consenso científico sobre os efeitos nocivos do tabagismo e caracterizá-los como ciência mal feita;
  • O Astroturfing, a prática de mascarar os patrocinadores de uma mensagem ou organização com o intuito de fazer parecer que ela tenha surgido pelos movimentos populares espontâneos da sociedade. Essa tática visa dar credibilidade a declarações ou organizações sem, no entanto, fornecer informações a respeito da conexão financeira de sua fonte;
  • O Lobismo é a atividade de influência, ostensiva ou velada, utilizada por um grupo organizado que, por meio de um intermediário, busca interferir diretamente nas decisões do poder público, em especial do legislativo, em favor de causas ou objetivos próprios;
  • A porta giratória, estratégia que coloca pessoas chaves de determinadas indústrias como legisladores ou reguladores para aprovar leis ou regulamentos que favorecem estas indústrias;
  • Deslocar a responsabilidade das corporações para as pessoas enfatizanado a auto-regulação ou responsabilidade pessoal.

As corporações do tabaco também produziram uma apostila chamada Ciência Ruim: Um livro de recursos para promover tópicos de conversa alinhados com seus interesses. Os tópicos incluiam:

  • Frequentemente a ciência é manipulada para favorecer uma agenda política;
  • Agências governamentais frequentemente traem a confiança da população violando os princípios da boa ciência para concretizar suas agendas políticas;
  • Nenhum departamento é mais culpado de ajustar a ciência para apoiar prescrições de políticas públicas preconcebidas do que a Agência de Proteção Ambiental.

De lá para cá, corporações nos mais variados setores passaram a adotar o Manual de Estratégias da Indústria do Tabaco em uma estratégia de marketing também chamada de ‘controle de danos’.

Como o histórico das corporações deixa claro, não existe ciência neutra. E hoje, mais frequetemente do que aceitamos adimitir, a ciência na qual nos embasamos para desenvolver nossas políticas públicas já foi corrompida por estas insitituições. De outra forma, como explicarmos que a utilização de agrotóxicos que causam câncer ainda seja legal?

As corporações petroquímicas sabiam há quase 40 anos que as emissões de gases de efeito estufa levariam ao aquecimento global e às mudanças climáticas. Ao invés de tornar público esse conhecimento, investiram mais de U$30 milhões de dólares em campanhas que negam o aquecimento global usando essas táticas.

As 10 maiores empresas que produzem agrotóxicos lucram 39.62 bilhões por ano. Desde 1980 a Monsanto (comprada pela Bayer em 2018) sabe que o herbicida RoundUp (o glifosato) causa câncer e mesmo assim vem comercializando esse produto no mundo todo. Mesmo depois de ser condenada e obrigada a pagar U$290 milhões de dólares como indenização à Dewayne Johnson, um zelador de escola de 46 anos na Califórnia que desenvolveu um câncer terminal usando seu produto, a Monsanto/Bayer.

O RoundUp é largamente vendido para o uso com sementes transgênicas. Para garantir que os agricultores percam a soberania sobre as sementes tradicionais, essas empresas investiram milhões em planos de marketing e de recolhimento das sementes crioulas. Essa prática usurpa da agricultura familiar seu domínio secular sobre as sementes e as técnicas desenvolvidas para garantir sua subsistência e saúde. Foi assim que as corporações dos agrotóxicos e da transgenia levaram quase 300 mil agricultores indianos ao suicídio em 1995. Ainda assim, essas corporações seguem implementando as mesmas práticas no mundo todo até hoje.

A indústria dos alimentos ultraprocessados também usa essas estratégias. Em 1960 a indústria do açúcar comprou os resultados de uma pesquisa para minimizar as ligações entre a ingestão de açúcar e as doenças do coração e implicar maiores riscos pela consumo de gordura animal.

Invariavelmente essas corporações também usam essas estratégias para difamar qualquer pessoa que denuncie suas práticas desonestas. Elas intimidam, ameaçam e ridicularizam essas pessoas para que a mensagem que elas trazem seja completamente desacreditada.

Essa estratégia tem sido constantemente usada na pandemia quando, a priori, a mídia e as autoridades desvalidam qualquer questionamento sobre os protocolos adotados e a eficiência das vacinas. Rapidamente médicos, cientistas e ativistas bem embasados são colocados em um grupo estereotipado como ‘anti-vacinas’ ou ‘negacionistas’ para que suas denúncias não sejam levadas a sério pela população.

Para piorar ainda mais nossa situação, seja pela influência da mídia e a necessidade de opor os absurdos neoliberais e ideológicos do governo Bolsonaro, grande parte do campo progressista passou a fazer o mesmo.

O documentário O Mundo Segundo a Monsanto da diretora francesa Marie-Monique Robin explica bem como as corporações implementam essas práticas em seu marketing de controle de danos.

Qual é o mundo que queremos construir?

Precisamos ter coragem para nos posicionar! As vacinas não podem impedir a proliferação do vírus e não devem ser usadas para que voltemos ‘ao normal’.

Quando propriamente desenvolvidas, testadas e aprovadas em uma lógica transparente e sem fins lucrativos, as vacinas têm o papel de nos ajudar a proteger as pessoas mais frágeis e ganhar tempo na implementação de alternativas que revertam o colapso ecológico. Porque muito mais grave que a pandemia é a extinção em massa, são os processos de desertificação, de aquecimento global e mudanças climáticas que o ‘normal’ nos fez causar ao planeta.

Precisamos ter coragem para aceitar que grande parte do progressismo brasileiro está falido e que precisamos protagonizar pela força do coletivo as mudanças que queremos ver no mundo!

Como explicar que o mesmo grupo que defende o ‘meu corpo, minhas regras’ quando se trata do aborto, quer submeter toda a população à vacinação compulsória e ao passaporte sanitário quando as vacinas ainda estão em fase de teste, comercializadas com acordos de sigilo, de isenção de reponsabilidade e dando mais de 100 bilhões de lucro para corporações quando tratamos da pandemia?

Como explicar que as mesmas pessoas que lutam contra os agrotóxicos e as sementes trangênicas impostos pelas corporações na agricultura, tomem sem nenhum questionamento a terapia gênica da Pfizer?

Como explicar que em pleno colapso ecológico lideranças supostamente progressistas ainda estejam defendendo a economia de crescimento?

Como explicar a luta contra o sequestro do Estado pelo lobby das corporações dos combustíveis fósseis, do agronegócio, e das das armas, por exemplo, enquanto aceitamos o aparelhamento do mesmo Estado pelas indústrias farmacêuticas?

Claramente, esse tipo de progressismo não é o que vai nos guiar para fora do colapso ecológico e portanto para mim não tem mais utilidade como ferramenta de pensamento e ação.

A maior hipocrisia esclarecida pela análise da Doutrina do Choque é que em nenhum lugar onde ela foi utilizada para implementar a economia neoliberal as condições de vida da população melhoraram. Via de regra, a elite econômica mundial força a mão dos grandes impérios, usa de violência, desinformação e controle para concentrar renda, poder e território.

Se em função da emergência trazida pela pandemia abrirmos mão de nosso protagonismo coletivo, de nossa liberdade e autonomia individuais, estaremos abrindo mão da possibilidade de construirmos uma utopia concreta. Viveremos em um mundo ainda mais totalitário e cada vez mais governado pelas corporações.

Por outro lado, se tivermos propostas concretas para construir o mundo que queremos e uma boa articulação, podemos aproveitar esses momentos de crise para implementar as mudanças que favoreçam a população e que tragam justiça e bem estar social e ecológico, como explica Naomi Klein.

Podemos usar esse momento para assegurarmos nossas liberdades, a pluralidade de ideias e o protagonismo coletivo.

As pesquisas que mostram como as doenças causadas por hábitos alimentares potencializam a letalidade do coronavírus devem ser usadas por nós para viabilizar a reforma agrária, a agricultura familiar agroecológica e a soberania alimentar.

O consenso científico que diz que o modelo industrial nos rendeu causadores das mudanças climáticas e da sexta maior extinção em massa na história do planeta deve nos levar a abandonar a economia de crescimento. Deve também, no levar a extinguir com as corporações e adotar a economia ecológica: único modelo que entende que a economia deve ser limitada pela biocapacidade dos ecossistemas nos quais se baseia e que, portanto, se viabiliza na regeneração das áreas já degradadas e na restauração da dignidade, da autonomia e do bem-viver humanos.

O momento para construirmos coletivamente uma realidade onde temos chance de futuro é agora e com base em todas essas evidências!

O exemplo de Henry David Threou, Antônio Conselheiro, Gandhi e Martin Luther King, entre tantos outros, mostra que grandes saltos na evolução da consciência e organização humanas vêm das margens, da desobediência civil, do protagonismo coletivo e da coragem de não nos calarmos diante das injustiças.

A escolha entre confiar em governos, corporações e mídia com histórico de corrupção, mentiras e centralização de poder ou nos tornarmos responsáveis pela mudança que queremos ver no mundo por meio do questionamento, da desobediência civil e da organização coletiva é que vai definir se funcionamos como espécie causadora da extinção em massa ou otimizadora da vida, da beleza e da justiça no planeta.

Maratona de podcasts de Impacto Positivo

Depois de um longo hiato sem publicar a versão áudio dos podcasts, estou lançando vários episódios por semana para as pessoas que preferem ouvir as conversas sobre idéas, ações, pessoas e projetos de impacto positivo no carro, no trabalho ou enquanto fazem outras atividades.

Para maratonar os novos podcasts já disponíveis acesse no Stitcher, no iTunes ou no Spotify. Aproveite e deixe sua avaliação em qualquer uma destas plataformas, isso faz muita diferença em como o podcast passa a ser ‘oferecido’ nos mecanismos de busca.

Por favor compartilhe as entrevistas e artigos com seus comentários nas suas mídias sociais. Se inscreva no canal do Impacto Positivo no YouTube, curta a página do Podcast no Facebook e se inscreva na mala direta para receber artigos, entrevistas e cursos em primeira mão.

Você também pode apoiar o podcast e a produção de mais conteúdos de qualidade para a regeneração social, ambiental e econômica pelo link: https://apoia.se/impactopositivo​​​​ ou fazer doações pelo PIX podcastimpactopositivo@gmail.com .

Curso Solo São, Planta Sã, Comida Saudável, Noosfera com o Prof. Sebastião Pinheiro

O curso Solo Sadio, Planta Sã, Comida Saudável, Noosfera vem semear e nutrir uma agricultura, um comer e um viver que curam o território, o coletivo e o planeta.

Ao longo das últimas décadas, Sebastião Pinheiro, ou ‘Tião’ como gosta de ser chamado, tem dedicado sua vida a estudar as relações entre agricultura, saúde e meio ambiente. Professor e pesquisador, é uma das principais referências em agricultura ecológica e pioneiro em temas ligados à sustentabilidade.

Nota: Lembramos ainda que o curso ficará disponível para todos no canal do podcast Impacto Positivo no YouTube até o dia 25 de Junho, mas que só as pessoas que fizeram inscrição antecipada receberão o certificado de participação.

Em suas aulas e em todos os espaços de ativismo, Sebastião alerta para os riscos da agricultura industrial e alerta para as graves consequências de um modelo baseado no uso intensivo de agrotóxicos, transgênicos e outros insumos químicos. Também questiona sempre a hegemonia do agronegócio e sua concentração de terras, renda e poder entre pouquíssimas corporações globais, que não produzem alimentos, mas na verdade produzem commodities para o mercado de especulação financeira.

Com as lavouras reduzidas a soja, milho, trigo e outras poucas culturas, Sebastião vê a necessidade de ensinar sobre o que é solo e o que é agricultura por uma perspectiva camponesa e indígena. Este é, na visão dele, o caminho para a agroecologia, para a Soberania Alimentar e para o empoderamento dos Agricultores, que ele chama  de seres ultra-sociais.

Tião costuma falar que quem trabalha por outras formas de viver e agir no campo, pelo tempo da natureza e não o tempo industrial, precisa atuar como bombeiro AGROecológico – ou seja, alguém que remedia situações e simultaneamente constrói uma nova realidade.

Sebastião Pinheiro se formou técnico agrícola pela Unesp de Jaboticabal, SP em 1967, Engenheiro Agrônomo pela Universidad Nacional de La Plata, na Argentina em 1973, se pós-graduou em Engenharia Florestal na Escola Superior de Bosques, também pela Universidad Nacional de La Plata, em 1975, em Toxicologia, Poluição Alimentar e Meio Ambiente no Instituto Federal de pesquisa BAGKF na Alemanha. Tião também foi delegado brasileiro no Codex Alimentarius das Nações Unidas em Haia.

Autor e coautor de diversas publicações, em 1990, Tião inicia os trabalhos na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) na Pró-Reitoria de Extensão Universitária e posteriormente no Núcleo de Economia Alternativa da Faculdade de Ciências Econômicas. Durante toda sua carreira até sua aposentadoria, Tião pesquisa e apoia o Movimento dos Pequenos Agricultores, Movimento dos Sem Terra e o Movimento Mulheres da Mulheres Camponesas entre outros. Ativista científico em agricultura saudável, cromatografia de Pfeiffer, agroecologia camponesa e indigena, Tião também idealizou a Organização Juquira Candiru Satyagraha.

Fico muito grato e feliz de ter recebido, com tanto carinho e boa vontade, esse presente do Sebastião Pinheiro para o canal do podcast Impacto Positivo!

Agradeço também a todas as pessoas que a muitas mãos, tornaram este curso uma  realidade:

Nando Rossa, Márcia Maria da Silva, Raquel Chamis, Angelita, Luizetto Walter, Artur Kerschner, Débora Vendramin Otta, Tatiane  de Faria Vieira, Julia Quadros, Mary Jerusa Possamai e Hélio Possamai

O curso Solo Sadio, Planta Sã, Comida Saudável, Noosfera vem semear e nutrir uma agricultura, um comer e um viver que curam o território, o coletivo e o planeta.

Peço a todos e todas que se inscrevam no canal do podcast Impacto Positivo no YouTube e compartilhem o conteúdo com suas recomendações pessoais. É fundamental que construamos a pauta do mundo que queremos deixar como legado!

Obrigado Tião! HÁ BRAÇOS DE LUTA!

Então, de onde vem o ato de comer?
(Resumo da Primeira Aula)

Nota: O que segue é um resumo das 5 aulas do curso preparado pela Rachel Chamis e narrado por mim, Eurico, ao começo de cada aula do curso.

Buscamos no alimento a energia para permanecermos vivos. Mas a verdade é que ele contém muito mais do que nutrientes: o alimento concentra a própria história da nossa evolução. Comer é uma coisa tão complexa que a primeira pergunta do professor Sebastião Pinheiro é: de onde vem o ato de comer? E para responder, ele olha para a paisagem.

Para início de conversa, ele lembra que, na tentativa de explicar de onde veio a vida na Terra, a ciência enxergou três fontes de energia:

A primeira são os minerais, buscados pelos micróbios desde a grande explosão da Via Láctea; a segunda é a fermentação, que garantiu que vidas em decomposição gerassem energia para seres vivos;  e a terceira é a respiração, que possibilita que a energia solar se transforme em cadeias de carbono e de proteína.

Estes 3 processos se desenrolaram ao longo de eras.

E no decorrer desses processos, houve a colonização da superfície e assim, o solo foi se tornando um elemento fundamental da nutrição humana. Hoje, quase toda a alimentação vem dele.

O solo é a interface que permite que uma planta possa criar energia e transferi-la para outro ser vivo.

Já as sementes, tem a menor quantidade de matéria, mas contém a maior quantidade de energia. As sementes que cultivamos permitem que tenhamos uma identidade metabólica e cultural: nos transformam em quem somos.

A partir destas observações, o professor Tião avalia a…

Agricultura e trabalho ultra-social

Agricultura é conseguir alimento por meio de seu próprio esforço e necessidade. E não se trata de uma ação exclusiva dos humanos. Há milhões de anos, os insetos transformam o mundo a partir de suas necessidades – basta ver a evolução das flores, que foram ganhando cores e aromas. Alguns grupos de insetos, como cupim e formiga saúva, preparam alimentos para suas comunidades. São seres ultra-sociais, que fazem agricultura porque se organizam para fornecer alimento a todos.

No nosso caso, os humanos, primeiramente éramos nômades. Mas quando passamos a entender a existência de ciclos, passamos a domesticar as plantas.

Três bons exemplos são o milho, a cevada e o trigo.

O milho não existe de forma espontânea. É fruto do trabalho ultra-social dos humanos e tornou-se patrimônio biológico, agrícola, cultural e econômico do México.

A cevada era originalmente fabricada por hebreus escravizados e que apesar de a produzirem, não tinham acesso à colheita. Passaram a usar uma planta que nascia no meio da cevada, mas que na época não tinha “valor”, o aegilops. Trava-se da antecessora primitiva do trigo.

Por fim, nesta primeira aula o Professor Tião explica o …

Comer como ato filosófico

Existe o ato de comer com ignorância (que acontece quando vamos ao supermercado e compramos qualquer coisa, de forma alienada e baseada no preço). E existe o comer como um ato filosófico.

A Gastrosofia, a partir da reflexão de Charles Fourier no século XIX, é comer com saber, deleitar religiosamente o paladar.

Assim como aprendemos a ver o belo na natureza, também precisamos reconhecer o belo dos alimentos e na sua evolução. A entender a relação entre o solo, o agricultor e o sol.

Tempo do camponês x Tempo industrial
(Resumo da Segunda Aula)

O tempo do agricultor é o mesmo da natureza, não pode ser comparado ao de um relógio  – não se pode adiantar, atrasar ou acelerar. O primeiro a contrapor o tempo da natureza foi Napoleão Bonaparte. No front, necessitando de manteiga para seus oficiais, incentivou a criação da margarina (que não dependia mais do leite da vaca e, assim, era feita no tempo industrial). Napoleão também estimulou a produção do açúcar por meio da beterraba, trazendo assim o tempo industrial para a agricultura francesa.

No tempo industrial entra um elemento poderoso: a manipulação que a propaganda exerce sobre as pessoas. Quase não se vê publicidade de cooperativas que produzem leite, por exemplo. Mas de margarina, sim. São os alimentos com poder mercantil que acabam ganhando espaço. Há também outra distinção: mais alimento natural nos bairros ricos, mais alimento industrializado nas periferias.

Minerais e Micróbios 

A agricultura contempla o contexto de vida, de equilíbrio e de harmonia, gerando alimentos mineralizados. Para isso, o solo precisa ser constantemente remineralizado, fortalecendo-se por meio de rochas ígneas, metamórficas ou sedimentares.

Para formar um centímetro de solo usado para a agricultura, a natureza leva até 1.200 anos – e este centímetro é um fragmento complexo de vida que jamais caberia no tempo industrial.

O solo não é um ser vivo comum que nasce, cresce e morre. O solo é eterno. Entretanto, um solo arenoso não armazena água e um solo rico em matéria orgânica armazena muita água.

Então para produzir alimentos saudáveis precisamos do solo coberto com matéria orgânica em decomposição biológica.

Os micróbios são fundamentais na transformação do mineral em uma substância mais facilmente absorvida pela planta.

É possível concluir que, na agricultura, “M” é elevado à terceira potência: minerais, matéria orgânica e microrganismos.

Existem outros três “Ms” para entendermos a nutrição: o manejo da matéria orgânica pelo camponês, o magnetismo dos minerais e a mística espiritual que existe na agricultura.

Crescemos em conjunto, ampliando cada vez mais o que é a nutrição, o que é o alimento e o que é gastrosofia.

As bases da agricultura “moderna”
(Resumo da Terceira Aula)

Em 1842 Justus von Liebig, químico e inventor alemão, deu início à agricultura denominada “moderna” quando começou a vender para os agricultores alemães o excremento fossilizado de aves marinhas (o guano, que já era utilizado há dois mil anos nas costas do Peru e da Bolívia). Liebig também ficou conhecido por ter criado o leite em pó.

Ao olhar para o adubo que a indústria coloca na terra, vem a pergunta: é preciso substituir os micróbios do solo? Eles não estão fazendo um bom trabalho? O adubo NPK tem inúmeras patentes dentro do poder e tempo industrial. Mas ele produz alimentos bons? Não! – e isso não interessa. Porque o que interessa para a indústria é o lucro.

Contemporâneo de Justus von Liebig, surge nos Estados Unidos o magnata Rockefeller que, com o poder do petróleo, cria a agricultura que nós conhecemos hoje. Ele se torna dono de tudo, especialmente das sementes. Planta-se o que ele quer, come-se o que ele determina. A educação é definida por ele. E sob o ponto de vista da nutrição também é possível analisar essa lógica.

Fósforo e mineração 

O fósforo é um elemento importantíssimo para a agricultura. É encontrado na lava dos vulcões, nos esqueletos dos animais, nas minas. Apesar de existirem diversos depósitos de fósforo (no Brasil, por exemplo, o depósito de Olinda foi fechado no período da Ditadura Militar e sobre ele se construíram condomínios residenciais), todo o fósforo do mundo está em mãos de grandes cartéis que pertencem a uma só empresa. A Cargill é dona de 90% de todo o fósforo do mundo.

Outro elemento essencial para a produção de adubo é o enxofre, usualmente produzido a partir do petróleo. No Brasil, a transformação do enxofre em ácido sulfúrico, somada ao fósforo que outrora era acessível, poderia gerar adubo. Mas o outro depósito de fósforo brasileiro conhecido, aí em Minas Gerais, é explorado pela Cargill. Esse fósforo garante a produção de soja (que não é alimento, é commodity) e de outros grãos. Toda agricultura que acontece no tempo financeiro (um tempo que serve apenas para especulação).

Hoje é possível dizer que o NPK está com os dias contados, que já é considerado ultrapassado. As grandes empresas têm buscado o carbonatito, rocha existente em locais onde antes existiam vulcões. Ao moer essa rocha, ela rejuvenesce o solo. Mas o objetivo é casar o carbonatito com micróbios produzidos por empresas como Bayer e Monsanto.

Assim, repete-se o mesmo erro da substituição do minério. O segredo da agricultura não está no minério ou nos micróbios, mas na combinação de todos os manejos necessários à manutenção da vida (algo que a indústria não consegue produzir).

Soberania Alimentar

Doenças como a osteoporose são consequência de alimento ruim, fora de um tempo camponês e de uma diversidade – porque as pessoas, em muitos casos, só comem o que interessa à indústria. Um alimento de qualidade dá a higidez de uma saúde forte, onde se pode chegar a uma idade avançada sem os comprometimento criados pelos alimentos industrializados. Comer é uma necessidade, mas comer de forma inteligente é uma arte. Quem diz isso é o Conde de Roche Foucault.

A alimentação é um direito inalienável de todos. A discussão sobre a soberania alimentar é essencial porque todos têm o direito à alimentação de qualidade. Nutrição é função da evolução da vida. Esse direito de ter uma alimentação de qualidade é a cidadania em exercício pleno. Boa alimentação significa boa saúde e boa educação.

Agrotóxicos e indústria da guerra: uma origem comum
(Resumo da Quarta Aula)

Rachel Carson, uma grande cientista norte-americana, ao receber um diagnóstico de câncer de mama escreveu uma série de crônicas para o jornal New York Times, em que relatava a origem dos tumores cancerígenos ligada aos agrotóxicos – e que, em 1962, virou o livro Primavera Silenciosa.

Ao tomar conhecimento desse livro, o presidente John Kennedy solicitou a Jerome Wiesner, então presidente do Comitê Consultivo de Ciência, um relatório sobre os temas apontados por Rachel Carson. Foi ele que disse: “o impacto dos agrotóxicos sobre o planeta é tão ou mais perigoso do que as explosões atômicas”.

Kennedy foi assassinado em 1963. Em 1964 o Brasil sofreu um golpe cívico-militar. Alguns anos depois, o então presidente do Brasil, Geisel recebeu a visita de Jimmy Carter, presidente americano, que ofereceu transferir para o Brasil fábricas de agrotóxicos que estavam sendo desmontadas nos EUA.

A ditadura brasileira financiou o veneno e esta situação se repetiu pela América Latina, onde venenos chegaram a ser testados em crianças.

Existiram muitos médicos que se colocaram contra os DDTs, mesmo antes do livro de Rachel Carson. Mas o que era mais importante? Saúde de crianças ou capital de poucas empresas?

A propaganda reforça até hoje a ideia de que o agrotóxico é a solução para o mundo. A guerra contra o veneno é desigual, pois as empresas injetam muito dinheiro para apresentar o veneno como algo inofensivo a humanos.

“Defensivo agrícola”, um nome para mascarar o perigo 

Os agrotóxicos intoxicam e matam agricultores na América Latina, na Ásia e na África. As empresas comunicam que poderíamos ter contato com agrotóxicos sem danos. Entretanto, omitem que um agricultor, quando aplica acetato, mistura-o com água – e isso aumenta sua letalidade em 100 vezes, porque se transforma em metamidofós.

Este é só um dos exemplos de como acontecem as mortes no campo. E, embora pessoas do campo morram pelo contato com o agrotóxico, ninguém é punido – a tecnologia é endeusada e o agricultor é responsável por sua vitimização.

Os aditivos que a indústria conseguiu colocar nos alimentos os desvitalizam – e isso não é saudável. Sebastião Pinheiro fala em agronecrócios para se referir a uma agricultura oncológica (ou seja, que causa câncer), que carrega insumos, créditos, serviços, degradação, poluição e devastação. A economia está muito acima das esferas natural e social.

O Brasil consome mais de 500 mil toneladas de veneno – e isso sem ter a maior agricultura do mundo. A partir de 1991, a União Europeia adotou uma diretiva comunitária que obriga que todos os agricultores sejam treinados antes de trabalhar com agrotóxico. Tentou-se que aqui também fosse assim – no entanto só se “finge” treinar o agricultor no Brasil.

Enquanto nos outros países fala-se principalmente sobre como evitar o veneno, aqui se ensina a usar veneno com dinheiro público.

Agricultor como sujeito 

Quem é rico escolhe se quer ou não comer comida com veneno. As pessoas pobres não tem esta escolha. Não se trata de democracia, mas sim de fascismo. Os poderes das grandes empresas são tão grandes e tão concentrados que em breve as indústrias alimentares globais cumprirão a ameaça de Hitler: de que pobres comam ração, o necessário para realizar seu trabalho.

Precisamos criar uma agricultura sem veneno. Que não valoriza o alimento a partir de um padrão estético – mas sim nutricional –, que cria tecnologia, que cria biofertilizantes. Treinar o agricultor para que ele saiba sobre o amanhã e o antecipe. Para que o agricultor dê valor à vida.

As semente agroecológicos têm identidade camponesa foram criadas por um grupo de agricultores do Rio Grande do Sul ligada à Cooperativa Coolmeia. A maior plantação de arroz orgânico do mundo está no RS e começou quando alguém questionou o uso dos venenos e colocou os agricultores e suas famílias como sujeitos. As feiras agroecológicas cresceram a partir do Sul do Brasil, mas não o suficiente para desbancar a indústria.

Como disse Hipócrates: “Que teu alimento seja teu remédio e que teu alimento cure tuas doenças”. Se o solo é são, as pessoas são saudáveis. O biopoder camponês é ultra-social e alimenta a humanidade. Quando se fala em soberania alimentar, o sujeito principal é o agricultor – e não a estrutura de poder. Essa luta é de todos.

Suportável, justa e viável
(Resumo da Quinta Aula)

O biopoder do camponês se baseia no território, na questão agrária e no modelo agrícola. A agricultura é uma atividade ultra-social, que não existe na natureza por si só. O agricultor se sente empoderado para produzir alimento para a sociedade e deveria ser celebrado e valorizado pelo que faz.

A relação entre social e natureza deve ser suportável; entre social e economia deve ser justa e entre natureza e economia deve ser viável. O agricultor está geralmente na periferia das relações – o que não é justo, nem suportável e nem viável. A agroecologia é o modelo de agricultura que tem o território e a questão agrária sob a tutela do agricultor, e não da indústria.

Terra pertence a quem nela trabalha

Quando foram criadas as sementes transgênicas, veio o aviso de que surgiriam plantas transgênicas. Mutantes que se tornaram resistentes por meio da agressão do veneno. A solução da indústria química para o problema que criou foi produzir veneno ainda mais forte. O que vai acontecer? Em menos de 5 anos teremos mutantes mais resistentes. À indústria não importa eliminar a causa, porque se quer apenas vender mais.

No Rio Grande do Sul, uma mina de carvão a céu aberto corre o risco de ser instalada – o que contaminaria todo o arroz da região com arsênico. Peixes deixam de ter alimento porque o camarão não encontra mais algas, mortas pelo herbicida. Nos EUA, indústrias estão indenizando pessoas intoxicadas por veneno. Mas e nos países pobres? Por aqui, dificilmente haverá qualquer punição.

Espiritualidade na agricultura

Em torno do território, da questão agrária e do modelo agrícola, unificando esse triângulo, existe a espiritualidade. Esse é o biopoder camponês. A evolução da vida é muito mais do que algumas regras, é entender a mística do agricultor, o poder cósmico da mente e como isso se transforma em ciência.

Noam Chomsky diz que a única esperança para a humanidade são os indígenas.

Junto com as populações tradicionais, o agricultor tem condições de reverter a realidade em que vivemos. Tudo que vimos juntos até aqui serve para construir alternativas e saídas. Um caminho diferente está em reconhecer o biopoder e superar o desespero. Somos maiores do que tudo isso.

Nota de agradecimento

Neste contexto eu, Eurico, vejo que o curso Solo Sadio, Planta Sã, Comida Saudável, Noosfera tem um enorme potencial para criar uma nova realidade nesse momento em que os poderes públicos se corrompem e curvam para que as grandes corporações transnacionais possam lucrar às custas do genocídio indígena, do assassinato de ambientalistas, de lideranças sociais e campesinos, do envenenamento de todos que consomem seus produtos e da completa degradação do solo, da água e da biodiversidade nos territórios onde atuam.

Agradecemos a todas e todos e companhia na jornada na construção de um mundo onde o ato de comer é também um ato de cura das pessoas, do coletivo, da economia e da biodiversidade e é sustentado pela agricultura familiar, indígena e agroecológica.

Pedimos a todos e todas que compartilhem o curso com suas recomendações pessoais sobre como ele contribuiu para sua vida, que reflexões trouxe e como te inspirou a agir.

Eu e toda a equipe de produção agradecemos a todos que participaram deste curso e imensamente ao professor Sebastião Pinheiro pelo apoio e carinho incansáveis a agricultura familiar, indígena e agroecológica!

Vandana Shiva Semeando Agricultura Familiar

“O alimento é uma arma. Quando você vende armas, armas de verdade, você controla exércitos. Quando você controla o alimento, você controla a sociedade. Quando você controla as sementes, você controla a vida no planeta Terra! … Nós não podemos esperar que governos e corporações mudem, o povo precisa mudar!”, trechos do filme Sementes da Vandana Shiva.

O documentário conta, por meio de familiares e companheiras de ativismo, quem é Vandana Shiva, de onde ela veio, qual é sua missão e como ela se tornou o pior pesadelo da Bayer-Monsanto. Nele, a própria Vandana conta como uma infancia imersa nas florestas do Himalaia e o estudo da Física Quântica nutriram nela o pensamento ecológico da inseparabilidade, da impossibilidade de substituirmos a sabedoria e os resultados de um laboratório natural com 3.8 bilhões de anos de evolução da vida que cria abundância para todos, por tecnologias que concentram renda, poder e terras nas mãos de poucos enquanto degradam as dimensões sociais, ecológicas e econômicas locais para produzir alimentos tóxicos.

As sementes crioulas ou tradicionais tem milhões de anos de evolução pela natureza. As sementes crioulas das espécies por nós domesticadas tem milhares de anos. Essa co-evolução dos seres humanos e das plantas domesticadas garante a soberania alimentar, mas nos tempos atuais garante plantas capazes de se adaptar a intermitência imprevisível dos períodos de secas e enchentes repentinas causados pelas mudanças climáticas. Essa é apenas umas das lições compartilhadas por Vandana Shiva no filme Sementes da Vandana Shiva.

Outra lição muito forte é a do poder que temos quando agimos em nossas vocações e em prol da vida no planeta. Com ajuda de produtoras familiares, ativistas e apoiadoras, Vandana conseguiu nutrir um movimento em prol da agricultura familiar regenerativa, da soberania alimentar e da biodiversidade no planeta.

Em um trecho do filme Vandana conta como o José Lutzemberger compartilhou com ela uma revelação durante uma manifestação com milhares de agricultoras na Índia. Segundo ela ele disse: “Vandana, as corporações estão tentando acabar com a agricultura familiar no planeta porque estas são as últimas pessoas livres na sociedade de consumo!”.

Deixo link para o site dos produtores do filme onde todos podem doar e pedir o acesso ao filme.

Na semana passada eu compartilhei uma conversa muito interessante entre o Russell Brand e Dra. Vandana Shiva.

O Russel tem feito matérias incríveis sobre como as grandes corporações digitais, como Microsoft, Amazon e FaceBook tem investido na mineração de dados pessoais de pessoas da agricultura familiar e oferecido soluções que na verdade são armadilhas para dominar ainda mais território e centralizar ainda mais a produção usando o campo como plataforma de escoamento das corporações de mineração e petroquímicos.

Para essa semana eu deixo link para a entrevista completa (em inglês) e faço aqui um resumo de idéias e frases que podem nos inspirar a construir juntos a mudança que precisamos ver no mundo.

Segundo a Vandana, “temos que ter acesso ao nosso direito de nascença e viver em harmonia com o planeta e uns com os outros”.

Vandana comenta que por causa da nossa arrogância criamos uma imunidade contra nós mesmos, destruímos todas as leis internacionais, destruímos toda a democracia, prendemos as pessoas no medo e com isso temos enormes dificuldades para responsabilizar os verdadeiros criminosos por trás destes crimes contra a humanidadde. 

Ela menciona o debate sobre a questão dos transgênicos na europa, onde criamos leis sobre a regulamentação dos transgênicos e como as corporações que lucram com eles tentam derrubar essas leis.

Vandana nos encoraja e construir um relacionamento sagrado com a comida, a proteger a integralidade do alimento desenvolvido naturalmente no planeta. Segundo ela, as corporações violam essa integralidade do alimento e tentam quebrar nossa relação ancentral com ele. 

Em primeiro lugar, tudo é comida. Tudo é alimento nos vedas, ela explica. “E se você pensar nisso, ecologicamente, o que é o ciclo da nutrição senão o movimento dos alimentos? Então, tudo é comida. Sim, um ciclo ecológico é o movimento dos alimentos, e é por isso que chamo os alimentos de moeda da vida.

Em segundo lugar, o maior dever é cultivar e dar boa comida em abundância. E o pior pecado é deixar alguém passar fome na sua vizinhança; não cultivar bons alimentos; e pior, vender comida ruim.

Temos que trazer, para o centro de nossa vida cotidiana, os rituais que tornam a vida sagrada. Nossa respiração, que é o que nos conecta ao mundo. A água nos conecta ao mundo, a comida nos conecta ao mundo. Esses não são combustíveis para o corpo. A construção cartesiana sobreviveu tanto e está morrendo em nossa era, mas os barões digitais estão tentando dar a ela uma vida um pouco mais longa, estão colocando o pé no acelerador. Dando mais poder ao modelo cartesiano. E nós temos que dizer não! Temos que ser mais espirituais,mais interconectados, mais capazes de celebrar gratuitamente a vida por meio da abundância que podemos criar.