Maratona de podcasts de Impacto Positivo

Depois de um longo hiato sem publicar a versão áudio dos podcasts, estou lançando vários episódios por semana para as pessoas que preferem ouvir as conversas sobre idéas, ações, pessoas e projetos de impacto positivo no carro, no trabalho ou enquanto fazem outras atividades.

Para maratonar os novos podcasts já disponíveis acesse no Stitcher, no iTunes ou no Spotify. Aproveite e deixe sua avaliação em qualquer uma destas plataformas, isso faz muita diferença em como o podcast passa a ser ‘oferecido’ nos mecanismos de busca.

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Curso Solo São, Planta Sã, Comida Saudável, Noosfera com o Prof. Sebastião Pinheiro

O curso Solo Sadio, Planta Sã, Comida Saudável, Noosfera vem semear e nutrir uma agricultura, um comer e um viver que curam o território, o coletivo e o planeta.

Ao longo das últimas décadas, Sebastião Pinheiro, ou ‘Tião’ como gosta de ser chamado, tem dedicado sua vida a estudar as relações entre agricultura, saúde e meio ambiente. Professor e pesquisador, é uma das principais referências em agricultura ecológica e pioneiro em temas ligados à sustentabilidade.

Nota: Lembramos ainda que o curso ficará disponível para todos no canal do podcast Impacto Positivo no YouTube até o dia 25 de Junho, mas que só as pessoas que fizeram inscrição antecipada receberão o certificado de participação.

Em suas aulas e em todos os espaços de ativismo, Sebastião alerta para os riscos da agricultura industrial e alerta para as graves consequências de um modelo baseado no uso intensivo de agrotóxicos, transgênicos e outros insumos químicos. Também questiona sempre a hegemonia do agronegócio e sua concentração de terras, renda e poder entre pouquíssimas corporações globais, que não produzem alimentos, mas na verdade produzem commodities para o mercado de especulação financeira.

Com as lavouras reduzidas a soja, milho, trigo e outras poucas culturas, Sebastião vê a necessidade de ensinar sobre o que é solo e o que é agricultura por uma perspectiva camponesa e indígena. Este é, na visão dele, o caminho para a agroecologia, para a Soberania Alimentar e para o empoderamento dos Agricultores, que ele chama  de seres ultra-sociais.

Tião costuma falar que quem trabalha por outras formas de viver e agir no campo, pelo tempo da natureza e não o tempo industrial, precisa atuar como bombeiro AGROecológico – ou seja, alguém que remedia situações e simultaneamente constrói uma nova realidade.

Sebastião Pinheiro se formou técnico agrícola pela Unesp de Jaboticabal, SP em 1967, Engenheiro Agrônomo pela Universidad Nacional de La Plata, na Argentina em 1973, se pós-graduou em Engenharia Florestal na Escola Superior de Bosques, também pela Universidad Nacional de La Plata, em 1975, em Toxicologia, Poluição Alimentar e Meio Ambiente no Instituto Federal de pesquisa BAGKF na Alemanha. Tião também foi delegado brasileiro no Codex Alimentarius das Nações Unidas em Haia.

Autor e coautor de diversas publicações, em 1990, Tião inicia os trabalhos na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) na Pró-Reitoria de Extensão Universitária e posteriormente no Núcleo de Economia Alternativa da Faculdade de Ciências Econômicas. Durante toda sua carreira até sua aposentadoria, Tião pesquisa e apoia o Movimento dos Pequenos Agricultores, Movimento dos Sem Terra e o Movimento Mulheres da Mulheres Camponesas entre outros. Ativista científico em agricultura saudável, cromatografia de Pfeiffer, agroecologia camponesa e indigena, Tião também idealizou a Organização Juquira Candiru Satyagraha.

Fico muito grato e feliz de ter recebido, com tanto carinho e boa vontade, esse presente do Sebastião Pinheiro para o canal do podcast Impacto Positivo!

Agradeço também a todas as pessoas que a muitas mãos, tornaram este curso uma  realidade:

Nando Rossa, Márcia Maria da Silva, Raquel Chamis, Angelita, Luizetto Walter, Artur Kerschner, Débora Vendramin Otta, Tatiane  de Faria Vieira, Julia Quadros, Mary Jerusa Possamai e Hélio Possamai

O curso Solo Sadio, Planta Sã, Comida Saudável, Noosfera vem semear e nutrir uma agricultura, um comer e um viver que curam o território, o coletivo e o planeta.

Peço a todos e todas que se inscrevam no canal do podcast Impacto Positivo no YouTube e compartilhem o conteúdo com suas recomendações pessoais. É fundamental que construamos a pauta do mundo que queremos deixar como legado!

Obrigado Tião! HÁ BRAÇOS DE LUTA!

Então, de onde vem o ato de comer?
(Resumo da Primeira Aula)

Nota: O que segue é um resumo das 5 aulas do curso preparado pela Rachel Chamis e narrado por mim, Eurico, ao começo de cada aula do curso.

Buscamos no alimento a energia para permanecermos vivos. Mas a verdade é que ele contém muito mais do que nutrientes: o alimento concentra a própria história da nossa evolução. Comer é uma coisa tão complexa que a primeira pergunta do professor Sebastião Pinheiro é: de onde vem o ato de comer? E para responder, ele olha para a paisagem.

Para início de conversa, ele lembra que, na tentativa de explicar de onde veio a vida na Terra, a ciência enxergou três fontes de energia:

A primeira são os minerais, buscados pelos micróbios desde a grande explosão da Via Láctea; a segunda é a fermentação, que garantiu que vidas em decomposição gerassem energia para seres vivos;  e a terceira é a respiração, que possibilita que a energia solar se transforme em cadeias de carbono e de proteína.

Estes 3 processos se desenrolaram ao longo de eras.

E no decorrer desses processos, houve a colonização da superfície e assim, o solo foi se tornando um elemento fundamental da nutrição humana. Hoje, quase toda a alimentação vem dele.

O solo é a interface que permite que uma planta possa criar energia e transferi-la para outro ser vivo.

Já as sementes, tem a menor quantidade de matéria, mas contém a maior quantidade de energia. As sementes que cultivamos permitem que tenhamos uma identidade metabólica e cultural: nos transformam em quem somos.

A partir destas observações, o professor Tião avalia a…

Agricultura e trabalho ultra-social

Agricultura é conseguir alimento por meio de seu próprio esforço e necessidade. E não se trata de uma ação exclusiva dos humanos. Há milhões de anos, os insetos transformam o mundo a partir de suas necessidades – basta ver a evolução das flores, que foram ganhando cores e aromas. Alguns grupos de insetos, como cupim e formiga saúva, preparam alimentos para suas comunidades. São seres ultra-sociais, que fazem agricultura porque se organizam para fornecer alimento a todos.

No nosso caso, os humanos, primeiramente éramos nômades. Mas quando passamos a entender a existência de ciclos, passamos a domesticar as plantas.

Três bons exemplos são o milho, a cevada e o trigo.

O milho não existe de forma espontânea. É fruto do trabalho ultra-social dos humanos e tornou-se patrimônio biológico, agrícola, cultural e econômico do México.

A cevada era originalmente fabricada por hebreus escravizados e que apesar de a produzirem, não tinham acesso à colheita. Passaram a usar uma planta que nascia no meio da cevada, mas que na época não tinha “valor”, o aegilops. Trava-se da antecessora primitiva do trigo.

Por fim, nesta primeira aula o Professor Tião explica o …

Comer como ato filosófico

Existe o ato de comer com ignorância (que acontece quando vamos ao supermercado e compramos qualquer coisa, de forma alienada e baseada no preço). E existe o comer como um ato filosófico.

A Gastrosofia, a partir da reflexão de Charles Fourier no século XIX, é comer com saber, deleitar religiosamente o paladar.

Assim como aprendemos a ver o belo na natureza, também precisamos reconhecer o belo dos alimentos e na sua evolução. A entender a relação entre o solo, o agricultor e o sol.

Tempo do camponês x Tempo industrial
(Resumo da Segunda Aula)

O tempo do agricultor é o mesmo da natureza, não pode ser comparado ao de um relógio  – não se pode adiantar, atrasar ou acelerar. O primeiro a contrapor o tempo da natureza foi Napoleão Bonaparte. No front, necessitando de manteiga para seus oficiais, incentivou a criação da margarina (que não dependia mais do leite da vaca e, assim, era feita no tempo industrial). Napoleão também estimulou a produção do açúcar por meio da beterraba, trazendo assim o tempo industrial para a agricultura francesa.

No tempo industrial entra um elemento poderoso: a manipulação que a propaganda exerce sobre as pessoas. Quase não se vê publicidade de cooperativas que produzem leite, por exemplo. Mas de margarina, sim. São os alimentos com poder mercantil que acabam ganhando espaço. Há também outra distinção: mais alimento natural nos bairros ricos, mais alimento industrializado nas periferias.

Minerais e Micróbios 

A agricultura contempla o contexto de vida, de equilíbrio e de harmonia, gerando alimentos mineralizados. Para isso, o solo precisa ser constantemente remineralizado, fortalecendo-se por meio de rochas ígneas, metamórficas ou sedimentares.

Para formar um centímetro de solo usado para a agricultura, a natureza leva até 1.200 anos – e este centímetro é um fragmento complexo de vida que jamais caberia no tempo industrial.

O solo não é um ser vivo comum que nasce, cresce e morre. O solo é eterno. Entretanto, um solo arenoso não armazena água e um solo rico em matéria orgânica armazena muita água.

Então para produzir alimentos saudáveis precisamos do solo coberto com matéria orgânica em decomposição biológica.

Os micróbios são fundamentais na transformação do mineral em uma substância mais facilmente absorvida pela planta.

É possível concluir que, na agricultura, “M” é elevado à terceira potência: minerais, matéria orgânica e microrganismos.

Existem outros três “Ms” para entendermos a nutrição: o manejo da matéria orgânica pelo camponês, o magnetismo dos minerais e a mística espiritual que existe na agricultura.

Crescemos em conjunto, ampliando cada vez mais o que é a nutrição, o que é o alimento e o que é gastrosofia.

As bases da agricultura “moderna”
(Resumo da Terceira Aula)

Em 1842 Justus von Liebig, químico e inventor alemão, deu início à agricultura denominada “moderna” quando começou a vender para os agricultores alemães o excremento fossilizado de aves marinhas (o guano, que já era utilizado há dois mil anos nas costas do Peru e da Bolívia). Liebig também ficou conhecido por ter criado o leite em pó.

Ao olhar para o adubo que a indústria coloca na terra, vem a pergunta: é preciso substituir os micróbios do solo? Eles não estão fazendo um bom trabalho? O adubo NPK tem inúmeras patentes dentro do poder e tempo industrial. Mas ele produz alimentos bons? Não! – e isso não interessa. Porque o que interessa para a indústria é o lucro.

Contemporâneo de Justus von Liebig, surge nos Estados Unidos o magnata Rockefeller que, com o poder do petróleo, cria a agricultura que nós conhecemos hoje. Ele se torna dono de tudo, especialmente das sementes. Planta-se o que ele quer, come-se o que ele determina. A educação é definida por ele. E sob o ponto de vista da nutrição também é possível analisar essa lógica.

Fósforo e mineração 

O fósforo é um elemento importantíssimo para a agricultura. É encontrado na lava dos vulcões, nos esqueletos dos animais, nas minas. Apesar de existirem diversos depósitos de fósforo (no Brasil, por exemplo, o depósito de Olinda foi fechado no período da Ditadura Militar e sobre ele se construíram condomínios residenciais), todo o fósforo do mundo está em mãos de grandes cartéis que pertencem a uma só empresa. A Cargill é dona de 90% de todo o fósforo do mundo.

Outro elemento essencial para a produção de adubo é o enxofre, usualmente produzido a partir do petróleo. No Brasil, a transformação do enxofre em ácido sulfúrico, somada ao fósforo que outrora era acessível, poderia gerar adubo. Mas o outro depósito de fósforo brasileiro conhecido, aí em Minas Gerais, é explorado pela Cargill. Esse fósforo garante a produção de soja (que não é alimento, é commodity) e de outros grãos. Toda agricultura que acontece no tempo financeiro (um tempo que serve apenas para especulação).

Hoje é possível dizer que o NPK está com os dias contados, que já é considerado ultrapassado. As grandes empresas têm buscado o carbonatito, rocha existente em locais onde antes existiam vulcões. Ao moer essa rocha, ela rejuvenesce o solo. Mas o objetivo é casar o carbonatito com micróbios produzidos por empresas como Bayer e Monsanto.

Assim, repete-se o mesmo erro da substituição do minério. O segredo da agricultura não está no minério ou nos micróbios, mas na combinação de todos os manejos necessários à manutenção da vida (algo que a indústria não consegue produzir).

Soberania Alimentar

Doenças como a osteoporose são consequência de alimento ruim, fora de um tempo camponês e de uma diversidade – porque as pessoas, em muitos casos, só comem o que interessa à indústria. Um alimento de qualidade dá a higidez de uma saúde forte, onde se pode chegar a uma idade avançada sem os comprometimento criados pelos alimentos industrializados. Comer é uma necessidade, mas comer de forma inteligente é uma arte. Quem diz isso é o Conde de Roche Foucault.

A alimentação é um direito inalienável de todos. A discussão sobre a soberania alimentar é essencial porque todos têm o direito à alimentação de qualidade. Nutrição é função da evolução da vida. Esse direito de ter uma alimentação de qualidade é a cidadania em exercício pleno. Boa alimentação significa boa saúde e boa educação.

Agrotóxicos e indústria da guerra: uma origem comum
(Resumo da Quarta Aula)

Rachel Carson, uma grande cientista norte-americana, ao receber um diagnóstico de câncer de mama escreveu uma série de crônicas para o jornal New York Times, em que relatava a origem dos tumores cancerígenos ligada aos agrotóxicos – e que, em 1962, virou o livro Primavera Silenciosa.

Ao tomar conhecimento desse livro, o presidente John Kennedy solicitou a Jerome Wiesner, então presidente do Comitê Consultivo de Ciência, um relatório sobre os temas apontados por Rachel Carson. Foi ele que disse: “o impacto dos agrotóxicos sobre o planeta é tão ou mais perigoso do que as explosões atômicas”.

Kennedy foi assassinado em 1963. Em 1964 o Brasil sofreu um golpe cívico-militar. Alguns anos depois, o então presidente do Brasil, Geisel recebeu a visita de Jimmy Carter, presidente americano, que ofereceu transferir para o Brasil fábricas de agrotóxicos que estavam sendo desmontadas nos EUA.

A ditadura brasileira financiou o veneno e esta situação se repetiu pela América Latina, onde venenos chegaram a ser testados em crianças.

Existiram muitos médicos que se colocaram contra os DDTs, mesmo antes do livro de Rachel Carson. Mas o que era mais importante? Saúde de crianças ou capital de poucas empresas?

A propaganda reforça até hoje a ideia de que o agrotóxico é a solução para o mundo. A guerra contra o veneno é desigual, pois as empresas injetam muito dinheiro para apresentar o veneno como algo inofensivo a humanos.

“Defensivo agrícola”, um nome para mascarar o perigo 

Os agrotóxicos intoxicam e matam agricultores na América Latina, na Ásia e na África. As empresas comunicam que poderíamos ter contato com agrotóxicos sem danos. Entretanto, omitem que um agricultor, quando aplica acetato, mistura-o com água – e isso aumenta sua letalidade em 100 vezes, porque se transforma em metamidofós.

Este é só um dos exemplos de como acontecem as mortes no campo. E, embora pessoas do campo morram pelo contato com o agrotóxico, ninguém é punido – a tecnologia é endeusada e o agricultor é responsável por sua vitimização.

Os aditivos que a indústria conseguiu colocar nos alimentos os desvitalizam – e isso não é saudável. Sebastião Pinheiro fala em agronecrócios para se referir a uma agricultura oncológica (ou seja, que causa câncer), que carrega insumos, créditos, serviços, degradação, poluição e devastação. A economia está muito acima das esferas natural e social.

O Brasil consome mais de 500 mil toneladas de veneno – e isso sem ter a maior agricultura do mundo. A partir de 1991, a União Europeia adotou uma diretiva comunitária que obriga que todos os agricultores sejam treinados antes de trabalhar com agrotóxico. Tentou-se que aqui também fosse assim – no entanto só se “finge” treinar o agricultor no Brasil.

Enquanto nos outros países fala-se principalmente sobre como evitar o veneno, aqui se ensina a usar veneno com dinheiro público.

Agricultor como sujeito 

Quem é rico escolhe se quer ou não comer comida com veneno. As pessoas pobres não tem esta escolha. Não se trata de democracia, mas sim de fascismo. Os poderes das grandes empresas são tão grandes e tão concentrados que em breve as indústrias alimentares globais cumprirão a ameaça de Hitler: de que pobres comam ração, o necessário para realizar seu trabalho.

Precisamos criar uma agricultura sem veneno. Que não valoriza o alimento a partir de um padrão estético – mas sim nutricional –, que cria tecnologia, que cria biofertilizantes. Treinar o agricultor para que ele saiba sobre o amanhã e o antecipe. Para que o agricultor dê valor à vida.

As semente agroecológicos têm identidade camponesa foram criadas por um grupo de agricultores do Rio Grande do Sul ligada à Cooperativa Coolmeia. A maior plantação de arroz orgânico do mundo está no RS e começou quando alguém questionou o uso dos venenos e colocou os agricultores e suas famílias como sujeitos. As feiras agroecológicas cresceram a partir do Sul do Brasil, mas não o suficiente para desbancar a indústria.

Como disse Hipócrates: “Que teu alimento seja teu remédio e que teu alimento cure tuas doenças”. Se o solo é são, as pessoas são saudáveis. O biopoder camponês é ultra-social e alimenta a humanidade. Quando se fala em soberania alimentar, o sujeito principal é o agricultor – e não a estrutura de poder. Essa luta é de todos.

Suportável, justa e viável
(Resumo da Quinta Aula)

O biopoder do camponês se baseia no território, na questão agrária e no modelo agrícola. A agricultura é uma atividade ultra-social, que não existe na natureza por si só. O agricultor se sente empoderado para produzir alimento para a sociedade e deveria ser celebrado e valorizado pelo que faz.

A relação entre social e natureza deve ser suportável; entre social e economia deve ser justa e entre natureza e economia deve ser viável. O agricultor está geralmente na periferia das relações – o que não é justo, nem suportável e nem viável. A agroecologia é o modelo de agricultura que tem o território e a questão agrária sob a tutela do agricultor, e não da indústria.

Terra pertence a quem nela trabalha

Quando foram criadas as sementes transgênicas, veio o aviso de que surgiriam plantas transgênicas. Mutantes que se tornaram resistentes por meio da agressão do veneno. A solução da indústria química para o problema que criou foi produzir veneno ainda mais forte. O que vai acontecer? Em menos de 5 anos teremos mutantes mais resistentes. À indústria não importa eliminar a causa, porque se quer apenas vender mais.

No Rio Grande do Sul, uma mina de carvão a céu aberto corre o risco de ser instalada – o que contaminaria todo o arroz da região com arsênico. Peixes deixam de ter alimento porque o camarão não encontra mais algas, mortas pelo herbicida. Nos EUA, indústrias estão indenizando pessoas intoxicadas por veneno. Mas e nos países pobres? Por aqui, dificilmente haverá qualquer punição.

Espiritualidade na agricultura

Em torno do território, da questão agrária e do modelo agrícola, unificando esse triângulo, existe a espiritualidade. Esse é o biopoder camponês. A evolução da vida é muito mais do que algumas regras, é entender a mística do agricultor, o poder cósmico da mente e como isso se transforma em ciência.

Noam Chomsky diz que a única esperança para a humanidade são os indígenas.

Junto com as populações tradicionais, o agricultor tem condições de reverter a realidade em que vivemos. Tudo que vimos juntos até aqui serve para construir alternativas e saídas. Um caminho diferente está em reconhecer o biopoder e superar o desespero. Somos maiores do que tudo isso.

Nota de agradecimento

Neste contexto eu, Eurico, vejo que o curso Solo Sadio, Planta Sã, Comida Saudável, Noosfera tem um enorme potencial para criar uma nova realidade nesse momento em que os poderes públicos se corrompem e curvam para que as grandes corporações transnacionais possam lucrar às custas do genocídio indígena, do assassinato de ambientalistas, de lideranças sociais e campesinos, do envenenamento de todos que consomem seus produtos e da completa degradação do solo, da água e da biodiversidade nos territórios onde atuam.

Agradecemos a todas e todos e companhia na jornada na construção de um mundo onde o ato de comer é também um ato de cura das pessoas, do coletivo, da economia e da biodiversidade e é sustentado pela agricultura familiar, indígena e agroecológica.

Pedimos a todos e todas que compartilhem o curso com suas recomendações pessoais sobre como ele contribuiu para sua vida, que reflexões trouxe e como te inspirou a agir.

Eu e toda a equipe de produção agradecemos a todos que participaram deste curso e imensamente ao professor Sebastião Pinheiro pelo apoio e carinho incansáveis a agricultura familiar, indígena e agroecológica!

Vandana Shiva Semeando Agricultura Familiar

“O alimento é uma arma. Quando você vende armas, armas de verdade, você controla exércitos. Quando você controla o alimento, você controla a sociedade. Quando você controla as sementes, você controla a vida no planeta Terra! … Nós não podemos esperar que governos e corporações mudem, o povo precisa mudar!”, trechos do filme Sementes da Vandana Shiva.

O documentário conta, por meio de familiares e companheiras de ativismo, quem é Vandana Shiva, de onde ela veio, qual é sua missão e como ela se tornou o pior pesadelo da Bayer-Monsanto. Nele, a própria Vandana conta como uma infancia imersa nas florestas do Himalaia e o estudo da Física Quântica nutriram nela o pensamento ecológico da inseparabilidade, da impossibilidade de substituirmos a sabedoria e os resultados de um laboratório natural com 3.8 bilhões de anos de evolução da vida que cria abundância para todos, por tecnologias que concentram renda, poder e terras nas mãos de poucos enquanto degradam as dimensões sociais, ecológicas e econômicas locais para produzir alimentos tóxicos.

As sementes crioulas ou tradicionais tem milhões de anos de evolução pela natureza. As sementes crioulas das espécies por nós domesticadas tem milhares de anos. Essa co-evolução dos seres humanos e das plantas domesticadas garante a soberania alimentar, mas nos tempos atuais garante plantas capazes de se adaptar a intermitência imprevisível dos períodos de secas e enchentes repentinas causados pelas mudanças climáticas. Essa é apenas umas das lições compartilhadas por Vandana Shiva no filme Sementes da Vandana Shiva.

Outra lição muito forte é a do poder que temos quando agimos em nossas vocações e em prol da vida no planeta. Com ajuda de produtoras familiares, ativistas e apoiadoras, Vandana conseguiu nutrir um movimento em prol da agricultura familiar regenerativa, da soberania alimentar e da biodiversidade no planeta.

Em um trecho do filme Vandana conta como o José Lutzemberger compartilhou com ela uma revelação durante uma manifestação com milhares de agricultoras na Índia. Segundo ela ele disse: “Vandana, as corporações estão tentando acabar com a agricultura familiar no planeta porque estas são as últimas pessoas livres na sociedade de consumo!”.

Deixo link para o site dos produtores do filme onde todos podem doar e pedir o acesso ao filme.

Na semana passada eu compartilhei uma conversa muito interessante entre o Russell Brand e Dra. Vandana Shiva.

O Russel tem feito matérias incríveis sobre como as grandes corporações digitais, como Microsoft, Amazon e FaceBook tem investido na mineração de dados pessoais de pessoas da agricultura familiar e oferecido soluções que na verdade são armadilhas para dominar ainda mais território e centralizar ainda mais a produção usando o campo como plataforma de escoamento das corporações de mineração e petroquímicos.

Para essa semana eu deixo link para a entrevista completa (em inglês) e faço aqui um resumo de idéias e frases que podem nos inspirar a construir juntos a mudança que precisamos ver no mundo.

Segundo a Vandana, “temos que ter acesso ao nosso direito de nascença e viver em harmonia com o planeta e uns com os outros”.

Vandana comenta que por causa da nossa arrogância criamos uma imunidade contra nós mesmos, destruímos todas as leis internacionais, destruímos toda a democracia, prendemos as pessoas no medo e com isso temos enormes dificuldades para responsabilizar os verdadeiros criminosos por trás destes crimes contra a humanidadde. 

Ela menciona o debate sobre a questão dos transgênicos na europa, onde criamos leis sobre a regulamentação dos transgênicos e como as corporações que lucram com eles tentam derrubar essas leis.

Vandana nos encoraja e construir um relacionamento sagrado com a comida, a proteger a integralidade do alimento desenvolvido naturalmente no planeta. Segundo ela, as corporações violam essa integralidade do alimento e tentam quebrar nossa relação ancentral com ele. 

Em primeiro lugar, tudo é comida. Tudo é alimento nos vedas, ela explica. “E se você pensar nisso, ecologicamente, o que é o ciclo da nutrição senão o movimento dos alimentos? Então, tudo é comida. Sim, um ciclo ecológico é o movimento dos alimentos, e é por isso que chamo os alimentos de moeda da vida.

Em segundo lugar, o maior dever é cultivar e dar boa comida em abundância. E o pior pecado é deixar alguém passar fome na sua vizinhança; não cultivar bons alimentos; e pior, vender comida ruim.

Temos que trazer, para o centro de nossa vida cotidiana, os rituais que tornam a vida sagrada. Nossa respiração, que é o que nos conecta ao mundo. A água nos conecta ao mundo, a comida nos conecta ao mundo. Esses não são combustíveis para o corpo. A construção cartesiana sobreviveu tanto e está morrendo em nossa era, mas os barões digitais estão tentando dar a ela uma vida um pouco mais longa, estão colocando o pé no acelerador. Dando mais poder ao modelo cartesiano. E nós temos que dizer não! Temos que ser mais espirituais,mais interconectados, mais capazes de celebrar gratuitamente a vida por meio da abundância que podemos criar.

 

Seaspiracy e veganismo comom panaceia

Em um exercício de pensamento crítico, sistêmico e ecológico, não há solução simplista para problemas complexos. É nesse sentido que eu argumento que o veganismo não é uma panaceia para os problemas ambientais e os vários artigos que compartilho abaixo deixam claro que frequentemente a agenda de conversão deste movimento distorce e esconde dados, testemunhos e informações de acordo com sua agenda.

A ideia aqui não é opor o veganismo, como já disse em vários artigos e vídeos, o veganismo é um direito inalienável. O erro é querer elevá-lo a um dever ambiental.

O filme já começa mentindo e dissimulando pela sinopse:

Apaixonado pela vida nos oceanos, um cineasta resolve documentar os danos causados pelo ser humano às espécies marinhas e acaba descobrindo uma rede de corrupção global”.

Ali Tabrizi, o diretor e apresentador do filme, pode até ser apaixonado pela vida nos oceanos, mas o filme já foi concebido desde o roteiro para ser uma propaganda de conversão para o movimento. Inclusive uma busca rápida na internet revela que Seaspiracy já foi idealizado para ser uma continuação do Cowspiracy e, inclusive, tem o mesmo produtor, Kip Andersen.

Eu deixo minhas considerações para o final e passo agora a citar dois especialistas na área, para deixar claro a gravidade desse tipo de manipulação.

Vou citar o professor Daniel Pauly da University of British Columbia. Daniel, que é doutor em biologia marinha, foi nomeado um dos cientistas da American 50 – a lista anual da famosa revista reconhecendo atos notáveis ​​de liderança em ciência e tecnologia em 2020. Pauly é o único cientista na lista de uma universidade canadense.

Pauly tem estudado o declínio da pescas dos mares por mais de 25 anos. Entre suas principais realizações estão dois dos projetos pesqueiros mais importantes do mundo. FishBase é um banco de dados global embalado com informações sobre mais de 27.000 espécies de peixes. Ecopata é um programa de modelagem de ecossistema que prevê como as populações de peixes podem responder a várias pressões. Entre suas muitas homenagens, Pauly foi eleito para a Royal Society of Canada em 2003.

Segundo Pauly “Seaspiracy, a inspiração marítima, faz mais mal do que bem. Ele pega a questão muito séria do impacto devastador da pesca industrial sobre a vida no oceano e a prejudica com uma avalanche de falsidades. Também emprega técnicas de entrevista questionáveis, usa clichês anti-asiáticos e culpa a Comunidade de Conservação do Oceano, ou seja, as próprias ONGs que tentam consertar as coisas, ao invés das corporações industriais que realmente causam o problema.”

Mais importante, ele distorce a narrativa sobre a destruição do oceano para apoiar a ideia de que nós – os assinantes da Netflix em todo o mundo – podemos salvar a biodiversidade do oceano ao nos tornarmos veganos. Ao fazer isso, Seaspiracy mina seu tremendo valor potencial: persuadir as pessoas a trabalharem juntas e pressionar por mudanças nas políticas e regras que irão controlar uma indústria que frequentemente infringe a lei impunemente.”

Ainda segundo Pauly, o Seaspiracy tem problemas com os fatos.

Um exemplo“, Pauly afirma, “é a afirmação de que os oceanos estarão “vazios” em 2048 se continuarmos a pescar como fazemos agora.”

Esta afirmação é uma interpretação errônea de um artigo científico já desatualizado. Seus autores sugeriram que, em 2048, todas as populações de peixes exploradas no mundo estariam tão esgotadas pela pesca que produziriam menos de 10 por cento de suas capturas historicamente mais altas. Existem milhares dessas populações de peixes em todo o mundo, que podem ser consideradas como tendo “colapsado”, mas eles não desapareceram e podem se recuperar. Na verdade, é disso que se trata a gestão atual da pesca em países como os Estados Unidos, que enfatiza a reconstrução de estoques ”.

O irônico aqui é que o Boris Worm, doutor, biólogo marinho e autor do artigo mais citado no Seaspiracy agradeceu publicamente as críticas feitas ao filme pelo colega Daniel Pauly.

Sobre as estratégias e desonestidades do filme, Pauly conclui que “Quando você opta por uma política absurda [no caso o veganismo como única opção], você deve derrubar as alternativas, por mais sensatas que sejam. E assim, Seaspiracy ataca várias das ONGs na conservação dos oceanos, incluindo a Plastic Pollution Coalition e a Oceana.”

E por fim Pauly recomenda: “Se Seaspiracy o alertou sobre os problemas que os oceanos enfrentam, entre em ação e junte-se a uma ONG que está lutando por mudanças. Quanto a este filme, um título melhor seria Maria Antonieta Vai Para o Mar.

Para quem não sabe, Maria Antonieta era conhecida como ‘a louca’.

Segue o link para o artigo O que o Seaspiracy da Netflix entende errado sobre pesca, explicado por um biólogo marinho no Vox.

No Brasil também temos especialistas gabaritados alertam para o desserviço prestado pelo filme.

Cintia Miyaji é bióloga, mestre e doutora em Oceanografia pelo Instituto Oceanográfico da USP. Atualmente Cintia trabalha no fortalecimento da cultura do consumo responsável de pescado no Brasil, através da atuação como consultora na empresa que fundou em 2018, a Paiche.

Cintia também escreve um blog o “Bate papo com Netuno – sua comunicação com o mar e a ciência”, nele ela escreveu o artigo Seaspiracy, a armadilha das meias verdades.

Cintia explica que “embora os problemas apresentados pelo documentário sejam exatamente aqueles que me incomodam todos os dias, como a depleção dos estoques e a sobrepesca, a pesca ilegal, o impacto sobre espécies ameaçadas, as redes fantasma, os descartes e desperdícios, a aquicultura mal manejada, a violação dos direitos humanos, entre tantos outros, Seaspiracy incentiva o público a acreditar que ele tem o poder de mudar esses cenários de horror através de uma solução simplista… parar de comer peixe. E o argumento mais explorado é o de que não há uma forma confiável de se definir uma pesca como sustentável.”

Cintia lamenta que as críticas científicas e embasadas feitas ao filme “jamais alcançarão nem uma pequena fração daqueles que assistiram ao documentário, mas encontrarão eco e repercussão nos meios envolvidos com a pesquisa e a cadeia da pesca.

Ela explica em seguida como o filme leva tantos influenciadores e ativistas a compartilhar as informações falsas e elogiar o filme.

Seaspiracy usa uma estratégia muito bem pensada e arquitetada, de empoderar o espectador (aquele específico do perfil do assinante da Netflix), e dar a ele a sensação de que ao final do filme, uma atitude decorrente de uma decisão sua, consciente e legítima, vai contribuir para alterar as situações que o fizeram se sentir tão mal durante o documentário. Então, ao final, você tem que estar convencido de que não comer pescado é a solução, porque é a única que está ao seu alcance individualmente.

Mas como não existem soluções individuais para problemas sociais, tão pouco soluções simplistas para problemas complexos, Cintia alerta: “Não estamos em condições de aprofundar as diferenças e aumentar as distâncias. Nossa ação conjunta é necessária e urgente. O planeta, o oceano e a humanidade precisam de ações que os preservem. Ajude-nos a melhorar a comunicação entre as pessoas, no seu círculo social, na sua rede de contatos, na sua área de influência, orientando e disseminando informações de fontes seguras e confiáveis, nutrindo, treinando e até desafiando o senso crítico dessas pessoas. Leia, divulgue e apoie iniciativas como o Bate-Papo com Netuno!

O final, o filme deixa duas mensagens claras, como explicam os especialistas Danieal e Cintia: 1) parar de comer pescados e 2) substituir os pescados pelas produtos industrializados disponibilizados nos supermercados.

Entretanto, se o modo de produção pode estar a serviço da regeneração das áreas anteriormente degradadas, da qualidade de vida das pessoas e da economia local, qual seria o problema do pescado ou da carne?

E é aí entra a em dissonância cognitiva da agenda de conversão vegana porque usa argumentos ambientais, mas o foco principal é o antiespecismo.

A recomendação para que todos parem de comer peixe, não está embasada em dados, como mostram os especialistas, mas no antiespecismo. Desta forma deixam de contextualizar que para a grande maioria das pessoas no planeta essa não é uma opção segura. Deixam de recomendar a articulação social e política de base, tão necessária, e levam as pessoas a acreditar que uma solução individual tem eficiência para problemas sociais, o que sabemos ser uma falácia.

Também não se preocupam em investigar e contextualizar o impacto ambiental das altenativas ultraprocessadas à baseas plantas, porque na realidade, os argumentos ambientais, nutricionais e espirituais servem só de apoio ao antiespecismo (e são frequentemente distorcidos para favorecer o foco principal).

Como também explicam os cientistas que fazem as críticas fundamentadas a essas peças da publicidade veganas, o movimento perde credibilidade e a oportunidade de inspirar cooperação e articulação políticas nas bases toda vez que coloca o antiespecismo e as soluções individuais à frente da articulação popular e da complexidade dos diversos contextos humanos no planeta.

Praticamente todos os “documentários” (eu chamaria de propaganda) são chamados a responder por “erros” (acho que é manipulação de dados) depois que são lançados.

O cowspiracy é um desserviço para agricultura familiar regenerativa no mundo. Vários cientistas já desmascararam os dados distorcidos.

O Game Changers, embora tenha mais embasamento, ainda apresenta evidências anedóticas como científicas e “esquece de dizer que o diretor tem 140 milhões de dólares investidos na indústria das carnes falsas.

O Seaspiracy incorre nas mesmas distorções e manipulações, como apontam os especialistas aqui citados.

Se o foco for no antiespecismo, o movimento se torna hegemônico e dá espaço para as corporações das monoculturas e carnes falsas (feitas com produtos da monocultura). Isso porque o mais importante (para o antiespecismo) é buscar alternativas aos produtos de origem animal e de onde vem estas alternativas e os impactos ambientais de sua produção nunca é questionado.

Se lutarmos juntos pela soberania alimentar, que abarca a pluralidade sociocultural, a necessidade de uma agricultura familiar regenerativa e da reforma agrária, o direito ao veganismo está garantido, mas dentro de um paradigma que abarca as escolhas de todos.

Nota: Agradeço a amiga e também doutora em biologia marinha Caroline Codornis por compartilhar o artigo da Cintia e ao perfil Movimento do Onivorismo Ético pelo esforço no esclarecimento das desinformações espalhadas pela agenda de conversão.

O Agronegócio e a Fome no Brasil

Em uma mistura de dor, ira, nojo e desespero tenho lido, assistido e escutado notícias sobre a fome desde domingo, dia 04/04/21.

Eu compartilho abaixo a curadoria das notícias, mas faço aqui um apelo no sentido de desenvolvermos um pensamento crítico, ecológico e sistêmico! Não é nem uma questão de espectro ideológico à direita ou à esquerda, é uma questão física – de entendermos termodinâmica e ecologia!

De fato, como diz a Rita Von Hunty, “não existe solução individual para problemas sociais”!

De fato, a reforma agrária e a agroecologia são emergências importantíssimas para a construção de um futuro em que escapemos a extinção em massa!

Mas também não encontraremos soluções tecnológicas, reducionistas para problemas complexos nos âmbitos sociais, ambientais e econômicos em que vivemos.

Pouquíssimas notícias abordam o papel central que uma produção primária regenerativa pode ter em captar mais luz solar, em regenerar o ciclo hidrológico, em ciclar mais nutrientes e cobrir o solo e em favorecer a biodiversidade.

E como esses processos ecológicos são indissociáveis, como sem eles não há como sustentarmos a vida, o agronegócio não pode sustentar nenhuma economia.

Pouquíssimas notícias veem ou comentam a inseparabilidade e a magnitude da complexidade que se forma quando pensamos em sociedades e economias nocivas incrustadas em ecossistemas moribundos.

Nenhuma notícia que comentou a fome, criticou a densidade populacional das cidades, a poluição ali gerada, a insanidade ali vivida e as injustiças ali perpetradas pelas elites e sua ideologia. Nenhum reporter lembra Lutzemberger avisando lá na década de 8o que “As cidades são ecossistemas artificiais.

Na verdade a lógica de praticamente todas as notícias continua sendo a pergunta “como o campo vai alimentar as cidades?”. Perpetuando assim a monetização do acesso ao alimento e a subjugação de tudo que há no campo à logica destrutiva das cidades.

Só voltando a ocupar o campo com uma cultura baseada em uma viabilidade econômica atrelada a regeneração da biocapacidade local, baseada na qualidade de vida para produtoras, na soberania para indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, teremos qualquer chance contra a extinção em massa.

Não é só “agroecologia ou colapso” como colocam os cientistas recomendados pela Rita no @temperodrag .

Precisamos de uma gestão verdadeiramente justa, regenerativa e viável que nos auxilie no planejamento do #êxodourbano e das várias transições que precisamos fazer para evitar a extinção em massa.

No rumo que estamos, porque já vivemos um colapso ecológico e econômico, continuaremos matando primeiro as mulheres negras, indígenas, pretos, pobres pardos e campesinos largados à míngua no campo, como mostram as estatísticas nas notícias que comento abaixo.

Precisamos viver em lugares com batatas, inhames e mandioca estocadas em um solo vivo. Com frutas, castanhas e madeira estocadas em sistemas agroflorestais saudáveis. Com carnes de peixe, frango, boi, porco, cordeiros, bodes, coelhos, preás, etc. vivas em volta da casa ou em latas com banha, em varais secando em cima do fogão à lenha ou preservadas no sal. Com queijos, coalhadas e conservas nas prateleiras. Com uma horta colorida e cheirosa na porta da cozinha.

Como diz a Ana Primavesi em seu livro Manejo Agroecológico do solo, até 1970 existia pobreza no Brasil, mas não tínhamos famintos.

A concentração de terra, poder e renda faz parte de um plano que só beneficia a elite. Mas é um plano estúpido, porque ao depletar a própria base de recursos que apoia a vida no planeta essa elite assassina grande parte da população primeiro, mas depois se suicida também.

Como diz o Allan Savory – Em última análise, a única riqueza que pode embasar qualquer comunidade, economia ou nação é derivada do processo fotossintético – plantas saudáveis crescendo em solos se regenerando.

Segue a curadoria comentada para vocês!

Podcast Café da Manhã – Porque o Brasil passa Fomehttps://open.spotify.com/episode/5sHfj8k4jBRH1nDsKJcgaR?si=XY-gkB7ATaSec47xSa8UHQ&utm_source=whatsapp&nd=1

A frase que me marcou mais nesse podcast enviado pelo ativista e permacultor @Marco.Siqueira foi “O acesso ao alimento é monetizado”!

Mas ouvir gera dor, ira, nojo e desespero.

“A fome atingiu 19 milhões de brasileiros durante a crise de covid-19, e quase a metade das famílias têm algum grau de dificuldade para se alimentar. E isso não leva em conta o fim do auxílio emergencial, porque esses dados foram coletados nos últimos 3 meses do ano passado.

Com bolsa família e outros programas sociais a população pobre teve acesso a alimentos e o Brasil saiu do mapa da fome. Com a crise econômica e social intensificada por volta de 2016 a fome voltou com força. E como o acesso urbano ao alimento sempre foi monetizado a insegurança alimentar é pior nos centros urbanos.

Hoje, cerca de 27 milhões de pessoas sobrevivem em média com 246 reais por mês.

A reportagem denuncia o desmonte do PNAE, Programa nacional de Alimentação Escolar, um dos maiores do mundo. Dentro do PNAE, o PAA, Programa de Aquisição de Alimentos, prevê que a compra de 30% desses alimentos precisariam ser de agricultura familiar. Há um ano esse programa também vem sendo desmontado pelo governo atual e sua parceria com a bancada ruralista.

Um depoimento de uma educadora popular negra de Recife revela como o plano eugenista desse governo não deixa opção digna para desempregados nas periferias.

Gostaria de soltar o Paulo Guedes com R$250 no subúrbio de Recife por um mês e ver se ele sobrevive com o que recomenda para os outros

Tempero Drag (@temperodrag) – Agroecologia e Agricultura Familiar

“Não existe solução individual para problemas sociais” é a frase que marca nesse vídeo.

A Rita Von Hunty abre o primeiro de Abril, dia da mentira, com notícias absurdamente graves que ela gostaria que não fossem realidade, mas são. Vale muito a pena conferir! Em qualquer país de primeiro mundo europeu como a França, Espanha ou Alemãnha ou mesmo Chile ou Argentina na América Latina, por exemplo, as pessoas estariam nas ruas paralisando e mudando o país com as próprias mãos.

Depois ela contextualiza uma discussão muito interessante sobre “Emergência, importância e um futuro” e ela defende, citando alguns autores e o movimento ecossocialista, que entramos em uma época em que ou adotamos o Eco-socialismo ou entramos em extinção. Muito embora já estejamos no antropoceno – a era geológica marcada pela sexta maior extinção em massa.

Nesse sentido, ela argumenta, que agroecologia e a reforma agrária são medidas urgentes e importantes que podem construir um futuro viável para a população.

Ela ressalta muito bem o papel negativo do agronegócio na história brasileira impedindo, desde 1500 a reforma agrária.

Acho que do vídeo da Rita vale ressaltar os seguintes dados:

O Brasil usa 500 mil toneladas de agrotóxicos todos os anos. 

Isso soma um gasto de 35 bilhões de Reais! Ou vendo de outra forma, o Brasil sozinho usa 20% de todos os agrotóxicos produzidos no mundo.

Nesse sentido, eu vejo como os objetivos sustentáveis da ONU são ridículos! Um deles é diminuir pela metade o uso de agrotóxicos em 10 anos. Mataremos só a metade das pessoas com câncer. Poluiremos só a metade das águas… e enquanto a lógica econômica for a dominante, matar e poluir menos desde que mantenhamos a economia será válida. Quando na verdade, deveríamos enxergarmos e sentirmos a insanidade que é usar agrotóxicos em qualquer quantia uma vez que sentenciam à morte toda a vida do planeta.

Ela alerta ainda que em função dessa concentração de renda, poder e terras, o agronegócio brasileiro é o que mais mata ativistas ambientais no mundo!

Ela deixa vários links úteis para que a gente possa agir apoiando grupos e projetos já em andamento tanto no campo como na cidade.

Os alertas de Allan Savory (@asavory2018) sobre a falta de pensamento ecológico sistêmico.

O Allan compartilhou um artigo do Washington Post sobre como as emissões de CO2 chegaram a um nível crítico já quase dobrando os níveis pré-industriais.

Segundo Allan a maioria dos jornais são responsáveis pela nossa morosidade no combate às mudanças climáticas porque ficam repetindo crenças como papagaios sem nunca questionar ou avaliar criticamente relatórios e notícias.

A matéria aponta a produção de energia elétrica, os transportes e a indústria como os setores que mais poluem, mas não questionam a desertificação global e os solos destruídos pela agricultura. Assim como não questionam as gigantes queimadas anuais em todo planeta, também ligadas à agricultura.

Segundo ele, quando queimamos um hectare de pastagens emitimos mais poluentes mais danosos que a emissão de 6 mil carros. Só no continente africano ele aponta que queimamos mais de 1 bilhão de hectares. No Brasil são 11,700,000 (onze milhões e 700 mil hectares) todo ano.

Allan explica que a mídia continua repetindo relatórios sobre os riscos da emissão de metano pela pecuária sem nunca avaliar que até o advento da agricultura e pecuária industriais, durante milhões de anos os grandes herbívoros selvagens e domésticos nunca foram um problema.

Deixo aqui os links para o artigo no Washington Post e os comentários do Allan no Facebook:

https://www.washingtonpost.com/weather/2021/04/05/atmospheric-co2-concentration-record/?fbclid=IwAR1cQQAgE6LZqfhShwdblONN0ENnnC13zaugHAwsHbxuoq5P4ValJ3DIDdU

https://www.facebook.com/allan.savory

Nesse sentido, da discussão climática, o companheiro Dr. Sérgio Loyola, que toca comigo a página do podcast Impacto Positivo no FaceBook, compartilhou um artigo da DW, portal de notícias alemão, perguntando a uma dezena de especialistas, de setores indo desde entomologia, oceanografia e climatologia até pesquisa do permafrost, o que mais lhes tira o sono quando o assunto é clima.

Surpresa? Não! Segundo a maioria dos cientistas a maior incógnita é o ser humano. Uma das cientístas, a Ama Klutse do Gana lança a pergunta: “O que você pode fazer, enquanto indivíduo, para evitar o impacto da mudança climática?” E segue dizendo que  “São necessárias políticas governamentais no sentido da resiliência urbana, construir para a comunidade. Aí precisamos daquela ação global.”

https://www.dw.com/pt-br/o-que-tira-o-sono-dos-especialistas-em-clima/a-57112714?fbclid=IwAR1YcDjV7vy_rC1EfSlS0CoUrHOtPDVUidJv1M9T_M6O5eakkjk3FEtCFAc

Hoje, quarta-feira dia 07/04/21 vou fazer uma interação ao vivo pelo YouTube e Instragram para compartilhar e comentar essas notícias.

Peço a todos que compartilhem o conteúdo tanto do Youtube quanto do Instagram facilitando a circulação destas reflexões.

Vamos falar sobre o elefante na sala

Quase toda decisão humana causa consequências indesejadas para nós, nossas finanças e as espécies em nossos ecossistemas simultaneamente. Isso porque essas três coisas: PESSOAS, ECONOMIAS e NATUREZA não são sistemas complexos separados. Esses três são intricadamente conectados, extremamente complexos e compoem um único sistema que se auto organiza. Entretanto, nenhum de nós tem a capacidade cognitiva instintiva para tomar decisões que reflitam [essa complexidade]. Se tivéssemos, naturalmente estaríamos vivendo em equilíbrio com nossos ecossistemas e teríamos que tomar apenas decisões básicas para nós mesmos como qualquer outro animal que usa ferramentas.

Nota: Tradução livre e adaptação Eurico Vianna, PhD.

Mas com o domínio do fogo avançamos muito do uso de tecnologias simples como pedras e lanças. Nosso comportamento social mudou por causa do nosso avanço nas tecnologias e gradualmente começamos a não girir só nós mesmos, mas a natureza também e com o tempo somamos a dimensão econômica.

Nosso processo simples de tomada de decisão não evoluiu para refletir que agora gerimos uma rede enormemente complexa com dimensões sociais, economicas e ecológicas. Isso resultou em nosso processo de tomada de decisão básico causando uma reação em cadeia negativa por todas as dimensões dessa rede complexa.

Nós não notamos que nosso processo de tomada de decisão é a causa da devastação global porque no ato de cada decisão nós frequentemente atingimos nossos objetivos a curto prazo e seguimos adiante. Só mais tarde os animais, as pessoas, as plantas e as economias sofrem as consequências indesejadas… E nesse momento nós usamos o mesmo processo de tomada de decisão ultrapassado para reagir ou adaptar a essas consequências.

O que segue é um exemplo de um completo desastre ecológico causado por uma única decisão reducionista:

Na década de 60 no Zimbábue as comunidades tradicionais foram retiradas das áreas que estavam sendo reservadas para os Parques Nacionais. O objetivo de curto prazo foi alcançado – as pessoas foram removidas daquelas áreas. No que se refere a preocupação que eles tinham a missão foi cumprida e eles presseguiram para a próxima decisão.

Mas eles ‘empurraram o primeiro dominó’ e sem querer acionaram uma reação em cadeia enorme e invisível por todo o ecossistema – os elefantes (e outros animais) de repente pararam de migrar e se comportar naturalmente porque o predador alfa havia sido removido do ecossistema (humanos são os únicos predadores de elefantes). Vejam o que aconteceu com o Parque Yellowstone quando os lobos foram removidos.

Uma única decisão reducionista resultou em um comportamente repentino e completamente não natural de milhares e milhares de elefantes (e muitas outras espécies) e durante os próximos anos as consequências indejadas dessa decisão para aqueles ecossistemas se tornaram muito visíveis… e o vasto número de elefantes passou a ser culpado pelos danos ecológicos causados pela decisão.

Então, para resolver o dano, as pessoas usaram exatamente o mesmo processo de tomada de decisão e culparam os elefantes pela devastação ecológica; afirmando que haviam elefantes demais. E aí, para resolver o problema dos elefantes em excesso eles resolveram sacrificar 40.000 elefantes. E o fizeram. Eles conquistaram o objetivo de curto prazo, se livraram da maioria dos elefantes. Missão cumprida e de novo seguiram para a próxima decisão. Mas eles tinham empurrado o primeiro dominó de novo, e a consequência da maior decisão reducionista que eles tomaram foi que durante os próximos anos a degradação ficou muito, muito pior, não melhor.

Tudo porque essas pessoas estavam abordando um sintoma (o pulsar e o impacto não natural dos animais), mas ninguém abordou a causa do problema – a gestão humana.

Comportamento terrivelmente não natural de um elefante em um parque nacional do Zimbábue: ele está desesperadamente tentando conseguir comida e nutrientes suficientes para sobreviver durante a estação seca dada a imensa perda de biodiversidade e desertificação causadas pela nossa gestão reducionista.

Meu pai, Allan Savory, foi a única pessoa envolvida na decisão devastadora daquele governo de sacrificar aqueles elefantes que se posicionou dizendo que eles haviam cometido um erro monumental. Ninguém mais admitiu que eles estavam errados e até hoje ambientalistas/cientistas e mesmo especialistas em elefantes defendem sacrificar, esterelizar ou mudar os animais de localidade. Nas terras das comunidades tradicionais a pecuária é culpada pela devastação… mas quem maneja esses animais? Nos estados unidos as pessoas gerindo os parques nacionais em biomas parecidos não tem elefantes, gado ou outros animais para culpar, então eles dizem que “processos não conhecidos” são a causa.

Perda de biodiversidade extrema em parques nacionais nos Estados Unidos e na África: esse deveria ser o maior aviso para toda humanidade de que nossa gestão está falhando.

Depois do enorme erro com o abate dos elefantes, Allan passou a dedicar sua vida inteira a encontrar soluções para o que quer que seja em nossa gestão que leva à perda de biodiversidade e à desertificação. E ele encontrou.

Com a ajuda de milhares de pessoas durante décadas, ele desenvolveu a estrutura do Gerenciamento Holístico que nos guia pelas dimensões sociais, economicas e ecológicas de nossas decisões e que assegura que não vamos tomar decisões que mais tarde resultam em consequências indesejadas… Nos move a partir de uma gestão reativa, adaptativa para um processo de decisão traz os resultados que queremos proativamente assegurando que cada decisão que tomamos tenha o melhor resultado ecológico possível enquanto considera ao mesmo tempo as circunstâncias sociais e econômicas únicas dentro das quais é tomada.

O Gerenciamento Holístico também ajuda proprietários rurais a aprender como usar animais como ferramenta biológica para regenerar pradarias. Por meio do Planejamento Holístico de Pastagens, animais imitam o relacionamento presa-predador e criam o habitat para vida selvagem desejado. Nos lugares onde proprietários usaram animais para regenerar áreas com grandes populações selvagens os resultados são incríveis. Pradarias se tornam saudáveis de novo e a população de animais silvestres cresce no passo que seu habitat é regenerado.

Imagens de áreas regeneradas usando o Gerenciamento Holístico perto das Cataratas de Vitória no Zimbábue. Com uma imagem das terras da comunais de Hwange que está trabalhando para regenerar a biodiversidade usando o Gerenciamento Holístico e o Planejamento Holístico de Pastagens para seus animais.

Sarah Savory, Novembro 2020.

Porque as recomendações do Sir David Attenborough no documentário Nosso Planeta estão fadadas a falhar

Nesse artigo eu faço uma análise do filme David Attenborough e Nosso Planeta sob a luz da Tomada de Decisão Holística, um modelo de gestão criado pelo ecologista Zimbabuano Allan Savory para lidarmos com as complexidades da sociedade, ecologia e economia simultaneamente e no mesmo patamar de importância.

O filme é um testemunho do declínio dos ecossistemas do planeta Terra e um apanhado de sugestões para caminhos futuros.

Durante os 70 anos de carreira do ambientalista David Attenborough, hoje com 93 anos de idade, documentário acompanha:
– o aumento populacional;
– o aumento da poluição (em acréscimo de carbono em partes por milhão na atmosfera);
– e a diminuição da área de habitat natural para a vida selvagem no planeta.

É desesperador constatar que durante os últimos 70 anos nós seres humanos já destruimos em torno de 70% dos ecossistemas do planeta para produzir bens de consumo em um estilo de vida que nos distancia cada vez mais da natureza.

Esse é o contexto da primeira metade do documentário – um choque de realidade mostrando de forma irrefutável o impacto negativo da sociedade de consumo em toda a base natural que sustenta a vida no planeta.

A segunda metade do filme apresenta possíveis soluções para o futuro e é essa parte que eu gostaria de comentar com uma análise baseada na Tomada de Decisão Holística.

Embora existam outras sugestões e mais detalhes, de forma geral as alternativas apontadas são:

1 – Diminuir o espaço de produção agrícola, adotar uma dieta a base de plantas e comer menos carne;

2 – Substituir por completo a matriz energética de recursos fósseis que sustenta o modelo de civilização atual por energia renovável (o filme se tem mais a solar e eólica, mas menciona a geotérmica também);

3 – Praticar um ‘consumo consciente’.

Eu vejo essas sugestões como passo-à-passo simplistas, reducionistas, para uma situação que é complexa. Em muitos casos, elas nem chegam a atuar na raiz do problema. E por essas razões estão fadadas a falhar.

Quando usamos o modelo de gestão do Gerenciamento Holístico para pensar sistemicamente e tomar decisões, nós criamos um contexto que assegura simultaneamente e no mesmo patamar de importância as dimensões sociais, ambientais e econômicas. Até porque, na realidade, elas são inseparáveis. A gestão reducionista, com foco exclusivo no lucro, que nos levou a tentar gerir essas dimensões separadamente.

Devemos diminuir os espaços de produção agrícola ou ocupar todas as áreas de produção com a agricultura regenerativa?

Em relação à sugestão feita no filme de diminuirmos o espaço de produção agrícola, adotarmos uma dieta a base de plantas e comermos menos carne, eu faço a seguinte provocação: e se tivéssemos modelos de produção capazes de restaurar o solo, os lençóis freáticos e a sócio-biodiversidade? Nesse caso precisariamos diminuir os espaços de produção ou ocupar todos eles com esses modelos regenerativos?

Acontece que temos esses modelos de produção. Eles estão presentes na permacutura, agroecologia, agroflorestas sucessionais, plantio de palhada, gerenciamento holístico de pastagens, etc. Isso deixa claro que o problema não é a dieta, nem necessariamente o tamanho da área, uma vez que outros modelos de produção restauram enquanto produzem.

E aqui vale citar dois exemplos do quão ecologicamente eficiente os sistemas regenerativos podem:

O primeiro é dos Sistemas Agroflorestais (SAFs) sucessionais praticados no Brasil. As pesquisas do Dr Walter Steenbock mostram que com esses sistemas podemos produzir entre 40 e 70 toneladas de alimentos, fibras e madeira enquanto fixamos até 6.7 toneladas de carbono no solo por hectare por ano (Steenbock, 2013).

Os SAFs regeneram os processos ecossistêmicos, portanto os habitats naturais, e produzem no mínimo em torno de 25 toneladas a mais de alimento por hectare por ano.

O segundo exemplo é o da Fazenda Carvalho Branco (White Oaks) nos Estados Unidos. Eles trabalham com o modelo de gestão holística na tomada de decisão e no planejamento das pastagens e com isso conseguem fixar 1.3 toneladas de carbono no solo por hectare por ano. Eles compensam mais de 100% do carbono emitido no ciclo de vida de cada animal e até 85% de todas as emissões da fazenda (Stantly, P; Rowtree, J; et. all; 2018).

Se mais pessoas consumissem carne produzida nesse modelo teríamos um número cada vez maior de pessoas contribuindo para mitigar as mudanças climáticas sem perder sua soberania alimentar.

O filme recomenda uma agricultura tecnológica e intensiva, mas não cobre de onde viriam os insumos tanto os tecnológicos (estufas, fazendas verticais, luzes, etc) como os biológicos (adubos, oligoelementos e minerais) que precisamos para que um solo saudável produza alimentos saudáveis. Uma auditoria energética desses meios de produção mostraria que eles não são mais viáveis que a agroecologia, os SAFs ou o gerenciamento holístico de pastagens.

Raramente conseguimos resolver problemas biológicos com soluções tecnológicas.

A questão da matriz energética

Embora a transição dos recursos fósseis para os renováveis seja fundamental se quisermos assegurar qualquer chance de futuro, o documentário não questiona a ordem energética, ou seja, o quão enormemente subsidiados pela matriz fóssil nós somos.

Energias renováveis não podem manter a sociedade de consumo. Isso é um fato. Atualmente 97% das atividades que mantém a civilização baseada no consumo são mantidas pela matriz de combustíveis fósseis. Para fabricarmos mais turbinas, painéis solares e baterias precisamos de minérios e outros elementos que para serem extraídos, processados e fabricados dependem de uma infraestrutura e logística que funciona à base de energia fóssil (Trainer, 2007).

O impacto ambiental do consumo energético nos países de primeiro mundo é enorme. E se quisermos construir um futuro socialmente justo, temos um impasse na questão energética. Ou diminuímos o consumo e o gasto energético dos países desenvolvidos ou continuaremos subsidiando o conforto dos países desenvolvidos com a dignidade das pessoas no Sul Global. Isso porque energia renovável para todos na escala atual é uma impossibilidade termodinâmica.

Entretanto o documentário não questiona nem a impossibilidade de mantermos a civilização global atual com energias renováveis, muito menos o ajuste que precisa ser feito para que todos os povos possam ter acesso à energia renovável gerada.

O consumo consciente

A Economia Ecológica nos mostra muito bem pelo entendimento das Leis da Termodinâmica que uma economia baseada em consumo, não importa em qual escala ou nível de consciência, será sempre destrutiva (Cavalcanti, 2020).

Sugerir o consumo consciente, portanto, não age na raiz do problema: uma economia baseada em bens de consumo, com obsolescência planejada e que para serem fabricados invariavelmente degradam a natureza.

A solução aqui seria redesenhar a cadeia complexa sociedade-natureza-economia de forma holística. Seria entendermos, aplicarmos e vivermos uma economia baseada no gozo de viver, na arte, nas experiências subjetivas e desenvolvimento humano e não no consumo.

O documentário também não aborda a sociedade de consumo e sua economia como raiz do problema da destruição ambiental.

Coda

Embora o documentário tenha uma contribuição enorme no processo de conscientização da sociedade como um todo, as alternativas propostas são reducionistas e por vezes superficiais demais para dar conta da complexidade sociedade-natureza-economia.

Modelo de Produção da Economia Clássiva, por Dr. Clóvis Cavalcanti.

Precisamos ser mais radicais no sentido de agir na raiz dos problemas. E no caso das mudanças climáticas e do antropoceno é preciso tomar decisões holísticas que abarquem simultaneamente e no mesmo patamar de importância as dimensões sociais, ambientais e econômicas.

Com um contexto social, ambiental e econômico para todo o planeta, fica claro que não é possível um capitalismo verde ou regenerativo, é preciso redesenhar todo o sistema econômico para que ele respeite, esteja contido pela biocapacidade do planeta. É isso ou a extinção em massa.

Nota: 

Meus próximos cursos incluindo oficinas com a Tomada de Decisão Holística estão listados no meu linktree.

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Referências:

Cavalcanti, Clóvis. Furtado e o desafio do enfrentamento dos limites ecológicos. 2020

Paige L. Stanleya, Jason E. Rowntreea, David K. Beedea, Marcia S. DeLongeb e Michael W. em Impacts of soil carbon sequestration on life cycle greenhouse gas emissions

in Midwestern USA beef finishing systems, no jornal Agricultural Systems, n.162 (249-258). 2018

Savory, A. e Butterfield, J. (1999). Holistic Management: a new framework for decision making. Island Press, CA-EUA.

Steenbock, et al. (2013). Agrofloresta, Ecologia e Sociedade. Kairós Edições

Trainer, T. (2007). Energias Renováveis não podem manter a sociedade de consumo. Tradução livre Eurico Vianna –

https://www.euricovianna.com.br/2018/06/09/as-energias-renovaveis-nao-sao-a-solucao-para-a-sociedade-de-consumo/

Proteção Contra Queimadas – Entendendo e projetando para proteção contra queimadas

Nota de Introdução do tradutor: As queimadas gravíssimas que atingiram grande parte do planeta em 2019 revelam a inconstância e os extremos climáticos como o novo padrão. Não se passaram ainda 12 meses e a expansão do agronegócio e suas práticas reducionistas e dissociadas dos fundamentos ecológicos já ateou fogo no Brasil mais uma vez. Essas queimadas revelam a necessidade urgentíssima de projetarmos propriedades rurais mais resilientes contra as secas, as enchentes e as queimadas.

Felizmente pessoas muito competentes no mundo inteiro tem feito um esforço coletivo para disponibilizar alternativas de desenho, estratégias e práticas que podem ajudar muito. Grande parte dos entraves que podem dificultar a adoção desse conjunto de soluções, no entanto, são de ordem cultural e burocrática.

As culturais tem a ver com políticas ambientais arcaicas que partem do princípio que toda intervenção humana na natureza e que todo uso de sistemas com animais integrados são aspectos negativos. Esse paradigma também tem a ver com a crença que assume que ‘desastres sempre ocorreram e vão continuar a acontecer no futuro e não há nada que se possa fazer, faz parte do ofício do produtor rural’.

Esse trabalho de tradução nasceu com o intuito de auxiliar clientes e familiares na tarefa de re-projetar suas propriedades e dialogar com os departamentos ambientais por melhores políticas de prevenção e combate às queimadas. Alguns trechos já foram compartilhados em relatórios de consultorias feitas na Chapada Diamantina e estão norteando a elaboração de planos de manejo individuais nesta região.

O que segue abaixo é uma uma tradução livre e resumida preparada por mim (Eurico Vianna, PhD) da sessão 3.56 – Proteção Contra Queimadas: Entendendo e projetando contra queimadas, do Capítulo 3 (Água), do Regrarians Handbook (2019). O livro foi escrito pelo planejador de propriedades rurais Darren J. Doherty, Georgi Pavlov e o ilustrador Andrew Jeeves. Nas referências eu também inclui recursos relacionados ao tema que foram disponibilizados por Doherty em um artigo chamado Recursos para Antes da Queimada (#BeforeTheFire Resources).

Mantenho aqui a organização original do texto seguindo a ordem da Escala de Permanência da Linha Chave. Uso as reticências “…” para indicar trechos não traduzidos. Na medida do possível complementarei as traduções dos trechos de texto e tabelas que não foram incluídos nessa primeira publicação. Se possível e com autorização do Darren, publicarei também as ilustrações originais.

Proteção Contra Queimadas: Entendendo e projetando contra queimadas

ENTENDER AS DINÂMICAS DAS QUEIMADAS

#1.Clima – As regulamentações federais e estaduais que regem os recursos naturais (especialmente os hídricos) podem ser um empecilho para algumas das ações propostas. Como elas são difíceis de serem alteradas e podem limitar o que pode ser feito em determinada propriedade elas se encaixam na camada 1#Clima (no “Clima da Mente”).

Aptidão psicológica, física, prática e Contexto Holístico

O preparo prático e físico deve ser visto em conjunto com o psicológico porque eles se reforçam. Recomendo o desenvolvimento e análise de um Contexto Holístico  para melhor determinar quem são os Tomadores de Decisão, qual é a base de recursos disponíveis, qual a qualidade de vida determinada, ações e comportamentos, quais os indicadores de sucesso, qual é o elo fraco em um dado momento e quais são os passos específicos de gerenciamento da propriedade ou empreendimento (Regrarians Handbook, 2015. pp.258-271).

Histórico Climático

É muito importante pesquisarmos os padrões climáticos e das últimas queimadas pelos últimos 100 anos. Esses padrões (e.g. de quanto em quanto tempo acontecem as queimadas) pode informar decisões estratégicas com mais eficiência que a utilização de dados isolados como precipitação, temperatura, velocidade dos ventos, etc. isoladamente. (Regrarians Handbook, 2015. pp.258-271).

#2.Geografia

A topografia influencia fortemente a direção, velocidade dos ventos e distribuição da matéria combustível, portanto, tendo efeito direto no comportamento das queimadas.

  • Inclinação –  a intensidade e velocidade do fogo aumentam morro acima. Nessas condições o calor irradiado viaja na frente pré-aquecendo e secando matéria orgânica inflamável de antemão. Para cada 10° de inclinação morro acima o fogo dobra de velocidade e para cada 10° de inclinação morro abaixo ele perde metade da velocidade.
  • Orientação – os morros com aspecto solar para o Norte tem maior risco de serem atingidos por queimadas.

Alguns exemplos de preparo comunitário contra queimadas pode incluir:

  • Redução preventiva de matéria orgânica inflamável, especialmente nos setores de maior risco de queimada.
    • [Estratégias propostas/coletadas por mim, Eurico, na Chapada Diamantina] 1- Uma estratégia seria a proposta pelo Nagoy Sol, ativista socioambiental em Rio de Contas, na Chapada Diamantina: fazer mutirões organizados ou abrir as propriedades para a coleta de madeira para as festas juninas. Um problema é que essa estratégia não resolve a questão da matéria orgânica seca nas plantas gramíneas e arbustivas; 2 – Outra estratégia válida a se considerar, talvez usada depois da descrita acima, seria a utilização de ‘fogo frio’ quando e onde apropriado e antes da estação seca.
  • Criação e participação de uma brigada voluntária. Caso já exista uma, aconselho o compartilhamento dessas propostas e o subsequente treinamento/adaptação de todos os envolvidos;
  • Criação de um sistema de mensagens, se possível com um número central alternativo para tornar a comunicação local mais eficiente em emergências;
  • Criação de planos de emergência individuais e biorregionais com pontos de decisão claros para ação ou evacuação;
  • Monitoramento constante dos riscos de queimada;
  • Encorajar a interação e cooperação entre os vários órgãos regionais e federais durante emergências. (Regrarians Handbook, 2015. pp.258-271)

#3.Água

Como vimos no curso após fazer alguns estudos de caso para o dimensionamento de captação de água de chuva, a Chapada Diamantina não tem um problema de escassez de água, mas sim de práticas que façam uso da água disponível. É necessária uma análise geotécnica de solo para a analisar a possibilidade de se construir uma açude na parte mais alta.

O Desenho

  • Usar preferencialmente sistemas com pressão por gravidade para irrigação e combate ao fogo, uma vez que são muito mais seguros que as bombas;
  • É melhor que o sistema de proteção contra queimadas também integre o sistema de irrigação;
  • Todo encanamento deve ser enterrado. Nos locais onde não é possível enterrar é necessário então cobrir o encanamento com uma boa camada de telha e cimento. Qualquer encanamento acima do solo, como torneiras e pontos de acesso devem ser aço galvanizado.

Açudes (Barragens)

  • Sempre que possível açudes devem ser construídos para servir de barreira contra queimadas no setor de risco, prover irrigação por gravidade e servir de fonte de água a ser bombeada para uma cisterna mais alta;
  • Os açudes devem armazenar água suficiente para prevenção e combate ao fogo (entre 20 e 50 mil litros por hectare durante a estação das queimadas);
  • Sempre que possível, tanto quanto a topografia e outros fatores permitam, os açudes devem ser projetados de forma a serem facilmente acessados pela brigada de incêndio. (Regrarians Handbook, 2015. Pp.258-271. Tradução livre Eurico Vianna, PhD).

Cisternas

Ao contrário da propaganda e crença popular, nenhuma cisterna é completamente à prova de fogo, entretanto as cisternas de ferrocimento ou metal oferecem melhores opções resistentes às queimadas que outros materiais. Exposição às queimadas ‘empretece’ os tanques de aço inox, mas dependendo da quantidade de água na cisterna e da intensidade da queimada as exposições prolongadas à temperaturas extremas eventualmente destruirá qualquer junta soldada. Cisternas de plástico pode pegar fogo quando expostas as chamas constantes, como é o caso das queimadas. Contrariamente ao que é atestado por alguns fabricantes, as cisternas de metal com revestimento interno de plástico são sensíveis a temperaturas altas. Em uma queimada intensa o revestimento interno se descolará tornando a cisterna inútil. Durante a pesquisa Impacto das Queimadas da Austrália (Australian Fire Impact no original) conduzida pelo Departamento de Ecossistemas Sustentáveis do CSIRO (Organização de Ciência e Pesquisa Industrial da Commonwealth em português) as cisternas de aço inox cilíndricas (Zincalume) se comportaram melhor que as cisternas Aquaplate (circulares achatadas), com seu revestimento interno derretendo a 200°C. Os tanques de fibra de vidro falharam completamente.

  • As cisternas devem ser posicionadas perto da casa, mas não no setor de risco de queimadas;
  • As cisternas destinadas para o combate ao fogo devem ser de metal ou ferro-cimento e, de preferência, posicionadas acima do solo;
  • Cisternas de material plástico devem ser enterradas;
  • As cisternas devem prover armazenamento de água suficiente para o combate ao fogo durante a estação de risco (ver tabela abaixo). Na prática, provavelmente todas as fontes de água serão utilizadas em uma situação de emergência.
  • Na impossibilidade de construir açudes, o dimensionamento das cisternas destinadas a combater queimadas devem chegar o mais perto possível da capacidade recomendada dos açudes (entre 20 e 50 mil litros por hectare durante a estação das queimadas);
  • Cisternas dedicadas ao combate às queimadas precisam ser facilmente identificadas à partir da estrada pública, incluindo placas de sinalização na entrada da propriedade, ser de fácil acesso pela entrada, que deve ser de 4 metros de largura e se estende até 4 metros à partir da cisterna;
  • A base das cisternas pode precisar de reforços contra colapso [em queimadas];
  • Todos as cisternas devem ter encaixes de engate rápido (Storz 65mm) e todas as válvulas, canos e encaixes devem ser de metal;
  • Cisternas subterrâneas devem permitir que caminhões pipa reabasteçam direto delas com uma abertura maior que 200mm;
  • Cisternas expostas aos setores com alto risco de queimada devem ser projetadas com escudos térmicos contra calor e contato direto com labaredas. (Regrarians Handbook, 2015. Pp.258-271. Tradução livre Eurico Vianna, PhD)

Valas de Infiltração e Sistemas de tratamento alternativo (WET Systems)

  • Quando utilizados com plantas resistentes ao fogo, swales podem funcionar como barreiras ao fogo;
  • Em áreas áridas ou semiáridas os swales podem, até certo ponto, reumidificar o solo diminuindo o risco de queimadas;
  • Os swales também devem ser projetados de forma a funcionar como acesso para motos ou pessoas até açudes, estradas públicas ou trilhas de fuga de emergência;
  • WET Systems podem ser implantados nos setores de maior risco de fogo.

É sempre importante presumir que sistemas elétricos, bombas e aspersores podem falhar quando mais precisamos deles. Com essa atitude garantimos o desenho de sistemas redundantes e alternativos (quase sempre por gravidade).

Nota do tradutor:

Em 2019 eu contactei o Darren informando que estava trabalhando nessa tradução. Na ocasião ele me pediu que não publicasse trechos e pela falta de tempo a tradução integral foi sendo postergada.

Dado o contexto atual do Brasil, com grande parte de seus biomas mais uma vez ardendo em chamas, eu resolvi publicar a tradução como ela está e, na medida do possível, me comprometendo a disponibilizar o texto na íntegra. Ainda faltam trechos abordando as camadas:
#4.Acesso,
– #5.Sistemas Florestais,
– #6.Edificações,
– #7.Cercas e Subdivisões e
#8.Solo

O próximo curso online de introdução ao planejamento de propriedades rurais com base na Escala de Permanência começa do dia 13 de Outubro.

O objetivo principal do curso é harmonizar as vocações das pessoas, a maneira como querem viver e se expressar com as aptidões do terreno. É criar resiliência ecológica e hídrica para os sistemas de produção que, por sua vez, trarão a viabilidade econômica.

Outra missão importante é fazer com que cada participante saia com uma visão integral da propriedade. É criar um roteiro de implementação de intervenções realistas que respeitem a saúde e qualidade de vida de todos. Tudo dentro de uma ordem de prioridade na execução de forma que as pessoas, o ecossistema e a economia estejam cada vez mais saudáveis.

Link para o evento no FaceBook aqui.

Link para o formuário de inscrições aqui.

Curadoria de notícias Impacto Positivo – 11/09/20

A curadoria das notícias que circularam em nossas redes essa semana cobrem desde a alta do Cacique Raoni, passa pelo questionamento da validade dos títulos verdes e volta ao documentário Ser Tão Velho Cerrado que denuncia como o agronegócio tem degradado o berço das águas de várias bacias hidrográficas no país e aponta as soluções realmente ecológica e economicamente viáveis para essa região.

Nota: Curadoria feita por Vitor Signori, Felipe Maia e Eurico Vianna. 

Começamos a semana com a ótima notícia compartilhada por Horacio Luz da recuperação e alta hospitalar do líder indígena cacique Raoni, um sopro de esperança em meio a tanto caos. Segue o link:

https://twitter.com/InstitutoRaoni/status/1301929535772987394?s=20

No começo da semana tivemos uma conversa muito boa sobre os prós e contras do veganismo e onivorismo ético. O senso comum foi de que precisamos focar a energia naquilo que nos une que é a regeneração sócio ambiental do planeta. Segue um vídeo bem bacana do movimento Slow Food e o Bem Estar Animal compartilhado pela Marcia Silva. Veganos e onívoros éticos seguindo unidos pela restauração. Segue o link:

Joyce Lemos compartilha o Podcast do Boletim do Fim do Mundo com Bruno Torturra, uma conversa com o ex-diretor de proteção ambiental do IBAMA, Luciano de Meneses Evaristo, que foi exonerado por Bolsonaro. Luciano é um dos responsáveis pelos anos de fortalecimento do Instituto e queda recorde no desmatamento. Ele dá um panorama sobre a situação dos fiscais ambientais no Brasil de hoje. Crime organizado na floresta, garimpo ilegal, a perspectiva do chão da floresta e como o órgão mais importante de fiscalização ambiental do país está ruindo.

Um outro debate que rolou em nossas redes foi em volta da notícia da primeira emissão certificada de título verde para um agricultor no mundo. O Eurico Vianna comentou que o grande desafio para essa tendência, uma vez que ela vem da lógica do mercado de especulação financeira, além de ter métricas verdadeiramente regenerativas para os ecossistema onde funcionam, é restaurar a saúde e qualidade de vida das pessoas no campo e o acesso à terra. Segundo o Eurico, pouco adianta criarmos um mercado de comódites orgânico que nada faz pela agricultura familiar e que continua concentrando terra e renda. Segue o link:

https://ciorganicos.com.br/biblioteca/rizoma-e-grupo-ecoagro-realizam-primeira-emissao-certificada-de-titulo-verde-do-mundo/

Vilmar Lermem compartilhou o documentário Ser Tão Velho Cerrado, apesar de se tratar de um documentário de 2018, infelizmente o assunto é muito atual, pois aborda como o agronegócio tem desmatado o Cerrado, o segundo bioma mais biodiverso do Brasil para produzir grãos para exportação. O documentário também mostra a importância do cerrado na composição das bacias hidrográficas brasileiras. Apesar de chocante pelos fatos, o documentário mostra o ecoturismo e a bioeconomia como saídas economicamente viáveis para preservação desse bioma:

Gabriela Toledo compartilhou a notícia do Movimento dos Pequenos Agricultores divulgando o Curso Nacional com Sebastião Pinheiro: AGROECOLOGIA E BIOPODER CAMPONÊS. O objetivo do seminário é desenvolver a capacidade de agricultores(as) e camponeses(as) como criadores(as) de biopoder para a produção de alimentos, a partir da agroecologia. Há uma emergência e todos somos como células em um corpo mundial sincronizado, ativo como nunca no mundo, exposto às ações fascistas da eugenia exploratória, devastadora e branca. Segue o link:

https://mpabrasil.org.br/noticias/mpa-convida-para-o-curso-nacional-com-sebastiao-pinheiro-agroecologia-e-biopoder-campones/

Nosso querido Felipe Maia compartilhou o link para Sete vídeo-aulas sobre pensadores negros e suas obras, O pensamento social brasileiro deve muito às obras de grandes autores negros e negras. No entanto, a produção de intelectuais afrodescendentes não é tema recorrente de destaque. Fica a dica:

https://almapreta.com/editorias/realidade/sete-video-aulas-sobre-pensadores-negros-e-suas-obras

David e Tatiana Peebles, pai e filha que tocam juntos o Yaguara Ecológico, um verdadeiro atelier de gastronomia, produção rural e restauração ecológica estarão com a gente no #podcastimpactopositivo nesse domingo, dia 13/09 as 19h. Eles preservam, cultivam e criam alimentos regidos pelo ritmo da natureza. São artesãos da ecogastronomia e tem um sentimento de pertença e conexão especial com chão que pisam em Taquaritinga, PE. Eurico vai aproveitar a oportunidade para lançar a edição de Outubro do Curso de Introdução ao Planejamento de Propriedades Rurais. Segue o link para o podcast com a família do Yaguara Ecológico esse domingo:

https://www.youtube.com/channel/UC8q65PXvwIoURL272bymW-A

O objetivo principal do curso é harmonizar as vocações das pessoas, a maneira como querem viver e se expressar com as aptidões do agro-ecossistema onde vivem. É criar resiliência ecológica e hídrica para os sistemas de produção que, por sua vez, trarão a viabilidade econômica. Compartilhamos aqui também o link para o formulário de inscrição:

https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSdtcBRbKos-OFyCJvuNQrm_iPM4VwWrnafnAHXVInma0o_viQ/viewform

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Mudança boa se faz em boa companhia!

O que aconteceria com a agricultura se nossa gestão fosse holística? Um estudo de caso em políticas públicas com parlamentares no Zimbábue.

Em 2013 no Zimbabwe 35 parlamentares fizeram uma oficina para o desenvolvimento de políticas públicas usando o Gerenciamento Holístico, abordagem de gestão de recursos, propriedades e pecuária, criada pelo ecologista Allan Savory.

Nota: Tradução livre e adaptação por Eurico Vianna, PhD. à partir de trechos retirados do livro texto do Gerenciamento Holístico pelo autor.

Referência: Savory, A. e Butterfield, J. (2000). Holistic Management: A New Framework for Decision Making. Island Press. EUA.

Historicamente nós desenvolvemos uma forma de tomar decisões e desenvolver políticas públicas que são sempre baseadas em uma necessidade, desejo ou problema,  o que constitui uma gestão reducionista e reativa. O paradigma de gestão holística, por outro lado, acolhe no mesmo patamar de importância e de forma indissociável as dimensões, sociais, ambientais e econômicas do nosso viver, implicando em uma gestão integral e proativa.

No entanto, “não é possível ‘usar’ o Gerenciamento Holístico para resolver um problema, você precisa abordar o problema dentro de um Contexto Holístico” (Sarah Savory).

A intenção da oficina de Gerenciamento Holístico com o Allan Savory e os 35 parlamentares era explorar possibilidades para a agricultura nacional que havia sido desmantelada por governos anteriores. Outro objetivo era mostrar como um Contexto Holístico pode unir partidos e ideologias supostamente antagônicas em prol de ações e políticas públicas que tenham interesse genuíno em gerir e restaurar as dimensões sociais, ambientais e ecológicas de um país.

O Contexto Holístico nacional que foi usado para o propósito da oficina foi o seguinte:

Nós queremos famílias estáveis, vivendo suas vidas em paz, prosperidade e segurança física enquanto ao mesmo tempo livres para praticar suas crenças religiosas. Queremos alimentos nutritivos e água limpa. Queremos acesso a boa educação e saúde, vivendo vidas equilibradas com tempo para família, amigos, comunidade e lazer para atividades culturais e afins.

Tudo isso assegurado, para muitas gerações futuras, em uma base de solos e comunidades biodiversas se regenerando nas terras, rios, lagos e oceanos da Terra, materializada por nossa atitude positiva: sendo abertos, tolerantes, sem julgamentos, honestos e respeitosos com todos, garantindo apoio e respeito mútuo na “equipe humanidade” enquanto vivemos em harmonia uns com os outros e com o meio ambiente.

Com esse contexto em mente os parlamentares chegaram à primeira pergunta óbvia:

  • Qual o papel do governo nesse caso?

A resposta era óbvia: o papel do governo era elaborar políticas públicas que pudessem ajudar a revitalizar a agricultura e redistribuir terras de forma igualitária.

E como isso poderia ser feito? Depois de muita discussão o grupo resumiu tudo em dois princípios amplos:

  1. Usar as políticas públicas para recompensar os produtores por sua criatividade e produtividade.
  2. Usar as políticas públicas para encorajar formas de produção que estivessem alinhadas com o Contexto Holístico e desencorajar práticas que não estivessem.

Imagem traduzida e adaptada de Sarah Savory

A tarefa dos parlamentares agora era, sem detalhar muito, elaborar possíveis ações que pudessem criar políticas viáveis baseadas na maximização da criatividade e produtividade. Elas deveriam também recompensar ou penalizar o comportamento dos produtores com base no alinhamento (ou a falta dele) com o Contexto Holístico nacional.

Depois de algumas horas o grupo tinha uma lista sólida de possíveis ações que se alinhavam com o Contexto Holístico e que provavelmente levariam a um aumento significativo da produção agrícola enquanto simultaneamente abordassem o problema do acesso desigual à terra. Essas ações incluíam o seguinte:

  • Isenção completa de imposto de renda para produção agrícola de produtores legítimos.
  • Todos os produtores genuínos pagariam impostos sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR) de acordo com o tamanho da propriedade e a região agroecológica (e.g. índice pluviométrico e tipos de solo).
  • O ITR seria reduzido anualmente baseado no número de famílias vivendo e trabalhando na propriedade, não somente para trazer famílias de volta para o campo, mas para encorajar o uso do trabalho manual sobre o do maquinário (isso porque o Zimbábue não produz nem maquinário nem petróleo).
  • Os impostos de renda das pessoas vivendo e trabalhando nas fazendas seriam arrecadados pelos produtores e enviados ao governo como evidência do número de pessoas trabalhando na fazenda.
  • O ITR seria reduzido de acordo com o número de produtos produzidos e comercializados na propriedade.
  • O ITR seria reduzido de acordo com a pureza da água que escoa da fazenda nas divisas mais baixas.

À partir daí todos os parlamentares argumentaram sobre a probabilidade dessas políticas públicas serem bem sucedidas e todos concordaram que elas trariam como resultado:

  • um aumento gigantesco na produção e diversidade de alimentos,
  • que as propriedades ociosas seriam colocadas à venda,
  • que milhares de pessoas voltariam para as áreas rurais,
  • que o solo sería regenerado,
  • o alimento produzido nutritivo e sem veneno, e
  • que a arrecadação de imposto pelo governo aumentaria dramaticamente a um custo reduzido.

Nota do tradutor: As lições mais resumidas aqui, então, são:

  • que a elaboração de um Contexto Holístico garante que não vamos tomar decisões reducionistas baseadas apenas em suprir necessidades ou locupletar desejos imediatistas ou resolver um problema desconsiderando a qualidade de vida e a base de recursos que sustenta toda a vida no planeta.
  • que não é possível ‘usar’ o Gerenciamento Holístico para resolver um problema, e sim abordar o problema dentro de um Contexto Holístico (Sarah Savory) que cria outra realidade mais integral e restauradora das dimensões sociais, ambientais e ecológicas,
  • o uso de um Contexto Holístico para tomada de decisão permite com que honremos a dignidade e qualidade de vida de quem vive ou se propõe a viver no campo, assim como harmoniza as vocações humanas mais profundas com as aptidões do terreno ocupado.