Quem deve diminuir o consumo e de que tipo de carne?

O número de pessoas que argumenta em prol de uma dieta à base de plantas ou mesmo do veganismo como direção única para o movimento ambiental tem crescido muito nos últimos anos. O argumento geral é que “precisamos comer menos carne para evitar a degradação ambiental”. Mas quem precisa diminuir o consumo de carne? De que tipo de carne estamos falando? Quem tem o direito de decidir ou influenciar a dieta de uma pluralidade enorme de pessoas vivendo em ecossistemas tão diversos?

A tendência ao veganismo ou a dieta à base de plantas nasceu nos grandes centros urbanos entre grupos privilegiados da população e tem encontrado campo fértil entre as pessoas que buscam um viver ‘sustentável’ e apoiam o desenvolvimento de políticas públicas para ‘reformar’ os sistemas de produção alimentar. Entretanto, essa abordagem é tão simplista e generalista que caracteriza uma miopia analítica, um desserviço para a ecologia, para a nutrição e para o ativismo ambiental. 

O problema é que não é possível reformar o sistema industrial de produção alimentar, assim como não é possível reformar o capitalismo. O sistema alimentar industrial faz exatamente o que foi projetado para fazer; ele concentra renda, poder e território nas mãos das corporações – empresas de capital aberto criadas pelo capitalismo para maximizar o lucro de um dia para o outro a qualquer preço. Não é o que se come que degrada as dimensões social e ecológica, o que caracteriza o problema é o como, onde, porquê e por quem é produzido, também o como, para quem, para onde e por quem é escoado. 

O que precisamos é de um novo modelo de gestão econômica que entenda e se comporte de acordo com a realidade física e biológica do planeta – a de que atividade econômica, de fato, está contida na biocapacidade dos lugares onde se realiza. E em termos de sistemas alimentares, o que precisamos é desenvolver sistemas descentralizados, distribuídos, capazes de lidar com as complexidades climáticas, geográficas, hídricas, biológicas, socioeconômicas e culturais dos lugares onde vivemos e produzimos nosso alimento.

E nós temos tanto um modelo de gestão como um sistema alimentar capazes de lidar com essas complexidades. 

A Economia Ecológica (EE) é um campo de estudo transdisciplinar que reconhece a interdependência da atividade econômica e dos ecossistemas naturais ao longo do espaço e do tempo. A EE se distingue da economia ambiental que se baseia na teoria da economia clássica, incorpora a atividade econômica na natureza e reconhece que os limites do crescimento material estão diretamente relacionados com a biocapacidade dos ecossistemas onde esta atividade se viabiliza.

O conceito de Soberania Alimentar foi definido pela Via Campesina, uma organização de pequenas e médias agricultoras familiares, indígenas e trabalhadoras rurais que visa a transição de uma agricultura industrial baseada em insumos químicos que degrada as dimensões social, ambiental e econômica para uma baseada nos princípios ecológicos. A soberania alimentar é um conceito inclusivo, sensível e plural que constrói o direito de todos os povos a alimentos nutritivos, limpos e culturalmente apropriados, assim como do acesso aos meios de produção para manter sua dieta. A soberania alimentar também implica o direito a decidir como comercializar se for o caso e se essa comercialização deve atender primeiramente a biorregião, o país ou uma agenda de exportação.

Os grandes centros urbanos são ecossistemas artificiais, mantidos pelos combustíveis fósseis e, portanto, são altamente poluentes, como José Lutzenberger já alertava na década de 80. A busca por uma vida sustentável nesses centros, como hoje alerta Ailton Krenak, é uma busca egoísta. Visa mais negociar e aplacar culpas ambientais que resolver problemas sistêmicos. Não faz o menor sentido criarmos uma direção, uma tendência vegana ou à base de plantas para todos, nivelando assim o viver e as necessidades das famílias campesinas, da agricultura familiar agroecológica, dos povos tradicionais, de ribeirinhos e indígenas com o viver altamente poluente dos urbanóides.

Essa tendência não faz sentido nutricional porque toda a produção industrial desperdiça em torno de 30% do que produz e entrega os outros 70% envenenados para a população que pode pagar. Durante a pandemia tivemos quase 20 milhões de pessoas passando fome e quase a metade das famílias brasileiras com alguma dificuldade para se alimentar. Todo alimento produzido pelo modelo industrial degrada as dimensões social e ecológica e isso inclui a produção de grãos, frutas e verduras, então, por quê criar uma tendência que limita só o consumo da carne ao invés de lutar pela soberania alimentar? Por quê criar uma tendência que diminui o consumo de carne se esse é o alimento com maior densidade nutricional? 

A CIÊNCIA produzida no campo da agroecologia já comprovou que as pequenas propriedades com sistemas integrados de produção são enormemente mais produtivas que a larga escala. São fazendas com menos de 2 hectares que produzem mais de 70% da comida do mundo. Isso usando menos terras aráveis, menos insumos químicos e menos água, mas para isso precisam integrar animais. Essa integração permite que uma produtora rural familiar use 20 vezes menos combustíveis fósseis que a produção industrial, enquanto produz grãos, tubérculos, frutas, castanhas… ao mesmo tempo que fornece proteína animal suficiente para alimentar 34 pessoas por ano por hectare (Altieri, 2015; ver também Pablo Tittonell, Stephen Gliessman e Ana Primavesi). Ignorar esses dados e a força que a pequena escala ligada em rede tem para rearranjar a produção e distribuição bioregional em um contexto de escassez energética é criminoso. 

Essa tendência não faz sentido ecológico por várias razões. 

Primeiro, quando grande parte da população mundial ainda vive em déficit nutricional, o foco deve ser em produzir mais carne agroecológica e não em combater o consumo da carne industrial. Se a carne consumida fez parte de um sistema que regenera o ecossistema onde foi produzida, traz mais viabilidade para as famílias que produzem e para economia local, quanto mais gente se alimentando dela melhor. E nós já temos abordagens capazes de produzir carne assim. 

Segundo, nossos sistemas de produção devem ser biorregionais de modo a lidar com as especificidades climáticas e ecológicas. Aproximadamente dois terços do planeta é composto por regiões de clima semiárido e nessas regiões a agricultura familiar não se viabiliza sem animais. 

Terceiro, não precisamos de mais área para produzir carne, podemos usar a produção animal com um planejamento holístico de pastagens – que considera a ecologia, a economia e a qualidade de vida – para ciclar toda a matéria orgânica e regenerar as áreas já degradadas. Esses sistemas imitam os movimentos migratórios e conseguem aumentar muito o número de animais por área com a vantagem de diminuir enormemente o risco de queimadas.

Na questão do ativismo essa tendência de promover veganismo ou dietas à base de plantas ao invés da soberania alimentar, também não faz sentido. A soberania alimentar dá conta das complexidades, é plural, inclusiva e foi elaborada por uma diversidade enorme de pessoas que vivem a realidade rural nos vários biomas do planeta. A soberania alimentar garante o direito inalienável ao veganismo em suas várias vertentes de movimento, assim como uma dieta à base de planta ou qualquer outro tipo. Já a tendência de transformar o veganismo ou mesmo a redução do consumo da carne em uma direção para o movimento ambiental exclui indígenas, ribeirinhos, caatingueiros, quilombolas e as pessoas da agricultura familiar agroecológica que passam a se sentir atrasadas em relação a uma agenda criada nos centros urbanos por pessoas com um impacto ambiental imensamente mais danoso que o delas.

Um ativismo saudável e inclusivo focado em soluções deve apoiar a soberania alimentar, o êxodo urbano por uma reforma agrária bem planejada e concentrar sua energia em ensinar as pessoas a comprar TODOS os seus alimentos de quem produz agro-etno-ecologicamente em sua biorregião. Esse foco pode mitigar até 30% dos gases de efeito estufa que causam as mudanças climáticas no modelo INDUSTRIAL de sociedade enquanto promove a viabilidade econômica das pequenas produtoras e a qualidade de vida de quem vive no campo.

O que precisamos é de pensamento sistêmico, crítico e ecológico, de coragem, protagonismo coletivo e muita articulação em rede para descentralizarmos a tomada de decisão, a governança e o desenvolvimento de políticas públicas. Só em um viver biorregional onde a viabilidade econômica surge da pluralidade de ideias, da equanimidade entre as pessoas e da regeneração da saúde do solo, das pessoas e dos coletivos teremos um sistema alimentar digno, limpo e nutritivo para todas as pessoas.

A carne e a mente: como nossa saúde neurológica e mental pode estar ligada a ingestão de carnes saudáveis

Com dados estatísticos estarrecedores sobre a epidemia global de doenças mentais a psiquiatra Georgia Ede apresenta a palestra “Nossa queda para a loucura: dietas modernas e a crise global de saúde mental”. Na palestra a Dra. Georgia argumenta que tanto a dieta padrão americana como a vegetariana/vegana podem não ser as melhores dietas para a saúde neurológica e mental.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde* (OMS), a depressão é a causa número 1 de incapacitação de pessoas para a força de trabalho. São 322 milhões de pessoas no mundo incapacitadas de trabalhar e ter uma vida social normal por estarem deprimidas. Um aumento de 18.4% de 2005 para 2015. Segundo o mesmo relatório da OMS, aproximadamente 800 mil jovens entre 15 e 29 anos de idade se suicidam por ano por causa da depressão, tornando o suicídio a segunda maior causa de morte entre os jovens no mundo. No mesmo período, de 2005 a 2015 houve um aumento de 15% em doenças relacionadas com a ansiedade como a Distúrbio Bipolar e a Esquizofrenia afetando 254 milhões de pessoas. A demência já é a sétima causa de mortes no mundo afetando 50 milhões de pessoas por ano. Estima-se que à partir de 2050 teremos10 milhões de casos novos por ano.

Embora a deficiência química de neuro-transmissores, o estresse e traumas sejam mencionados frequentemente como as principais causas das doenças mentais, a Dra. Georgia argumenta que ao menos parte das causas dessa epidemia crescente de doenças mentais está relacionada com a mudança da dieta da população mundial nos últimos 75 anos. Fazendo uma comparação nas estatísticas sobre doenças mentais, mais especificamente a esquizofrenia, a Dra. Georgia mostra que nas sociedades tradicionais os índices de doenças mentais é imensamente menor que na sociedade ocidental. Ela reconhece que há outros fatores envolvidos, mas mais uma vez argumenta que a dieta é um dos mais importantes. Segundo a Dra. Georgia existem dois padrões de dieta em crescimento constante no mundo: um cresce porque acreditamos que seja saudável e outro cresce embora saibamos que não é saudável.

A que sabemos não ser saudável é a Standard American Diet, em inglês, ou dieta padrão americana, em português. No inglês essa dieta é comumente tratada pela sigla de duplo sentido S.A.D, que também significa triste. Hoje, no entanto a SAD, que é baseada em carboidratos e óleos processados e refinados, tem se espalhado por todo o mundo. A dieta que cresce porque acreditamos que seja saudável é baseada em vegetais (vegetariana/vegana)

Estudos epidemiológicos apontam uma correlação entre a SAD e doenças mentais como a Depressão, Distúrbio da Hiperatividade do Déficit de Atenção, Distúrbio Bipolar e Esquizofrenia*. No entanto a correlação não explica a causalidade. Dois estudos recentes feitos na Austrália concluíram que a adoção da Dieta Mediterrânea contribui para o melhoramento dos sintomas da depressão. Segundo a Dra. Georgia isso não quer dizer que a dieta Mediterrânea, que é baseada em no consumo de saladas e legumes, carne de peixe, azeite de oliva, castanhas e quantidades moderadas de laticínios é a melhor dieta para o cérebro. Só quer dizer que ela é melhor que a SAD, mas segundo psiquiatra, qual dieta não é melhor que a SAD.

A SAD se caracteriza por altas concentrações de carboidratos (açúcares) e óleos (gorduras) refinadas e já existem muitas pesquisas ligando esses alimentos processados a vários processos de inflamação e oxidação, que por sua vez são ligados a várias doenças físicas e mentais. Entre outras coisas o açúcar refinado promove inflamações e oxidação inundando as vias metabólicas e as deixando assoberbadas e incapazes de produzir hormônios antioxidantes. Os óleos e gorduras processadas promovem os processos inflamatórios porque inundam o sistema com ácidos graxos ômega 6, particularmente o LA – Ácido Línoleico Cathamus, e inibindo os ácidos graxos ômega 3, particularmente o EPA – Ácido Eicosapentaenóico. A outra maneira em que os alimentos ricos em açúcares e óleos processados influenciam negativamente o metabolismo humano é criando uma montanha russa de descargas hormonais que sobrecarregam o corpo como um todo, causam ansiedade, baixam a capacidade de concentração e aumentam a irritabilidade cada que esses alimentos são ingeridos.

A doutora explica em maiores detalhes as consequências da SAD, uma dieta rica em açúcares e gorduras refinados na saúde durante a palestra. Mas basicamente essa montanha russa de hormônios faz com o corpo crie uma resistência a insulina, ou seja, causa diabetes tipo II. A diabetes tipo II, por sua vez e embora não saibamos a causalidade, está associada com a Depressão, Esquizofrenia, Distúrbio Bipolar e Alzheimer. No caso do Alzheimer mais pesquisas tem sido feitas revelando que a resistência a insulina pode sim ter uma relação de causalidade com essa doença. Outra complicação trazida pela SAD é que quando o metabolismo se torna resistente a insulina, isso afeta diretamente o funcionamento do cérebro. Isso se dá porque o cérebro continua recebendo o açúcar em forma de glucose, mas não recebe a insulina que quebra o açúcar gerando energia e regulando o índice glicêmico nesse processo. Por outro lado estudos sobre os efeitos das dietas cetogênicas em doenças neurológicas é bem positivo, o que indica que o mesmo pode ser verdade com as doenças mentais, segundo a Dra. Georgia. No entanto, ela argumenta que da mesma forma que a SAD pode causar inflamação, oxidação, resistência à insulina, desregulação hormonal e deficiência de micro-nutrientes, ela também está ligada com problemas da saúde mental.

E quando o assunto é saúde neurológica e mental, o aumento de popularidade das dietas vegetarianas/veganas, preocupa a Dra. Georgia tanto quanto o aumento da SAD. A doutora compartilha os dados da crescente popularidade das dietas vegetarianas veganas. Em torno de 44% dos alemães, por exemplo, declaram ter uma dieta com baixa ingestão de carnes, um número que subiu 50% nos últimos 10 anos. Os veganos já são 6% da população Estadunidense, o que caracteriza um aumento de 500% nos últimos 3 anos. E, no mundo todo, são 1.5 bilhões de vegetarianos/veganos. Mas a Dra. Georgia explica que o vegetarianismo/veganismo costuma ser uma tendência maior nos países ou meios sociais mais afluentes e com mais educação formal.

Entretanto, existe um aspecto dessa estatística que comumente é deixado de lado e esse aspecto é o da agência. Isso porque 95% dessas pessoas não são vegetarianas/veganas por opção, mas por falta de acesso à carne saudável e nutritiva.

De toda forma, a pergunta que fica e é feita pela Dra. Georgia é: “mas como pode as dietas vegetarianas/veganas terem um impacto negativo na saúdo do cérebro enquanto existem tantas pesquisas dizendo que elas tem um impacto verdadeiramente positivo em doenças como a obesidade, a diabetes e cardíacas?”.

Isso acontece, segundo ela, porque esses estudos também alteraram outras variáveis que influenciam os resultados e que quase nunca são levadas em consideração. Uma das variáveis mais importantes é a dieta em si, uma vez que esses estudos comparam as dietas vegetarianas/veganas com a SAD, dieta rica em açúcares e gorduras refinadas. Outra variável raramente mencionada é que eles não retiraram só as carnes desses estudos. Eles retiraram praticamente toda a gordura e, principalmente, os açúcares refinados. Assim como manipularam outras variáveis relacionadas com o estilo de vida como retirar fontes de estresse, adotar rotinas de exercícios diários, etc. E desse contexto surge outra pergunta: “como podemos de fato saber quais dessas variáveis são as responsáveis pelos benefícios encontrados nas pesquisas?”. Ainda segundo a Doutora, esses resultados podem não ter nenhuma associação com a abundância de vegetais ou falta de carne e estarem diretamente relacionados com a ingestão, ou não, de açúcares e gorduras refinados. O que ela pensa ser mais provável.

Além de tudo isso a Dra. Georgia revela que 2/3 do cérebro é basicamente composto por gorduras. Dessas gorduras 20% são moléculas de DHA – um ácido graxo ômega 3 chamado docosa-hexaenoico. E muito embora o peso do cérebro represente só 2% do peso do corpo, o cérebro retém até 20% das moléculas de colesterol presentes no corpo. As moléculas de DHA estão presentes em várias funções vitais do corpo humano como, por exemplo, a barreira hematoencefalica e está especialmente presente no desenvolvimento cortical do lobo frontal. Na retina essas moléculas transforma luz em eletricidade, e nas mitocôndrias e células cardíacas elas agem como semicondutores. Essa molécula é tão importante que vários cientistas levantam a hipótese de que sem ela não seria possível desenvolvermos a consciência, o pensamento simbólico ou mesmo a inteligência.

O problema, segundo a doutora, é que as plantas não contém DHA e uma dieta vegetariana/vegana estaria negando ao corpo essa molécula tão importante para seu funcionamento. Outro argumento pró onivorismo é o da absorção dos macro-nutrientes. Todos os nutrientes necessários para o metabolismo do corpo humano podem ser encontrados na carne, leite e ovos. Além disso, quando encontrados por meio de fontes animais eles muito mais bio-disponíveis. Para complicar ainda mais o argumento as plantas tem algumas moléculas que os alimentos de fonte animal não tem: os anti-nutrientes. Os anti-nutrientes são químicos naturais que interferem na nossa habilidade de absorver nutrientes tanto das plantas como das fontes animais.

Alimentos baseados na soja, por exemplo, dificultam a absorção de iodo, que é fundamental para o funcionamento das tiroides. E os feijões, as folhas de salada verde e as castanhas que são as principais fontes de proteínas nas dietas vegetarianas/veganas, são ricos em ácido fítico. O ácido fítico por sua vez dificulta a abosção de zinco, ferro, cálcio e magnésio, nutrientes fundamentais para a saúde do cérebro.

Como exemplo a Dra. Georgia compara a absorção do zinco ingerido em uma porção de ostras em relação à presença ou não de alimentos vegetais. Se ingeridas com feijões pretos a capacidade de absorver o zinco cai 50%. Se ingeridas com tortilhas a capacidade cai para quase 100%. Ao passo que quando a porção de ostras é ingerida sem alimentos vegetais nosso corpo é capaz de absorver até 120 gramas de zinco. Vegetarianos e veganos também tendem a ter muito mais problemas de anemia, o que além de after as funções sanguíneas, também afeta as funções cerebrais.

A palestra apresenta outras comparações e explica a importância de cada substância ou elemento na função do metabolismo cerebral, mas o ponto é que a Dra. Georgia defende, com bastante embasamento científico, que a ingestão de proteína animal (não precisa ser carne vermelha) é essencial para a saúde neurológica e, consequentemente, mental.

Outro fator importante que fica da palestra é que para podermos entender e argumentar sobre os prós e contras dessas dietas, nós precisamos comparar dietas vegetarianas/veganas com dietas onívoras de forma que todas as fontes de alimento nas dietas comparadas sejam todos nutritivos e saudáveis. E não as dietas vegetarianas/veganas com a SAD, que por definição já não é uma dieta saudável. Por fim, a Dra. Georgia aponta que as consequências negativas das dietas vegetarianas/veganas atinge mais gravemente as mulheres.

A linha de raciocínio, hipóteses e conclusões apresentadas na palestra da Dra. Georgia reverberam com alguns de meus próprios argumentos em artigos e podcasts. E muito embora os vieses de ecologia, pensamento sistêmico e produção regenerativa sejam mais o meu foco, eu também sempre questionei a falta de contextualização das pesquisas que embasam os debates acerca das dietas. A Dra. Georgia, com razão, chamou atenção para o fato de que pouca ou nenhuma pesquisa até hoje foi feita comparando as dietas veganas/vegetarianas com dietas onívoras saudáveis e nutritivas. O que indica que o debate sobre qual dieta é mais saudável está mal começando.

* Todos os dados apresentados pela Dra. Georgia e mencionados aqui no artigo podem ser averiguados por meio das referencias providas nos slides da palestra.

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E se todo mundo parasse de comer carne?

“Você alguma vez já imaginou o que aconteceria se todo mundo adotasse uma dieta vegana e parássemos de criar animais para produção de carne?” Robyn Francis, uma das pioneiras do movimento mundial da Permacultura e diretora fundadora do primeiro colégio técnico de Permacultura na Austrália, recentemente escreveu um artigo refletindo sobre essa pergunta. Segue um resumo da tradução acompanhado de alguns de meus pensamentos e reflexões sobre o tema.

O debate acerca da ‘dieta ideal’ tem se acirrado nos últimos tempos na medida em que as pessoas se conscientizam dos problemas ambientais. E muito embora esse movimento de conscientização seja importante, frequentemente as discussões tem sido baseadas em argumentos sem a contextualização devida ou em meias verdades. Recentemente eu discuti o assunto em um artigo chamado O Vegetarianismo/Veganismo e a Agricultura Regenerativa. Vale à pena repetir dois de meus argumentos compartilhados no artigo anterior. Primeiramente o que causa o impacto ambiental não é a dieta onívora ou vegetariana/vegana, é a maneira como o alimento é produzido. Segundo, nosso foco e energia deve ser contra carne e grãos produzidos pelo agronegócio e não em combatermos uns aos outros criando ainda mais divisão em nossa sociedade. Encontrei muitas das minhas opiniões e preocupações no artigo da Robyn Francis e compartilho com ela o respeito pela opção de todos escolherem sua dieta livres de julgamento. Mas o artigo dela traz várias outras perguntas e reflexões importantes que comumente são deixadas de fora do debate e que se o argumento é ambiental, valem à pena serem discutidos. Segue abaixo a tradução de alguns trechos acompanhados de comentários.

Um artigo do jornal Inglês Independent, traz o seguinte argumento:

Se todos os animais fossem removidos do planeta, a quantidade de comida disponível para os humanos aumentaria 23%. Isso se dá porque os grãos que atualmente são produzidos para alimentar os animais poderiam ser consumidos pelos humanos. (ênfase do tradutor/autor)

Robyn, que acha esse tipo de raciocínio perturbador, incrivelmente egoísta e antropocêntrico, pergunta como os animais seriam “simplesmente removidos?

O argumento vegetariano/vegano, segundo a Robyn, é movido pela perspectiva emocional de salvar bilhões de vidas animais de um fim nos abatedouros para consumo humano. Os mais radicais, Robyn complementa, propõem o fim da ‘exploração animal’ em sistemas de produção de comida, lã, laticínios, produção de ovos ou mesmo como forma de transporte. Mas as perguntas que seguem no artigo dela são:

O que faríamos com os 23.000.000.000 de animais salvos? Afinal são 996 milhões de cabeça de gado, 1.9 bilhões de ovinos e caprinos, 980 milhões de suínos e mais 19 bilhões de galinhas (artigo original em inglês nesse link). Isso sem contar patos, perus, coelhos, alpacas, búfalos-asiáticos e outros animais criados para o consumo, reflete Robyn Francis.

Esses animais serão soltos? Os machos serão castrados para evitar que proliferem pelo planeta? Qual o custo de uma operação nessa escala? Os animais serão todos levados para santuários? Se os santuários forem a opção escolhida, as pessoas tem noção de qual seria a área de terra necessária para abrigar 23.000.000.000 de animais?

Essas perguntas são elementares para uma pessoa mais conectada com a simbiose entre humanos e animais e com o mundo da produção regenerativa de alimentos como a Robyn. Mais ainda, essas perguntas deixam claro a inviabilidade de opiniões e medidas radicais geralmente vindas de pessoas das classes mais abastadas e que vivem nos grandes centros urbanos com pouquíssimo contato com a produção alimentar. Outro alerta que Robyn faz é que assim como várias espécies de animais e plantas que evoluíra juntos para compor os ecossistemas do planeta,  humanos e animais criados para o abate se desenvolveram em simbiose nos últimos 10.000 anos. Várias das espécies foram desenvolvidas e, de uma forma ou de outra, fazem parte integral da vida no campo como alimento, transporte ou força de trabalho decorrem dessa relação simbiótica. Temos o direito de tomar decisões que levariam essas espécies a extinção?

Existem ainda outras implicações que Robyn compartilha como parte de suas reflexões. Produtos animais, que em grande parte são subprodutos do processamento deles como alimento, são peças chaves na produção de plásticos, cosméticos, camisinhas, cola de madeira, ácido esteárico (usado em fogos de artifícios e pneus), pasta de dente, tintas, canetas, shampoo e condicionadores, amaciante de roupas, borracha, químicos anti-congelantes (usados em países frios e em aditivo de radiadores), papel celofane, cimento, agentes químicos impermeabilizantes, discos de vinil, fósforos, argamassa (usada em construção), vidro, remédios, hormônios, enzimas e vitaminas, insulina, suturas cirúrgicas, colas de compensado, tecidos, tinturas, esmeris, papeis de parede, velas, materiais de escritório, chicletes, açúcar refinado, vidros, cerâmicas, cordas musicais, aromatizantes, gelatinas e o mais importante: o adubo natural fornecido para produção de frutas, verduras e legumes.

Robyn reconhece que alguns substitutos já existem, como couro e tecidos sintéticos feitos quase que exclusivamente de derivados de petróleo – que são ótimos para indústria dos combustíveis fósseis. Infelizmente, Robyn alerta, a maior parte das alternativas para produzir os produtos descritos acima gastariam energia demais, seriam em grande parte baseados em derivados de petróleo e altamente poluentes. Por fim, ela alerta, alguns desses produtos não podem ser substituídos nem por derivados de petróleo nem por componentes orgânicos como o cânhamo, a soja, o milho, o óleo de palmeiras e outros produtos com base vegetal. Além disso, os animais criados para abate na agricultura regenerativa fornecem outros serviços ecológicos como controle de biomassa, fertilização, dispersão de sementes, manejo de pastagens e paisagens, manutenção da relação simbiótica entre plantas e animais. Isso sem falar de outras funções que esses animais tem no transporte, na força de trabalho, geração de energia e até mesmo como companhia para os seres humanos.

Outra lógica do vegetarianismo/veganismo que Robyn compartilha é a de que a soja e o milho produzidos para alimentar animais são os maiores responsáveis pelo desmatamento. Dentro desse raciocínio se parássemos de comer esses animais, esses grãos poderiam alimentar os seres humanos. O problema é que 90% da soja produzida é direcionada para a produção de óleo, de bio-combustíveis ou de produtos industriais (como tinta para indústria automobilística). Diga-se de passagem, quase toda soja é transgênica e produzida usando métodos que poluem e degradam o meio ambiente. Ou seja, o impacto ambiental regenerativo seria de apenas 10%. Grande parte do subproduto da soja vai para animais e para produtos alimentícios processados (que por sua vez tem causado um aumento enorme de casos de alergia por conta da maneira que é produzida).

Outro argumento compartilhado por Robyn e por mim em meu último artigo é que uma dieta baseada em grãos (quase sempre do agronegócio) também tem um impacto ambiental enorme. A produção de grãos está diretamente ligada a indústria do petróleo desde o maquinário até os insumos usados na produção. A agricultura convencional de grãos também é responsável pelos maiores índices de erosão da agricultura. Segundo relatórios da FAO a agronegócio perde 20 toneladas de solo superior para produzir 500 kilos de alimento por pessoa a cada ano. Além disso, Robyn compartilha, a produção convencional de grãos também é responsável pela morte de bilhões de animais de pequeno porte como pássaros, lagartos, anfíbios, cobras e pequenos marsupiais. Isso sem abordarmos a vida no solo que também se extingue na monocultura industrial causando ainda outros impactos como a interrupção dos ciclos hidrológicos e a diminuição drástica de nutrientes essenciais na formação dos alimentos produzidos dentro desses sistemas.

E se o problema for o metano gerado na produção de animais para o abate, pergunta Robyn?

Se o problema for metano, Robyn reflete, por quê não se comenta que a produção de arroz em áreas alagadiças produz praticamente a mesma quantidade de metano que os criados para o abate em sistemas industrializados? Isso sem falar que esse método de produção de arroz também é uma das principais causas de desmatamento em países asiáticos. Quando a poluição é causada na produção de grãos ela não conta na lógica desse debate? Robyn faz essa pergunta e exige a devida coerência. Por quê, ela pergunta, não vemos manchetes e memes na internet pedindo que todos parem de comer arroz.

Vastas porções de terra que não servem para produção de hortaliças ficariam abandonadas e inutilizadas se os animais fossem removidos do sistema de produção alimentar. Os dois terços áridos e semiáridos do mundo não servem para produção de grãos ou hortaliças e para as pessoas que vivem nessas áreas a dieta onívora é uma questão de segurança alimentar. Se a questão é ambiental, mais uma vez o problema é de onde vem nosso alimento e não o quê comemos Robyn deixa claro.

Por séculos a ingestão de carne complementou uma dieta com tubérculos, legumes e hortaliças e as receitas aproveitavam o animal sacrificado do pé à cabeça nos alimentar. Só nos últimos 70 anos, entretanto, a indústria do petróleo passou a permitir e subsidiar o consumismo alimentar gerando um impacto ambiental e desperdícios enormes no sistema de produção industrializado. Outra questão levantada por Robyn é que 40% dos alimentos produzidos hoje são desperdiçados. Ou seja, mesmo se não considerarmos o tipo de dieta e a maneira com que esse alimento é produzido, combater os 40% de desperdício já economizaria quase o dobro dos alimentos que o mundo inteiro economizaria adotando uma dieta vegana.

Mais uma vez eu pergunto: o problema (ambiental) é a dieta ou a maneira com a qual nossos alimentos são produzidos? Para os que tem mais contato e conexão com as maneiras regenerativas de produção alimentar e com as classes mais baixas que vivem em áreas rurais a resposta é clara: é possível produzir alimentos para todos enquanto regeneramos o meio ambiente, mas só se pequenos produtores rurais forem responsáveis por uma produção e distribuição local baseada em sistemas diversificados que incluam animais.

Robyn Francis é designer e educadora em Permacultura. Ela desenvolveu a propriedade ‘Djanbung Gardens’, que mais tarde serviu de sede para o primeiro colégio técnico em Permacultura no mundo (http://permaculture.com.au/happen-animals-everyone-went-vegan/).