Nota: O texto abaixo é a apresentação do livro Colapso e Êxodo Urbano: construindo vidas resilientes e autônomas no campo. O livro, já em revisão final e com lançamento previsto para o final do mês de Julho, pode ser adquirido nas versões digital e impressa por esse link.
O sonho de uma vida saudável e próspera no campo com intimidade com a natureza tem funções opostas para pessoas diferentes. Para muitas pessoas este sonho serve de fuga; é uma viagem para uma vida imaginada, um dispositivo que alivia o desconforto das insatisfações e injustiças da vida urbana no momento presente. Para outras pessoas, no entanto, esse sonho é um chamado impossível de ignorar e elas se lançam em movimento para realizá-lo. Ambos os grupos percebem, no entanto, que o viver urbano, as cidades verticais e populosas e a economia vigente estão em colapso e não conseguem mais cumprir as promessas de melhoria de vida, segurança e carreiras lineares.
Esse livro foi escrito para as pessoas que, para além do entendimento de que já vivemos um colapso, tem a vida no campo como um chamado. Foi concebido para que cada passo desse caminho seja uma amostra da construção de uma vida mais autônoma e resiliente, mas também mais auto-responsável e gostosa. Até porque, é comum que as pessoas primeiro comprem uma propriedade rural para depois estudar o planejamento e o desenho ecológico e frequentemente esse é um dos erros mais graves e custosos do êxodo urbano. Nesse sentido, o livro traz abordagens e ferramentas para que o retirante urbano esteja ciente das próprias complexidades e necessidades, tenha noção da importância do planejamento e possa usar seus recursos para encontrar uma propriedade que tenha as aptidões e características que melhor combinam com suas vocações e aspirações.
Se esse livro cumprir sua função, o leitor e a leitora terão se inspirado, expandido sua percepção sobre como é possível e urgente fazer a transição ecológica para um viver autônomo, digno e saudável para as pessoas e para o território.
Embora as histórias que trago para ilustrar a importância do êxodo urbano estejam por todos os capítulos, nos três primeiros elas tem um sotaque mais forte. Por isso, agrupei os capítulos 01. O Campo que meu avô plantou em mim, 02. A Tensão entre a autonomia e as comodidades e 03. As Cinco áreas essenciais do nosso viver, na Parte I do livro. Esses capítulos apresentam histórias que vivi com meu avô enquanto ele desenvolvia uma propriedade depois de ter sido perseguido pela ditadura militar e ter feito sua transição para o campo já com quase cinquenta anos. Alguns conceitos de desenho e alfabetização ecológica também são compartilhados junto com as histórias quando pertinente e alguns exercícios trazendo reflexões sobre autonomia nas cinco áreas essenciais do nosso viver são sugeridos (esses exercícios e recursos de pesquisa podem ser acessados pelos links QR codes disponibilizados).
A segunda parte do livro contém capítulos conceituais que propiciam ao leitor e leitora uma jornada de introspecção. Embora pareçam mais abstratos, esses capítulos são práticos no sentido de que trazem habilidades de reflexão, registro, tomada de decisões e inventários de recursos que melhoram com o uso frequente se tornando ferramentas importantes tanto para o êxodo urbano como para a vida no campo posteriormente. A lista de exercícios e fontes de apoio dessa segunda parte também são ampliadas por meio dos links e QR codes.
O capítulo 04., Mais que um Caderno, um sistema operacional (analógico) para planejar e realizar o êxodo urbano, traz a importância de termos um método de registro e compartilha uma genealogia do uso do caderno de anotações por pensadores e ecologistas ao longo da História. Trago neste capítulo o método Bullet Journal, um sistema operacional analógico, criado por Ryder Carroll (2018), que quando ‘instalado’ em um caderno comum de anotações, consegue amalgamar uma agenda, as listas de tarefas e um diário em um único lugar. Com algumas adaptações, esse caderno se tornou uma ferramenta de gestão central na minha vida e também o meu caderno de campo. Acredito que esse caderno pode ser uma ferramenta estratégica eficaz para desenhar e realizar o êxodo, mas também para planejar e manejar a propriedade posteriormente.
Toda vez que unimos a necessidade de viabilidade econômica com o entendimento do estágio de sucessão ecológica da propriedade (na maioria das vezes degradada), com nosso compromisso ético de melhorar o lugar onde vivemos e nossa busca por uma vida digna, significativa e prazerosa, nós criamos um contexto único e intransferível para cada pessoa, casal ou família que quer viver no campo. O capítulo 05., Gerenciamento Holístico : tomando decisões específicas para o seu contexto, traz um caminho de introspecção perguntando “como queremos viver enquanto nos viabilizamos e realizamos nosso propósito?” e oferecendo ferramentas para que cada leitor e leitora possa se tornar mais consciente do seu próprio contexto e planejar sua relocalização de acordo.
No capítulo 06., Gestão e Planejamento: para qual futuro você está se planejando?, eu compartilho previsões de autores que projetam que daqui para frente teremos que nos viabilizar com cada vez menos acesso à matriz energética fóssil. Essa condição traz muitas consequências econômicas para todas as pessoas, mas especialmente para quem vive ou quer viver no campo. Neste capítulo também compartilho porque pessoas que não nasceram e se criaram no campo têm mais chances de ter sucesso integral com empreendimentos rurais e quais características e habilidades são comuns entre as famílias que alcançaram esse sucesso.
Os capítulos 07, 08 e 09 compõem a terceira parte do livro e são, de certa maneira, mais práticos no sentido de que compartilham estratégias e táticas que podem ser usadas para realizar e dinamizar a transição ecológica do leitor e leitora.
No capítulo 07. Dinheiro, Dívida, Dádiva e Riqueza: o futuro dos empreendimentos rurais com ética ecológica eu contextualizo a relação entre a moeda e a energia, nossa capacidade de realizar trabalho, e compartilho o olhar alternativo de ecologistas sobre os recursos à nossa disposição para viabilizar a transição e vidas capazes de permanecer dignamente no campo. Além disso, apresento alternativas que podem servir como estratégias para viabilizar parcerias e estabelecer culturas e infraestruturas que possam garantir viabilidade e dignidade frente a um possível e provável acirramento do colapso econômico que vivemos.
Uma vez entendida a necessidade de que nosso viver e viabilidade estejam a serviço da saúde de um território porque essa é a melhor maneira de criarmos apólices de seguro para nossa dignidade, saúde, autonomia e capacidade de dissidência, a questão central emerge: “Onde é o melhor lugar para construir uma vida autônoma?”. O capítulo 08. Relocalização: casando nossas vocações com as aptidões do território se debruça sobre essa questão ressaltando que nem todas as pessoas que buscam a transição ecológica se tornarão produtores e produtoras rurais e que não existe um lugar ideal para todos uma vez que cada contexto familiar traz diferentes necessidades em relação a climas, biomas, geografia, cultura, condição financeira, faixa etária e relações sociais (que podem facilitar ou dificultar o processo de transição).
O capítulo 09., Planejamento Rural: nunca é cedo demais para começar, visa economizar muito tempo, energia e recurso da leitora e leitor trazendo uma perspectiva sobre as abordagens de planejamento e produção e usando a Escala de Permanência da Linha Chave para sistematizar dicas e alertas sobre os principais erros na busca e planejamento de uma propriedade rural.
Em todas as três partes do livro, aquelas pessoas mais ávidas e dispostas a ampliar a experiência e aprendizado trazidos com a leitura e exercícios, se beneficiarão muito acessando os links compartilhados para complementar a jornada de planejamento e execução do êxodo urbano. O livro foi concebido com histórias para inspirar e ferramentas para realizar a transição para o campo. Portanto, é importante, para aquelas pessoas que desejam tê-lo como guia, que seja lido na ordem que foi escrito e que os exercícios propostos sejam feitos com introspecção e seriedade.
Na medida em que quem lê também adota os princípios, conceitos, abordagens e práticas compartilhadas como ferramentas para planejar e executar o êxodo urbano, o livro também tornará mais fácil fazer de cada passo do caminho uma amostra da vida sonhada.