O conceito Adaptação Profunda foi cunhado em um artigo publicado pelo professor Jem Bendell como alternativa ao termo mais comumente usado ‘adaptação climática’. A palavra ‘profunda’ indica que medidas fortes são necessárias para nos adaptarmos ao colapso do estilo de vida ocidental industrializado. Desde sua publicação em 2018 mais de 1 milhão cópias foram baixadas pela internet.
O artigo Adaptação Profunda: Um Mapa para Navegar pela Tragédia Climática analisou estudos recentes sobre as mudanças climáticas e suas implicações para nossos ecossistemas, economias e sociedades e propôs que, dada a dificuldade de revertermos as tendências de mudanças climáticas drásticas, o colapso social de curto prazo é o cenário mais provável com graves consequências para a humanidade.
Adaptação Profunda é um termo amplo que pode significar um ethos, uma abordagem analítica, um movimento ou comunidade.
Tanto a abordagem como o movimento presumem que eventos climáticos extremos e outros efeitos das mudanças climáticas irão causar rupturas nos sistemas alimentares, hídricos e de moradia, assim como os de poder e governança. Essas rupturas irão provavelmente ou inevitavelmente causar um colapso social desigual nas próximas datas.
O ethos é compromisso para que trabalhemos juntos fazendo o que será útil durante a grande ruptura ou colapso da sociedade em função do impacto direto e indireto da degradação ambiental e mudanças climáticas.
A abordagem analítica é um enquadramento que ajuda as pessoas a explorar idéias sobre como reagir à degradação ambiental, a perda da biodiversidade e às mudanças climáticas. Essa abordagem traz 4 perguntas, também chamadas de ‘4 Rs’.
A primeira é sobre Resiliência. O que mais valorizamos e queremos manter durante o colapso e como vamos fazer isso?
A segunda é sobre Renúncia. Do que precisamos abrir mão a fim de não piorar ainda mais a situação?
Restauração é o tema da terceira pergunta. O que podemos trazer de volta (de um passado pré-industrial) para nos ajudar nesses tempos difíceis?
E a Reconciliação constitui a quarta pergunta. Com quem e o que podemos fazer as pazes quando acordamos para nossa mortalidade mútua.
Quando acordamos para a extensão do estrago já feito e a magnitude da crise vindo em nossa direção ficamos assoberbados, perturbados e nos faltam ferramentas para conversar sobre o tema. Daí a importância da estratégia ser deliberadamente baseada em perguntas. Assim evitamos nos apressar nas respostas e soluções rápidas que nos tornam menos criativos e curiosos como poderíamos ser.
O Fórum para Adaptação Profunda surgiu para que pudéssemos debater sobre o impacto dessas perguntas em nossas vidas e como reagir.
Do Fórum também surgiu uma comunidade de apoio mútuo que busca amparar os processos emocionais vividos pelos participantes que, por sua vez, buscam antecipar a ruptura e colapso. A comunidade também é de prática e os participantes se apoiam e se capacitam no sentido de melhorar a comunicação sobre o tema e de como redesenhar suas vidas daqui para frente.
À partir da abordagem, do Fórum e da comunidade surgiu um movimento que, em muitas partes do globo, busca garantir a soberania alimentar, o acesso a água e a medicamentos naturais em uma situação de colapso. A agenda do movimento inclui valores como não-violência, compaixão, curiosidade e respeito em uma abordagem para ação construtiva.
Em muitos núcleos da Adaptação Profunda, quando a pandemia rendeu milhares de pessoas sem assistência e ainda mais refugiados políticos e climáticos, a abordagem e a articulação já existente permitiu com que muitas pessoas pudessem ser amparadas de imediato.
Jem Bendell alerta para o fato de que os maiores centros de pesquisa apontam a crescente degradação ambiental como principal possível causa de novas pandemias. Ele alerta também para o fato de que as instituições públicas, privadas e do terceiro setor apontam as mudanças climáticas e a degradação ambiental como principal ameaça para nossos sistemas alimentares. Bendell é mais um acadêmico que ao fazer o estudo profundo dos sistemas de suporte a vida no planeta, perceber e sentir a gravidade da crise que já se estabelece rapidamente, nos urge a praticar o protagonismo coletivo e a cultura da dádiva e a buscar alternativas locais autogeridas para suprirmos nossas necessidades de moradia, alimentação, água, saúde e transporte.
E você, como tem planejado suprir essas áreas essenciais na sua vida em um mundo que colapsa cada vez mais rápido?
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