A inflexão entre a tecnocracia e a fonte da vida: porque seu voto não vai te salvar.

“Nós estamos em um ponto de inflexão: o momento em que o sistema tecnocrático se insere entre a humanidade e a natureza, entre a gente e a própria fonte da vida”. Essa é a leitura do produtor rural e comentarista geopolítico Christian Westbrook (conhecido como Ice Age Farmer).

Mas é imperativo que você entenda que seu voto não será capaz de impedir o avanço dessa tecnocracia nesse momento da História. Isso porque a escolha entre “a fonte da vida”, nesse caso a produção ecológica do alimento, e a tecnocracia está sendo feita pelos tecnocratas e não pelos produtores ou a população que precisa de três refeições por dia.

São esses mesmos tecnocratas que que estão propondo a “agricultura de precisão”, que nada mais é do que a continuação da “revolução verde”. E a ideia central continua a mesma: usar os sistemas alimentares como armas de guerra (mesmo que contra a própria população). Mas o avanço do uso dos sistemas alimentares como mecanismo de controle pelas elites financeiras traz duas novas variáveis gravíssimas para a autonomia das pessoas comuns. 

Nunca antes as elites tiveram tanta condição de controle sobre os dados e ações dos produtores rurais como tem hoje com as IAs e o controle climático (a geoengenharia já amplamente praticada). Essas duas tecnologias permitem um controle total sobre os sistemas alimentares. Desde a “revolução verde” as corporações vem consolidando o controle sobre as sementes por meio da transgenia patenteada, sobre as áreas produtivas por meio dos latifúndios, sobre o acesso ao crédito por meio da compra de parlamentares e sobre a narrativa financiando pesquisas pseudo-científicas e propagandas nas TVs, jornais, redes sociais e indústria cinematográfica. Agora, essas mesmas corporações podem controlar o clima e vigiar (e sabotar) por meio dos drones, telefones, redes sociais e aplicativos o que fazem as famílias que produzem no campo. 

Esse projeto de controle totalitário tem um propósito mais amplo e específico: a implosão controlada da economia para manter a mesma elite financeira no poder após o colapso. Mas o controle completo tem custos energéticos, hídricos e ambientais altíssimos. Os centros de dados precisam de muita água e o modelo de produção primária industrial é completamente dependente da matriz fóssil de energia; ambos “recursos” finitos. A economia vigente, estruturada em cima da moeda fiduciária e do crédito, também depende do acesso barato a essa matriz fóssil e, portanto, está fadada a colapsar na medida em que o petróleo, o gás natural, o carvão mineral e outros recursos ficam cada vez mais caros.

Para que esse controle absoluto tenha sucesso, se faz necessário erradicar a produção familiar ecológica, porque essa gente, como José Lutzembeger uma vez disse à Vandana Shiva, é a última gente verdadeiramente livro no planeta. Para suceder completamente, essa elite financeira também precisa matar em toda a gente a sede por uma vida verdadeiramente autônoma. Isso é feito oferecendo cada vez mais conforto, comodidades e bens de consumo inúteis, sem que saibamos que pagamos o preço com nossas vidas, privacidade e autonomia.

Sabemos que não temos como substituir a matriz fóssil por outra capaz de manter a escala da sociedade industrial atual. Ainda assim, o que vemos nos debates políticos é a farsa da “transição energética”, a covardia dessas pseudo-lideranças em não assumir com honestidade que é impossível manter uma economia de crescimento infinito em um planeta finito de um lado e do outro que é necessário estruturar a sociedade para o cenário pós-industrial. A verdadeira transição a ser feita é de uma sociedade industrial baseada no estoque da matriz energética fóssil para uma sociedade majoritariamente agrária baseada no fluxo solar energético.

À esquerda e à direita, os candidatos à presidência e ao parlamento deixam claro que as ações apropriadas e mais urgentes, como uma reforma agrária ampla e bem planejada e a priorização dos recursos para a construção de uma sociedade pós-industrial capaz de assegurar saúde, autonomia e dignidade para a população, não são pautas centrais. 

A direita apoia o modelo industrial que é completamente dependente da matriz fóssil, é subserviente ao império decadente americano e ataca os setores estatais que poderiam amparar a população durante o colapso. Esse campo usa a liberdade como retórica, mas não quer a população realmente livre. Gente verdadeiramente livre não sonha com emprego, mas com vida digna e autogerida.

A esquerda diz defender a reforma agrária, mas mesmo entre os candidatos comunistas, alega que o mais urgente é industrializar o Brasil para criar ‘bons empregos’ para toda a população. A reforma agrária e a descentralização dos sistemas alimentares exigem muito mais gente sendo bem remunerada para viver bem no campo. Não basta defender a reforma agrária para o MST, é preciso defender a vida no campo para grande parte da população tendo a certeza de que essa é a melhor alternativa para assegurar saúde, autonomia e dignidade em um cenário de declínio energético e um futuro pós-industrial. 

A industrialização do país exige ações na grande escala e perpetua a urbanização vertical e populosa. Esses candidatos parecem não entender que o crescimento econômico e a industrialização demandam, invariavelmente, a destruição de ecossistemas, culturas e viveres locais. O modelo industrial, tecnocrata, centralizador marxista não deu certo da União Soviética, nem na China. O modelo capitalista monopolista também não deu certo em todos os outros países onde se instalou. Onde se instalam, ambos esses modelos econômicos degradam territórios, culturas e esgarçam o tecido social. 

Por que industrializar se sabemos que essa escala não será possível de ser mantida? Por que não pensar a ocupação territorial como segurança nacional? Afinal, se mais da metade do território produtivo está dedicado à uma escala e a um modelo industrial que beneficia mais as corporações estrangeiras do que a população, são essas corporações que de fato controlam a produção agrícola. Por que não adotar um modelo econômico que aceite os limetes biofísicos dos territórios, escolhendo áreas específicas a serem desenvolvidas para assegurar soberania, enquanto abandonamos muitas outras para poder conservar os recursos para as gerações futuras?

Essa é a inutilidade da esquerda, como dizia Bill Mollison se referindo aos “revolucionários que não tem hortas em casa, que dependem do mesmo sistema que atacam, que produzem palavras e balas ao invés de comida e lares”. Depois da revolução ou da eleição, a grande maioria segue dependendo dos mesmos bancos, do mesmo sistema alimentar que degrada a saúde das pessoas e do território, das mesmas formas de comunicação que alienam ao invés de nos unir, das mesmas macro-estruturas destinadas a colapsar com o declínio energético já acelerado.

Só um número muito grande de pessoas vivendo de acordo com a capacidade biofísica de seus territórios, dentro do orçamento do fluxo solar (não do estoque fóssil) e mantendo sistemas alimentares ecológicos e descentralizados tem potencial para assegurar saúde, dignidade e autonomia durante o colapso atual e no mundo pós-industrial que certamente virá depois.  

Não coloque sua energia e atenção na macro-política! Vote se acha que pode ajudar, mas não perca seu tempo ouvindo debates sobre pautas incapazes de assegurar o mais essencial para sua vida. Vote, se contra todas as evidências ainda espera mudança real à partir da representatividade corrompida, mas não permita que o posicionamento na macro-política desarticule suas relações com as pessoas e o território imediatos. É fundamental enxergar que vivemos um colapso e usar todas as suas relações e recursos para estruturar uma vida autônoma e resiliente. Historicamente a população nunca foi bem cuidada e amparada durante colapsos. As elites financeiras e políticas sempre fizeram de tudo para preservar seu poder, mesmo aumentando os riscos de levantes violentos (como também costuma acontecer nesses momentos).

Use sua atenção, tempo, energia, recursos e relações para assegurar autonomia nas áreas mais essenciais da sua vida!

Recupere o mais rápido possível a funcionalidade do seu lar! Ele precisa ser um ativo no sentido da economia informal, da subsistência e da capacidade de articular dissidência. Nenhum nível de dívida na moradia ou de especulação imobiliária é seguro  (Foss, 2012). Sua casa precisa produzir parte do seu alimento e energia, tratar seus efluentes e prover um lugar saudável para convívio multigeracional. Se você não tem condições e já vive em vulnerabilidade nas cidades, é ainda mais urgente que busque alternativas! Confiar que a macro-política que criou essa vulnerabilidade seja capaz de te tirar dela é ingenuidade.

Não basta saber de onde vem sua água, é preciso garantir várias fontes! A captação de água da chuva é essencial, mesmo onde não existe risco de secas (e mais ainda onde existe). Se um número grande de pessoas suprirem seu orçamento hídrico com captação de água da chuva, teremos menos chances de que essas práticas sejam proibidas (isso já vem acontecendo em alguns países). Se possível fure um poço, mas certifique-se que seus vizinhos não possam contaminar as água subterrâneas com uso de químicos e agrotóxicos em propriedades acima da sua no relevo. O mesmo vale para nascentes. 

Normalize produzir pelo menos parte do seu alimento e suprir o restante comprando direto de quem produz (mesmo que clandestinamente)! A relação direta com as produtores permite o uso de moedas alternativas e escambo e é infinitamente mais seguro do que depender de supermercados.

Ao invés de pagar um seguro saúde particular, invista em saúde! Investir em comida nutritiva e sem veneno, em poder fazer exercício físico e tomar sol, vale mais que depender de instituições que lucram com sua doença. Se envolva com o SUS do seu município. Busque uma relação direta com um médico disposto a fazer trocas. Em hipótese alguma abra mão dos direitos a autonomia corporal e ao consentimento informado! Por fim, busque construir estratégias de saúde preventiva e ambulatorial ao invés de garantir com seguro caro o atendimento emergencial. 

Em situações agravadas ou um colapso repentino, é essencial que você possa buscar apoio, alimento e refúgio onde melhor lhe convier. Viva onde sua mobilidade, seu direito de ir e vir, não possa ser arbitrariamente suspenso. A mobilidade das ideias, informação e conhecimento é igualmente essencial. Certifique-se que as pessoas com as quais convive e das quais depende, entendam a importância de assegurarmos a capacidade de dissidência. A cultura do cancelamento degrada as relações e rompe o tecido social local deixando as pessoas vulneráveis ao controle corporativo-estatal. 

Wendell Berry, o cronista agrário americano que defende a pequena escala e a pertença como valores necessários para o nosso tempo, faz uma observação muito pertinente: “Nós reconhecemos que os problemas são grandes, agora, onde está a grande solução?” Quando perguntamos ‘qual a grande solução?’, estamos incorrendo que podemos impor essa solução. Mas, para começar, esse é o problema que vivemos. Nós tentamos impor soluções”. 

E as soluções não virão de cima para baixo ou de um poder central para as margens. Berry explica que é preciso ouvir o território, perguntar ao chão que pisamos o que ele precisa da gente, nos comprometendo a não fazer mais estragos sem que antes consigamos ouvir o que o lugar pede da gente. Será que algum território está pedindo mais cidades verticais, populosas e insalubres? Será que as águas, o solo, as plantas e animais estão pedindo mais indústrias?! Só mesmo na mente de políticos urbanóides que cresceram alienados da natureza e da forma como ela funciona, a solução pode ser mais indústrias.

Para quem já sente e sabe que o caminho não pode ser cada vez mais gente nas cidades, mais industrias (que exigem mais mineração e degradação), mais centralização de poder (à esquerda ou à direita), mais empregos (ao invés de viveres dignos), é fundamental não reagir a toda essa polarização. A situação na qual nos encontramos exige muita paciência, e paciência em uma emergência, Berry explica, “é uma prova terrível!”. Ele recomenda que não nos envolvamos pensando que vamos resolver todos os problemas e, de fato, o declínio energético não é um problema que pode ser resolvido, mas uma situação a ser enfrentada. Nem mesmo no período de nossas vidas conseguiremos adotar todas as soluções e nos adaptar completamente para o que não pode ser resolvido. 

“O importante”, Berry diz, “é aprender tudo que puder onde você está. E se você vai trabalhar lá, se torna ainda mais importante que você aprenda tudo sobre aquele lugar, que você assuma as causas desse lugar para si, então, se renunciando, se tornando paciente o suficiente para trabalhar com ele por um longo tempo. Aí o que você faz é aumentar a possibilidade de se tornar um bom exemplo e o que estamos buscando nessa situação são bons exemplos. … Nós não temos o direito de questionar se temos tempo para mudar as coisas. O que precisamos fazer é perguntar qual a coisa certa a ser feita e seguir fazendo sem pensar no amanhã.”

Nota: As estratégias compartilhadas acima, fazem parte do livro Colapso e Êxodo Urbano: Construindo Vidas Resilientes e Autônomas no Campo, já disponível para pedidos antecipados e com desconto por esse link. O lançamento está previso para o mês de agosto de 2026. Neste outro artigo você pode ler a introdução.

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