Estamos perdendo a capacidade de dialogar uns com os outros e, pior ainda, de entreter ideias diferentes, por vezes contraditórias, em nossas mentes. Ambas habilidades necessárias para conseguirmos protagonizar uma vida capaz de lidar com as adversidades do nosso tempo.
Depois de postar o vídeo Preparando o Futuro Pós-Industrial, com David Holmgren, fazendo a revisão bibliográfica da obra “Cenários Futuros: como comunidades podem se adaptar ao Pico do Petróleo e as mudanças climáticas”, apenas um dos vários do Holmgren que traduzi e usei no livro Colapso e Êxodo Urbano: Construindo Vidas Resilientes e Autônomas no Campo, recebi algumas mensagens e comentários que confirmam a frase que abre esse texto.
Inicio o capítulo “Gestão e Planejamento: para qual futuro você está se preparando?”
com a seguinte frase do Holmgren (do livro Cenários Futuros, 2009):
“A História do século 20 faz mais sentido quando interpretada primariamente como uma luta pelo controle do petróleo ao invés de pelo conflito de ideologias.”

Escrito em 2009, “Future Scenarios: How Communities Can Adapt to Peak Oil and Climate Change” explica que “o termo ‘pico do petróleo’ significa o ponto onde a produção de um poço de petróleo, campo, região, país ou o mundo todo, chega a um ápice e daí, inevitavelmente, declina”. O livro, então, lida com possíveis futuros aderindo à premissa de que a diminuição da disponibilidade da energia de matriz fóssil é certa, mas interage com outras variáveis. (A obra foi publicada primeiro em formato para internet e pode ser acessada gratuitamente nesse link.)
Quatro cenários de declínio energético são considerados, cada um emergindo de uma combinação de declínio rápido ou lento do petróleo e mudanças climáticas leves ou severas nos próximos dez a trinta anos:
– Brown Tech (tecnologia marrom): lento declínio do petróleo, mudanças climáticas rápidas;
– Green Tech (tecnologia verde): lento declínio do petróleo, mudanças climáticas lentas;
– Earth Steward (Guardião da Terra): declínio do petróleo rápido, mudanças climáticas lentas;
Lifeboats (Barcos salva-vidas): declínio do petróleo rápido, mudanças climáticas rápidas.

Em algumas regiões e situações, Holmgren explica que esses cenários podem se apresentar aninhados com o nível nacional vivendo um Brown Tech, o estadual um Green Tech, a comunidade local um Earth Steward e o Life Boat dentro dos lares.

Em 2013, Holmgren escreveu o artigo Crash on Demand: welcome to the Brown Tech Future, no qual ele afirmava que o cenário Brown Tech havia se consolidado. Entre outras características, esse cenário traz ações e políticas nacionais fortes (independente do espectro político ideológico que está no poder), até agressivas, que prevalecem para abordar tanto as ameaças quanto as oportunidades do ápice energético e das mudanças climáticas. O sistema político poderia ser caracterizado como corporativo ou fascista (que Mussolini descreveu como um amalgamento entre Estado e poder corporativo (Holmgren, 2009, p. 61-62, tradução livre).
Vale notar que se consideramos a incapacidade da esquerda que chegou ao poder no Brasil nos últimos 20 anos de enfrentar o poder corporativo e de fornecer alternativas públicas para os mesmos serviços e aceitarmos a definição de Mussolini, somos obrigados a reconhecer que vivemos sob um modelo de governança facista (à esquerda e à direita).
Ainda em Crash on Demand, Holmgren postula que se apenas em torno de 10% da classe média nos países ricos reduzisse seu consumo (de bens e serviços supérfluos) em 50% e reinvestisse em torno de 50% de seus bens e ativos para reconstruir a economia doméstica e informal, isso bastaria para quebrar a economia vigente. Segundo Holmgren, as alternativas capazes de assegurar autonomia e dignidade em uma sociedade que perde rapidamente o acesso a energia, se espalhariam rizomaticamente à partir desses 10% da população que se adaptou primeiro e não de cima para baixo por meio de políticas públicas (até porque em breve não termos mais a energia necessária para garantir ações amplas nessa escala).
Depois da publicação do vídeo Preparando o Futuro Pós-Industrial, com David Holmgren comentando sobre o “Future Scenarios”, eu recebi algumas mensagens e comentários de pessoas que diziam que eu estava errado em ‘igualar’ a direita com a esquerda. Não foi esse o argumento que fiz no vídeo, é óbvio que existem diferenças concretas. O que disse é que essas diferenças são menos relevantes quando percebemos que nenhum dos campos tem planos e ações concretas para assegurar a dignidade, autonomia e saúde da população em um cenário pós-industrial.

Se conseguirmos nos articular agora para usarmos a energia ainda disponível, temos chances de aterrizarmos mais suavemente do outro lado do pico do petróleo. Do contrário, o cenário mais provável é um colapso energético e civilizacional abrupto, como mostra o gráfico ‘Cenários Energéticos Futuros’ acima.
Entretanto, como algumas pessoas afirmaram nas mensagens e comentários que uma das diferenças significativas entre os candidatos à direita e à esquerda está no âmbito ecológico e que votar se faz necessário no sentido de proteger a natureza, eu me sinto obrigado a avaliar essas afirmações com dados históricos e fatos que vão além das narrativas e propaganda política do PT.
Vejamos. Foi nos governos PT que tivemos os maiores avanços do modelo industrial desenvolvimentista, com toda a degradação ambiental que ele causa. Foi com o PT que os transgênicos ganharam força no país, que tivemos os subsídios recordes e sucessivos em vários mandatos para o agronegócio, que mais agrotóxicos foram aprovados (e nenhuma liberação anterior foi revogada), que tivemos recorde de falta de apoio para a reforma agrária, que o projeto MATOPIBA (que abre as fronteiras para o agronegócio no Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) foi sansionado, que a represa Belo Monte foi aprovada mesmo com relatórios de impacto ambiental contrários… tudo isso com parcerias e recordes de lucros para corporações petroquímicas, farmacêuticas, mineradoras e bancos. Agora, em tempos de eleição, essa mesma pseudo esquerda está defendendo a construção de mais centros de dados para IAs no país e se apresentando como a opção “mais ecológica”. Pura demagogia.
É curioso como criamos uma mitologia do progresso e passamos a acreditar, nos dois lados campo político ideológico (abarcando desde a população, passando pelas as ‘lideranças’ políticas e indo até as elites financeiras), que todo tipo de avanço tecnológico é benigno. Isso mesmo quando esses avanços tecnológicos são nocivos para as pessoas, para a cultura e a viabilidade da população, e arriscam o futuro das próximas gerações em função do consumo de água, energia e degradação ambiental que causa, como acontece com as IAs. Algo parecido aconteceu e ainda acontece entre as potências mundiais em relação às armas nucleares. A “lógica” é: “sabemos que é perigoso, que tem potencial para acabar com a civilização atual, mas não podemos ser o país que não vai ter armas nucleares ou seremos subjugados pelos que as tem”.
Acredito que em um cenário onde políticos vivessem apavorados pela possibilidade eminente e constante de serem linchados ou guilhotinados por uma população que simplesmente não aceitasse nenhum tipo de corrupção e que não trocasse autonomia por comodidades, seria possível, por exemplo, desenvolvermos ao mesmo tempo um programa de defesa nacional capaz de assegurar soberania e um de reforma agrária ampla capaz de esvaziar os centros urbanos e preparar o futuro pós-industrial que virá com o declínio energético. Analizando de forma pragmática, no entanto, infelizmente esse cenário é pouco provável de se constituir com a rapidez necessária exigida para nos amparar.
As evidências, de novo à esquerda e à direita desde a grande maioria da população, passando pela classe política e indo até a elite financeira, é de que não somos capazes de dizer não para avanços tecnológicos mesmo quando eles custam nossa saúde e autonomia e colocam em risco a humanidade como um todo.
Foi no sentido de termos o conhecimento e as práticas necessárias para nos prepararmos para um futuro com cada vez menos energia da matriz fóssil e, consequentemente, menos poder aquisitivo para a vida no campo, que eu inclui no livro Colapso e Êxodo Urbano: Construindo Vidas Resilientes e Autônomas no Campo uma revisão bibliográfica sobre esses cenários. E é em função da constatação de que nenhum candidato atual, nem mesmo dentro do que é chamado de ‘esquerda radical’, tem abordado com a devida seriedade e competência os efeitos das mudanças climáticas e do declínio energético para a maioria da população já vulnerável, que venho convidando as pessoas a protagonizarem em suas vidas e nas relações e território imediatos as mudanças necessárias para esse enfrentamento.
Esperar que as ‘lideranças’ políticas e econômicas que criaram essas condições sejam capazes de nos tirar delas e ainda assegurando a dignidade das pessoas comuns é ingenuidade.
Notas:
Para fazer seu pedido antecipado e com desconto do livro Colapso e Êxodo Urbano, basta seguir as instruções nesse link.
Se você gostaria de ver esse debate chegando para um número maior de pessoas para que elas possam se preparar adequadamente, por favor, indique o livro para seu podcast, jornal ou revista de preferência. Podemos fornecer o texto para divulgação do livro, caso necessário.