Por quê, mesmo o Êxodo Urbano sendo inevitável, não vemos ações efetivas dos governos para preparar a população para essa mudança na ocupação territorial?!

Chegamos atravessando o Guaíba pela avenida Presidente Castelo Branco e nos perguntando porque ainda homenageamos ditadores. No caminho, as árvores todas disformes e mutiladas embaixo de um emaranhado de fios elétricos nos lembraram a luta do Lutz para que tivéssemos um paisagismo e árvores saudáveis em Porto Alegre. Por toda parte o solo estava completamente coberto pelo asfalto ou calçamento. O largo Zumbi dos Palmares também é todo calçado, completamente sem vida. O Quilombo dos Palmares, um dos maiores e mais duradouros assentamentos de subsistência e resistência contra o poder colonial, ironicamente, era cheio de vida. Na portaria do edifício, não bastou apresentar as nossas identidades, um documento “oficial”, fomos obrigados a autorizar que tirassem uma foto para ser incluída no “sistema de segurança” e dali para dentro as catracas só nos deixavam passar se olhássemos uma câmera acoplada a uma tela com reconhecimento facial. Como vamos resguardar nossa capacidade de dissidência, ou mesmo de revolta, depois que a grande maioria normalizar essa distopia da vigilância permanente?!

Há muitos anos venho buscando me inserir integralmente nos ambientes naturais onde batalhei para viver. Há muito tempo tenho levado minha vida em pequenas vilas e propriedades rurais. Mesmo com as viagens e incursões esporádicas aos centros urbanos, não consigo mais normalizar a violência onipresente das cidades grandes. Não consigo mais entender como tanta gente confia em instituições e “autoridades”, muitas vezes criminosos recorrentes, para suprir as áreas mais essenciais de suas vidas. Cada vez mais encaro esses episódios como uma pesquisa antropológica de campo onde observo como se comportam os humanos que aderiram à Religião do Progresso Tecnológico. Como acreditam, à revelia das evidências, que mais tecnologias serão capazes de libertá-los dos vícios, dependências e papel de protagonismo na degradação da natureza causados pelo das tecnologias anteriores?!

Na chegada, finalmente uma recepção humana e calorosa. Fomos recebidos pela Katia Marko e o Ayrton Centeno, que mostraram um interesse genuíno na publicação do livro Colapso e Êxodo Urbano: construindo vidas resilientes e autônomas no campo e os temas que ele aborda. Dias antes da conversa recebi uma lista de perguntas que serviram de roteiro para a gravação e tomei um tempo para respondê-las por escrito, reciprocando o zelo da produção do Podcast de Fato, um programa do portal de notícias Brasil de Fato.

Nossa conversa vai ao ar no sábado, dia 11 de Julho, tanto no meu canal como no do Brasil de Fato. Como tínhamos um limite relativamente curto de tempo, acabamos enveredando por outros caminhos e a versão escrita complementa bem o podcast, Katia e Ayrton concordaram com a publicação do roteiro aqui no site. 

Para apoiar a publicação do livro pedindo antecipadamente seu exemplar (ou exemplares) com desconto, basta acessar esse link e seguir as instruções.

O livro está com lançamento previsto para o começo de Agosto e os eventos presenciais estão pré-agendados à partir desta data. Por enquanto, teremos eventos em Brasília, Campinas, Florianópolis, Gravatal (SC), Nova Petrópolis e Porto Alegre (RS) e Belo Horizonte e Brumadinho (MG). Se você tem contatos com jornalistas, programas de TV e podcasts com alcance e audiência alinhada e gostaria de ver o livro chegando para um número maior de pessoas, por favor, fique à vontade para indicar o livro para esses canais e pessoas.

Entrevista para o Podcast de Fato, na sexta-feira, dia 26 de julho de 2026.

Ayrton Centeno – Quais são as origens desse movimento para trocar a cidade pela vida no campo? Quais as suas bases, as suas origens? 

Eurico Vianna – Primeiro precisamos chamar atenção para o fato de que no decorrer da história nós tivemos várias civilizações que eram majoritariamente agrárias em sua organização. Isso no sentido de que optaram por não desenvolver cidades. Isso é documentado no livro O Despertar de Tudo onde o arqueologista David Wengrow e o antropólogo David Graeber explicam que por milhares de anos, várias regiões permaneceram agrárias por opção e contribuíram com o avanço da metalurgia, agricultura, astronomia e várias outras áreas. Então acreditar que civilização é sinônimo de urbanização é um engano e um viés que perpetua a submissão do campo à lógica das cidades, como se os centros urbanos fossem sinônimo de avanço e as propriedades e vilas agrárias de atraso. 

Mas sim, várias civilizações tiveram as cidades como sinal de “progresso” e invariavelmente sempre que essas civilizações enfrentaram o colapso, grande parte da população migrou de volta para o campo para garantir segurança alimentar. Esse movimento de volta é documentado pela História e pela arqueologia, mas o Edward Goldsmith, que foi um dos fundadores do jornal científico O Ecologista, fez uma análise ecológica e social da queda do Império Romano ainda muito relevante para o nosso tempo. Ele argumenta que enquanto a República de Roma teve origem e sua força moral e cultural na cultura agrária e pertença dos clans ao território, o Império degradou toda a extensão da Itália e adjacências mediterrâneas com os latifúndios mantidos pelo subsídio energético, a vida, dos escravos para manter cidades cada vez mais inchadas. As cidades atraíam muita gente com suas políticas equivalentes ao estado do bem estar social da época (o pão e circo). 

Então esse movimento do campo para a cidade e da cidade para o campo é cíclico, só que nós nunca tivemos uma civilização global tão majoritariamente urbana e isso é um problema gigantesco. Nos colapsos anteriores as pessoas eram competentes para suprir suas demandas mais básicas enquanto que a grande maioria hoje se especializou demais nos ‘trabalhos de merda’ como diz outra obra do antropólogo Graeber. A grande maioria hoje não tem habilidade nenhuma para enfrentar uma vida com cada vez menos energia da matriz fóssil e estamos vendo esse declínio energético se desenrolar rapidamente sem nenhum esforço real dos governos para criar resiliência para as pessoas comuns. O que temos são ações paliativas porque nenhum político tem a coragem de dizer que as cidades, na escala atual, são uma impossibilidade energética e ecológica, não importa o quão 15 minutos ou esponja elas sejam.

Katia Marko – De onde veio a ideia de escrever um livro para orientar aquelas pessoas que pensam trocar a cidade pela vida rural?

Eurico Vianna – Meu trabalho sempre foi mais voltado para o planejamento e o desenvolvimento comunitário rural. Mas de vez em quando alguns alunos, amigos e colegas, talvez já defendendo um viés urbano, que é um desafio enorme para a construção do futuro que precisamos, ficavam me perguntando, “tá, mas e as cidades, porque você não oferece alternativas e estratégias para as cidades?” E eu sempre respondia porque como estão hoje são um evento passageiro e que não tinha vocação para atender gente que diz defender a reforma agrária, mas não almeja o viver agrário ou que diz amar a natureza, mas só se não precisar abrir mão das comodidades urbanas. Isso gerava ainda mais incômodo e amigos mais próximos disseram que eu não podia argumentar dessa forma sem oferecer solução para o público urbano. 

Eu estava escrevendo, muito aos poucos, um livro sobre planejamento rural e bastante consciente de que as cidades verticais e populosas não tem solução e que não era responsabilidade minha oferecer mais uma obra com soluções paliativas como banho de 4 minutos, veganismo e ecobags. Na minha visão, nas cidades verticais e populosas, essas opções constituem o chamo de Ambientalismo de Sacrifícios. É ineficiente e serve mais para aplacar a culpa ambiental da classe média e sinalizar virtudes do que para trazer as pessoas de volta para o seu papel central de cuidar diretamente da saúde dos territórios onde vivem. Aí um amigo fez a pergunta com outro enquadramento, “mas e as pessoas que tem interesse genuíno em sair das cidades e viver dessa maneira que você descreve, elas não merecem ter acesso ao conhecimento que pode tornar esse caminho mais seguro e assertivo?”. Com esse enquadramento eu aceitei o desafio de organizar um material especificamente para esse público. Tanto que me permiti escrever um livro que foge do formato tradicional que apresenta uma justificativa ou uma problemática no começo para depois desenvolver os argumentos. Eu até apresento vários autores renomados que argumentam que já vivemos um colapso, mas faço isso, paradoxalmente, na conclusão porque parti da premissa que estava lidando com pessoas que já perceberam que o modelo urbano industrial é violento, injusto e degradante e querem sair dele.

Ayrton Centeno – Imagino que, com o trabalho remoto instituído para algumas categorias profissionais durante a pandemia, ficou mais fácil essa transição. Desde que haja energia elétrica e internet… 

Eurico Vianna – Olha, poder trabalhar de casa facilita a transição geográfica, mas precisamos ter muito cuidado e analisar detalhadamente o que essa oportunidade representa para cada família. Porque na maioria das vezes o trabalho em casa não reverte a tendência de especialização de trabalho e o campo exige pessoas generalistas. Em muitos casos, a casa que deveria estar voltada para construção de saúde, autonomia e resiliência, vira uma extensão gratuita da infraestrutura da empresa com a expectativa de disponibilidade (às vezes exclusividade) constante. 

O home office se baseia na “liberdade geográfica” em uma lógica econômica predatória que dá algumas vantagens para a classe média enquanto gentrifica e explora os ‘locais’. Nessa lógica o Home office cria pessoas que ‘flutuam’ pelo mundo, algumas até residem em áreas rurais, mas que nunca estão prontas para criar raízes, pertença e defender o território ombro a ombro com famílias campesinas porque sua renda não vem do território. Essas pessoas ainda tem a ilusão de que seu sustento vem do supermercado e não do solo.

Agora, se essa oportunidade vier como forma de criar uma economia doméstica alternativa, com uma fatia cada vez maior da viabilidade vindo do território onde essas pessoas moram, se permite a pessoa desenvolver habilidades generalistas de plantio, lida com animais, beneficiamento de alimentos, construção, mecânica, elétrica, hidráulica, etc. aí o trabalho em casa está contribuindo para fortalecer os laços familiares, a pertença, a saúde do território e a capacidade das pessoas se viabilizarem ali na medida em que os empregos vão se escasseando e se tornando inviáveis porque não conseguem garantir saúde e dignidade nas cidades.

A gente precisa repensar o que é sucesso, qual o papel da família e a função do lar durante esse declínio energético. Eu acredito que sucesso daqui pra frente é conseguir assegurar saúde, a nossa e a do território onde vivemos, mais tempo de qualidade com as pessoas amadas e mais intimidade com o lugar onde vivemos. 

É curioso que se a pessoa trabalha de casa no computador é “home office”, mas se trabalha com ferramentas não digitais, ela “faz bicos”. Só que enquanto o “home office”, considerado almejável, beneficia a economia vigente, se tornar generalista tem muito mais potencial para beneficiar a nossa saúde, dignidade e resiliência da família. 

Katia Marko – Quais os principais erros que, vamos chamar assim, o retirante urbano, precisa evitar?

Eurico Vianna – O primeiro e mais grave deles é comprar uma propriedade sem ter estudado o planejamento rural e ter desenvolvido uma alfabetização ecológica. Nessa situação as pessoas romantizam muito sobre a vida no campo e frequentemente são enganadas pelos corretores que inflacionam o mercado para ganhar comissões mais altas e convencem as pessoas de que a propriedade é excelente para tudo que querem fazer. A maioria das pessoas está colocando as economias de uma vida nessa relocalização e é muito importante que as aptidões do território combinem muito bem com os sonhos, aspirações e habilidades das famílias.

Todos os outros erros decorrem desse primeiro. O segundo é o complexo de fidalgo. O segundo maior gasto, quase sempre com financiamentos também, é feito na casa dos sonhos. Só que o sonho dessa casa é informado pela sociedade de consumo então essa casa é cara, não é funcional e normalmente é colocada priorizando as vistas e não a eficiência energética e ecológica e a resiliência. Aí… casa é grande demais, feita com materiais caros da indústria petroquímica e da mineração, é colocada no ponto mais alto, onde os riscos de incêndio são altíssimos. Esse posicionamento da casa por sua vez requer uma estrada para o alto do morro que quase sempre é feita em linha reta para economizar a obra, mas que vai custar muito mais caro ao longo dos anos com manutenção da estrada e veículos…

E outro frequente é estudar sobre sistemas de produção antes do planejamento integral e sair plantando pra todo lado sem um plano de subsistência, sem um plano de negócios, sem que os elementos que compõem a propriedade como um todo façam parte de plano em que tudo tem um porquê.

As propriedades que tem dado certo combinam serviços e produtos com beneficiamento e venda direta. Elas combinam turismo e educação para avançar um propósito claro e definido e tem os sistemas apoiando as vocações das pessoas e não as pessoas se matando para produzir. Quase sempre elas trabalham com produtos ecológicos de altíssima densidade nutricional e complexidade e tem a pecuária ecológica incluída no planejamento integral. 

Ayrton Centeno –  Na sua visão, as grandes cidades serão inviáveis até o final do século?

Eurico Vianna – Qual a viabilidade que cidades como São Paulo, Recife, Rio, Belo-Horizonte tem para a grande maioria das pessoas? A maioria já vive vidas insalubres, violentas e sem a possibilidade de exercer nosso papel como animais, que é preparar a sucessão para outros animais e plantas que viverão depois da gente. Nós somos a única espécie que ao viver, degrada o território onde se viabiliza ao invés de melhorá-lo. 

A grosso modo a natureza opera em cadeias tróficas/alimentares onde tudo come tudo e tudo que vive melhora o ciclo dos nutrientes minerais no solo, capta cada vez mais luz solar, infiltra e retém cada vez mais água e essas coisas juntas aumentam a biocapacidade do lugar, ou seja, fazem com que os lugares aportem cada vez mais Vida. O urbanismo industrial funciona na contramão disso tudo. 

Então do ponto de vista econômico, a cidade funciona para uma meia dúzia de super ricos, enquanto a grande maioria vem perdendo poder aquisitivo real desde a década de 70 e isso mesmo nos países chamados desenvolvidos. 

Do ponto de vista social e cultural, essas megacidades afastam as mães e os pais dos filhos o dia todo, alienam as vocações das pessoas em funções extremamente especializadas e destroem as culturas anteriores que eram baseadas no território, na ancestralidade, e em uma cosmovisão que entendia e sabia aceitar limites. 

Do ponto de vista ecológico, como acabei de expor de forma resumida, as cidades são a anátema do convívio harmonioso com a natureza… 

Então, na minha visão, as cidades já não são viáveis, a não ser para quem se beneficia dos monopólios capitalistas e do tecnofeudalismo que já vivemos. Sobre prazos… é difícil prever com precisão. Mas a leitura da geopolítica e a percepção de que quase todas as “soluções” apresentadas pelas parcerias público-privadas são mais sobre controle da população do que sobre criar alternativas viáveis que demandariam a descentralização e distribuição do poder de tomada de decisão para as pessoas comuns, eu diria que as elites financeiras estão se preparando e avançando rapidamente sua agenda de implosão controlada para que não percam o status quo nas próximas décadas enquanto o mundo é redesenhado para ser mantido com muito menos energia da matriz fóssil.   

Katia Marko – Mas trocar a cidade pelo campo será viável apenas para a minoria, não? Estamos falando na classe média alta para cima. Um trabalhador urbano comum, com renda de até três ou quatro salários mínimos não terá essa opção…

Eurico Vianna – Então, de novo, a cidade já não é viável para a grande maioria das pessoas que vive com recursos financeiros esparsos ou na pobreza. Frequentemente a condição econômica das classes mais pobres é usada para dizer que promover o êxodo urbano não é viável uma vez que elas não teriam condições de sair. Enquanto isso elas ficam nas cidades nas condições mais indignas, mas para manter as cidades funcionando para as classes média e rica. Nesse sentido eu venho defendendo que as pessoas que menos tem condição de sair, são as que tem mais urgência nesse êxodo. Para elas, quanto antes conseguirem mais autonomia para viabilizar as áreas mais essenciais das suas vidas, a moradia, alimentação, água, saúde e mobilidade, com menos intermediários (inclusive o governo) melhor. Elas já não são cuidadas e se um dia tivermos um plano para diminuir a população das cidades, pelo exemplo histórico de como governos e a elite financeira funciona, elas não serão priorizadas. A não ser que a saída delas seja para manter as cidades funcionando para os mais abastados, e nesse caso a relocalização delas não terá como foco assegurar dignidade, saúde e capacidade de se viabilizar no campo. 

Isso já acontece com o MST hoje. Estamos no 5 mandato Lula PT com recordes de falta de homologações para assentamentos e mesmo quando as famílias são assentadas não existe apoio suficiente para que se viabilizem. Aí quando não conseguem e precisam vender seu quinhão para sobreviver a sociedade privatiza a responsabilidade para essas famílias, mas isenta o governo, a elite e mesmo a sociedade como um todo que se tornou incapaz de agir com cooperação e solidariedade.

Ayrton Centeno – E será ainda menos acessível para a massa de trabalhadores informais…

Eurico Vianna – Na verdade, os trabalhadores informais estão entre as pessoas mais competentes para lidar com um colapso mais acentuado porque eles já vivem os efeitos precoces do colapso ético e político que vivemos e já estão desenvolvendo formas de se virar. Em um futuro com cada vez menos energia disponível para as pessoas comuns, os mais competentes para se viabilizar são os generalistas. 

E aqui entra outra questão, essas pessoas já estão acostumadas a viver nas margens, nas áreas cinzas da sociedade, na clandestinidade. A maioria ainda pensa em relocalização como esforço ou um projeto familiar bancado exclusivamente pelo capital financeiro. E para muita gente não vai ser assim. O poder central vai perdendo sua capacidade de vigia, seu monopólio da violência vai perdendo alcance no reforço da ordem capitalista e as pessoas vão simplesmente invadir e ocupar áreas onde conseguem melhores condições para se viabilizar. 

O futuro de declínio energético, não será ordenado pelos moldes do que hoje é considerado legal, será forjado pelas pessoas que estarão criando uma nova ética de ocupação territorial, uma em que de fato o território tenha função social. Daqui pra frente os estados terão cada vez menos condições de reforçar suas leis. Foi assim em todos os colapsos e o da nossa civilização não será diferente. Muita gente que talvez comece na clandestinidade ou ilegalidade se tornará referência para quem virá depois. Não foi assim com os Quilombos? Eles eram uma resposta ética, mas eram legalmente e moralmente opostos à elite da época. Estamos lidando com praticamente a mesma sociedade escravista, muito pouco mudou para as pessoas comuns. Durante um tempo a matriz fóssil maquiou isso, mas agora com essa matriz já em declínio, a promessa de melhora de vida linear e urbana está se revelando impossível e as desigualdades se escancarando. 

Uma das maiores dificuldades do campo hoje são as parcerias de trabalho. As pessoas generalistas terão muitas oportunidades de se relocalizar e fixar no campo por meio de acordos e trocas que também viabilizarão o campo para pessoas mais velhas e com mais capital. Essas habilidades generalistas funcionarão como equalizadoras entre diferentes formas de capital e uma economia informal com a dádiva e o escambo muito mais presentes to que agora.

Katia Marko – Você sustenta que esse êxodo urbano será planejado ou sofrido. Como descreve um e outro?

Eurico Vianna – Quando nossos governos seguem dizendo que vão garantir gás de cozinha e gasolina barata para população mesmo sabendo que já vivemos um declínio energético e que isso é impossível ao invés de assegurar a possibilidade de muito mais gente vivendo no campo onde podemos ter fogões ecológicos, produzir um pouco de álcool ou biodiesel, por exemplo, isso me mostra que a maioria será sofrerá esse êxodo, como os nosso primeiros refugiados climáticos, os retirantes nordestinos, sofreram quando o estado tinha energia para criar indústrias no NE, mas escolheu não fazer para garantir trabalhadores baratos para o sul e sudeste. O sul deu glebas para colonos estrangeiros quando o nordeste teve que criar Canudos. 

É importante olharmos para a dependência da matriz fóssil e buscar uma transição realmente ecológica e não essa mentira de painéis solares e veículos elétricos. Não é possível manter essa sociedade com nenhuma outra matriz energética sem perdas consideráveis na capacidade de manter as complexidades. 

Então quem se propuser a fazer a transição energética para outras matrizes, junto com uma transição cultural para outro tipo de vida e relação com o território, terá muitas vantagens e mais tempo para realizar essas transições. O Rob Hopkins, criador do movimento cidades em transição, diz que “se esperarmos pelos governos, será muito pouco, muito tarde; se agirmos como indivíduos, será muito pouco; mas se agirmos como comunidades, talvez seja exatamente o suficiente e bem a tempo”.

Precisamos urgentemente de moedas alternativas e complementares, de retomar o escambo, a dádiva e do planejamento e desenho ecológico para que uma vida com menos energia fóssil não tenha que significar pobreza e dificuldades extremas. Um campesino europeu trabalhava menos que 1/3 do ano e no restante aprimorava seus ofícios, participava da comunidade, da igreja… é mentira que a vida nas cidades é mais fácil. Hoje não temos tempo para nós mesmos, somos escravos e nos sujeitamos para garantir coisas supérfluas. Com planejamento e uma mudança de paradigma cultural, podemos viver muito melhor no campo, desafogar as cidades minimizando assim seu impacto que é horrível e garantindo dignidade para todos enquanto vivemos o declínio energético.

Ayrton Centeno – Como seria esse quadro de dificuldades no Rio Grande do Sul e no Brasil? 

Eurico Vianna – O Darcy Ribeiro não usou “Rio Grande do Sul” para descrever a região que estamos, ele usou “Brasis sulinos” no plural! Isso porque o colonizador foi aprendendo com os indígenas como se adaptar na região e isso criou uma cultura no pampa, outra no litoral, outra na serra e outra ainda na região oeste. Muitas famílias ainda guardam costumes e conhecimentos tradicionais que se desenvolveram à partir da intimidade com o território. Mesmo antes da era industrial os Brasis Sulinos já eram pungentes e contribuíram para o desenvolvimento do Brasil como nação. 

Mas naquele tempo, com uma população muito menor do que a temos hoje, o Estado teve dificuldades com os chamados “movimentos separatistas”. Mas fazia sentido ecológico, climático, hidrológico, cultural que os países da bacia platina formassem um país à parte. Foi o poderio militar que logo em seguida ganhou força com a matriz fóssil que permitiu que o estado mantivesse um projeto de nação continental. Com declínio energético vai fazer muito mais sentido econômico a gestão biorregional dos territórios e os estados muito provavelmente terão cada vez menos poder para manter coesão. 

Voltaremos a nos orgulhar se viver à partir do território, ao invés do petróleo e da mineração, e nos chamar de caipiras, caiçaras, sertanejos, colonos da serra… com pertença e orgulho.  

De novo, as pessoas que se adiantarem para viver de acordo com a capacidade e sazonalidade de seus territórios criando abundância real sem insumos da matriz fóssil, terão muitas vantagens para se adaptar em função da elasticidade que ainda existe. Ainda é possível começar um projeto de subsistência sério e contar com o supermercado; a comida te envenena, é uma porcaria mas está lá. 

Ainda é possível e relativamente barato implantar os sistemas de água de uma propriedade usando tubos plásticos de altíssima qualidade e maquinário pesado para fazer açudes e deixar água disponível para muitas gerações depois. Mas talvez o acesso a esse maquinário o diesel que roda ele fique inacessível para pessoas comuns daqui um tempo. 

Hoje ainda é possível planejar uma vida com o orçamento energético baixo, tendo back up das concessionárias de água e energia e de tudo que ainda funciona para emergências. Assim como é possível fazer muita coisa de qualidade repropositando materiais excelentes que são descartados por moda, como louças de cozinha e banheiro, cercas de metal, telhados de metal corrigado… quando um número maior de pessoas estiver buscando esses mesmos recursos a situação será muito mais difícil. 

Katia Marko – No livro, voccê relata a trajetória de seus avós que, perseguidos pela ditadura militar, fizeram essa transição muito tempo atrás. Conte um pouco sobre eles e de que maneira a história deles influenciou a sua opção.

Eurico Vianna – Nas décadas de 60 e 70 os países desenvolvidos estavam vendo nascer, dentro do movimento de contracultura, o movimento de volta para a terra. É nessa época que a sociologia francesa começa a falar dos ‘novos rurais’, que na Inglaterra o John Seymour lança o Livro Completo para a Autosuficiência, nascia na Austrália a Permacultura. Todas essas referências permanecem relevantes e guiando muita gente que busca uma vida no campo hoje. Nessa época, o Brasil vivia o que ficou conhecido como o “Milagre Econômico” e o padrão geral era exatamente o contrário, o avanço da industrialização e do êxodo rural em massa. 

Mas meu avô havia sido traído pela sociedade. Ele lutou muito durante muito tempo para melhorar as condições de vida das pessoas comuns no município onde vivia por meio da política partidária. Ele saiu para vereador por um partido da esquerda, conhecia e tinha o apoio de lideranças importantes como o Brizola, mas o prefeito da chapa dele perdeu para um outro da direita, meu avô era avalista de um cunhado que faleceu de repente e veio uma dívida familiar a ser paga e a ditadura acompanhada de muitas denúncias e perseguições em função da força política que ele tinha. Tudo em um espaço de tempo de relativamente poucos meses. Ele, então, vende tudo que tinha, paga a dívida, deixa as filhas mais velhas temporariamente com outros familiares e segue para tentar a vida em Brasília. Mas com uma opção bem diferente da grande maioria, ele vai para uma região do DF que ainda era bem inacessível, quase na divisa com Goiás, para estruturar a vida com base na subsistência e produção primária. Durante um tempo ele e a minha avó tiveram ocupações variadas, ela por exemplo cozinhou para uma cantina da primeira escola pública de uma cidade vizinha e ele abriu uma lotérica.

Durante um tempo nós morávamos em um barraco nos fundos dessa loteria. Algumas das minhas primeiras memórias da infância são desse barraco. Essas atividades financiaram uma estrutura muito simples para começar na fazenda e em seguida eles conseguiram se mudar. 

Ele estabeleceu várias hortas, pomares e produziu queijo. Primeiro de vaca e depois teve um negócio de muito sucesso como o primeiro produtor de queijos de cabra de Brasília. Então eu vivi, ainda que parcialmente, uma vida frugal e agrária com muitas soluções ecológicas e baseada em um comportamento generalista que hoje ainda são considerados vanguarda na ecologia. 

Mas eu também vivi em primeira mão a tensão que todos nós vivemos hoje para equilibrar autonomia e comodidades. Na realidade, nós precisamos de muito menos comodidades e aparelhos eletrônicos do que a sociedade do consumo nos faz acreditar. Mas na minha vida essa tensão ficou evidente na relação da minha avó com o meu avô. Ele aprendeu a duras penas que não devemos confiar nas supostas “autoridades”, mas ela foi moída por uma vida onde a mulher tocava a casa sozinha, enquanto eles tinham poucos recursos e com 7 filhos. Ela brigava para ter todas as comodidades possíveis assim que conseguiam o recurso e ele tentava manter a redundância dos sistemas… captação de água por gravidade, fogão a lenha com serpentina, cavalo domado para puxar charrete… isso tudo parece sacrifício hoje, mas sem o subsídio da matriz fóssil ou com o acesso cada vez mais caro, essas alternativas serão a diferença entre depender de autoridades incompetentes, corruptas e ensimesmadas ou ter o mínimo de lateralidade para resolver a própria vida. 

Então foram muitas lições que carrego comigo, mas tive muita sorte de viver o que para muitos hoje talvez fosse uma vida pobre, se comparada com o acesso a bens de consumo, mas que era rica de cultura, de afeto, de tempo, de ludicidade em família. Então eu sei que uma vida mais simples pode na verdade ser imensamente mais significativa e gratificante e por isso usei um pouco a história deles para fazer as pessoas refletirem sobre o que realmente significa ter “sucesso”. Ser bem sucedido é ter uma vida sem tempo caçando dinheiro que nunca é suficiente nas cidades ou uma vida em cidades bem pequenas ou áreas rurais onde teremos mais responsabilidades, mas seremos imensamente mais livres e capazes de melhorar o quinhão onde a gente pisa e vive?

Ayrton Centeno – No campo, os retirantes urbanos deveriam exercer uma profissão rural ou permanecer com a mesma, se possível, que exerciam na cidade? 

Eurico Vianna – O David Holmgren, um dos criadores da Permacultura, e uma referência importante no livro, faz uma brincadeira e defende que durante o declínio energético nós seremos mestre em um ofício e pelo menos muito bom em vários outros. O Rory Groves, um autor americano que fez a relocalização para o campo com sua família há uns anos e escreveu o livro Ofícios Duráveis, estudou 10 mil anos de história para descobrir quais eram os ofícios mais resilientes e que provavelmente sobreviverão às IAs. Entre os primeiros 20 ofícios vários são agrários ou se relacionam diretamente com o campo e são generalistas. O pastor de animais é o ofício mais duradouro, mas a agricultura, a pecuária, saber abater e preservar carnes e charcutaria, cozinhar, fabricar vinhos e cervejas, a doula, a carpintaria… todos são ofícios que exigem habilidades mais generalistas e que estarão em alta daqui para frente. Se na década de 80 e 90 os pais queriam que seus filhos usassem e entendessem de computador para terem melhores chances, hoje é o contrário, devemos tirá-los das telas e propiciar habilidades que desenvolvam intimidade com a natureza, capacidade de concentração de longuíssimo prazo, habilidade interpessoal e manualidades.

Nas cidades as ocupações são mais sobre substituir relacionamentos e habilidades por dinheiro que vem de uma atividade muito especializada. A vida agrária exige o caminho de volta, quanto mais nossas necessidades mais básicas forem supridas por pessoas próximas, e quanto mais úteis nós formos para essas pessoas também, mais seguros estaremos. Mas… o campo tem muitas dimensões, não é só sobre produção primária. É bom que todos recuperemos a capacidade de plantar e criar animais para subsistência, mas o campo precisa de arte, hotelaria, logística, educação e uma gama enorme de outros serviços e ofícios.

Katia Marko – Esses retirantes urbanos praticariam uma agricultura de subsistência, de perfil agroecológico? Dependeriam da existência e dos vínculos com a cidade? 

Eurico Vianna – São as cidades que dependem das áreas rurais à sua volta para sobreviver e não o contrário. Mas, sim, todos nós teremos que praticar uma agricultura com base em processos ecológicos, pelo simples fato de que não teremos mais acesso a tantos insumos farmacêuticos e petroquímicos. Só que isso não garante acesso à terra, justiça social e soberania alimentar. O modelo industrial já vem fazendo um caminho para usar mais insumos biológicos, mas não admite se falar em agroecologia porque nela, a reforma agrária e o acesso à terra para quem quer viver uma vida rural são direitos essenciais. A agricultura familiar de hoje em dia, vale dizer, se dá em propriedades menores, mas também é majoritariamente com base no pacote químico e farmacêutico. 

A questão não é apenas produzir de forma ecológica. Eu cito o Jared Diamond no livro, autor do livro “Colapso: como as sociedades escolhem o fracasso ou sucesso” e ele fala que mais de 20 civilizações colapsaram antes da nossa sem usar nenhum insumo petroquímico, percebe? Toda vez que submetemos o campo e a natureza à uma lógica expansionista, imperialista e ecologicamente analfabeta, nós encontramos limites biofísicos e quebramos as civilizações. A questão é conseguir um número muito maior de pessoas vivendo de forma a melhorar os lugares onde habitam e isso exige descentralização e distribuição de poder. A notícia ruim é que as elites sempre buscam se manter no poder até o final e nunca defendem de maneira adequada seus constituintes, mas a notícia boa é que durante os declínios e colapsos elas nunca conseguiram controlar toda a população. Inclusive é recorrente na história e arqueologia que quando a desigualdade fica escancarada demais e as elites degeneradas demais as guilhotinas ou algo parecido voltam a moda para comportar essa elite inútil. 

Ayrton Centeno – Qual a influência do legado ambientalista na sua proposta? O próprio José Lutzenberger, no final do século passado, seguiu esse caminho ao se mudar de Porto Alegre para seu sítio em Pantano Grande…

Eurico Vianna – Há 40 anos Lutz já dizia que as cidades são ecossistemas artificiais mantidos por combustíveis fósseis. Ele já lutava contra as grandes corporações, já dizia que a ecologia e a produção de alimentos sem venenos não deveria ser partidária, já dizia que precisávamos de uma moeda sã e não da fiduciária… e vários outros como ele acertaram nos avisos e nas datas, nós já vivemos um colapso, basta saber enxergar.  Acredito que eles erraram em uma questão muito triste, eles confiavam que nós teríamos a força, indignação e capacidade de articulação deles para reverter o quadro a tempo, mas a grande maioria foi domesticada pela TV, pelas mídias e redes sociais corporativas. Muita coisa mudou, hoje lideranças internacionais como o Varoufakis, outra fonte que cito no livro, já avisa que a democracia está falida e que já não vivemos o capitalismo, mas o tecno-feudalismo (Varoufakis). Faz sentido, a internet e as redes sociais nos domesticaram mais do que potencializaram nosso poder de articulação em prol de vidas dignas e mantêm nossos esforços de articular mudança dentro de cilos, de cavernas digitais de Platão.

Katia Marko – Você trabalha com o conceito de “Santuários de Sanidade Mental e Ecológica”. Explique esse conceito. 

Eurico Vianna – Durante períodos muito desafiadores e os colapsos de várias civilizações, livros, práticas, sementes, genética de animais domésticos, a conservação e fermentação de alimentos, a arquitetura vernacular, registros históricos e o conhecimento das estrelas, por exemplo, foram mantidos e nutridos em mosteiros, em santuários. Eu venho falando que o viver ecológico que nos devolve o protagonismo como guardiões capazes de melhorar a saúde dos territórios onde nos instalamos, não só para nós mesmos, para todas as outras espécies, deve ser protegido, nutrido e multiplicado nas pequenas propriedades rurais nas quais algumas famílias tem conseguido se viabilizar com dignidade sem comprometer a ética ecológica. Essas pessoas e o dia a dia delas compõem o que tenho chamado de Santuários de Sanidade Mental e Ecológica.

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