Um comunicado sincero! Nosso relacionamento com as redes precisa mudar!

Estou estafado! Minha condição tem várias causas, mas apenas algumas valem à pena ser discutidas aqui. Para além da estafa, no entanto, também estou muito revoltado com a lógica das ‘redes sociais’ e nas próximas semanas vou re-estruturar como promovo meus serviços nestas plataformas. Por isso, esse texto é uma carta para todas as pessoas que acompanham e apoiam meu trabalho.

Há muitos anos venho divulgando meu trabalho como consultor e educador em planejamento rural nas ‘redes sociais’. Meu propósito sempre foi estar à serviço das pessoas que querem melhorar a saúde dos territórios onde habitam e se viabilizam. Mas hoje sinto que trabalho mais para essas corporações do que para meus clientes e alunos e isso me revolta!

A situação atual com as redes sociais como forma de promover serviços tem efeitos colaterais gravíssimos, mas dois se destacam mais.

O primeiro é que meus textos, vídeos e fotos agora são avaliados por IAs e precisam se alinhar com o que traz mais lucro para as plataformas, antes mesmo de ser útil para meus clientes e alunos em potencial. Não quero me alinhar com o que é cada vez mais raso, fútil, efêmero e lucra viciando seus usuários (adjetivo bem apropriado para precisa das redes hoje em dia).

O segundo é uma inversão na forma como clientes e prestadores de serviço interagem. A grande maioria das pessoas nunca entraria em um estabelecimento privado, como um restaurante, uma academia, uma clínica de fisioterapia ou uma livraria, com a expectativa de receber amostras grátis cada vez maiores e mais elaboradas. Mas hoje essa é a expectativa da maioria das pessoas que acompanham o trabalho dos profissionais nas redes. A amostra, que antes era uma decisão da estratégia do profissional, agora é uma exigência das pessoas mesmo quando elas não tem interesse legítimo em apoiar o prestador contratando seus serviços.

Se para que meu trabalho possa ser visto e apreciado eu preciso me ‘alinhar’ com os valores da plataforma, se elas buscam ativamente substituir a ‘praça pública’ onde antes ofertávamos nossos serviços e sabotar os relacionamentos de apoio mútuo que antes criavam confiança, então estamos aceitando o papel de vassalos no que Varoufakis define como ‘tecnofeudalismo’. E agora nossa confiança mútua foi substituida pelo ‘capital social’. Nessa lógica, a moeda corrente que antes eram as ‘boas ações’, a prestatividade, agora se resume em ‘seguidores’. A primeira trazia mais segurança e melhorava nossas relações e comunidades. A segunda nos obriga a competir por mais vassalos dentro de um feudo ainda maior (e do qual não temos controle).

Dentro do mesmo contexto, se não estamos ativamente buscando construir o mundo que queremos divulgando, contratando e mantendo relações comerciais com profissionais éticos e terceirizamos as escolhas e indicações para algoritmos e IAs corporativas, nossas ações na verdade estão apoiando os senhores tecno-feudais. Isso enquanto nos aproveitamos da vulnerabilização de quem presta serviços.

As plataformas digitais prometeram conectividade e alcance, mas trouxeram dependência, destruíram ainda mais a pertença ao território e nos transformaram em produtos. O filósofo Charles Eisenstein, que integrou as referêcias do Colapso e Êxodo Urbano, explica que a economia vigente despersonificou as relações que mantem as áreas essenciais das nossas vidas de tal maneira que agora, sem a dádiva e o escambo, vivemos com a ameaça constante de ficar sem teto e famintos porque onde antes havia pessoas e relacionamentos, agora só existe ‘o mercado’ (ou os feudos digitais diria Varoufakis).

Eu não dependo das redes para me conectar com as pessoas. Eu prefiro o olhar, o sorriso, o abraço e até mesmo o silêncio vividos na presença. Mas dependo das redes para promover meus serviços, e isso tem me entristecido muito! Eu traballho para que as pessoas possam criar permanência nos territórios e relações, não faz sentido promover esse trabalho em um ambiente que propositalmente torna tudo efêmero, viciante, raso e combativo.

Junto com o processo de escrita e produção do livro Colapso e Êxodo Urbano eu enfrentei adversidades graves causadas por pessoas que não honraram compromissos assumidos comigo. Por sua vez, essas injustiças criaram ainda mais vulnerabilidades e nesses momentos aprendi quem são os amigos e familiares com os quais posso contar (pouquíssimos, infelizmente…).

No livro eu compartilho trechos da vida dos meus avós e como meu avô foi uma referência importantíssima na minha vida. Acontece que umas das maiores lições que meu avô deixou foi a de buscar construir uma vida coerente com os princípios que ele tinha, mesmo quando a vida dele esteve muito mais desafiadora do que a minha está nesse momento.

Preciso honrar as lições que ele deixou. Nas próximas semanas vou me dedicar à produção do livro e ao relacionamento que brotou com as pessoas que estão fazendo os pedidos antecipados e com isso escolhendo viabilizar não só meus serviços, mas a minha vida como um todo.

Não quero “produzir conteúdo” para preencher o vazio de autenticidade das redes! Mas preciso divulgar meu trabalho, especialmente nesse momento o livro Colapso e Êxodo Urbano. Em função disso, as postagens ficarão mais esparsas, bem menos produzidas e o alcance delas dependerá exclusivamente de quem quer ver meu trabalho alcançando as pessoas que podem se beneficar dele.

Uma boa medida para testar essa minha escolha por um caminho mais ético no mundo digital talvez seja o alcance dessa carta em si. Conto com você que tem apoiado o trabalho para tornar o algorítmo e as IAs obsoletas (ao invés das nossas relações)!

Ainda em tempo, uma nota! Se você ainda não pediu seu exemplar do Colapso e Êxodo Urbano e quer fazer isso ainda no preço promocional da pré-venda, você pode fazer isso nesse link.

Agradeço de coração e seguirei contando com as pessoas que tem permitido que eu trabalhe com minhas vocações!

Eurico Vianna.

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