O problema não é qual a rede, mas o que todas substituem.

Qual o papel das redes sociais? Como podemos garantir comunicação sem censura? Quais os custos econômicos, sociais e culturais da comunicação centralizada por redes corporativas? É possível tornarmos os algoritmos e IAs obsoletos antes que degradem completamente a natureza humana? Se você não tem se debruçado sobre essas perguntas é porque não entendeu o que realmente está em jogo.

Nota: Esse artigo brotou de interações que tive com colegas, amigos e leitores por mensagem depois que fiz um desabafo sobre a minha estafa para os inscritos na minha mala direta. Ele também evolui das reflexões feitas no artigo Um Comunicado Sincero! Nossas relações com as redes precisa mudar!.

O que segue abaixo, então, é fruto de dores, interações e aflições genuínas sobre o impacto das redes sociais em nossas vidas pessoais e profissionais. É também um teste de como podemos expandir juntos a capacidade de diálogo e aprendizados não intermediadas por algoritmos e IAS. Responderei com prazer aos comentários enviados por email e talvez nossa interação gere outros artigos. E, se você compartilhar os artigos com suas indicações para as pessoas com as quais gosta de conversar, talvez consigamos juntos quebrar a barreira que as plataformas corporativas impõem sobre a busca autogerida por conhecimento.

A internet e as redes mudaram como interagimos

Como gosto de escrever e venho expressando minhas frustrações com as redes há alguns anos, recebo duas recomendações frequentes: que leve meus artigos para o Substack e abra um perfil de rede social em uma plataforma ‘alternativa’ como o Fediverso. Apesar do potencial de conectividade, nenhuma dessas opções resolve os problemas econômicos, sociais e culturais que as redes sociais criaram.

O livro Here Comes Everybody, de Clay Shirkey, que saiu pela Penguin Press em 2008 se debruça sobre o potencial colaborativo que algumas plataformas trazem e como poderiam tornar obsoletas as formas institucionalizadas de organização e resolução de problemas. Embora seja importante lembrar que foi publicado antes da escalada dos algoritmos, a obra segue relevante para pensarmos o papel das redes sociais e como elas mudam nossas interações.

O acesso à tecnologia mudou os custos e a forma como comunicamos. A prensa de Gutenberg revolucionou a comunicação em massa, permitindo a impressão de textos em escala. Em tempo, os jornais, o rádio e as TVs ampliaram ainda mais o poder da comunicação em massa. Mas todas essas formas de comunicação se dão à partir de uma instituição para muitas pessoas e a missão que é informar passa imediatamente para o segundo plano, cedendo lugar ao imperativo de se viabilizar economicamente primriro para custear as despesas de funcioanamento. O rádio amador e o telefone agilizaram e encurtaram a distância de comunicação entre as pessoas quando comparados ao correio físico, mas a comunicação se dá entre duas pessoas apenas.

Com a internet e as tecnologias digitais com preços acessíveis surgiu uma nova possibilidade, a comunicação de muitas pessoas para outras muitas pessoas, com os fúrums e wikis, por exemplo, e a comunicação de uma pessoa (ao invés de uma instituição) para muitas outras, com as malas diretas eletrônicas, as plataformas de áudio e vídeo e as redes sociais. Essa democratização das tecnologias e capacidade de transmissão, pelo menos em seus primórdios, tornou obsoleto o ‘corpo editorial’. Enquanto em um jornal ou TV um grupo de pessoas decide o que é pauta, mas sempre dentro do que os patrocinadores permitem, afinal precisam se manter viáveis, com as plataformas digitais bilhões de pessoas passaram a poder transmitir o que quiririam. Nesse novo contexto (ainda antes dos algoritmos), frequentemente as pessoas mostravam que seus interesses não se alinhavam com o dos corpos editoriais. O volume de publicações de textos, fotos e vídeos deu oportunidade para que um número grande de talentos se revelassem, mas também aumentou deu visibilidade a um número grande de pessoas rasas e odientas. De toda forma, os custos de articulação e organização cairam tanto que a Primavera Árabe foi organizada por meio do Facebook. Mas dali em diante, com a elite financeira e política consciente do poder de articulação e organização que as redes trouxeram para a população, vimos a escalada dos algoritmos e censura dentro das redes sociais.

A comunicação é uma função importantíssima para nossa articulação de autonomia e dignidade no campo. No livro Colapso e Êxodo Urbano: Construindo Vidas Resilientes e Autônomas no Campo argumento que junto com a mobilidade, nosso direito de ir e vir, precisamos assegurar também a mobilidade das idéias. Isso implica que se as redes sociais passaram a fazer parte da forma como comunicamos, duas coisas se fazem mais necessárias e urgentes entre outras tantas. Primeiro, que estejam à serviço das pessoas e do bem comum e não da agenda de controle da elite financeira. Segundo que sejam resistentes à censura. Para que as redes sejam realmente úteis e edificantes, é necessário que a maioria das pessoas tenha mais sede por conhecimento e educação para melhorar os lugaes onde vivemos do que carência de tornar famosa em um mundo cada vez mais fútil. E para que as plataformas sejam resistentes à censura, é preciso que entendamos uma premissa básica. A nossa liberdade não termina onde a da outra pessoa começa, isso é uma falácia da sociedade de consumo! Nossa liberdade só alcança até onde alcança a liberdade dos nossos pares.

Os algoritmos e as IAs garantem o poder de controle das elites financeiras

Vejam como nosso comportamento mudou. Eu tenho um site com dezenas de artigos escritos e mais de 200 podcasts gravados. Há uns anos atrás uma busca no navegador bastaria para encontrar o que escrevo e gravo. Só um intermediário, o mecanismo de busca. O RSS (Really Simple Syndication) também era mais usado antes das redes, permitindo uma curadoria personalizada do que queríamos ler e acompanhar. Ainda é possível usar essa ferramenta e acompanhar o que queremos ler, nos livrando da engenharia social e manipulação de comportamentos promovidas pelos algoritmos e IAs corporativos. Por que não usamos? Porque a maioria de nós já está completamente adestrada a receber passivamente informações nocivas e manipuladoras. 

Vou seguir usando o site como lugar onde concentro minhas publicações e a mala direta como maneira de informar você que acompanha meu trabalho que algo novo foi publicado. Mas, se você quiser começar a treinar como se informar e educar de forma livre da engenharia social corporativa, o RSS e as malas diretas são um bom começo. 

Eu venho procurando alternativas resistentes à censura há alguns anos. Isso porque durante a onda de censura na pandemia minhas contas no Instagram e FaceBook foram censuradas. Ao contrário do que muita gente passou a dizer, eu não sou “negacionista” ou “antivax”, mas na minha visão a escolha deveria ser pessoal, o prontuário médico de cada um sigiloso e os direitos à autonomia corporal e ao consentimento informado garantidos. Também fui contra o passaporte sanitário porque minhas pesquisas me informaram que o medicamento oferecido não impedia nem infecção, nem transmissão (reforçando que deveria ser uma opção médica pessoal). 

Em função do meu posicionamento público eu sofri várias denúncias, a grande maioria de pessoas à esquerda do espectro político partidário que dizem ‘acreditar na ciência’. Curiso que muitas dessas pessoas pensam que só o ‘Tiozão do Zap’ é manipulado. Como estavam ‘acreditando na ciência’ mesmo quando as patentes são fechadas e a metodologia científica usada não é pública? A Pfizer, mesmo depois de ser processada tentou reter os registros de sua metodologia sigiloso por 70 anos. Por quê? Ciência não é religião, não pede crença, pede replicabilidade do método e resultado… Essa tentativa de cancelamento quase me levou à falência na época e as políticas de confinamento, de fato, quebraram mais de 700 mil pequenos negócios no Brasil e no mundo todo promoveram a maior transferência de renda da classe trabalhadora para os superricos na História. Esses acontecimentos reforçaram em mim a necessidade de canais de comunicação sem censura e a necessidade de promover meus serviços para pessoas mais alinhadas com a busca por autonomia e com a pertença ao território do que ao campo ideológico.

Enfim, abri contas nas plataformas de vídeo Odysse e Rumble buscando uma alternativa ao YouTube e na mesma época passei a buscar alternativas para as redes sociais. Mas qualquer que seja a ‘rede’, se não temos vidas dignas e não temos tempo livre para estar com as pessoas amadas, estamos desarticulando o encontro, a relação humana direta e tornando a praça pública e o ‘mercado’ obsoletos. As plataformas corporativas, então, trazem dois problemas graves. Elas dificultam a atuação dos profissionais que não se alinham com o mundo que querem promover (onde as pessoas são completamente controladas) e como viciam as pessoas, o uso dessas redes ao invés de nos conectar, nos arranca do tecido social.

Mas então, quais seriam as alternativas? 

Primeiro, precisamos ter um contexto expecífico para o uso da internet e das redes sociais. Qual é o nosso propósito com esse uso? Quais são nossos valores? Sem ter respostas profundas para essas perguntas, terminamos na situação atual: nós somos os produtos nas redes sociais e trocamos autonomia e privacidade por vulgaridade e carência de reconhecimento e aprovação de estranhos! Depois precisamos entender se a adoção dessas tecnologias realmente melhoram nossas vidas e como fazem isso. Nunca usamos tanta tecnologia, nunca a informação foi tão acessível e ainda assim nunca estivemos tão polarizados e ignorantes. É a primeira vez na História da humanidade que as gerações mais novas tem um QI menor do que o dos seus pais.

Quando comecei a externalizar minha insatisfação com as redes sociais corporativas, o Fediverso se tornou umas das alternativas mais recomendadas pelos colegas à esquerda do espectro político. O Fediverso já tem um bom número de usuários e, pelo uso de protocolos, permite que nossos textos, imagens e conexões com outras pessoas possam ser reconhecidos em plataformas diferentes. Mas ainda é mantido por servidores administrativos que podem banir usuários e os servidores que se conectam à rede federada também podem ter seu domínio bloqueado.

Á direita do espectro político, a alternativa resistente à censura que mais cresce é o NOSTR (Notes and Other Things Transmited by Relays), criado pelo programador brasileiro Fiatjaf e em grande parte financiado pelo co-criador do ex-Twiter Jack Dorsey. O NOSTR sua ‘relays’ (estações de retransimissão), tem integração com uma rede de pagamentos que usa Bitcoin e assim como o Fediverso, não tem um algoritmo então cada pessoa vê em sua tela o que foi postado pelas pessoas que escolheu acopanhar. Também como o Fediverso, o NOSTR permite que tudo que você publicou seja visto em difrentes ‘clientes’ (análogos aos aplicativos e plataformas.

Pensamos em ‘alternativas’ porque já nem concebemos mais não ter as redes sociais. E embora muitas pessoas não consigam mais viabilizar seus trabalhos sem uma presença forte nas redes sociais, nossas vidas eram bem melhores quando elas não existiam. Liamos mais, éramos mais despojados, espontâneos e autênticos. Hoje uma geração inteira sofre de ansiedade e medo porque tudo é gravado e transmitido ‘ao vivo’.

Ainda assim, talvez conseguir migrar das redes corporativas para as descentralizadas seja um caminho de transição para redefinirmos o papel das tecnolgias em nossas vidas. Isso apenas se tivermos a consciência para boicotar as redes corporativas mesmo que implique alguns sacrifícios e disciplina para enfrentar a abstinência das descargas de dopamina causada pelos algoritmos viciantes por uns dias. Até lá, um desafio grande permanece: como alcançar as pessoas que se alinham com nossos valores para viabilizarmos vidas, uma economia doméstica informal e pequenos negócios que se alinham com nossa busca por autonomia?

Como não deixar as redes substituirem o que realmente importa?

Uma respostas que encontrei para minha situação foi escrever o livro Colapso e Êxodo Urbano. Mesmo tendo recebido avisos de que o mercado editorial não tem mais viabilidade, de que a população em geral e especialmente as pessoas do campo não leem mais, eu resolvi escrever. A alternativa, buscar ser coerente com a ética ecológica e a construção de uma cultura de permanência nas redes sociais, é bem pior! Exige adaptar o formato para ter alcance e o formato talvez importe mais que a substância nesse caso porque ele é idiotizante.

Para cultivarmos autonomia no campo precisamos antes nutrir esse valor em nossas mentes e corações, precisamos aspirar uma vida livre e estar cientes que isso demanda trabalho. Acho que nunca precisamos tanto da companhia de bons livros. As redes sociais não entregaram a prometida conectividade. Ao contrário, nos polarizaram e trouxeram uma falsa noção de alcance e relevância para opniões geralmente rasas. Elas também esvaziam nossa agência porque depois de postar nossas manifestações de indignação, depois de compartilhar tudo de errado que está acontecendo no mundo todo, a maioria das pessoas (até por vulnerabilidade econômica) segue dependendo das mesmas estruturas e instituições corruptas e opressivas. Depois do advento dos algoritmos e das IAs e a capacidade de controle e engenharia social que trazem para as elites financeiras e políticas, a atuação online se tornou uma válvula de escape artificial para nossas necessidades e anseios reais.

Talvez o alcance dessa estratégia de interação por meio da mala direta e da publicação de livros realmente seja menor, mas não estou buscando ‘a grande escala’ ou o status de ‘celebridade digital’. Estou buscando me viabilizar na pequena escala com interações de qualidade com as pessoas e o território imediados. E enquanto faço isso vou descobrindo e me alinhando com as pessoas que leem, que refletem e conversam sobre livros e ideias e que estão se articulando para construir vidas resilientes e autônomas no colapso que vivemos.

De novo, porque esses artigos são um teste dentro de uma estratégia de articulação mais ampla, talvez você tenha recebido este por indicação de alguém. Isso seria indicativao de um ótimo resultado, mas eu só vou saber se está funcionando, se você me escrever com seus comentários e perguntas. E vai ser com base no interesse de quem está lendo que vamos desenhar uma pauta de interesse coletivo para essa mala direta.

Meus agradecimentos a todas as pessoas que tem escrito em solidariedade depois que compartilhei que estou passando por uma estafa bem difícil.

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