“Se a poluição é o preço do desenvolvimento, estamos dispostos a pagá-lo”. Uma Genealogia da Política Ambiental Brasileira por Walter Steenbock

Se a poluição é o preço do desenvolvimento, estamos dispostos a pagá-lo.

Esta foi a postura do governo brasileiro na primeira conferência mundial sobre meio ambiente, ocorrida em Estocolmo, em 1972. Há quase meio século, portanto, no frenesi de seu milagre econômico, o Brasil ficou marcado não só como grande poluidor, mas como interessado em pagar qualquer preço pelo desenvolvimento (e disso a imensa dívida externa contraída neste período não deixa dúvidas).

Naquela época, não havia Relatório Brundtland e ninguém ainda havia pensado no tripé econômico, social e ambiental de um tal conceito de desenvolvimento sustentável. Não havia Agenda 21, nem Protocolo de Kyoto, nem muito menos Acordo de Paris. O mundo estava ensaiando a elaboração de acordos internacionais sobre meio ambiente. Mesmo assim, a postura radical brasileira foi suficiente para a proposição de sanções internacionais importantes, cobrando do governo federal a implementação de uma política ambiental.

E foi assim que, nove anos depois, em 1981, criamos a nossa Lei no 6.938/81 – a Política Nacional de Meio Ambiente. Paradoxalmente, ainda sob regime militar criamos uma das legislações ambientais consideradas, até hoje, das mais progressistas e mais capazes de associar conservação da natureza e desenvolvimento. E, literalmente (e infelizmente), apenas para inglês ver.

Os ingleses e o mundo inteiro viram e nos livramos das sanções, muito embora a falta de intenção de implementar a tal política, manifestada pela quase inércia de sua regulamentação até o fim do regime militar. Porém, querendo ou não, tínhamos então uma lei federal sobre o tema, que ensejava sua implementação.

Em 1988, a maior parte dos princípios e diretrizes da Política Nacional de Meio Ambiente encontraram reflexo em dispositivos da nova Constituição Federal. Todavia, faltavam instituições que viessem a implementar tais dispositivos. Então, logo em 1989, cria-se o IBAMA e nos primeiros anos da década de 90 foram criados a maior parte dos órgãos estaduais de meio ambiente.

Mas para a implementação da Lei faltava, ainda, dois componentes fundamentais: gente e regulamentos. Ou seja, o quadro de servidores do IBAMA e dos órgãos estaduais de meio ambiente era imensamente reduzido para a missão a que se propunham e, como se não bastasse, não era suficiente que a Constituição declarasse, por exemplo, que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, que seria necessário a elaboração de Estudos de Impacto Ambiental para o licenciamento de empreendimentos com significativo impacto ambiental ou que haveria sanções a crimes ambientais. Para a atuação dos órgãos ambientais, era necessária a regulamentação destes dispositivos.

Com muito esforço e articulação, foi basicamente nos últimos anos da década de 90 que ocorreu a construção de regulamentações importantes. Foi somente entre 1997 e 2000 que finalmente criamos instrumentos legais para detalhar procedimentos e regulamentações em relação à gestão de recursos hídricos, ao licenciamento ambiental, à educação ambiental, aos mecanismos de sanções a crimes ambientais e à criação de Unidades de Conservação, entre outros temas abordados pela Lei 6.938/81 e pela Constituição Federal. Há esta época, nossa Política, elaborada para inglês ver, já atingia a maioridade.

Ainda faltava (e ainda falta) gente suficiente para colocar em prática, de forma eficiente, os tais dispositivos. Entretanto, ao menos em nível federal, os primeiros anos do novo milênio viram a quantidade de servidores do IBAMA praticamente triplicar, em sucessivos concursos públicos (os primeiros da instituição). Em processos de seleção cuja relação candidato/vaga era de centenas de candidatos para cada vaga, o IBAMA veio a receber uma grande turma de novos servidores, a maioria jovens, de diferentes formações e muitos com pós-graduação, que se embrenharam nos quatro cantos do país.

O licenciamento ambiental federal deixou de ser cartorial; grandes operações de fiscalização foram executadas, com foco especial no combate ao desmatamento; a educação ambiental superficial passou a ser educação para a gestão ambiental pública. Nada novo. Apenas estava se começando a colocar massivamente em prática o que estava escrito, há mais de 20 anos, na Lei. E os avanços foram incontáveis.

Em relação à gestão de Unidades de Conservação (UCs) federais, os avanços se fizeram mais notáveis a partir de 2007, com a criação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Com a missão de “proteger o patrimônio natural e promover o desenvolvimento socioambiental”, o ICMBio responde pela implementação, gestão, proteção, fiscalização e monitoramento de, atualmente, 335 UCs instituídas pela União sob sua responsabilidade – que correspondem a cerca de 10% do território continental e 26% da zona econômica exclusiva marinha. As UCs federais abrigam doze categorias de manejo – desde as Áreas de Proteção Ambiental, em que prevalecem as medidas de ordenamento territorial, às Reservas Biológicas, desenhadas para preservar patrimônio biológico. Concursos públicos e muita luta pela sua estruturação trouxeram aportes importantes ao ICMBio, que hoje é considerado, mundialmente, como órgão de excelência na gestão de Unidades de Conservação.

Fazer a lei funcionar, entretanto, gera reação a quem não a segue. Não foram poucos os grandes produtores rurais que passaram a se mobilizar para a flexibilização “destas novas leis do IBAMA”; não foram poucos e nem pouco poderosos os grandes empresários que passaram a se mobilizar para a “flexibilização do licenciamento ambiental”; e não foram poucos os políticos que recepcionaram estas demandas, ou mesmo que foram autuados em crimes ambientais. É o caso, por exemplo, do próprio presidente eleito, que fora multado por estar pescando ilegalmente em uma Estação Ecológica.

O autuado virou presidente, quase meio século depois da criação da nossa Política Nacional de Meio Ambiente; e justamente quando, somente há poucos anos, a mesma passa ser mais efetivamente implementada. Como promessas de campanha, a redução de direitos aos quilombolas, nenhum centímetro a mais de terra para os indígenas, garantias de políticas de expansão da fronteira agrícola na Amazônia e acabar com a “indústria de multas” do IBAMA e do ICMBio. Já após eleito, mas antes ainda da posse, a proposta de agregar o Ministério do Meio Ambiente na pasta da Agricultura (seja oficialmente ou condicionando o funcionamento da agenda ambiental a esta pasta), a desistência do Brasil em sediar a Conferência do Clima da ONU em 2019, as declarações de rompimento com o Acordo de Paris e as declarações irritadas de seu fiel escudeiro sobre o quanto a Noruega precisa aprender conosco a cuidar do ambiente são apenas amostras do que está por vir.

Para quem estudou história, sabe que ela é uma roda gigante. É óbvio que virão sanções internacionais às novas versões da postura de que “se a poluição é o preço do desenvolvimento, estamos dispostos a pagá-lo”, sanções estas adaptadas a uma organização mundial muito mais complexa e condicionada por acordos que nem se sonhava existir a meio século atrás. Economicamente, portanto, o desastre será grande e novamente seremos pressionados à maior responsabilização ambiental. E o faremos, em médio prazo, para inglês ver ou não.

Porém, quando o fizermos, talvez não faça mais sentido, já que o desastre maior será ambiental e social e, em muitos aspectos, irreversível. Levamos quase 50 anos para estruturar o funcionamento de uma política ambiental. Neste período, apesar de todos os esforços, vimos o desastre de Mariana, vimos a expulsão de indígenas de suas terras, vimos o imenso desmatamento da Amazônia… agora, estamos prestes a tornar regra o desastre, e não o seu controle. E, muito provavelmente, não teremos mais tempo e nem capacidade social ou institucional para reconstruir o que será destruído.

Walter Steenbock é doutor em ciências pela Universidade Federal de Santa Catarina e leciona disciplinas relacionadas com a Legislação Ambiental, Avaliação de Impactos Ambientais e Política Ambiental. Walter também é pesquisador e autor com interesse especial pela agroecologia, agricultura familiar e uso de sistemas agroflorestais para recuperação de áreas degradadas. Desde 2002, Walter tem atuado como analista ambiental do IBAMA e posteriormente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Árvores nos SAFs da Fazenda Bella

Área mostrando a evolução de 2 anos de um SAF estabelecido usando a Agricultura Sintrópica de Ernst Gotsch.

Como parte do projeto de desenvolvimento da Fazenda Bella, as plantas e árvores listadas aqui atendem necessidades específicas da nossa propriedade (em relação ao clima, solo, disponibilidade de água, ordem de sucessão ecológica, ventos predominantes, queimadas, etc.). A lista, portanto, constitui apenas um exemplo (ainda em desenvolvimento) e não deve ser vista como ‘manual prático’ a ser seguido fora de contexto. Muito embora tenhamos organizado a lista com base na função principal de cada árvore ou planta, muitas delas tem funções variadas.

Nota: A lista abaixo foi baseada nos livros Permaculture: A Designer’s Manual e Introduction to Permaculture e nas notas dos cursos feitos com o Ernst Gotsch e Juan Pereira (entre 2014 e 2016).

Árvores fixadoras de nitrogênio
Essas árvores também são chamadas de leguminosas (da família Fabaceae) e ajudam na recuperação do solo, acúmulo de biomassa e fertilização de outras árvores e plantas por meio da poda e cobertura do solo.

  • A Acácia auriculiformis é uma boa pioneira para cerrados e solos tropicais degradados. Essa acácia resiste bem à gramas e capins invasores, restaura a fertilidade do solo, gera madeira para lenha, é resistente ao fogo e serve de apoio para o crescimento de outras árvores. Ela também pega bem por mudas de corte e semente e é amplamente usada como árvore ornamental por sua sombra.
  • A acácia mangium tem características semelhantes a auriculiformis, mas tem o tronco longilíneo e, por tanto, é mais apropriada para empreendimentos agroflorestais uma vez que cumpre a função de pioneira ajudando no estabelecimento de outras árvores e depois pode ser vendida como madeira.
  • A Árvore-do-Beija-Flor (Sesbania grandiflora) é uma pioneira de crescimento muito rápido, que pode ser cortada na base para rebrota, serve de adubo verde em plantações de arroz e revigora o solo. Cresce bem em grande variedade de solos e é amplamente usada em encostas erodidas. As folhas verdes (novas), vagens e flores são comestíveis (devem ser cozidas) e contém 36% de proteína bruta e as sementes chegam a conter até 40%. Tem uma vida de aproximadamente 20 anos porém não resiste muito bem ao frio e ventos fortes.
  • Calliandra (Calliandra calothyrsus) é uma árvore de porte pequeno (4 a 6 metros) e semi-decídua na estação seca. A calliandra pode ser podada na base para uso da tronco como madeira e lenha e os novos brotos podem ser usados para produção de cabos (de enxada, machado etc.).
  • Guanacaste (entrelobium cyclocarpum), como é conhecida na Costa Rica, é uma árvore de crescimento rápido (até 40 metros) que também fixa nitrogênio. Suas favas e folhagem podem ser usadas como forragem para o gado. Também pode ser usada para extração de madeira. A Guanacaste resiste bem as gramíneas.
  • Bracatinga (mimosa scabrella) é uma árvore pioneira que cresce na região sul do Brasil e vive aproximadamente 25 anos. A Bracatinga é uma das árvores com crescimento mais rápido no mundo, chegando até 5 metros de altura nos primeiros 14 meses de vida e até 15 metros nos primeiros 3 anos. É uma árvore que pode ser usada como forragem para abelhas, como cerca viva e lenha. Suas folhas fornecem bastante biomassa para criação de húmus e tem alto teor de nitrogênio, podendo ser utilizadas como adubo verde para outras árvores e plantas na agrofloresta.
  • Árvore-da-Chuva (samanea saman) é uma árvore de crescimento muito rápido (de 8 a 20 metros) comum da região amazônica e do pantanal mato-grossense. Suas favas podem ser usadas como forragem para o gado e sua madeira como combustível.
  • Ingá (inga edulis) ou Ingá de Brejo (inga vera) são árvores de aproximadamente 20 metros de altura, que fornecem uma fava com gomos açucarados comestíveis. Tanto as folhas como as vagens podem ser usados como forragem para o bovinos, ovinos e caprinos. Por ser uma árvore que cresce em áreas ribeirinhas também pode ser usada em áreas brejeiras.
  • Leucena (Leucaena leucocephala). Árvore de pequeno porte (até 3 metros de altura) que resiste bem a seca e também pode ser usada como forragem para o gado. Por ser uma árvore muito resistente e de fácil propagação a Leucena pode se tornar um problema se não for manejada corretamente.

 

Árvores e arbustos resistentes a queimadas
Estas árvores e arbustos devem ser plantados ao longo do setor com risco de queimadas (de acordo com a Análise de Setores) como forma de proteção às áreas de habitação e produção:

  • Amora (morus nigra, morus rubra, morus alba). A amoreira além de ser resistente as queimadas também serve como forragem para bovinos, caprinos e ovinos.
  • Planta-espelho (coprosma repens). Planta de origem Neozelandesa também usada como ornamental.
  • Costela-de-adão (monstera deliciosa). Também usada como ornamental e com frutos comestíveis a costela-de-adão resiste bem a queimadas.
  • Acácias, especialmente as mimosa, dealbata e mangium, além de fixar nitrogênio, resistem bem as queimadas.
  • Ingá (inga edulis) além de fixar nitrogênio, resiste bem as queimadas.
  • Canela-de-viado (Helietta apiculata benth). Além de fornecer madeira para cabos de ferramenta e carpintaria a canela-de-viado também resiste bem as queimadas.
  • Buriti (Mauritia flexuosa). O Buriti, que é muito comum em áreas de nascentes, ribeirinhas e alagadiças, também produz um fruto comestível do qual se pode também extrair um óleo medicinal (vermífugo) e resiste bem ao fogo.

 Plantas resistentes a queimadas
Assim como as árvores e arbustos, essas plantas devem compor os estratos de uma agroflorestal, porém devem ser usadas de forma a proteger os setores com risco de queimadas:

  • Agapanto (agapanthus africanus). Comumente usada como planta ornamental o agapanto serve de barreira natural para queimadas.
  • Batata doce (Ipoemoe batatas). A batata doce, além de ser um tubérculo comestível, também serve de forrageira que suprime ervas daninhas e ajuda a parar queimadas.
  • Confrei (Symphytum officinale). O confrei, além de ser uma planta medicinal (usada no tratamento de doenças gastrointestinais, inflamações e reumatismos), também retarda queimadas.
  • Inhame ou Cará (Colocasia esculenta). Além de ser um tubérculo muito nutritivo, o inhame também pode ser usado em barreiras contra queimadas.
  • Abóbora (nome comum de várias espécies da família Curbubitaceae). A abóbora, além de fornecer o fruto, também pode ser usada como planta forrageira que suprime ervas daninhas e resiste as queimadas.
  • Girassol (Helianthus annuus). O girassol além de prover sementes comestíveis e óleo (extraído das sementes) também ajuda a impedir o avanço de queimadas.

 Árvores com função múltiplas
Estas árvores servem primariamente para extração de madeira, como forragem de abelhas, como plantas medicinais e comestíveis (fruto, folhas ou favas)
Nota: Se o foco do SAF for a extração madereira e o plantio pouco diversificado, essas árvores não devem ser usadas nas áreas com maior risco de queimadas.

  • Aroeira-brava (Lithraea molleoides). Usada como medicinal e para extração de madeira.
  • Jacarandá-mimoso (Jacaranda mimosifolia). Usado para extração de madeira e forragem de abelhas.
  • Angico Branco (Anadenanthera colubrina). Usado para extração de madeira e forragem de abelhas.
  • Jatobá-da-Mata (Hymenaea courbaril). Usado para extração de madeira, forragem de abelhas e fruto comestível (mais comum na fabricação de farinhas).
  • Pau Balsa (Ochrama pyramidal). Usado para extração de madeira e forragem de abelhas.
  • Barú (Dipterix alata). Árvore comum do cerrado com fruto comestível (em farinhas e doces), também usado como forragem para o gado. Apesar de não ser da família Fabaceae, o Barú também fixa nitrogênio.
  • Coco (Cocos nucifera). Além do fruto o coqueiro também fornece fibra para fabricação de sextas e outros utensílios.
  • Moringa (moringa oleifera). A moringa é fornece folhagem e favas comestíveis de altíssimo teor nutritivo. As sementes são utilizadas no tratamento de água e o óleo extraído da semente é considerado medicinal (usado como adstringente e para o tratamento de pele).

As Árvores e Suas Transações Energéticas

As Árvores e Suas Transações Energéticas
No livro Permaculture: A designer’s Manual (1988), Bill Mollison explica como as árvores tem interações complexas com a radiação (luz solar), a precipitação (por chuva ou condensação), o vento e os gases da atmosfera. O conhecimento dessas interações energéticas entre as árvores e meio-ambiente a sua volta é fundamental para que o produtor rural possa escolher a localização, formato e composição da agrofloresta. Com esse conhecimento o produtor pode otimizar ou amenizar condições climáticas (ventos, temperatura, humidade, etc.) em sua casa e agrofloresta, pode melhorar a retenção de água em sua região (influenciando as precipitações locais e humidade do terreno) e até reverter processos de salinização do solo. Compartilho abaixo, de maneira bastante resumida, algumas dessas interações, para informações mais detalhadas veja o capítulo Trees and Their Energy Transactions do livro Permaculture: A designer’s Manual (1988: 137-151).

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A produção de Alimentos em Sistemas Agro-Florestais (SAFs)

O uso de Sistemas Agroflorestais, ou SAFs, para produzir alimentos, fibra, madeira e combustíveis para os humanos é muito mais antigo que a classificação e sistematização científica da prática. Segundo Bill Mollison (1988) apenas 6 civilizações em toda história da humanidade foram, de fato, sustentáveis. Todas elas tinham uma conexão íntima e viviam integradas com a natureza a sua volta. Essas civilizações também praticavam formas de agricultura que hoje chamamos de Agrofloresta ou Agro-ecologia.

Sistemas Agroflorestais e as civilizações do passado
Um exemplo de uma civilização com métodos de produção alimentar sustentável foram os Aztecas. Na América Central algumas comunidades indígenas ainda fazem uso das ‘chinampas’, uma prática herdada dos Aztecas. As chinampas são pequenas ilhas artificiais de aproximadamente 500m2 que funcionam como canteiros elevados. Esses canteiros são construídos em lagos rasos criados em terraços alagados. Os canteiros eram construídos com junco, preenchidos com lama e lodo do fundo do lago e fixados ao fundo estaqueando-se mudas de Salgueiro. Esse sistema, completamente sustentável, já fazia uso de árvores com hortaliças e plantas medicinais desde a América Pré-colombiana (Mollison, B. 1988: 462-3).

No Havaí o sistema de produção agrícola Ahupua`a (chamado por Bill Mollison de Sistema

Esse sistema é chamado de Ohana por Bill Mollison em seus livros.

Ohana) combinava áreas de preservação de florestas ao topo das montanhas vulcânicas, com florestas (regiões) manejadas intensamente ao arredores das vilas nas áreas intermediárias (intermediações), com florestas de coqueiros na costa (como defesa contra tempestades tropicais e tsunamis). Esse sistema também faz uso dos córregos que descem das montanhas e combina terraços alagados para a criação de peixes e crustáceos com o cultivo de diversas plantas e árvores frutíferas. Além disso, esse sistema também manipula a costa criando lagos de água salgada de acordo com o fluxo das marés para facilitar a pesca. O sistema Ahupua`a, é outra maneira muito antiga e sustentável de se produzir alimentos, fibra, madeira e combustível (Mollison, B. 1988: 278 e 459).

 

Na Amazônia Pré-Colombiana várias civilizações indígenas manipularam as florestas e o solo para produzir alimentos para populações muito mais numerosas do que se tinha notícia. Um exemplo disso é a Terra Preta, um solo profundo e riquíssimo em nutrientes encontrado em vários pontos da Bacia Amazônica, que hoje se sabe era deliberadamente criado para apoiar a agricultura da época. O livro 1491: Novas Revelações sobre as Américas antes de Colombo de Charles C. Mann, por exemplo, também menciona outras evidências como uso de estradas, manipulação do solo, agricultura avançada (e sustentável) para apoiar o argumento de que uma civilização sofisticada e numerosa, na casa dos 7 milhões de habitantes que segundo ele, vivia na Amazônia. Mann defende que grande parte da Floresta Amazônica foi na verdade criada por civilizações indígenas. Outro exemplo de práticas agroflorestais antigas que antecedem a classificação e abordagem ocidental (Mann, C. 2005)

Foto comparando a quantidade (e profundidade) de húmus na Terra Preta e no solo comum.

Os SAFs nos dias atuais
Em 1929 J. Russel Smith escreveu o livro A Colheita das Árvores: Uma agricultura Permanente (Tree Crops: A Permanent Agriculture) já preocupado com os efeitos devastadores causados pela aragem do solo e cultivo de grãos. A obra de Smith teve grande influência em ambientalistas e líderes da agricultura regenerativa. David Holmegren e Bill Mollison, criadores da Permacultura, por exemplo, escreveram o livro Permaculture 1 sob grande influência da obra de Smith. Robert Hart, que escreveu Jardinagem Florestal: Cultivando um Paisagismo Comestível (Forest Gardening: Cultivating an Edible Landscape) em 1991 e que teve sua obra referenciada por Bill Mollison em Permaculture: a Designer’s Manual (Permacultura: O Manual do Designer) também sofreu influência direta da obra de Smith (Smith, J. 1929)

Robert Hart foi o pioneiro do que hoje chamamos de agrofloresta em regiões de clima temperado (Hart, R. 1991). Hart explicou em seu livro que uma floresta se estrutura basicamente em 7 camadas:

  1. a copa,
  2. a camada de árvores mais baixas,
  3. a camada de arbustos,
  4. uma camada de plantas herbáceas,
  5. uma camada de plantas forrageiras,
  6. uma camada subterrânea ou de tubérculos,
  7. uma camada vertical com vinhedos e trepadeiras

Seguindo esse princípio, Hart desenvolveu uma paisagem comestível (agrofloresta) à partir de um pomar de maçãs e peras substituindo a maioria das plantas não comestíveis presentes por espécies comestíveis, medicinais ou que fixavam nitrogênio ao solo. Hart acabou adotando uma dieta 90% vegana e praticamente só comia frutas, verduras e legumes produzidos na sua propriedade.

Ilustração retirada do livro Permaculture: A Designer’s Manual (Mollison, B. 1988).

O desenho acima mostra a possibilidade de preenchermos todas as camadas (ou estratos) de uma floresta com plantas comestíveis. Como exemplo, de baixo para cima, poderíamos ter: tubérculos (batata-dôce, gengibre, mandioca, etc.), plantas rasteiras (abacaxi, alface, batata, tomate, manjericão, etc.), arbustos e árvores de pequeno porte (café, cacau, mamão, etc.), árvores de grande porte (abacateiro, mangueira, jaqueira, etc.), na camada mais alta as palmeiras (castanha do Pará, pupunha, etc.) e as trepadeiras (maracujá, xuxú, bucha vegetal, etc.).

Ernst Gotsch, um geneticista botânico suíço naturalizado no Brasil, com mais de 30 anos de experiência em SAFs, criou sua própria classificação (Comunicação pessoal e anotações feitas em cursos). Segundo Gotsch, um SAF é constituído por 4 camadas:

  • Plantas de estrato baixo tem densidade espacial de 80% e são plantas que exigem menos luminosidade para crescimento e produtividade;
  • Plantas de estrato médio podem ocupar 60% da área e suportam o sombreamento pelas plantas de estrato alto no percentual adequado;
  • Plantas de estrato alto podem ocupar até 40% da área, assim a luz permeia e atinge as plantas de estrato médio e baixo;
  • Plantas emergentes, por sua vez, ocupam 20% da área e recebem a luz do sol em toda sua copa.

Nessa classificação da Agricultura Sintrópica de Ernst Gotsch, entretanto, é importante não confundir os estratos (que estão relacionados com a quantidade de luz que as plantas demandam) com ciclos (que estão relacionados com o tempo de vida e colheita das plantas). Cada ciclo (de idade) contém todos os estratos. Por exemplo, no ciclo Placentário I podemos fazer um consórcio onde o Nirá seria o estrato baixo, a rúcula estrato médio, o alface estrato alto e o milho emergente. No Ciclo Placentário II podemos plantar a batata doce como estrato baixo, o inhame como médio, mandioca como alto e o quiabo como emergente. E daí por diante compondo todos os estratos em cada ciclo. Porque essa abordagem lida com várias dimensões espaciais (estratos) e temporais (ciclos), ela otimiza a área de produção em até 400%.

Ernst Gotsch manejando uma SAF

Sucessão Ecológica
Os processos por meio da qual a natureza estabelece os ecossistemas que dão suporte a vida no planeta se chamam sucessão ecológica. É a sucessão ecológica que se encarrega de criar as condições ideais para o estabelecimento da biodiversidade, que por sua vez gera biomassa, cobertura de solo e nutrientes suficientes para o que sistema possa se tornar mais complexo ao longo de sua evolução. A sucessão ecológica primária acontece pela primeira vez em áreas completamente estéreis (por exemplo, depois de erupções vulcânicas, terremotos, eras glaciais, etc.) e pode levar milhares de anos até que o sistema consiga apoiar um ecossistema complexo como uma floresta climax (ou primária). A sucessão ecológica secundária ocorre quando uma área de floresta é degradada pela ação humana (para agricultura, pecuária ou moradia) ou natural (incêndios, desabamentos de terra, tempestades violentas, etc.) e depois é deixada para se recuperar sozinha. Neste caso, o ambiente não é deixado completamente estéril e quando a biodiversidade local ainda consegue se recuperar, a sucessão ecológica pode regenerar o ecosistema ao ponto de formar uma floresta secundária.

Existem algumas classificações diferentes para os estágios da sucessão ecológica. Na sua classificação mais básica e comum encontramos: plantas pioneiras (de crescimento rápido, que se desenvolvem bem a céu aberto e tem tempo de vida curto), secundárias (de crescimento um pouco mais lento, que necessitam de sombra para se desenvolver e com tempo de vida mediano) e climax (plantas de ciclo de vida longo que só se desenvolvem quando a floresta primária já está formada). Em outra nomenclatura bastante utilizada encontramos: capoeirinha (estágio inicial de regeneração), capoeira (estágio médio de regeneração), capoeirão (estágio avançado de regeneração) e floresta secundária . Existe ainda a classificação de Ernst Gotsch (1997) que descreve a função das plantas e seus ciclos de vida nos processos que utilizam os Sistemas Afro-florestais para a regeneração de áreas degradadas. São estas: Placenta I (com plantas que vivem até 6 meses), Placenta II (até dois anos), Secundária I (até 10 anos), Secundária II (até 25 anos), Secundária III (até 80 anos) e Climax (mais de 80 anos).

Independente do tipo de classificação ou abordagem adotadas, é o entendimento das camadas estruturais e da sucessão ecológica que nos permite plantar de uma só vez todos os elementos que fazem parte da sucessão ecológica. Nos SAFs as árvores pioneiras, as de estrato médio, as fixadoras de nitrogênio, as que formam a barreira de vento, as que geram matéria orgânica para biomassa e as de clímax, são plantadas com as plantas forrageiras, as hortaliças, os tubérculos e os grãos. Essa estratégia, juntamente com as práticas de poda e cobertura de solo, nos permite acelerar os processos naturais de sucessão ecológica regenerando áreas degradadas enquanto produzimos alimentos, fibra, madeira e combustíveis.

Bill Mollison, que criou a Permacultura junto com David Holmgren, no entanto, alerta que o estabelecimento de agroflorestas nas regiões tropicais só deve ser feito como forma de reabilitar áreas degradadas pela ação do homem como no caso de pastagens feitas por queimadas e pastoreio, de desmatamentos causados pela estração de madeira ou para o cultivo de monoculturas (Mollison, B. 1988: 293-294).

Parte das informações contidas nessa tabela foram compiladas de Gandolfi, R.; e Rodrigues, R. (1996) e Cruz, E. (2012).

Usando animais no estabelecimento de agroflorestas
O contexto holístico (social, ambiental e financeiro) dentro do qual desenvolvemos a Fazenda Bella exclui a utilização de fertilizantes e pesticidas químicos e sempre que possível procuramos preparar o solo sem ará-lo. A utilização de animais no preparo do solo para a agrofloresta é uma alternativa comum e eficiente na permacultura e agroecologia. Em áreas onde muitos arbustos densos e espinhosos são um problema, é possível cercar a área e usar cabras para desbastar a vegetação indesejada. Após a pastagem e romaneio severos da área pelo rebanho fica muito mais fácil limpar o terreno. A adubação do solo, em grande parte, já se deu naturalmente pela presença dos animais e o estabelecimento da agrofloresta pode ser feito mais facilmente.

Em situações onde pretendemos estabelecer uma agrofloresta em áreas de pastos degradados, uma técnica semelhante pode ser adotada cercando galinhas ou porcos (boa opção em áreas compactadas) por um determinado tempo antes de começarmos o plantio. Para mais informações sobre esse tipo de solução veja “Sistemas de aragem animal” em Mollison (1988: 299-300). Em casos extremos de degradação e compactação do solo, no entanto, a correção do solo é feita uma única vez com pó de rocha e adubos orgânicos, juntamente com a aragem e encanteiramento para facilitar o plantio e melhor estabelecer a agrofloresta.

 A escolha das espécies
Para cada árvore frutífera ou de madeira é necessário escolher espécies e cultivares de apoio, ou seja, que fixem nitrogênio, promovam a melhoria do solo ou sirvam de bio-acumuladores de nutrientes, para complementar o design da agrofloresta. Pomares ou agroflorestas devem ser compostos por:

  • árvores frutíferas ou castanheiras que sejam resistentes as doenças;
  • árvores para barreira de vento que não compitam por luz, água ou nutrientes;
  • árvores alternativas espaçadas que forneçam forragem para abelhas, insetos e pássaros que atuem como controle biológico de pestes.

Também é preciso definir como os estratos médios e baixo da agrofloresta (áreas sombreadas) serão utilizados. São alternativas comuns:

  • plantar adubos verdes ou forrageiras que fixam nitrogênio, como Trevo Branco (trifolium repens);
  • plantar espécies que sirvam de forragem para gansos, galinhas e ovelhas, por exemplo;
  • plantar espécies que sirvam para repelir insetos (nocivos) e gramas invasoras;
  • fazer o cultivo de hortaliças até que área seja sombreada pelas copas das árvores.

SAFs para subsistência familiar
No caso do estabelecimento de SAFs para subsistência familiar o plantio pode ser feito obedecendo a estrutura de camadas e sucessão natural, porém com distribuição aleatória no terreno. Vale ressaltar ainda que é sempre melhor plantar uma área de 1000m2 de maneira adensada do que plantar árvores e arbustos esparsos por uma grande área. Também é importante manter uma proporção de pelo menos 4 a 6 árvores grandes juntamente com várias outras plantas que fixam nitrogênio para cada 1000m2 de agrofloresta (Mollison, B. e Slay, R. 2011: 123-128).

SAFs para empreendimentos comerciais
Para o caso de empreendimentos comerciais o plantio em corredores facilitará o uso de maquinário para colheita e controle de gramas e capins invasores (Mollison, B. e Slay, R. 2011: 123-128). Nesse caso, para otimizar tanto a água da chuva como da irrigação, e principalmente em terrenos com inclinação mais íngreme, é importante que os corredores de plantio sejam estabelecidos em curva de nível.

Usando animais na agrofloresta
Uma vez que a agrofloresta esteja estabelecida é possível introduzir animais na área. A vantagem da utilização de animais em pastejo ou romaneio debaixo das árvores é o controle de pestes e adubação natural do terreno. Nesso caso, as galinhas ou porcos comem as frutas que caem no chão impedindo a proliferação de moscas e aproveitando um recurso que, de outra forma estaria perdido. Galinhas e/ou patos podem ser introduzidos depois que as árvores atingirem de 2 a 3 anos de idade em uma concentração de 120 a 240 por hectare sem que isso degrade os arbustos e plantas forrageiras abaixo da copa das árvores. Porcos podem ser introduzidos à partir de 3 a 7 anos do estabelecimento da agrofloresta. Depois de 7 a 20 anos do estabelecimento da agrofloresta é possível introduzir vacas e ovelhas. Nesse caso é necessário prestar atenção para esses animais não danifiquem o tronco das árvores (Mollison, B. e Slay, R. 2011: 125).

 

Referências:
A maior parte do conteúdo referente ao método de Ernst Gotsch (Agricultura Sintrópica) foi baseada em notas e comunicação pessoais tomadas durante cursos básicos e avançados em SAFs com Ernst Gotsch e Juan Pereira entre 2014 e 2016. Também foram usados os livros:

Götsch, E. O Renascer da Agricultura. Rio de Janeiro: ASPTA, 1995.

Götsch, E. Homem e Natureza – cultura na agricultura. – 2.ed. – Recife: Centro de Desenvolvimento Agroecológico Sabiá, 1997.

O artigo:

Götsch, E. 1997. Break-through in agriculture. Rio de Janeiro: AS-PTA, 1995.

Também usamos a tabela “Lista de espécies com os estratos que ocupam e ciclos de vida” que foi parte do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em Agronomia de Helber Cruz.

Cruz, E. Q. A. Implantação de sistema agroflorestal como proposta de desenvolvimento sustentável na agricultura familiar. Planaltina-DF, 2012. 98

Os livros Permaculture: A Designer’s Manual e Introduction to Permaculture foram usados para embasar o contexto histórico e técnico da implementação dos Sistemas Agroflorestais e os desenhos da análise de setores e zoneamento da Fazenda Bella.

Mollison, B. (1988). Permaculture: A Designer’s Manual. Tasmania, AU: Tagari Publications.

Mollison, B e Slay, R. (2011). Introduction to Permaculture. Tasmania, AU: Tagari Publications.

O livro de Robert Hart, Forest Gardening: Cultivating an Edible Landscape, apesar de focar em agroflorestas em regiões de clima temperados, é uma das maiores referências em termos do entendimento do funcionamento de uma agrofloresta em camadas ou estratos. O trabalho de Hart também influenciou a abordagem permacultural das agroflorestas.

Hart, R. (1991). Forest Gardening: Cultivating an Edible Landscape. UK: Green Books.

O livro de J. Russel Smith, Tree Crops: A Permanent Agriculture, foi um dos primeiros alertas sobre a degradação causada pelos métodos convencionais de agricultura baseados na aragem do solo e cultivo anual de grãos. Em 1929 Smith já alertava para os problemas de erosão e degradação ambiental causados por uma agricultura que ara e deixa o solo exposto entre safras anuais de grãos. Smith foi um dos primeiros proponentes de métodos de agricultura perenes, daí sua ênfase no uso de árvores para produção de alimentos.

Smith, J. (1929). Tree Crops: A Permanent Agriculture. New York: Harcourt, Brace and Company.

Mann tem alguns livros que revisam a história dos povos indígenas nas Américas antes da invasão europeia. Embora contundente e muitas vezes severamente criticado, Mann argumenta que as Américas eram muito mais populosas do que a história oficial reconhece. Segundo ele mais de 12% da área da mata Amazônica pode ter sido desenvolvida pela ação direta de seus habitantes, mais um exemplo de como as práticas agroflorestais são muito mais antigas do que a maioria dos historiadores e cientistas ocidentais reconhece.

Mann, C. (2005). 1491 New Revelations of the Americas Before Columbus. New York: Knopf.

O livro de James Lovelock, apesar de abordar um conceito que já fazia parte de várias culturas tradicionais, apresentou com bases e argumentos científicos para a comunidade ocidental a noção de que o Planeta Terra funciona como um grande organismo ‘Gaia’ com capacidades autoreguladores que propiciam os processos vitais no planeta.

Lovelock, J. (2000). Gaia: A new look at life on Earth. Oxford University Press. UK.

 

Os Pequenos Produtores Rurais contra o Agronegócio

Cortesia do Grupo de Reflexão Rural

O desafio imediato que a agricultura sofre é como aumentar a produção alimentar para dar conta da população que cresce enquanto regeneramos os ecossistemas que já degradamos até o momento presente. Essa virada precisa ser feita usando a mesma quantidade de terra, menos petróleo, menos água e menos nitrogênio em um cenário regido pelo aquecimento global, conturbações sociais e crise financeira. A situação atual de falta de acesso ao alimento produzido, perda de diversidade biológica, erosão do solo superior e as doenças causadas pelo uso de agrotóxicos e alimentos geneticamente modificados, por exemplo, mostram claramente que esse desafio não pode ser vencido pelo modelo de produção do agronegócio (Altieri, 2015).

A razão pela qual a fome no mundo continua crescendo não é porque não produzimos alimento o suficiente. O problema é o acesso à comida e a desigualdade social e econômica. Nos Estados Unidos e na Europa cada pessoa joga fora em média 115kg de comida por ano, enquanto aproximadamente 2/3 da população mundial em países em desenvolvimento ainda vive na pobreza, ganha menos de $3 dólares por dia e não consegue comprar alimento suficiente para sobreviver. A razão verdadeira porque temos fome no mundo é porque a agricultura é controlada por corporações. E essas corporações controlam o que (e como) os produtores devem produzir e o que os consumidores podem consumir (Altieri, 2015).

Além da produção de alimento pelo agronegócio só alimentar 30% da população mundial, ela usa de 70 a 80% das terras aráveis, 70% da água e 80% dos combustíveis fósseis usados na agricultura (Altieri, 2015). Agravando ainda mais a situação, segundo dados da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), a erosão causada pelo agronegócio perde em média 20 toneladas de solo por ano para produzir 500 quilos de alimento por pessoa.

Por essas razões, precisamos adotar sistemas de produção alimentar que não dependam de combustíveis fósseis e que sejam regenerativos. Ou seja, precisamos restaurar o meio ambiente enquanto produzimos alimentos. Sistemas de produção agroecológicos, por exemplo, são resilientes ao aquecimento global e são multifuncionais, provendo serviços ecológicos, sociais, culturais e econômicos. A agroecologia também pode se tornar a base para a criação de sistemas de produção e distribuição locais de alimentos (Altieri, 2015).

Os pequenos produtores rurais ao redor do mundo, em comparação com o agronegócio, produzem de 50 a 75% da comida que alimenta a população mundial usando apenas de 25 a 30% da terra arável, 30% da água e 20% dos combustíveis fósseis usados na agricultura (Altieri, 2015; Tittonell, 2014). O que é mais importante, os pequenos produtores rurais que fazem uso de métodos regenerativos como a agroecologia, por exemplo, são 20 vezes mais energeticamente eficientes do que o agronegócio e os grandes latifúndios. Enquanto o método mais eficiente do agronegócio tem que investir 1kcal para produzir 1.5kcal, um pequeno produtor rural investe 1kcal para produzir 30kcal de alimento por hectare. Outra informação importante é que enquanto produz grãos, tubérculos, frutas, castanhas, etc. o pequeno produtor rural ainda consegue fornecer proteína animal suficiente para alimentar 34 pessoas por ano por hectare (Altieri, 2015).

Tendo em vista a perda crescente das terras aráveis pelos métodos usados pelo agronegócio, a diminuição do petróleo disponível e a eficiência energética dos pequenos produtores rurais, fica evidente a necessidade de adotarmos métodos regenerativos para produzir e distribuir nossos alimentos. A Agroecologia, a Permacultura e a Agricultura Sintrópica são exemplos de abordagens, princípios e métodos regenerativos que nos ajudam a produzir nossos alimentos em harmonia com a natureza e de maneira energeticamente muito mais eficiente.

Referências:

Altieri, M. A. (2015). Agroecology: Who will feed us in a planet in crisis. Paper presented at the Earth Talk. https://www.youtube.com/watch?v=LKfiabQ-j0E

Tittonell, P. (2014). Feeding the world with Agroecology Paper presented at the TEDx Ede https://www.youtube.com/watch?v=iKtrwdsvIko

Nota: Para os que tem se interessado pelo meu trabalho com desenho regenerativo, durante o mês de setembro estarei no Brasil ministrando alguns cursos e oficinas.
– Entre os dias 1 e 9 de Setembro estarei ministrando o curso Agricultura Regenerativacom a equipe da Escola de Permacultura na Serra da Mantiqueira, MG. Esse curso oferece 3 módulos: Tomada de Decisão Holística, Planejamento de Propriedades Rurais com a Escala da Permanência da Linha Chave e Desenho Permacultural.
– Entre os dias 11 e 17 estarei com o amigo Sérgio Olaya ministrando o curso Agricultura Familiar e Empreendedorismo Socioambiental na Fazenda The Green Man em Inconfidência, RJ. Esse curso oferece 3 módulos: Tomada de Decisão Holística, Desenho Permacultural e Agricultura Sintrópica.
– Oficina de Desenho Permacultural na Chapada dos Veadeiros (a ser confirmado).