E se todo mundo parasse de comer carne?

“Você alguma vez já imaginou o que aconteceria se todo mundo adotasse uma dieta vegana e parássemos de criar animais para produção de carne?” Robyn Francis, uma das pioneiras do movimento mundial da Permacultura e diretora fundadora do primeiro colégio técnico de Permacultura na Austrália, recentemente escreveu um artigo refletindo sobre essa pergunta. Segue um resumo da tradução acompanhado de alguns de meus pensamentos e reflexões sobre o tema.

O debate acerca da ‘dieta ideal’ tem se acirrado nos últimos tempos na medida em que as pessoas se conscientizam dos problemas ambientais. E muito embora esse movimento de conscientização seja importante, frequentemente as discussões tem sido baseadas em argumentos sem a contextualização devida ou em meias verdades. Recentemente eu discuti o assunto em um artigo chamado O Vegetarianismo/Veganismo e a Agricultura Regenerativa. Vale à pena repetir dois de meus argumentos compartilhados no artigo anterior. Primeiramente o que causa o impacto ambiental não é a dieta onívora ou vegetariana/vegana, é a maneira como o alimento é produzido. Segundo, nosso foco e energia deve ser contra carne e grãos produzidos pelo agronegócio e não em combatermos uns aos outros criando ainda mais divisão em nossa sociedade. Encontrei muitas das minhas opiniões e preocupações no artigo da Robyn Francis e compartilho com ela o respeito pela opção de todos escolherem sua dieta livres de julgamento. Mas o artigo dela traz várias outras perguntas e reflexões importantes que comumente são deixadas de fora do debate e que se o argumento é ambiental, valem à pena serem discutidos. Segue abaixo a tradução de alguns trechos acompanhados de comentários.

Um artigo do jornal Inglês Independent, traz o seguinte argumento:

Se todos os animais fossem removidos do planeta, a quantidade de comida disponível para os humanos aumentaria 23%. Isso se dá porque os grãos que atualmente são produzidos para alimentar os animais poderiam ser consumidos pelos humanos. (ênfase do tradutor/autor)

Robyn, que acha esse tipo de raciocínio perturbador, incrivelmente egoísta e antropocêntrico, pergunta como os animais seriam “simplesmente removidos?

O argumento vegetariano/vegano, segundo a Robyn, é movido pela perspectiva emocional de salvar bilhões de vidas animais de um fim nos abatedouros para consumo humano. Os mais radicais, Robyn complementa, propõem o fim da ‘exploração animal’ em sistemas de produção de comida, lã, laticínios, produção de ovos ou mesmo como forma de transporte. Mas as perguntas que seguem no artigo dela são:

O que faríamos com os 23.000.000.000 de animais salvos? Afinal são 996 milhões de cabeça de gado, 1.9 bilhões de ovinos e caprinos, 980 milhões de suínos e mais 19 bilhões de galinhas (artigo original em inglês nesse link). Isso sem contar patos, perus, coelhos, alpacas, búfalos-asiáticos e outros animais criados para o consumo, reflete Robyn Francis.

Esses animais serão soltos? Os machos serão castrados para evitar que proliferem pelo planeta? Qual o custo de uma operação nessa escala? Os animais serão todos levados para santuários? Se os santuários forem a opção escolhida, as pessoas tem noção de qual seria a área de terra necessária para abrigar 23.000.000.000 de animais?

Essas perguntas são elementares para uma pessoa mais conectada com a simbiose entre humanos e animais e com o mundo da produção regenerativa de alimentos como a Robyn. Mais ainda, essas perguntas deixam claro a inviabilidade de opiniões e medidas radicais geralmente vindas de pessoas das classes mais abastadas e que vivem nos grandes centros urbanos com pouquíssimo contato com a produção alimentar. Outro alerta que Robyn faz é que assim como várias espécies de animais e plantas que evoluíra juntos para compor os ecossistemas do planeta,  humanos e animais criados para o abate se desenvolveram em simbiose nos últimos 10.000 anos. Várias das espécies foram desenvolvidas e, de uma forma ou de outra, fazem parte integral da vida no campo como alimento, transporte ou força de trabalho decorrem dessa relação simbiótica. Temos o direito de tomar decisões que levariam essas espécies a extinção?

Existem ainda outras implicações que Robyn compartilha como parte de suas reflexões. Produtos animais, que em grande parte são subprodutos do processamento deles como alimento, são peças chaves na produção de plásticos, cosméticos, camisinhas, cola de madeira, ácido esteárico (usado em fogos de artifícios e pneus), pasta de dente, tintas, canetas, shampoo e condicionadores, amaciante de roupas, borracha, químicos anti-congelantes (usados em países frios e em aditivo de radiadores), papel celofane, cimento, agentes químicos impermeabilizantes, discos de vinil, fósforos, argamassa (usada em construção), vidro, remédios, hormônios, enzimas e vitaminas, insulina, suturas cirúrgicas, colas de compensado, tecidos, tinturas, esmeris, papeis de parede, velas, materiais de escritório, chicletes, açúcar refinado, vidros, cerâmicas, cordas musicais, aromatizantes, gelatinas e o mais importante: o adubo natural fornecido para produção de frutas, verduras e legumes.

Robyn reconhece que alguns substitutos já existem, como couro e tecidos sintéticos feitos quase que exclusivamente de derivados de petróleo – que são ótimos para indústria dos combustíveis fósseis. Infelizmente, Robyn alerta, a maior parte das alternativas para produzir os produtos descritos acima gastariam energia demais, seriam em grande parte baseados em derivados de petróleo e altamente poluentes. Por fim, ela alerta, alguns desses produtos não podem ser substituídos nem por derivados de petróleo nem por componentes orgânicos como o cânhamo, a soja, o milho, o óleo de palmeiras e outros produtos com base vegetal. Além disso, os animais criados para abate na agricultura regenerativa fornecem outros serviços ecológicos como controle de biomassa, fertilização, dispersão de sementes, manejo de pastagens e paisagens, manutenção da relação simbiótica entre plantas e animais. Isso sem falar de outras funções que esses animais tem no transporte, na força de trabalho, geração de energia e até mesmo como companhia para os seres humanos.

Outra lógica do vegetarianismo/veganismo que Robyn compartilha é a de que a soja e o milho produzidos para alimentar animais são os maiores responsáveis pelo desmatamento. Dentro desse raciocínio se parássemos de comer esses animais, esses grãos poderiam alimentar os seres humanos. O problema é que 90% da soja produzida é direcionada para a produção de óleo, de bio-combustíveis ou de produtos industriais (como tinta para indústria automobilística). Diga-se de passagem, quase toda soja é transgênica e produzida usando métodos que poluem e degradam o meio ambiente. Ou seja, o impacto ambiental regenerativo seria de apenas 10%. Grande parte do subproduto da soja vai para animais e para produtos alimentícios processados (que por sua vez tem causado um aumento enorme de casos de alergia por conta da maneira que é produzida).

Outro argumento compartilhado por Robyn e por mim em meu último artigo é que uma dieta baseada em grãos (quase sempre do agronegócio) também tem um impacto ambiental enorme. A produção de grãos está diretamente ligada a indústria do petróleo desde o maquinário até os insumos usados na produção. A agricultura convencional de grãos também é responsável pelos maiores índices de erosão da agricultura. Segundo relatórios da FAO a agronegócio perde 20 toneladas de solo superior para produzir 500 kilos de alimento por pessoa a cada ano. Além disso, Robyn compartilha, a produção convencional de grãos também é responsável pela morte de bilhões de animais de pequeno porte como pássaros, lagartos, anfíbios, cobras e pequenos marsupiais. Isso sem abordarmos a vida no solo que também se extingue na monocultura industrial causando ainda outros impactos como a interrupção dos ciclos hidrológicos e a diminuição drástica de nutrientes essenciais na formação dos alimentos produzidos dentro desses sistemas.

E se o problema for o metano gerado na produção de animais para o abate, pergunta Robyn?

Se o problema for metano, Robyn reflete, por quê não se comenta que a produção de arroz em áreas alagadiças produz praticamente a mesma quantidade de metano que os criados para o abate em sistemas industrializados? Isso sem falar que esse método de produção de arroz também é uma das principais causas de desmatamento em países asiáticos. Quando a poluição é causada na produção de grãos ela não conta na lógica desse debate? Robyn faz essa pergunta e exige a devida coerência. Por quê, ela pergunta, não vemos manchetes e memes na internet pedindo que todos parem de comer arroz.

Vastas porções de terra que não servem para produção de hortaliças ficariam abandonadas e inutilizadas se os animais fossem removidos do sistema de produção alimentar. Os dois terços áridos e semiáridos do mundo não servem para produção de grãos ou hortaliças e para as pessoas que vivem nessas áreas a dieta onívora é uma questão de segurança alimentar. Se a questão é ambiental, mais uma vez o problema é de onde vem nosso alimento e não o quê comemos Robyn deixa claro.

Por séculos a ingestão de carne complementou uma dieta com tubérculos, legumes e hortaliças e as receitas aproveitavam o animal sacrificado do pé à cabeça nos alimentar. Só nos últimos 70 anos, entretanto, a indústria do petróleo passou a permitir e subsidiar o consumismo alimentar gerando um impacto ambiental e desperdícios enormes no sistema de produção industrializado. Outra questão levantada por Robyn é que 40% dos alimentos produzidos hoje são desperdiçados. Ou seja, mesmo se não considerarmos o tipo de dieta e a maneira com que esse alimento é produzido, combater os 40% de desperdício já economizaria quase o dobro dos alimentos que o mundo inteiro economizaria adotando uma dieta vegana.

Mais uma vez eu pergunto: o problema (ambiental) é a dieta ou a maneira com a qual nossos alimentos são produzidos? Para os que tem mais contato e conexão com as maneiras regenerativas de produção alimentar e com as classes mais baixas que vivem em áreas rurais a resposta é clara: é possível produzir alimentos para todos enquanto regeneramos o meio ambiente, mas só se pequenos produtores rurais forem responsáveis por uma produção e distribuição local baseada em sistemas diversificados que incluam animais.

Robyn Francis é designer e educadora em Permacultura. Ela desenvolveu a propriedade ‘Djanbung Gardens’, que mais tarde serviu de sede para o primeiro colégio técnico em Permacultura no mundo (http://permaculture.com.au/happen-animals-everyone-went-vegan/).

A Permacultura e Agricultura Sintrópica

A Agricultura Sintrópica tem feito muito sucesso na Austrália. Embora os primeiros sistemas tenham sido implantados há pouco mais de um ano, existe um interesse muito grande nessa abordagem. Esse interesse vem acompanhado de muita discussão e comparações entre Agricultura Sintrópica e Permacultura. Nesse artigo compartilho algumas de minhas reflexões sobre esse assunto em serviços e conversas aqui na Austrália.

A Agricultura Sintrópica compartilha muitos dos princípios que regem a maioria das outras abordagens regenerativas. Entretanto ela foi desenvolvida pelo geneticista e botânico Suiço Ernst Gotsch no Brasil sem nenhuma influência direta de outras abordagens ou sistemas de desenho. Muito embora muitas pessoas comparem a Agricultura Sintrópica com a Permacultura, elas são duas coisas diferentes. Mas muito embora sejam diferentes, elas não são mutuamente excludentes. Pelo contrário, ambas tem muito a ganhar com o intercâmbio inclusivo de conhecimentos e práticas.

Ernst Gotsch manejando uma SAF

Antes que possamos discutir as possíveis contribuições mutuas, vejamos algumas diferenças básicas de conceituação. A Agricultura Sintrópica é uma abordagem de Sistemas Agroflorestais (SAFs) que visa a produção de alimentos, madeira, fibra e medicamentos de forma regenerativa. Embora muito conhecimento empírico em relação ao aspecto solar e posicionamento de um SAF em relação à propriedade como um todo, por exemplo, tenha sido incorporado a Agricultura Sintrópica, isso se deu de maneira espontânea, sem que esses conhecimentos tenham sido sistematizados. A Permacultura, por outro lado é uma ciência de desenho que busca soluções permanentes para a moradia, alimentação, geração de energia, manejo de resíduos e captação de água. Para atingir seus objetivos de interdependência comunitária, resiliência e autossuficiência em cada propriedade a Permacultura faz uso, por exemplo, do princípio da localização relativa, onde cada elemento ou sistema tenha ligações de benefício mútuo dentro do sistema como um todo (no caso uma propriedade ou fazenda). Além disso, a Permacultura se diferencia de quase todas as outras práticas na maneira que também busca desenhar (projetar) as estruturas legais e econômicas necessárias para que os indivíduos envolvidos possam, de fato, criar uma agricultura e uma cultura permanente. Essa abordagem holística que une vários campos do conhecimento faz da Permacultura uma sistema interdisciplinar de desenho regenerativo, que pode e sempre que possível faz uso da melhor ferramenta para cada área que atua.

Em resumo, a Permacultura é uma ciência de desenho regenerativo que engloba vários outros conhecimentos e práticas dentro de um sistema estruturado de desenho. A Agricultura Sintrópica é uma abordagem específica que foi criada para otimizar a produção de alimentos, fibras e madeira dentro dos sistemas agroflorestais. Isso significa que a Permacultura, que já faz uso de SAFs em seus designs pode fazer uso da Agricultura Sintrópica? Sim. E isso significa que produtores rurais e consultores na área de Agricultura Sintrópica não podem fazer uso da Permacultura como um sistema mais amplo de desenho que vai além do desgin do SAF em si? Não. Vejamos alguns contextos em que a ‘polinização cruzada’ desses campos pode trazer fertilidade para todos.

A Agricultura Sintrópica pode se beneficiar muito da análise de zonas e setores e do princípio da localização relativa oferecidos pela Permacultura. De fato, muitos SAFs tem sido implantados sem essa análise mais completa da propriedade como um todo e como os vários elementos e sistemas que a compõem podem economizar energia (em termos de trabalho, tempo e recursos). Permacultores, por outro lado, precisam estar alertas as mudanças contextuais que a Agricultura Sintrópica traz ao desenho da propriedade. Enquanto em uma visão clássica da Permacultura SAFs e pomares tendem a ser posicionados dentro das zonas 2 e 3, a Agricultura Sintrópica, por unir a horta com o SAF e produzir o alimento diário dos produtores, ‘pede’ um posicionamento mais aproximado, na zona 2 ou mesmo na 1.

Muitos designers com visão mais dogmática da Permacultura criticam o sistema linear da Sintropia. Mas por mais que o efeito de borda e o uso mais criativo da geometria podem aumentar muito a produção por área, de fato, não é prático para o pequeno produtor a colheita de um sistema muito diverso e ao mesmo tempo curvilíneo. A Sintropia, por outro lado, e talvez por uma herança do pragmatismo suíço, deixa de valorizar um conjunto de soluções e práticas permaculturais que já foram consagradas em outros países por vários empreendedores da agricultura regenerativa. Por exemplo o cultivo de leiras de SAFs ou sistemas silvopastoris harmozinados em curva de nível ou em Linha Chave. Essas abordagens são largamente usadas para melhorar a hidrologia do terreno, ou seja, para melhor distribuir a maneira como a água percola pelo terreno otimizando a irrigação passiva enquanto também evita os processos de erosão causados pelas águas de enxurrada.

Em suma, tanto os floresteiros Sintrópicos como os designers precisam estar mais abertos a essa troca que pode e deve ocorrer entre esses dois campos do desenho e agricultura regenerativos.

Nota: Para os que tem se interessado pelo meu trabalho com desenho regenerativo, durante o mês de setembro estarei no Brasil ministrando alguns cursos e oficinas.
– Entre os dias 1 e 9 de Setembro estarei ministrando o curso Agricultura Regenerativacom a equipe da Escola de Permacultura na Serra da Mantiqueira, MG. Esse curso oferece 3 módulos: Tomada de Decisão Holística, Planejamento de Propriedades Rurais com a Escala da Permanência da Linha Chave e Desenho Permacultural.
– Entre os dias 11 e 17 estarei com o amigo Sérgio Olaya ministrando o curso Agricultura Familiar e Empreendedorismo Socioambiental na Fazenda The Green Man em Inconfidência, RJ. Esse curso oferece 3 módulos: Tomada de Decisão Holística, Desenho Permacultural e Agricultura Sintrópica.
– Oficina de Desenho Permacultural na Chapada dos Veadeiros (a ser confirmado).

A Estrada de acesso, a localização da casa e as prioridades do projeto segundo a permacultura

As estradas de acesso da Faz. Tarakani (Austrália) foram refeitas em curva de nível ou com leve caimento para coletar água para açudes e sistemas de irrigação passiva.

Desenvolvemos a Fazenda Bella dentro de um contexto holístico onde regeneramos o meio ambiente, a comunidade e a economia que nos apoiam. Dentro desse contexto, nos propusemos a pesquisar para redesenhar melhor nossas estruturas. Compartilhamos aqui informações sobre como projetar estradas de acesso, como e onde posicionar habitações e como e o que priorizar enquanto desenvolvemos nossos projetos. O texto abaixo é uma tradução livre e resumida feita por Eurico Vianna, de trechos do capítulo Broadscale Site Design do livro Introducation to Permaculture, por Bill Mollison e Mia Slay (2011).

O Acesso

O acesso à casa é importante para o estabelecimento e manutenção da propriedade. Nos primeiros estágios vários tipos de materiais serão trazidos por meio desse acesso para construção das infra-estruturas.

Estrada de acesso (com caimento de 1 a cada 400 metros) coletando água para o açude, os corredores de árvores e as linhas feitas pelo subsolador redistribuindo a água pelos pastos.

As vias de acesso deverão ser posicionadas e construídas levando em consideração os tipos de transporte que serão usados na propriedade (carros, caminhonetes, caminhões, tratores, etc.). O posicionamento também deverá levar em conta o menor grau de manutenção possível, de maneira a economizar tempo e recursos ao longo dos anos.

Embora o tipo e a aparência das estradas sofram variações de acordo com o clima, o terreno e os recursos disponíveis, alguns princípios devem ser seguidos e considerados:

  • As estradas devem acompanhar as curvas de nível evitando as elevações e propiciando bom escoamento das águas das chuvas sempre que possível. Se possível, as estradas também deverão ser posicionadas nos topos dos morros (ou nas regiões mais altas) de forma a maximizar a drenagem. Em algumas ocasiões as estradas poderão ser construídas nos vales, mas exigirão mais manutenção, especialmente em localidades com muitas chuvas.
  • Sempre que possível, as estradas deverão cumprir outras funções, como por exemplo formar paredes de açudes ou aceiros contra para queimadas. As estradas também poderão cumprir a função de coleta de água com canteiros de escoamento levando à valas de infiltração/irrigação (swales) e açudes. Em algumas ocasiões o excesso de água também poderá ser usado em pequenas piscinas para coleta de lama e sedimentos que, posteriormente, poderão ser usados como solo para mudas ou forragem para mudas de árvores.
  • Em lugares montanhosos uma estrada alta (ou acesso de trator) poderá ser construído para facilitar o acesso à todas as áreas à partir de um ponto mais elevado (é sempre mais fácil transportar materiais morro à baixo).
  • Estradas menores e trilhas devem complementar o acesso das estradas principais de maneira a integrar, desde cedo, o processo de planejamento e construção.

O aspecto mais importante na construção de uma Estrada é o escoamento (drenagem) de água. A

Todas as estradas de acesso da Faz. Taranaki foram refeitas para acompanhar as curvas de nível ou escoar para açudes e sistemas de irrigação passiva.

estrada deve ser construída de forma a permitir drenos e bueiros do mesmo lado da vala de escoamento e, se possível, para dentro da propriedade. Quando isso não for possível, o escoamento deverá ser canalizado por baixo da estrada e direcionado para as valas, açudes ou áreas de escoamento que evitem a erosão do terreno.

Sempre finalize a construção da estrada de acesso à casa de maneira ascendente, mesmo que seja necessário criar um declive artificial antes da casa, de maneira que a estrada culmine em um ponto ascendente (morro à cima). Vários motivos amparam esse princípio:

  • Estradas de acesso em declive trazem água ao redor da casa dificultando a drenagem;
  • Veículos com defeito ou bactéria arriada podem ser mais facilmente rebocados ou ligados usando o declive (‘pegar no tranco’);
  • Em climas frios e chuvosos é melhor construir a estrada de frente para o sol de forma a secar mais rápido a neve ou lama acumulada.

A Localização da Casa
Embora a localização da casa dependa do clima, existem algumas regras a seguir e erros a serem evitados.

A ilustração mostra o posicionamento ideal de uma casa em relação à topografia e otimização de energia (usando gravidade sempre que possível).

Quanto mais perto a casa se situar de uma estrada principal de acesso melhor. Estradas de acesso à moradia longas custam mais caras para serem mantidas e levam à uma sensação de isolamento.

Em áreas tropicais a orientação em relação ao sol não importa tanto, mas a casa é orientada de forma a receber mais brisas e menos sol.

Jamais construa em inclinações acima de 14º ou abaixo de 2-3º (para conseguir uma drenagem mais eficiente). Localizar a casa à meia altura de uma ladeira moderada é uma boa maneira de se evitar geadas e receber brisas refrescantes.

Situe a casa de maneira a facilitar o abastecimento de água por gravidade. Também se certifique que o esgoto e águas cinzas não sejam despejados em rios ou lençóis freáticos. Use sempre árvores e vegetação que possam ser usadas como esponjas, absorvendo esses nutrientes.

Em relação às diferentes fontes de energia (elétrica, solar, eólica ou hidráulica):

  • Sempre construa o mais perto possível das fontes de energia;
  • Dê preferência por lugares onde possa usar o relevo e a vegetação existente de forma a se proteger dos ventos nocivos ou fazer uso das brisas refrescantes;
  • Não construa em locais com os melhores solos e também verifique se o subsolo tem bom escoamento;
  • Considere a privacidade no momento presente e no futuro.

Muito embora a maioria das pessoas priorizem a “vista”, isso pode levar à escolha inapropriada da localização da casa (frequentemente a área mais elevada é a de mais difícil acesso e com ventos mais fortes). De maneira que muitas vezes é necessário sacrificar “a vista ideal” construir um pequeno ‘retiro’ (uma pérgola ou área de confraternização) para apreciarmos a vista nesse local e situar a casa em local mais apropriado. É possível posicionar a vegetação de forma a atrair pássaros e vida selvagem ou mesmo construir um açude com uma ou duas ilhotas para abrigar peixes e patos de forma que tenhamos sempre algo interessante como vista.

Os erros mais comuns no posicionamento da casa são:

  • A construção no alto da montanha (exposta ao vento e ao fogo) e com custos energéticos altos (para se bombear água ou aquecer a casa, por exemplo);
  • A construção na mata instaurando um conflito por luz, nutrientes e espaço entre a vegetação e animais nativos e os novos moradores;
  • A construção em região ribeirinha plana ou em grotas baixas (localidades mais sujeitas à inundações e alagamentos), em regiões íngremes ou de terra instável.

Decidindo as prioridades
Uma vez que a localização da casa e das estradas de acesso tenham sido decididas o projeto pode se tornar mais complexo, focar nas edificações e suas redondezas. É nesse momento que as zonas, os setores e a inclinação do terreno podem ser analizadas de maneira mais ampla (deixando os detalhes para mais tarde). Ainda neste momento a localização da casa pode mudar em função dessas investigações.

Os setores são desenhados definindo as áreas de ventos predominantes, aspecto solar, vistas boas ou ruins, áreas mais sujeitas às queimadas ou alagamento. As zonas são desenhadas no plano horizontal (com a perspectiva de cima para baixo) com a casa marcando a zona 0 (zero) e as zonas de 1 a 4 marcadas incrementalmente de acordo com a dificuldade de acesso, distância e freqüência das visitações.

Uma vez que tenhamos situados as edificações por zonas, setores, inclinação (ou elevação) e função, seguimos adiante no planejamento considerando plantas e animais específicos.

O planejamento deve ser projetado de forma a permitir a execussão em etapas, fracionando o trabalho em tarefas que possam ser completadas mais facilmente.

Elementos mais importantes são priorizados nas etapas iniciais. São estes: estradas de acesso, abastecimento de água potável, cercas, sistemas energéticos, barreiras de vento[1], construção de casa e jardim e viveiro de mudas. Elementos secundários podem incluir: controle de queimadas (com o plantio de plantas resistentes ao fogo, estradas que protejam a propriedade, açudes, etc.) e erosão, assim como a reabilitação do solo.

Os primeiros 2 a 6 anos exigem tantas espécies e mudas de plantas que um viveiro de mudas se faz necessário para suprir essa demanda (de 4.000 a 10.000 mudas por hectare). Enquanto essas plantas crescem em potes e tubos podemos preparar as cercas e o solo, os sistemas hidráulicos (que apoiarão o plantio e a regeneração do terreno) e aí plantá-las de acordo com um planejamento cuidadoso e de longo prazo.

A provisão de sistemas de conservação e produção de energia é deixada em aberto no projeto de forma que toda a propriedade é considerada para captação de água e energias solar e eólica (a produção de biodiesel, álcool e gás metano também deve ser seriamente considerada). Mesmo que tais sistemas não possam ser implementados nos primeiros anos o espaço para eles deve ser separado entre as áreas designadas para colheitas anuais ou áreas destinadas ao uso temporário.

No que diz respeito à implementação, as primeiras estruturas e projetos deverão ser aqueles que gerem energia, depois os que economizam energia e, finalmente, os que consomem energia.

Seguindo esse critério muitas perguntas comuns respondem a si mesmas. Por exemplo:

Onde devo construir minha estufa?
Considerando somente o uso energético:

– Primeiro, juntamente as moradias como forma de aquecimento e para o plantio de subsistência;

– Segundo, juntamente a outras edificações (oficinas, escritórios, estações de processamento de alimentos e animais) como forma de aquecimento;

– Terceiro, como parte das moradias de animais e promovendo a troca de calor, estrume e gases;

– Finalmente, ou talvez nunca, como estruturas ‘soltas’ no terreno.

Como posso resolver o problema do vento nocivo ao crescimento das plantas na propriedade?
– Primeiro, plantando árvores e arbustos (úteis ou não) que sejam baratos ou gratuitos na região, que cresçam rapidamente e que possam ser plantados como mudas grandes, à partir de galhos e que vão sobreviver aos ventos;

– Segundo, plantando as plantas que precisam de estruturas (treliças, paredes, muros, barrancos, valas, barrancos e cercas vivas pelo jardim);

– Terceiro, plantando mudas ou sementes de grande escala ou plantas muito resistentes;

– Finalmente, enfileiradas de maneira permanente e sob a protectão das plantas já estabelecidas por meio das estratégias acima citadas.

O que vale mais à pena priorizar como colheita principal?
Apenas poucas plantas valem à pena como plantio principal. Ignorando o valor atual de mercado, existem 3 considerações principais:

  • o monocultivo que precise de pouca atenção após o plantio (batatas, milho, abóbora, frutas resistentes e vinhedos);
  • plantas que sejam fáceis de colher, armazenar e usar;
  • as plantas que formem a base da alimentação (batatas, inhames, mandioca, milho, abóbora e frutas de alto valor nutritivo).

Comercialmente também devemos considerar o plantio que:

  • tenha alto valor econômico, mesmo que sejam difíceis de colher (frutas silvestres, cerejas, açafrão, etc.);
  • Seja difícil de armazenar (melão, melancia, pêssego e mamões);
  • Ou que sejam raras, mas de muita demanda (ginseng, temperos, chás, oleaginosas e plantas ou árvores que sirvam para estrato de tintas);
  • Ou que sirvam particularmente bem à região da propriedade (seringueiros, castanhas, etc.).

O projetista deve estar sempre alerta às características locais, aos microclimas e necessidades específicas (das espécies locais ou escolhidas para o plantio) de maneira a tirar o maior proveito do que já existe no local ao invés de ter que trazer novas estruturas e com isso gastar mais energia.

Para serviços de consultoria entre em contato pelo email fazendabelladf@gmail.com

Para se aprofundar nesse tipo de conhecimento e abordagem matricule-se em nosso curso de Introdução à Permacultura ou Introdução a Agricultura Sintrópica.

Nota: Para os que tem se interessado pelo meu trabalho com desenho regenerativo, durante o mês de setembro estarei no Brasil ministrando alguns cursos e oficinas.
– Entre os dias 1 e 9 de Setembro estarei ministrando o curso Agricultura Regenerativacom a equipe da Escola de Permacultura na Serra da Mantiqueira, MG. Esse curso oferece 3 módulos: Tomada de Decisão Holística, Planejamento de Propriedades Rurais com a Escala da Permanência da Linha Chave e Desenho Permacultural.
– Entre os dias 11 e 17 estarei com o amigo Sérgio Olaya ministrando o curso Agricultura Familiar e Empreendedorismo Socioambiental na Fazenda The Green Man em Inconfidência, RJ. Esse curso oferece 3 módulos: Tomada de Decisão Holística, Desenho Permacultural e Agricultura Sintrópica.
– Oficina de Desenho Permacultural na Chapada dos Veadeiros (a ser confirmado).

Referência:

  1. Introducation to Permaculture. Mollison, B. e Slay, M. Tagari Publications, Australia. (Capítulo – Broadscale Site Design – pp. 60-64)

[1] – Barreiras de vento oferecem proteção por uma área que se extende (em comprimento) o equivalente a de 15 a 20 vezes a altura das árvores. Também é frizado a necessidade de uma combinação de árvores e arbustos para um controle eficiente do vento. Outra vantagem das barreiras de vento é o fato do aumento da produção de mel e polinização das frutíferas pela apicultura local (a necessidade da apicultura em qualquer propriedade com pomar ou agrofloresta também é bastante estressada).

Energias renováveis criam comunidades resilientes e combatem o aquecimento global

No último dia 5 de novembro de 2016 Dr. Doone Wyborn ministrou uma oficina sobre Pico do Petróleo, Aquecimento Global e Energias Apropriadas na Holos: Escola de Desenho Regenerativo (NSW, Austrália). O Dr. Doone tem uma vida dedicada à pesquisa de energias renováveis, foi líder na pesquisa de energia geotérmica na Austrália e fundou Bindarrabi, uma EcoVila de 800 acres que fornece habitações a preços acessíveis para as pessoas que querem se preparar para um futuro de declínio energético usando a Permacultura. A EcoVila fica ao lado do Parque Nacional Koreelah no estado da Nova Gales do Sul. A parte prática da oficina encorajou as pessoas a usar a energia solar para o máximo de funções possível. Entretanto as aulas do Dr Doone foram ao mesmo tempo alarmantes e inspiradoras. Com informações precisas sobre como o pico do petróleo, a crise financeira mundial e o aquecimento global estão causando mudanças sociais e ambientais irreversíveis Dr. Doone deixou todos instigados a agir.

Pico do Petróleo
Baseados quase que exclusivamente nas projeções do geológo e geofísico Americano Marion. King Huppert (link em inglês), muitos outros cientistas e ambientalistas vem nos avisando da crescente escassez do petróleo ou pico do petróleo, como o fenômeno é conhecido. O Dr. Doone apresentou o trabalho de King Huppert e compartilhou como outros cientistas e pensadores proeminentes vem usando suas projeções desde 1950 para entender o fenômeno do pico do petróleo. Huppert estimou que se as tendências de consumo e crescimento continuassem a produção mundial do petróleo atingiria um pico em 1994, depois do qual toda produção começaria a cair drasticamente. Mas o fato é que o petróleo continua a ser a mola motriz das nossas economias. A produção e distribuição industrial de alimento é toda baseada no uso do petróleo. É o combustível derivado de petróleo que move os tratores para arar a terra, as plantadeiras e colheitadeiras. O fertilizantes químicos, os pesticidas e os herbicidas também são todos derivados do petróleo. E são os combustíveis fósseis que apoiam os padrões de mobilidade global que temos hoje. A produção de petróleo convencional, que requer menos energia para sua extração, atingiu pico de produção em 2005, só 3 anos antes da Crise Financeira de 2008. A maioria do petróleo não convencional como o extraído do óleo de xisto (betumen), das areias asfálticas (Tar Sands) e das plataformas de extração marítimas tem um retorno energético muito baixo para manter as economias ocidentais.

Em 1972 o MIT – Instituto de Tecnologia de Massachusetts – lançou um relatório (também editado em forma de livro) chamado Os Limites do Crescimento. Esse relatório se baseou em uma simulação computadorizada de crescimento economico e populacional exponencial com suprimento recursos finitos. A maior parte das projeções do relatório no que diz respeito ao esgotamento de recursos se mostrou bem precisa e estamos agora, de fato, entrando em uma era de declínio energético como compartilhou o Dr. Doone.

Dívida
Para manter os negócios como de costume ou, em outras palavras, para mantermos uma economia que demanda crescimento infinito em um planeta com recursos limitados, os governos mundo afora adotaram a Moeda Fiduciária (FIAT Money) e tem imprimido bilhões de dólares todo ano sem nenhum valor real como garantia. É com dinheiro impresso sem garantia de valor real que os governos tem subsidiado a extração de petróleo, carvão mineral, gás natural e minérios, assim como outras corporações. Também é com esse dinheiro que o governo tem aberto linhas de crédito para população para manter o crescimento econômico estável. O estado atual das dívidas pessoais, corporativas e estatais, entretanto, já não é mais sustentável e já começamos a testemunhar crises econômicas baseadas na escassez de recursos materiais e revoltas em vários países. Dr. Doone explicou que a crise financeira de 2008 foi só a ponta do Iceberg que desencadeou uma crise global que ainda está desenrolando de maneiras e intensidade diferente em vários países do mundo.

Aquecimento Global
A falsa sensação de separação que a maioria das pessoas tem da natureza hoje em dia associada com a propaganda corporativa e estatal tem nos mantido cegos para a gravidade de nossa situação. Nós gerimos a maior parte de nossas sociedades como se a enorme quantidade de energia que precisamos para mantê-las fosse infinita. Nós vivemos nossas vidas em um frenesi energético que rouba milhares de anos de energia solar presa na crosta do planeta Terra privando nossos filhos e netos da sua cote de direito para se prepararem para um futuro de declínio energético. O aquecimento global e a extinção em massa que vivemos no momento são consequências diretas da nossa desconexão com a natureza e da negação do impacto que nossos estilos de vida tem no planeta. Como Dr. Doone mencionou em sua palestra, com um aumento de apenas 1°C na temperatura do planeta nós já estamos vendo catástrofes enormes e irreversíveis como a morte da Grande Barreira de Corais na Austrália, a perda do gelo Ártico e o derretimento das geleiras causando aumento do nível do mar.

É certo que essas mudanças climáticas terão um impacto ainda maior no futuro, assim como elas agravarão ainda mais a atual extinção em massa iniciada por nosso estilo de vida inconsequente. Outra certeza é que também vamos sofrer mais com eventos climáticos extremos como tempestades e furacões. Algumas regiões terão seu clima alterado e oscilarão entre secas e enxurradas. Ainda assim o Acordo de Paris, assinado no dia 22 de Abril de 2016, foi bastante ardiloso dizendo que os 193 países que participam do acordo “fariam seu melhor para manter o aquecimento global abaixo de 2°C”.  Esse é um compromisso ardiloso porque com um acréscimo de apenas 1°C na temperatura do planeta nós já estamos testemunhando a maior extinção em massa causada pelos humanos. Também é ardiloso no sentido de que não houve nenhum acordo sobre como os países participantes manteriam o aumento da temperatura abaixo de 2°C, muito menos quais seriam as consequências para os países que infringirem o acordo mesmo tendo feito seu melhor.

Para a maioria das pessoas é um choque tomar conhecimento de todos esses fatos apresentados pelo Dr. Doone. Para alguns é perturbador pensar em como seus filhos e netos viverão nesse planeta. A pergunta da maioria das pessoas é “quanto tempo ainda temos para fazer alguma coisa? Para nos prepararmos?”. Muito embora a maioria das pessoas nos países ricos ainda estejam em posição de ‘fazer alguma coisa’, é exatamente essa desigualdade na capacidade de consumir os recursos naturais do planeta que tem causado os problemas atuais. A realidade é que precisamos distinguir entre desejos e necessidades e começar a agir imediatamente para suprir nossas necessidades em harmonia com a natureza.

Dr. Doone compartilhou algumas idéias sobre o que podemos fazer para mitigar nosso impacto na economia e no planeta. Sobre como podemos agir diante de informações tão perturbadoras, Dr. Doone disse que é importantíssimo começarmos a produzir mais das nossas necessidades em termos de energia, alimento, água e resíduos de forma descentralizada onde quer que estejamos.

Nós precisamos nos tornar responsáveis pelo nosso impacto no planeta Terra. Embora cada um de nós tenha um impacto pequeno, nós podemos começar dando exemplos em nossas próprias vidas e eventualmente atingir uma massa crítica de pessoas fazendo o mesmo. E essa é a única maneira de gerar mudança é nos tornarmos essa mudança (Dr. Doone Wyborn).

Outra consideração importante de acordo com o Dr. Doone é a relocalização. Ou seja, encontrarmos um lugar onde a geografia, o solo, o acesso a água e o contexto sócio-cultural possam minimizar os impactos do aquecimento global. O Dr. avisa que é

Importante vivermos nossas vidas de forma a minimizarmos nosso impacto. Embora pareça egoista considerar nossas próprias necessidades em primeiro plano, essa é a condição natural de toda vida orgânica. A pergunta é como você pode reduzir seu impacto e ainda levar uma vida feliz? (Dr. Doone Wyborn)

Uma abordagem tão completa para o movimento de relocalização pode não estar ao alcance de todos. Ainda assim há muito o que fazer nas cidades e suburbios de classe média para construirmos comunidades resilientes. A mudança mais importante que podemos fazer é em nossa própria atitude. Nós precisamos nos tornar responsáveis por nossas necessidades.

Talvez você decida que não se justifica mais morar na cidade ou que você pode atingir níveis de auto-suficiencia alimentar, hídrica e energética vivendo em uma casa com quintal grande. Seja o exemplo e outras pessoas o seguirão. (Dr. Doone Wyborn)

Permacultura: 4 décadas de educação, Design e ações para um Futuro com declínio energético próspero

No dia 19 de Abril de 2017, David Holmgren recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Central de Queensland (CQUniversity). Na ocasião a Universidade estava comemorando um ano de lançamento do curso de Bacharelado em Design Permacultural. David reconheceu uma relação ambígua com o mundo acadêmico e forneceu uma perspectiva histórica do surgimento e evolução da Permacultura como um conceito, sistema de desenho e movimento social. David conclui seu discurso dizendo que acredita “que a permacultura é a abordagem conceitual mais dinâmica e robusta disponível para ajudar famílias e comunidades a projetar e reformar suas paisagens, habitats e comportamentos para um futuro de declínio energético”. Confira a tradução do discurso de David Holmgren na cerimônia de entrega do título de Doutor Honoris Causa abaixo.

Nota do tradutor: O texto que segue é uma tradução livre feita por Eurico Vianna. O texto original, em inglês, postado pelo autor, permacultor (e agora Doutor) David Holmgren pode ser acessado nesse link. A estrutura do texto original, assim como a ordem dos subtítulos foi mantida, embora alguns trechos curtos tenham sido editados da tradução.

Introdução
Receber esse título de Doutor Honoris Causa é um marco na minha relação ambígua com o mundo acadêmico. Mais importantemente, é um marco no reconhecimento da Permacultura como sistema de desenho e movimento social. Eu tenho a certeza que permacultores, professores, designers e ativistas em todos os lugares irão se inspirar e fazer uso desse reconhecimento específico de maneiras que irão fortalecer e promover ainda mais a Permacultura.

Minha linha de trabalho foi muito bem documentada em Permaculture One[1] (1978), Permaculture Design Case Studies (nos anos 80 e começo dos 90), Princípios e Caminhos da Permacultura Além da Sustentabilidade e Coletânea de Artigos (no começo dos anos 2000) e mais recentemente em Future Scenarios (2009). Drew Dawson sugeriu que, com pequenos ajustes de edição, minhas publicações poderiam me qualificar para um doutorado por exegese, mas eu estava muito preocupado com o Retrosuburbia: a downshifter’s guide to a resilient future para gastar ainda mais do meu tempo sentado em frente ao computador.

Eu acredito que essa ocasião seja uma oportunidade para fornecer uma perspectiva histórica do surgimento e evolução da Permacultura como um conceito, um sistema de desenho e um movimento social. A minha perspectiva é uma mistura de observações imparciais com reflexões de um ativista engajado. Esse (contexto histórico e social) é um assunto que venho abordando em palestras e artigos nos últimos anos, mas nunca com a devida profundidade de pesquisa. …

Em 1975 eu estava lançando o conceito da Permacultura com meu mentor e co-autor do livro Permaculture One, Bill Mollison. Em função de sua passagem aos 88 anos de idade no ano passado, uma reflexão sobre aqueles anos se torna ainda mais apropriada. Também especialmente porque a CQUniversity outorgou a ele o merecido primeiro título de Doutor Honoris Causa em Permacultura.

Muito embora eu estivesse lá no começo, se o manuscrito do que viria a ser o livro Permaculture One tivesse sido deixado comigo, provavelmente ainda estaria em uma gaveta esperando por edição e eu não estaria aqui falando com vocês hoje. Bill Mollison era internacionalmente conhecido como “o pai do movimento da Permacultura”, enquanto que meu papel nesse movimento sempre mais difícil de definir.

A Permacultura ganhou notoriedade aos olhos públicos por meio da grande mídia (Australiana) e depois cresceu e se tornou um movimento global de praticantes, designers, professores e ativistas por meio do Permaculture Design Course (PDC), tudo isso fora do mundo acadêmico. Entretanto o conceito foi germinado em solo acadêmico no meio dos anos 70, então eu quero começar com aquela estória.

Design Ambiental
… (Em 1973) Eu descobri a Escola de Design Ambiental fundada pelo arquiteto, de Hobart, Barry McNeil e à época recentemente estabelecida no Tasmanian College of Advanced Education. O Design Ambiental atraia todos os radicais e dissidentes das faculdades de Arquitetura, Planejamento Urbano e Paisagismo de toda Austrália. Energias renováveis, materiais (de construção) naturais, construção pelo proprietário, Design Participativo, transporte público, ecologia e biodiversidade faziam parte daquilo que acredito que tenha sido o experimento mais radical na história da educação terciária da Austrália.

Três anos de curso um curso generalista em Design Ambiental precedia outros 3 anos de um curso de especialização, em nível de pós-graduação, em Arquitetura, Paisagismo ou Urbanismo. Na segunda parte do curso os alunos tinham que estudar meio período e trabalhar a outra metade do tempo em sua área de estudo.

Um terço do orçamento para professores era alocado para professores visitantes e profissionais (de destaque em suas áreas de atuação). A faculdade prestava consultoria para o governo e os alunos da graduação e pós-graduação trabalhavam juntos em projetos e participavam do processo de seleção de professores e funcionários. Havia um processo de auto-avaliação no momento de entrega da tese, cada aluno definia seu próprio cronograma e o mais impressionante de tudo, não havia um currículo (definido). McNeil, disse que o mundo estava mudando tão rápido que era necessário ensinar como resolver problemas e como pensar ao invés de um conjunto de habilidades específicas que poderiam se tornar obsoletas no tempo em que os alunos se tornassem líderes em seus campos de atuação.

Um Encontro ao Acaso
Depois de nos encontrarmos por acaso[2] em 1974 Bill e eu desenvolvemos um relacionamento mentor-aluno completamente informal e eu passei a morar na sua casa. Toda minha energia ia para o manuscrito e a horta a qual depois associamos o termo permacultura, mas eu nunca assisti às aulas de Bill como professor da faculdade de psicologia da Universidade da Tasmânia. … Eu conclui um design de uma propriedade rural visando autossuficiência, para o qual eu tive a audácia de usar o manuscrito (ainda por ser publicado) como referência principal. Dos 106 alunos que ingressaram o primeiro ano de Design Ambiental em 1975, eu fui um dos 6 que sobreviveram aquela liberdade selvagem, aprovaram a si mesmos a cada semestre, entregaram a tese e receberam o título de Bacharel em Design Ambiental. Eu deixei a academia imediatamente para continuar minha jornada como um construtor prático. Bill se concentrava mais em promover as ideias e, depois de edições e acréscimos ao manuscrito, o livro Permaculture 1 foi publicado em 1978 recebendo muitos elogios e algumas críticas desdenhosas.

 

A Primeira Onda de Soluções Ambientais
O que estava acontecendo em 1977 que fez com que 6 editoras grandes se oferecessem para publicar um acadêmico indisciplinado da Tasmânia e um aluno recém formado totalmente desconhecido? Para responder essa pergunta eu preciso me afastar e deixar para trás a estória pessoal para ganhar uma perspectiva histórica daqueles tempos.

A concepção e propagação inicial da permacultura do meio para final da década de 70 foi parte da primeira onda de soluções ecológicas modernas que podem ser vistas como uma resposta à evidencia apresentada pela cientista de sistemas Dana Meadows e seus colegas no relatório Limites do Crescimento de 1972, encomendado pela organização internacional Clube de Roma. Esse documento pode ser visto como o relatório científico mais importante na história. A primeira crise no abastecimento de petróleo veio no ano seguinte ressaltando o nível de dependência das sociedades industriais modernas à energia barata e abundante. Essa crise criou a primeira recessão econômica significativa depois do fim da Segunda Guerra Mundial estimulando um interesse crescente por energias renováveis, urbanismo, agricultura sustentável e modos de vida mais eficientes ou mesmo mais frugais.

A Primeira Onda de Resistência
Desde o final dos anos 60 um tipo de ambientalismo de oposição vinha crescendo em países ricos. A inundação do Lago Pedder (SEARCH UP) na Tasmânia em 1972 hoje em dia é reconhecida como um marco no surgimento do movimento verde global. Mollison havia estado à frente da campanha para salvar o Lago Pedder assim como de outras campanhas quando eu conheci ele em 1974. … Embora tivéssemos entre nós uma geração de diferença, Mollison eu eu estávamos firmemente concentrados em como criar diretamente o mundo que queríamos ao invés de lutar contra o mundo que não queríamos.

Influências da Permacultura
Embora uma visão sombria do mundo embasasse a concepção da permacultura e do Curso de Design em Permacultura (PDC em inglês) posteriormente elaborado por Bill, o foco mais forte era em soluções de design ecológico. A agricultura orgânica, energia alternativa, autossuficiência, eco-vilas e localismo cooperativo eram todos parte da mistura que deu origem à permacultura. Em um nível conceitual, o trabalho de EF Schumacher (Small is Beautiful, 1973) e Edward Goldsmith (Ecologist Magazine), Ian McHarg and Christopher Alexander, combinados à visionários mais antigos do movimento da agricultura orgânica como FH King, Russel Smith, Albert Howard e outros. Mais importante, sob a minha perspectiva, a primeira referencia em Permaculture 1 foi para o livro Power Environment and Society (1971), um texto difícil que usava ‘energia incorporada’ (embodied energy) como moeda corrente, e uma linguagem de circuito energético para identificar e explicar princípios e padrões que unificassem sistemas humanos e geofísicos. Esses conceitos se desenvolveram na mesma época porém independentes da Teoria de Gaia de Lovelock.

O PDC, ensinado pela primeira vez por Bill Mollison em 1981 se tornou o veículo de propagação e criação de rede de designers, educadores e praticantes completamente à parte da educação formal e sem o apoio financeiro de empresas ou governo.

Muito embora eu criticasse os planos ambiciosos de Mollison de treinar um pequeno grupo de alunos confiando que eles fossem sair por aí redesenhando o mundo e achasse a ideia bizarra, a forma como ele apresentou a permacultura como uma prática educativa situada fora da academia se alinhava diretamente com as minhas ações para testar os conceitos. Essa atitude de Mollison, juntamente com a onda de entusiasmo do final dos anos 70, provavelmente foi a mais importante para estabelecer as bases de um movimento global com milhares de educadores, designers, ativistas e praticantes.

Declínio Energético
A visão de futuro que embasava o conceito da permacultura era a de que dentro de várias gerações ‘um declínio energético’ requereria a relocalização das economias, uma volta das habitações humanas para as áreas rurais e uma integração sinérgica da agricultura ecológica, tecnologias apropriadas e organização comunitária. Era uma resposta clara ao relatório Limites ao Crescimento e às evidencias de que a sociedade estava mostrando todos os sinais de estar seguindo civilizações passadas no caminho da autodestruição.

Nós pensamos que o mercado levaria em conta o esgotamento dos recursos naturais e que isso levaria a uma recessão econômica se não levasse a um colapso total e que a melhor resposta seria o desenvolvimento de sistemas paralelos à sombra do sistema econômico principal. Também é importante reconhecermos que no que diz respeito aos limites energéticos para o futuro da humanidade Bill Mollison era ambíguo ao ensinar a permacultura e frequentemente sugeria que várias tecnologias poderiam superar os limites energéticos enquanto em última análise mantinha uma posição forte sobre a natureza destrutiva da agricultura e do uso de combustíveis fósseis. Esses ‘ralos’ ao invés de ‘fontes’ são o outro lado da moeda do Limites ao Crescimento que agora chegam até nós na forma não negociável do aquecimento global. Ao mesmo tempo, as sementes da sustentabilidade convencional estavam sendo semeadas. O foco em um futuro ‘tecno-estável’ para humanidade refletia o doce cenário do relatório Limites ao Crescimento que sugeria que seria possível fazer uma transição por meio de políticas globais para reduzir a crescente demanda energética e de recursos, a poluição e a população enquanto nos aproveitássemos ao máximo da tecnologia.

A Revolução Friedmaniana
Como cenários futuros, tanto o ‘tecno-estável’ quanto o ‘declínio energético’ foram varridos pela Revolução Friedmaniana[3] que incluía desregulação de mercado, privatização, pilhagem de recursos baratos por uma nova onde de colonialismo e mais importante a expansão do crédito para apoiar um futuro ‘tecno-explosivo’ de crescimento perpétuo. Uma geração de cientistas, acadêmicos e ativistas políticos e ambientais que sobreviveram os expurgos da Revolução Friedmaniana chegaram à conclusão que a escassez de recursos não levaria a uma mudança na sociedade em um futuro próximo.

Mais importante para os nossos dilemas atuais, os fundos para o campo da contabilidade ambiental, especialmente o que usava energia como uma moeda corrente alternativa cientificamente válida para medir valor, perdeu ida de valor cientificamente válida para uma moeda corrente alternativa, foram cortados. …

O congresso da Associação Australiana e Neozelandesa para o Avanço da Ciência (ANZAAS em inglês) que eu participei em 1979 em Hobart tinha meia dúzia de artigos sobre energia incorporada e agricultura. Mas em meados de 1980 apenas alguns poucos acadêmicos modelando sistemas energéticos conseguiram sobreviver no mundo acadêmico. Na Austrália o método mais poderoso e preciso de contabilidade de energia incorporada desenvolvido por Howard Odum e seus colegas permaneceu desconhecido e de um modo geral (o estudo de) sistemas ecológicos foi trocado por abordagens mais reducionistas na modelagem de recursos naturais e humanos. No campo da conservação biológica o que chamamos de ‘nativismo’ (a política de proteger espécies indígenas e evitar exóticas invasivas) teve origem na Austrália e no mundo Anglo-americano.

O ativismo permacultural bateu em retirada para as margens geográficas e conceituais onde os graduados dos cursos de design em permacultura formaram uma rede subcultural que levou à primeira convergência internacional realidade no Nordeste da Nova Gales do Sul (New South Wales) em 1984.

A Segunda Onda de Soluções
No final dos anos 80 a próxima onda de ambientalismo respondeu ao consenso científico sobre aquecimento global com conceitos de sustentabilidade convencionais (vindos do sistema vigente). Todo mundo queria dominar as tecnologias renováveis inteligentes, que por sua vez eram todas avaliadas por meio novo sistema de medida de Gases de Efeito Estufa. Muito embora a permacultura tenha se mantido à margem desse discurso, ela cresceu rapidamente na Australia e outros países durante esse período. O trabalho enciclopédico de Mollison Permaculture: a designer’s manual auto-publicado 1988 juntamente com dois documentários exibidos pela TV ABC (Australian Broadcasting Company) vieram no tempo certo e estabeleceram as bases para essa segunda onda de ambientalismo. Muito embora a permacultura fosse vista popularmente como um conjunto de técnicas para horticultura e uso da terra, ela sempre foi ensinada como um sistema de desenho baseado em preceitos éticos claros: o cuidado com a terra, o cuidado com as pessoas e o compartilhamento do excedente. Eu caracterizei o sistema de desenho (permacultural) como uma abordagem que integra o uso sustentável da terra e dos recursos com uma vida sustentável. Dessa forma a permacultura se aplicava aos dois lados da economia humana (a produção e o consumo) e precedia o surgimento do conceito de consumo sustentável[4].

A Economia sem Peso
Em meados de 1990 outra fase de ‘otimismo técnico’ se estabelecia na sociedade. Essa fase foi apoiada pela revolução de Tecnologia e Informática que possibilitou o desenvolvimento do sistema de administração e produção Just in Time[5], serviços financeiros ampliados e desregulados em larga escala e a pilhagem de recursos da extinta União Soviética. Durante os Cursos de Design Permacultural que ensinei na década de 1990 eu ressaltava a importância da agricultura e alimentos, da mudança voluntária de comportamento em direção à uma vida mais simples, de reinstaurarmos a economia familiar e comunitária não monetária e de continuarmos trazendo para dentro de qualquer discussão sobre sustentabilidade ecológica realista as informações contidas no relatório Limites do Crescimento. Mais polêmica ainda era minha ênfase no valor da biodiversidade trazida por espécies naturalizadas no que hoje chamamos de ‘novos ecossistemas’[6]. Mais importante ainda, eu identificava os bairros de classe média como os habitats que tinham o maior potencial para uma transformação debaixo para cima por meio do que chamei ‘garden agriculture’ (agricultura de quintal)[7].

Princípios e Caminhos
Em Permacultura: Princípios e Caminhos Além da Sustentabilidade (2002) eu expliquei uma visão de futuro com declínio energético que demandava uma linha de pensamento fundamentalmente diferente daquela que serviu a humanidade na fase de ascensão do pico energético que aconteceu nos últimos 250, talvez 500 anos. O enquadramento de 12 princípios firmemente embasados na ciência de sistemas e na sabedoria das tradições sustentáveis revigorou o ensino da permacultura no mundo e renovou um interesse pelo conceito que vinha de fora das redes já existentes.

Infelizmente os eventos do 11 de Setembro colocaram de lado toda a agenda de sustentabilidade, de maneira que o impacto dessa terceira onda não tomou força até o debate sobre o pico da produção do petróleo e crise do mercado financeiro global forneceram o contexto ideal para um interesse renovado em soluções de design ecológico.

A Terceira Onda de Soluções
As crises de estresse geopolítico, estagnação e instabilidade econômica, pico do petróleo e especialmente o rápido aquecimento global que se convergem atualmente viram uma nova onda de ativismo ambiental desde a última crise financeira global. Entretanto, a mobilização cada vez maior de pessoas clamando por menos (NOTA menos consumo) não funcionou para diminuir, muito menos reverter a aceleração da dizimação ecológica e muitas pessoas hoje podem ver as queimadas se espalhando mais rápido do que conseguimos apagar os focos inicias. Como Graham Turner do Commonwealth Scientific and Industrial Research Organisation (Organização de Pesquisa da Comunidade Científica e Industrial) concluiu em 2014 “… nos prepararmos para um colapso do sistema global pode ser mais importante do que tentar evitar o colapso”[8].

No lado positivo dessa situação, existe um mercado crescente para soluções sustentáveis que vai desde corporações multinacionais até o nível familiar e comunitário. O crescimento e diversidade de ações inspiradas pela permacultura agora inclui linhas de influencia sobre a educação ambiental e universitária convencionais, o desenvolvimento comunitário, agricultura regenerativa e o gerenciamento de recursos naturais. Aqui no Sul da Austrália o trabalho da família Brookman[9] como produtores orgânicos, comerciantes inovadores e professores de permacultura tem sido um grande exemplo da propagação das soluções trazidas pelo design permacultural. Essa propagação acontece de maneira orgânica e lateral por meio do refinamento e popularização das soluções assim como por meio da influência dessas soluções em mudanças mais profundas nos âmbitos das políticas públicas e regulatórias.

Ações à Margem
Muito embora a maior parte do design, ensinamentos e práticas permaculturais permaneçam às margens organizacionais e conceituais da sociedade, uma explosão criativa de ideias e ações está agora em uma escala muitas vezes maior do que aquela da primeira e segunda ondas. Os melhores desses designs realizam 4 objetivos simultaneamente:

  • criam uma vida melhor para aqueles envolvidos;
  • agem como modelos capazes de reproduzir viralmente quando as condições sociais e econômicas mudam
  • retraem o mercado de trabalho, o consumo e capital dos sistemas econômicos centralizados gerando um sinalizador (econômico) e uma greve política mais eficiente do que mobilizações clamando por menos (por estilos de vida mais simples, com menos consumo, menos resíduos gerados e menos impacto ambiental);
  • por fim eles criam mecanismos ‘salva-vidas’ e redes de resiliência que contribuem de maneira melhor para a vida das pessoas enquanto os sistemas econômicos centralizados entram em colapso progressivo (ou rápido).

Essas estratégias ‘de baixo para cima’ (do termo bottom-up em inglês) tem um potencial constantemente subestimado por aqueles que são devotos das respostas ‘de cima para baixo’ (do termo top-down em inglês)[10].

O trabalho dos moradores da Fazenda Hibi[11] (em uma área de 1000m2 em um bairro de classe média de Melbourne, Austrália) é um exemplo de como ações ‘debaixo para cima’ na escala não monetarizada dos lares familiares conseguem alcançar mais objetivos (segurança alimentar, coesão social, menos consumo e impacto ambiental, etc.) com menos recursos (financeiros). Essas ações também conseguem engajar os cidadãos comuns ao invés de assustá-los no que diz respeito a busca pela auto-suficiência enquanto demonstram alternativas viáveis às maneiras centralizadas, monetarizadas e reguladas de suprir as necessidades e aspirações humanas. Alguns veem esse estilo de vida como ‘à margem’ da sociedade convencional e em necessidade de ser regulamentado pelas autoridades. Mais complicado ainda é o fato de que esse tipo de mudança que acontece debaixo para cima causaria uma retração do mercado econômico enquanto aprimoraria uma gama de indicadores sociais e ambientais.

Hoje vemos um trabalho sério, com uma abordagem de cima para baixo, desenvolvendo estratégias emergenciais para salvar a humanidade de um perigoso aquecimento global[12]. Essas estratégias reconhecem a importância da agricultura regenerativa, de sequestrar carbono no solo, sistemas agroflorestais para produção de alimentos, grãos perenes e outras estratégias ressaltadas pela permacultura como forma de sequestrar carbono e prover abundancia permanente em um mundo sem combustíveis fósseis.

Ironicamente, as projeções feitas para adoção dessas estratégias à época da Segunda Grande Guerra indica que precisamos adotar mudanças no mínimo tão radicais quanto as ‘debaixo para cima’ mais anárquicas descritas por mim.

O movimento Cidades em Transição[13], lançado por Rob Hopkins no Reino Unido é outra ação inspirada pela permacultura que está criando resiliência no nível das comunidades; uma necessidade urgente em países ricos com a Austrália.

Retrosuburbia
Meu próximo livro, RetroSuburbia: o guia de um minimalista para um futuro resiliente[14] traz as lições e soluções daqueles que já estão reformando os espaços construídos, biológicos e comportamentais em loco, nos subúrbios de classe média onde vivem a maioria dos Australianos nas cidades menores e no interior. Se estivermos no tempo certo, talvez vejamos um número suficiente de pessoas adotando essas ideias antes da explosão da bolha imobiliária australiana e fazendo notícia na grande mídia. Esse sucesso, inevitavelmente traria oposição de várias áreas. Se pudermos mostrar um caminho próspero para um futuro de declínio energético talvez possamos replicar o que aconteceu com o movimento das Hortas Vitorianas[15] nos Estados Unidos durante a mobilização no período da Segunda Guerra. Em um primeiro momento o USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) tratou esse movimento como uma ameaça a agricultura comercial, mas depois que a primeira dama Eleonor Roosevelt arou parte do gramado da casa branca para estabelecer uma Horta Vitoriana, mudou de tática e passou a promover a iniciativa.

A produção alimentar em hortas caseiras é de suma importância para a agenda do RetroSuburbia. Igualmente importante é o excedente de espaços internos não utilizados. Em ambos os casos a utilização de espaços atualmente subutilizados contribui na participação de uma economia não monetarizada. Nossa quantidade enorme e subutilizada de prédios nos permitirá criar economias de escala em casas com mais de um núcleo famíliar ou compartilhadas por várias pessoas (repúblicas) que não foi possível em outras depressões ou longos períodos de recessão econômicas. Essa história nos mostra que a consolidação dos lares é a estratégia principal que as pessoas comuns adotarão assim que a economia azedar. O que é urgentemente necessário é a proliferação de modelos que permitam com que aqueles em condições mais difíceis evitem as armadilhas e possam se beneficiar das eficiências ambientais e econômicas fazendo uso dos lares maiores e mais centrados na comunidade.

Declínio Energético Restaurado
O debate acerca da futura base material para existência humana está novamente aberto para discussão. Durante os anos 80 e 90 quando a Austrália ainda dormia no volante, o ensino e ativismo permacultural tiveram que acomodar as normas culturais da sociedade Ocidental assim como das sociedades tradicionais.

Mesmo dentro das redes da permacultura a fé em um futuro ‘tecno-estável’, se não totalmente tecnológico[16], reflete uma crença semi-religiosa presente na sociedade na qual a ciência e a tecnologia nos fariam mestres do nosso próprio destino. Se a humanidade está de fato em um caminho de declínio energético e não em um caminho estável ou de crescimento, a permacultura é uma das poucas linhagens de ação intelectual e prática que sobreviveu as décadas sombrias desde que o relatório Limites do Crescimento mostrou a força do Pensamento Sistêmico para entendermos os problemas estruturais gravíssimos que assolam nossa civilização atualmente globalizada.

Enquanto a permacultura não pode mudar a trajetória da nossa civilização, ela é certamente uma das linhas de continuidade cultural que poderia permitr com que nossos decendentes sobrevivessem ou mesmo prosperassem em um futuro de declínio energético. Qualquer que seja o futuro, a permacultura fornece inspiração e know-how para centenas de milhares, se não milhões, de pessoas que estão “criando o mundo que queremos agora”. Muitas dessas pessoas criativas procuram refugio dos desertos éticos e espirituais criados pela tecno-esfera e mercado na permacultura. Mas um número cada vez maior de pessoas com raízes fortes nas culturas tradicionais locais veem a permacultura como uma das poucas expressões da modernidade que fortalecem suas fontes tradicionais de sabedoria para trabalhar com a natureza e não contra ela ao invés de erodi-las ou ridicularizá-las.

Em um mundo novo de mudanças efusivas nós precisamos encontrar forças e sabedoria para agir com soluções pequenas, lentas e sutis que nos permitirão trilhar um caminho de declínio próspero. As próximas décadas e séculos de declínio energético prometem desafiar nossa criatividade e flexibilidade mais do que durante os séculos de soluções grandes, rápidas e abruptas apoiadas pelo mercado de ações ao invés de fluxos energéticos.

Eu acredito que a permacultura é a abordagem conceitual mais dinâmica e robusta disponível para ajudar famílias e comunidades a projetar e reformar suas paisagens, habitats e comportamentos para um futuro de declínio energético.

A História julgará se a academia, os governos e as corporações ajudaram ou atrapalharam o caminho de declínio próspero.

David Holmgren, Abril de 2017.

Notas de Rodapé:
Obs: Enquanto algumas notas fazem parte do texto original, outras foram incluidas para melhor contextualizar a tradução.

[1] – Mollison, B.; Holmegren, D. (1978). Permaculture One: A Perennial Agricultural System for Human Settlements. Tyalgum, NSW. Australia: Tagari Publications.

[2] – David Holmegren conta como esse encontro aconteceu nesse artigo em seu website (em inglês): http://www.holmgren.com.au/a-chance-meeting/

[3] – Depois que seu arquiteto chefe, Milton Friedman, eufemisticamente chamou essa abordagem e estratégias econômicas ‘neo-liberalismo’, ela foi implementada no Reino Unido por Margaret Thatcher em 1979, por Ronald Reagan nos EUA em 1981 e por Hawk/Keating na Austrália em 1983.

[4] – Sugerido como parte das estratégias e recomendações contidas no relatório Agenda 21 redigido como resultado da Eco92, no Rio de Janeiro.

[5] – Nesse sistema tudo deve ser produzido, transportado ou comprado na hora exata. Os produtos somente são fabricados ou entregues a tempo de serem vendidos ou montados.

[6] – Hobbs, et al. (2013). Novel Ecosystems: Intervening in the New Ecological World Order.

[7] – Holmgren, D. (1991). Gardening As Agriculture in Collected Writings. Melliodora. Australia

[8] – Graham, T. (August 2014). Rickards, Lauren, ed. “Is Global Collapse Imminent?”

[9] – A família Graham fundou a ‘The Food Forest Farm’ (a Fazenda da Agrofloresta) uma fazenda de 15 hectares onde eles vendem mais de 160 tipos de fruta, castanhas, grãos e madeira. Para maiores informações acesse (em inglês): http://www.foodforest.com.au/about-us/about-the-food-forest/

[10] – Enquanto o termo bottom-up, ou debaixo para cima, implica ações organizadas organicamente pelos cidadãos, famílias e grupos comunitários sem o apoio das autoridades, o termo top-down, ou de cima para baixo, implica um processo de organização e implementação de medidas e políticas públicas vindo das autoridades e impostas à população.

[11] – Estudo de caso mostrado no livro Retrosuburbia, ainda em faze de publicação, mas já disponível no formato digital – https://retrosuburbia.com/ .

[12] – Holmgren dá como exemplo o The Climate Mobilization Victory Plan, uma iniciativa que tem como objetivo detalhar como o governo Norte Americano completamente comprometido com a causa poderia levar toda a economia dos Estados Unidos a anular por complete a emissão de gases de efeito estufa, restaurando a segurança climática, evitando a sexta extinção em massa e desimação de todo ecosistema planetário. Ver (em ingles)   http://www.theclimatemobilization.org/victory-plan

[13] – Também conhecido como Rede de Transição ou Movimento da Transição. Para mais informações veja: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cidades_em_Transi%C3%A7%C3%A3o

[14] – Holmgren usa o termo ‘downshifter’ denominando a pessoa que aderi à tendência ou comportamento social do ‘downshiting’, que visa simplificar a vida, reduzir o consumo e escapar o materialismo.

[15] – Chamadas em inglês de Victory Gardens, essas hortas também ficaram conhecidas como Hortas de Guerra e incluíam a produção de frutas, verduras e legumes para segurança alimentar durante o período da Segunda Guerra Mundial.

[16] – Holmgren usa o termo ‘techno-stability’ para indicar um futuro onde a tecnologia equilibraria os problemas ambientais e de escassez energética, já o termo ‘techno-explosion’ é usado para indicar um cenário futuristico onde as tecnologias seriam abundantes e surpririam inclusive o problema de escassez energética.

Temos Um Doutor na Casa?

A Universidade Central de Queensland (CQUniversity) outorgou o título de Doutor Honoris Causa a David Holmgren, co-fundador da Permacultura, durante o lançamento do curso de Bacharelado em Design Permacultural.

Nota: Tradução livre por Eurico Vianna, PhD. Artigo original (em inglês) disponível pelo link. Acessado no dia 03 de maio de 2017.

A cerimônia de entrega aconteceu no The Joinery em Adelaide no dia 19 de Abril de 2017 foi uma continuação do lançamento do programa de bacharelado em Design Permacultural pela CQUniversity feita pelo Governador do Estado do Sul da Autrália, Jay Weatherill. Durante as celebrações do lançamento do curso no começo do ano passado (2016) a CQUniversity também outorgou o título de Doutor Honoris Causa ao finado Bill Mollison, co-fundador da Permacultra. O título, pós-morte de Bill Mollison foi aceito por Geoff Lawton.

O evento desse ano também contou com um discurso da Parlamentar, representante do estado da Austrália do Sul, Stephanie Key e também celebrou o lançamento o lançamento do livro Retrosuburbia, de David Holmgren, publicado pela Editora Melliadora. O livro promove mudanças em nossas paisagens residenciais para torná-las mais aptas antes que o mundo entre na fase de declínio energético eminente.

A coordenadora do Programa de Sustentabilidade e Design Permacultural parabenizando David Holmgren

Segundo David Holmgren, “as mudanças incrementais e reformas constantes nos espaços construídos assim como nos domínios biológicos e comportamentais de nossas casas é a melhor opção que temos para contribuirmos para um futuro melhor para as próximas gerações e nos abrigar contra as tempestades de um futuro incerto”.

O evento mais recente, em Adelaide, também mostrou os trabalhos dos alunos do Bacharelado em Design Permacultural que se formaram no último ano. A apresentação dos trabalhos mostrou como o Bacharelado em Design Permacultural possibilitou com os alunos mostrassem o que aprenderam em áreas específicas.

Os projetos abrangeram projetos convencionais de Design Permacultural para produção de alimentos até a aplicação da Ética e Princípios da Permacultura em outras disciplinas, como foi o caso do projeto ‘Perma-Psicologia’ e outros projetos educacionais. Os alunos também mostraram projetos para incubadoras de negócios permaculturais como o ‘Companion Planting’ (uma iniciativa que associa o serviço funerário de animais de estimação com o plantio de árvores) e o ‘The Food Print Experience’ (um ‘food truck’ – caminhão de comida – que vende comida permacultural deliciosa enquanto também oferece oficinas educacionais em Permacultura).

Leia a tradução resumida do discurso feito por David Holmgren na cerimônia de entrega do título de Doutor Honoris Causa pela CQUniversity aqui.

 

Árvores nos SAFs da Fazenda Bella

Área mostrando a evolução de 2 anos de um SAF estabelecido usando a Agricultura Sintrópica de Ernst Gotsch.

Como parte do projeto de desenvolvimento da Fazenda Bella, as plantas e árvores listadas aqui atendem necessidades específicas da nossa propriedade (em relação ao clima, solo, disponibilidade de água, ordem de sucessão ecológica, ventos predominantes, queimadas, etc.). A lista, portanto, constitui apenas um exemplo (ainda em desenvolvimento) e não deve ser vista como ‘manual prático’ a ser seguido fora de contexto. Muito embora tenhamos organizado a lista com base na função principal de cada árvore ou planta, muitas delas tem funções variadas.

Nota: A lista abaixo foi baseada nos livros Permaculture: A Designer’s Manual e Introduction to Permaculture e nas notas dos cursos feitos com o Ernst Gotsch e Juan Pereira (entre 2014 e 2016).

Árvores fixadoras de nitrogênio
Essas árvores também são chamadas de leguminosas (da família Fabaceae) e ajudam na recuperação do solo, acúmulo de biomassa e fertilização de outras árvores e plantas por meio da poda e cobertura do solo.

  • A Acácia auriculiformis é uma boa pioneira para cerrados e solos tropicais degradados. Essa acácia resiste bem à gramas e capins invasores, restaura a fertilidade do solo, gera madeira para lenha, é resistente ao fogo e serve de apoio para o crescimento de outras árvores. Ela também pega bem por mudas de corte e semente e é amplamente usada como árvore ornamental por sua sombra.
  • A acácia mangium tem características semelhantes a auriculiformis, mas tem o tronco longilíneo e, por tanto, é mais apropriada para empreendimentos agroflorestais uma vez que cumpre a função de pioneira ajudando no estabelecimento de outras árvores e depois pode ser vendida como madeira.
  • A Árvore-do-Beija-Flor (Sesbania grandiflora) é uma pioneira de crescimento muito rápido, que pode ser cortada na base para rebrota, serve de adubo verde em plantações de arroz e revigora o solo. Cresce bem em grande variedade de solos e é amplamente usada em encostas erodidas. As folhas verdes (novas), vagens e flores são comestíveis (devem ser cozidas) e contém 36% de proteína bruta e as sementes chegam a conter até 40%. Tem uma vida de aproximadamente 20 anos porém não resiste muito bem ao frio e ventos fortes.
  • Calliandra (Calliandra calothyrsus) é uma árvore de porte pequeno (4 a 6 metros) e semi-decídua na estação seca. A calliandra pode ser podada na base para uso da tronco como madeira e lenha e os novos brotos podem ser usados para produção de cabos (de enxada, machado etc.).
  • Guanacaste (entrelobium cyclocarpum), como é conhecida na Costa Rica, é uma árvore de crescimento rápido (até 40 metros) que também fixa nitrogênio. Suas favas e folhagem podem ser usadas como forragem para o gado. Também pode ser usada para extração de madeira. A Guanacaste resiste bem as gramíneas.
  • Bracatinga (mimosa scabrella) é uma árvore pioneira que cresce na região sul do Brasil e vive aproximadamente 25 anos. A Bracatinga é uma das árvores com crescimento mais rápido no mundo, chegando até 5 metros de altura nos primeiros 14 meses de vida e até 15 metros nos primeiros 3 anos. É uma árvore que pode ser usada como forragem para abelhas, como cerca viva e lenha. Suas folhas fornecem bastante biomassa para criação de húmus e tem alto teor de nitrogênio, podendo ser utilizadas como adubo verde para outras árvores e plantas na agrofloresta.
  • Árvore-da-Chuva (samanea saman) é uma árvore de crescimento muito rápido (de 8 a 20 metros) comum da região amazônica e do pantanal mato-grossense. Suas favas podem ser usadas como forragem para o gado e sua madeira como combustível.
  • Ingá (inga edulis) ou Ingá de Brejo (inga vera) são árvores de aproximadamente 20 metros de altura, que fornecem uma fava com gomos açucarados comestíveis. Tanto as folhas como as vagens podem ser usados como forragem para o bovinos, ovinos e caprinos. Por ser uma árvore que cresce em áreas ribeirinhas também pode ser usada em áreas brejeiras.
  • Leucena (Leucaena leucocephala). Árvore de pequeno porte (até 3 metros de altura) que resiste bem a seca e também pode ser usada como forragem para o gado. Por ser uma árvore muito resistente e de fácil propagação a Leucena pode se tornar um problema se não for manejada corretamente.

 

Árvores e arbustos resistentes a queimadas
Estas árvores e arbustos devem ser plantados ao longo do setor com risco de queimadas (de acordo com a Análise de Setores) como forma de proteção às áreas de habitação e produção:

  • Amora (morus nigra, morus rubra, morus alba). A amoreira além de ser resistente as queimadas também serve como forragem para bovinos, caprinos e ovinos.
  • Planta-espelho (coprosma repens). Planta de origem Neozelandesa também usada como ornamental.
  • Costela-de-adão (monstera deliciosa). Também usada como ornamental e com frutos comestíveis a costela-de-adão resiste bem a queimadas.
  • Acácias, especialmente as mimosa, dealbata e mangium, além de fixar nitrogênio, resistem bem as queimadas.
  • Ingá (inga edulis) além de fixar nitrogênio, resiste bem as queimadas.
  • Canela-de-viado (Helietta apiculata benth). Além de fornecer madeira para cabos de ferramenta e carpintaria a canela-de-viado também resiste bem as queimadas.
  • Buriti (Mauritia flexuosa). O Buriti, que é muito comum em áreas de nascentes, ribeirinhas e alagadiças, também produz um fruto comestível do qual se pode também extrair um óleo medicinal (vermífugo) e resiste bem ao fogo.

 Plantas resistentes a queimadas
Assim como as árvores e arbustos, essas plantas devem compor os estratos de uma agroflorestal, porém devem ser usadas de forma a proteger os setores com risco de queimadas:

  • Agapanto (agapanthus africanus). Comumente usada como planta ornamental o agapanto serve de barreira natural para queimadas.
  • Batata doce (Ipoemoe batatas). A batata doce, além de ser um tubérculo comestível, também serve de forrageira que suprime ervas daninhas e ajuda a parar queimadas.
  • Confrei (Symphytum officinale). O confrei, além de ser uma planta medicinal (usada no tratamento de doenças gastrointestinais, inflamações e reumatismos), também retarda queimadas.
  • Inhame ou Cará (Colocasia esculenta). Além de ser um tubérculo muito nutritivo, o inhame também pode ser usado em barreiras contra queimadas.
  • Abóbora (nome comum de várias espécies da família Curbubitaceae). A abóbora, além de fornecer o fruto, também pode ser usada como planta forrageira que suprime ervas daninhas e resiste as queimadas.
  • Girassol (Helianthus annuus). O girassol além de prover sementes comestíveis e óleo (extraído das sementes) também ajuda a impedir o avanço de queimadas.

 Árvores com função múltiplas
Estas árvores servem primariamente para extração de madeira, como forragem de abelhas, como plantas medicinais e comestíveis (fruto, folhas ou favas)
Nota: Se o foco do SAF for a extração madereira e o plantio pouco diversificado, essas árvores não devem ser usadas nas áreas com maior risco de queimadas.

  • Aroeira-brava (Lithraea molleoides). Usada como medicinal e para extração de madeira.
  • Jacarandá-mimoso (Jacaranda mimosifolia). Usado para extração de madeira e forragem de abelhas.
  • Angico Branco (Anadenanthera colubrina). Usado para extração de madeira e forragem de abelhas.
  • Jatobá-da-Mata (Hymenaea courbaril). Usado para extração de madeira, forragem de abelhas e fruto comestível (mais comum na fabricação de farinhas).
  • Pau Balsa (Ochrama pyramidal). Usado para extração de madeira e forragem de abelhas.
  • Barú (Dipterix alata). Árvore comum do cerrado com fruto comestível (em farinhas e doces), também usado como forragem para o gado. Apesar de não ser da família Fabaceae, o Barú também fixa nitrogênio.
  • Coco (Cocos nucifera). Além do fruto o coqueiro também fornece fibra para fabricação de sextas e outros utensílios.
  • Moringa (moringa oleifera). A moringa é fornece folhagem e favas comestíveis de altíssimo teor nutritivo. As sementes são utilizadas no tratamento de água e o óleo extraído da semente é considerado medicinal (usado como adstringente e para o tratamento de pele).

As Árvores e Suas Transações Energéticas

As Árvores e Suas Transações Energéticas
No livro Permaculture: A designer’s Manual (1988), Bill Mollison explica como as árvores tem interações complexas com a radiação (luz solar), a precipitação (por chuva ou condensação), o vento e os gases da atmosfera. O conhecimento dessas interações energéticas entre as árvores e meio-ambiente a sua volta é fundamental para que o produtor rural possa escolher a localização, formato e composição da agrofloresta. Com esse conhecimento o produtor pode otimizar ou amenizar condições climáticas (ventos, temperatura, humidade, etc.) em sua casa e agrofloresta, pode melhorar a retenção de água em sua região (influenciando as precipitações locais e humidade do terreno) e até reverter processos de salinização do solo. Compartilho abaixo, de maneira bastante resumida, algumas dessas interações, para informações mais detalhadas veja o capítulo Trees and Their Energy Transactions do livro Permaculture: A designer’s Manual (1988: 137-151).

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A produção de Alimentos em Sistemas Agro-Florestais (SAFs)

O uso de Sistemas Agroflorestais, ou SAFs, para produzir alimentos, fibra, madeira e combustíveis para os humanos é muito mais antigo que a classificação e sistematização científica da prática. Segundo Bill Mollison (1988) apenas 6 civilizações em toda história da humanidade foram, de fato, sustentáveis. Todas elas tinham uma conexão íntima e viviam integradas com a natureza a sua volta. Essas civilizações também praticavam formas de agricultura que hoje chamamos de Agrofloresta ou Agro-ecologia.

Sistemas Agroflorestais e as civilizações do passado
Um exemplo de uma civilização com métodos de produção alimentar sustentável foram os Aztecas. Na América Central algumas comunidades indígenas ainda fazem uso das ‘chinampas’, uma prática herdada dos Aztecas. As chinampas são pequenas ilhas artificiais de aproximadamente 500m2 que funcionam como canteiros elevados. Esses canteiros são construídos em lagos rasos criados em terraços alagados. Os canteiros eram construídos com junco, preenchidos com lama e lodo do fundo do lago e fixados ao fundo estaqueando-se mudas de Salgueiro. Esse sistema, completamente sustentável, já fazia uso de árvores com hortaliças e plantas medicinais desde a América Pré-colombiana (Mollison, B. 1988: 462-3).

No Havaí o sistema de produção agrícola Ahupua`a (chamado por Bill Mollison de Sistema

Esse sistema é chamado de Ohana por Bill Mollison em seus livros.

Ohana) combinava áreas de preservação de florestas ao topo das montanhas vulcânicas, com florestas (regiões) manejadas intensamente ao arredores das vilas nas áreas intermediárias (intermediações), com florestas de coqueiros na costa (como defesa contra tempestades tropicais e tsunamis). Esse sistema também faz uso dos córregos que descem das montanhas e combina terraços alagados para a criação de peixes e crustáceos com o cultivo de diversas plantas e árvores frutíferas. Além disso, esse sistema também manipula a costa criando lagos de água salgada de acordo com o fluxo das marés para facilitar a pesca. O sistema Ahupua`a, é outra maneira muito antiga e sustentável de se produzir alimentos, fibra, madeira e combustível (Mollison, B. 1988: 278 e 459).

 

Na Amazônia Pré-Colombiana várias civilizações indígenas manipularam as florestas e o solo para produzir alimentos para populações muito mais numerosas do que se tinha notícia. Um exemplo disso é a Terra Preta, um solo profundo e riquíssimo em nutrientes encontrado em vários pontos da Bacia Amazônica, que hoje se sabe era deliberadamente criado para apoiar a agricultura da época. O livro 1491: Novas Revelações sobre as Américas antes de Colombo de Charles C. Mann, por exemplo, também menciona outras evidências como uso de estradas, manipulação do solo, agricultura avançada (e sustentável) para apoiar o argumento de que uma civilização sofisticada e numerosa, na casa dos 7 milhões de habitantes que segundo ele, vivia na Amazônia. Mann defende que grande parte da Floresta Amazônica foi na verdade criada por civilizações indígenas. Outro exemplo de práticas agroflorestais antigas que antecedem a classificação e abordagem ocidental (Mann, C. 2005)

Foto comparando a quantidade (e profundidade) de húmus na Terra Preta e no solo comum.

Os SAFs nos dias atuais
Em 1929 J. Russel Smith escreveu o livro A Colheita das Árvores: Uma agricultura Permanente (Tree Crops: A Permanent Agriculture) já preocupado com os efeitos devastadores causados pela aragem do solo e cultivo de grãos. A obra de Smith teve grande influência em ambientalistas e líderes da agricultura regenerativa. David Holmegren e Bill Mollison, criadores da Permacultura, por exemplo, escreveram o livro Permaculture 1 sob grande influência da obra de Smith. Robert Hart, que escreveu Jardinagem Florestal: Cultivando um Paisagismo Comestível (Forest Gardening: Cultivating an Edible Landscape) em 1991 e que teve sua obra referenciada por Bill Mollison em Permaculture: a Designer’s Manual (Permacultura: O Manual do Designer) também sofreu influência direta da obra de Smith (Smith, J. 1929)

Robert Hart foi o pioneiro do que hoje chamamos de agrofloresta em regiões de clima temperado (Hart, R. 1991). Hart explicou em seu livro que uma floresta se estrutura basicamente em 7 camadas:

  1. a copa,
  2. a camada de árvores mais baixas,
  3. a camada de arbustos,
  4. uma camada de plantas herbáceas,
  5. uma camada de plantas forrageiras,
  6. uma camada subterrânea ou de tubérculos,
  7. uma camada vertical com vinhedos e trepadeiras

Seguindo esse princípio, Hart desenvolveu uma paisagem comestível (agrofloresta) à partir de um pomar de maçãs e peras substituindo a maioria das plantas não comestíveis presentes por espécies comestíveis, medicinais ou que fixavam nitrogênio ao solo. Hart acabou adotando uma dieta 90% vegana e praticamente só comia frutas, verduras e legumes produzidos na sua propriedade.

Ilustração retirada do livro Permaculture: A Designer’s Manual (Mollison, B. 1988).

O desenho acima mostra a possibilidade de preenchermos todas as camadas (ou estratos) de uma floresta com plantas comestíveis. Como exemplo, de baixo para cima, poderíamos ter: tubérculos (batata-dôce, gengibre, mandioca, etc.), plantas rasteiras (abacaxi, alface, batata, tomate, manjericão, etc.), arbustos e árvores de pequeno porte (café, cacau, mamão, etc.), árvores de grande porte (abacateiro, mangueira, jaqueira, etc.), na camada mais alta as palmeiras (castanha do Pará, pupunha, etc.) e as trepadeiras (maracujá, xuxú, bucha vegetal, etc.).

Ernst Gotsch, um geneticista botânico suíço naturalizado no Brasil, com mais de 30 anos de experiência em SAFs, criou sua própria classificação (Comunicação pessoal e anotações feitas em cursos). Segundo Gotsch, um SAF é constituído por 4 camadas:

  • Plantas de estrato baixo tem densidade espacial de 80% e são plantas que exigem menos luminosidade para crescimento e produtividade;
  • Plantas de estrato médio podem ocupar 60% da área e suportam o sombreamento pelas plantas de estrato alto no percentual adequado;
  • Plantas de estrato alto podem ocupar até 40% da área, assim a luz permeia e atinge as plantas de estrato médio e baixo;
  • Plantas emergentes, por sua vez, ocupam 20% da área e recebem a luz do sol em toda sua copa.

Nessa classificação da Agricultura Sintrópica de Ernst Gotsch, entretanto, é importante não confundir os estratos (que estão relacionados com a quantidade de luz que as plantas demandam) com ciclos (que estão relacionados com o tempo de vida e colheita das plantas). Cada ciclo (de idade) contém todos os estratos. Por exemplo, no ciclo Placentário I podemos fazer um consórcio onde o Nirá seria o estrato baixo, a rúcula estrato médio, o alface estrato alto e o milho emergente. No Ciclo Placentário II podemos plantar a batata doce como estrato baixo, o inhame como médio, mandioca como alto e o quiabo como emergente. E daí por diante compondo todos os estratos em cada ciclo. Porque essa abordagem lida com várias dimensões espaciais (estratos) e temporais (ciclos), ela otimiza a área de produção em até 400%.

Ernst Gotsch manejando uma SAF

Sucessão Ecológica
Os processos por meio da qual a natureza estabelece os ecossistemas que dão suporte a vida no planeta se chamam sucessão ecológica. É a sucessão ecológica que se encarrega de criar as condições ideais para o estabelecimento da biodiversidade, que por sua vez gera biomassa, cobertura de solo e nutrientes suficientes para o que sistema possa se tornar mais complexo ao longo de sua evolução. A sucessão ecológica primária acontece pela primeira vez em áreas completamente estéreis (por exemplo, depois de erupções vulcânicas, terremotos, eras glaciais, etc.) e pode levar milhares de anos até que o sistema consiga apoiar um ecossistema complexo como uma floresta climax (ou primária). A sucessão ecológica secundária ocorre quando uma área de floresta é degradada pela ação humana (para agricultura, pecuária ou moradia) ou natural (incêndios, desabamentos de terra, tempestades violentas, etc.) e depois é deixada para se recuperar sozinha. Neste caso, o ambiente não é deixado completamente estéril e quando a biodiversidade local ainda consegue se recuperar, a sucessão ecológica pode regenerar o ecosistema ao ponto de formar uma floresta secundária.

Existem algumas classificações diferentes para os estágios da sucessão ecológica. Na sua classificação mais básica e comum encontramos: plantas pioneiras (de crescimento rápido, que se desenvolvem bem a céu aberto e tem tempo de vida curto), secundárias (de crescimento um pouco mais lento, que necessitam de sombra para se desenvolver e com tempo de vida mediano) e climax (plantas de ciclo de vida longo que só se desenvolvem quando a floresta primária já está formada). Em outra nomenclatura bastante utilizada encontramos: capoeirinha (estágio inicial de regeneração), capoeira (estágio médio de regeneração), capoeirão (estágio avançado de regeneração) e floresta secundária . Existe ainda a classificação de Ernst Gotsch (1997) que descreve a função das plantas e seus ciclos de vida nos processos que utilizam os Sistemas Afro-florestais para a regeneração de áreas degradadas. São estas: Placenta I (com plantas que vivem até 6 meses), Placenta II (até dois anos), Secundária I (até 10 anos), Secundária II (até 25 anos), Secundária III (até 80 anos) e Climax (mais de 80 anos).

Independente do tipo de classificação ou abordagem adotadas, é o entendimento das camadas estruturais e da sucessão ecológica que nos permite plantar de uma só vez todos os elementos que fazem parte da sucessão ecológica. Nos SAFs as árvores pioneiras, as de estrato médio, as fixadoras de nitrogênio, as que formam a barreira de vento, as que geram matéria orgânica para biomassa e as de clímax, são plantadas com as plantas forrageiras, as hortaliças, os tubérculos e os grãos. Essa estratégia, juntamente com as práticas de poda e cobertura de solo, nos permite acelerar os processos naturais de sucessão ecológica regenerando áreas degradadas enquanto produzimos alimentos, fibra, madeira e combustíveis.

Bill Mollison, que criou a Permacultura junto com David Holmgren, no entanto, alerta que o estabelecimento de agroflorestas nas regiões tropicais só deve ser feito como forma de reabilitar áreas degradadas pela ação do homem como no caso de pastagens feitas por queimadas e pastoreio, de desmatamentos causados pela estração de madeira ou para o cultivo de monoculturas (Mollison, B. 1988: 293-294).

Parte das informações contidas nessa tabela foram compiladas de Gandolfi, R.; e Rodrigues, R. (1996) e Cruz, E. (2012).

Usando animais no estabelecimento de agroflorestas
O contexto holístico (social, ambiental e financeiro) dentro do qual desenvolvemos a Fazenda Bella exclui a utilização de fertilizantes e pesticidas químicos e sempre que possível procuramos preparar o solo sem ará-lo. A utilização de animais no preparo do solo para a agrofloresta é uma alternativa comum e eficiente na permacultura e agroecologia. Em áreas onde muitos arbustos densos e espinhosos são um problema, é possível cercar a área e usar cabras para desbastar a vegetação indesejada. Após a pastagem e romaneio severos da área pelo rebanho fica muito mais fácil limpar o terreno. A adubação do solo, em grande parte, já se deu naturalmente pela presença dos animais e o estabelecimento da agrofloresta pode ser feito mais facilmente.

Em situações onde pretendemos estabelecer uma agrofloresta em áreas de pastos degradados, uma técnica semelhante pode ser adotada cercando galinhas ou porcos (boa opção em áreas compactadas) por um determinado tempo antes de começarmos o plantio. Para mais informações sobre esse tipo de solução veja “Sistemas de aragem animal” em Mollison (1988: 299-300). Em casos extremos de degradação e compactação do solo, no entanto, a correção do solo é feita uma única vez com pó de rocha e adubos orgânicos, juntamente com a aragem e encanteiramento para facilitar o plantio e melhor estabelecer a agrofloresta.

 A escolha das espécies
Para cada árvore frutífera ou de madeira é necessário escolher espécies e cultivares de apoio, ou seja, que fixem nitrogênio, promovam a melhoria do solo ou sirvam de bio-acumuladores de nutrientes, para complementar o design da agrofloresta. Pomares ou agroflorestas devem ser compostos por:

  • árvores frutíferas ou castanheiras que sejam resistentes as doenças;
  • árvores para barreira de vento que não compitam por luz, água ou nutrientes;
  • árvores alternativas espaçadas que forneçam forragem para abelhas, insetos e pássaros que atuem como controle biológico de pestes.

Também é preciso definir como os estratos médios e baixo da agrofloresta (áreas sombreadas) serão utilizados. São alternativas comuns:

  • plantar adubos verdes ou forrageiras que fixam nitrogênio, como Trevo Branco (trifolium repens);
  • plantar espécies que sirvam de forragem para gansos, galinhas e ovelhas, por exemplo;
  • plantar espécies que sirvam para repelir insetos (nocivos) e gramas invasoras;
  • fazer o cultivo de hortaliças até que área seja sombreada pelas copas das árvores.

SAFs para subsistência familiar
No caso do estabelecimento de SAFs para subsistência familiar o plantio pode ser feito obedecendo a estrutura de camadas e sucessão natural, porém com distribuição aleatória no terreno. Vale ressaltar ainda que é sempre melhor plantar uma área de 1000m2 de maneira adensada do que plantar árvores e arbustos esparsos por uma grande área. Também é importante manter uma proporção de pelo menos 4 a 6 árvores grandes juntamente com várias outras plantas que fixam nitrogênio para cada 1000m2 de agrofloresta (Mollison, B. e Slay, R. 2011: 123-128).

SAFs para empreendimentos comerciais
Para o caso de empreendimentos comerciais o plantio em corredores facilitará o uso de maquinário para colheita e controle de gramas e capins invasores (Mollison, B. e Slay, R. 2011: 123-128). Nesse caso, para otimizar tanto a água da chuva como da irrigação, e principalmente em terrenos com inclinação mais íngreme, é importante que os corredores de plantio sejam estabelecidos em curva de nível.

Usando animais na agrofloresta
Uma vez que a agrofloresta esteja estabelecida é possível introduzir animais na área. A vantagem da utilização de animais em pastejo ou romaneio debaixo das árvores é o controle de pestes e adubação natural do terreno. Nesso caso, as galinhas ou porcos comem as frutas que caem no chão impedindo a proliferação de moscas e aproveitando um recurso que, de outra forma estaria perdido. Galinhas e/ou patos podem ser introduzidos depois que as árvores atingirem de 2 a 3 anos de idade em uma concentração de 120 a 240 por hectare sem que isso degrade os arbustos e plantas forrageiras abaixo da copa das árvores. Porcos podem ser introduzidos à partir de 3 a 7 anos do estabelecimento da agrofloresta. Depois de 7 a 20 anos do estabelecimento da agrofloresta é possível introduzir vacas e ovelhas. Nesse caso é necessário prestar atenção para esses animais não danifiquem o tronco das árvores (Mollison, B. e Slay, R. 2011: 125).

 

Referências:
A maior parte do conteúdo referente ao método de Ernst Gotsch (Agricultura Sintrópica) foi baseada em notas e comunicação pessoais tomadas durante cursos básicos e avançados em SAFs com Ernst Gotsch e Juan Pereira entre 2014 e 2016. Também foram usados os livros:

Götsch, E. O Renascer da Agricultura. Rio de Janeiro: ASPTA, 1995.

Götsch, E. Homem e Natureza – cultura na agricultura. – 2.ed. – Recife: Centro de Desenvolvimento Agroecológico Sabiá, 1997.

O artigo:

Götsch, E. 1997. Break-through in agriculture. Rio de Janeiro: AS-PTA, 1995.

Também usamos a tabela “Lista de espécies com os estratos que ocupam e ciclos de vida” que foi parte do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em Agronomia de Helber Cruz.

Cruz, E. Q. A. Implantação de sistema agroflorestal como proposta de desenvolvimento sustentável na agricultura familiar. Planaltina-DF, 2012. 98

Os livros Permaculture: A Designer’s Manual e Introduction to Permaculture foram usados para embasar o contexto histórico e técnico da implementação dos Sistemas Agroflorestais e os desenhos da análise de setores e zoneamento da Fazenda Bella.

Mollison, B. (1988). Permaculture: A Designer’s Manual. Tasmania, AU: Tagari Publications.

Mollison, B e Slay, R. (2011). Introduction to Permaculture. Tasmania, AU: Tagari Publications.

O livro de Robert Hart, Forest Gardening: Cultivating an Edible Landscape, apesar de focar em agroflorestas em regiões de clima temperados, é uma das maiores referências em termos do entendimento do funcionamento de uma agrofloresta em camadas ou estratos. O trabalho de Hart também influenciou a abordagem permacultural das agroflorestas.

Hart, R. (1991). Forest Gardening: Cultivating an Edible Landscape. UK: Green Books.

O livro de J. Russel Smith, Tree Crops: A Permanent Agriculture, foi um dos primeiros alertas sobre a degradação causada pelos métodos convencionais de agricultura baseados na aragem do solo e cultivo anual de grãos. Em 1929 Smith já alertava para os problemas de erosão e degradação ambiental causados por uma agricultura que ara e deixa o solo exposto entre safras anuais de grãos. Smith foi um dos primeiros proponentes de métodos de agricultura perenes, daí sua ênfase no uso de árvores para produção de alimentos.

Smith, J. (1929). Tree Crops: A Permanent Agriculture. New York: Harcourt, Brace and Company.

Mann tem alguns livros que revisam a história dos povos indígenas nas Américas antes da invasão europeia. Embora contundente e muitas vezes severamente criticado, Mann argumenta que as Américas eram muito mais populosas do que a história oficial reconhece. Segundo ele mais de 12% da área da mata Amazônica pode ter sido desenvolvida pela ação direta de seus habitantes, mais um exemplo de como as práticas agroflorestais são muito mais antigas do que a maioria dos historiadores e cientistas ocidentais reconhece.

Mann, C. (2005). 1491 New Revelations of the Americas Before Columbus. New York: Knopf.

O livro de James Lovelock, apesar de abordar um conceito que já fazia parte de várias culturas tradicionais, apresentou com bases e argumentos científicos para a comunidade ocidental a noção de que o Planeta Terra funciona como um grande organismo ‘Gaia’ com capacidades autoreguladores que propiciam os processos vitais no planeta.

Lovelock, J. (2000). Gaia: A new look at life on Earth. Oxford University Press. UK.

 

Os Pequenos Produtores Rurais contra o Agronegócio

O desafio imediato que a agricultura sofre é como aumentar a produção alimentar para dar conta da população que cresce enquanto regeneramos os ecossistemas que já degradamos até o momento presente. Essa virada precisa ser feita usando a mesma quantidade de terra, menos petróleo, menos água e menos nitrogênio em um cenário regido pelo aquecimento global, conturbações sociais e crise financeira. A situação atual de falta de acesso ao alimento produzido, perda de diversidade biológica, erosão do solo superior e as doenças causadas pelo uso de agrotóxicos e alimentos geneticamente modificados, por exemplo, mostram claramente que esse desafio não pode ser vencido pelo modelo de produção do agronegócio (Altieri, 2015).

A razão pela qual a fome no mundo continua crescendo não é porque não produzimos alimento o suficiente. O problema é o acesso à comida e a desigualdade social e econômica. Nos Estados Unidos e na Europa cada pessoa joga fora em média 115kg de comida por ano, enquanto aproximadamente 2/3 da população mundial em países em desenvolvimento ainda vive na pobreza, ganha menos de $3 dólares por dia e não consegue comprar alimento suficiente para sobreviver. A razão verdadeira porque temos fome no mundo é porque a agricultura é controlada por corporações. E essas corporações controlam o que (e como) os produtores devem produzir e o que os consumidores podem consumir (Altieri, 2015).

Além da produção de alimento pelo agronegócio só alimentar 30% da população mundial, ela usa de 70 a 80% das terras aráveis, 70% da água e 80% dos combustíveis fósseis usados na agricultura (Altieri, 2015). Agravando ainda mais a situação, segundo dados da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), a erosão causada pelo agronegócio perde em média 20 toneladas de solo por ano para produzir 500 quilos de alimento por pessoa.

Por essas razões, precisamos adotar sistemas de produção alimentar que não dependam de combustíveis fósseis e que sejam regenerativos. Ou seja, precisamos restaurar o meio ambiente enquanto produzimos alimentos. Sistemas de produção agroecológicos, por exemplo, são resilientes ao aquecimento global e são multifuncionais, provendo serviços ecológicos, sociais, culturais e econômicos. A agroecologia também pode se tornar a base para a criação de sistemas de produção e distribuição locais de alimentos (Altieri, 2015).

Os pequenos produtores rurais ao redor do mundo, em comparação com o agronegócio, produzem de 50 a 75% da comida que alimenta a população mundial usando apenas de 25 a 30% da terra arável, 30% da água e 20% dos combustíveis fósseis usados na agricultura (Altieri, 2015; Tittonell, 2014). O que é mais importante, os pequenos produtores rurais que fazem uso de métodos regenerativos como a agroecologia, por exemplo, são 20 vezes mais energeticamente eficientes do que o agronegócio e os grandes latifúndios. Enquanto o método mais eficiente do agronegócio tem que investir 1kcal para produzir 1.5kcal, um pequeno produtor rural investe 1kcal para produzir 30kcal de alimento por hectare. Outra informação importante é que enquanto produz grãos, tubérculos, frutas, castanhas, etc. o pequeno produtor rural ainda consegue fornecer proteína animal suficiente para alimentar 34 pessoas por ano por hectare (Altieri, 2015).

Tendo em vista a perda crescente das terras aráveis pelos métodos usados pelo agronegócio, a diminuição do petróleo disponível e a eficiência energética dos pequenos produtores rurais, fica evidente a necessidade de adotarmos métodos regenerativos para produzir e distribuir nossos alimentos. A Agroecologia, a Permacultura, a Agricultura Sintrópica e o Gerenciamento Holístico são exemplos de abordagens, princípios e métodos regenerativos que nos ajudam a produzir nossos alimentos em harmonia com a natureza e de maneira energeticamente muito mais eficiente.

Referências:

Altieri, M. A. (2015). Agroecology: Who will feed us in a planet in crisis. Paper presented at the Earth Talk. https://www.youtube.com/watch?v=LKfiabQ-j0E

Tittonell, P. (2014). Feeding the world with Agroecology Paper presented at the TEDx Ede https://www.youtube.com/watch?v=iKtrwdsvIko

Nota:
Durante os meses de Maio, Junho e Julho estarei no Brasil com uma agenda de cursos de desenho ecológico, agrofloresta e pecuária regenerativa.

Imersão Agroflorestal na Fazenda Bella – entre os dia 1 d 15 de Junho estarei ministrando essa vivência com o Osmany Segall e o Sérgio Olaya.

A imersão é composta por dois cursos teóricos, duas vivências e duas visitas guiadas (ver link acima) equipando os participantes com o conhecimento e a prática necessários para desenhar, implementar e manejar sistemas agroflorestais. Durante a vivência os participantes terão a chance de desenhar consórcios, plantar, colher e ver a comercialização dos produtos.

Para mais detalhes sobre todos os cursos, datas e links para inscrição visite o link dos Cursos de Impacto Positivo 2019.