“Se a poluição é o preço do desenvolvimento, estamos dispostos a pagá-lo”. Uma Genealogia da Política Ambiental Brasileira por Walter Steenbock

Se a poluição é o preço do desenvolvimento, estamos dispostos a pagá-lo.

Esta foi a postura do governo brasileiro na primeira conferência mundial sobre meio ambiente, ocorrida em Estocolmo, em 1972. Há quase meio século, portanto, no frenesi de seu milagre econômico, o Brasil ficou marcado não só como grande poluidor, mas como interessado em pagar qualquer preço pelo desenvolvimento (e disso a imensa dívida externa contraída neste período não deixa dúvidas).

Naquela época, não havia Relatório Brundtland e ninguém ainda havia pensado no tripé econômico, social e ambiental de um tal conceito de desenvolvimento sustentável. Não havia Agenda 21, nem Protocolo de Kyoto, nem muito menos Acordo de Paris. O mundo estava ensaiando a elaboração de acordos internacionais sobre meio ambiente. Mesmo assim, a postura radical brasileira foi suficiente para a proposição de sanções internacionais importantes, cobrando do governo federal a implementação de uma política ambiental.

E foi assim que, nove anos depois, em 1981, criamos a nossa Lei no 6.938/81 – a Política Nacional de Meio Ambiente. Paradoxalmente, ainda sob regime militar criamos uma das legislações ambientais consideradas, até hoje, das mais progressistas e mais capazes de associar conservação da natureza e desenvolvimento. E, literalmente (e infelizmente), apenas para inglês ver.

Os ingleses e o mundo inteiro viram e nos livramos das sanções, muito embora a falta de intenção de implementar a tal política, manifestada pela quase inércia de sua regulamentação até o fim do regime militar. Porém, querendo ou não, tínhamos então uma lei federal sobre o tema, que ensejava sua implementação.

Em 1988, a maior parte dos princípios e diretrizes da Política Nacional de Meio Ambiente encontraram reflexo em dispositivos da nova Constituição Federal. Todavia, faltavam instituições que viessem a implementar tais dispositivos. Então, logo em 1989, cria-se o IBAMA e nos primeiros anos da década de 90 foram criados a maior parte dos órgãos estaduais de meio ambiente.

Mas para a implementação da Lei faltava, ainda, dois componentes fundamentais: gente e regulamentos. Ou seja, o quadro de servidores do IBAMA e dos órgãos estaduais de meio ambiente era imensamente reduzido para a missão a que se propunham e, como se não bastasse, não era suficiente que a Constituição declarasse, por exemplo, que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, que seria necessário a elaboração de Estudos de Impacto Ambiental para o licenciamento de empreendimentos com significativo impacto ambiental ou que haveria sanções a crimes ambientais. Para a atuação dos órgãos ambientais, era necessária a regulamentação destes dispositivos.

Com muito esforço e articulação, foi basicamente nos últimos anos da década de 90 que ocorreu a construção de regulamentações importantes. Foi somente entre 1997 e 2000 que finalmente criamos instrumentos legais para detalhar procedimentos e regulamentações em relação à gestão de recursos hídricos, ao licenciamento ambiental, à educação ambiental, aos mecanismos de sanções a crimes ambientais e à criação de Unidades de Conservação, entre outros temas abordados pela Lei 6.938/81 e pela Constituição Federal. Há esta época, nossa Política, elaborada para inglês ver, já atingia a maioridade.

Ainda faltava (e ainda falta) gente suficiente para colocar em prática, de forma eficiente, os tais dispositivos. Entretanto, ao menos em nível federal, os primeiros anos do novo milênio viram a quantidade de servidores do IBAMA praticamente triplicar, em sucessivos concursos públicos (os primeiros da instituição). Em processos de seleção cuja relação candidato/vaga era de centenas de candidatos para cada vaga, o IBAMA veio a receber uma grande turma de novos servidores, a maioria jovens, de diferentes formações e muitos com pós-graduação, que se embrenharam nos quatro cantos do país.

O licenciamento ambiental federal deixou de ser cartorial; grandes operações de fiscalização foram executadas, com foco especial no combate ao desmatamento; a educação ambiental superficial passou a ser educação para a gestão ambiental pública. Nada novo. Apenas estava se começando a colocar massivamente em prática o que estava escrito, há mais de 20 anos, na Lei. E os avanços foram incontáveis.

Em relação à gestão de Unidades de Conservação (UCs) federais, os avanços se fizeram mais notáveis a partir de 2007, com a criação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Com a missão de “proteger o patrimônio natural e promover o desenvolvimento socioambiental”, o ICMBio responde pela implementação, gestão, proteção, fiscalização e monitoramento de, atualmente, 335 UCs instituídas pela União sob sua responsabilidade – que correspondem a cerca de 10% do território continental e 26% da zona econômica exclusiva marinha. As UCs federais abrigam doze categorias de manejo – desde as Áreas de Proteção Ambiental, em que prevalecem as medidas de ordenamento territorial, às Reservas Biológicas, desenhadas para preservar patrimônio biológico. Concursos públicos e muita luta pela sua estruturação trouxeram aportes importantes ao ICMBio, que hoje é considerado, mundialmente, como órgão de excelência na gestão de Unidades de Conservação.

Fazer a lei funcionar, entretanto, gera reação a quem não a segue. Não foram poucos os grandes produtores rurais que passaram a se mobilizar para a flexibilização “destas novas leis do IBAMA”; não foram poucos e nem pouco poderosos os grandes empresários que passaram a se mobilizar para a “flexibilização do licenciamento ambiental”; e não foram poucos os políticos que recepcionaram estas demandas, ou mesmo que foram autuados em crimes ambientais. É o caso, por exemplo, do próprio presidente eleito, que fora multado por estar pescando ilegalmente em uma Estação Ecológica.

O autuado virou presidente, quase meio século depois da criação da nossa Política Nacional de Meio Ambiente; e justamente quando, somente há poucos anos, a mesma passa ser mais efetivamente implementada. Como promessas de campanha, a redução de direitos aos quilombolas, nenhum centímetro a mais de terra para os indígenas, garantias de políticas de expansão da fronteira agrícola na Amazônia e acabar com a “indústria de multas” do IBAMA e do ICMBio. Já após eleito, mas antes ainda da posse, a proposta de agregar o Ministério do Meio Ambiente na pasta da Agricultura (seja oficialmente ou condicionando o funcionamento da agenda ambiental a esta pasta), a desistência do Brasil em sediar a Conferência do Clima da ONU em 2019, as declarações de rompimento com o Acordo de Paris e as declarações irritadas de seu fiel escudeiro sobre o quanto a Noruega precisa aprender conosco a cuidar do ambiente são apenas amostras do que está por vir.

Para quem estudou história, sabe que ela é uma roda gigante. É óbvio que virão sanções internacionais às novas versões da postura de que “se a poluição é o preço do desenvolvimento, estamos dispostos a pagá-lo”, sanções estas adaptadas a uma organização mundial muito mais complexa e condicionada por acordos que nem se sonhava existir a meio século atrás. Economicamente, portanto, o desastre será grande e novamente seremos pressionados à maior responsabilização ambiental. E o faremos, em médio prazo, para inglês ver ou não.

Porém, quando o fizermos, talvez não faça mais sentido, já que o desastre maior será ambiental e social e, em muitos aspectos, irreversível. Levamos quase 50 anos para estruturar o funcionamento de uma política ambiental. Neste período, apesar de todos os esforços, vimos o desastre de Mariana, vimos a expulsão de indígenas de suas terras, vimos o imenso desmatamento da Amazônia… agora, estamos prestes a tornar regra o desastre, e não o seu controle. E, muito provavelmente, não teremos mais tempo e nem capacidade social ou institucional para reconstruir o que será destruído.

Walter Steenbock é doutor em ciências pela Universidade Federal de Santa Catarina e leciona disciplinas relacionadas com a Legislação Ambiental, Avaliação de Impactos Ambientais e Política Ambiental. Walter também é pesquisador e autor com interesse especial pela agroecologia, agricultura familiar e uso de sistemas agroflorestais para recuperação de áreas degradadas. Desde 2002, Walter tem atuado como analista ambiental do IBAMA e posteriormente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Extinção prevista, Extinção Ignorada

Grande parte dessas pessoas que negam o aquecimento global, não está interessada de verdade em mitigar o aquecimento global. O que elas querem é manter seus privilégios até o final, mesmo que isso acarrete a extinção de todos.

Tradução livre, Eurico Vianna, PhD.

O texto que segue é uma tradução livre de um artigo do Professor Eméritos da Universidade do Arizona, Dr. Guy C. McPherson em seu website no dia 17 de novembro de 2018. Suas áreas de pesquisa e ensino por décadas foram Recursos Naturais, Biologia Evolutiva e Ecologia. Desde 2009 quando Guy começou a anunciar que os resultados de suas pesquisas apontavam para um aquecimento global repentino com a subsequente extinção em massa da vida no planeta, ele passou a viver em um sítio e a dedicar seu tempo para difundir suas descobertas.

Guy, que é atacado no nível pessoal por alguns críticos, ainda não recebeu críticas consistentes sobre as fontes usadas, os dados e os resultados publicados. Ou seja, para alguns é mais fácil denigrir o mensageiro do que encarar a realidade da mensagem.

De fato vivemos em tempos estranhos. Enquanto alguns declaram “não acreditar” em aquecimento global, centenas de cientistas sérios ao redor do mundo já discutem a possibilidade de que ele seja repentino e devastador. Grande parte dessas pessoas que negam o aquecimento global, não está interessada de verdade  em mitigar o aquecimento global. O que elas querem é manter seus privilégios até o final, mesmo que isso acarrete a extinção de todos.

Esse é o exemplo do presidente estadunidense Donald Trump, que diz “não acreditar” em aquecimento global. Quando na verdade suas declarações são movidas por interesses financeiros. Sua administração acaba de tentar abafar o relatório sobre os perigosos impactos do aquecimento global para o seu país lançando o relatório durante a Black Friday (dia em que a maioria dos cidadãos estadunidenses vãs as compras para aproveitar os descontos da data). O relatório, assinado por mais de 300 cientistas e repleto de pesquisas revisadas por especialistas, diz que:

o aquecimento global gera novos riscos e exacerba vulnerabilidades existentes nas comunidades por todo os EUA, apresentando desafios crescentes para a saúde humana, segurança, qualidade de vida e crescimento econômico.

Já no Brasil, o atual governo ilegítimo de Michel Temer, que é suspeito de ter recebido propina da construtora Oderbrecht, mas que recebeu imunidade parlamentar, retirou a candidatura do país para sediar a COP-25 em 2019. O presidente eleito Bolsonaro, avisou durante campanha, em 2017, que em seu governo não haverá “nem um centímetro [de terra] para quilombola ou reserva indígena”. Ele também defende a exploração econômica de terras indígenas e avisou que vai limitar o poder de fiscalização do IBAMA e ICMBIO. Essas medidas já teriam grande impacto ambiental, por uma série de razões: a) é sabido que a preservação ambiental tem muito mais sucesso em terras indígenas e quilombolas, por conta do paradigma cultural vivido por essas comunidades; b) são exatamente essas comunidades que podem nos ensinar como viver mais harmoniosamente com Gaia, e não o contrário; c) é sabido que tanto o ICMBIO quanto o IBAMA, apesar de muita dedicação, não tem recursos humanos suficientes para monitorar a devastação criminosa que acontece por todo o pais.

Para piorar ainda mais a questão ambiental, o presidente eleito já anunciou a representante das empresas de agrotóxicos no congresso, Teresa Cristina, para o Ministério da Agricultura e o presidente da União Democrática Ruralista, Nabhan Garcia, para a secretaria de assuntos fundiários. Todo esse quadro absurdo, coloca o Brasil no liderança do retrocesso mundial sobre as questões ambientais e climáticas.

Tanto Trump, como Bolsonaro, são exemplos claros do tipo de ser humano que, para manter seus privilégios, são capazes de comprometer o futuro de todos no planeta.

Mas enquanto para alguns a notícia de que pode ser tarde demais para mitigar os impactos devastadores de um aquecimento global repentino, para outros como eu, a notícia só reforça a missão de viver na plenitude a conexão com a natureza e de criar santuários de sanidade mental e ecológica, mesmo que só sejam eternos enquanto durarem (para parafrasear Vinícius)

Extinção prevista, Extinção Ignorada

Por Dr. Guy McPherson (17/11/2018)

Quando ameaçadas com a própria extinção, grande parte das linhagens, humanas ou não, não fazem nada espcial para evitá-la.

~ George C. Williams

O cientista Americano da biologia evolutiva C. Williams morreu em setembro de 2010 aos 83 anos de idade. Eu duvido que ele soubesse que estamos enfrentando nossa própria extinção eminente. Quando Williams morreu eu já vinha soando o alarme nessa área há 3 anos. E eu não estava sozinho. Os avisos mencionados nesse curto artigo não foram os primeiros sobre as catástrofes climáticas que provavelmente resultarão da queima de combustíveis fósseis.

Pouco tempo usando sua ferramenta de busca favorita na internet o levará a encontrar George Perkins Marsh soando o alarme em 1847, ao importante artigo de jornal escrito por Svente Arrhenius em 1896, às versões mais jovens de Al Gore, Carl Sagan e James Hansen testemunhando diante do congresso estadunidense na década de 1980. Existem muitos mais, claro, mas todos ignorados por pouco dinheiro em alguns poucos bolsos.

A projeção do ritmo gradual das mudanças climáticas, baseada no modelo do PIMC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) já ultrapassa 10.000 vezes a resposta adaptativa (capacidade de adaptação genética) dos animais vertebrados. Mais próximos dos Homo sapiens, os mamíferos não conseguem evoluir rápido o suficiente para escapar a crise de extinção em massa já em andamento. Os humanos são mamíferos vertebrados.

Acreditar que nossa espécie pode evitar a própria extinção mesmo quando outros mamíferos vertebrados desaparecem é a clássica soberba humana envolta em um manto quente de mitos baseados em supremacia humana. A evidência aponta para o fato de que os humanos se juntarão a aniquilação de toda a vida no planeta, como relatado no jornal científico de 13 de novembro de 2018 (https://www.nature.com/articles/s41598-018-35068-1). Afinal, os seres humanos estão vivos, embora uns mais que outros. O catastrófico derretimento descontrolado das plantas nucleares do mundo seriam suficientes, mas não necessárias, para extinção a curto prazo da vida na Terra. “Só” o aquecimento global repentino é necessário para extinguir toda a vida no planeta.

Qual foi a resposta a esses avisos durante a História? A mudança de parâmetros. Ignorar a quantidade enorme de trabalhos científicos. Jogar a cautela pela janela. A mídia corporativa, os governos e a maioria dos climatologistas continuam a aderir à meta de 2°C proposta pelo economista William Nordhaus em 1977 : “Se houvesse um aumento das temperaturas globais que ultrapassasse a atual temperatura média em torno de 2°C ou 3°C, isso levaria o clima para fora das variações observadas nas últimas centenas de milhares de anos.”

Sabemos mais sobre climatologia hoje que sabíamos em 1977. E cientistas verdadeiros sabiam, mesmo naquela época, que economistas não deveriam ser tratados como cientistas. Não é de se admirar que Nordhaus tenha sido laureado com um Prêmio Nobel em Economia baseado em motivações políticas no começo do ano. Não me surpreenderia se ele tivesse sido laureado com o Nobel da Paz se juntando ao time de especialistas em genocídio Henry Kissinger e Barack Obama.

Atualmente o planeta está 1.73°C acima do parâmetro estabelecido em 1750 no começo da Revolução Industrial. De acordo com um artigo científico publicado por James Hansen e colegas na Earth System Dynamics, essa temperatura média global é a mais alta desde o surgimento do Homo sapiens. Em outras palavras, nossa espécie nunca viveu em um planeta mais quente do que o que agora vive a atual crise de refugiados causada pelo desaparecimento do habitat para humanos. E nós nem chegamos ao limite de 2°C (sic) estipulado por Nordhaus. A resposta da abordagem convencional à crise, que se acelera cada vez mais e é conhecida como aquecimento global repentino é mudar os parâmetros do que é aceitável. Ao invés de admitir que o planeta está quase 2°C acima dos parâmetros de 1950, governos e muitos cientistas determinaram que o parâmetro na realidade é 1981-2010 ou mais. Aderir ao Princípio da Precaução obviamente está fora de moda.

Por décadas nós sabemos que a meta de 2°C , gravada em pedra por Nordhaus, é perigosa. De acordo com o chefe do Instituto Americano de Petróleo, nós já estávamos atrasados para lidar com gases de efeito estufa em 1965. Ao final de junho de 1989, Noel Brown, o diretor do Programa do Meio Ambiente das Nações Unidas em Nova York, disse que teríamos apenas até o ano 2000 para evitarmos um aquecimento global catastrófico. Cerca de 16 meses depois do aviso de Brown, em outubro de 1990, o Conselho das Nações Unidas para Gases de Efeito Estufa determinou o aumento máximo absoluto (da temperatura média do planeta) em 1°C. Em outubro de 2014 o climatólogo e autor David Spratt disse que 0.5°C seria o limite máximo (https://vimeo.com/63614114).

Provavelmente já era tarde demais para reverter o aquecimento global repentino e irreversível em 1977 quando Nordhaus compartilhou sua opnião genocida. Já era certamente tarde demais em 1989. E deixando de lado as palavras de conforto, nós não fizemos nada para prevenir nossa extinção desde que os avisos, perto ou longe, começaram a aparecer.

Em outubro de 2018 o PIMC da ONU indicou que temos até 2030 para evitarmos que as temperaturas médias globais aumentem 1.5°C acima dos parâmetros que não param de ser flexibilizados. Sim, é isso mesmo. A ONU está recomendando uma temperatura média bem abaixo da temperatura atual como ‘alvo’. Mas fica pior, claro. O Secretário Geral da ONU António Guterres diz que temos até 2020 para virar o jogo. Até agora a única forma pela qual nós humanos podemos mudar as temperatura média global, para cima ou para baixo, é a redução da atividade industrial, o que alivia o efeito da camada de aerossóis e, portanto, leva rapidamente a temperatura média global a níveis ainda mais altos. Mas se estamos interessados em manter o habitat para vertebrados e mamíferos no planeta, essa não é a direção que queremos que a temperatura tome. A perda da camada de aerossóis significa a perda de habitat para os humanos e a nossa extinção em seguida.

O cenário fica inimaginavelmente pior a cada dia, claro. As últimas informações publicadas em jornais científicos finalmente concordou comigo concluindo que a sexta maior extinção em massa (o Antropoceno) pode aniquilar toda vida na Terra (https://www.sbs.com.au/news/climate-change-may-cause-mass-extinctions-new-report-shows). Um artigo científico publicado na Science Reports chega nessa conclusão baseado no ritmo das mudanças ambientais, o que consiste com minhas próprias conclusões. Como uma pessoa que ama a vida, minha satisfação com uma das fontes mais conservadoras é assoberbada pela tristeza da perda.

Colocando de forma simples, nosso destino como espécie está fadado. Nós estamos indo rumo a extinção rápida, mesmo tendo sido avisados por mais 150 anos. É um conto trágico. E como foi dito pelo cientista da biologia evolutiva George C. Williams, nossa espécie mal fez um gemido quando o martelo bateu.

A Casa Flywire de David Holmgren e o design permacultural contra queimadas

Desde que começamos a desenvolver a Fazenda Bella após duas queimadas muito graves onde só sobrou a casa entre 2011 e 2013, o design permacultural contra queimada, faz parte dos nossos estudos, interesses e práticas. Com as secas e outras intempéries climáticas que sucedem do aquecimento global, um número cada vez maior de produtores rurais precisará se preparar para as possíveis queimadas. O texto que segue é uma tradução do prefácio de The Flywire House: a case study in design against bushfire (A Casa com Tela de Metal: um estudo de caso em design contra queimadas) escrito por David Holmgren, autor do livreto e co-criador da Permacultura. Na medida em que avançamos no desenvolvimento da Fazenda Bella daremos sequência a essa e outras traduções do material que estudamos para tornar a Fazenda mais resiliente. A Casa Flywire foi publicada em 1993 e relançada em 2009 em versão digital.

Tradução livre Eurico Vianna, PhD (Dezembro de 2017).
 

The Flywire House: a case study in design against bushfire
(A Casa com Tela de Metal: um estudo de caso em design contra queimadas)

Prefácio
As queimadas catastróficas tem sido parte integral da história da colonização Européia no Sudeste australiano. Essa história gerou o contexto para a inclusão do design de casas e paisagens à prova de queimadas como um dos elementos que Bill Mollison e eu trouxemos em Permaculture 1, publicado em 1978. Esse trabalho, então pioneiro, foi diretamente influenciado pela experiência pessoal e recente de ter sobrevivido as grandes queimadas que ocorreram na Tasmânia em 1967. Episódio no qual Bill salvou a sua casa (que de à prova de fogo não tinha nada) e várias outras casas, enquanto outras casas não socorridas se queimaram por completo. Outro tema chave naquele trabalho pioneiro foi o reconhecimento de como as agroflorestas[1] densas e diversificadas que produzem alimento e forragem para a criação (que são consequências do design permacultural) eram menos propensas as queimadas ou mesmo resistente a elas se comparadas com as florestas esclerófilas de eucaliptos e pinheiros que ficam cheias de material combustível.

A experiência de muitas pessoas durante as Queimadas da Quarta-feira de Cinzas, assim como as pesquisas do CSIRO[2] (Departamento de Pesquisa Científica e Industrial dos Estados do Reino Unido Britânico) e outros departamentos confirmaram muito do design permacultural integrado contra queimadas refletindo o consenso com a opinião especializada na área. A Casa Flywire faz essa ponte entre a Permacultura como uma inovação radical que vem das margens da sociedade de um lado e a ciência e políticas públicas convencionais de outro. A influência da visão permacultural das agroflorestas focadas na produção de alimento é moderada no design da Casa Flywire. Assim como o design da casa, o design do paisagismo reflete as sensibilidades mais típicas do público convencional abordadas pelo design original. Além disso os solos argilosos e pouco férteis que tendem ao alagamento no inverno e enrijecimento no verão provavelmente não suportariam um sistema agroflorestal saudável com sistema radicular profundo para se manter saudáveis e resistentes ao fogo em uma seca severa com a que ocorreu entre 1982 e 1983 no estado de Vitória. Seca essa que ficou conhecida como a pior seca dos últimos 100 anos. Como consequência o design das hortas e paisagismo exibe árvores espaçadas e ilhas de vegetação ao invés de sistema agroflorestal denso.

Por volta de 1991, quando A Casa Flywire foi publicada, as primeiras previsões sobre o aquecimento global sugeriam que mais intensidade e maior frequência das queimadas seriam consequências primordiais no sul da Austrália. À época essas previsões pareciam falar do meio do próximo século, mas 18 mais tarde, depois de uma década de secas e queimadas mais intensas e frenquentes, parece que já estamos bem adiantados na crise climática. As queimadas do Sábado Negro, que aconteceu no dia 7 de fevereiro de 2009, mataram 173 pessoas, destruíram aproximadamente duas mil casas e meio milhão de hectares de florestas e áreas rurais. Essa situação resultou na formação de uma Comissão de Inquérito pelo governo do estado de Vitória[3] para investigar as causas e soluções dessa grande tragédia.

Ao rever A Casa Flywire 26 anos depois do projeto original eu me sinto confiante que os princípios e mesmo a maior parte dos detalhes do design desse estudo de caso ainda são relevantes e incorporam quase todos os elementos dos padrões de designs à prova de queimadas atuais. O que torna a Casa Flywire única é o fato de que o princípios contra queimadas surgem quase que naturalmente do enquadramento mais amplo do design permacultural que visa criar um sistema que é produtivo, de baixo impacto e resiliente. Eu acredito que em um clima com verões secos, com muito vento e solo pobre, a abordagem relativamente conservadora ao design do paisagismo com áreas espaçadas de vegetação mas fáceis de serem manejadas é uma alternativa mais produtiva e resistente ao fogo que a abordagem clássica da permacultura que visa criar agroflorestas de altíssima densidade.

Tendo dito isso, a questão do que poderia ser feito de maneira diferente é frequentemente a que mais vem à tona na mente do leitor. Nesse momento de reflexão dois pontos técnicos específicos e dois mais gerais e contextuais vem à mente. Existe alguma evidência de que a área dos telhados das casas é onde grande parte dos incêndios começa por ignição de brasas que ali aterrissam, assim como de que os telhados em formato de catedral são mais resistentes as queimadas. Tendo em vista que os construtores australianos (tanto dos proprietários como dos trabalhadores) tem uma experiência limitada na construção de casas bem vedadas, o teto achatado utilizado na Casa Flywire talvez não tenha sido o design mais adequado.

Em relação ao manejo da paisagem existem evidências consideráveis de que além de melhorar o valor da madeira e a diversidade de plantas forrageiras nativas, o desbaste da densa quantidade de eucalipto que rebrota reduz a probabilidade e intensidade de queimadas com fogo de copa ativo. O desbastamento visando manter um número menor de espécies de eucalipto mais propensas ao fogo em uma parte menor da floresta situada perto da casa foi incluído no design, mas eu acredito que um programa contínuo de desbastamento para diminuir os riscos de queimada, melhorar os futuros valores ecológicos e de madeiras e prover um suprimento constante de combustíveis de carbono neutro deveriam ser um componente essencial de qualquer propriedade rural. Ironicamente, eu lembro que a razão pela qual essa omissão específica foi mais política que técnica uma vez que eu queria concentrar a atenção na casa e o paisagismo ao seu redor como foco primário do design a prova de queimadas e não apoiar a tendência de culparmos a natureza que traz a consequência padronizada de cortar árvores (se necessário todas elas)

As dúvidas mais contextuais desse estudo de caso em particular estão relacionadas com o exemplo de uma casa ‘solta’ em uma propriedade localizada em uma cumeeira de morro íngreme cercada por uma floresta (de eucaliptos) nativa. Embora eu sinta que o design ainda é forte para a localização, nós precisamos reconhecer dois pontos que dificultam os objetivos do design permacultural que visa a produtividade, um baixo impacto ambiental e a resiliência.

Paisagens íngremes, com solos pobres e florestadas (especialmente com eucaliptos) são inerentemente vulneráveis de maneiras que não podem ser completamente compensadas por um bom design (ou manejo da vegetação) assim como são lugares difíceis de se manter estradas de acesso e serviços como abastecimento de água e produção de comida. Em um mundo com mudança climática e futuro com escassez energética essas paisagens podem voltar a ser florestas e/ou pastagens sem a especulação imobiliária nas áreas rurais que tem acontecido nos últimos 50 anos.

Além disso, propriedades rurais com apenas uma casa habitada por uma família pequena ou poucas pessoas que tem que dirigir para o trabalho e outras atividades são inerentemente menos sustentáveis, produtivas e resilientes que propriedades com várias casas como ecovilas e repúblicas onde o design contra queimadas e a prontidão a um colapso (ecológico ou econômico) eminente pode ser apoiado pela economia de escala e a resiliência trazidas pela vida em comunidade. Em face da crise climática, energética e econômica que se desenrola, mais que nunca é necessário nos juntarmos e cooperarmos para sobrevivermos e prosperarmos em um futuro incerto.

David Holmgren, Melliodora, Fevereiro de 2009 (Tradução Eurico Vianna PhD, Dezembro de 2017)

Notas:

[1] – No idioma inglês é possível diferir entre a foodforest, denotando uma floresta voltada para produção alimentar e a agroforestry, um sistema agroflorestal de conotação mais convencional voltado a produção de madeira ou celulose por exemplo.

[2] – Em ingles CSIRO é a abreviação de The Commonwealth Scientific and Industrial Research Organisation, que é a agência federal de pesquisa científica do governo Australiano.

[3]Victorian Royal Commission, em inglês.