“Se a poluição é o preço do desenvolvimento, estamos dispostos a pagá-lo”. Uma Genealogia da Política Ambiental Brasileira por Walter Steenbock

Se a poluição é o preço do desenvolvimento, estamos dispostos a pagá-lo.

Esta foi a postura do governo brasileiro na primeira conferência mundial sobre meio ambiente, ocorrida em Estocolmo, em 1972. Há quase meio século, portanto, no frenesi de seu milagre econômico, o Brasil ficou marcado não só como grande poluidor, mas como interessado em pagar qualquer preço pelo desenvolvimento (e disso a imensa dívida externa contraída neste período não deixa dúvidas).

Naquela época, não havia Relatório Brundtland e ninguém ainda havia pensado no tripé econômico, social e ambiental de um tal conceito de desenvolvimento sustentável. Não havia Agenda 21, nem Protocolo de Kyoto, nem muito menos Acordo de Paris. O mundo estava ensaiando a elaboração de acordos internacionais sobre meio ambiente. Mesmo assim, a postura radical brasileira foi suficiente para a proposição de sanções internacionais importantes, cobrando do governo federal a implementação de uma política ambiental.

E foi assim que, nove anos depois, em 1981, criamos a nossa Lei no 6.938/81 – a Política Nacional de Meio Ambiente. Paradoxalmente, ainda sob regime militar criamos uma das legislações ambientais consideradas, até hoje, das mais progressistas e mais capazes de associar conservação da natureza e desenvolvimento. E, literalmente (e infelizmente), apenas para inglês ver.

Os ingleses e o mundo inteiro viram e nos livramos das sanções, muito embora a falta de intenção de implementar a tal política, manifestada pela quase inércia de sua regulamentação até o fim do regime militar. Porém, querendo ou não, tínhamos então uma lei federal sobre o tema, que ensejava sua implementação.

Em 1988, a maior parte dos princípios e diretrizes da Política Nacional de Meio Ambiente encontraram reflexo em dispositivos da nova Constituição Federal. Todavia, faltavam instituições que viessem a implementar tais dispositivos. Então, logo em 1989, cria-se o IBAMA e nos primeiros anos da década de 90 foram criados a maior parte dos órgãos estaduais de meio ambiente.

Mas para a implementação da Lei faltava, ainda, dois componentes fundamentais: gente e regulamentos. Ou seja, o quadro de servidores do IBAMA e dos órgãos estaduais de meio ambiente era imensamente reduzido para a missão a que se propunham e, como se não bastasse, não era suficiente que a Constituição declarasse, por exemplo, que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, que seria necessário a elaboração de Estudos de Impacto Ambiental para o licenciamento de empreendimentos com significativo impacto ambiental ou que haveria sanções a crimes ambientais. Para a atuação dos órgãos ambientais, era necessária a regulamentação destes dispositivos.

Com muito esforço e articulação, foi basicamente nos últimos anos da década de 90 que ocorreu a construção de regulamentações importantes. Foi somente entre 1997 e 2000 que finalmente criamos instrumentos legais para detalhar procedimentos e regulamentações em relação à gestão de recursos hídricos, ao licenciamento ambiental, à educação ambiental, aos mecanismos de sanções a crimes ambientais e à criação de Unidades de Conservação, entre outros temas abordados pela Lei 6.938/81 e pela Constituição Federal. Há esta época, nossa Política, elaborada para inglês ver, já atingia a maioridade.

Ainda faltava (e ainda falta) gente suficiente para colocar em prática, de forma eficiente, os tais dispositivos. Entretanto, ao menos em nível federal, os primeiros anos do novo milênio viram a quantidade de servidores do IBAMA praticamente triplicar, em sucessivos concursos públicos (os primeiros da instituição). Em processos de seleção cuja relação candidato/vaga era de centenas de candidatos para cada vaga, o IBAMA veio a receber uma grande turma de novos servidores, a maioria jovens, de diferentes formações e muitos com pós-graduação, que se embrenharam nos quatro cantos do país.

O licenciamento ambiental federal deixou de ser cartorial; grandes operações de fiscalização foram executadas, com foco especial no combate ao desmatamento; a educação ambiental superficial passou a ser educação para a gestão ambiental pública. Nada novo. Apenas estava se começando a colocar massivamente em prática o que estava escrito, há mais de 20 anos, na Lei. E os avanços foram incontáveis.

Em relação à gestão de Unidades de Conservação (UCs) federais, os avanços se fizeram mais notáveis a partir de 2007, com a criação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Com a missão de “proteger o patrimônio natural e promover o desenvolvimento socioambiental”, o ICMBio responde pela implementação, gestão, proteção, fiscalização e monitoramento de, atualmente, 335 UCs instituídas pela União sob sua responsabilidade – que correspondem a cerca de 10% do território continental e 26% da zona econômica exclusiva marinha. As UCs federais abrigam doze categorias de manejo – desde as Áreas de Proteção Ambiental, em que prevalecem as medidas de ordenamento territorial, às Reservas Biológicas, desenhadas para preservar patrimônio biológico. Concursos públicos e muita luta pela sua estruturação trouxeram aportes importantes ao ICMBio, que hoje é considerado, mundialmente, como órgão de excelência na gestão de Unidades de Conservação.

Fazer a lei funcionar, entretanto, gera reação a quem não a segue. Não foram poucos os grandes produtores rurais que passaram a se mobilizar para a flexibilização “destas novas leis do IBAMA”; não foram poucos e nem pouco poderosos os grandes empresários que passaram a se mobilizar para a “flexibilização do licenciamento ambiental”; e não foram poucos os políticos que recepcionaram estas demandas, ou mesmo que foram autuados em crimes ambientais. É o caso, por exemplo, do próprio presidente eleito, que fora multado por estar pescando ilegalmente em uma Estação Ecológica.

O autuado virou presidente, quase meio século depois da criação da nossa Política Nacional de Meio Ambiente; e justamente quando, somente há poucos anos, a mesma passa ser mais efetivamente implementada. Como promessas de campanha, a redução de direitos aos quilombolas, nenhum centímetro a mais de terra para os indígenas, garantias de políticas de expansão da fronteira agrícola na Amazônia e acabar com a “indústria de multas” do IBAMA e do ICMBio. Já após eleito, mas antes ainda da posse, a proposta de agregar o Ministério do Meio Ambiente na pasta da Agricultura (seja oficialmente ou condicionando o funcionamento da agenda ambiental a esta pasta), a desistência do Brasil em sediar a Conferência do Clima da ONU em 2019, as declarações de rompimento com o Acordo de Paris e as declarações irritadas de seu fiel escudeiro sobre o quanto a Noruega precisa aprender conosco a cuidar do ambiente são apenas amostras do que está por vir.

Para quem estudou história, sabe que ela é uma roda gigante. É óbvio que virão sanções internacionais às novas versões da postura de que “se a poluição é o preço do desenvolvimento, estamos dispostos a pagá-lo”, sanções estas adaptadas a uma organização mundial muito mais complexa e condicionada por acordos que nem se sonhava existir a meio século atrás. Economicamente, portanto, o desastre será grande e novamente seremos pressionados à maior responsabilização ambiental. E o faremos, em médio prazo, para inglês ver ou não.

Porém, quando o fizermos, talvez não faça mais sentido, já que o desastre maior será ambiental e social e, em muitos aspectos, irreversível. Levamos quase 50 anos para estruturar o funcionamento de uma política ambiental. Neste período, apesar de todos os esforços, vimos o desastre de Mariana, vimos a expulsão de indígenas de suas terras, vimos o imenso desmatamento da Amazônia… agora, estamos prestes a tornar regra o desastre, e não o seu controle. E, muito provavelmente, não teremos mais tempo e nem capacidade social ou institucional para reconstruir o que será destruído.

Walter Steenbock é doutor em ciências pela Universidade Federal de Santa Catarina e leciona disciplinas relacionadas com a Legislação Ambiental, Avaliação de Impactos Ambientais e Política Ambiental. Walter também é pesquisador e autor com interesse especial pela agroecologia, agricultura familiar e uso de sistemas agroflorestais para recuperação de áreas degradadas. Desde 2002, Walter tem atuado como analista ambiental do IBAMA e posteriormente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

O agro esconde, o agro mente, o agro mata!

A questão do uso dos agrotóxicos no Brasil não é polêmica, é econômica e gira na casa dos bilhões  de Reais. A relativização e o questionamento dos estudos científicos que apontam o impacto negativo do agronegócio no meio ambiente e na saúde, fazem parte de uma estratégia de marketing chamada ‘controle de danos’.

O “controle de danos” visa mitigar danos causados à credibilidade, reputação ou imagem pública de uma empresa causados por uma ação ou declaração duvidosa ou má fé no exercício de suas funções. E é exatamente isso que tem acontecido com o agronegócio no Brasil e no mundo. Novas pesquisas interdisciplinares tem revelado o impacto negativo do modelo de produção agricultural e pecuarista do agronegócio tanto para o meio ambiente, como para a saúde pública. Consequentemente o agronegócio tem produzido vídeos, artigos e memes, que tem circulado a internet e as mídias sociais, relativizando seu impacto ambiental negativo e a gravidade da intoxicação direta e indireta causada pelo uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos nas lavouras e pecuária.

Umas das propriedades de P.A. Yeomans, projetadas com a Escala de Permanência da Linha Chave. O manejo da água nessas propriedades garante resiliência contra secas e queimadas e água para produção de alimentos durante todo ano.

Pesquisadores da agroecologia como Pablo Titoonell, Stephen R. GliessmannMiguel Altieri e abordagens do desenho regenerativo como a permacultura, a Escala de Permanência da Linha Chave e o Gerenciamento Holístico tem mostrado que é possível produzir mais alimentos sem o uso de herbicidas, pesticidas e fertilizantes químicos. Essas áreas de pesquisa, desenho e movimentos sociais vão além, eles mostram que o modelo de produção da agricultura familiar produz alimentos mais nutritivos, geram mais empregos, trazem soberania alimentar e qualidade de vida para os envolvidos e conseguem fazer tudo isso regenerando os ecossistemas nos quais se baseiam.

Para termos uma ideia, o agronegócio produz apenas 30% do alimento para população mundial usando de 70 a 80% das terras aráveis, 70% da água e 80% dos combustíveis fósseis. A agricultura familiar, por outro lado, produz de 50 a 75% do alimento da população mundial usando apenas de 25 a 30% das terras aráveis, 30% da água e 20% dos combustíveis fósseis usados em toda a agricultura (Altieri, 2015; Tittonell, 2014). Em muitos casos a agricultura familiar chega a ser 20 vezes mais energeticamente eficiente do que o agronegócio. Além de de produzir Alguns pequenos produtores rurais grãos, tubérculos, frutas, castanhas, etc. o pequeno produtor rural ainda consegue fornecer proteína animal suficiente para alimentar 34 pessoas por ano por hectare (Altieri, 2015). Para uma comparação mais detalhada entre o agronegócio e a agricultura familiar veja o artigo Os Pequenos Produtores Rurais Contra o Agronegócio.

Antes (1963) e depois (2003) de uma propriedade manejada dentro dos preceitos do Gerenciamento Holístico no México.

Todos esses dados e pesquisas mostram que o modelo de produção do agronegócio está definivamente ultrapassado do ponto de vista social e ambiental. Resta a questão econômica. Segundo estimativas da CNA (Conferação deAgricultura e Pecuária no Brasil) a agricultura e o agronegócio contribuíram com 23.5% dos R$6,6 trilhões do PIB (Produto Interno Bruto) do país em 2017. Todo esse lucro não leva em conta as chamadas externalidades, ou seja, os custos da devastação ambiental, do êxodo rural e dos problemas de saúde causados pelo uso dos agrotóxicos. A distribuição dessa renda no Brasil e o que vai para o estrangeiro também é outro fato que sempre fica fora das estatísticas apresentadas; outra tática de marketing de comunicação dessas corporações.

Tendo em vista que todo esse conhecimento trás uma péssima reputação para o agronegócio, as estratégias de “controle de danos” pela indústria, pelos setores simpatizantes do governo e pelos acadêmicos ‘colonizados’ são as de sempre. Primeiro, ignorar os dados e pesquisas contrários ao agronegócio enquanto for possível. Depois ridicularizar e descrever as pesquisas e os meios de produção alternativos de forma imprecisa, conduzir pesquisas e comparações falsas para, finalmente, desacreditar as alternativas (Mulligan, M. e  Hill, S. em Ecological pioneers: A social history of Australian ecological thought and action. 2001).

Meme do MBL com informações e comparações fora de contexto e fontes imprecisas. Exemplo clássico de marketing a favor das grandes corporações.

Grande parte do material de marketing e propaganda do agronegócio que tem vindo à tona usa meias verdades, linguagem científica e até mesmo cita publicações que não foram revisadas por especialistas ou que tiveram times inteiros de pesquisadores comprados como forma de “controle de dano”. Também é muito comum a técnica de “enquadramento” de editorial da mídia corporativa. Um exemplo clássico é um dos vídeos que tem circulado a internet onde uma apresentadora com ares de jornalista imparcial faz comparações da área usada para a agricultura industrial no Brasil e em outros países. As comparações, assim como a linguagem do vídeo, leva a audiência a pensar que em relação a outros países o Brasil deveria estar usando ainda mais área para desenvolver o agronegócio. De maneira sutil o enquadramento muda, tira de questão os malefícios desse modo de produção e faz a audiência pensar que o Brasil está atrasado em relação a outros países industrializados. Na verdade, o que está em questão é que toda a abordagem da agricultura e pecuária industrial está ultrapassada em qualquer lugar. Em todos os países onde é utilizada ela degrada o meio ambiente e a saúde das pessoas.

Um meme usando fatos verdadeiros, porém fora de contexto, sobre a água para mostrar como as campanhas de “controle de danos” funcionam.

A mesma prática foi usada em um meme do MBL, movimento bancado pelos think-tanks da ultra-direita e por partidos neoliberais como o MDB e o PSDB. No meme 5 “fatos” sobre os alimentos orgânicos são apresentados. Nomes de organizações internacionais são usadas para validar os “fatos”, mas nenhuma delas é utilizada de forma que as informações possam ser verificadas. É uma estratégia de contra-inteligência do “controle de danos” que consiste em inundar os meios de comunicação com meias-verdades pintando como polêmico ou controverso um assunto que a ciência séria já comprovou, mas que os resultados não são favoráveis para as corporações.

O documentário O Mundo Segundo a Monsanto, da cineasta francesa Marie-Monique Robin já denunciava as práticas de “controle de danos”, marketing e coação dessa gigante do agronegócio desde 2008. Mais recentemente outros documentos e mensagens eletrônicas da empresa vieram à público revelando a empresa já sabia que seu principal produto químico, o glifosato, é altamente cancerígeno. Essas práticas, no entanto, são largamente praticadas entre as corporações multinacionais do agronegócio.

A cerca da gravidade dos problemas trazidos trazidos pelo agronegócio, a ONU já emitiu um relatório dizendo que precisamos entregar a produção de alimentos para os pequenos produtores antes que seja tarde demais.

Os resultados do relatório em muitos aspectos parecem repetir os resultados do relatório emitido pelas Nações Unidas em 2010 (link para relatório original em inglês). O relatório anterior basicamente informava que a melhor maneira para ‘alimentarmos a população mundial’ é produção orgânica de pequena escala e não a monocultura e o uso OGM.

De acordo com o novo relatório das Nações Unidas precisamos de mudanças drásticas em nossa alimentação, agricultura e comércio. E essas mudanças devem ser em direção aos pequenos produtores rurais e a um sistema de abastecimento alimentar local.

Precisamos, portanto, usar de muito pensamento crítico ao assistir vídeos ou ler artigos que defendam o agronegócio, os alimentos geneticamente modificados e o uso de herbicidas, pesticidas e fertilizantes químicos. De um modo geral, ao analizarmos notícias, artigos e vídeos que defendam o agronegócio, devemos pensar e buscar fontes confiáveis para sabermos se é ecologicamente seguro, se é socialmente justo (e aqui se inclui as questões de saúde) e, por fim, se o lucro gerado é bem distribuido e fortalece a economia das regiões onde se dá a produção.

Abaixo eu contextualizo algumas áreas severamente impactadas pelo agronegócio e suas práticas e compartilho ainda mais fontes de pesquisas que comprovam o quão nocivo esses produtos podem ser para a saúde dos humanos e do planeta.

Impacto na saúde

Nós últimos anos várias pesquisas de mestrado, doutorado, livros e artigos científicos foram publicadas e revisadas por especialistas, revelando a ligação de alimentos geneticamente modificados, herbicidas, pesticidas e fertilizantes químicos com doenças como câncer, Alzheimer, Parkinson, asma e diabetes. No Brasil, os documentários O Veneno Está na Mesa (2011) e O Veneno Está na Mesa 2 (2014) de Sílvio Tendler, o livro Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Européia (2017), de Larissa Bombardi e movimentos como a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida são boas referências para reflexão e comparação com os materiais publicados pelo agronegócio e mídia corporativa porque citam fontes sérias e trabalhos que foram revisados por especialistas ou avaliados por bancas. São essas referências que revelam por meio de pesquisas sérias que o Brasil está entre os maiores usuários de agrotóxicos no mundo.

A exposição da população brasileira a esses venenos é gravíssima. Segundo Alan Tygel, da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, o brasileiro médio consome 5.2 litros de veneno por ano em sua comida. O agronegócio no Brasil faz uso de 504 agrotóxicos, dos quais 30% são proibidos na União Européia. Desde 2008 o Brasil é pais que mais usa agrotóxicos no mundo. O uso do glifosato, agrotóxico comprovadamente cancerígeno, no Brasil varia entre 5 e 9 kg por hectare, enquanto na União Europeia é limitado a 2kg por hectare. Outro problema grave é que o uso desses agentes químicos acaba contaminando os lençóis freáticos e por conseguinte a população por meio da água potável. Enquanto na União Europeia a quantidade máxima do herbicida glifosato que pode ser encontrada na água é de 0,1 miligramas por litro, o Brasil permite 5 vezes mais.

O trabalho da Larissa Bombardi revela que 8 brasileiros são contaminados por dia, segundo dados oficiais conservadores. Uma pesquisa da Fiocruz, no entanto, estima que para cada caso notificado, 50 casos não são notificados. Isso implica que entre 2007 e 2014, mais de um milhão de brasileiros foram intoxicados por agrotóxicos. Desde 2015 o governo deixou de publicar os casos de intoxicação por agrotóxicos, o que dificulta estudar os casos de intoxicação direta ou indireta por esses agentes químicos.

Sobre a questão do impacto dos alimentos transgênicos em nossa saúde, o livro Roleta Genética, de Jeffrey Smith publicado em 2009, ainda é uma das melhores referências. Nele, Smith revela documentos com informações pouco – ou não divulgadas – sobre testes de segurança de alimentos transgênicos que mostram claramente que não podemos confiar nessas grandes corporações para produzir nosso alimento.

Perda da Biodiversidade

A questão da perda da biodiversidade pelo uso de sementes transgênicas e pelo cartel criado pelas grandes multinacionais do agronegócio traz riscos enormes à segurança alimentar para a população de todo o planeta. John Tomanio produziu um infográfico para a National Geographic mostrando que entre 1903 e 1983 a industrialização da agricultura nos Estados Unidos causou uma perda de 93% das variedades de sementes. A tendência em todos os lugares onde a agricultura é industrializada é a mesma; de perda de biodiversidade e consequentemente da segurança alimentar. O aumento da temperatura média do planeta e os eventos climáticos extremos como enchentes, enxurradas, secas e ciclones agravam ainda mais essa questão da segurança alimentar uma vez que as monoculturas industrializadas são muito pouco resistentes a essas variações.

A perda da biodiversidade pelo modelo de produção do agronegócio, entretanto, vai além da questão do monopólio das sementes. O uso de pesticidas na agricultura e nas lavouras geneticamente modificadas tem causado a morte em massa de abelhas e outros polinizadores. O avanço do desmatamento tanto da Amazônia e do Cerrado brasileiros, dois dos biomas mais biodiversos do planeta, também é causado em grande parte pelo agronegócio. O desmatamento, por sua vez, traz a extinção de várias espécies que perdem seu habitat natural.

Esgotamento de Recursos

Como mencionei acima, o agronegócio usa de 70 a 80% das terras aráveis, 70% da água e 80% dos combustíveis fósseis usados na agricultura para produzir apenas 30% do alimento (Altieri, 2015).

A produção e distribuição de alimentos industrializados (o agronegócio) é totalmente dependente do petróleo. São os combustíveis fósseis que abastecem os tratores que aram, plantam e colhem os cultivos. Os adubos químicos, pesticidas e herbicidas são todos derivados de petróleo. E também são os combustíveis fósseis que mantém os padrões de mobilidade global (o trânsito internacional de produtos e pessoas). Agravando ainda mais a situação, segundo dados da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), a erosão causada pelo agronegócio chega a perder até 20 toneladas de solo por ano para produzir 500 quilos de alimento por pessoa. E segundo dados da ONU, até 2025 em torno de 50% da população mundial será impactada pela escassez de água.

Esse é outro grande problema do modelo industrial de agricultura e pecuária, ele esgota os próprios recursos que precisa no decorrer de sua produção se tornando cada mais caro e inviável.

Mais Agricultura Regenerativa para virar a mesa

Árvores pioneiras são agentes de cura da natureza. Sempre que um distúrbio forte o suficiente acontece desequilibrando as coisas para um estado de degradação, elas aparecem. Elas crescem muito rápido e usualmente em céu aberto. Elas começam a produzir sementes cedo e regularmente. As sementes são espalhadas pelo vento e outras árvores germinam em áreas degradadas. Os pássaros pousam nas árvores, comem suas sementes e plantam mais pioneiras em lugares ainda mais distantes. As árvores sombreiam a área, quebram as pedras no solo com suas raízes e trocam açucares por minerais com a micorriza no solo. Elas transportam esses minerais tronco acima por meio da seiva e quando suas folhas caem todos esses nutrientes enriquecem a camada superior do solo. Elas criam sombra, habitats, coletam e preservam água e fertilizam o solo para que outras plantas e animais possam viver melhor depois delas. Essa cura milagrosa acontece com pouco ou nenhum cuidado.

Muito embora algumas pessoas ainda defendam que o processo evolutivo se dá por meio da sobrevivência da espécie mais forte, já há bastante tempo outras perceberam que é a cooperação que promove a vida. É a cooperação que ocorre entre e intra flora, fauna e fungos que combate a entropia e re-arranja o caos em sistemas complexos de vida. Todos os seres vivos nesse planeta instintivamente sabem seu qual é seu papel nesse jogo. Mesmo as forças que chamamos antagônicas como o Yin e o Yang, o bem e o mal, a vida e a morte não estão exatamente competindo. Essas forças também estão estão cooperando porque são complementares e uma não poderia existir sem a outra.

Nós, seres humanos, entretanto nos tornamos um animal completa e literalmente diferente. Como mostra um artigo recente no The Guardian, nós humanos representamos apenas 0,01% da vida no planeta, mas já destruímos 83% de todos os mamíferos selvagens (isso sem mencionar outras espécies). Muitos outros artigos jornalísticos e científicos podem ser encontrados apresentando evidências esmagadoras de que chegamos à beira de um colapso planetário. O aquecimento global causado pelos humanos recentemente quebrou todos os recordes históricos de ondas de calor e eventos climáticos extremos. Nós também somos a principal causa de perda da biodiversidade. Nossa ação nos trouxe à sexta maior extinção em massa em 3.8 bilhões de anos da história da vida no planeta, um período denominado Antropoceno. E grande parte, uma parte imensa na verdade, desse dano é causado pela agricultura industrial.

Mas porque aparentemente nós somos os únicos a nos distanciar de papeis que nutrem a vida enquanto nos aprimoramos no desenvolvimento de sistemas degradantes. Não deveríamos todos ser como aquelas árvores pioneiras? Não deveríamos todos deixar um mundo melhor com solos mais ricos, água em abundância e ar puro para as futuras gerações depois que nossas vidas efêmeras são ‘cicladas’? Eu acredito que uma das principais razões pela qual nós não agimos diante das informações aterrorizantes que já temos disponível é a desconexão. A desconexão de nós mesmos, das pessoas à nossa volta e do nosso ambiente natural que torna possível que o 1% que já detém mais de 50% dos recursos do planeta dominem o resto de nós.

Entretanto, se um dos maiores problemas é a agricultura industrial, os produtores rurais que vivem o paradigma da agricultura regenerativa podem se tornar os heróis do futuro, como diz o produtor rural e autor Charles Massy. Massy pesquisou 150 fazendas lucrativas e regenerativas para escrever o livro The Call of the Reed Warbler: a new agriculture, a new Earth. O livro que deriva em parte do trabalho de doutoramento de Massy também detalha a situação terrível em que a agricultura industrial colocou o mundo. E embora apresente evidências esmagadoras do quanto o aquecimento global e a degradação do solo ameaçam a nossa existência, por meio dos produtores rurais entrevistados e das fazendas visitadas Massy apresenta muitas modalidades regenerativas que certamente faram parte do conjunto de soluções.

Agora, para que essas modalidades e abordagens funcionem e para que esse movimento regenerativo decole, nós precisamos trabalhar com eco-sistemas e não com ego-sistemas, diz Darren Doherty, um dos líderes mundiais nessa área em seu livro The Regrarians Handbook. O que é preocupante é que a frase de Darren se baseia em um tipo de experiência que muitos no movimento regenerativo já sofreram. Muito embora a maioria das abordagens regenerativas tenham sido concebidas à partir de um espaço de amor e entendimento profundo dos princípios e processos da natureza e muito embora a maioria das pessoas envolvidas na área sejam bem intencionadas, existe muita dissonância entre a ética, princípios e diretivas declarados nessas abordagens e o que alguns líderes e praticantes aplicam em suas vidas pessoais e profissionais.

Essa dissonância causa muitos danos, especialmente para os que procuram um sentimento de pertença à uma comunidade que representa uma vida e uma profissão mais gratificante e significativa nesse mundo. A maioria das pessoas se envolve com a agricultura regenerativa exatamente por que a ética e princípios declarados reverberam com elas e com a busca pela construção de um melhor e mais justo. Mas rapidamente nos deparamos com um educador ou praticante da permacultura com muito pouco “cuidado com as pessoas”, ou com especialistas da agricultura regenerativa que praticam ‘reserva de mercado’, sabotagem e outros comportamentos mafiosos ao invés de criar abundância por meio da cooperação e de uma atitude ‘open-source’.

De novo a desconexão é uma das causas principais. Egos inflados e leões-de-chácara nessas áreas normalmente tem seu senso de conexão interior e com a natureza quebrado. Geralmente também essas pessoas são movidas por insegurança. É tragicômico ouvir professores e praticantes falando do quão abundante o mundo pode ser, do quão generosa a natureza é enquanto agem como se o reconhecimento das pessoas por aquelas que fazem esse trabalho fosse uma moeda escassa demais para se compartilhar. Eu acredito que é essa dissonância entre o ensino da abundância ecológica e dos princípios regenerativos enquanto se pratica um tipo de economia social e emocional baseada na escassez que leva algumas pessoas a boicotar as oportunidades e carreiras das outras.

Será que eles pensam que os seus concorrentes são as pessoas montando fazendas regenerativas, dando aulas e ajudando outras pessoas por meio de consultorias em suas regiões? Nós não precisamos de leões-de-chácara dentro das abordagens regenerativas. Nós não precisamos de comportamento fundamentalista que leva alguns a competir pelas modalidades que mais se identificam. Nós não estamos competindo com nossos colegas. Nós estamos competindo com a ignorância, com um modelo de civilização que gera escassez planejada. Nós estamos competindo com a desconexão da natureza e das formas com as quais podemos produzir nosso alimento de maneira socialmente justa e ecologicamente segura.

Citando Lynn White, Massy explica em seu livro que “nossas idéias são parte do ecossistema que habitamos”. Daí a necessidade de construirmos eco-sistemas (e não ego-sistemas) nos quais a cultura regenerativa possa florecer. E para fazer isso precisamos de tantos produtores, designers e educadores regenerativos quanto for possível. E precisamos produzí-los rapidamente. É assim que vamos virar a mesa e partir de um sistema consumista e degradante para um regenerativo, abundante e cooperativo. Mas para isso precisamos de líderes e praticantes capazes de cumprir seu papel na sucessão do movimento regenerativo. Precisamos de líderes e praticantes que preparem o terreno de forma graciosa e de bom grado criando as condições ideais para que uma geração ainda melhor possa nos suceder.

A razão pela qual a agricultura industrial e as grandes corporações investem pesado em marketing, desinformação e pesquisas falsas é porque eles sabem o quão poderoso a intenção, as ideias, pequenas ações e um grupo de pessoas pode ser. Mas para o movimento regenerativo virar a mesa do sistema nós precisamos de uma abordagem integrativa para a educação e treinamento. Nós precisamos preparar e nutrir as próximas gerações para elas possam se tornar agentes de mudança, para que possam crescer seguros, íntegros de espírito e capazes de reconhecer seu lugar na natureza.

Em resumo, quaisquer que sejam as causas da dissonância entre a ética e princípios regenerativos e o que é praticado em nossas vidas pessoais e profissionais, uma coisa é certa: o movimento da agricultura regenerativa não florescerá nas mãos de leões-de-chácara operando ego-sistemas. Nós precisamos de produtores rurais, designers e educadores regenerativos que possam cumprir seu papel de pioneiros na sucessão ecológica do movimento para criar as futuras gerações que serão agentes de mudança em melhores condições do que tivemos.

Nota 1: Artigo inspirado nos livros de Charles Massy e Darren Doherty’s books, em comunicações pessoais com Darren Doherty, e no documentário “Quem se importa?”.

Nota 2: Para os que tem se interessado pelo meu trabalho com desenho regenerativo, durante o mês de setembro estarei no Brasil ministrando alguns cursos e oficinas.
– Entre os dias 1 e 9 de Setembro estarei ministrando o curso Agricultura Regenerativacom a equipe da Escola de Permacultura na Serra da Mantiqueira, MG. Esse curso oferece 3 módulos: Tomada de Decisão Holística, Planejamento de Propriedades Rurais com a Escala da Permanência da Linha Chave e Desenho Permacultural.
– Entre os dias 11 e 17 estarei com o amigo Sérgio Olaya ministrando o curso Agricultura Familiar e Empreendedorismo Socioambiental na Fazenda The Green Man em Inconfidência, RJ. Esse curso oferece 3 módulos: Tomada de Decisão Holística, Desenho Permacultural e Agricultura Sintrópica.
– Oficina de Desenho Permacultural na Chapada dos Veadeiros (a ser confirmado).