A Doutrina do Choque, a pandemia e a pergunta: “Agro pode ser regenerativo?”

Enquanto a fome atinge 19 milhões de brasileiros durante a pandemia, quase a metade das famílias têm algum grau de dificuldade para se alimentar e cerca de 27 milhões de pessoas sobrevivem em média com R$246 reais por mês o Brasil criou 238 bilionários durante a mesma pandemia. Juntos eles têm quase o PIB do Chile.

Não coincidentemente, a maioria desses negócios são bancos, fundos de investimentos e conglomerados de supermercados, ou seja, o tipo de negócio que tira a autonomia da população. E nós seguimos cegos sem uma revolta popular em massa diante desse absurdo. Com certeza e folga poderíamos usar estes recursos para amparar os que passam fome e dificuldade nesse momento tão sofrido da nossa história.

Comento hoje alguns links para documentários, reportagens e aulas que foram compartilhadas em minhas redes desde a semana passada.

O Brasil chega a 238 bilionários em 2020; fortuna total é quase o PIB do Chile – Matéria do caderno de economia do Portal UOL.

Para ajudar a entender como essa apatia diante de crimes tão graves contra a humanidade são possíveis, eu trago o trabalho da ativista e autora Naomi Klein, “A Doutrina do Choque”. O documentário foi compartilhado pela Márcia Silva (@simbioticabioaliemntos), ativista do movimento agroecológico no RS que participa do grupo de Agricultura Regenerativa do telegram.
Nota: Quem quiser participar é só pedir o link por mensagem direta, não disponibilizamos o link para evitar os ataques de robôs).

Naomi traça a genealogia do “Capitalismo de Desastre” desde os experimentos conduzidos pelo psiquiatra Ewen Cameron em parceria com CIA. Esses estudos mostravam como as pessoas ficavam mais suscetíveis a sugestões de comportamentos e confissões após receber eletrochoques e/ou passar por longos períodos de privação sensorial trancafiados sem poder ver o mundo externo, sem cores, sem sentir sabores, texturas e afagos.

Esse link foi compartilhado no grupo alertando para o fato de que a pandemia, embora real e desastrosamente assassina mediante a suposta incompetência de Bolsonaro, pode estar sendo usada como uma Doutrina de Choque para que a população aceite sem questionar as reformas legais, fiscais e privatistas da agenda neoliberal desse governo.

E eu digo suposta incompetência porque quando analisamos a Doutrina do Choque e como ela foi usada por Milton Friedman – o economista guru da escola de Chicago, onde Paulo Guedes se formou – fica claro que o neoliberalismo sempre usou o choque, a desgraça, para fazer com que a população aceitasse reformas que só privilegiam a elite.

Exatamente como estamos agora, em meio à pandemia, aceitamos inertes que 238 bilionários tenham a riqueza de um país inteiro, enquanto 19 milhões de brasileiros passam fome durante a pandemia e 27 milhões de pessoas sobrevivam em média com 246 reais por mês.

A desgraça brasileira atual está à serviço de uma elite sociopata, classista e subserviente a poderes corporativos estrangeiros.

Leiam o livro e assistam o filme. A maior hipocrisia esclarecida é que em nenhum lugar onde a Doutrina do Choque foi utilizada para implementar a economia neoliberal as condições de vida da população melhoraram. Via de regra, a elite mundial força a mão dos grandes impérios, usa de violência, desinformação e controle para concentrar renda, poder e território. É o livre comércio desta elita, nunca foi do bem estar comum.

Tanto o livro quanto o filme trazem vários exemplos dessa hipocrisia desumana indo desde o primeiro laboratório de Friedman, a América Latina, passando pela Inglaterra, Polônia, China, União Soviética e Ásia, até chegar na Guerra do Iraque.

E o agronegócio nesse contexto atual, como fica?

Enquanto a pandemia e as mais de 4 mil mortes diárias são usadas como Doutrina do Choque, o governo desmonta as instituições ambientais, favorecendo o agronegócio, a mineração e a construção civil, que nada tem a ver com produção de alimento, infraestrutura ou moradia. Estas são só fachadas para as maiores plataformas de escoamento de petroquímicos, concentração de renda e poder nas mãos de pouquíssimas corporações transnacionais.

O IBGE, claro! Está sendo desmontado também, porque sem dados e análises sérias sobre como está a população, fica mais fácil governar com a Doutrina do Choque, notícias falsas e propaganda – o Correio Brasiliense traz uma reportagem sobre este tema .

E aí vem a propaganda. Enquanto todas as instituições que poderiam frear os crimes ambientais do agronegócio e documentar sua concentração de renda e terras são desmontadas, as notícias de que o agronegócio pode ser regenerativo aparecem.

O Estado de São Paulo publicou uma reportagem intitulada “Agricultura Regenerativa”. Nela Roberto Rodrigues conta uma estória da Carochinha que os avanços nos últimos 35 anos foram em melhoramento genético (leia-se transgenia), adubação (leia-se escoamento de produtos petroquímicos e mineração) e mecanização (leia-se desemprego no campo e êxodo rural forçados), mas que agora “o mundo rural avalia ações ligadas à biologia”.

Roberto Rodrigues diz que a Agricultura Regenerativa pode ser vista como um agente de paz, mas não aborda em nenhum momento a definição do termo que existe para além da regeneração ambiental, a regeneração sociocultural – que demandaria uma reforma agrária e modos de produção que aplaquem a cultura e qualidade de vida das pessoas no campo – e a regeneração econômica que demanda que os recursos gerados circulem dentro da biorregião onde foram produzidos.

O Globo Rural deste domingo, dia 11/04, traz na reportagem sobre a “Agricultura Regenerativa” a produção de grãos de milho e soja orgânicos em milhares de hectares como um avanço. Em sua versão escrita um dos sócios da empreza informa um quadro com apenas 60 funcionários. A reportagem não explica nem contextualiza como vivem esses funcionários ou vácuo humano causado por sistemas de produção que podem ocupar milhares de hectares com um número tão pequeno de pessoas.

A reportagem também não revela que o que na verdade se desenrola é o mercado de commodities orgânicas. E, que como todo mercado de commodities, esse mercado “orgânico” tem muito mais a ver com concentração de terras, poder, renda e capital especulativo que com produção de alimentos saudáveis regenerando as dimensões socioculturais e econômicas das biorregiões onde esses grãos são produzidos.

A agrofloresta, que em área comparativa com os milhares de hectares dedicados a produção de grãos, é uma parte quase inexistente, é usada como garota propaganda. E por fim, um branco super privilegiado é apresentado como herói, escondendo assim o protagonismo de mulheres, de indígenas, de povos tradicionais, do MST e tantos outros que protagonizam o movimento realmente regenerativo que é a AGROECOLOGIA.

Uma das missões mais importantes que temos hoje é protagonizar a definição, a prática e o exemplo da Agricultura Regenerativa. A definição e as métricas e indicadores desse termo precisam ser amplamente difundidos por nós que protagonizamos a agroecologia, a empatia, a economia biorregional e o êxodo urbano pelo movimento de transição.

Para ser verdadeiramente regenerativo o agro precisa distribuir terras, renda, ter planos de carreira com salários dignos para seus funcionários. Precisa cuidar para que as pessoas que vivem no campo, que são plurais e vão muito além da lógica de produção, tenham tempo livre, qualidade de vida, segurança e soberania sobre seus territórios e alimentos. Precisa regenerar a economia em sua biorregião e não produzir para o mercado financeiro.

O dia que a produção do agro for regenerativa nesses sentidos, talvez ela seja verdadeiramente regenerativa.

Até lá, o que o agro faz ao usar esse termo é usurpar o protagonismo das pessoas do campo, dos movimentos sociais e ativistas. Da mesma maneira que já usurpou e distoreceu os termos “orgânico” e “sustentável”.

Aqui no site eu já escrevi sobre este tema no artigo O que é um produto orgânico? Podemos confiar no rótulo? e sobre Como funciona o controle de danos do Agronegócio explicando como esses conglomerados transnacionais usurpam e distorcem os termos.

Para fechar eu trago para vocês a aula Regeneração de Solos Degradados com Processos Biológicos, do agricultor e ativista Pedro Meza (Instagram @pedro.meza.33).

Um testemunho de como a soberania alimentar, a saúde e a possibilidade de expressarmos nossas vocações em sua plenitude está diretamente ligada ao acesso de um pedaço de chão onde o lar vai do solo à mesa onde comemos. É por isso que digo que só escaparemos essa extinção em massa em Santuários de Sanidade Mental e Ecológica.

Pedro é um artesão, um guardião e um druida do solo! Buscando soluções que trazem autonomia e eficiência para o produtor, Pedro experimenta com vários métodos de regeneração de solos degradados. Tinturas, microorganismos eficientes, chás de composto e outros inoculantes de vida vão para o solo e chegam para a mesa da família com muito carinho, com muita competência e um senso estético de um renascentista da regeneração planetária.

Viver como o Pedro vive, em contato direto com sua vocação, com cheiros, texturas, sabores, cores é um remédio para a privação de sentidos praticada pela doutrina do choque durante a pandemia.

Não temos um conjunto de soluções que não passe necessariamente por uma gestão ecológica, social e economicamente regenerativas, pela reforma agrária e o esvaziamento das cidades, pela agroecologia e pela soberania alimentar!

Se vocês têm se beneficiado pelo meu conteúdo e reflexões, eu peço que se inscrevam no canal do youtube, na lista de emails aqui no site, na plataforma de interação sobre planejamento rural e agricultura regenerativa e que compartilhem o conteúdo com suas recomendações.

Tenho também um link para o financiamento coletivo da produção deste conteúdo no Apoia.se . Nesse sentido, o apoio de vocês é super importante porque me ajuda a construir a base material que preciso para continuar produzindo conteúdo de pensamento crítico, ecológico e sistêmico para compartilhar.

Por fim, quem se interessar pela transição, pelo planejamento rural e por se conectar com uma rede de produtores e ativistas que estamos tecendo, meu próximo curso começa dia 27/04. Vem com a gente fazer parte das soluções! Clique aqui para fazer sua inscrição!

Porque apoio a Soberania Alimentar e não o Veganismo Fundamentalista

Para a maioria dos adeptos, o veganismo não é uma dieta, é uma ideologia que se opõe ao especismo. O Especismo, é o ponto de vista de que uma espécie, no caso a humana, tem todo o direito de explorar, escravizar e matar as demais espécies de animais por considerá-las inferiores.

Embora o especismo seja a base filosófica, frequentemente apóstolos do veganismo fundamentalista trazem argumentos relacionados ao meio ambiente, a espiritualidade e a nutrição.

Eu não tenho nada contra pessoas veganas, mas não concordo com o especismo como base ideológica e muito menos com os argumentos ecológicos, espirituais e nutricionais. O meu entender é que não é possível defender a agenda de conversão de grande parte do movimento vegano e defender a Soberania Alimentar ao mesmo tempo.

Soberania Alimentar implica que as pessoas têm o direito de decidir sobre sua dieta e de acesso aos meios de produção para mantê-la. A Soberania alimentar também implica o direito a decidir como comercializar se for o caso e se essa comercialização atende a biorregião, o país ou uma agenda de exportação. Dentro desse paradigma a ética que leva cada pessoa a decidir o que comer é um direito.

Eu defendo a Soberania Alimentar e dentro desse paradigma que a produção seja agro-etno-ecológica. Em geral esse termo indica uma produção que se baseia nos princípios ecológicos como é o caso da agrofloresta sucessional ou da agroecologia e isso se aplica também a esses sistemas quando eles integram a produção animal. Nesse caso o sufixo ‘etno’ indica que o sistema de produção garante que durante toda sua vida o animal é criado com sua dieta natural e expressando suas características intrínsecas. Herbívoros criados exclusivamente a pasto. O porco livre para chafurdar expressando sua ‘porquice’… A galinha sua ‘galinhice’… ciscando, tendo acesso a plantas, insetos, vermes e grãos porque é onívora… Em outras palavras nenhum animal é criado em confinamento. E quando falo de pecuária, falo de pecuária com planejamento holístico de pastagens.

O foco na soberania alimentar opera no âmbito das soluções. Constrói o direito de todos a decidir o que comer e aos meios de produção para fazer isso de forma saudável. E por ser uma política inclusiva, isso inclui os veganos também!

Quando se advoga o veganismo com argumentos ambientais o foco está no problema: a carne que degrada o meio ambiente e é produzida em um paradigma que só visa lucro. Aqui vale dizer que uma dieta à base plantas suprida pelo agronegócio via supermercados faz parte do mesmo paradigma destrutivo e degrada da mesma maneira.

Entender que tanto a carne quanto as verduras e legumes vendidos nos supermercados degradam porque participam do mesmo paradigma de produção é essencial. Assim podemos entender que a mudança a ser feita é no sentido de que qualquer alimento seja produzido agro-etno-ecologicamente.

Nesse sentido a propaganda vegana não é honesta. Primeiro porque faz comparações entre a carne e verduras e legumes sem distinguir os meios de produção. Segundo porque sempre usa como base a carne produzida em confinamento ou na pecuária extensiva.

A questão ambiental

Aqui é importantíssimo ressaltar que existe produção animal que restaura o agroecossistema. A procura por esse tipo de carne liga onívoros éticos com produtores locais reforçando uma tendência que restaura ecossistemas, economias e culturas.

Ainda na questão do meio ambiente precisamos entender que aproximadamente dois terços do planeta são compostos por regiões semiáridas ou de latitudes extremas onde a produção local precisa incluir animais. Especialmente se queremos restaurar a cultura e comércio justo biorregionais.

No Brasil temos 3 biomas onde a sazonalidade das chuvas fazem com que os animais sejam fundamentais nos processos de regeneração: a caatinga, o cerrado e os pampas. O nordeste brasileiro tem o semiárido mais populoso do mundo e mais de 20 milhões de hectares já em processo de desertificação causada pela agricultura industrial e a pecuária extensiva (dados da Sudene). Nesse caso o Gerenciamento Holístico de pastagens é o mais indicado por levar em conta as dimensões ecológicas (por planejar as rotações baseado na recuperação da vegetação e biodiversidade), sociais (por priorizar a qualidada de vida dos produtores) e econômicas (porque produz em harmonia com a ecologia). Esse sistema é capaz de restaurar o solo, os lençóis freáticos e a biodiversidade rapidamente.

Dentro desse contexto também vale comentar as pesquisas do Dr Miguel Altieri, agroecologista chileno que publica pela Universidade da Califórnia e argumenta que além de serem mais resilientes e biodiversas, as propriedades com sistemas de produção animal integrados chegam a ser 20 vezes mais energeticamente eficientes que as outras (Altieri, 2014).

Essa eficiência energética é extremamente importante para que a agricultura agro-etno-ecológica não seja dependente de insumos de uma matriz energética que sabemos que não vai durar. Ela também é fundamental para que a escolha alimentar de uns privilegiados não seja subsidiada pela dignidade e saúde dos produtores rurais. (Discuto o papel da pecuária regenerativa na soberania alimentar e biorregionalização das cadeias de produção pós-pandemia nesse artigo )

A questão nutricional

Todos os estudos sobre dietas a base de plantas fazem comparações com a S.A.D, a Standard American Diet ou Dieta padrão americana, ou seja com alimentos altamente processados e de baixíssimo valor nutricional. Não existem estudos comparativos entre dietas à base de plantas com dietas onívoras agro-etno-ecológicas.

Frequentemente as propagandas também comparam a quantidade de proteínas, cálcio ou ferro em determinados alimentos e a carne, mas não comentam sobre a biodisponibilidade, ou seja, que quando esses nutrientes vem de uma carne saudável nosso organismo absorve mais rápido e com menos esforço metabólico.

Na questão nutricional o consenso científico é de que as dietas veganas e vegetarianas podem nos deixar deficientes em muitos nutrientes. Entre eles as vitaminas do complexo B, cálcio, ferro, zinco, ácidos graxos de cadeia longa e as vitaminas A e D, que são solúveis em gordura. Aqui eu deixo links para 3 referências científicas (em inglês):

A Diana Rodgers, nutricionista americana que escreveu o livro Vaca Sagrada (Sacred Cow) que agora está para ser lançado como o documentário;

– o mestre em nutrição Chris Kresser, que tem feito pesquisas e revisões bibliográficas constantes sobre o tema;

– e a Dra Georgia Ede, que tem alertado para o perigo das dietas veganas para a saúde cerebral pela fala de DHA – um ácido graxo ômega 3 chamado docosa-hexaenoico – que as plantas não fornecem. (Fiz uma tradução livre e resumida desse vídeo no artigo A carne e a mente: como nossa saúde neurológica e mental pode estar ligada a ingestão de carnes saudáveis.

A questão espiritual

Na questão espiritual eu também não vejo coerência. Não existe vida sem morte. Não existe natureza sem sofrimento. Ninguém julga a onça por comer a paca, o tamanduá por comer as formigas ou a micorriza por comer os nematóides no solo. As cadeias alimentares fazem parte da estratégia de complexificação da vida para combater a entropia. Comunidades indígenas e tradicionais, que para mim estão entre os seres mais evoluídos exatamente por sua conexão com a natureza, não são veganos. O Dalai-lama não é vegano!

Um senso de espiritualidade que faz com que uns se achem mais evoluidos que outros, não pode nos conectar com a fonte, com o um. Um senso de espiritualidade que nos faz acreditar que podemos viver como seres supremos, supostamente mais evoluidos e por isso desconectados da cadeia alimentar, de novo, não cumpre sua função de nos reconectar com a fonte.

O especismo

Por fim, a questão do especismo para mim não é coerente exatamente por entender que nós evoluimos como seres humanos fazendo parte do ecossistema e das cadeias alimentares, como expliquei acima.

Existe uma relação simbiótica entre várias espécies. As aves que seguem as manadas de herbívoros, os peixes que limpam dos dentes do tubarão, os carniceiros que seguem os que predam em bando. Entre nós que aprendemos a caçar usando aves de rapina e cães. Essa evolução se deu por milhares de anos e por criar relações de benefício mútuo entre as espécies e dessas espécies com os ecossistemas que habitam.

É por isso que temos mais proximidade com algumas espécies e comemos outras. Isso acontece por toda a cadeia alimentar.

E não se enganem. Em um futuro não muito distante a diminuição dos subsídios energéticos vindos dos combustíveis fósseis forçará o exôdo urbano (re)criando as condições para uma vida mais rural. Nesse contexto, um número muito maior de pessoas vai entender que o veganismo é um direito, mas está longe de ser uma alternativa universal viável em grande parte do planeta.

Nos meus cursos, trabalhos e conteúdo que produzo como educador e ativista, eu apresento os animais como uma das ferramentas que temos para reverter os processos de desertificação e mitigar as mudanças climáticas.

Com isso, frequentemente alguns fundamentalistas tentam desqualificar meu trabalho ou as fontes científicas que uso. É aquela velha tática de oratória onde se tenta desqualificar o interlocutor para não ter que dialogar com a idéia. Nesses casos costumo dizer que é nessa atitude que o veganismo progressita encontra a extrema direita. E vejam que os autores com os quais embaso meu trabalho são quase todos progressistas ativistas da agroecologia como é o caso Dra. Ana Primavesi, Dr. Steenbock, Dr. Miguel Altieri, Dr. Pablo Tittonell, Dr. Gliesmann e o próprio Allan Savory.

Afirmo frequentemente que não temos mais tempo para não usar todas as ferramentas possíveis para reverter os processos de desertificação, as mudanças climáticas e o antropoceno. E embora pareça contraditório de início porque a grande maioria das pessoas nunca viu esses sistemas funcionando na regeneração e tem resistência para aceitar essa inovação na ecologia, os animais fazem parte desse conjunto de soluções quando utilizados da maneira correta.

Espero que tenha ficado claro que é exatamente por defender a soberania alimentar que entendo o veganismo como um direito, mas não um dever de todo ambientalista. Como expliquei, não concordo com o viés evangelizador, a propaganda tendenciosa do movimento, nem as manifestações que ferem o direito alheio (como no caso de propriedades invadidas). Mas acredito ser extremamente importante que todas as pessoas tenham o direito de escolher o que comer e tenham acesso aos meios de produção.

E a grande diferença entre esses dois movimentos é que o ramo fundamentalista do movimento vegano cria uma hierarchia falsa onde de acordo com um sistema de crenças os onívoros são supostamente menos ‘ambientalistas’ porque ‘ainda’ comem carne. Enquanto a soberania alimentar, não cria divisões que enfraquecem o ativismo socioambiental, abraça a diversidade e celebra as diferenças defendendo o direito de escolha de todos.

Nota:

Se você tem aprendido e se beneficiado do conteúdo multimídia do Podcast Impacto Positivo, eu peço que se inscreva no canal, compartilhe o conteúdo com suas recomendações e considere ser um patrono com doações mensais em nossa página do apoia-se – https://apoia.se/impactopositivo

Como funciona o controle de danos do agronegócio

A questão do uso dos agrotóxicos no Brasil não é polêmica, é econômica e gira na casa dos bilhões! Só em isenção para as corporações que vendem agrotóxicos o Brasil deixa de arrecadar anualmente 10 bilhões em impostos. “Esse pacote de isenções, revelado por um esforço de pesquisa da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e pelos pesquisadores da Fiocruz e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro passou a ser chamado “bolsa-agrotóxico“!

Mas isso é só no Brasil e só em isenções fiscais. No mundo as 10 maiores empresas que produzem agrotóxicos lucram 39.62 bilhões por ano com a agricultura da morte.

O agronegócio diz que é preciso subsidiar a indústria do veneno porque sem ela não seria possível produzir alimentos acessíveis. Mentira! O agronegócio produz mais comódites em grãos e produtos transgênicos que alimento. Na verdade sairia muito mais barato taxar apropriadamente essa indústria da morte e subsidiar a produção de alimentos saudáveis para a população por meio da agricultura familiar, que já produz em torno de 70% do alimento usando apenas 20% das terras aráveis e 30% da água usada na agricultura.

Um estudo publicado na revista Saúde Pública revela que para cada US$ 1 gasto com a compra de agrotóxicos no Paraná, são gastos U$$ 1,28 no SUS com tratamento de intoxicações agudas — aquelas que ocorrem imediatamente após a aplicação.

Agravando ainda mais os custos que essas empresas empurram para a sociedade, estudos científicos sérios apontam que os casos crônicos de doenças como o câncer causadas pelo uso de agrotóxicos no Brasil são subnotificados. A realidade é que para cada caso notificado existem 50 que passam despercebidos ou são deliberadamente escondidos por essa indústria bilionária (PIRES, D.; CALDAS, E.; RECENA, M.C., 2005)! Isso implica que entre 2007 e 2014, mais de um milhão de brasileiros foram intoxicados por agrotóxicos. Em 2015 o governo deixou de publicar os casos de intoxicação por agrotóxicos o que dificulta muito a continuação das pesquisas.

Esses e outros dados alarmantes estão disponíveis no livro Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Européia, da Dra Larissa Bombardi, uma adaptação da tese de pós doutoramento da autora publicada pela USP.

Mas existem também os custos ambientais, que também são empurrados para a sociedade por essas corporações dos agroquímicos. O Fórum Econômico mundial estima que a pandemia atual custará entre 8.1 a  15.8 TRILHÕES de dólares para a população mundial e o consenso científico é de que quanto maior as taxas de desmatamento, quanto mais centralizada a produção, maior o risco de novas pandemias.

Ilustração mostrando como o desmatramento aumenta as chances de termos novas pandemias

Essas corporações bilionárias investem milhões anualmente em propaganda para impedir a disseminação de conhecimento sobre os custos reais de suas ações na saúde, na sociedade e no meio ambiente.

Essa estratégia de marketing é chamada ‘controle de danos’. Nesse momento, a estratégia do governo Bolsonaro no Brasil, por exemplo, é relativizar e questionar os estudos científicos que apontam o impacto negativo do agronegócio no meio ambiente e na saúde, não com pesquisas de igual rigor científico, mas com campanhas propagando falsas informações.

O ‘controle de danos’ visa mitigar danos causados à credibilidade, reputação ou imagem pública dessas empresas de agroquímicos, e consequentemente aos seus lucros. Isso porque as consequências genocidas do uso desses produtos está se tornando uma unanimidade científica que tem informado a população em geral.

O Brasil permite 5000 vezes mais glifosato na água potável que países desenvolvidos – em Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia.

Só no Brasil, essa “bolsa-agrotóxico” inclui investimentos públicos milionários em gigantes transnacionais do setor agroquímico. Um levantamento feito pela Repórter Brasil e a Agência Pública mostra que, nos últimos 14 anos, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) emprestou R$ 358,3 milhões a empresas agroquímicas (com juros subsidiados pelo governo) e a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), agência do governo que financia inovação em empresas, transferiu R$ 390 milhões a grandes produtores de pesticidas para pesquisa e inovação. Esses são os valores que bancam a pseudociência em muitas das faculdades de agronomia, engenharia florestal, zootecnia e veterinária no Brasil.

Essa é a estratégia usada pelo agronegócio no Brasil. Vídeos, artigos e memes tem circulado a internet e as mídias sociais, relativizando o impacto ambiental negativo e a gravidade da intoxicação direta e indireta causada pelo uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos nas lavouras e pecuária no Brasil.

Dentro da estratégia de ‘controle de danos’ essa abordagem é chamada de re-enquadramento. Ela consiste na mudança sutil do foco, do enquadramento, tirando do centro do debate a questão dos malefícios causados por esse modelo industrial de produção e fazendo com que as pessoas pensem a discutir, por exemplo, que o Brasil está atrasado em relação a outros países supostamente mais desenvolvidos e que ainda é o país com maior área de florestas em pé.

Ratos alimentados com milho transgênico e água com glifosato, Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia.

Entretanto, o que está em questão é que toda a abordagem da agricultura e pecuária industrial está ultrapassada em qualquer lugar e que devastação nenhuma é aceitável. Em todos os países onde é utilizada ela degrada o meio ambiente e a saúde das pessoas enquanto concentra dinheiro, território e poder.

Os setores simpatizantes desse governo, os acadêmicos ‘colonizados’ e os departamentos de marketing dessas corporações seguem estágios dentro da estratégia de ‘controle de danos’.

Primeiro, ignoram os dados e pesquisas contrários ao agronegócio enquanto for possível. Depois ridicularizam e descrevem as pesquisas e a agricultura regenerativa de forma imprecisa. Em último caso conduzem pesquisas e comparações falsas e difamam pessoas e instituições com opinião contrária para, finalmente, desacreditar as alternativas socialmente, ecologicamente e economicamente viáveis. (Mulligan, M. e  Hill, S. em Ecological pioneers: A social history of Australian ecological thought and action. 2001).

A contra-inteligência é uma das práticas comuns no “controle de danos”. Ela consiste em inundar os meios de comunicação com desinformação pintando como polêmico ou controverso o fato já comprovado pela ciência de que os agroquímicos causam câncer e outras doenças crônicas graves e que a agricultura industrial é uma das maiores causas do Antropoceno, a sexta maior extinção em massa na história da vida no planeta. Isso, simplesmente porque o consenso científico vai contra o imperativo de lucro de umas poucas corporações internacionais.

A verdade é que a única maneira de alimentar a população mundial sem causar devastação ambiental, doenças crônicas degenerativas e o êxodo rural é com a agricultura familiar agroecológica. São os pequenos produtores rurais ao redor do mundo, na grande maioria mulheres, que produzem de 50 a 75% da comida que alimenta a população mundial.

E elas fazem isso usando apenas de 25 a 30% da terra arável, 30% da água e 20% dos combustíveis fósseis usados na agricultura (Altieri, 2015; Tittonell, 2014).

A verdade econômica também é muito clara! Sem os subsídios fiscais, os perdões anuais de dívidas bilionárias e somando o custo da destruição ambiental e da saúde humana à produção agroindustrial, nenhuma dessas corporações se sustenta economica ou ecologicamente.

A única maneira de garantirmos um futuro com água e ar limpos e alimentos verdadeiramente nutritivos para as próximas gerações é gerindo nossos recursos de maneira socialmente justa, ecologicamente restauradora e economicamente viável e isso só a agricultura familiar agroecológica pode fazer.

A “grande escala” não é a solução, é o problema

A escala de aplicabilidade da agricultura regenerativa é um ponto que tenho abordado muito em aulas, não para criticar a agrofloresta ou qualquer outra abordagem de produção em larga escala ou quaisquer dos seus adeptos, mas para criar diálogo e buscar soluções que, de fato, abordem a raiz do problema.

O trabalho de pesquisadores tarimbados como Sebastião Pinheiro, Ana Primavesi, Miguel Altieri, Pablo Tittonell, Gliessman, entre outros, traz que são os pequenos produtores com propriedades até 2 hectares que produzem a maior parte dos alimentos (não comódites) do mundo. Aqui no Impacto Positivo o Dr Walter Steenbock já explicou como o agronegócio tem contribuido para a degradação do meio ambiente e a perda da biodiversidade, e como juntos esses fatores nos levaram ao Antropoceno; a sexta maior extinção em massa na história do Planeta Terra.

Para viabilizarmos uma “grande escala de produção” no paradigma atual são necessárias grandes propriedades, maquinário, investimento e concentração de renda. A larga escala, então, em qualquer abordagem agropecuária, exclui social e economicamente o pequeno produtor. Mais ainda, ela frequentemente tem que escoar sua produção muito além das fronteiras biorregionais perpetuando assim problemas de poluição relacionados a cadeia de distribuição.

A grande escala de produção agropecuária continua ‘tentando’ resolver um outro problema de escala que criamos ao projetarmos mega-cidades. Esse tipo de urbanismo é um erro social, econômico e ecológico que só foi alcançado graças a abundância de combustíveis fósseis, que já sabemos estar em rápido declínio de extração.

É a velha lógica capitalista… ainda trabalhando na eficiência (no caso a escala) e substituição (a tecnologia agroflorestal ou outra abordagem regenerativa) e não no redesenho (estágios de mudança elaborados Stuart Hill, PhD, para adoção de uma agricultura sustentável). Redesenhar, no caso, seria redesenhar nossos sistemas de produção para incluir mais gente com qualidade de vida e viabilidade econômica e ecológica no campo. O redesenho seria uma produção de pequena e média escala, ligada em rede e coordenada em agroindústrias cooperativas, desinchando e resolvendo em parte o problema que são as grandes cidades.

O gráfico usado no cabeçalho tem circulado na internet com o título “Qual modelo é mais necessário para a sociedade brasileira?”. O gráfico é mais antigo e pode ser encontrado, por exemplo em uma publicação da Escola Milton Santos de Agroecologia de outubro de 2013. Mas é pertinente que tenha sido trazido à tona novamente haja visto a preferência do governo atual (2019) em subsidiar o agronegócio, suas corporações e práticas que degradam a saúde humana e a ecologia. Esse mesmo gráfico também circulou alguns grupos dos quais faço parte e onde cogitamos a utilização da agrofloresta sucessional em larga escala. Mas trabalhos importantes de pesquisadores já citados acima confirmam a noção de que a grande escala é o problema, não a solução.

Então a pergunta que fica é: queremos aumentar escala de produção para atender demandas de um projeto de civilização já falido ou queremos começar outro projeto produzindo de forma holística (social, econômica e ecologicamente harmoniosa)?

Pequenos produtores ligados em rede em suas biorregiões formam uma grande escala, mas o paradigma é outro, é cooperativo, local e descentralizado. Portanto de pouca utilidade para a ideologia vigente, o mercado financeiro e os pouquíssimos que lucram com ele.

Os objetivos da Linha Chave

“O objetivo do Plano da Linha Chave é aprimorar as áreas de agricultura e pecuária revertendo a tendência de deterioração da terra sob ocupação humana. … Ele se baseia na crença de que toda busca da agricultura ou pecuária são em si mesmas meios de melhorar cada vez mais a fertilidade no solo.” P. A. Yeomans em O Desafio da Paisagem escrito 1958.

Nota: Tradução livre feita por Eurico Vianna, PhD, em Abril de 2019 do capítulo The Aims of Keyline (Os Objetivos da Linha Chave) no livro The Challenge of Landscape (O Desafio da Paisagem), escrito por P.A. Yeomans e publicado pela Keyline Publishing em 1958 na Austrália.

Yeomans, P.A. (1958). The Aims of Keyline in The Challenge of Landscape. Keyline Publishing PTY. Australia.

O Plano da Linha Chave é um plano para áreas de produção rural baseado primeiramente na minha própria concepção do que é o solo, como ele se desenvolveu naturalmente e como podemos desenvolvê-lo ainda mais e, em segundo lugar, no clima e na topografia de cada propriedade na qual o plano é aplicado.

Ele se baseia na crença de que toda busca da agricultura ou pecuária são em si mesmas meios de melhorar cada vez mais a fertilidade no solo. As técnicas do Plano da Linha Chave foram desenvolvidas com essa finalidade.

O objetivo do Plano da Linha Chave é aprimorar as áreas de agricultura e pecuária revertendo a tendência de deterioração da terra sob ocupação humana – tornando essas áreas estáveis e permanentes em uma paisagem que se restaura de modo geral. Seu objetivo é melhorar qualquer solo agriculturável à partir do solo mais pobre até os mais ricos para muito além do que se desenvolveria naturalmente em determinada região climática. A evolução do solo na natureza à partir de solos sem vida e rochas pode ter levado períodos de tempo consideráveis. Os seres humanos com tempo limitado felizmente têm muitas maneiras e processos por meio dos quais podem rapidamente melhorar qualquer solo natural.

Todas as técnicas do Plano da Linha Chave são projetadas para melhorar o clima do solo contrapondo o histórico das condições climáticas gerais que afetam e que largamente criaram o solo.

O Plano da Linha Chave foi desenvolvido na Nova Gales do Sul, na Austrália, e seu desenvolvimento provavelmente foi influenciado pelas condições gerais da forma que se aplicam à maioria das nossas terras produtivas. Visto que a Linha Chave se baseia no estudo do clima e da topografia, ela se adequa de forma prática a qualquer tipo de paisagem agriculturável. Suas várias técnicas serão aplicadas em maior escala nos aspectos mais amplos da agricultura nas regiões que abarcam a produção de grãos, ovinos e bovinos na Austrália e em outras terras.

Enquanto a Linha Chave rejeita as abordagens ‘santificadas’  ou predominantemente químicas com fertilizantes artificiais geralmente usadas na agricultura ortodoxa, ela encontra grande valor em alguns ‘artificiais’ de uma abordagem nova ou não-ortodoxa. Muito embora a Linha Chave não seja classificada como agricultura orgânica, ela usa meios naturais de restauração do solo com muitos benefícios.

 Os métodos ortodoxos de melhoria de pastagens não são Linha Chave. A Linha Chave consegue resultados maiores e mais rápidos na restauração de pastagens com ênfase na melhoria do solo, usando e melhorando as pastagens durante o processo.

Ela não segue a abordagem ou usa os métodos de conservação do solo porque a técnica da Linha Chave tem o efeito de melhorar o solo rapidamente, restaurando e prevenindo erosão. Ela preserva e assegura a topografia natural do terreno melhorando o ambiente climático do solo. A erosão do solo então deixa de ser um fator que requer consideração especial.

Geralmente o plano busca conservar no solo tanta água da chuva quanto seja necessária para que o solo possa promover sua própria restauração em cada estágio de desenvolvimento em particular. Se toda a chuva que cai se faz necessária, então toda ela é conservada para ser usada de forma produtiva. Todo excedente do escoamento é armazenado em açudes de vários tipos projetados para usos específicos.

Quando a água escoa além das necessidades de conservação do solo e da capacidade máxima dos açudes, ela segue as linhas de fluxo natural. O fluxo de água que se forma nos talvegues não causa danos aos vales em programa com a Linha Chave.

Quando a água é um fator limitante, o armazenamento é projetado para captar o maior coeficiente de escoamento e não o escoamento anual mínimo como ortodoxamente recomendado.

O Plano da Linha Chave, como muitos outros, promove o plantio de árvores, mas fornece um padrão de planejado para todos os plantios.

De novo, o plano torna os solos mais profundos. Tem sido dito que talvez tenha levado séculos para formar 2,5 centímetros de solo natural. Mas os humanos podem controlar os fatores envolvidos de tal maneira que é possível formar muitos centímetros de solo à partir de rochas decompostas e solos mortos em 3 anos, embora em muitos casos seja possível produzir pastagens nesses solos dentro de um ano.

O Plano da Linha Chave se desenvolve principalmente à partir de uma técnica de planejamento global que se baseia em uma nova concepção de topografia como amparo poderoso para o desenvolvimento agrário. E o que baseia seu planejamento é o padrão derivado do fluxo natural da água. Isso pode ser melhor ilustrado da seguinte maneira: os talvegues de cabeceira macios, de formato arrendados, sejam eles pequenos, de uns poucos acres, ou grandes, com centenas de acres, geralmente tem duas inclinações distintas ao longo da sua linha central; primeiro a inclinação mais aguda que cai à partir da colina ou cumeeira, segundo a inclinação mais suave que geralmente é constante em relação a sua junção com o curso de água abaixo. O ponto de mudança entre esses dois declives – o ponto onde o primeiro declive mais alto e agudo encontra o declive mais suave eu chamei de Ponto Chave do talvegue no meu livro anterior, “O Plano da Linha Chave”.

Uma linha cruzando esse ponto e se estendendo para direita e para esquerda, podendo ser em curva de nível ou com leve caimento dependendo das circunstancias do clima e da topografia que influenciarão o planejamento de cada propriedade, é a Linha Chave do Talvegue (ou do vale na terminologia em inglês, nota do tradutor). Agora, esses dois declives do talvegue são um elemento constante da topografia e o talvegue com seu ambiente imediato é primeiro ou principal a ser considerado para captação de água.

A próxima e maior área de captação é aquela que inclui duas, três ou várias dessas áreas de captação primárias. Dentro dessa segunda área de captação, em uma região de caráter geológico uniforme, os Pontos Chaves de cada talvegue (ou vale) primário se relacionam entre si; eles tem uma relação ascendente em terrenos elevados. Dessa forma, o planejamento geral com a Linha Chave é baseado, primeiramente, nesses elementos geralmente constantes da topografia, depois, na subdivisão geral do terreno que pode ser feita de acordo com essas formas naturais e reveladas pelos vários padrões do fluxo da água.

Informações sobre os cursos entre Maio e Junho

Curso de Agricultura Regenerativa com a Escola de Permacultura – entre os dias 20 a 29 de maio, na Serra da Mantiqueira, sul de Minas Gerais, Brasil. Esse curso aborda a Tomada de Decisão Holística e Escala de Permanência da Linha Chave para promover a produtividade e a qualidade de vida para a agricultura familiar.

Esse curso aprofunda e retifica conceitos chaves para os que já estudam a permacultura como ciência de desenho ecológico. Também é uma excelente oportunidade para aqueles que querem projetar com segurança uma transição para o campo.

Imersão Agroflorestal na Fazenda Bella – entre os dia 1 d 15 de Junho estarei ministrando essa vivência com o Osmany Segall e o Sérgio Olaya. 

A imersão é composta por dois cursos teóricos, duas vivências e duas visitas guiadas (ver link acima) equipando os participantes com o conhecimento e a prática necessários para desenhar, implementar e manejar sistemas agroflorestais. Durante a vivência os participantes terão a chance de desenhar consórcios, plantar, colher e ver a comercialização dos produtos.

Introdução ao Desenho Ecológico para Propriedades Rurais com Eurico Vianna – entre os dias 20 e 23 de Junho em Soracaba, SP. 

Esse curso apresenta os 4 processos ecossistêmicos e a Escala de Permanência da Linha Chave como uma introdução ao desenho regenerativo de propriedades rurais. O conteúdo e formato foi desenvolvido para as as pessoas que querem reconectar com a natureza, empreender com responsabilidade socioambiental ou simplesmente conhecer mais sobre a Escala de Permanência da Linha Chave (EPLC).

Curso de Gerenciamento Holístico em Sorocaba entre os dias 25 e 30 de Junho em Sorocaba, SP. A Fazenda São Benedito está fazendo a transição para agropecuária regenerativa e o curso traz a oportunidade de acompanhar o inicio do planejamento de um sistema baseado no Gerenciamento Holístico. Esse curso é divido em 3 módulos: O curso é divido em 3 módulos:
– Tomada de Decisão Holística,
– Gerenciamento Holístico Financeiro e
– Manejo Holístico de Pastagens.ministrado
E será ministrado por Graeme Hand, educador e consultor australiano com mais de 20 anos de experiência internacional nessa abordagem.

Consultoria Aberta com Graeme Hand na Agropecuária Kehrle. Essa consultoria é ideal para as pessoas que já estão envolvidas na pecuária regenerativa ou que já decidiram fazer a transição. A Agropecuária Kehrle é uma propriedade inovadora, que já usa o GH há 5 anos e que prima pela produção do gado criado a pasto, garantindo a saúde aos animais e os cuidados com o meio ambiente. Nessa consultoria, portanto, a troca de conhecimentos com o Graeme será de altíssimo nível e os participantes poderão ver como a abordagem do GH se adequa ao contexto específico de cada família e sua propriedade.

Curso de Gerenciamento Holístico no Santuária Ecológico Fazenda EcoAraguaia entre os dias 7 e 12 de Julho. Esse curso vai acontecer as beiras do Rio Araguaia usando a pecuária na EcoAraguaia como estudo de caso de transição para o Gerenciamento Holístico. A EcoAraguaia é líder na implementação do Sistema Integração Lavoura Pecuária (ILP) e co-fundadora da Associação Brasileira de Produtores de Carne Carbono Neutro (ABCCN).
O curso é divido em 3 módulos:
– Tomada de Decisão Holística,
– Gerenciamento Holístico Financeiro e
– Manejo Holístico de Pastagens.ministrado
E será ministrado por Graeme Hand, educador e consultor australiano com mais de 20 anos de experiência internacional nessa abordagem.

O Caso – Passado, Presente e Futuro – pela Agricultura REGENERATIVA

Todas as civilizações que surgiram e colapsaram antes do surgimento da civilização ocidental e da revolução industrial entraram em colapso praticando uma “agricultura orgânica”. Isso é lógico dado que os combustíveis fósseis ainda não haviam sido encontrados e, portanto, uma agricultura dependente em insumos químicos ainda não era possível. O uso indevido dos recursos naturais foi definitivamente um fator importante no colapso dessas civilizações. E do ponto de vista evolucionário nosso cérebro, hoje, é o mesmo que foi usado por aqueles que cortaram a última árvore na Ilha de Páscoa ou daqueles que transformaram o Crescente Fértil em uma área desertificada.

Meu ponto aqui, relembrando esses fatos, é primeiramente que “o destino das civilizações segue o destino da agricultura”, como explica Allan Savory, ou como colocado pelo presidente estadunidense Roosevelt após as grandes tempestades de poeira que assolaram seu país no anos 30 é que “uma nação que destrói seu solo, é uma nação que destrói a si mesma”. Um outro ponto igualmente importante é que estamos claramente em um desses momentos de virada histórica onde nossa mentalidade extrativista e desarmonizada com Gaia está nos levando a um colapso, mas dessa vez em escala global.

E no Brasil o governo eleito ao invés de usar sabiamente os recursos que ainda nos restam para garantir a soberania nacional e o bem estar da população, resolveu ser subserviente as corporações estrangeiras do petróleo e agronegócio e entregar a fertilidade de nossos solos, a biodiversidade de nossos biomas, e nosso petróleo e minerais para manter os privilégios de uns poucos às contas do futuro de todas as gerações brasileiras.

O que chamamos de agricultura, de um modo geral, pode ser definido como a produção de alimentos e fibras à partir dos solos e águas do planeta. Essa definição abrange também a pesca e a pecuária. Mas o que mais se ‘exporta’ nesse paradigma da agricultura corporativa atual é o solo! Estimativas da FAO e outros pesquisadores indicam que para cada 500kg de alimento produzido por ano, por pessoa no planeta, o agronegócio perde até 20 toneladas de solo pela erosão que seus métodos causam. Também já é sabido e comprovado que o que a agricultura industrial não é nem economicamente viável nem ecologicamente segura. Sem os subsídios energéticos dos combustíveis fósseis, sem os perdões constantes das dívidas e calculando os custos das ‘externalidades’ (a degradação ambiental, social e da saúde) essa indústria já teria sido abandonada há muito tempo.  Mas a agricultura industrial não se baseia em eficiência energética ou econômica.

A agricultura industrial se baseia no uso do petróleo, do marketing (que mente e ilude), da tecnologia e da ‘socialização’ das externalidades para gerar lucro. Isso se dá porque durante o processo de produção, o agronegócio concentra renda, o acesso a terra e aos meios de produção enquanto ‘socializa’ para os governos e a população os custos da degradação ambiental, da quebra do tecido social e do envenenamento das pessoas pelo uso de químicos nocivos. Para se ter uma ideia um coquetel com 27 agrotóxicos foi encontrado em 1 em cada 4 municípios no Brasil. O glifosato, agrotóxico mais usado na agricultura industrial, sabidamente causa câncer. Além disso, muitos cientistas já afirmam também que o glifosato causará autismo em 50% das crianças até 2025.

As corporações petroleiras, o agronegócio e os ambientalistas sabem que já entramos em uma era de escassez energética. Tanto sabem que desde o Acordo de Paris em 2015 as principais corporações petroleiras já gastaram mais de 200 milhões de dólares em marketing de ‘controle de danos’ para confundir a população e evitar que tomemos as devidas providências contra elas.

Precisamos, urgentemente, adotar uma agricultura baseada nas ciências biológicas, baseadas nos princípios da natureza. Mas para isso, como disse acima, não basta adotarmos uma ‘agricultura orgânica’, ou métodos de produção da agroecologia, da permacultura, da agricultura natural ou da agrofloresta. É preciso adotarmos um paradigma de tomada de decisão no qual gerenciamos ao mesmo tempo a terra, as comunidades e a economia. É preciso que os índices econômicos não se baseiem no mito do crescimento infinito, mas sejam baseados na qualidade de vida das pessoas e em uma produção regenerativa, energeticamente eficiente, que sequestra carbono e restaura os solos que usa para alimentar a população.

Kuhikugu, é a maior cidade pré- colombiana já descoberta na região do Xingu na Amazônia.

Em alguns momentos da História da evolução humana, no entanto, nós conseguimos viver em harmonia com o planeta. Alguns povos que habitaram a Amazônia, por exemplo, construíram uma civilização com cerca de 7 milhões de pessoas que ao produzir seu alimento melhoravam o solo que utilizam. Esse solo é chamado Terra Preta de Índio e em vários lugares da Amazônia chega a ter mais de 2 metros de profundidade. Os aborígenes australianos manipulavam os ecossistemas e usavam sistemas florestais, de piscicultura, gramíneas perenes e tubérculos para produção grãos, pães, proteínas e tubérculos há mais de 50.000 anos.

Ilustração do Sistema Ahupua’a.

Os Havaianos criaram um sistema de divisão de terras baseado em micro-bacias e em um manejo ecológico que aprimorava muito a eficiência energética de sua caça e coleta. Esse sistema era chamado Ahupua’a. Os Aztecas criaram as chinampas, um sistema de produção integrado com árvores onde se criavam ilhas de produção suspensas em áreas alagadiças nas quais a interação humana restaurava os nutrientes no ato da produção.

Essas poucas civilizações, que podemos chamar de ‘regenerativas’ porque eram energeticamente eficientes, viviam em harmonia com o ecossistema a qual pertenciam e geravam mais recursos do que utilizavam, tinham algumas coisas em comum. Entre elas a noção de que não dominavam a natureza, mas faziam parte dela, e a ideia de que a terra em que viviam e os recursos que utilizavam eram recebidos das gerações anteriores e emprestados pelas gerações futuras. Outro conceito comum de vários povos indígenas é a noção de que as decisões que tomamos hoje precisam garantir os recursos naturais para 7 gerações futuras. Esse princípio foi incorporado pelo co-originador da Permacultura, David Holmgren.

Infelizmente todas essas civilizações ‘regenerativas’ também tinham outra coisa em comum. Todas elas eram ecologicamente, espiritualmente e emocionalmente mais evoluídas que a civilização ocidental, mas não eram belicamente mais ‘evoluídas’ e, portanto, foram dizimadas durante os processos de expansão da civilização ocidental. Embora sejamos educados para acreditar que o modelo de civilização ocidental é o ápice da evolução humana, a verdade é que, muito provavelmente, esse modelo seja só o ápice bélico, exploratório e conquistador de um dos tantos ciclos civilizatórios que já tivemos. Quando voltarmos a gerenciar a terra holisticamente, junto com a economia e a cultura, quando tivermos o cuidado de deixar para nossas 7 gerações futuras um mundo abundante, com água e ar limpos, com alimentos verdadeiramente nutritivos e produzidos em ecossistemas biodiversos, poderemos chamar toda nossa agricultura, ou o manejo dos solos e águas do planeta para produzir alimentos, fibra e combustíveis, de AGRICULTURA REGENERATIVA.

Referências:

Walter Steebock – Apostila Economia em Sistemas Florestais (2018).

Allan Savory na palestra de abertura da Conferência de Inverno No-till on the Plains em 30 de Janeiro de 2018.

Bruce Pascoe (2014). Dark Emu: Black seeds agriculture or accident?

Nota:
Durante os meses de Maio, Junho e Julho estarei no Brasil com uma agenda de cursos de desenho ecológico, agrofloresta e pecuária regenerativa.

Imersão Agroflorestal na Fazenda Bella – entre os dia 1 d 15 de Junho estarei ministrando essa vivência com o Osmany Segall e o Sérgio Olaya.

A imersão é composta por dois cursos teóricos, duas vivências e duas visitas guiadas (ver link acima) equipando os participantes com o conhecimento e a prática necessários para desenhar, implementar e manejar sistemas agroflorestais. Durante a vivência os participantes terão a chance de desenhar consórcios, plantar, colher e ver a comercialização dos produtos.

Para mais detalhes sobre todos os cursos, datas e links para inscrição visite o link dos Cursos de Impacto Positivo 2019.




Um apelo aos Veganos

Todos nós, não só os veganos, deveríamos estar na batalha todos os dias fazendo tudo que podemos para acabar com a produção de animais em sistemas industrializados de confinamento. É bárbaro, cruel, nocivo e totalmente devastador para nosso meio ambiente.

Infelizmente, a raiva a esse tipo de pecuária levou a maioria dos veganos a condenar cegamente todos os produtores e todas as criações animais. Esse é o ponto onde os veganos começam a fazer mais mal do que bem. O único argumento válido que veganos podem, e devem, usar no que toca a pecuária é: “Todo manejo reducionista e produção de animais em confinamento degrada o meio ambiente, o que leva a desertificação e mudanças climáticas.” Isso é verdade.

Entretanto os veganos nunca deveriam alegar que: “Todo tipo de pecuária degrada o meio ambiente.” Isso não é verdade.

Tem sido irrefutavelmente e cientificamente provado em milhares de artigos em jornais especializados e casos empíricos por todo o planeta que a pecuária manejada por meio do processo de planejamento holístico de pastagens podem (e estão) regenerando as pradarias para a vida selvagem, trazendo os rios de volta a vida e restaurando a biodiversidade.

Veganos, pelo amor que vocês tenham ao planeta e a vida que nele habita, por favor, aprendam a diferença vital que o gerenciamento faz. O gerenciamento reducionista leva a agropecuária degradante, cruel e nociva. Isso, para todas as plantas e animais.

Mas o gerenciamento holístico prioriza a saúde do meio ambiente e seus sistemas de apoio à vida, o que leva a uma prática agropecuária saudável, regenerativa e ambientalmente benéfica. Isso, para todas as plantas e animais.

O futuro e bem estar de todas as criaturas no planeta depende de vocês aprenderem essa diferença.

Nota: Texto publicado originalmente em inglês por Sarah Savory em sua página no Facebook e traduzido por Eurico Vianna.

Cursos de Impacto Positivo em 2019

“O papel da agricultura é produzir alimentos e fibra enquanto o solo é constantemente melhorado”*. Durante os meses de Maio e Julho estarei ministrando alguns cursos com parceiros e apoiadores super engajados nas causas socioambientais. Confira o roteiro e o conteúdo dos cursos para participar e fazer parte do time que constrói Santuários de Sanidade Mental e Ecológica pelo país afora.

* P.A. Yeomans (1958). The Challenge of Landscape.

Curso de Agricultura Regenerativa com a Escola de Permacultura – entre os dias 20 a 29 de maio, na Serra da Mantiqueira, sul de Minas Gerais, Brasil. Esse curso aborda a Tomada de Decisão Holística e Escala de Permanência da Linha Chave para promover a produtividade e a qualidade de vida para a agricultura familiar.

Esse curso aprofunda e retifica conceitos chaves para os que já estudam a permacultura como ciência de desenho ecológico. Também é uma excelente oportunidade para aqueles que querem projetar com segurança uma transição para o campo.

Imersão Agroflorestal na Fazenda Bella – entre os dia 1 d 15 de Junho estarei ministrando essa vivência com o Osmany Segall e o Sérgio Olaya.

A imersão é composta por dois cursos teóricos, duas vivências e duas visitas guiadas (ver link acima) equipando os participantes com o conhecimento e a prática necessários para desenhar, implementar e manejar sistemas agroflorestais. Durante a vivência os participantes terão a chance de desenhar consórcios, plantar, colher e ver a comercialização dos produtos.

Introdução ao Desenho Ecológico para Propriedades Rurais com Eurico Vianna – entre os dias 20 e 23 de Junho em Soracaba, SP.

Esse curso apresenta os 4 processos ecossistêmicos e a Escala de Permanência da Linha Chave como uma introdução ao desenho regenerativo de propriedades rurais. O conteúdo e formato foi desenvolvido para as as pessoas que querem reconectar com a natureza, empreender com responsabilidade socioambiental ou simplesmente conhecer mais sobre a Escala de Permanência da Linha Chave (EPLC).

Curso de Gerenciamento Holístico em Sorocaba entre os dias 25 e 30 de Junho em Sorocaba, SP. A Fazenda São Benedito está fazendo a transição para agropecuária regenerativa e o curso traz a oportunidade de acompanhar o inicio do planejamento de um sistema baseado no Gerenciamento Holístico. Esse curso é divido em 3 módulos: O curso é divido em 3 módulos:
Tomada de Decisão Holística,
– Gerenciamento Holístico Financeiro e
– Manejo Holístico de Pastagens.ministrado
E será ministrado por Graeme Hand, educador e consultor australiano com mais de 20 anos de experiência internacional nessa abordagem.

Consultoria Aberta com Graeme Hand na Agropecuária Kehrle. Essa consultoria é ideal para as pessoas que já estão envolvidas na pecuária regenerativa ou que já decidiram fazer a transição. A Agropecuária Kehrle é uma propriedade inovadora, que já usa o GH há 5 anos e que prima pela produção do gado criado a pasto, garantindo a saúde aos animais e os cuidados com o meio ambiente. Nessa consultoria, portanto, a troca de conhecimentos com o Graeme será de altíssimo nível e os participantes poderão ver como a abordagem do GH se adequa ao contexto específico de cada família e sua propriedade.

Curso de Gerenciamento Holístico no Santuária Ecológico Fazenda EcoAraguaia entre os dias 7 e 12 de Julho. Esse curso vai acontecer as beiras do Rio Araguaia usando a pecuária na EcoAraguaia como estudo de caso de transição para o Gerenciamento Holístico. A EcoAraguaia é líder na implementação do Sistema Integração Lavoura Pecuária (ILP) e co-fundadora da Associação Brasileira de Produtores de Carne Carbono Neutro (ABCCN).
O curso é divido em 3 módulos:
Tomada de Decisão Holística,
– Gerenciamento Holístico Financeiro e
– Manejo Holístico de Pastagens.ministrado
E será ministrado por Graeme Hand, educador e consultor australiano com mais de 20 anos de experiência internacional nessa abordagem.


Estudo revela que melhor planejamento da agricultura poderia previnir perda de 80% da biodiversidade

  • Resultados de uma nova pesquisa mostram que aproximadamente 90% da biodiversidade que os cientistas preveem que será perdida com a expansão da agricultura poderia ser salva se usássemos planejamentos de ocupação de terra mais eficazes para áreas com menor número de espécies.
  • A pesquisa concluiu que 10 países compartilham grande parte desse potencial por eles e que poderiam, por eles mesmos, reduzir a perda da biodiversidade em até 33%.
  • Entretanto, existem ressalvas. Os pesquisadores alertam que a maioria desses países está entre os “20 piores” ranqueados em termos de impacto ambiental e tem problemas políticos e de governabilidade que impediriam o uso eficaz do planejamento de ocupação rural em nível nacional. Os pesquisadores também alertam que a otimização do uso de áreas rurais visando a proteção dos recursos naturais em alguns dos países mais biodiversos podem acontecer “as custas das próprias oportunidades de produção e desenvolvimento econômico.”
  • Os pesquisadores revelam que para que os países mais biodiversos do mundo possam atingir seu pontencial máximo de conservação enquanto fornecem alimentos para suas comunidades humanas as políticas globais de uso de terras precisam integrar melhor os desafios de governabilidade, políticas públicas e economia presentes nesses países.

Artigo escrito originalmente em inglês por Morgan Erickson-Davis, dia 16 de Março de 2018. Tradução livre feita por Eurico Vianna, PhD. dia 20 de março de 2019.

Um planejamento melhor poderia salvar muita vida selvagem é o que revela um estudo publicado recentemente na Global Change Biology. A pesquisa revelou que aproximadamente 90% da biodiversidade que os cientistas preveem que será perdida com a expansão da agricultura poderia ser salva se usássemos um planejamentos de ocupação de terra mais eficaz dirigido para áreas com menor número de espécies.

Para esse estudo os pesquisadores das instituições alemãs como o Centro para Pesquisa Ambiental de Helmholtz (UFZ) e Centro de Pesquisa para Biodiversidade Integrativa (iDiv) pesquisaram dados sobre a distruibuição e habitat para quase 20.000 espécies de vertebrados fazendo projeções de intensificação da agricultura e de cenários com otimização da utilização das áreas disponíveis.

Os pesquisadores revelaram que se a expansão da agricultura fosse otimizada por áreas por meio de uma coordenação global que as direcionasse para as áreas com menos biodiversidade, até 88% das perdas de biodiversidade projetadas poderiam ser evitadas. Se coordenadas apenas em nível nacional, o estudo revela que minimização da perda seria de 61%.If coordinated at the national level, their study indicates that number would be 61 percent.

A pesquisa revelou ainda que 10 países compartilham grande parte desse potencial por eles e que poderiam, por eles mesmos, reduzir a perda da biodiversidade em até 33%.

Área ao lado da floresta tropical no Parque Nacional Gunung Leuser na Indonésia desmatada para plantio de óleo de palma (azeite de dendê).

“Alguns poucos países tropicais incluindo a Índia, o Brasil ou a Indonésia teriam de longe o maior poder de alavanca para tornar a produção de alimentos mais sustentável”, declarou o co-autor do estudo e pesquisador do iDiv e da Universidade de Leipzig, Carsten Meyer.

A pesquisa revela que esses resultados implicam “ganhos de eficiência enormes” podem ser alcançados por meio da cooperação internacional, mas que existem algumas ressalvas.

Os pesquisadores declaram que a maioria desses países estão ranqueados entre os “20 piores países” em termos de impactos ambientais e que eles tem problemas políticos e de governabilidade que impedem o planejamento para uso eficaz de suas terras em nível nacional.

“Infelizmente esses países também são frequentemente caracterizados por conflitos internos relacionados ao uso de suas terras assim como por instituições relativamente fracas na gestão das terras, ambas essas características inibem a otimização do uso das terras”, disse Meyer.

De acordo com o autor principal, Lukas Egli, pesquisador da Universidade de Göttingen e do UFZ, existe ainda outro fator complicador. Ele disse que a otimização do uso das terras de forma a proteger os recursos naturais dos países mais biodiversos, podem acontecer “as custas das próprias oportunidades de produção e desenvolvimento econômico [desses países]”.

“A não ser que esses interesses nacionais conflitantes possam ser acomodados de alguma forma dentro de políticas de sustentabilidade internacionais, uma cooperação global parece improvável e pode gerar novas dependências socio-econômicas”, disse Egli.

Os pesquisadores revelam que para que os países mais biodiversos do mundo possam atingir seu pontencial máximo de conservação enquanto fornecem alimentos para suas comunidades humanas as políticas globais de uso de terras precisam integrar melhor os desafios de governabilidade, políticas públicas e economia presentes nesses países. Os pesquisadores declaram que os resultados do estudo poderiam ser usados para “guiar doadores internacionais e as instituições emponderadoras no uso estratégico de investimentos.

“Esforços focados são necessários para melhorarmos a capacidade de integração do planejamento do uso de terras com a sustentabilidade”, disse Meyer.

Referência:
Egli, L., Meyer, C., Scherber, C., Kreft, H., & Tscharntke, T. (2018). Winners and losers of national and global efforts to reconcile agricultural intensification and biodiversity conservation. Global change biology.

Gerenciamento Holístico: Parte 3 – Sistemas e Comportamentos e a Base de Recursos Futuros

Allan Savory, produtor rural, doutor em ecologia e criador do Gerenciamento Holístico originário do Zimbabue nos alerta para a necessidade especificarmos (listando) na construção de nosso Contexto Holístico para tomada de decisão coisas como “equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal” ou mesmo “ter um plano de aposentadoria”. Segundo ele essas coisas só serão produzidas ou só acontecerão se forem incluídas na nossa Declaração de Qualidade de Vida”. Nessa parte da série dos artigos sobre Gerenciamento Holístico eu abordo o passo-à-passo da construção dos Sistemas e Comportamentos e da Base de Recursos Futuros, últimos passos para a criação de um Contexto Holístico para tomada de decisão.

Nota: Esse material foi preparado primeiramente para guiar o trabalho que fazemos na Fazenda Bella. Posteriormente, depois de participar de cursos de Gerenciamento Holístico na Austrália e de reutilizar o mesmo material para outros empreendimentos e consultorias, surgiu a ideia de aprimorá-lo para compartilhar com outras pessoas no Brasil. Grande parte desse material, entretanto, é formado por compilações e traduções de outras fontes (originalmente publicadas em inglês). Uma parte menor foi de fato desenvolvida por mim. Apresento todas as fontes usadas na lista de referências ao final do texto.

Eurico Vianna, PhD. Lennox Head, Austrália, Janeiro de 2018.

No artigo anterior, Gerenciamento Holístico: Parte 2 – O Contexto Holístico, eu introduzi o conceito e exemplifiquei como podemos definir nossa Declaração de Propósito e Declaração de Qualidade de Vida, que garante que não sacrifiquenos nossa qualidade de vida para alcançar nossos objetivos. Esse artigo damos seguimento a construção do Contexto Holístico, que na verdade é formado por vários conceitos, práticas e atitudes que passam também pelo exercício da tomada de decisão com as perguntas teste e com a avaliação constante das decisões tomadas.

Formas de Produção ou ‘Sistemas e Comportamentos’

As Formas de Produção são definidas por Allan Savory como tudo aquilo que precisamos produzir para criar a qualidade de vida que descrevemos. Entretanto Allan Savory nos aconselha a focar no quê e não no como. “Você quer listar somente o que precisa ser produzido, não como vai ser produzido. O como algo é produzido é uma decisão que precisa ser testada” (Holistic Management, p. 77).

Mais uma vez uma adaptação feita pelo educador da permacultura canadense e instrutor do módulo de Tomada de Decisão Holística da Plataforma Regrarians, Javan Bernakovitch nos ajuda a pensar e desenvolver melhor esse conceito para que o uso seja mais eficiente. Javan usa ‘Sistemas e Comportamentos’ ou invés da definição clássica ‘Sistemas de Produção’. Eu prefiro usar ‘Comportamentos e Sistemas’ porque o termo define e indica bem o fato de que, por muitas vezes, o que precisa ser mudado são comportamentos. São falhas conscientes ou inconscientes em como abordamos as várias coisas que produzimos. O componente ‘sistemas’ também engloba bem o elemento ‘produção’ abordado no termo clássico original ‘formas de produção’.

Allan Savory explica que para definirmos nossas Formas de Produção (ou Comportamentos e Sistemas) “não basta simplesmente seguir a Declaração de Qualidade de Vida criando um produto para cada frase ou item”. É necessário nos perguntarmos “O quê nós não temos agora ou o quê não estamos fazendo agora, que nos impede de alcançar a qualidade de vida que listamos?”. Depois de analisarmos nossas próprias respostas nós editamos a resposta criando uma frase em termos positivos, descobrindo assim o que precisamos produzir, como precisamos nos comportar e quais são os sistemas que precisamos colocar em prática. Uma Forma de Produção (ou Comportamento e Sistema) pode ser a resposta para várias necessidades e vice versa. Por exemplo, se uma das qualidades de vida expressadas foi “ter prazer no que fazemos no dia-a-dia”, essa necessidade poderia ser resolvida tendo (ou melhor produzindo) “um equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal” ou “tempo suficiente para planejamento estratégico”, ou tantas outras formas (Holistic Management, p.75)

Outra observação importante feita por Allan Savory é de que algumas pessoas questionam a necessidade de especificar (listar) coisas como “equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal” ou mesmo “ter um plano de aposentadoria”, “mas essas coisas só serão produzidas se forem incluídas na Declaração de Qualidade de Vida” (Holistic Management, p.75).

Embora um Comportamento e Sistema possa prover para várias necessidades, na experiência de Dan Palmer da VEG, elas tendem a funcionar melhor quando respondem a cada necessidade. Veja o exemplo dos Comportamentos e Sistemas (Formas de Produção) da VEG, que declara ser uma empresa “profissional, organizada e calma”:

  • Nós nos apresentamos bem,
  • Nós nos preparamos bem para cada trabalho,
  • Nós nos asseguramos de que nossos clientes terão expectativas claras a respeito dos serviços que serão prestados,
  • Nós nos asseguramos de que todos os papéis e responsabilidades dentro da VEG são claramente definidos e todas as tarefas são distribuídas para o devido setor,
  • Nós não pegamos serviços demais,
  • Nós temos acordos claros quando estabelecemos parcerias com outras pessoas ou empresas,
  • Nós usamos sistemas de gerenciamento de tempo, pessoas e materiais que são claros e fáceis de usar.

A ideia, segundo Dan, é de que se cada uma dessas coisas (Comportamentos e Sistemas) forem alcançadas, a empresa deles será “profissional, organizada e calma”. É nessa etapa da articulação do Contexto Holístico que as transformações começam a acontecer. Ter nossas necessidades ou aspirações listadas, como fizemos nas etapas de Declaração de Propósito e de Qualidade de Vida, é um exercício que muitos já fizeram, mas sem os Comportamentos e Sistemas para complementar o contexto, elas quase sempre caem em esquecimento ou são vistas como clichês. Especificando os Comportamentos e Sistemas, no entanto, nós temos a certeza do que precisa se tornar realidade em nosso dia-a-dia para que possamos, de fato, realizar nossa Declaração de Propósito de maneira a conseguir alcançar todas as qualidades de vida listadas.

A Fazenda Oito Acres traz Comportamentos e Sistemas mais simples, por exemplo.

  • Nós produzimos gado (vendendo carne e animais vivos),
  • Nós produzimos um apiário (vendendo colmeias, mel e cera de abelha),
  • Nós produzimos sabonetes e óleos essenciais naturais,
  • Nós produzimos galinhas (animais vivos e ovos)?,
  • Nós produzimos hortaliças?

Notem como o processo é fluido. Os dois últimos itens das Formas de Produção da Fazenda Oito Acres estão marcados com uma interrogação. Isso demonstra que eles vão testar e decidir se esses Comportamentos e Sistemas são, de fato, viáveis dentro do contexto deles.

Dan Palmer dá o exemplo da Declaração de Qualidade de Vida de sua família e os Comportamentos e Sistemas necessários para mantê-las da seguinte maneira:

Nós somos fisicamente e mentalmente fortes.

Como Dan mesmo alerta, mas como garantir que essas qualidades sejam uma realidade diante das adversidades da vida? Eles então criaram seus Comportamentos e Sistemas:

  • Nós respiramos ar puro,
  • Nós bebemos água pura e viva,
  • Nosso alimento é nutritivo e saudável,
  • Nós dormimos bem,
  • Nós vivemos e trabalhamos em ambientes livres de toxina, claros, secos e aconchegantes,
  • Nós somos fisicamente ativos,
  • Nós somos conectados com pessoas da área da saúde que nos ajudam quando necessário.

Futura Base de Recursos (Future Resource Base)

Nessa última etapa desse exercício de formulação do seu Contexto Holístico você descreve como é a sua Futura Base de Recursos, nesse curso também chamada de Indicadores Futuros (Regrarians, 2017). O que você vê em termos de pessoas, terra (sua propriedade) e comunidade precisa ser capaz de prover as Qualidades de Vida e os Comportamentos e Sistemas declarados anteriormente.  De novo algumas perguntas se tornam chave para completarmos essa etapa.

    • Como será a paisagem do seu todo dentro de 10 anos? Dentro de 50 anos? E que tal, e porque não, dentro de 200 anos? Lembre-se que praticamente qualquer ‘todo’ sob gerenciamento depende de algum ecossistema em algum lugar para mantê-lo.
  • Quais são os serviços necessários que serão prestados pela comunidade para manter suas Formas de Produção? Quais caraterísticas você gostaria que sua comunidade local e regional tenham em um futuro longínquo? Entretanto, ao descrever as pessoas em sua Futura Base de Recursos, você deve focar em como você e o seu ‘todo’ (negócio ou organização) são, porque isso está dentro da sua esfera de controle. Embora o comportamento dos outros esteja fora de nosso controle, a maneira como somos vistos por essas pessoas tem grande influencia na maneira como essas pessoas agem com a gente.

Na opinião de Dan Palmer é melhor definir a Futura Base de Recursos de acordo com o que seus Comportamentos e Sistemas precisam no presente e no futuro. Resumindo, quais são os recursos (que você provavelmente incluiu na sua Base de Recursos quando você definiu o ‘todo sob gerenciamento’) dos quais você depende para conseguir fazer as coisas que mantém sua Declaração de Qualidade de Vida verdadeira? Além disso, como estes recursos precisam ser no futuro para continuar mantendo a Qualidade de Vida que você articulou? A Futura Base de Recursos da VEG foi definida assim:

  • Boa vontade dos clientes,
  • Competência dos funcionários,
  • Galpão organizado,
  • Relacionamentos de trabalho saudáveis,
  • Relacionamento com fornecedores,
  • Nós fornecemos resiliência,
  • Sistemas completos, elegantes e eficientes,
  • Marca forte, coerente e reconhecível,
  • Website bonito, funcional e atualizado,
  • Veículos e ferramentas mantidos em bom estado,
  • Bons relacionamentos e reputação com organizações parceiras e colegas.

Novamente a Fazenda Oito Acres articula seu contexto de forma sucinta e direta. Para eles a Futura Base de Recursos é apresentada também como “Coisas que nós podemos usar” e a lista segue assim:

  • Pastagens perenes,
  • Açudes e poços artesianos,
  • Biodiversidade (em árvores e animais),
  • Temos nossos vizinhos nos vendo como pessoas trabalhadores e produtivas,
  • Temos nossos clientes valorizando nossos produtos como produtos bons e de qualidade.

Ter nossa Futura Base de Recursos listada e descrita é muito importante pois ela se torna um parâmetro de avaliação para sabermos se nossas decisões estão nos guiando na direção que escolhemos. Se um ou vários desses recursos começam a se degenerar com o passar do tempo, nós sabemos que estamos com problemas pois parte da fundação que apoia nossa existência está erodindo.

Para que a nossa Declaração de Propósito e Qualidade de Vida sejam mantidos como queremos é necessário que nossa Futura Base de Recursos seja mantida, ou melhor ainda, sempre aprimorada.

As Declarações de Propósito e Qualidade de Vida focam no tempo presente, quando muito em futuro próximo. Elas funcionam com a seguinte pergunta: o que eu quero que seja verdade sobre o ‘todo sob gerenciamento’ agora e o que eu preciso fazer para realizar isso? A Futura Base de Recursos requer que mudemos o nosso foco do momento presente para o futuro a médio e longo prazo e para os indicadores de que estamos no caminho certo.

Se você seguiu os passos e articulou sua Declaração de Propósito, seus Comportamentos e Sistemas e sua Futura Base de Recursos você completou seu Contexto Holístico temporário. Javan Bernakovitch resume bem o que é e qual sua função explicando que o Contexto Holístico é uma forma de saber o que você quer, o que fazer para conseguir o que você quer e como saber se essas duas partes estão alinhadas. Ele explica dizendo que: “se eu quero X, eu preciso fazer Y (para que X aconteça) e vou saber se X e Y estão alinhados quando Z acontecer” (Bernakevitch, J. na Platoforma Regrarians, 2017-18). Nesse sentido X e Y formam respectivamente nossa Declaração de Propósito (ou Missão) e a Declaração de Qualidade de Vida, Y nossos Comportamentos e Sistemas e Z nossos Indicadores Futuros.

O infográfico abaixo mostra todas as partes que formam um Contexto Holístico para tomada de decisão e gestão do Todo Sob Gerenciamento (Bernakevitch, J. 2017).

Nós chamamos esse Contexto Holístico de temporário porque provavelmente você irá alterá-lo e refiná-lo assim que começar a usá-lo para tomar decisões. Abaixo eu compartilho alguns Contextos Holísticos que foram desenvolvidos durante o curso de Agricultura Regenerativa ministrado por mim na Escola de Permacultura no ano passado (2018).

Esse primeiro exemplo foi desenvolvido pela Thais e pelo Guilherme, casal engajado que toca o Porakaa, um centro que, entre vários outros serviços, presta consultoria em comportamento animal, recuperação de áreas degradas e planejamento para produção agroecológica.

O Contexto Holístico abaixo foi desenvolvido pelo designer e produtor rural Wilson Torres, do Sítio Rincão e do Sagrado Verde. Antes de articular a Base de Recursos Futuros nesse formato em fluxograma, o Wilson versou sobre como ele se via com sua companheira no sítio em um futuro mais distante. O uso de uma linguagem bem pessoal, que realmente traduz quem você é e quais são seus valores mais profundos é muito importante na elaboração de um Contexto Holístico.

Por último eu gostaria de compartilhar o Contexto Holístico desenvolvido pelo José Alejandro, a quem carinhosamente chamamos de “Chepe”. Chepe é filho de produtores rurais convencionais mexicanos e estava no Brasil se aprimorando na permacultura, agrofloresta e agricultura regenerativa para transformar a produção convencional de tomates da família em uma policultura agroecológica financeiramente viável. Influenciado pelos movimentos indígenas e anarquistas que influenciaram o pensamento progressista no México, Chepe realmente tomou posse dos conceitos para elaborar seu Contexto Holístico.

Começando pelo inventário do todo, Chepe incluiu no Capital Vivo de seu contexto os seres humanos. Mas sua cosmovisão foi além e influenciou um Contexto Holístico belo, funcional e profundo. A imagem abaixo foi gerada à partir das notas de aula do Chepe enquanto desenvolvia seu Contexto. No centro temos a Declaração de Propósito -“Existimos para construir um futuro melhor!”(em preto). Em volta dela a Declaração de Qualidade de Vida centrada em 4 conceitos fundamentais para ele – “Somos Rebeldes, Somos Organizados, Somos Humanos e Somos uma Comunidade” (em azul). Em cada uma dessas 4 declarações Chepe desenvolveu ‘sub-declarações’ que se alinham com cada uma das áreas. Em verde Chepe desenvolveu os Comportamentos e Sistemas que garantirão a materialização e autenticidade das qualidades de vida determinadas. Embora essa versão ainda tenha alguns erros conceituais, ela mostra bem como devemos tomar posse dos conceitos e usar a linguagem que melhor traduza nossa alma e valores.

 


Na próxima parte abordarei as Perguntas Teste que no começo ou até que todo o procedimento seja automatizado mentalmente, serão usadas toda vez que precisarmos tomar decisões dentro do nosso Todo Sob Gerenciamento

Esses artigos sobre o Gerenciamento Holístico visam, além de divulgar essa abordagem regenerativa no Brasil, encontrar parceiros para uma turnê de cursos englobando a Tomada de Decisão Holística, a gestão holística financeira e o manejo holístico de pastagens. Caso você tenha interesse em hospedar um curso ou consultoria em sua propriedade, entre em contato conosco pelo email info_at_euricovianna.com.br .

A turnê está sendo produzida por mim (Eurico Vianna) e pelo Filipe Suleiman. Os cursos serão ministrados pelo produtor rural e educador em Gerenciamento Holístico com mais de 25 anos de experiência, Graeme Hand (com tradução minha).

Referências:

Nota: Compartilho desde esse primeiro artigo a bibliografia comentada que norteia toda a série.

Very Edible Gardens (VEG) – a VEG é uma empresa de consultoria e educação permacultural australiana que se tornou referência na área. Dan Palmer e Adam Grubb escrevem frequentemente sobre como melhorar o uso da Permacultura para projetar um futuro de escassez energética onde todos possam viver em abundância.

  • Bernakevitch, J.  (2017 – 2018) Módulo de Formulação de um Contexto Holístico para Tomada Decisão Holistica no REX® Online Farm Planning Program produzido pela plataforma Regrarians.

A Plataforma Regrarians foi criada por Darren J. Doherty integrando o Gerenciamento Holístico e outras modalidades de desenho ecológico à Escala de Permanência da Linha Chave; metodologia de planejamento de propriedades rurais criada pelo australiano P. A. Yeomans. A praticidade, profundidade e eficiência na restauração de áreas degradadas tem feito da Plataforma Regrarians uma das abordagens de planejamento de propriedades rurais que mais cresce no mundo hoje.

O Instituto de Gerenciamento Holístico do Canadá tem uma gama enorme de recursos para o ensino/aprendizagem dessa plataforma. O Instituto tem ajudado muitos produtores rurais no Canadá e fomentado muito o estudo a aplicação do Gerenciamento Holístico por meio de cursos e simpósios.

Liz e seu marido Pete criaram e tocam juntos uma fazenda de 258 acres com empreendimentos que variam do gado para corte e leite, galinhas caipiras para produção de ovos até produtos apiários. O site Eigth Acres foi criado para comercializarem seus produtos e compartilhar as ferramentas que tem usado com sucesso para gerenciar seus empreendimentos.

Alberto Miguel é o único consultor em Gerenciamento Holístico oficialmente credenciado no Brasil. Seu blog é uma fonte riquíssima de conteúdo no assunto.

  • Savory, A. e Butterfield, J. (1999). Holistic Management: a new framework for decision making. Island Press, CA-EUA.

O Manual do Gerenciamento Holístico escrito por Allan Savory e sua esposa Jody Butterfild é o livro que lança essa plataforma de tomada de decisão. Comumente em cursos, dada a quantidade enorme de informações compartilhada, esse livro vem acompanhado do livro ‘Manual Prático’ e de um fichário com instruções para exercícios e o aprendizado do Gerenciamento Holístico de Pastagens.

A Plataforma Regrarians foi criada por Darren Doherty, designer regenerativo que começou sua carreira na Permacultura como aluno do co-criador, Bill Mollison. Darren passou a usar o método de planejamento Linha Chave (Keyline), desenvolvido pelo Australiano P. A. Yeomans, com algumas alterações. O Planejamento de Linha Chave da forma como é ensinado por Darren e sua equipe dentro da plataforma Regrarians está se tornando rapidamente o método mais utilizado por designers para o planejamento de fazendas no mundo todo.

  • 8 Formas de Capital, escrito por Roland, E. e Landua, G. e traduzido por Colaborama. Acessado em 15/01/2018 em https://pt.prepareforchange.net/2016/04/14/as-8-formas-de-capital-uma-nova-forma-de-olhar-para-a-economia/

O conceito foi desenvolvido por Ethan Roland e Gregory Landua para facilitar o entendimento das várias relações econômicas nas quais nos envolvemos e fazemos parte. As 8 Formas de Capital enumeram “todos os diferentes recursos valiosos que um indivíduo ou entidade podem reunir ou trocar” e tem sido usados largamente em cursos de Permacultura para trazer a realização de que se nos falta um tipo de capital, nós provavelmente temos outros com os quais podemos contar para o desenvolvimento de nossos projetos.