Edificações Móveis, Empreendedorismo rural e a Escala de Permanência da Linha Chave

Na Escala de Permanência da Linha Chave as edificações vem em sexto lugar. Isso quer dizer que ao invés de chegar em uma propriedade, escolher a melhor vista para colocar a moradia ou posicionar a moradia em função de estradas de acesso construídas anteriormente e depois colocar a maior parte das outras edificações em função dessa decisão, a gente primeiro pensa o Clima, a Geografia, a Água, o Acesso e os Sistemas Florestais, para então decidir onde vamos colocar as edificações.

Joel Salatin – O Fazendeiro Lunático

No artigo “Faça Tudo Sobrepondo Funções“, Joel Salatin faz umas perguntas importantes sobre as edificações (e investimentos de um modo geral) em propriedades rurais:

1 – Qual será o impacto econômico dessa construção ou aquisição na fazenda?
2 – De que outras maneiras eu posso usar essa edificação ou aquisição (equipamento, maquinário, etc.) na fazenda se meus planos atuais mudarem?
3 – Além do uso básico (planejado originalmente) de que outras formas posso usar essa estrutura? 
4 – Emocionalmente, você poderia demolir essa edificação no próximo ano e recomeçar com algo mais funcional? Se você não quer mais a edificação no local atual, você conseguiria movê-la para outro lugar facilmente?

Levando em consideração a ordem a que devemos dar prioridade ao desenvolvimento de uma propriedade segundo a Escala de Permanência e as perguntas de Joel Salatin, vemos que a maioria das pessoas posiciona suas casas e edificações na fazenda da forma errada. No sentido de trazer humildade para a área do design, o arquiteto e autor do livro Cradle to Cradle: Remaking the Way We Make Things, William Mcdonough, nos lembra que levamos 5.000 anos para colocar rodas nas nossas malas. De fato, inovações levam tempo para serem adotadas em larga escala, mas a realização de que podemos ter estruturas móveis em propriedades rurais tem motivado uma verdadeira revolução na gestão e produtividade de propriedades rurais do mundo inteiro.

Casa miniatura sobre rodas vista por trás.

As casas miniatura sobre rodas, por exemplo, estão revolucionando a maneira como as pessoas pensam a ‘casa própria’ e os custos exorbitantes de um financiamento de longo prazo. Pessoas e famílias de idades e tamanhos variadas perceberam o quanto os preços dos financiamentos tornaram a opção da casa própria quase impossível ou talvez apenas inviável se considerarmos o tamanho do sacrifício.

O deck, que também pode ser transportado, faz a conexão dos ambientes internos e externos.
A janela ampla valoriza a vista para trazer amplitude.

A mobilidade, o preço mais acessível, o baixo impacto ambiental e a maneira como essas casas nos fazem reconectar com a natureza a nossa volta tem feito muitas pessoas adotar esse estilo de vida e moradia. Outra vantagem que as casas miniatura sobre roda trazem, é que em muitos países, pelo fato de serem móveis, essas casas escapam da burocracia das regulamentações.

Mas a revolução da mobilidade não está só nas casas. Propriedades rurais no mundo inteiro perceberam que edificações móveis aumentam a produtividade regenerando os ecossistemas. Isso porque nos permitem imitar os fluxos migratórios da natureza e sobrepor empreendimentos em uma mesma área.

Um dos modelos do Ovomóvel na Polyfaces.

O ovo-móvel de Joel Salatin é um exemplo clássico. Nesse caso a áreas de pasto são otimizadas com galinheiro móvel sendo instalado logo após a saída do gado de um determinado piquete. Parte da alimentação das galinhas vem do que seriam pragas no pasto por conta da alta concentração de adubo das vacas quando manejadas intensamente em cada área. Por exemplo as moscas, os insetos, carrapatos, parasitas, etc. que tendem a se proliferar demais na falta de predadores naturais. Outra função do ovo-móvel é usar as galinhas para espalhar ainda mais (porque ciscam a área) o adubo deixado pelo gado.

Foi em grande parte com estruturas móveis e buscando inspiração na natureza que Joel Salatin conseguiu fazer a Polyfaces, sua fazenda de 100 acres, produzir anualmente 18.100Kg de carne de boi, 13.600kg de carne de porco, 10.000 frangos, 1.200 perus, 1000 coelhos e 35.000 dúzias de ovos. Tudo isso é produzido recuperando florestas, pastagens e o solo! Sem nenhum adubo ou pesticida químicos, rações de crescimento com hormônios ou antibióticos.

Abatedouro móvel desenvolvido por Mike Callicrate usando a caçamba de um caminhão.

Outro exemplo inteligente do uso dessas estruturas são os abatedouros móveis. Nem sempre eles são realmente móveis, mas o fato de serem construído sobre permite esquivar de regulamentações injustas para o pequeno produtor. Talvez o exemplo mais emblemático seja o do Mike Callicrate, um rancheiro estadounidense que defende que as fazendas de pecuária devem ser regenerativas e mantidas como negócios familiares e não corporativos. Quando o ativismo de Mike fez com que abatedouros de grande escala boicotassem sua produção, ele construiu um abatedouro sobre rodas. Essa solução também permitiu que Mike usasse todas as carcaças dos animais como biochar, fechando um ciclo e mantendo grande parte da fertilidade na propriedade.

Vacas Jersey em uma ordenhadeira móvel na fazenda de Bartele e Rioanne Holtrop na Holanda.
Ordenhadeira móvel pequena.

Na produção de leite começaram a surgir as ordenhadeiras móveis. Variando desde uma unidade manual portátil, até unidades com capacidade para ordenhar várias vacas por vez, essa inovação permite um melhor fluxo nas rotações das pastagens uma vez que a ordenha pode ser feita em piquetes diferentes. O fato da ordenhadeira ir até o piquete ao invés das vacas virem até o curral, também tem outras vantagens. Evita a erosão e compactação causada pelas trilhas do gado e faz com que a urina e o estrume sejam um recurso espalhado na propriedade e não uma poluição concentrada em apenas uma parte ao redor da ordenha.

Outro modelo de ordenha móvel. Essa puxada por um trator.

Usar infraestrutura móvel e sobrepor empreendimentos, como nos convida a fazer Joel Salatin, e saber a ordem de prioridade em termos de tomada de decisão e investimento de tempo e recursos como na Escala de Permanência da Linha Chave, de fato, revoluciona o modo de pensar e projetar propriedades e empreendimentos rurais. Eu compartilho mais sobre a abordagem de Joel Salatin para o que ele chama de ‘fazenda móvel’ no artigo 10 Passos para Empreender com Sucesso na Fazenda. Nesse paradigma, tanto as edificações quando os animais passam a ser recursos com funções múltiplas, elementos móveis que nos permitem imitar os fluxos da natureza em uma micro-escala. O que, por sua vez, nos permite realizar melhor nosso papel de agentes regenerativos das paisagens nas quais habitamos e às quais pertencemos.

Mais Agricultura Regenerativa para virar a mesa

Árvores pioneiras são agentes de cura da natureza. Sempre que um distúrbio forte o suficiente acontece desequilibrando as coisas para um estado de degradação, elas aparecem. Elas crescem muito rápido e usualmente em céu aberto. Elas começam a produzir sementes cedo e regularmente. As sementes são espalhadas pelo vento e outras árvores germinam em áreas degradadas. Os pássaros pousam nas árvores, comem suas sementes e plantam mais pioneiras em lugares ainda mais distantes. As árvores sombreiam a área, quebram as pedras no solo com suas raízes e trocam açucares por minerais com a micorriza no solo. Elas transportam esses minerais tronco acima por meio da seiva e quando suas folhas caem todos esses nutrientes enriquecem a camada superior do solo. Elas criam sombra, habitats, coletam e preservam água e fertilizam o solo para que outras plantas e animais possam viver melhor depois delas. Essa cura milagrosa acontece com pouco ou nenhum cuidado.

Muito embora algumas pessoas ainda defendam que o processo evolutivo se dá por meio da sobrevivência da espécie mais forte, já há bastante tempo outras perceberam que é a cooperação que promove a vida. É a cooperação que ocorre entre e intra flora, fauna e fungos que combate a entropia e re-arranja o caos em sistemas complexos de vida. Todos os seres vivos nesse planeta instintivamente sabem seu qual é seu papel nesse jogo. Mesmo as forças que chamamos antagônicas como o Yin e o Yang, o bem e o mal, a vida e a morte não estão exatamente competindo. Essas forças também estão estão cooperando porque são complementares e uma não poderia existir sem a outra.

Nós, seres humanos, entretanto nos tornamos um animal completa e literalmente diferente. Como mostra um artigo recente no The Guardian, nós humanos representamos apenas 0,01% da vida no planeta, mas já destruímos 83% de todos os mamíferos selvagens (isso sem mencionar outras espécies). Muitos outros artigos jornalísticos e científicos podem ser encontrados apresentando evidências esmagadoras de que chegamos à beira de um colapso planetário. O aquecimento global causado pelos humanos recentemente quebrou todos os recordes históricos de ondas de calor e eventos climáticos extremos. Nós também somos a principal causa de perda da biodiversidade. Nossa ação nos trouxe à sexta maior extinção em massa em 3.8 bilhões de anos da história da vida no planeta, um período denominado Antropoceno. E grande parte, uma parte imensa na verdade, desse dano é causado pela agricultura industrial.

Mas porque aparentemente nós somos os únicos a nos distanciar de papeis que nutrem a vida enquanto nos aprimoramos no desenvolvimento de sistemas degradantes. Não deveríamos todos ser como aquelas árvores pioneiras? Não deveríamos todos deixar um mundo melhor com solos mais ricos, água em abundância e ar puro para as futuras gerações depois que nossas vidas efêmeras são ‘cicladas’? Eu acredito que uma das principais razões pela qual nós não agimos diante das informações aterrorizantes que já temos disponível é a desconexão. A desconexão de nós mesmos, das pessoas à nossa volta e do nosso ambiente natural que torna possível que o 1% que já detém mais de 50% dos recursos do planeta dominem o resto de nós.

Entretanto, se um dos maiores problemas é a agricultura industrial, os produtores rurais que vivem o paradigma da agricultura regenerativa podem se tornar os heróis do futuro, como diz o produtor rural e autor Charles Massy. Massy pesquisou 150 fazendas lucrativas e regenerativas para escrever o livro The Call of the Reed Warbler: a new agriculture, a new Earth. O livro que deriva em parte do trabalho de doutoramento de Massy também detalha a situação terrível em que a agricultura industrial colocou o mundo. E embora apresente evidências esmagadoras do quanto o aquecimento global e a degradação do solo ameaçam a nossa existência, por meio dos produtores rurais entrevistados e das fazendas visitadas Massy apresenta muitas modalidades regenerativas que certamente faram parte do conjunto de soluções.

Agora, para que essas modalidades e abordagens funcionem e para que esse movimento regenerativo decole, nós precisamos trabalhar com eco-sistemas e não com ego-sistemas, diz Darren Doherty, um dos líderes mundiais nessa área em seu livro The Regrarians Handbook. O que é preocupante é que a frase de Darren se baseia em um tipo de experiência que muitos no movimento regenerativo já sofreram. Muito embora a maioria das abordagens regenerativas tenham sido concebidas à partir de um espaço de amor e entendimento profundo dos princípios e processos da natureza e muito embora a maioria das pessoas envolvidas na área sejam bem intencionadas, existe muita dissonância entre a ética, princípios e diretivas declarados nessas abordagens e o que alguns líderes e praticantes aplicam em suas vidas pessoais e profissionais.

Essa dissonância causa muitos danos, especialmente para os que procuram um sentimento de pertença à uma comunidade que representa uma vida e uma profissão mais gratificante e significativa nesse mundo. A maioria das pessoas se envolve com a agricultura regenerativa exatamente por que a ética e princípios declarados reverberam com elas e com a busca pela construção de um melhor e mais justo. Mas rapidamente nos deparamos com um educador ou praticante da permacultura com muito pouco “cuidado com as pessoas”, ou com especialistas da agricultura regenerativa que praticam ‘reserva de mercado’, sabotagem e outros comportamentos mafiosos ao invés de criar abundância por meio da cooperação e de uma atitude ‘open-source’.

De novo a desconexão é uma das causas principais. Egos inflados e leões-de-chácara nessas áreas normalmente tem seu senso de conexão interior e com a natureza quebrado. Geralmente também essas pessoas são movidas por insegurança. É tragicômico ouvir professores e praticantes falando do quão abundante o mundo pode ser, do quão generosa a natureza é enquanto agem como se o reconhecimento das pessoas por aquelas que fazem esse trabalho fosse uma moeda escassa demais para se compartilhar. Eu acredito que é essa dissonância entre o ensino da abundância ecológica e dos princípios regenerativos enquanto se pratica um tipo de economia social e emocional baseada na escassez que leva algumas pessoas a boicotar as oportunidades e carreiras das outras.

Será que eles pensam que os seus concorrentes são as pessoas montando fazendas regenerativas, dando aulas e ajudando outras pessoas por meio de consultorias em suas regiões? Nós não precisamos de leões-de-chácara dentro das abordagens regenerativas. Nós não precisamos de comportamento fundamentalista que leva alguns a competir pelas modalidades que mais se identificam. Nós não estamos competindo com nossos colegas. Nós estamos competindo com a ignorância, com um modelo de civilização que gera escassez planejada. Nós estamos competindo com a desconexão da natureza e das formas com as quais podemos produzir nosso alimento de maneira socialmente justa e ecologicamente segura.

Citando Lynn White, Massy explica em seu livro que “nossas idéias são parte do ecossistema que habitamos”. Daí a necessidade de construirmos eco-sistemas (e não ego-sistemas) nos quais a cultura regenerativa possa florecer. E para fazer isso precisamos de tantos produtores, designers e educadores regenerativos quanto for possível. E precisamos produzí-los rapidamente. É assim que vamos virar a mesa e partir de um sistema consumista e degradante para um regenerativo, abundante e cooperativo. Mas para isso precisamos de líderes e praticantes capazes de cumprir seu papel na sucessão do movimento regenerativo. Precisamos de líderes e praticantes que preparem o terreno de forma graciosa e de bom grado criando as condições ideais para que uma geração ainda melhor possa nos suceder.

A razão pela qual a agricultura industrial e as grandes corporações investem pesado em marketing, desinformação e pesquisas falsas é porque eles sabem o quão poderoso a intenção, as ideias, pequenas ações e um grupo de pessoas pode ser. Mas para o movimento regenerativo virar a mesa do sistema nós precisamos de uma abordagem integrativa para a educação e treinamento. Nós precisamos preparar e nutrir as próximas gerações para elas possam se tornar agentes de mudança, para que possam crescer seguros, íntegros de espírito e capazes de reconhecer seu lugar na natureza.

Em resumo, quaisquer que sejam as causas da dissonância entre a ética e princípios regenerativos e o que é praticado em nossas vidas pessoais e profissionais, uma coisa é certa: o movimento da agricultura regenerativa não florescerá nas mãos de leões-de-chácara operando ego-sistemas. Nós precisamos de produtores rurais, designers e educadores regenerativos que possam cumprir seu papel de pioneiros na sucessão ecológica do movimento para criar as futuras gerações que serão agentes de mudança em melhores condições do que tivemos.

Nota 1: Artigo inspirado nos livros de Charles Massy e Darren Doherty’s books, em comunicações pessoais com Darren Doherty, e no documentário “Quem se importa?”.

Nota 2: Para os que tem se interessado pelo meu trabalho com desenho regenerativo, durante o mês de setembro estarei no Brasil ministrando alguns cursos e oficinas.
– Entre os dias 1 e 9 de Setembro estarei ministrando o curso Agricultura Regenerativacom a equipe da Escola de Permacultura na Serra da Mantiqueira, MG. Esse curso oferece 3 módulos: Tomada de Decisão Holística, Planejamento de Propriedades Rurais com a Escala da Permanência da Linha Chave e Desenho Permacultural.
– Entre os dias 11 e 17 estarei com o amigo Sérgio Olaya ministrando o curso Agricultura Familiar e Empreendedorismo Socioambiental na Fazenda The Green Man em Inconfidência, RJ. Esse curso oferece 3 módulos: Tomada de Decisão Holística, Desenho Permacultural e Agricultura Sintrópica.
– Oficina de Desenho Permacultural na Chapada dos Veadeiros (a ser confirmado).

 

 

Usando a Linha Chave para o planejamento de SAFs

Esse artigo aborda a nossa experiência com a implementação de SAFs (sistemas agroflorestais) utilizando o conceito da Linha Chave na Holos Regenerative Design na Austrália. Esse conceito integra a Escala de Permanência da Linha Chave, uma metodologia de planejamento de propriedades rurais que fornece uma escala de prioridade na implementação da propriedade e de seus sistemas de produção. Outros benefícios do uso da escala são o aumento da produção, a blindagem contra secas, o combate a erosão e a melhoria dos solos, sem a necessidade de utilização de fertilizantes e pesticidas químicos.

Para esse projeto tivemos o prazer de receber a contribuição do designer de propriedades rurais e co-fundador da plataforma Regrarians, Darren Doherty. Darren fez comentários e ajustes finais importantes para o projeto. O primeiro artigo, intitulado Usando a Linha Chave na Agricultura Sintrópica (em inglês) recebeu críticas muito positivas e bastante interesse da comunidade da agricultura regenerativa fora do Brasil. Parte da boa recepção se deve ao sucesso que a metodologia de implementação de agroflorestais sucessionais tem feito fora do Brasil.

O talhão maior
Eu discuto a implementação do talhão menor abaixo, mas primeiramente vou fazer uma atualização sobre a implementação do talhão maior. Por conta da inclinação do terreno e de um contrato já feito com um tratorista específico, nós não conseguimos fazer o encanteiramento dentro de padrões aceitáveis para o projeto. Assim que percebemos esse problema, nós resolvemos colocar o projeto em espera até que pudéssemos usar outra máquina, à partir do mês de Julho. Desde o começo do projeto que o nosso mote tem sido adapte, improvise e vença. O que segue abaixo é um resumo de nossa experiência com esse talhão.

Abaixo temos uma visão aérea da área. É possível vermos as estradas de chão ao redor, uma trilha de acesso na parte inferior, dois açudes e os canteiros do SAF no padrão da Linha Chave. Com excessão do SAF nenhum desses elementos foi desenhado por nós. Esse talhão nos foi oferecido para que desenvolvêssemos com uma série de desafios a serem vencidos. Dentre esses desafios constavam um terreno inclinado e voltado para o Sul (aspecto solar não favorável), risco de erosão e a necessidade de que nosso desenho com um sistema de águas cinzas a ser implementado.

 

Na foto à esquerda podemos a linha de curva de nível em laranja na parte inferior e o tripé do nível a laser no centro da cumeeira. As linhas em amarelo fluorescente mostram o padrão da Linha Chave vindo dos microvales adjacentes com um gradiente de caimento sútil.

Na foto abaixo (à esquerda) é possível vermos a área quando o encanteiramento começou a ser feito. Também é possível vermos que os canteiros não estavam seguindo o padrão planejado da Linha Chave à risca. A parte esquerda da área mostra grandes porções de solo exposto. Essa área foi terraplanada com maquinário pesado e portanto ficou bastante compactada. No entanto, a terraplanagem era necessária para a instalação do canos do sistema de águas cinzas que serão instalados paralelos à alguns dos canteiros.

Com o projeto temporariamente suspenso, nós semeamos a área com uma mistura de sementes de aveia, nabo forrageiro e ervilhaca (inoculada). A montagem de fotos abaixo mostra os estágios iniciais da geminação.

O talhão menor
Esse talhão foi planejado com uma SAF voltada para a produção de hortaliças para nossas famílias e fonte de propagação de mudas. Ele é parecido com o talhão maior no sentido de ser inclinado, voltado para o sul, ser parcialmente cercado por estradas de chão e ter um certo risco de erosão. A diferença principal está no fato do talhão maior ter uma cumeeira central e esse um microvale (ou grota). Por conta do tamanho, da inclinação e da quantidade de pedras, nós mantivemos esse talhão dentro uma escala humana de trabalho.

Para essa área nós decidimos implantar os canteiros de árvores em intervalos de 5 metros. As copas das árvores provavelmente sombrearão os canteiros centrais em aproximadamente 3 anos no máximo. Embora paralelos os canteiros tem comprimentos diferentes o que combinado com o aspecto solar talvez nos permita produzir nos canteiros centrais por mais tempo. O manejo com podas mais intensas também é considerado nessa situação, mas se a intenção é produzir hortaliças por mais tempo é melhor estabelecer os canteiros em intervalos mais largos. Entretanto, são as espécies de árvores escolhidas e o tamanho de suas copas quando maduras que determinarão a distância máxima dos canteiros.

Nós fizemos a agrimensura to terreno com um nível de mangueira marcando onde os canteiros seriam implantados tomando o devido cuidado para o caimento fosse da proporção de 1 metro de caimento para cada 100 metros de comprimento. Como precisávamos cavar os caminhos para construir os canteiros, nós cavamos de acordo com o planejamento com a Linha Chave. Alinhamos as pedras que encontrávamos enquanto cavávamos os canteiros de modo a usá-las para segurar o solo. Em seguida preenchemos as valas em Linha Chave com troncos de madeira já inoculados com cogumelos de uma floresta ao lado e madeira triturada que conseguimos dos arboristas que fazem serviço de poda.

Em uma situação ideal as sementes, mudas, insumos e palhoça para cobertura já estariam todos disponíveis na área que a implementação seguisse a ordem mais prática e eficiente. Essa área também foi afetada pelo uso de maquinário pesado enquanto a estrada ao lado era construída. Nas áreas onde o solo estava exposto próximo aos canteiros nós semeamos o azevém, uma gramínea perene de origem portuguesa, para ser usado como cobertura quando cortado.

Outro ajuste que fizemos foi que embora os canteiros corram no sentido leste-oeste, as árvores de estrato alto nos diferentes canteiros, foram alinhadas norte-sul para otimizar a questão de aspecto solar.

Muito embora esse talhão tenha sido estabelecido recentemente, já plantamos muitas árvores. Dois tipos de eucalipto (robusta e grandis) e a acácia mangium foram escolhidos como pioneiras de crescimento rápido para liderar a sucessão ecológica e fixar nitrogênio. Moringas, amoras, várias cítricas, bananas, papaias e café também fazem parte do consórcio. Tanto os canteiros com árvores como os canteiros só com hortaliças foram plantados com um consórcio de inverno. Em breve instalaremos as treliças nos canteiros de hortaliças para usar quando necessário.

Faz pouco tempo que implantamos o sistema usando a Linha Chave, mas já é possível perceber uma estética agradável e boa funcionalidade (de fácil acesso e mobilidade interna). Com o tempo poderemos compartilhar mais informações sobre a abordagem combinando a Linha Chave (que nesse caso teve canteiros alinhados leste-oeste) com o plantio de árvores de estrato alto alinhado (nos diferentes canteiros) norte-sul vai funcionar.

Nota: Para os que tem se interessado pelo meu trabalho com desenho regenerativo, durante o mês de setembro estarei no Brasil ministrando alguns cursos e oficinas.
– Entre os dias 1 e 9 de Setembro estarei ministrando o curso Agricultura Regenerativacom a equipe da Escola de Permacultura na Serra da Mantiqueira, MG. Esse curso oferece 3 módulos: Tomada de Decisão Holística, Planejamento de Propriedades Rurais com a Escala da Permanência da Linha Chave e Desenho Permacultural.
– Entre os dias 11 e 17 estarei com o amigo Sérgio Olaya ministrando o curso Agricultura Familiar e Empreendedorismo Socioambiental na Fazenda The Green Man em Inconfidência, RJ. Esse curso oferece 3 módulos: Tomada de Decisão Holística, Desenho Permacultural e Agricultura Sintrópica.
– Oficina de Desenho Permacultural na Chapada dos Veadeiros (a ser confirmado).

 

A Plataforma Regrarians e a Escala de Permanência da Linha Chave

“O papel da agricultura é produzir alimentos e fibra enquanto o solo é constantemente melhorado”. A intenção da “Escala de Permanência da Linha Chave de todas as coisas agriculturáveis”* era de estabelecer uma ordem de prioridade para a tomada de decisão no planejamento de propriedades rurais e entender a permanência relativa de suas respectivas áreas.

* P.A. Yeomans (1958). The Challenge of Landscape.

Nota: O artigo que segue é uma tradução livre feita por mim, Eurico Vianna, das sessões 1.03, 1.04 e 1.05 do capítulo Climate do Manual (Handbook) Regrarians, escrito por Darren Doherty e ilustrado por Andrew Jeeves em 2013. Durante os dias 1 e 9 de Setembro eu estarei com a equipe da Escola de Permacultura na Serra da Mantiqueira, ministrando um curso sobre Agricultura Regenerativa que aborda a Tomada de Decisão Holística, a Escala de Permanência da Linha Chave e o Desenho Permacultural.

A Escala de Permanência da Linha Chave

O Clima de determinada área, por exemplo, é relativamente fixo e quase impossível de ser mudado pela pessoa que maneja a área. O Formato do Terreno (Topografia) também é difícil de mudar, embora pequenas mudanças possam ser feitas com o uso de maquinário pesado. A quantidade Água disponível em uma área é uma consequência natural do Clima e da Topografia, muito embora mais água da chuva possa ser coletada e armazenada com alguns ajustes na topografia. As Estradas de Acesso são elementos bastante permanentes e tipicamente duram mais que as Árvores ou Edificações. Embora a prática da Linha Chave possa criar solos vivos e saudáveis rapidamente, as Cercas (de subdivisões) Internas comumente duram mais que o solo sob uso da agricultura industrial.

Outras pessoas adaptaram a Escala de Permanência da Linha Chave com o objetivo de desenvolver uma estrutura priorizada de desenho e implementação.

Leitura Recomendada: Yeomans, P.A. (1958). The Challenge of Landscape – The Development and Practice of Keyline. Keyline Publishing, Sydney.

A Plataforma Regrarians

Como idealizador e co-fundador da Regrarians LTDA., desde 2006 eu (Darren Doherty) desenvolvi o que hoje é conhecido como a Plataforma Regrarians. Essa plataforma cobre assuntos amplos como parte de sua estratégia global de treinamentos, consultorias, desenhos (projetos) e publicações. A gênesis da Plataforma Regrarians se origina com P.A. Yeomans e sua Escala de Pemanência da Linha Chave, desenvolvida em 1958. A Plataforma Regrarians foi criada para determinar a ordem de prioridade implementação dos elementos no desenvolvimento de propriedades rurais, a sua respectiva permanência e a ordem na qual desenhamos (projetamos) uma determinada área.

A Regrarians LTDA. expandiu cada elemento além do aspecto físico fazendo mudanças para melhor refletir nossa ênfase e adição de dois novos elementos (Economia e Energia) à Escala de Permanência original de Yeomans.

A Plataforma Regrarians também inclui contribuições de alguns sistemas de desenho ecológico e tomada de decisão. Essas contribuições incluem o trabalho de Allan Savory, do Instituto Savory e do Movimento do Gerenciamento Holístico, especialmente de Kirk Gadzia e do finado Bruce Ward; de David Holmgren and Bill Mollison e outros no movimento de Desenho Permacultural; assim como de John and Nancy Jack Todd, Sim Van der Ryn, Dr. Vandana Shiva, Art Ludwig, Ethan Roland and Gregory Landua.

Todas as consultorias e treinamentos da Regrarians LTDA seguem a ordem da Plataforma Regrarians:

  1. Clima – desenvolvendo as ‘regras de engajamento’ do ‘clima’ humano para todos os envolvidos em um projeto enquanto geramos o entendimento das atividades que o clima biosférico nos permitem executar
  2. Geografia – analisando mapas aéreos, topográficos, etc. para trazer um contexto físico e local para o empreendimento.
  3. A Água – torna a vida possível, por isso designamos bastante tempo em consultorias e treinamento para colocar a “água sob controle” (Mollison, B., 1995; comunicação pessoal), “fazê-la desenhar suas tarefas”(ibidem), e deixar a propriedade em um estado melhor do que quando a encontramos.
  4. A implementação do Acesso traz muitas dificuldades de desenho e implementação de maneira correta em grande ou pequena escala para a maioria das pessoas. Nós definimos essas artérias de movimento e sua engenharia com a ajuda da análise da Geografia e da Água.
  5. Os Sistemas Agroflorestais podem variar bastante com uma miríade de formas naturais ou projetadas. Praticamente todas as paisagens econômicas fazem parte de complexos florestais e na Plataforma Regrarians os sitemas agroflorestais e sua localização são definidos pelos elementos 1 a 4 da Escala.
  6. As Edificações frequentemente são peças caras de infraestrutura que demandam planejamento e engenharia detalhadas. Na Plataforma Regrarians a localização integrada dessas é bem determinada pelos 5 elementos anteriores na Escala de Permanência.
  7. A localização das Cercas é uma marca registrada da nossa domesticação de várias espécies, particularmente da pecuária. Sistemas tradicionais são caros de se construir e implementar. O advento da cerca elétrica revolucionou nossa habilidade de manejar terrenos nos permitindo seguir padrões topográficos e o comportamento natural dos animais.
  8. Os Solos são a base da vida e portanto um foco importante. Nós precisamos cuidar do ‘todo’ para poder apoiar sua base. A Regrarians se concentra em determinar os tratamentos mais economicamente eficientes para regenerar o solo à partir dos vários que já existem.
  9. A Economia é motivada pela nossa análise dos elementos anteriores, em especial o Clima e a Geografia. Essa análise e o nosso planejamento consecutivo se concentra em liderar as engrenagens econômicas dos vários fluxos de capital que, como os solos, são frágeis e formam a base regenerativa do ‘todo’ (Roland, E. e Landua, G.; 2008. Comunicação pessoal).
  10. A Energia é o combustível vital de todos os elementos que propulsionam qualquer sistema. Portanto nós nos concentramos em organizar sistemas de energia que regeneram ao invés de atrofiarem, mantendo em mente seu custo-benefício em um campo que se desenvolve rapidamente.

Um Resumo da Plataforma Regrarians

  1. CLIMA – Você, o empreendimento, o risco e o clima.
  2. GEOGRAFIA – Topografia do terreno, seus componentes e a proximidade.
  3. ÁGUA – Armazenamento, captação e reticulação.
  4. ACESSO – Pistas, estradas, trilhas, feiras (mercado), utilidades e pessoas.
  5. SISTEMAS AGROFLORESTAIS – em talhões densos, proteção (barreiras de vento, ruído, etc.), savana, pomares e naturais.
  6. EDIFICAÇÕES – Casas, galpões, portáteis, pátios.
  7. CERCAS – Permanentes, elétricas, cruzamentos, vivas.
  8. SOLOS – Pastagem planejada, sais minerais, fertilidade, cultivos.
  9. ECONOMIA – Análise, estratégia, valor agregado.
  10. ENERGIA – Fotossíntese, produção, armazenamento.

O Contexto Moderno

POR MILHARES DE ANOS as pessoas tem criado inovações de sucesso e tido revelações que influenciaram milhares de produtores de alimento por todo o mundo. Entretanto o contexto de suas aplicações frequentemente não é integrativo e como resultado muitos sistemas sofrem com isso. A evolução dessas inovações e revelações é outra questão que esse manual aborda, juntamente com como ajudar você a decidir quais incluir ou excluir de seu projeto.

Os primeiros princípios que os Regrarians devem considerar são:

  1. Trabalhamos com ECOssistemas e não EGOssistemas.
  2. Integramos quaisquer metodologias, técnicas e sistemas de crença como ferramentas a serem testadas.
  3. Estabeleça o capital e a infraestrutura da natureza com os humanos como um organismo funcional e regenerativo.
  4. Evolua da Era do Petróleo para a Era do Solo.
  5. É necessário ser Azul (ter água) antes que possamos ser Verdes (em vegetação e dinheiro) e Negros (carbono e lucro).
  6. Uma ecologia vegetariana não existe.
  7. Para que agroecologias regenerativas possam funcionar precisamos cuidar de todos os níveis tróficos.

AS APLICAÇÕES GERAIS dos princípios, metodologias, técnicas e crenças listadas nesse manual incluem:

  • Propriedades Rurais
  • Arquitetura
  • Paisagismo
  • Engenharia
  • Agricultura/Horticultura/Sistemas Agroflorestais
  • Hortas caseiras
  • Ciências agropecuárias
  • Desenho, planejamento e urbanismo de áreas urbanas, suburbanas e periurbanas.
  • Economia doméstica.

Eu abordei a Escala de Permanência da Linha Chave nesse outro artigo anterior.

Nota: Para os que tem se interessado pelo meu trabalho com desenho regenerativo, durante o mês de setembro estarei no Brasil ministrando alguns cursos e oficinas.
– Entre os dias 1 e 9 de Setembro estarei ministrando o curso Agricultura Regenerativacom a equipe da Escola de Permacultura na Serra da Mantiqueira, MG. Esse curso oferece 3 módulos: Tomada de Decisão Holística, Planejamento de Propriedades Rurais com a Escala da Permanência da Linha Chave e Desenho Permacultural.
– Entre os dias 11 e 17 estarei com o amigo Sérgio Olaya ministrando o curso Agricultura Familiar e Empreendedorismo Socioambiental na Fazenda The Green Man em Inconfidência, RJ. Esse curso oferece 3 módulos: Tomada de Decisão Holística, Desenho Permacultural e Agricultura Sintrópica.
– Oficina de Desenho Permacultural na Chapada dos Veadeiros (a ser confirmado).