O que significa pecuária corretamente manejada?

O gado ou mais amplamente a pecuária tem sido demonizado por veganos, vegetarianos e ambientalistas. Essas pessoas, por mais bem intencionadas que sejam, culpam a pecuária pela degradação ambiental, quando na verdade o verdadeiro culpado é o modelo de produção. No texto que segue, Allan Savory explica o que significa a pecuária manejada de forma correta e como ela pode reverter os processos de desertificação e combater o aquecimento global.

Nota: O texto que segue é uma tradução livre do artigo “O que significa pecuária manejada corretamente?” escrito por Allan Savory e traduzido por Eurico Vianna e Filipe Suleiman. O artigo original foi publicado em inglês no dia 17 de Abril de 2016 e pode ser encontrado nesse link.

No meu sexto post no blog, eu discuti porque a pecuária manejada de forma correta é essencial para salvar a civilização como a conhecemos. Agora, vamos discutir o que a pecuária manejada de forma correta significa, porque somente ao manejá-la adequadamente poderemos abordar seriamente a complexidade envolvida na desertificação global e nas mudanças climáticas.

Primeiro deixe-me ser claro sobre o que não é uma boa gestão na pecuária.

Pecuária industrial

O senso comum nos diz que a agricultura precisa se basear nas ciências biológicas. A agricultura industrializada, no entanto, baseia-se na química e na tecnologia promovida pelas universidades, corporações, grandes financiadores filantrópicos, governos e agências internacionais – uma consequência da gestão e políticas reducionistas.

Literalmente milhões de bovinos, suínos e aves são  manejados em Operações de Alimentação Animal Concentrada (CAFOs na sigla em inglês, mas também conhecida em português por pecuária de confinamento). Esses incluem porcos criados em pequenas gaiolas com pouco espaço para as mães se moverem. Isto não constitui um pecuária manejada de forma correta. A Union of Concerned Scientists (União de Cientistas Preocupados) tem criticado essas práticas. Veganos e vegetarianos que expressaram sua indignação estão – a meu ver – tais práticas não são apenas desumanas para os animais, mas tratar os animais de tal maneira também é degradante para os humanos. Além de ser desumano e degradante, os CAFOs também são prejudiciais ao meio ambiente, à economia e à saúde humana. Em qualquer nação que se proclame civilizada, tal manejo de animais deveria ser ilegal. Infelizmente, a pecuária de confinamento leva muitos na sociedade a difamar a pecuária [como um todo] em vez de reconhecer que os animais são inocentes, enquanto a gestão e políticas reducionistas são o problema.

O pecuária corretamente manejada começa com o manejo dos animais na terra de maneira que seja boa para a terra e toda a vida – bem cuidados até que suas vidas sejam terminadas o mais humanamente possível. Assim como você e eu gostaríamos de ser tratados.

Manejando animais na terra.

Aqui eu preciso distinguir entre o manejo da pecuária nos ambientes úmidos o ano todo (cerca de um terço das terras do mundo), e manejá-la nas maiores áreas do mundo, que são ambientes sazonalmente úmidos e depois secos. Os primeiros são ambientes não-friáveis [ou resilientes], nos quais folhas mortas e caules se desfazem suavemente em sua mão. O segundo são ambientes friáveis, onde as folhas mortas e os caules são tão friáveis que se quebram em fragmentos na mão.

Ambientes úmidos não-friáveis.

Lembre-se que a zona rural ao redor de Londres é verde o ano todo, enquanto a de Joanesburgo com maior precipitação média, é seca, poeirenta e marrom a maior parte do ano, porque essas cidades estão em ecossistemas completamente diferentes.

Nos ambientes mais úmidos, digamos, das costas leste e noroeste da América, ou grande parte da Europa, a pecuária tem um papel essencial a desempenhar na regeneração da vida e da saúde do solo para sequestrar carbono da atmosfera, mas não para tratar da desertificação. Nesse ambientes tão úmidos – lembre-se de meus posts anteriores – nenhuma quantidade de sobre pastoreio ou descanso (repouso parcial ou total das pastagens) causa a desertificação.

Em ambientes úmidos, enquanto os animais estiverem fora, no pasto e bem tratados, existem muitas maneiras de manejá-los. No passado, e no presente, práticas seculares envolveram pastoreio contínuo ou pastoreio rotacional. O cientista francês de pastagens Andre Voisin trouxe à luz as limitações do pastoreio rotativo. Ele desenvolveu uma forma simples de planejar o pastoreio na pecuária que ele chamou de pastoreio “racional” – ou seja, bem pensado e planejado, em vez de simplesmente girar através de pastagens.

Aqui eu preciso fazer uma digressão para discutir a confusão que reina sobre as várias maneiras que argumentam como o manejo de pasto deve ser feito.

Causa de confusão pública sobre o manejo do pasto.

Everett Rogers em seu livro seminal Diffusion of Innovations [Difusão das Inovações] descreve como o novo conhecimento se espalha na sociedade. Por sermos humanos com egos, quando aprendemos algo novo, damos o que aprendemos um novo nome e adaptamos para que pareça uma ideia nossa – e dessa forma novas idéias se espalham de uma maneira um tanto desordenada, mas eventualmente eficaz. Tanto à partir do trabalho de Voisin como do meu, as pessoas criaram muitos novos “sistemas de pastoreio”. Alguns exemplos desses sistemas de pastoreio são: o pastoreio em massa, o pastoreio de curta duração, o manejo intensivo das pastagens, o pastoreio de alta densidade, o pastoreio de piquetes e o pastoreio adaptativo de múltiplos piquetes.

Tragicamente, ao dar um novo nome e adaptar o trabalho dos outros, a própria razão do sucesso [dos sistemas originais] se perdeu. Como se eu contasse uma piada sua como se fosse minha, mas esquecesse a frase que dá graça à piada! A ‘frase esquecida’ [no caso do Gerenciamento Holístico], foi obviamente, a Tomada de Decisão Holística e o processo de planejamento [das rotações e pastagens].

O que as pessoas nas empresas entendem com facilidade é, por algum motivo, difícil para a maioria dos fazendeiros e cientistas de campo. As pessoas de negócios entendem que um sistema de gerenciamento prescritivo lhes serve bem onde as coisas no negócio são previsíveis. Por exemplo, eles usam um sistema de contabilidade ou de controle de estoque – o que significa um sistema de gerenciamento prescritivo. No entanto, eles não sonhariam em gerenciar todo o seu negócio e toda sua imprevisibilidade usando qualquer “sistema de negócios” prescritivo.

Essa confusão que surge entre os produtores, fazendeiros e acadêmicos de administração do campo e nos resultados públicos vem, eu acredito, do nosso uso da palavra “sistema” para explicar duas coisas diferentes. Nós nos referimos ao eco-‘sistema’ e a outros ‘sistemas’ complexos querendo dizer que ‘o todo’ ou ‘o sistema’ é complexo – funciona em conjuntos e padrões, auto-organizados e que, de fato, são complexos. Em meu segundo post desta série, discuti por que nossa incapacidade de administrar o que é complexo está afundando o barco da humanidade. Tudo o que administramos envolve organizações humanas e natureza – ambas definidas como sistemas complexos que se auto-organizam. Embora isso seja bastante claro, a confusão reina quando usamos a palavra ‘sistema’ em um sentido diferente, para descrever uma maneira prescritiva predeterminada de manejar animais em pastagens no campo. Fazemos isso com os sistemas de rotação e muitos outros sistemas de pastoreio. Ao fazermos isso, ignoramos em grande parte a complexidade social, cultural, econômica e ambiental e apresentamos um sistema de pastoreio recomendado (como um sistema de contabilidade ou sistema de controle de inventário) que os produtores e fazendeiros deveriam usar.

Então, em resumo, qualquer um dos inúmeros sistemas de pastoreio pode ser usado em regiões mais úmidas, onde a terra não desertifica, desde que os animais sejam tratados com humanidade durante toda a vida. A terra deve melhorar contanto que os animais sejam agrupados mais e mantidos em movimento. As pessoas ficarão felizes, como, de fato, muitas pessoas boas e aquelas que as aconselham estão ficando com o que estão fazendo porque não vêem os custos ocultos. Para a maioria das pequenas propriedades em regiões mais úmidas, o processo de planejamento simples do Voisin é excelente e superior a qualquer sistema de pastoreio. Minha esposa e eu tivemos o livro de Voisin republicado pela Island Press para tornar seu trabalho original mais disponível para aqueles que querem fazer melhor do que qualquer sistema de pastoreio pode fazer.

Agora chegamos às regiões que estão desertificando, como nos EUA e na maior parte do mundo. Áreas onde as chuvas são sazonais, irregulares e predominantemente abaixo de 400 mm (16 polegadas) de chuva por ano – áreas onde nenhuma tecnologia, plantio de árvores ou qualquer coisa além da pecuária pode praticamente reverter a desertificação e lidar com as mudanças climáticas. Aqui precisamos prestar atenção porque esses ambientes friáveis (ou quebradiços) cobrem a maior área do nosso planeta – uma área muito maior do que as florestas tropicais e regiões úmidas.

Ambientes friáveis (quebradiços) com umidade sazonal.

Quando, na década de 1960, percebi que não tínhamos outra opção senão usar o pecuária para reverter a desertificação na maior parte do mundo, enfrentei um dilema sério. Como isso poderia ser feito?

Conforme explicado em minha palestra no TED sobre desertificação, tivemos a experiência de mais de 10.000 anos de pastores experientes pastoreando seus animais, protegendo-os de predadores e constantemente movendo-os, assim como eles ainda fazem hoje. Mas isso levou ao desenvolvimento dos grandes desertos da antiguidade criados pelo homem e a desertificação ainda está avançando enquanto escrevo. Claramente o pastoreio de rebanhos, como sempre foi e ainda é feito, não reverteria a desertificação.

Jovem pastor sul-africano – Imagem Savory Global

Então tivemos a experiência de cerca de um século de uma gestão moderna de fazendas orientada por cientistas de campo, e isso aumentou a desertificação mais rapidamente do que os pastores haviam feito ao longo de milhares de anos. Esse tipo de manejo incluiu muitos sistemas de pastoreio, cercas, distribuição de água, uso de máquinas, fogo e produtos químicos. Envolveu também a redução constante do número de cabeças de pecuária que levaram ao genocídio pastoral na África, Israel, China e outros lugares, bem como a uma decadente cultura de pecuária ocidental nos EUA – claramente nenhum desses está funcionando. Então, o que deveríamos fazer? O que devemos fazer?

Tudo o que eu sabia há décadas atrás era que tínhamos que aprender a usar o comportamento de pastoreio e rebanho da pecuária de uma maneira similar a como eles evoluíram na presença de predadores que caçam manadas. De alguma forma, tínhamos que usar a pecuária como uma ferramenta e como representante de populações intactas de herbívoros e predadores do passado que não existem mais.

Ao administrar a pecuária de uma forma que imitasse a natureza, também tivemos que administrar situações socialmente, ambientalmente e economicamente muito complexas. Voisin nos deu uma pista – use algum processo de planejamento para abordar o que é complexo. Eu tentei o planejamento de Voisin, mas como foi desenvolvido para pastagens verdejantes (sem períodos de seca) na Europa, não podia lidar com a complexidade maior que enfrentamos nas savanas africanas. O planejamento de Voisin tampouco podia lidar com a complexidade social e econômica. Como nós, ecologistas, nunca enfrentamos algo assim, comecei a pesquisar outras disciplinas para ver se alguém havia lidado com tanta complexidade. O que encontrei de mais semelhante foi na experiência militar desenvolvida ao longo dos séculos na Europa.  

Os planejadores militares tinham sido forçados a desenvolver maneiras cada vez mais bem-sucedidas de planejar situações extremamente complicadas e em rápida mudança, em condições imediatas do campo de batalha. Para fazer isso, mentes inteligentes desenvolveram uma maneira simples de produzir o melhor plano possível a qualquer momento, em uma situação muitas vezes caótica e em constante mudança. Ao invés de reinventar a roda, eu simplesmente copiei o que me ensinaram como oficial do exército Rodesiano do Colégio Militar Britânico de Sandhurst – e isso se tornou o Holistic Planned Grazing.

Planejamento Holístico de Pastagens (adequado para todos os ecossistemas).

Nesse processo bem-sucedido e replicável, a primeira etapa é feita para que aqueles que gerenciam usem a estrutura holística para gerenciar o que é complexo – começando por desenvolver seu próprio contexto holístico para orientar o gerenciamento. Este é o estágio essencial quando as pessoas determinam por si mesmas, por interesse próprio, até se a pecuária deve ser gerenciada e, em caso afirmativo, como. Qualquer produtor rural ou corporação, por exemplo, em uma floresta tropical brasileira, perceberia que o pecuária não deveria estar lá. Criar gado em pastagens em uma área de floresta tropical desmatada seria socialmente, ambientalmente e economicamente insalubre, e não estaria no interesse de longo prazo de qualquer pessoa, corporação ou nação.

Se, de acordo com seu contexto holístico, aqueles que estavam gerenciando determinassem que a pecuária era essencial para melhorar suas vidas, e que nada mais poderia fazê-lo naquela situação, então o planejamento da gestão da pecuária na área prosseguiria. Se prosseguiria com o conhecimento de que era a coisa certa a fazer socialmente, ambientalmente e economicamente para suas próprias vidas e as das futuras gerações.

Como é feito o Planejamento Holístico de Pastagem?

As mentes militares haviam desenvolvido a idéia profundamente simples de transformar uma situação complicada em pequenas partes digeríveis para considerar uma por uma. Mesmo uma mente estressada pode fazer isso. E depois, tendo considerando cuidadosamente um pequeno ponto, passe para o próximo, com cada passo construindo sobre aqueles de antes para chegar ao melhor plano possível. Eu podia ver como esse processo poderia lidar com uma situação incrivelmente complicada, mesmo para pessoas estressadas e exaustas em batalha, mas havia outro problema. Batalhas são travadas por um curto período de tempo. As pessoas que administram a pecuária têm que planejar por meses ou anos à frente. Eles têm que planejar considerando mudanças climáticas sem padrões definidos, queimadas, plantas venenosas, predadores, cultivos, outros usos da terra, as necessidades do conjunto de vida selvagem e muito mais. Ao mesmo tempo, eles têm que planejar considerando a mudança das necessidades nutricionais dos animais à medida que passam por seus ciclos de reprodução. Como eu poderia usar a ideia de planejamento militar e resolver tal complexidade por muitos meses? Facilmente.

Simplesmente estabelecendo o planejamento em um gráfico poderíamos refletir dimensões de tempo, área, números e muitos problemas, questões, mudanças de estações e muito mais em um pedaço de papel. Tão simples. Nós fizemos isso e funcionou imediatamente. Embora eu tenha visto milhares de fazendeiros e pecuaristas falharem no planejamento, ainda não vi o Planejamento Holístico de Pastagens fracassar em nenhum país. Até porque, todo esse processo é baseado em mais de 300 anos de experiência de mentes brilhantes.

O Planejamento Holístico de Pastagens é ensinado rapidamente e é fácil o suficiente para crianças entenderem. Na África, os jovens recém-saídos do ensino médio, sem experiência [na pecuária] aprenderam a planejar [os movimentos nas] pastagens em um dia. Na verdade, fazer o planejamento é divertido para qualquer família ou equipe, muito parecido com um jogo, com o conhecimento na cabeça de todos derramando-se no gráfico e, finalmente, planejando o movimento animal para produzir o resultado desejado. A inexperiência ainda tem que se provar uma dificuldade, porque a ignorância não bloqueia a aprendizagem da maneira que já sabemos que os nossos egos bloqueiam a aprendizagem.

Criança com o Mapa de Planejamento – Imagem Savory Global.

Os passos para o planejamento do pastoreio estão contidos em um Aide Memoire (auxiliar de memória, em francês) por causa da origem em faculdades militares. Esse auxiliar de memória garante que passos pequenos e simples sejam seguidos, criando, da maneira como eles fazem, o plano final. O auxiliar de memória é universal (aplicável em todos os ecossistemas e em todos os tipos de situações), refletindo as experiências de milhares de agricultores, pecuaristas e pastores no campo. O treinamento, incluindo materiais de auto-aprendizagem, está disponível e constantemente atualizado pelo Savory Institute e sua rede mundial de hubs liderados e gerenciados localmente.

E uma versão simples, juntamente com materiais de mobilização da comunidade (desenvolvidos com assistência financeira do Escritório de Assistência a Desastres Estrangeiros na USAID), está disponível para pessoas semi-alfabetizadas, ONGs e outras organizações na África.

Jovem facilitando uma oficina para que pessoas semi-analfabetas em uma vila no Zimbabue possam planejar a rotação holística de seus animais nos piquetes de pasto – Imagem Savory Global.

O Planejamento Holístico de Pastagens funciona?

Você pode se perguntar se o que eu escrevo é apoiado por resultados ou reconhecimento de órgãos respeitáveis. Os resultados foram demonstrados repetidamente por quase meio século. Naturalmente, as pessoas fizeram o que fizeram com níveis variados de habilidade, mas os sucessos foram tão grandes que o processo de Planejamento Holístico de Pastagens agora é praticado em mais de vinte milhões de hectares em seis continentes. Nos EUA, produtores que manejam holisticamente dominaram as premiações por boa administração e cuidado com o campo. Até o momento algumas organizações de renome reconheceram esse trabalho, apesar do fato de que o uso da pecuária para reverter a desertificação é um tapa na cara das crenças da sociedade e, portanto, das instituições:

• Prêmio Internacional Australiano Banksia 2003 – “para a pessoa ou organização que mais faz pelo meio ambiente em escala global”.

• Prêmio Estadunidense Buckminster Fuller em 2010 – “por uma estratégia que melhor atenda às questões mais urgentes da humanidade”.

• Western A Price 2015 “pela integridade e persistência na ciência”.

• Atualmente é finalista do Virgin Earth Challenge, prêmio de US$25 milhões de Sir Richard Branson por formas escalonáveis e sustentáveis de remover gases do efeito estufa do ar.

Críticas e falhas.

Administrar o que é tão complexo foi desenvolvido ao longo de décadas de críticas, ajudando a encontrar falhas seja na lógica ou na ciência, como normalmente avançam a ciência e o conhecimento. Apesar dos apelos que fiz e ainda faço a todos os cientistas para ajudar a identificar quaisquer falhas na lógica ou na ciência, desde o início da década de 1980 que não encontramos novas falhas e apenas mudanças cosméticas ocorreram na abordagem holística. Lembre-se de que este é um processo de tomada de decisão e planejamento que utiliza toda a ciência disponível, bem como outras fontes de conhecimento.

Dito isso, no entanto, qualquer pessoa que fizer uma pesquisa no Google encontrará críticas constantemente recicladas de que o Planejamento Holístico de Pastagens não se baseia nem é apoiado pela ciência. E que também não foi comprovado experimentalmente. Tais alegações, que os oponentes usam as mídias sociais para espalhar amplamente, surgem de trabalhos, relatórios e artigos produzidos por veganos, ambientalistas e por professores de universidades respeitáveis, acrescentando “legitimidade como cientistas objetivos”.

Mesmo sempre lendo os artigos dos críticos e publicações especializadas em jornais científicos para o caso de terem encontrado algo novo, descobrimos que esse ainda não é o caso. Apesar de suas credenciais acadêmicas, os autores de tais trabalhos têm consistentemente estudado uma ou outra das muitas derivações do sistema de pastejo, mas não o processo de Planejamento Holístico de Pastagens. Esses autores também citam um ao outro repetidamente. Em uma publicação de 8 autores (todos com PhD), 19 artigos foram citados em apoio às suas críticas, mas quando todas essas citações foram checadas, incluindo os artigos citados por esses autores, nenhum jamais estudou o Planejamento Holístico de Pastagens. Afirmar que porque os sistemas de pastoreio que eles estudaram não reverteram a desertificação, então, o Planejamento Holístico de Pastagens, não é comprovado pela ciência experimental, é de fato uma lógica distorcida. Este comportamento é talvez melhor descrito em The Structure of Scientific Revolutions, de Thomas Kuhn.

Entretanto, nós nunca devemos relaxar e é minha esperança que todos vocês lendo a minha série de posts desafiarão tudo que eu escrevo. Por favor, sinta-se à vontade para fazê-lo, para compartilhar com críticos e céticos que você conheça ou que possa localizar usando o Google, os convidando a participar do diálogo. Com a grave situação que a humanidade enfrenta e pelo bem das futuras gerações, tudo o que peço é que você não seja apático.

No meu próximo artigo, vou resumir porque é que somente gerenciando o que é complexo holisticamente – usando a pecuária, manejada de forma correta, combinado com a tecnologia para desenvolver energia benigna em massa – podemos abordar seriamente a mudança climática e assim oferecer às futuras gerações a esperança que merecem . Até lá.

Nota sobre o Impacto Positivo e a turnê Gerenciamento Holístico 2019 – Solto esse programa já em meio a preparações de outra viagem para o Brasil na qual estarei promovendo junto com o educador/consultor Australiano Graeme Hand o Gerenciamento Holístico no Brasil. Vou trabalhar com a Escola de Permacultura, com a Fazenda Bella e com novos parceiros no interior de São Paulo, mas preciso da ajuda de todas as pessoas que gostam do conteúdo para divulgar essa turnê! Peço a todos que compartilhem o conteúdo específico do Gerenciamento Holístico para eu possa encontrar parceiros que viabilizem esse projeto e os podcasts de maneira geral como forma de mostrar que outro mundo é possível, já existe, é viável e muito mais digno, saudável e harmonioso.

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Gerenciamento Holístico: Parte 3 – Sistemas e Comportamentos e a Base de Recursos Futuros

Allan Savory, produtor rural, doutor em ecologia e criador do Gerenciamento Holístico originário do Zimbabue nos alerta para a necessidade especificarmos (listando) na construção de nosso Contexto Holístico para tomada de decisão coisas como “equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal” ou mesmo “ter um plano de aposentadoria”. Segundo ele essas coisas só serão produzidas ou só acontecerão se forem incluídas na nossa Declaração de Qualidade de Vida”. Nessa parte da série dos artigos sobre Gerenciamento Holístico eu abordo o passo-à-passo da construção dos Sistemas e Comportamentos e da Base de Recursos Futuros, últimos passos para a criação de um Contexto Holístico para tomada de decisão.

Nota: Esse material foi preparado primeiramente para guiar o trabalho que fazemos na Fazenda Bella. Posteriormente, depois de participar de cursos de Gerenciamento Holístico na Austrália e de reutilizar o mesmo material para outros empreendimentos e consultorias, surgiu a ideia de aprimorá-lo para compartilhar com outras pessoas no Brasil. Grande parte desse material, entretanto, é formado por compilações e traduções de outras fontes (originalmente publicadas em inglês). Uma parte menor foi de fato desenvolvida por mim. Apresento todas as fontes usadas na lista de referências ao final do texto.

Eurico Vianna, PhD. Lennox Head, Austrália, Janeiro de 2018.

No artigo anterior, Gerenciamento Holístico: Parte 2 – O Contexto Holístico, eu introduzi o conceito e exemplifiquei como podemos definir nossa Declaração de Propósito e Declaração de Qualidade de Vida, que garante que não sacrifiquenos nossa qualidade de vida para alcançar nossos objetivos. Esse artigo damos seguimento a construção do Contexto Holístico, que na verdade é formado por vários conceitos, práticas e atitudes que passam também pelo exercício da tomada de decisão com as perguntas teste e com a avaliação constante das decisões tomadas.

Formas de Produção ou ‘Sistemas e Comportamentos’

As Formas de Produção são definidas por Allan Savory como tudo aquilo que precisamos produzir para criar a qualidade de vida que descrevemos. Entretanto Allan Savory nos aconselha a focar no quê e não no como. “Você quer listar somente o que precisa ser produzido, não como vai ser produzido. O como algo é produzido é uma decisão que precisa ser testada” (Holistic Management, p. 77).

Mais uma vez uma adaptação feita pelo educador da permacultura canadense e instrutor do módulo de Tomada de Decisão Holística da Plataforma Regrarians, Javan Bernakovitch nos ajuda a pensar e desenvolver melhor esse conceito para que o uso seja mais eficiente. Javan usa ‘Sistemas e Comportamentos’ ou invés da definição clássica ‘Sistemas de Produção’. Eu prefiro usar ‘Comportamentos e Sistemas’ porque o termo define e indica bem o fato de que, por muitas vezes, o que precisa ser mudado são comportamentos. São falhas conscientes ou inconscientes em como abordamos as várias coisas que produzimos. O componente ‘sistemas’ também engloba bem o elemento ‘produção’ abordado no termo clássico original ‘formas de produção’.

Allan Savory explica que para definirmos nossas Formas de Produção (ou Comportamentos e Sistemas) “não basta simplesmente seguir a Declaração de Qualidade de Vida criando um produto para cada frase ou item”. É necessário nos perguntarmos “O quê nós não temos agora ou o quê não estamos fazendo agora, que nos impede de alcançar a qualidade de vida que listamos?”. Depois de analisarmos nossas próprias respostas nós editamos a resposta criando uma frase em termos positivos, descobrindo assim o que precisamos produzir, como precisamos nos comportar e quais são os sistemas que precisamos colocar em prática. Uma Forma de Produção (ou Comportamento e Sistema) pode ser a resposta para várias necessidades e vice versa. Por exemplo, se uma das qualidades de vida expressadas foi “ter prazer no que fazemos no dia-a-dia”, essa necessidade poderia ser resolvida tendo (ou melhor produzindo) “um equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal” ou “tempo suficiente para planejamento estratégico”, ou tantas outras formas (Holistic Management, p.75)

Outra observação importante feita por Allan Savory é de que algumas pessoas questionam a necessidade de especificar (listar) coisas como “equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal” ou mesmo “ter um plano de aposentadoria”, “mas essas coisas só serão produzidas se forem incluídas na Declaração de Qualidade de Vida” (Holistic Management, p.75).

Embora um Comportamento e Sistema possa prover para várias necessidades, na experiência de Dan Palmer da VEG, elas tendem a funcionar melhor quando respondem a cada necessidade. Veja o exemplo dos Comportamentos e Sistemas (Formas de Produção) da VEG, que declara ser uma empresa “profissional, organizada e calma”:

  • Nós nos apresentamos bem,
  • Nós nos preparamos bem para cada trabalho,
  • Nós nos asseguramos de que nossos clientes terão expectativas claras a respeito dos serviços que serão prestados,
  • Nós nos asseguramos de que todos os papéis e responsabilidades dentro da VEG são claramente definidos e todas as tarefas são distribuídas para o devido setor,
  • Nós não pegamos serviços demais,
  • Nós temos acordos claros quando estabelecemos parcerias com outras pessoas ou empresas,
  • Nós usamos sistemas de gerenciamento de tempo, pessoas e materiais que são claros e fáceis de usar.

A ideia, segundo Dan, é de que se cada uma dessas coisas (Comportamentos e Sistemas) forem alcançadas, a empresa deles será “profissional, organizada e calma”. É nessa etapa da articulação do Contexto Holístico que as transformações começam a acontecer. Ter nossas necessidades ou aspirações listadas, como fizemos nas etapas de Declaração de Propósito e de Qualidade de Vida, é um exercício que muitos já fizeram, mas sem os Comportamentos e Sistemas para complementar o contexto, elas quase sempre caem em esquecimento ou são vistas como clichês. Especificando os Comportamentos e Sistemas, no entanto, nós temos a certeza do que precisa se tornar realidade em nosso dia-a-dia para que possamos, de fato, realizar nossa Declaração de Propósito de maneira a conseguir alcançar todas as qualidades de vida listadas.

A Fazenda Oito Acres traz Comportamentos e Sistemas mais simples, por exemplo.

  • Nós produzimos gado (vendendo carne e animais vivos),
  • Nós produzimos um apiário (vendendo colmeias, mel e cera de abelha),
  • Nós produzimos sabonetes e óleos essenciais naturais,
  • Nós produzimos galinhas (animais vivos e ovos)?,
  • Nós produzimos hortaliças?

Notem como o processo é fluido. Os dois últimos itens das Formas de Produção da Fazenda Oito Acres estão marcados com uma interrogação. Isso demonstra que eles vão testar e decidir se esses Comportamentos e Sistemas são, de fato, viáveis dentro do contexto deles.

Dan Palmer dá o exemplo da Declaração de Qualidade de Vida de sua família e os Comportamentos e Sistemas necessários para mantê-las da seguinte maneira:

Nós somos fisicamente e mentalmente fortes.

Como Dan mesmo alerta, mas como garantir que essas qualidades sejam uma realidade diante das adversidades da vida? Eles então criaram seus Comportamentos e Sistemas:

  • Nós respiramos ar puro,
  • Nós bebemos água pura e viva,
  • Nosso alimento é nutritivo e saudável,
  • Nós dormimos bem,
  • Nós vivemos e trabalhamos em ambientes livres de toxina, claros, secos e aconchegantes,
  • Nós somos fisicamente ativos,
  • Nós somos conectados com pessoas da área da saúde que nos ajudam quando necessário.

Futura Base de Recursos (Future Resource Base)

Nessa última etapa desse exercício de formulação do seu Contexto Holístico você descreve como é a sua Futura Base de Recursos, nesse curso também chamada de Indicadores Futuros (Regrarians, 2017). O que você vê em termos de pessoas, terra (sua propriedade) e comunidade precisa ser capaz de prover as Qualidades de Vida e os Comportamentos e Sistemas declarados anteriormente.  De novo algumas perguntas se tornam chave para completarmos essa etapa.

    • Como será a paisagem do seu todo dentro de 10 anos? Dentro de 50 anos? E que tal, e porque não, dentro de 200 anos? Lembre-se que praticamente qualquer ‘todo’ sob gerenciamento depende de algum ecossistema em algum lugar para mantê-lo.
  • Quais são os serviços necessários que serão prestados pela comunidade para manter suas Formas de Produção? Quais caraterísticas você gostaria que sua comunidade local e regional tenham em um futuro longínquo? Entretanto, ao descrever as pessoas em sua Futura Base de Recursos, você deve focar em como você e o seu ‘todo’ (negócio ou organização) são, porque isso está dentro da sua esfera de controle. Embora o comportamento dos outros esteja fora de nosso controle, a maneira como somos vistos por essas pessoas tem grande influencia na maneira como essas pessoas agem com a gente.

Na opinião de Dan Palmer é melhor definir a Futura Base de Recursos de acordo com o que seus Comportamentos e Sistemas precisam no presente e no futuro. Resumindo, quais são os recursos (que você provavelmente incluiu na sua Base de Recursos quando você definiu o ‘todo sob gerenciamento’) dos quais você depende para conseguir fazer as coisas que mantém sua Declaração de Qualidade de Vida verdadeira? Além disso, como estes recursos precisam ser no futuro para continuar mantendo a Qualidade de Vida que você articulou? A Futura Base de Recursos da VEG foi definida assim:

  • Boa vontade dos clientes,
  • Competência dos funcionários,
  • Galpão organizado,
  • Relacionamentos de trabalho saudáveis,
  • Relacionamento com fornecedores,
  • Nós fornecemos resiliência,
  • Sistemas completos, elegantes e eficientes,
  • Marca forte, coerente e reconhecível,
  • Website bonito, funcional e atualizado,
  • Veículos e ferramentas mantidos em bom estado,
  • Bons relacionamentos e reputação com organizações parceiras e colegas.

Novamente a Fazenda Oito Acres articula seu contexto de forma sucinta e direta. Para eles a Futura Base de Recursos é apresentada também como “Coisas que nós podemos usar” e a lista segue assim:

  • Pastagens perenes,
  • Açudes e poços artesianos,
  • Biodiversidade (em árvores e animais),
  • Temos nossos vizinhos nos vendo como pessoas trabalhadores e produtivas,
  • Temos nossos clientes valorizando nossos produtos como produtos bons e de qualidade.

Ter nossa Futura Base de Recursos listada e descrita é muito importante pois ela se torna um parâmetro de avaliação para sabermos se nossas decisões estão nos guiando na direção que escolhemos. Se um ou vários desses recursos começam a se degenerar com o passar do tempo, nós sabemos que estamos com problemas pois parte da fundação que apoia nossa existência está erodindo.

Para que a nossa Declaração de Propósito e Qualidade de Vida sejam mantidos como queremos é necessário que nossa Futura Base de Recursos seja mantida, ou melhor ainda, sempre aprimorada.

As Declarações de Propósito e Qualidade de Vida focam no tempo presente, quando muito em futuro próximo. Elas funcionam com a seguinte pergunta: o que eu quero que seja verdade sobre o ‘todo sob gerenciamento’ agora e o que eu preciso fazer para realizar isso? A Futura Base de Recursos requer que mudemos o nosso foco do momento presente para o futuro a médio e longo prazo e para os indicadores de que estamos no caminho certo.

Se você seguiu os passos e articulou sua Declaração de Propósito, seus Comportamentos e Sistemas e sua Futura Base de Recursos você completou seu Contexto Holístico temporário. Javan Bernakovitch resume bem o que é e qual sua função explicando que o Contexto Holístico é uma forma de saber o que você quer, o que fazer para conseguir o que você quer e como saber se essas duas partes estão alinhadas. Ele explica dizendo que: “se eu quero X, eu preciso fazer Y (para que X aconteça) e vou saber se X e Y estão alinhados quando Z acontecer” (Bernakevitch, J. na Platoforma Regrarians, 2017-18). Nesse sentido X e Y formam respectivamente nossa Declaração de Propósito (ou Missão) e a Declaração de Qualidade de Vida, Y nossos Comportamentos e Sistemas e Z nossos Indicadores Futuros.

O infográfico abaixo mostra todas as partes que formam um Contexto Holístico para tomada de decisão e gestão do Todo Sob Gerenciamento (Bernakevitch, J. 2017).

Nós chamamos esse Contexto Holístico de temporário porque provavelmente você irá alterá-lo e refiná-lo assim que começar a usá-lo para tomar decisões. Abaixo eu compartilho alguns Contextos Holísticos que foram desenvolvidos durante o curso de Agricultura Regenerativa ministrado por mim na Escola de Permacultura no ano passado (2018).

Esse primeiro exemplo foi desenvolvido pela Thais e pelo Guilherme, casal engajado que toca o Porakaa, um centro que, entre vários outros serviços, presta consultoria em comportamento animal, recuperação de áreas degradas e planejamento para produção agroecológica.

O Contexto Holístico abaixo foi desenvolvido pelo designer e produtor rural Wilson Torres, do Sítio Rincão e do Sagrado Verde. Antes de articular a Base de Recursos Futuros nesse formato em fluxograma, o Wilson versou sobre como ele se via com sua companheira no sítio em um futuro mais distante. O uso de uma linguagem bem pessoal, que realmente traduz quem você é e quais são seus valores mais profundos é muito importante na elaboração de um Contexto Holístico.

Por último eu gostaria de compartilhar o Contexto Holístico desenvolvido pelo José Alejandro, a quem carinhosamente chamamos de “Chepe”. Chepe é filho de produtores rurais convencionais mexicanos e estava no Brasil se aprimorando na permacultura, agrofloresta e agricultura regenerativa para transformar a produção convencional de tomates da família em uma policultura agroecológica financeiramente viável. Influenciado pelos movimentos indígenas e anarquistas que influenciaram o pensamento progressista no México, Chepe realmente tomou posse dos conceitos para elaborar seu Contexto Holístico.

Começando pelo inventário do todo, Chepe incluiu no Capital Vivo de seu contexto os seres humanos. Mas sua cosmovisão foi além e influenciou um Contexto Holístico belo, funcional e profundo. A imagem abaixo foi gerada à partir das notas de aula do Chepe enquanto desenvolvia seu Contexto. No centro temos a Declaração de Propósito -“Existimos para construir um futuro melhor!”(em preto). Em volta dela a Declaração de Qualidade de Vida centrada em 4 conceitos fundamentais para ele – “Somos Rebeldes, Somos Organizados, Somos Humanos e Somos uma Comunidade” (em azul). Em cada uma dessas 4 declarações Chepe desenvolveu ‘sub-declarações’ que se alinham com cada uma das áreas. Em verde Chepe desenvolveu os Comportamentos e Sistemas que garantirão a materialização e autenticidade das qualidades de vida determinadas. Embora essa versão ainda tenha alguns erros conceituais, ela mostra bem como devemos tomar posse dos conceitos e usar a linguagem que melhor traduza nossa alma e valores.

 


Na próxima parte abordarei as Perguntas Teste que no começo ou até que todo o procedimento seja automatizado mentalmente, serão usadas toda vez que precisarmos tomar decisões dentro do nosso Todo Sob Gerenciamento

Esses artigos sobre o Gerenciamento Holístico visam, além de divulgar essa abordagem regenerativa no Brasil, encontrar parceiros para uma turnê de cursos englobando a Tomada de Decisão Holística, a gestão holística financeira e o manejo holístico de pastagens. Caso você tenha interesse em hospedar um curso ou consultoria em sua propriedade, entre em contato conosco pelo email info_at_euricovianna.com.br .

A turnê está sendo produzida por mim (Eurico Vianna) e pelo Filipe Suleiman. Os cursos serão ministrados pelo produtor rural e educador em Gerenciamento Holístico com mais de 25 anos de experiência, Graeme Hand (com tradução minha).

Referências:

Nota: Compartilho desde esse primeiro artigo a bibliografia comentada que norteia toda a série.

Very Edible Gardens (VEG) – a VEG é uma empresa de consultoria e educação permacultural australiana que se tornou referência na área. Dan Palmer e Adam Grubb escrevem frequentemente sobre como melhorar o uso da Permacultura para projetar um futuro de escassez energética onde todos possam viver em abundância.

  • Bernakevitch, J.  (2017 – 2018) Módulo de Formulação de um Contexto Holístico para Tomada Decisão Holistica no REX® Online Farm Planning Program produzido pela plataforma Regrarians.

A Plataforma Regrarians foi criada por Darren J. Doherty integrando o Gerenciamento Holístico e outras modalidades de desenho ecológico à Escala de Permanência da Linha Chave; metodologia de planejamento de propriedades rurais criada pelo australiano P. A. Yeomans. A praticidade, profundidade e eficiência na restauração de áreas degradadas tem feito da Plataforma Regrarians uma das abordagens de planejamento de propriedades rurais que mais cresce no mundo hoje.

O Instituto de Gerenciamento Holístico do Canadá tem uma gama enorme de recursos para o ensino/aprendizagem dessa plataforma. O Instituto tem ajudado muitos produtores rurais no Canadá e fomentado muito o estudo a aplicação do Gerenciamento Holístico por meio de cursos e simpósios.

Liz e seu marido Pete criaram e tocam juntos uma fazenda de 258 acres com empreendimentos que variam do gado para corte e leite, galinhas caipiras para produção de ovos até produtos apiários. O site Eigth Acres foi criado para comercializarem seus produtos e compartilhar as ferramentas que tem usado com sucesso para gerenciar seus empreendimentos.

Alberto Miguel é o único consultor em Gerenciamento Holístico oficialmente credenciado no Brasil. Seu blog é uma fonte riquíssima de conteúdo no assunto.

  • Savory, A. e Butterfield, J. (1999). Holistic Management: a new framework for decision making. Island Press, CA-EUA.

O Manual do Gerenciamento Holístico escrito por Allan Savory e sua esposa Jody Butterfild é o livro que lança essa plataforma de tomada de decisão. Comumente em cursos, dada a quantidade enorme de informações compartilhada, esse livro vem acompanhado do livro ‘Manual Prático’ e de um fichário com instruções para exercícios e o aprendizado do Gerenciamento Holístico de Pastagens.

A Plataforma Regrarians foi criada por Darren Doherty, designer regenerativo que começou sua carreira na Permacultura como aluno do co-criador, Bill Mollison. Darren passou a usar o método de planejamento Linha Chave (Keyline), desenvolvido pelo Australiano P. A. Yeomans, com algumas alterações. O Planejamento de Linha Chave da forma como é ensinado por Darren e sua equipe dentro da plataforma Regrarians está se tornando rapidamente o método mais utilizado por designers para o planejamento de fazendas no mundo todo.

  • 8 Formas de Capital, escrito por Roland, E. e Landua, G. e traduzido por Colaborama. Acessado em 15/01/2018 em https://pt.prepareforchange.net/2016/04/14/as-8-formas-de-capital-uma-nova-forma-de-olhar-para-a-economia/

O conceito foi desenvolvido por Ethan Roland e Gregory Landua para facilitar o entendimento das várias relações econômicas nas quais nos envolvemos e fazemos parte. As 8 Formas de Capital enumeram “todos os diferentes recursos valiosos que um indivíduo ou entidade podem reunir ou trocar” e tem sido usados largamente em cursos de Permacultura para trazer a realização de que se nos falta um tipo de capital, nós provavelmente temos outros com os quais podemos contar para o desenvolvimento de nossos projetos.

 

Gerenciamento Holístico: Parte 2 – O Contexto Holístico

A definição de um Contexto Holístico para a vida pessoal ou empreendimento torna possível tomar decisões que beneficiam todas as áreas e pessoas dentro do Todo definido. Dessa forma o Gerenciamento Holístico nos ensina a definir e refinar as prioridades do Todo Sob Gerenciamento. Nos ajuda encontrar problemas ou bloqueios dentro de nossos projetos ou empreendimentos. Por fim, melhora os pontos fracos e cria um sistema de avaliação que melhora o monitoramento e promove o sucesso.

O artigo anterior abordou como definir o Todo Sob Gerenciamento. Esse artigo começa a compartilhar os passos necessários para definirmos o Contexto Holístico que vai reger a desde a Tomada de Decisão até o Manejo Holístico de Pastagens, passando também pelas questões de segurança ecológica e de viabilidade econômica de nosso Todo ou projeto.

 

Nota: Esse material foi preparado primeiramente para guiar o trabalho que fazemos na Fazenda Bella. Posteriormente, depois de participar de cursos de Gerenciamento Holístico na Austrália e de reutilizar o mesmo material para outros empreendimentos e consultorias, surgiu a ideia de aprimorá-lo para compartilhar com outras pessoas no Brasil. Grande parte desse material, entretanto, é formado por compilações e traduções de outras fontes (originalmente publicadas em inglês). Uma parte menor foi de fato desenvolvida por mim. Apresento todas as fontes usadas na lista de referências ao final do texto.

Eurico Vianna, PhD. Lennox Head, Austrália, Janeiro de 2018.

As pessoas que se propõem a empreender na agricultura regenerativa enfrentam diversos desafios políticos, econômicos e culturais. Dentre as dificuldades causadas por paradigmas culturais podemos citar os 3 mais recorrentes: o complexo de herói, as tendências cognitivas (também conhecidas como tendências de confirmação) e o hábito de colocar os objetivos acima da qualidade de vida (Regrarians, 2017).

  • O complexo de herói, vem da certeza que temos de que é necessário tornar o agronegócio e a sociedade de consumo obsoletos antes que juntos destruam todo o planeta e com ele os seres humanos. A consciência da urgência, então, nos faz sacrificar muitas coisas em prol dessa missão tão digna e necessária.
  • As tendências de confirmação fazem com que tentemos buscar informações que confirmem nossas crenças e descartemos evidências que confirmem conclusões contrárias ou diferentes. Em suma fazem com que ao invés de buscarmos evidências para depois formarmos uma opinião, nós busquemos as evidências que confirmem opiniões formadas à priori.
  • O hábito de colocar os objetivos acima da qualidade de vida é fruto de um dualismo reducionista do modelo de civilização ocidental. Em uma sociedade cada vez mais competitiva e materialista o que conquistamos se tornou mais importante do que como vivemos e isso traz muitas consequências negativas inesperadas.

Em sua genealogia o Gerenciamento Holístico se baseia primordialmente em 4 insights, o primeiro deles sendo o mais importante para a etapa de elaboração de um Contexto Holístico para tomada de decisão (Savory, A. e Butterfield, J. 2000):

1 – Uma perspectiva holística é essencial no gerenciamento. Se baseamos decisões de gestão em qualquer outra perspectiva, nós provavelmente teremos resultados diferentes dos planejados porque só o todo é real.

2 – Os ecossistemas podem ser classificados dentro de um contínuo que vai de não friável até muito friável de acordo com o quão bem a humidade é distribuída e a velocidade que a vegetação morta se decompõe. Nos extremos dessa escala os ecossistemas respondem de maneira diferente a influencias iguais. O descanso, por exemplo, restaura a paisagem em ecossistemas não friáveis, mas causa danos nas paisagens muito friáveis.

3 – Nos ecossistemas friáveis um número relativamente alto de grandes herbívoros em manada, mantidos concentrados e em constante movimento como esses animais se comportam naturalmente na presença de predadores que caçam em grupo, é vital para se manter a saúde das paisagens que pensávamos que eles destruíam.

4 – Em qualquer ecossistema o sobrepastoreio e a compactação pelo pisoteamento praticamente não tem relação com o número de animais. Ao contrário, tem relação com a quantidade de tempo que as plantas e o solo são expostos aos animais.

Savory, A. e Butterfield, J. (2000). Holistic Management: A New Framework for Decision Making. Island Press. EUA. (Tradução livre Eurico Vianna)

Como a natureza opera em todos, o primeiro passo para a tomada de decisão holística é definer um Contexto Holístico. O Contexto Holístico, por sua vez, é formado o por 4 partes: A Declaração de Propósito, a Declaração de Qualidade de Vida, as Formas de Produção e a Futura Base de Recursos. Quando essas partes são articuladas em um conjunto coerente elas formam uma base sólida com um sistema de feedback inerente que nos permite avaliar constantemente se estamos ou não no caminho certo.

A Declaração de Propósito

A Declaração de Propósito deve ser o mais simples e curta possível, mas deve descrever o porquê da existência do seu ‘todo sob gerenciamento’ (sua vida e/ou profissão ou empreendimento). Quando lida, essa declaração deve te lembrar o que te motiva a gerenciar esse ‘todo’. Em outras palavras, sua declaração é a razão ou o “por quê?” o seu Todo existe.

Javan Bernakovitch desenvolveu uma diferenciação desse conceito. Ele trabalha a Declaração de Propósito Destino, sua razão de ser maior, com a Declaração Diária de Propósito, que foca na fraqueza atual do seu Todo (Regrarians, 2017). Particularmente, eu me identifico com essa abordagem pela sua praticidade e funcionalidade e passei a adotar as duas declarações em conjunto.

A elaboração da Declaração de Propósito não deve tomar mais que 20 minutos. Ela também não precisa ser concatenada em um parágrafo coerente. Usar frases soltas é válido nesse estágio. No entanto, essas frases precisam ser escritas no presente (como se já fossem realidade) e devem te inspirar e motivar a tocar seus projetos. A declaração deve cobrir as seguintes áreas da sua vida, projeto ou empreendimento:

  • Bem estar econômico;
  • Relacionamentos;
  • Crescimento e desafio;
  • Propósito e contribuição

Com o uso constante e reavaliação do Contexto Holístico é possível chegarmos a uma declaração mais concisa que ainda cubra todas as áreas necessárias.  Mas inicialmente o foco deve ser em cobrir as 4 áreas citadas acima.

O exemplo de Declaração de Propósito abaixo é de uma empresa que presta serviços de design permacultural na Austrália (Very Edible Gardens – VEG):

A VEG existe para apoiar o desenvolvimento de comunidades, paisagens e estilos de vida saudáveis e abundantes usando por meio do design e da criação de ecossistemas regenerativos que proveem para a vida humana.

A Declaração de Propósito da Fazenda Oito Acres na Austrália é um exemplo simples, porém completo. Ela segue assim:

Nossa função é produzir comida suficiente para nós mesmos e excedente para compartilhar localmente, é desenvolver conhecimento e habilidades para que possamos usar e compartilhar o máximo possível, é prover lucro o suficiente para que não precisemos trabalhar fora da fazenda, é nutrir nossa criatividade, nosso prazer de trabalhar juntos e prazer de estar na natureza.

A Declaração de Qualidade de Vida

A Declaração da Qualidade de Vida é composta por todas as coisas que os tomadores de decisão querem que seja verdade sobre o ‘todo’ que eles gerenciam. Nas palavras de Allan Savory,

A parte da Qualidade de Vida que compõe seu Contexto Holístico expressa as razões pelas quais você faz o que faz, o que você é e no que você quer se transformar. É um reflexo do que melhor te motiva. Essa declaração deve te inspirar. Ela fala de necessidades que você quer satisfazer agora, mas também da missão que você procura cumprir a longo prazo. É o seu senso coletivo do que é importante com suas razões (Holistic Management, p. 71).

Isso é importante porque “os seres humanos vão sempre influenciar qualquer decisão que tomem – mesmo em experimentos controlados rigorosamente – na direção do que eles realmente querem (p.272). A Declaração de Qualidade de Vida da VEG segue assim:

  • Nós somos profissionais, organizados e calmos,
  • Nós temos uma cultura em nosso negócio que é baseada em respeito mútuo, comunicação aberta e complementaridade de diversidade,
  • Nós criamos modos de vida (empregos ou negócios) que são significativos e gratificantes,
  • Nós temos um lucro razoável e a VEG tem um fluxo de caixa saudável,
  • Nós oferecemos uma relação custo-benefício genuína para os nossos clientes,
  • Nós aprendemos e contribuímos constantemente para um entendimento mais amplo da Permacultura,
  • Nós conduzimos o nosso negócio de maneira ética, íntegra e genuína,
  • Nós somos resilientes e nos adaptamos de forma consciente a um futuro de escassez energética.

Já a Declaração de Qualidade de Vida da Fazenda Oito Acres é bem mais sucinta:

  • Nós não temos dívida,
  • Trabalhamos muito pouco fora da fazenda,
  • Temos relacionamentos positivos com vizinhos e a comunidade mais ampla,
  • Nosso trabalho, embora técnico e desafiador, é prazeroso.

Um exemplo de uma Declaração de Qualidade de Vida pessoal (em desenvolvimento) poderia ser algo assim:

  • Sou financeiramente independente e próspero,
  • Eu vivo uma vida feliz e saudável gozando de bom preparo físico,
  • Minha vida em família é prazerosa, harmoniosa e repleta de amor,
  • Tenho laços fortes de amizade em minha comunidade e sou sempre bem amparado pelos meus amigos,
  • Meus projetos profissionais são desafios prazerosos que trazem crescimento constante,
  • Meu exemplo de vida inspira minha família, amigos e comunidade a viverem de maneira harmoniosa, economicamente próspera, socialmente justa e ecologicamente regenerativa.

Outra dica importante dada por Dan Palmer da VEG é priorizar o uso de verbos ao invés de substantivos quando escrevemos nossa Declaração de Propósito. Por exemplo, ao invés de escrever ‘Eu mantenho relacionamentos saudáveis que são respeitosos e íntegros com meus clientes’, seria melhor escrever, ‘Eu me relaciono de maneira respeitosa e integra com meus clientes’. O uso dos verbos, explica Dan, resumem melhor a intenção e são quase sempre melhor fundamentados e diretos ao ponto.

Nesse momento inicial da elaboração do Contexto Holístico mais vale ter algo escrito na direção certa e que pode ser aprimorado com o uso e experiência do que ficar bloqueado tentando escrever declarações perfeitas.

De novo Dan Palmer da VEG dá conselhos e usa técnicas importantes para ajudar no processo. Ele faz as seguintes perguntas aos seus clientes para que eles desenvolvam boas Declarações de Qualidade de Vida:

  • O que você quer que seja verdade sobre o seu envolvimento com _______________ (nome do ‘todo’ sendo gerenciado)? O que você quer desse envolvimento e o que você pode oferecer?
  • Descreva como será o/a  ______________ daqui há 10 anos? O que está acontecendo e como isso faz você se sentir?
  • O que você acha que poderia impedir a/o ____________ de atingir seu maior potencial?

Depois de respondidas essas questões, elas podem ser passadas à limpo em melhores Declarações de Qualidade de Vida. Mas o processo é de aprimoramento constante por meio do uso dessas ferramentas em nossos processos de tomada de decisão.

Na próxima parte abordarei as Formas de Produção (ou Sistemas e Comportamentos) e a Futura Base de Recursos com modelos de Contexto Holístico desenvolvidos durante o curso de Agricultura Regenerativa na Escola de Permacultura

Esses artigos sobre o Gerenciamento Holístico visam, além de divulgar essa abordagem regenerativa no Brasil, encontrar parceiros para uma turnê de cursos englobando a Tomada de Decisão Holística, a gestão holística financeira e o manejo holístico de pastagens. Caso você tenha interesse em hospedar um curso ou consultoria em sua propriedade, entre em contato conosco pelo email info_at_euricovianna.com.br .

A turnê está sendo produzida por mim (Eurico Vianna) e pelo Filipe Suleiman. Os cursos serão ministrados pelo produtor rural e educador em Gerenciamento Holístico com mais de 25 anos de experiência, Graeme Hand (com tradução minha).

Referências:

Nota: Compartilho desde esse primeiro artigo a bibliografia comentada que norteia toda a série.

Very Edible Gardens (VEG) – a VEG é uma empresa de consultoria e educação permacultural australiana que se tornou referência na área. Dan Palmer e Adam Grubb escrevem frequentemente sobre como melhorar o uso da Permacultura para projetar um futuro de escassez energética onde todos possam viver em abundância.

  • Bernakevitch, J.  (2017 – 2018) Módulo de Formulação de um Contexto Holístico para Tomada Decisão Holistica no REX® Online Farm Planning Program produzido pela plataforma Regrarians.

A Plataforma Regrarians foi criada por Darren J. Doherty integrando o Gerenciamento Holístico e outras modalidades de desenho ecológico à Escala de Permanência da Linha Chave; metodologia de planejamento de propriedades rurais criada pelo australiano P. A. Yeomans. A praticidade, profundidade e eficiência na restauração de áreas degradadas tem feito da Plataforma Regrarians uma das abordagens de planejamento de propriedades rurais que mais cresce no mundo hoje.

O Instituto de Gerenciamento Holístico do Canadá tem uma gama enorme de recursos para o ensino/aprendizagem dessa plataforma. O Instituto tem ajudado muitos produtores rurais no Canadá e fomentado muito o estudo a aplicação do Gerenciamento Holístico por meio de cursos e simpósios.

Liz e seu marido Pete criaram e tocam juntos uma fazenda de 258 acres com empreendimentos que variam do gado para corte e leite, galinhas caipiras para produção de ovos até produtos apiários. O site Eigth Acres foi criado para comercializarem seus produtos e compartilhar as ferramentas que tem usado com sucesso para gerenciar seus empreendimentos.

Alberto Miguel é o único consultor em Gerenciamento Holístico oficialmente credenciado no Brasil. Seu blog é uma fonte riquíssima de conteúdo no assunto.

  • Savory, A. e Butterfield, J. (1999). Holistic Management: a new framework for decision making. Island Press, CA-EUA.

O Manual do Gerenciamento Holístico escrito por Allan Savory e sua esposa Jody Butterfild é o livro que lança essa plataforma de tomada de decisão. Comumente em cursos, dada a quantidade enorme de informações compartilhada, esse livro vem acompanhado do livro ‘Manual Prático’ e de um fichário com instruções para exercícios e o aprendizado do Gerenciamento Holístico de Pastagens.

A Plataforma Regrarians foi criada por Darren Doherty, designer regenerativo que começou sua carreira na Permacultura como aluno do co-criador, Bill Mollison. Darren passou a usar o método de planejamento Linha Chave (Keyline), desenvolvido pelo Australiano P. A. Yeomans, com algumas alterações. O Planejamento de Linha Chave da forma como é ensinado por Darren e sua equipe dentro da plataforma Regrarians está se tornando rapidamente o método mais utilizado por designers para o planejamento de fazendas no mundo todo.

  • 8 Formas de Capital, escrito por Roland, E. e Landua, G. e traduzido por Colaborama. Acessado em 15/01/2018 em https://pt.prepareforchange.net/2016/04/14/as-8-formas-de-capital-uma-nova-forma-de-olhar-para-a-economia/

O conceito foi desenvolvido por Ethan Roland e Gregory Landua para facilitar o entendimento das várias relações econômicas nas quais nos envolvemos e fazemos parte. As 8 Formas de Capital enumeram “todos os diferentes recursos valiosos que um indivíduo ou entidade podem reunir ou trocar” e tem sido usados largamente em cursos de Permacultura para trazer a realização de que se nos falta um tipo de capital, nós provavelmente temos outros com os quais podemos contar para o desenvolvimento de nossos projetos.

 

Gerenciamento Holístico: Parte 1 Definindo e inventariando o Todo Sob Gerenciamento

O Gerenciamento Holístico é uma ferramenta de gestão criada por Allan Savory, um produtor rural e doutor em ecologia do Zimbabue, para que produtores rurais pudessem ser produtivos sem que isso comprometesse a qualidade de vida e a saúde ecológica de suas propriedades. Essa abordagem traz contribuições importantes para a alfabetização ecológica daqueles que se propõem a trabalhar dentro do paradigma da agricultura regenerativa. Nos próximos meses eu vou compartilhar mais artigos com intuito de promover essa abordagem no Brasil.

Resumidamente, o Gerenciamento Holístico é formado por 4 módulos: Tomada de Decisão Holística, Gerenciamento Holístico Financeiro, Manejo Holístico de Pastagens e planejamento de propriedades rurais. Nessa primeira etapa, vou compartilhar insights, experiências e conteúdo sobre a Tomada de Decisão Holística, módulo que tem me ajudado muito a melhorar minha eficiência de trabalho e qualidade de vida ao mesmo tempo. Esse módulo foi desenvolvido para que produtores rurais pudessem tomar decisões complexas englobando a saúde ecológica e financeira da propriedade ou empreendimento sem deixar de fora a qualidade de vida das pessoas envolvidas.

Os artigos seguintes descrevem o ‘passo-à-passo’ para a construção de um Contexto Holístico, que é o que rege a Tomada de Decisão Holística.

 

Nota: Esse material foi preparado primeiramente para guiar o trabalho que fazemos na Fazenda Bella. Posteriormente, depois de participar de cursos de Gerenciamento Holístico na Austrália e de reutilizar o mesmo material para outros empreendimentos e consultorias, surgiu a ideia de aprimorá-lo para compartilhar com outras pessoas no Brasil. Grande parte desse material, entretanto, é formado por compilações e traduções de outras fontes (originalmente publicadas em inglês). Uma parte menor foi de fato desenvolvida por mim. Apresento todas as fontes usadas na lista de referências ao final do texto.

Eurico Vianna, PhD. Lennox Head, Austrália, Janeiro de 2018.

 

A criação de um Contexto Holístico que guie nossas decisões e ações dentro dos projetos, organizações ou empreendimentos que tocamos forma uma base sólida para que nossas decisões possam, de fato, ser financeiramente viáveis, ambientalmente regenerativas e socialmente justas. O Contexto Holístico é uma ferramenta muito poderosa que nos permite inverter a maneira como traçamos e executamos nossas metas. Ou seja, com nosso Contexto Holístico formado, ao invés de estabelecermos uma meta e adaptarmos ou sacrificarmos nosso estilo de vida para atingi-la, nós estabelecemos a qualidade de vida que queremos e trabalhamos para que nossas metas possam apoiá-las.

Mas antes de articularmos nosso Contexto Holístico nós precisamos definir o campo ou o ‘todo’ dentro do qual vamos atuar.

O Todo Sob Gerenciamento

Para definirmos ‘o todo sob gerenciamento’, primeiramente precisamos definir quem são as pessoas que tomam as decisões nesse ‘todo’. As pessoas que tomam as decisões, comumente são as pessoas que tem poder de vetar (ou pelo menos afetar drasticamente) as decisões ou projetos em um ‘todo’ sendo gerenciado. Um exemplo claro é uma pequena empresa onde os donos são claramente os tomadores de decisão, mas devido à influência e autonomia de uma funcionária (digamos um gerente geral), seria interessante que ela fosse incluída como parte dos Tomadores de Decisão (Decision Makers).

Embora não tenha sido muito comum nos primeiros anos em que o Gerenciamento Holístico começou a ser difundido, um número cada vez maior de pessoas tem achado válido criar um Contexto Holístico para suas próprias vidas. Nesse caso só existe um Tomador de Decisão e ‘o todo sob gerenciamento’ é a vida pessoal e profissional da pessoa em questão. Desenvolver um Contexto Holístico também tem se popularizado para gerir relacionamentos ou empreendimentos que não são diretamente ligados com propriedades rurais. Nesse caso os Tomadores de Decisão são as pessoas envolvidas no relacionamento ou empreendimento.

Os Tomadores de Decisão

Pare por um momento e pense quem são os Tomadores de Decisão no ‘todo sob gerenciamento’ que que você está gerindo. Existem 3 tipo de Tomadores de Decisão: os Primários fazem parte da gestão e decisão diárias e tem poder de veto; os Secundários, que tem influência nos Primários ou Todo; e os Terciários, que podem ser levados em consideração.

A Base de Recursos e as Oito Formas de Capital:

Nessa etapa inicial do exercício de elaboração do Contexto Holístico que apoiará nossos processos de tomada de decisão nós precisamos fazer um inventário dos nossos recursos. Frequentemente nós ignoramos recursos importantes que já possuímos ou que estão à nossa disposição por conta da maneira que fomos treinados a pensar. Por essa razão essa etapa do exercício é muito importante. Ela pode ser verdadeiramente libertadora em termos de criatividade e recursos alternativos para começarmos nossos projetos ou empreendimentos.

Dentro do Gerenciamento Holístico ‘clássico’ consideramos 3 categorias mais amplas de recursos: Os recursos Humanos, os de Conhecimento e os Físicos ou Materiais.

Os recursos Humanos são todas aquelas pessoas com as quais podemos contar em maior ou menor grau, direta ou indiretamente para realizar as funções do nosso ‘todo sob gerenciamento’. São elas: parentes, amigos, clientes (passados e presentes), pessoas em nossa Rede Contato profissional ou em uma Comunidade de Prática (grupos online ou presenciais que se reúnem para trocar idéias e informações para aprimorar uma prática que têm em comum).

Os recursos De Conhecimento são todas as nossas qualificações acadêmicas, treinamentos técnicos/vocacionais (serralheria, carpintaria, mecânica, etc.) e aptidões (predisposição para determinadas áreas do conhecimento, das artes, tipos específicos de trabalho, etc.).

Já os Recursos Físicos ou materiais são os bens que possuímos ou temos acesso facilitado. Por exemplo um carro, trator, computador, ferramentas, etc. Muitas vezes, é melhor até que não seja necessário possuir um bem que tenha o valor elevado e que não vá ser usado frequentemente.

Dinheiro

No Gerenciamento Holístico entendemos por Dinheiro toda forma de recursos financeiros dos quais podemos dispor para realizar as tarefas, projetos ou funções do nosso ‘todo sob gerenciamento’. Empréstimos pessoais ou por meio de instituições, com ou sem juros, fazem parte dessa categoria. Quais são os recursos financeiros disponíveis para o seu ‘todo’?

As Oito Formas de Capital

Esse conceito foi desenvolvido por Ethan Roland e Gregory Landua para facilitar o entendimento das várias relações econômicas nas quais nos envolvemos e fazemos parte. O primeiro artigo foi publicado em 2011 e desde então o conceito foi expandido pelos autores em formato de um livro. Para muitas pessoas as 8 Formas de Capital são uma forma mais precisa de fazermos um inventário do que está disponível para o nosso Todo Sob Gerenciamento. Essa forma difere do Gerenciamento Holístico clássico e foi introduzida no curso de planejamento de fazendas da Plataforma Regrarians (2017) por Javan Bernakovitch. Pela precisão e escopo do inventário e capacidade de pensamento lateral que traz, eu prefiro trabalhar com essa abordagem quando faço inventário ou facilito cursos e consultorias.

As 8 Formas de Capital enumeram “todos os diferentes recursos valiosos que um indivíduo ou entidade podem reunir ou trocar” (2011). O que segue abaixo é uma lista das formas de capital acompanhada por uma breve explicação de cada um deles.

O Capital Espiritual é ligado com nossos mitos de origem (religiosos ou não), com as formas de ligação com nosso ser interior ou de autoconhecimento. “Muitas das religiões do mundo incluem um conceito do “grande encadeamento do ser”, uma compreensão hierárquica da existência, onde a realização espiritual (neste contexto, a acumulação de capital espiritual) leva a diferentes níveis de estar” (2011) e por consequência de agir no mundo. O karma Budista, é um exemplo de Capital Espiritual que se pode se ‘acumular’ ou ‘dever’. Você tem crenças ou práticas que podem ser interpretadas como Capital Espiritual?

O Capital Social é formado pela rede de contatos, amigos e familiares que uma pessoa tem e que pode ser usada para influenciar decisões, pedir favores e articular ações e movimentos na comunidade. O Capital Social pode ser acumulado, ou seja, você pode ter vários favores para pedir dentro de sua rede pelas boas ações que já praticou. Por outro lado, você pode ‘dever’ favores a outras pessoas.

O Capital Intelectual é um ‘bem’ em forma de conhecimento. A educação formal em todos os países foca na transmissão do Capital Intelectual. “Ter o capital intelectual é apontado como a melhor forma de ser bem-sucedido. … Por exemplo, ‘ir para a universidade’ é essencialmente uma troca de capital financeiro por capital intelectual”. A educação formal, ou o Capital Financeiro é supostamente a melhor maneira de preparar as pessoas para o resto de suas vidas no mundo. Quais são as qualificações formais que estão disponíveis como Capital Financeiro para o Todo Sob Gerenciamento?

O Capital Material é formado pelos objetos físicos não-vivos. “Os recursos brutos e processados como pedra, metal, madeira e os combustíveis fósseis são combinados uns com os outros para criar materiais ou estruturas mais sofisticadas. Edifícios modernos, pontes e outras peças de infraestrutura, juntamente com ferramentas, computadores e outras tecnologias são formas combinadas de capital material.” (2011).

O Capital Financeiro pode ser representado pelo dinheiro, moedas, títulos e outros instrumentos do sistema financeiro global.  O Capital Financeiro “é a nossa principal ferramenta para a troca de bens e serviços com outros seres humanos. Ele pode ser uma poderosa ferramenta para a opressão ou, potencialmente, libertação” (2011).

O Capital Experiencial (ou Humano) é a experiência que acumulamos quando organizamos algum projeto em nossa comunidade. Pode ser quando construímos uma casa usando técnicas de Bioconstrução ou quando completamos um projeto de desenho permacultural. “A maneira mais eficaz de aprender alguma coisa é através da combinação do  capital intelectual com o experiencial … o “capital humano” é uma combinação de capital social, intelectual e experiencial, e todas as facetas de uma pessoa que podem ser captadas e transferidas em quantidades essencialmente ilimitadas” (2011). Quais são suas experiências que podem colaborar para o sucesso dos projetos no seu Todo?

O capital cultural “descreve os processos partilhados internos e externos de uma comunidade – as obras de arte e de teatro, as canções que cada criança aprende, a capacidade de se unir em celebração das colheitas ou durante um feriado religioso. O capital cultural não pode ser captado pelas pessoas, individualmente. Pode ser visto como uma propriedade emergente do complexo sistema de trocas de capital que ocorre numa aldeia, numa cidade, num biótopo ou nação” (2011). Quais são as atividades culturais compartilhadas pela sua comunidade que pode colaborar no seu Todo?

O Capital Vivo é composto por animais, plantas, água e solo da nossa terra – a verdadeira base para a vida no nosso planeta. A analista e consultora financeira “Catherine Austin Fitts recomenda que nós diversifiquemos e ‘meçamos a nossa riqueza em onças [metais preciosos], acres [de terra], e animais'” (2011). Qual o Capital Vivo disponível no seu Todo?

No próximo artigo vou abordar os primeiros passos para a construção de um Contexto Holístico.

Esses artigos sobre o Gerenciamento Holístico visam, além de divulgar essa abordagem regenerativa no Brasil, encontrar parceiros para uma turnê de cursos englobando a Tomada de Decisão Holística, a gestão holística financeira e o manejo holístico de pastagens. Caso você tenha interesse em hospedar um curso ou consultoria em sua propriedade, entre em contato conosco pelo email info_at_euricovianna.com.br .

A turnê está sendo produzida por mim (Eurico Vianna) e pelo Filipe Suleiman. Os cursos serão ministrados pelo produtor rural e educador em Gerenciamento Holístico com mais de 25 anos de experiência, Graeme Hand (com tradução minha).

Referências:

Nota: Compartilho desde esse primeiro artigo a bibliografia comentada que norteia toda a série.

Very Edible Gardens (VEG) – a VEG é uma empresa de consultoria e educação permacultural australiana que se tornou referência na área. Dan Palmer e Adam Grubb escrevem frequentemente sobre como melhorar o uso da Permacultura para projetar um futuro de escassez energética onde todos possam viver em abundância.

O Instituto de Gerenciamento Holístico do Canadá tem uma gama enorme de recursos para o ensino/aprendizagem dessa plataforma. O Instituto tem ajudado muitos produtores rurais no Canadá e fomentado muito o estudo a aplicação do Gerenciamento Holístico por meio de cursos e simpósios.

Liz e seu marido Pete criaram e tocam juntos uma fazenda de 258 acres com empreendimentos que variam do gado para corte e leite, galinhas caipiras para produção de ovos até produtos apiários. O site Eigth Acres foi criado para comercializarem seus produtos e compartilhar as ferramentas que tem usado com sucesso para gerenciar seus empreendimentos.

Alberto Miguel é o único consultor em Gerenciamento Holístico oficialmente credenciado no Brasil. Seu blog é uma fonte riquíssima de conteúdo no assunto.

  • Savory, A. e Butterfield, J. (1999). Holistic Management: a new framework for decision making. Island Press, CA-EUA.

O Manual do Gerenciamento Holístico escrito por Allan Savory e sua esposa Jody Butterfild é o livro que lança essa plataforma de tomada de decisão. Comumente em cursos, dada a quantidade enorme de informações compartilhada, esse livro vem acompanhado do livro ‘Manual Prático’ e de um fichário com instruções para exercícios e o aprendizado do Gerenciamento Holístico de Pastagens.

A Plataforma Regrarians foi criada por Darren Doherty, designer regenerativo que começou sua carreira na Permacultura como aluno do co-criador, Bill Mollison. Darren passou a usar o método de planejamento Linha Chave (Keyline), desenvolvido pelo Australiano P. A. Yeomans, com algumas alterações. O Planejamento de Linha Chave da forma como é ensinado por Darren e sua equipe dentro da plataforma Regrarians está se tornando rapidamente o método mais utilizado por designers para o planejamento de fazenda no mundo todo.

  • 8 Formas de Capital, escrito por Roland, E. e Landua, G. e traduzido por Colaborama. Acessado em 15/01/2018 em https://pt.prepareforchange.net/2016/04/14/as-8-formas-de-capital-uma-nova-forma-de-olhar-para-a-economia/

O conceito foi desenvolvido por Ethan Roland e Gregory Landua para facilitar o entendimento das várias relações econômicas nas quais nos envolvemos e fazemos parte. As 8 Formas de Capital enumeram “todos os diferentes recursos valiosos que um indivíduo ou entidade podem reunir ou trocar” e tem sido usados largamente em cursos de Permacultura para trazer a realização de que se nos falta um tipo de capital, nós provavelmente temos outros com os quais podemos contar para o desenvolvimento de nossos projetos.

 

Mais Agricultura Regenerativa para virar a mesa

Árvores pioneiras são agentes de cura da natureza. Sempre que um distúrbio forte o suficiente acontece desequilibrando as coisas para um estado de degradação, elas aparecem. Elas crescem muito rápido e usualmente em céu aberto. Elas começam a produzir sementes cedo e regularmente. As sementes são espalhadas pelo vento e outras árvores germinam em áreas degradadas. Os pássaros pousam nas árvores, comem suas sementes e plantam mais pioneiras em lugares ainda mais distantes. As árvores sombreiam a área, quebram as pedras no solo com suas raízes e trocam açucares por minerais com a micorriza no solo. Elas transportam esses minerais tronco acima por meio da seiva e quando suas folhas caem todos esses nutrientes enriquecem a camada superior do solo. Elas criam sombra, habitats, coletam e preservam água e fertilizam o solo para que outras plantas e animais possam viver melhor depois delas. Essa cura milagrosa acontece com pouco ou nenhum cuidado.

Muito embora algumas pessoas ainda defendam que o processo evolutivo se dá por meio da sobrevivência da espécie mais forte, já há bastante tempo se fortalece a corrente de pensamento que defende que é a cooperação que promove a vida. É a cooperação que ocorre entre e intra flora, fauna e fungos que combate a entropia e re-arranja o caos em sistemas complexos de vida. Todos os seres vivos nesse planeta instintivamente sabem qual é seu papel nesse jogo. Mesmo as forças que chamamos antagônicas como o Yin e o Yang, o bem e o mal, a vida e a morte não estão exatamente competindo. Essas forças também estão cooperando porque uma não poderia existir sem a outra e são, portanto, complementares na formação do ‘todo’.

Nós, seres humanos, entretanto nos tornamos um animal completa e literalmente diferente. Como mostra um artigo recente no The Guardian, nós humanos representamos apenas 0,01% da vida no planeta, mas já destruímos 83% de todos os mamíferos selvagens (isso sem mencionar outras espécies). Muitos outros artigos jornalísticos e científicos podem ser encontrados apresentando evidências esmagadoras de que chegamos à beira de um colapso planetário. O aquecimento global causado pelos humanos recentemente quebrou todos os recordes históricos de ondas de calor e eventos climáticos extremos. Nós também somos a principal causa de perda da biodiversidade. Nossa ação nos trouxe à sexta maior extinção em massa em 3.8 bilhões de anos da história da vida no planeta, um período denominado Antropoceno. E grande parte, uma parte imensa na verdade, desse dano é causado pela agricultura industrial.

Mas porque aparentemente nós somos os únicos a nos distanciar de papeis que nutrem a vida enquanto nos aprimoramos no desenvolvimento de sistemas degradantes. Não deveríamos todos ser como aquelas árvores pioneiras? Não deveríamos todos deixar um mundo melhor com solos mais ricos, água em abundância e ar puro para as futuras gerações depois que nossas vidas efêmeras são ‘cicladas’? Eu acredito que uma das principais razões pela qual nós não agimos diante das informações aterrorizantes que já temos disponível é a desconexão. A desconexão de nós mesmos, das pessoas à nossa volta e do nosso ambiente natural que torna possível que o 1% que já detém mais de 50% dos recursos do planeta dominem o resto de nós.

Entretanto, se um dos maiores problemas é a agricultura industrial, os produtores rurais que vivem o paradigma da agricultura regenerativa podem se tornar os heróis do futuro, como diz o produtor rural e autor Charles Massy. Massy pesquisou 150 fazendas lucrativas e regenerativas para escrever o livro The Call of the Reed Warbler: a new agriculture, a new Earth. O livro que deriva em parte do trabalho de doutoramento de Massy também detalha a situação terrível em que a agricultura industrial colocou o mundo. E embora apresente evidências esmagadoras do quanto o aquecimento global e a degradação do solo ameaçam a nossa existência, por meio dos produtores rurais entrevistados e das fazendas visitadas Massy apresenta muitas modalidades regenerativas que certamente farão parte do conjunto de soluções.

Agora, para que essas modalidades e abordagens funcionem e para que esse movimento regenerativo decole, nós precisamos trabalhar com eco-sistemas e não com ego-sistemas, diz Darren Doherty, um dos líderes mundiais nessa área em seu livro The Regrarians Handbook. O que é preocupante é que a frase de Darren se baseia em um tipo de experiência que muitos no movimento regenerativo já sofreram. Muito embora a maioria das abordagens regenerativas tenham sido concebidas à partir de um espaço de amor e entendimento profundo dos princípios e processos da natureza e muito embora a maioria das pessoas envolvidas na área sejam bem intencionadas, existe muita dissonância entre a ética, princípios e diretivas declarados nessas abordagens e o que alguns líderes e praticantes aplicam em suas vidas pessoais e profissionais.

Essa dissonância causa muitos danos, especialmente para os que procuram um sentimento de pertença à uma comunidade que representa uma vida e uma profissão mais gratificante e significativa nesse mundo. A maioria das pessoas se envolve com a agricultura regenerativa exatamente por que a ética e princípios declarados reverberam com elas e com a busca pela construção de um melhor e mais justo. Mas rapidamente nos deparamos com um educador ou praticante da permacultura com muito pouco “cuidado com as pessoas”, ou com especialistas da agricultura regenerativa que praticam ‘reserva de mercado’, sabotagem e outros comportamentos mafiosos ao invés de criar abundância por meio da cooperação e de uma atitude ‘open-source’.

De novo a desconexão é uma das causas principais. Egos inflados e leões-de-chácara nessas áreas normalmente tem seu senso de conexão interior e com a natureza quebrado. Geralmente também essas pessoas são movidas por insegurança. É tragicômico ouvir professores e praticantes falando do quão abundante o mundo pode ser, do quão generosa a natureza é enquanto agem como se o reconhecimento das pessoas por aquelas que fazem esse trabalho fosse uma moeda escassa demais para se compartilhar. Eu acredito que é essa dissonância entre o ensino da abundância ecológica e dos princípios regenerativos enquanto se pratica um tipo de economia social e emocional baseada na escassez que leva algumas pessoas a boicotar as oportunidades e carreiras das outras.

Será que eles pensam que os seus concorrentes são as pessoas montando fazendas regenerativas, dando aulas e ajudando outras pessoas por meio de consultorias em suas regiões? Nós não precisamos de leões-de-chácara dentro das abordagens regenerativas. Nós não precisamos de comportamento fundamentalista que leva alguns a competir pelas modalidades que mais se identificam. Nós não estamos competindo com nossos colegas. Nós estamos competindo com a ignorância, com um modelo de civilização que gera escassez planejada. Nós estamos competindo com a desconexão da natureza e das formas com as quais podemos produzir nosso alimento de maneira socialmente justa e ecologicamente segura.

Citando Lynn White, Massy explica em seu livro que “nossas idéias são parte do ecossistema que habitamos”. Daí a necessidade de construirmos eco-sistemas (e não ego-sistemas) nos quais a cultura regenerativa possa florecer. E para fazer isso precisamos de tantos produtores, designers e educadores regenerativos quanto for possível. E precisamos produzí-los rapidamente. É assim que vamos virar a mesa e partir de um sistema consumista e degradante para um regenerativo, abundante e cooperativo. Mas para isso precisamos de líderes e praticantes capazes de cumprir seu papel na sucessão do movimento regenerativo. Precisamos de líderes e praticantes que preparem o terreno de forma graciosa e de bom grado criando as condições ideais para que uma geração ainda melhor possa nos suceder.

A razão pela qual a agricultura industrial e as grandes corporações investem pesado em marketing, desinformação e pesquisas falsas é porque eles sabem o quão poderoso a intenção, as ideias, pequenas ações e um grupo de pessoas pode ser. Mas para o movimento regenerativo virar a mesa do sistema nós precisamos de uma abordagem integrativa para a educação e treinamento. Nós precisamos preparar e nutrir as próximas gerações para elas possam se tornar agentes de mudança, para que possam crescer seguros, íntegros de espírito e capazes de reconhecer seu lugar na natureza.

Em resumo, quaisquer que sejam as causas da dissonância entre a ética e princípios regenerativos e o que é praticado em nossas vidas pessoais e profissionais, uma coisa é certa: o movimento da agricultura regenerativa não florescerá nas mãos de leões-de-chácara operando ego-sistemas. Nós precisamos de produtores rurais, designers e educadores regenerativos que possam cumprir seu papel de pioneiros na sucessão ecológica do movimento para criar as futuras gerações que serão agentes de mudança em melhores condições do que tivemos.

Nota 1: Artigo inspirado nos livros de Charles Massy e Darren Doherty’s books, em comunicações pessoais com Darren Doherty, e no documentário “Quem se importa?”.

Nota 2:
Durante os meses de Maio, Junho e Julho estarei no Brasil com uma agenda de cursos de desenho ecológico, agrofloresta e pecuária regenerativa.

Imersão Agroflorestal na Fazenda Bella – entre os dia 1 d 15 de Junho estarei ministrando essa vivência com o Osmany Segall e o Sérgio Olaya.

A imersão é composta por dois cursos teóricos, duas vivências e duas visitas guiadas (ver link acima) equipando os participantes com o conhecimento e a prática necessários para desenhar, implementar e manejar sistemas agroflorestais. Durante a vivência os participantes terão a chance de desenhar consórcios, plantar, colher e ver a comercialização dos produtos.

Para mais detalhes sobre todos os cursos, datas e links para inscrição visite o link dos Cursos de Impacto Positivo 2019.

Tomada de Decisão Holística para produtores rurais e empreendedores socioambientais

A Tomada de Decisão Holística faz parte do Gerenciamento Holístico, uma plataforma de gestão de propriedades rurais criada pelo ecologista e ambientalista Zimbabuano Allan Savory. Três das áreas essenciais dessa plataforma são: a tomada de decisão, a gestão de recursos financeiros e o manejo holístico de pastagens. Embora tenha sido criada para a gestão de propriedades rurais, essa plataforma tem sido amplamente adotada pelos ‘negócios verdes’ ou pelo empreendedorismo socioambiental.

Além de conseguir, de fato, assegurar a restauração ambiental, a viabilidade econômica e a justiça social (o tripé da sustentabilidade como é conhecido em português), o objetivo do Gerenciamento Holístico é combater a desertificação que se dá pela degradação ambiental e assegurar a qualidade de vida das pessoas que vivem no campo.

Há poucos anos alguns permacultores, planejadores de propriedades rurais e consultores passaram a ensinar o módulo de Tomada de Decisão Holística como uma ferramenta de gestão, sem que necessariamente fosse preciso ensinar a abordagem como um todo. Essa ferramenta, de fato, é super importante para o produtor rural e para o empreendedor socioambiental e pode servir como plataforma de tomada de decisão e monitoramento para os que já usam outros tipos de desenho ecológico.

O Gerenciamento Holístico se baseia primordialmente em 4 insights:

1 – Uma perspectiva holística é essencial no gerenciamento. Se baseamos decisões de gestão em qualquer outra perspectiva, nós provavelmente teremos resultados diferentes dos planejados porque só o todo é real.

2 – Os ecossistemas podem ser classificados dentro de um contínuo que vai de não friável até muito friável de acordo com o quão bem a humidade é distribuída e a velocidade que a vegetação morta se decompõe. Nos extremos dessa escala os ecossistemas respondem de maneira diferente a influencias iguais. O descanso, por exemplo, restaura a paisagem em ecossistemas não friáveis, mas causa danos nas paisagens muito friáveis.

3 – Nos ecossistemas friáveis um número relativamente alto de grandes herbívoros em manada, mantidos concentrados e em constante movimento como esses animais se comportam naturalmente na presença de predadores que caçam em grupo, é vital para se manter a saúde das paisagens que pensávamos que eles destruíam.

4 – Em qualquer ecossistema o sobrepastoreio e a compactação pelo pisoteamento praticamente não tem relação com o número de animais. Ao contrário, tem relação com a quantidade de tempo que as plantas e o solo são expostos aos animais.

Savory, A. e Butterfield, J. (2000). Holistic Management: A New Framework for Decision Making. Island Press. EUA. (Tradução livre Eurico Vianna)

Como a natureza opera em todos, o primeiro passo para a tomada de decisão holística é definir um Contexto Holístico. O Contexto Holístico, por sua vez, é formado pelo Todo Sob Gerenciamento, a Declaração de Propósito, a Declaração de Qualidade de Vida e a Futura Base de Recursos.

O módulo de Tomada de Decisão Holística ensina os participantes a definir e refinar as prioridades do Todo Sob Gerenciamento. Ajuda encontrar problemas ou bloqueios. Melhora os pontos fracos e cria um sistema de avaliação que melhora o monitoramento e promove o sucesso. Em suma, a definição de um Contexto Holístico para a vida pessoal ou empreendimento torna possível tomar decisões que beneficiam todas as áreas e pessoas dentro do Todo definido.

Se você é produtor rural, empreendedor socioambiental ou gestor de ecovilas e quer aprender como definir seu Contexto Holístico para que as decisões tomadas garantam que a viabilidade econômica não comprometa a segurança ambiental e nem a qualidade de vida das pessoas envolvidas em seu projeto, a Tomada de Decisão Holística é a ferramenta que vai tornar isso possível.

O Impacto Animal como Ferramenta no Gerenciamento Holístico

No Gerenciamento Holístico aprendemos a usar os animais como ferramenta para atingirmos nossos objetivos. Nossos objetivos por sua vez, devem ser ecologicamente, socialmente e financeiramente viáveis. Resumidamente, o contexto da proprietária da fazenda onde as fotos foram feitas é: o lucro com o gado de corte, enquanto recupera as pastagens regenerando os ciclos minerais e de água, a vida no solo e aumenta a captação de luz solar pela vegetação (para conversão em produtos).

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