Extinção prevista, Extinção Ignorada

Grande parte dessas pessoas que negam o aquecimento global, não está interessada de verdade em mitigar o aquecimento global. O que elas querem é manter seus privilégios até o final, mesmo que isso acarrete a extinção de todos.

Tradução livre, Eurico Vianna, PhD.

O texto que segue é uma tradução livre de um artigo do Professor Eméritos da Universidade do Arizona, Dr. Guy C. McPherson em seu website no dia 17 de novembro de 2018. Suas áreas de pesquisa e ensino por décadas foram Recursos Naturais, Biologia Evolutiva e Ecologia. Desde 2009 quando Guy começou a anunciar que os resultados de suas pesquisas apontavam para um aquecimento global repentino com a subsequente extinção em massa da vida no planeta, ele passou a viver em um sítio e a dedicar seu tempo para difundir suas descobertas.

Guy, que é atacado no nível pessoal por alguns críticos, ainda não recebeu críticas consistentes sobre as fontes usadas, os dados e os resultados publicados. Ou seja, para alguns é mais fácil denigrir o mensageiro do que encarar a realidade da mensagem.

De fato vivemos em tempos estranhos. Enquanto alguns declaram “não acreditar” em aquecimento global, centenas de cientistas sérios ao redor do mundo já discutem a possibilidade de que ele seja repentino e devastador. Grande parte dessas pessoas que negam o aquecimento global, não está interessada de verdade  em mitigar o aquecimento global. O que elas querem é manter seus privilégios até o final, mesmo que isso acarrete a extinção de todos.

Esse é o exemplo do presidente estadunidense Donald Trump, que diz “não acreditar” em aquecimento global. Quando na verdade suas declarações são movidas por interesses financeiros. Sua administração acaba de tentar abafar o relatório sobre os perigosos impactos do aquecimento global para o seu país lançando o relatório durante a Black Friday (dia em que a maioria dos cidadãos estadunidenses vãs as compras para aproveitar os descontos da data). O relatório, assinado por mais de 300 cientistas e repleto de pesquisas revisadas por especialistas, diz que:

o aquecimento global gera novos riscos e exacerba vulnerabilidades existentes nas comunidades por todo os EUA, apresentando desafios crescentes para a saúde humana, segurança, qualidade de vida e crescimento econômico.

Já no Brasil, o atual governo ilegítimo de Michel Temer, que é suspeito de ter recebido propina da construtora Oderbrecht, mas que recebeu imunidade parlamentar, retirou a candidatura do país para sediar a COP-25 em 2019. O presidente eleito Bolsonaro, avisou durante campanha, em 2017, que em seu governo não haverá “nem um centímetro [de terra] para quilombola ou reserva indígena”. Ele também defende a exploração econômica de terras indígenas e avisou que vai limitar o poder de fiscalização do IBAMA e ICMBIO. Essas medidas já teriam grande impacto ambiental, por uma série de razões: a) é sabido que a preservação ambiental tem muito mais sucesso em terras indígenas e quilombolas, por conta do paradigma cultural vivido por essas comunidades; b) são exatamente essas comunidades que podem nos ensinar como viver mais harmoniosamente com Gaia, e não o contrário; c) é sabido que tanto o ICMBIO quanto o IBAMA, apesar de muita dedicação, não tem recursos humanos suficientes para monitorar a devastação criminosa que acontece por todo o pais.

Para piorar ainda mais a questão ambiental, o presidente eleito já anunciou a representante das empresas de agrotóxicos no congresso, Teresa Cristina, para o Ministério da Agricultura e o presidente da União Democrática Ruralista, Nabhan Garcia, para a secretaria de assuntos fundiários. Todo esse quadro absurdo, coloca o Brasil no liderança do retrocesso mundial sobre as questões ambientais e climáticas.

Tanto Trump, como Bolsonaro, são exemplos claros do tipo de ser humano que, para manter seus privilégios, são capazes de comprometer o futuro de todos no planeta.

Mas enquanto para alguns a notícia de que pode ser tarde demais para mitigar os impactos devastadores de um aquecimento global repentino, para outros como eu, a notícia só reforça a missão de viver na plenitude a conexão com a natureza e de criar santuários de sanidade mental e ecológica, mesmo que só sejam eternos enquanto durarem (para parafrasear Vinícius)

Extinção prevista, Extinção Ignorada

Por Dr. Guy McPherson (17/11/2018)

Quando ameaçadas com a própria extinção, grande parte das linhagens, humanas ou não, não fazem nada espcial para evitá-la.

~ George C. Williams

O cientista Americano da biologia evolutiva C. Williams morreu em setembro de 2010 aos 83 anos de idade. Eu duvido que ele soubesse que estamos enfrentando nossa própria extinção eminente. Quando Williams morreu eu já vinha soando o alarme nessa área há 3 anos. E eu não estava sozinho. Os avisos mencionados nesse curto artigo não foram os primeiros sobre as catástrofes climáticas que provavelmente resultarão da queima de combustíveis fósseis.

Pouco tempo usando sua ferramenta de busca favorita na internet o levará a encontrar George Perkins Marsh soando o alarme em 1847, ao importante artigo de jornal escrito por Svente Arrhenius em 1896, às versões mais jovens de Al Gore, Carl Sagan e James Hansen testemunhando diante do congresso estadunidense na década de 1980. Existem muitos mais, claro, mas todos ignorados por pouco dinheiro em alguns poucos bolsos.

A projeção do ritmo gradual das mudanças climáticas, baseada no modelo do PIMC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) já ultrapassa 10.000 vezes a resposta adaptativa (capacidade de adaptação genética) dos animais vertebrados. Mais próximos dos Homo sapiens, os mamíferos não conseguem evoluir rápido o suficiente para escapar a crise de extinção em massa já em andamento. Os humanos são mamíferos vertebrados.

Acreditar que nossa espécie pode evitar a própria extinção mesmo quando outros mamíferos vertebrados desaparecem é a clássica soberba humana envolta em um manto quente de mitos baseados em supremacia humana. A evidência aponta para o fato de que os humanos se juntarão a aniquilação de toda a vida no planeta, como relatado no jornal científico de 13 de novembro de 2018 (https://www.nature.com/articles/s41598-018-35068-1). Afinal, os seres humanos estão vivos, embora uns mais que outros. O catastrófico derretimento descontrolado das plantas nucleares do mundo seriam suficientes, mas não necessárias, para extinção a curto prazo da vida na Terra. “Só” o aquecimento global repentino é necessário para extinguir toda a vida no planeta.

Qual foi a resposta a esses avisos durante a História? A mudança de parâmetros. Ignorar a quantidade enorme de trabalhos científicos. Jogar a cautela pela janela. A mídia corporativa, os governos e a maioria dos climatologistas continuam a aderir à meta de 2°C proposta pelo economista William Nordhaus em 1977 : “Se houvesse um aumento das temperaturas globais que ultrapassasse a atual temperatura média em torno de 2°C ou 3°C, isso levaria o clima para fora das variações observadas nas últimas centenas de milhares de anos.”

Sabemos mais sobre climatologia hoje que sabíamos em 1977. E cientistas verdadeiros sabiam, mesmo naquela época, que economistas não deveriam ser tratados como cientistas. Não é de se admirar que Nordhaus tenha sido laureado com um Prêmio Nobel em Economia baseado em motivações políticas no começo do ano. Não me surpreenderia se ele tivesse sido laureado com o Nobel da Paz se juntando ao time de especialistas em genocídio Henry Kissinger e Barack Obama.

Atualmente o planeta está 1.73°C acima do parâmetro estabelecido em 1750 no começo da Revolução Industrial. De acordo com um artigo científico publicado por James Hansen e colegas na Earth System Dynamics, essa temperatura média global é a mais alta desde o surgimento do Homo sapiens. Em outras palavras, nossa espécie nunca viveu em um planeta mais quente do que o que agora vive a atual crise de refugiados causada pelo desaparecimento do habitat para humanos. E nós nem chegamos ao limite de 2°C (sic) estipulado por Nordhaus. A resposta da abordagem convencional à crise, que se acelera cada vez mais e é conhecida como aquecimento global repentino é mudar os parâmetros do que é aceitável. Ao invés de admitir que o planeta está quase 2°C acima dos parâmetros de 1950, governos e muitos cientistas determinaram que o parâmetro na realidade é 1981-2010 ou mais. Aderir ao Princípio da Precaução obviamente está fora de moda.

Por décadas nós sabemos que a meta de 2°C , gravada em pedra por Nordhaus, é perigosa. De acordo com o chefe do Instituto Americano de Petróleo, nós já estávamos atrasados para lidar com gases de efeito estufa em 1965. Ao final de junho de 1989, Noel Brown, o diretor do Programa do Meio Ambiente das Nações Unidas em Nova York, disse que teríamos apenas até o ano 2000 para evitarmos um aquecimento global catastrófico. Cerca de 16 meses depois do aviso de Brown, em outubro de 1990, o Conselho das Nações Unidas para Gases de Efeito Estufa determinou o aumento máximo absoluto (da temperatura média do planeta) em 1°C. Em outubro de 2014 o climatólogo e autor David Spratt disse que 0.5°C seria o limite máximo (https://vimeo.com/63614114).

Provavelmente já era tarde demais para reverter o aquecimento global repentino e irreversível em 1977 quando Nordhaus compartilhou sua opnião genocida. Já era certamente tarde demais em 1989. E deixando de lado as palavras de conforto, nós não fizemos nada para prevenir nossa extinção desde que os avisos, perto ou longe, começaram a aparecer.

Em outubro de 2018 o PIMC da ONU indicou que temos até 2030 para evitarmos que as temperaturas médias globais aumentem 1.5°C acima dos parâmetros que não param de ser flexibilizados. Sim, é isso mesmo. A ONU está recomendando uma temperatura média bem abaixo da temperatura atual como ‘alvo’. Mas fica pior, claro. O Secretário Geral da ONU António Guterres diz que temos até 2020 para virar o jogo. Até agora a única forma pela qual nós humanos podemos mudar as temperatura média global, para cima ou para baixo, é a redução da atividade industrial, o que alivia o efeito da camada de aerossóis e, portanto, leva rapidamente a temperatura média global a níveis ainda mais altos. Mas se estamos interessados em manter o habitat para vertebrados e mamíferos no planeta, essa não é a direção que queremos que a temperatura tome. A perda da camada de aerossóis significa a perda de habitat para os humanos e a nossa extinção em seguida.

O cenário fica inimaginavelmente pior a cada dia, claro. As últimas informações publicadas em jornais científicos finalmente concordou comigo concluindo que a sexta maior extinção em massa (o Antropoceno) pode aniquilar toda vida na Terra (https://www.sbs.com.au/news/climate-change-may-cause-mass-extinctions-new-report-shows). Um artigo científico publicado na Science Reports chega nessa conclusão baseado no ritmo das mudanças ambientais, o que consiste com minhas próprias conclusões. Como uma pessoa que ama a vida, minha satisfação com uma das fontes mais conservadoras é assoberbada pela tristeza da perda.

Colocando de forma simples, nosso destino como espécie está fadado. Nós estamos indo rumo a extinção rápida, mesmo tendo sido avisados por mais 150 anos. É um conto trágico. E como foi dito pelo cientista da biologia evolutiva George C. Williams, nossa espécie mal fez um gemido quando o martelo bateu.

O agro esconde, o agro mente, o agro mata!

A questão do uso dos agrotóxicos no Brasil não é polêmica, é econômica e gira na casa dos bilhões  de Reais. A relativização e o questionamento dos estudos científicos que apontam o impacto negativo do agronegócio no meio ambiente e na saúde, fazem parte de uma estratégia de marketing chamada ‘controle de danos’.

O “controle de danos” visa mitigar danos causados à credibilidade, reputação ou imagem pública de uma empresa causados por uma ação ou declaração duvidosa ou má fé no exercício de suas funções. E é exatamente isso que tem acontecido com o agronegócio no Brasil e no mundo. Novas pesquisas interdisciplinares tem revelado o impacto negativo do modelo de produção agricultural e pecuarista do agronegócio tanto para o meio ambiente, como para a saúde pública. Consequentemente o agronegócio tem produzido vídeos, artigos e memes, que tem circulado a internet e as mídias sociais, relativizando seu impacto ambiental negativo e a gravidade da intoxicação direta e indireta causada pelo uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos nas lavouras e pecuária.

Umas das propriedades de P.A. Yeomans, projetadas com a Escala de Permanência da Linha Chave. O manejo da água nessas propriedades garante resiliência contra secas e queimadas e água para produção de alimentos durante todo ano.

Pesquisadores da agroecologia como Pablo Titoonell, Stephen R. GliessmannMiguel Altieri e abordagens do desenho regenerativo como a permacultura, a Escala de Permanência da Linha Chave e o Gerenciamento Holístico tem mostrado que é possível produzir mais alimentos sem o uso de herbicidas, pesticidas e fertilizantes químicos. Essas áreas de pesquisa, desenho e movimentos sociais vão além, eles mostram que o modelo de produção da agricultura familiar produz alimentos mais nutritivos, geram mais empregos, trazem soberania alimentar e qualidade de vida para os envolvidos e conseguem fazer tudo isso regenerando os ecossistemas nos quais se baseiam.

Para termos uma ideia, o agronegócio produz apenas 30% do alimento para população mundial usando de 70 a 80% das terras aráveis, 70% da água e 80% dos combustíveis fósseis. A agricultura familiar, por outro lado, produz de 50 a 75% do alimento da população mundial usando apenas de 25 a 30% das terras aráveis, 30% da água e 20% dos combustíveis fósseis usados em toda a agricultura (Altieri, 2015; Tittonell, 2014). Em muitos casos a agricultura familiar chega a ser 20 vezes mais energeticamente eficiente do que o agronegócio. Além de de produzir Alguns pequenos produtores rurais grãos, tubérculos, frutas, castanhas, etc. o pequeno produtor rural ainda consegue fornecer proteína animal suficiente para alimentar 34 pessoas por ano por hectare (Altieri, 2015). Para uma comparação mais detalhada entre o agronegócio e a agricultura familiar veja o artigo Os Pequenos Produtores Rurais Contra o Agronegócio.

Antes (1963) e depois (2003) de uma propriedade manejada dentro dos preceitos do Gerenciamento Holístico no México.

Todos esses dados e pesquisas mostram que o modelo de produção do agronegócio está definivamente ultrapassado do ponto de vista social e ambiental. Resta a questão econômica. Segundo estimativas da CNA (Conferação deAgricultura e Pecuária no Brasil) a agricultura e o agronegócio contribuíram com 23.5% dos R$6,6 trilhões do PIB (Produto Interno Bruto) do país em 2017. Todo esse lucro não leva em conta as chamadas externalidades, ou seja, os custos da devastação ambiental, do êxodo rural e dos problemas de saúde causados pelo uso dos agrotóxicos. A distribuição dessa renda no Brasil e o que vai para o estrangeiro também é outro fato que sempre fica fora das estatísticas apresentadas; outra tática de marketing de comunicação dessas corporações.

Tendo em vista que todo esse conhecimento trás uma péssima reputação para o agronegócio, as estratégias de “controle de danos” pela indústria, pelos setores simpatizantes do governo e pelos acadêmicos ‘colonizados’ são as de sempre. Primeiro, ignorar os dados e pesquisas contrários ao agronegócio enquanto for possível. Depois ridicularizar e descrever as pesquisas e os meios de produção alternativos de forma imprecisa, conduzir pesquisas e comparações falsas para, finalmente, desacreditar as alternativas (Mulligan, M. e  Hill, S. em Ecological pioneers: A social history of Australian ecological thought and action. 2001).

Meme do MBL com informações e comparações fora de contexto e fontes imprecisas. Exemplo clássico de marketing a favor das grandes corporações.

Grande parte do material de marketing e propaganda do agronegócio que tem vindo à tona usa meias verdades, linguagem científica e até mesmo cita publicações que não foram revisadas por especialistas ou que tiveram times inteiros de pesquisadores comprados como forma de “controle de dano”. Também é muito comum a técnica de “enquadramento” de editorial da mídia corporativa. Um exemplo clássico é um dos vídeos que tem circulado a internet onde uma apresentadora com ares de jornalista imparcial faz comparações da área usada para a agricultura industrial no Brasil e em outros países. As comparações, assim como a linguagem do vídeo, leva a audiência a pensar que em relação a outros países o Brasil deveria estar usando ainda mais área para desenvolver o agronegócio. De maneira sutil o enquadramento muda, tira de questão os malefícios desse modo de produção e faz a audiência pensar que o Brasil está atrasado em relação a outros países industrializados. Na verdade, o que está em questão é que toda a abordagem da agricultura e pecuária industrial está ultrapassada em qualquer lugar. Em todos os países onde é utilizada ela degrada o meio ambiente e a saúde das pessoas.

Um meme usando fatos verdadeiros, porém fora de contexto, sobre a água para mostrar como as campanhas de “controle de danos” funcionam.

A mesma prática foi usada em um meme do MBL, movimento bancado pelos think-tanks da ultra-direita e por partidos neoliberais como o MDB e o PSDB. No meme 5 “fatos” sobre os alimentos orgânicos são apresentados. Nomes de organizações internacionais são usadas para validar os “fatos”, mas nenhuma delas é utilizada de forma que as informações possam ser verificadas. É uma estratégia de contra-inteligência do “controle de danos” que consiste em inundar os meios de comunicação com meias-verdades pintando como polêmico ou controverso um assunto que a ciência séria já comprovou, mas que os resultados não são favoráveis para as corporações.

O documentário O Mundo Segundo a Monsanto, da cineasta francesa Marie-Monique Robin já denunciava as práticas de “controle de danos”, marketing e coação dessa gigante do agronegócio desde 2008. Mais recentemente outros documentos e mensagens eletrônicas da empresa vieram à público revelando a empresa já sabia que seu principal produto químico, o glifosato, é altamente cancerígeno. Essas práticas, no entanto, são largamente praticadas entre as corporações multinacionais do agronegócio.

A cerca da gravidade dos problemas trazidos trazidos pelo agronegócio, a ONU já emitiu um relatório dizendo que precisamos entregar a produção de alimentos para os pequenos produtores antes que seja tarde demais.

Os resultados do relatório em muitos aspectos parecem repetir os resultados do relatório emitido pelas Nações Unidas em 2010 (link para relatório original em inglês). O relatório anterior basicamente informava que a melhor maneira para ‘alimentarmos a população mundial’ é produção orgânica de pequena escala e não a monocultura e o uso OGM.

De acordo com o novo relatório das Nações Unidas precisamos de mudanças drásticas em nossa alimentação, agricultura e comércio. E essas mudanças devem ser em direção aos pequenos produtores rurais e a um sistema de abastecimento alimentar local.

Precisamos, portanto, usar de muito pensamento crítico ao assistir vídeos ou ler artigos que defendam o agronegócio, os alimentos geneticamente modificados e o uso de herbicidas, pesticidas e fertilizantes químicos. De um modo geral, ao analizarmos notícias, artigos e vídeos que defendam o agronegócio, devemos pensar e buscar fontes confiáveis para sabermos se é ecologicamente seguro, se é socialmente justo (e aqui se inclui as questões de saúde) e, por fim, se o lucro gerado é bem distribuido e fortalece a economia das regiões onde se dá a produção.

Abaixo eu contextualizo algumas áreas severamente impactadas pelo agronegócio e suas práticas e compartilho ainda mais fontes de pesquisas que comprovam o quão nocivo esses produtos podem ser para a saúde dos humanos e do planeta.

Impacto na saúde

Nós últimos anos várias pesquisas de mestrado, doutorado, livros e artigos científicos foram publicadas e revisadas por especialistas, revelando a ligação de alimentos geneticamente modificados, herbicidas, pesticidas e fertilizantes químicos com doenças como câncer, Alzheimer, Parkinson, asma e diabetes. No Brasil, os documentários O Veneno Está na Mesa (2011) e O Veneno Está na Mesa 2 (2014) de Sílvio Tendler, o livro Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Européia (2017), de Larissa Bombardi e movimentos como a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida são boas referências para reflexão e comparação com os materiais publicados pelo agronegócio e mídia corporativa porque citam fontes sérias e trabalhos que foram revisados por especialistas ou avaliados por bancas. São essas referências que revelam por meio de pesquisas sérias que o Brasil está entre os maiores usuários de agrotóxicos no mundo.

A exposição da população brasileira a esses venenos é gravíssima. Segundo Alan Tygel, da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, o brasileiro médio consome 5.2 litros de veneno por ano em sua comida. O agronegócio no Brasil faz uso de 504 agrotóxicos, dos quais 30% são proibidos na União Européia. Desde 2008 o Brasil é pais que mais usa agrotóxicos no mundo. O uso do glifosato, agrotóxico comprovadamente cancerígeno, no Brasil varia entre 5 e 9 kg por hectare, enquanto na União Europeia é limitado a 2kg por hectare. Outro problema grave é que o uso desses agentes químicos acaba contaminando os lençóis freáticos e por conseguinte a população por meio da água potável. Enquanto na União Europeia a quantidade máxima do herbicida glifosato que pode ser encontrada na água é de 0,1 miligramas por litro, o Brasil permite 5 mil vezes mais.

O trabalho da Larissa Bombardi revela que 8 brasileiros são contaminados por dia, segundo dados oficiais conservadores. Uma pesquisa da Fiocruz, no entanto, estima que para cada caso notificado, 50 casos não são notificados. Isso implica que entre 2007 e 2014, mais de um milhão de brasileiros foram intoxicados por agrotóxicos. Desde 2015 o governo deixou de publicar os casos de intoxicação por agrotóxicos, o que dificulta estudar os casos de intoxicação direta ou indireta por esses agentes químicos.

Sobre a questão do impacto dos alimentos transgênicos em nossa saúde, o livro Roleta Genética, de Jeffrey Smith publicado em 2009, ainda é uma das melhores referências. Nele, Smith revela documentos com informações pouco – ou não divulgadas – sobre testes de segurança de alimentos transgênicos que mostram claramente que não podemos confiar nessas grandes corporações para produzir nosso alimento.

Perda da Biodiversidade

A questão da perda da biodiversidade pelo uso de sementes transgênicas e pelo cartel criado pelas grandes multinacionais do agronegócio traz riscos enormes à segurança alimentar para a população de todo o planeta. John Tomanio produziu um infográfico para a National Geographic mostrando que entre 1903 e 1983 a industrialização da agricultura nos Estados Unidos causou uma perda de 93% das variedades de sementes. A tendência em todos os lugares onde a agricultura é industrializada é a mesma; de perda de biodiversidade e consequentemente da segurança alimentar. O aumento da temperatura média do planeta e os eventos climáticos extremos como enchentes, enxurradas, secas e ciclones agravam ainda mais essa questão da segurança alimentar uma vez que as monoculturas industrializadas são muito pouco resistentes a essas variações.

A perda da biodiversidade pelo modelo de produção do agronegócio, entretanto, vai além da questão do monopólio das sementes. O uso de pesticidas na agricultura e nas lavouras geneticamente modificadas tem causado a morte em massa de abelhas e outros polinizadores. O avanço do desmatamento tanto da Amazônia e do Cerrado brasileiros, dois dos biomas mais biodiversos do planeta, também é causado em grande parte pelo agronegócio. O desmatamento, por sua vez, traz a extinção de várias espécies que perdem seu habitat natural.

Esgotamento de Recursos

Como mencionei acima, o agronegócio usa de 70 a 80% das terras aráveis, 70% da água e 80% dos combustíveis fósseis usados na agricultura para produzir apenas 30% do alimento (Altieri, 2015).

A produção e distribuição de alimentos industrializados (o agronegócio) é totalmente dependente do petróleo. São os combustíveis fósseis que abastecem os tratores que aram, plantam e colhem os cultivos. Os adubos químicos, pesticidas e herbicidas são todos derivados de petróleo. E também são os combustíveis fósseis que mantém os padrões de mobilidade global (o trânsito internacional de produtos e pessoas). Agravando ainda mais a situação, segundo dados da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), a erosão causada pelo agronegócio chega a perder até 20 toneladas de solo por ano para produzir 500 quilos de alimento por pessoa. E segundo dados da ONU, até 2025 em torno de 50% da população mundial será impactada pela escassez de água.

Esse é outro grande problema do modelo industrial de agricultura e pecuária, ele esgota os próprios recursos que precisa no decorrer de sua produção se tornando cada mais caro e inviável.

Quando a bolha econômica da indústria dos combustíveis fósseis estourar vai ser muito maior que a crise financeira de 2008

 

A indústria dos combustíveis fósseis traz uma quantidade de dinheiro desconcertante para vários países ao redor do mundo, mas isso não quer dizer que ela durará para sempre. Um novo e importante estudo prevê que a demanda global por combustíveis fósseis vai despencar em um futuro próximo causando uma “bolha de carbono” 16 vezes maior do que a que causou a crise financeira de 2008.

Nota: Nas últimas semanas eu venho compartilhando artigos sobre sobre como a greve dos caminhoneiros está relacionada com a crise financeira, o pico do petróleo e o aquecimento global. Para a maioria das pessoas, esses assuntos são desagradáveis porque indicam uma sociedade em colapso e esclarecem que a narrativa linear de crescimento constante criada durante o frenezi energético da era industrial não é possível. Nesse momento, mesmo as pessoas que costumam fazer uso da ciência para nortear suas decisões e senso crítico, apelam para o tecno-fix; aquela crença, sem evidencias, de que de alguma forma os avanços tecnológicos nos permitirão resolver ao mesmo tempo o problema da dependência do petróleo e do impacto ambiental causado pelo nosso estilo de vida. As razões pelas quais o tecno-fix é visto como ‘crença’ por vários cientistas foram explicadas nesse artigo do Dr. Ted Trainer. Em outro artigo que traduzi do Dr. Trainer, ele também explica, por meio de uma auditoria energética, porque não é possível manter a sociedade de consumo, menos ainda seu crescimento, substituindo os combustíveis fósseis pelas energias renováveis.

Embora o artigo que segue não se alinhe completamente com o pensamento do Dr. Trainer, ele corrobora as premissas que apresentei no artigo Os Caminhoneiros, a Dívida Pública e o Aquecimento Global. A linha de raciocínio que adotei lá e que se confirma aqui, mostra que os combustíveis fósseis são hoje o último lastro material/real da moeda fiduciária contra o qual toda a economia de especulação financeira tem se baseado; que por sua vez por conta do Pico do Petróleo e da subsequente queda nas margens de lucro, está para quebrar.

Se prepare para catástrofe financeira global.

(Artigo de Carly Cassella e tradução livre de Eurico Vianna)

A indústria dos combustíveis fósseis traz uma quantidade de dinheiro desconcertante para vários países ao redor do mundo, mas isso não quer dizer que ela durará para sempre.

Um novo e importante estudo prevê que a demanda global por combustíveis fósseis vai despencar em um futuro próximo causando uma “bolha de carbono” 16 vezes maior do que a que causou a crise financeira de 2008.

A pesquisa revela que a transição global para uma realidade que se distancia dos combustíveis fósseis provavelmente é inevitável mesmo que os países mais ricos não adotem políticas que promovam as energias renováveis.

O estudo é um tapa de luva de pelica na cara líderes como o presidente Trump que promete resgatar a indústria decadente do carvão mineral em detrimento das energias renováveis.

“Nossa análise indica que ao contrário das expectativas dos investidores, o encalhe dos espólios da indústria do petróleo podem vir a acontecer mesmo sem as políticas climáticas” diz o coautor e chefe do departamente de Políticas do Direito Ambiental da Universidade de Cambridge, Jorge Viñuales.

“Isso indica que uma ‘bolha de carbno’ está se formando e é provável que estoure”.

A indústria dos combustíveis fósseis vale tanto que para a maioria das pessoas chega a ser quase impossível compreender.

Existem hoje quase 1.500 empresas de petróleo e gás listados no mercado de ações pelo mundo. Juntas essas empresas valem a soma grintante de U$4.65 trilhões. Só Exxon Mobil vale U$425 bilhões.

Usando simulações detalhadas baseadas no histórico econômico e nos dados ambientais um time internacional de pesquisadores mostrou o q  ue pode acontecer se esse tapete financeiro for puxado debaixo dos nossos pés.

A pesquisa revela que se continuarmos na trajetória atual, a indústria dos combustíveis fósseis será forçada a abandonar vastas reservas de combustíveis fósseis em algum momento antes do ano de 2035.

No geral isso implica um prejuízo entre U$1 e U$4 trilhões só em ativos de combustíveis fósseis, que por sua vez disparariam um prejuízo de U$0.25 trilhões.

Viñuales diz que “individualmente as nações não podem evitar a situação ignorando o Acordo de Paris ou enterrando suas cabeças nas areias betuminosas ou carvão mineral”.

“Por muito tempo a política climática global tem sido um jogo do ‘dilema dos prisioneiros’, onde algumas nações podem se dar ao luxo de não fazer nada enquanto pegam carona nos esforços de outras [nações]. Os resultados de nossa pesquisa mostram que isso não é possível mais”.

Os resultados da pesquisa deveriam disparar os alarmes para os grandes exportadores de carbono como os EUA, a Rússia e o Canadá. Os pesquisadores já avisaram que se esses países continuarem a inflar suas indústrias de combustíveis fósseis enquanto negligenciam as alternativas ‘verdes’, eles sofrerão prejuízos financeiros severos no futuro.

Esses resultados vem um ano após a administração do presidente Trump anunciar sua decisão de retirar os EUA do acordo de Paris, que procura conter as emissões de gases de efeito estufa para manter o aquecimento global abaixo de 2°C.

Esse mês o presidente Trump anunciou que sua administração tomará medidas para recuperar as decadentes usinas nucleares e de carvão mineral estadunidenses.

Entretanto, as políticas do presidente Trump não são uma novidade. Ainda hoje os EUA continuam a subsidiar, com U$27 bilhões, a produção e consumo de combustíveis fósseis todo ano. São os maiores subsídios entre todos os países industrializados de acordo com relatório recente do NRDC – Conselho Nacional da Defesa dos Recursos.

Mas se os EUA não começarem a reduzir os investimentos em combustíveis fósseis e rapidamente, os custos financeiros serão drásticos. O estudo sugere que se a demanda por combustíveis fósseis cair e as metas do Acordo de Paris alcançadas, um prejuízo inicial de U$4 trilhões em ativos dessa indústria serão perdidos completamente.

O déficit não será nada menos que uma catástrofe financeira que causará o desemprego em massa e tumulto político. A preocupação dos autores do estudo é de que o tumulto político subsequente gerem políticas ainda mais populistas – o que já tem acontecido nos EUA, Inglaterra e Europa.

“Se realmente queremos desarmar essa bomba-relógio na economia global, nós precisamos agir rápida, mas cautelosamente” disse o coautor Hector Pollitt da cadeira de Econometria da Universidade de Cambridge.

“A bolha de carbono precisa ser esvaziada antes que fique muito grande, mas os avanços precisam ser gerenciados cautelosamente”.

Os pesquisadores acreditam que caso a bolha estoure de fato a China será o país que mais se beneficiará.

“A China já é líder mundial em tecnologias de energias renováveis e já fazem uso delas dentro do país para mitigar os perigosos níveis de poluição” disse Viñuales.

“Além disso, o encalhe poderia cobrar um pedágio ainda maior para alguns dos principais competidores geopolíticos. A China tem razões fortes para promover a implementação de políticas climáticas”.

A pesquisa sugere que se os EUA não começarem a cortar os investimentos em combustíveis fósseis a China liderará o caminho nos mercados de energia futuros.

A pesquisa foi publicada na Nature Climate Change.

As Energias Renováveis não são a solução para a sociedade de consumo

O Dr. Ted Trainer detalha a ordem energética da sociedade de consumo colocando em perspectiva a demanda de cada pessoa por eletricidade e combustíveis líquidos. Construindo um panorama por meio de uma ‘auditoria energética’ ele compartilha evidências e argumentos que apontam para a total inviabilidade de continuarmos apostando na sociedade de consumo como modelo civilizatório para todos os habitantes do planeta.

O panorama energético compartilhado por Trainer explica porque as energias renováveis não são a solução para a sociedade de consumo e porque o Brasil não deveria estar abrindo mão desses recursos de modo algum. Enquanto o governo estadunidense e suas corporações precisam criar guerras e justificar conflitos no Oriente médio demonizando outras culturas para assegurar seu suprimento de petróleo (que por sua vez é a base dos padrões de vida de sua população), no Brasil bastou usar a rede de espionagem e apoiar um governo ilegítimo e corrupto para fazer o mesmo. Na semana passada (Junho de 2018) os direitos de exploração de mais 3 lotes das reservas do Pré-sal foram leiloados a preços módicos para corporações estadunidenses e uma estatal Norueguesa.

O texto que segue é do Dr. Ted Trainer autor nas áreas das ciências sociais, educação e limites do crescimento. A teoria de mudança social proposta por ele é conhecida como “O Caminho Mais Simples” (em inglês The Simpler Way). Ela se se baseia em um conjunto de ideologias e diretrizes que, em grande parte, já existem e foram discutidas no artigo anterior explicando porque os avanços tecnológicos e as energias renováveis não resolverão os problemas da sociedade de consumo e desconstruindo a crença no tecno-fix.

O texto original foi publicado em inglês em 2007 e pode ser acessado nesse link. A tradução livre é minha e foi feita em Junho de 2018.

As Energias Renováveis não são a solução para a sociedade de consumo

Por Ted Trainer 

De repente os problemas relacionados ao aquecimento global e a matriz energética viraram manchetes e todos sabemos que medidas drásticas serão necessárias. Mas quais são essas medidas? Bem, basta fazermos uso de tecnologias que não nos tragam esses problemas… e que não ameacem a economia, é claro.

É difícil encontrar uma suposição tão ‘não questionada’ e óbvia como essa de que será possível substituir a energia dos combustíveis fósseis pelas renováveis enquanto a sociedade capitalista continua sua busca feliz por riquezas e crescimento sem limites. Existem evidências muito fortes de que essa suposição está redondamente enganada. O texto que segue é um resumo do meu livro Energias Renováveis não podem manter a sociedade de consumo (Trainer, 2007).

Os limites das energias renováveis tem sido quase que totalmente ignorados como objeto de estudo, mesmo e talvez especialmente dentro do campo das energias renováveis. Nessa área existem forças ideológicas muito fortes. Ninguém quer, nem se quer, pensar na possibilidade de que essas fontes não sejam capazes de sustentar os parâmetros de estilo de vida que exigem cada vez mais riquezas ou o crescimento econômico sem limites.

É necessário dividir a discussão sobre as energias renováveis em duas partes: uma sobre a energia elétrica e outra sobre os combustíveis líquidos. Os combustíveis líquidos são o maior problema.

Eletricidade

Várias fontes energéticas poderiam contribuir para a produção de eletricidade de maneira renovável, mas as 3 principais são a eólica, solar fotovoltaica e solar térmica.

Energia Eólica

Um estudo dos mapas de ventos indica que a quantidade de energia eólica anual disponível pode ser consideravelmente maior que a demanda. A pergunta importante, no entanto, é qual a fração dessa energia pode ser coletada dado o problema da variabilidade, ou seja, o fato de que frequentemente temos poucos ou nenhum vento. Por essa razão costumávamos pressupor no passado que até 25% da demanda energética poderia ser fornecida pela energia eólica. Entretanto, tanto os alemães com muito mais moinhos de vento que qualquer outro país como os Dinamarqueses com a melhor relação de produção eólica e consumo de eletricidade só atingiram 5% da produção dessa forma e tiveram problemas para integrá-la às suas redes. (A produção da Dinamarca chega a c.18% mas grande parte da energia produzida não é usada localmente e acaba sendo exportada)

Um moinho bem localizado pode gerar até 33% da sua capacidade máxima ao longo do tempo, mas essa estimativa não deve ser tomada como provável para o sistema eólico como um todo. Sharman relada que mesmo na Dinamarca, em 2003, a média de produção do sistema eólico funcionou a apenas 17% de sua capacidade máxima e por meses funcionou a apenas 5% (Sharman, 2005). O relatório da E.ON Netz [empresa privada alemã dona da maior provedora de energia elétrica – https://pt.wikipedia.org/wiki/E.ON ] confirma que a Alemanha, o país com o maior número de moinhos de vento, produziu apenas 16% de sua capacidade máxima e em torno de apenas 5% por vários meses do ano de 2003.

Outro problema significativo em um sistema largamente abastecido por energia eólica é que às vezes não há vento algum. Isso significa que a capacidade do sistema de emergência deve ser a mesma do sistema eólico, mas vir de outras fontes. A E.ON Netz confirmou esse problema em relação à experiência alemã. Por essa razão, se construirmos muitos sistemas eólicos, precisaremos construir a mesma quantidade de estações a gás, carvão mineral ou nucleares para usar nos momentos em que não há vento. Isso significa que energias renováveis tendem a ser ‘alternativas’ e não ‘acumulativas’. Talvez precisemos construir dois ou mesmo quatro sistemas separados (eólico, fotovoltaico, termo-solar e carvão mineral/nuclear) cada um com a capacidade de suprir grande parte ou toda a demanda energética em um dado momento enquanto os outros ficam sem uso no mesmo período. Obviamente isso seria muito caro.

Além disso, os sistemas de distribuição teriam que ser reforçados e ampliados, especialmente para dar conta da tarefa de enviar grandes quantidades de energia à partir das localidades onde os ventos ocorram um dado momento. Estações nucleares ou de carvão mineral centralizadas não tem esse problema. Todos esses custos precisam ser levados em consideração para termos uma ideia dos custos reais dos sistemas de energia renovávies.

Davey e Coppin (2003) fizeram um estudo importante sobre como seria a situação se um sistema eólico instalado ao longo de 1.500 km da costa Sudeste da Austrália agregasse a produção energética do país. Coppin aponta que, em geral, essa região do país tem mais potencial eólico do que a Europa. Ligar os moinhos em todas as partes dessa região reduziria a variabilidade do suprimento energético consideravelmente, mas essa variabilidade ainda seria grande. Calmarias de vento poderiam afetar toda a região por dias seguidos. Minha interpretação da Figura n.3 é de que o sistema agregado estaria gerando energia abaixo de 26% de sua capacidade durante 30% do tempo e que por 20% do tempo estaria funcionando abaixo de 20% de sua capacidade. E obviamente um sistema eólico grande teria que ser apoiado por outro sistema igualmente grande e confiável que possa substituí-lo gerando enormes quantidades de energia (o que excederia os limites seguros de emissão de gases de efeito estufa).

E o armazenamento de eletricidade?

Se a eletricidade pudesse ser armazenada em grandes quantidades poderíamos resolver os problemas de variabilidade e integração. Isso não pode ser realizado e não há previsões para soluções satisfatórias. A melhor opção é usar eletricidade para bombear água para represas para posteriormente gerar eletricidade à partir delas. Essa solução funciona muito bem, mas a capacidade é muito limitada. A capacidade mundial de produção de energia em hidroelétricas é de 7 a 10% da demanda total, de modo que frequentemente a produção não alcançaria o suprimento necessário.

Eletricidade produzida com painéis fotovoltaicos.

O grande problema com a produção fotovoltaica é que ela também é uma fonte intermitente. Sem a capacidade de armazenamento em escalas enormes, a contribuição de energia fotovoltaica para um sistema totalmente renovável de produção energética é limitada. Não importa o quão barato os fotovoltaicos se tornem, por volta de 16 horas por dia, ou mesmo em dias muito nublados, eles não podem suprir energia alguma. Muito embora seja caro, o fato de poder retornar o excedente produzido nos telhados para um sistema movido à carvão mineral enquanto usa esse sistema à noite, é uma opção. Mas essa solução só funciona se as usinas à carvão mineral e nucleares funcionassem o tempo todo como enormes ‘baterias’ para as quais os painéis solares possam enviar o excedente.

Eletricidade termoelétrica

Além da energia eólica, a segunda melhor opção em termos de energia renovável para Europa seriam plantas de termo-solares no Deserto do Saara. Essa solução impõe perdas significativas durante a transmissão, mas tem a vantagem de armazenar energia em forma de calor para gerar e transmitir energia quando necessário. Entretanto a magnitude do potencial não é certa e bastante questionável durante o inverno. Os canais de energia termoelétrica não funcionam bem em regiões com baixos índices de incidência solar. Mesmo nas melhores regiões a produção de inverno é apenas 20% da produção durante o verão. E os índices de incidência solar no Saara durante o inverno não impressionam, talvez seja em torno de 6kWh/m/d na região da Líbia e do Egito e na faixa ao longo do mediterrâneo. No inverno as parabólicas solares funcionam melhor que os canais, mas elas são mais caras e porque precisam acompanhar o movimento solar dificultam a canalização do calor por meio de juntas flexíveis para um gerador ou central de armazenamento. Essas parabólicas estão sendo desenvolvidas com motores geradores Stirling embutidos, ou seja, a energia em forma de calor não pode ser armazenada para gerar eletricidade quando necessário. Torres ou sistemas centrais podem armazenar energia, mas assim como os canais temoelétricos eles sua performance reduzida durante o inverno. É provável que sistemas termoelétricos sejam instalados apenas nas regiões mais quentes e tenham que suprir centros de demanda enormes por meio de longas linhas de transmissão não podendo, dessa forma, contribuir muito no inverno.

E se complementarmos os sistemas com combustíveis fósseis?

Poderíamos complementar as falhas energéticas das produções eólicas, fotovoltaicas e termoelétricas nos casos em que estas não conseguem produzir o montante necessário evitando os riscos de emissão de gases de efeito estufa? Infelizmente essas falhas são enormes. Os cenários de emissões do IPCC – Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas indicam que para mantermos a concentraçãoo de carbono na atmosfera em níveis seguros o uso de combustíveis fósseis per capita abaixo de 2 GT/A (gigatoneladas por ano). Para uma população estimada em 9 bilhões de pessoas, isso significa uma média em torno de 0.11 toneladas por ano por pessoa. Essa quantidade geraria em torno de 0.03 kW, em torno de 3% da eletricidade consumida per capita nos países desenvolvidos (Enting, I., Wigley, T., e Heimann, M.; 1994). 

Quais são as conclusões sobre a eletricidade?

As energias renováveis poderiam suprir uma fração considerável da demanda por eletricidade, talvez mais que 25% em alguns países, mas: a) grande parte da capacidade de produção teria que ser duplicada em usinas de nucleares ou de carvão mineral para os momentos quando não há luz solar ou ventos o suficiente; b) a quantidade de carvão mineral necessária excederia em muito os limites de emissão de gases de efeito estufa. 

O hidrogênio

Existem razões muito fortes pelas quais não é provável que tenhamos uma economia baseada no hidrogênio. Se a energia baseada em hidrogênio é gerada usando eletricidade perde-se 30% da energia no uso da eletricidade. Se o hidrogênio é comprimido, bombeado e armazenado para ser reutilizado as perdas energéticas em cada uma dessas etapas resultaram em um balanço energético onde somente 25% da energia gerada estará disponível para uso (por exemplo para mover as rodas de um carro movido a célula de combustível).

Combustíveis Líquidos

Os limites da esperança de conseguirmos suprir a demanda por combustíveis líquidos com fontes renováveis são muito mais claros do que os limites da demanda por eletricidade. Uma quantidade enorme do suprimento teria que vir de etanol produzido por meio de processamento de biomassa. A opinião atual de pesquisadores e agências é que no futuro será possível produzir em torno de 7 GJ de etanol com cada tonelada de biomassa (balanço energético de todos os custos de produção). As pessoas nos países desenvolvidos como a Austrália usam em torno de 128 GJ de combustíveis líquidos (incluindo o gás) por ano. De forma que para suprir essa demanda com etanol seriam necessárias 16.3 toneladas de biomassa por ano (Fulton, L.; 2004).

É provável que a produção em larga escala possa gerar 7 toneladas por hectare por ano. Isso significa que cada pessoa precisaria de 2.6 hectares de terras produtivas para prover a biomassa necessária para produzir a quantidade de combustível líquido e gás que usa (em um balanço energético feito com etanol e não quantidade de energia primária). Para suprir a demanda de uma população de mais de 9 bilhões de pessoas que nós provavelmente teremos por volta de 2060, precisaremos ter 24 bilhões de hectares comprometidos com a produção de biomassa.

Temos um pequeno problema aqui… porque a área total do planeta é de 13 bilhões de hectares e a soma das florestas, terras aráveis e pastos só chega a 8 bilhões de hectares. E essa área já está praticamente toda degradada. Dessa forma que você pode variar as premissas feitas acima como quiser, por exemplo, assumindo 15 toneladas de biomassa vinda de salgueiros por ano por hectare na Europa. Mas não há possibilidade de explicar como todas as pessoas no planeta poderiam viver com os níveis de consumo de combustíveis líquidos atuais dos países desenvolvidos com um suprimento de etanol vindo da produção de biomassa.

O absurdo do compromisso com o crescimento

Todas as referências acima abordam a dificuldade ou impossibilidade de resolvermos a demanda energética atual com fontes renováveis. Esse não é o foco central do problema da avaliação da viabilidade energética da sociedade de consumo. A questão crucial é se podemos resolver a demanda energética de uma sociedade feroz e cegamente comprometida com o crescimento sem limite de ‘padrões de vida’ e renda econômica. O absurdo desse compromisso pode ser mostrado facilmente.

Se 9 bilhões de pessoas fossem viver com os ‘padrões de vida’ das pessoas que vivem nos países ricos em 2070, dado um crescimento econômico de 3% por ano, a soma total da renda econômica seria 60 vezes maior do que é hoje!

O que não é geralmente admitido é a magnitude desse exagero, o tanto que o modo de vida dos países ricos é insustentável. Isso é inequivocamente evidente por meio de várias linhas de argumentação. A mais poderosa delas tem a ver com os limites de emissão de gases de efeito estufa esboçados acima. O problema da ‘pegada de carbono’ oferece outra linha de argumentação. Cada Australiano precisa de 7 hectares de terras aráveis para suprir a demanda atual. A estimativa estadunidense é de 12 hectares por pessoa. No entanto a quantidade de terras produtivas por pessoa no planeta é em torno de apenas 1.3 hectares e quando atingirmos 9 bilhões de pessoas será em torno de 0.8 hectares. Em outras palavras as pessoas na Austrália, por exemplo, tem uma pegada de carbono 10 vezes maior do que poderia ser compartilhado. As estimativas para emissão de gases de efeito estufa são da ordem de mais de 30 vezes.

A sobreposição desses fatores indica que os problemas não poderão ser resolvidos sem reduções drásticas nos volumes industriais e comerciais de produção e consumo atuais; talvez para em torno de 10% dos níveis atuais. Os números são tão grandes que não há premissa plausível em termos de avanços tecnológicos, conservação energética, etc. que possa mostrar que os problemas poderiam ser resolvidos sem adotarmos uma economia com zero crescimento baseada em uma fração do PIB atual.

No capítulo 10 do livro Renewable Energy eu argumento que não há possibilidade de resolvermos os problemas globais atuais a não ser que o compromisso com a riqueza e o crescimento sejam abandonados. Como mencionado acima, a sociedade de consumo é grosseiramente insustentável. Ela envolve taxas de uso de recursos naturais e impactos ambientais que ultrapassam em muito os níveis sustentáveis e nunca poderiam ser adotadas por toda a população do mundo.

A sociedade de consumo também é grosseiramente injusta e impõe um sistema de mercado global que entrega a maior parte das riquezas para as corporações e consumidores dos países ricos. Essa economia de mercado inevitavelmente usa a capacidade de produção dos países em desenvolvimento para suprir a demanda dos ricos e não pode atender as necessidades das pessoas, da sociedade e das gerações futuras. Mais uma vez, se torna evidente, que os problemas dos países em desenvolvimento não poderão ser resolvidos enquanto os países ricos não pararem de usurpar toda as riquezas do planeta. Como Gandhi disse há muito tempo: “Os ricos precisam viver de forma mais simples para que os pobres possam simplesmente viver”. Isso não é possível em uma sociedade comprometida com a riqueza e o crescimento sem limites. De modo que tanto as considerações acerca da sustentabilidade como da justiça levam a conclusão de que os problemas não podem ser resolvidos sem que haja mudanças sistêmicas enormes e radicais.

Na minha visão o fator determinante central da trajetória da sociedade ocidental nos últimos séculos e em um futuro próximo está na escassez de recursos. Depois de 1945 a sociedade de consumo ostentou grandes quantidades de petróleo barato. No momento atual nós estamos provavelmente no pico de produção e em direção ao declínio rápido, o que provavelmente implica um colapso catastrófico. Alguns estimam que 3 bilhões de pessoas provavelmente morrerão nas próximas décadas (veja www.dieoff.com – link em inglês). Estima-se também que cerca de 480 milhões são alimentados por comida ‘irrigada’ por meio do uso do petróleo.

Portanto, pensar em caminhos alternativos exige que levemos em conta o elemento escassez. Esse elemento tem implicações fortíssimas para muitos debates na sociologia e filosofia clássica. Por exemplo, implica que uma boa sociedade não pode ser uma sociedade rica. Marxistas, tanto quanto os Liberais tem se enganado acerca desse fato. [O pico do petróleo e o declínio energético] significam o fim da globalização. Significam que a industrialização não é o futuro (… de fato, é provável que no futuro o modo de produção dominante provavelmente será o artesanato). Significa que assentamentos humanos viáveis em uma era de escassez serão geridos por meio de princípios anárquicos; porque eles não serão capazes de suprir a demanda local por meio de sistemas autogeridos a não ser que esses sistemas sejam participativos e igualitários.

E qual é a solução?

A única forma de resolvermos essa situação alarmante e de rápida deterioração é adotarmos alguma forma de Caminho Mais Simples (link em inglês), que eu discuto amplamente no capítulo 11 do livro Renewable Energy. Isso requer a adoção de padrões de vida que supram bem as necessidades reais [de moradia, alimentação, energia, cultural, lazer, etc.], mas que não sejam baseados em acúmulo de riquezas e economias locais que sejam majoritariamente pequenas e autossuficientes. Obviamente mudanças tão radicais e sistêmicas não poderão ser feitas sem que haja mudanças profundas em nossos valores e visão de mundo. Mudanças que abandonam alguns dos elementos mais fundamentais da cultura ocidental e que tem a ver mais precisamente com a competitividade e o individualismo consumista.

Existem boas razões para que pensemos que não temos nem a inteligência nem a força de vontade para enfrentarmos desafios dessa ordem. Especialmente dado que tais desafios não fazem parte da agenda oficial de discussões e debates públicos. Um fator importantíssimo que manteve esses desafios fora da agenda de discussão pública foi a força da premissa que todos querem crer, de que as energias renováveis podem substituir os combustíveis fósseis e manter a sociedade de consumo.

Referências

Trainer, T. (2007). Renewable Energy Cannot Sustain Consumer Society. Springer, AU.

Sharman, H. (2005). The dash for wind; West Denmark’s experience and UK energy aspirations‘. Disponível em: www.glebemountaingroup.org/Articles/DanishLessons.pdf

E.On Netz (2005). Wind Report. Disponível em: http://www.eon-netz.com .

Davy, R. e Coppin, P. (2003). South East Australian Wind Power Study, Wind Energy Research Unit, CSIRO, Canberra, Austrália.

Enting, I., Wigley, T., e Heimann, M. (1994) Future emissions and concentrations of carbon dioxide; Key ocean/atmosphere/land analyses, Relatório Técnico, CSIRO Division of Atmospheric Research, 31, Melbourne.

Fulton, L. (2004) Biofuels For Transport; An International Perspective. International Energy Agency.

Para mais informações sobre O Caminho Mais Simples e os temas aqui apresentados veja – http://simplicityinstitute.org/

Porque os avanços tecnológicos e as energias renováveis não resolverão os problemas da sociedade de consumo.

O ecomodernismo ou tecno-fix, como também é chamado, é a ideologia que prega que os avanços tecnológicos e uso de energias renováveis nos permitirão mitigar o impacto ambiental e suprir a demanda energética e de recursos naturais da sociedade de consumo. O autor, ambientalista e ativista australiano Dr. Ted Trainer, no entanto, diz que o tecno-fix não passa de crença ou otimismo descabido e que a solução para vivermos em harmonia com Gaia está em reorganizarmos nosso modo de viver em Ecovilas inteligentes e ligadas em rede. Esse ‘Caminho Mais Simples’ forneceria estilos de vida saudáveis, trabalho e educação com padrões de consumo bastante reduzidos.

O Dr. Ted Trainer (https://en.wikipedia.org/wiki/Ted_Trainer) foi professor da Universidade de Sydney, na Austrália, por vários anos e atuou nas área das ciências sociais, educação e limites do crescimento. A teoria de mudança social proposta por ele é conhecida como “O Caminho Mais Simples” (em inglês The Simpler Way). Ela se se baseia em um conjunto de ideologias e diretrizes que, em grande parte, já existem separadamente. Juntos o minimalismo, a redução do consumo, a reorganização dos grandes centros urbanos em unidades menores, a relocalização das economias e a promoção de ecovilas inteligentes e ligadas em rede fazem parte do “Caminho Mais Simples”.

O trabalho de Trainer é pertinente porque aponta soluções simples para uma crise energética, social e cultural que já assola vários países no mundo. O maior desafio, o próprio Trainer reconhece, é a mudança de atitude mental, é nos libertarmos das amarras ideológicas da sociedade de consumo. Mas parafraseando Buckminster, “para mudar alguma coisa, construa um novo modelo que torne obsoleto o modelo existente”. E esse novo modelo também começa por admitirmos as limitações e ineficiências do atual.

O texto que segue é uma tradução livre de um artigo do Dr. Ted Trainer chamado “Mas os avanços tecnológicos não podem resolver o problema?”, publicado em Agosto de 2016 e que pode ser encontrado em inglês nesse link.

A análise do relatório “Os Limites do Crescimento argumenta que a busca pelo estilo de vida dos países ricos e pelo crescimento econômico são as causas principais dos problemas globais alarmantes que estamos criando.

Os níveis de produção e consumo que estamos estabelecendo no mundo estão longe de ser sustentáveis. Não há nenhuma possibilidade de manutenção desses níveis, muito menos implementá-los para todos os povos do mundo. Nós, nos países ricos, precisamos mudar adotando níveis de consumo muito inferiores. [Isso também é válido para as classes média e alta do Brasil. Para mais detalhes em inglês visite esse link]

Em nossa situação atual, frequentemente o argumento contrário a análise do relatório “Limites do Crescimento” é de que a tecnologia resolverá os problemas e nos permitirá seguir vivendo estilos de vida cada vez mais ricos em economias de crescimento constante. Em tempos mais recentes essa fé “tecno-fix” tem sido definida como “ecomodernismo” (Argumentos pró-ecomodernismo podem ser encontrados nos autores Asaef-Adjaye, 2016, e  Blomqvist, Nordhaus Shellenbeger, 2015. Para uma crítica desses argumentos veja Trainer 2016a.)

Entretanto, as evidências contrárias apontam para o fato de que os avanços tecnológicos não nos ajudarão a resolver os maiores problemas globais que enfrentamos e que para construirmos uma sociedade sustentável e justa é preciso fazermos uma transição para algum tipo de “Caminho mais Simples”.

Poucas pessoas percebem a magnitude dos problemas que enfrentamos
Segue abaixo alguns exemplos do quanto excedemos em muito os limites do crescimento e, portanto, do quão enormes os avanços “tecno-fix” teriam que ser para resolver os problemas.

  • Partindo do pressuposto que não vamos mais degradar e perder terras férteis, a quantidade de terra produtiva per capita em 2050 seria de 0.8 hectares. A área de terras férteis que supre cada australiano com seu estilo de vida hoje é de 8 hectares. Isso significa que na Austrália nós estamos 10 vezes acima de um limite sustentável e que não há a menor possibilidade de que toda a população mundial chegue a padrões minimamente parecidos com os nossos. [Nota do tradutor: Vale ressaltar que no Brasil as classes mais altas tem um consumo equivalente ao dos países mais ricos e portanto o impacto e lógica do argumento ainda se aplica a grande parte da população brasileira.]
  • Quase todos os recursos são escassos ou estão diminuindo, muito embora um número pequeno de pessoas no mundo estejam usando a maioria desses recursos.
  • Muitos dos ecossistemas globais se encontram em rápido e alarmante declínio.
  • O Fundo Mundial para Natureza (https://pt.wikipedia.org/wiki/World_Wide_Fund_for_Nature) estima que hoje usamos os recursos naturais em uma proporção que exigiria um planeta e meio para supri-los de forma sustentável (WWF, 2014).

Somemos a isso o absurdo do crescimento econômico
Os fatos e estatísticas apresentados aqui, assim como muitos outros apresentados em outros estudos, apenas indicam a magnitude dos problemas causados pela produção e consumo excessivos. Mas precisamos somar a essa situação alarmante o fato de que nossas sociedades são comprometidas com o crescimento rápido e constante dos “padrões de vida” e do PIB (e.g. o crescimento econômico é o objetivo supremo).

Se nós, australianos, tivermos um crescimento anual constante de 3% até 2050 e se até lá os 9.7 bilhões de habitantes do planeta atingirem nosso “padrão de vida”, o montante anual da produção econômica no mundo seria 20 vezes maior do que é hoje. Entretanto a quantidade atual de produção e uso de recursos naturais já é absurdamente insustentável.

Estatísticas e projeções enormes como essas definem a magnitude do problema para os que acreditam que o avanço tecnológico possa prover riqueza e crescimento para todos

O otimismo tecno-fix baseado em crenças
O otimismo tecno-fix deveria ser desafiado a mostrar com detalhes quais são as bases para que aceitemos que as soluções serão encontradas para cada um dos problemas enormes que enfrentamos. O quê, mais precisamente, vai resolver o problema da perda de biodiversidade, de falta de água, de escassez de fosfato, do colapso da população de peixes nos oceanos, etc.? E como esses avanços serão possíveis? Ao fazer essas perguntas nós normalmente vemos que a crença no tecno-fix não passa de fé e que praticamente não há evidencias para sustentá-la.

Existem muitos avanços espantosos sendo conquistados na medicina, astronomia, genética, física sub-atômica, tecnologia e informática, etc. mas esses avanços não são centrais nessa discussão. O assunto central aqui é se há uma razão para acreditarmos na probabilidade dos avanços tecnológicos resolverem os problemas ambientais e de depleção de recursos causados pelos estilos de vida dos países ricos. O caso contra essa crença é muito grande.

Algumas evidências de avanços tecnológicos nos campos relevantes.
Primeiramente, não devemos pressupor que avanços gerais, rápidos, em larga escala e contínuos estejam sendo feitos nas áreas que envolvem uso de materiais e energia. Ayres (2009) ressalta que por muitas décadas a eficiência na produção de eletricidade e combustíveis, de motores elétricos, de amônia, ferro e aço atingiu platôs. Ayres relata que a eficiência de equipamentos elétricos, por exemplo, mudou muito pouco no último século. Além disso, Ayres também aponta que não houve melhora significativa na eficiência energética da economia estadunidense desde 1960. (Ayres, 2009; p. 128-9.)

A maioria dos índices de progresso tecnológico, eficiência e produtividade mostram um declínio contínuo a longo prazo e os ganhos anuais estão agora perto de zero. Além disso, temos percebido que muito do crescimento em produtividade que tem acontecido tem sido devido ao crescente uso de energia e não aos avanços tecnológicos. A tendência da produtividade associada com esse fator central e importante, a energia, também está em sério declínio. Esse declínio pode ser evidenciado em dados coletados em estudos longitudinais sobre as proporções de EROEI (Energia Retornada na Energia Investida). Há várias décadas atrás era possível produzir até 30 barris de petróleo com a energia contida em apenas 1 barril. Hoje essa proporção do EROEI está em torno de 18 barris e caindo.

“Mas e a Lei de Moore que mostra que a potência dos processadores de computador tem delineado uma curva em crescimento constante”. Claro, isso acontece em algumas áreas, mas a tendência na área de Tecnologia e Informática é altamente atípica. Vale ressaltar também que o advento dos computadores não fizeram diferença significativa na produtividade da economia. De fato, a queda recente na produtividade enquanto a área de TI estourou é chamada de “Paradoxo da Produtividade”.

O assunto crucial do crescimento econômico e o desacoplamento do uso dos recursos naturais
O elemento fundamentalmente importante no paradigma tecno-fix ou ecomodernista é a crença ou argumento de que a demanda por recursos e o impacto ecológico podem ser ‘desacoplados’ do crescimento econômico. Em outras palavras esse argumento proclama que novos avanços tecnológicos permitirão o crescimento contínuo da economia assim como o aumento dos “padrões de vida”, da renda e do consumo enquanto o uso de recursos naturais e os danos ao meio ambiente são reduzidos para níveis sustentáveis. Toda a evidência disponível parece mostrar inequivocamente que temos tido muito pouco ou nenhum sucesso nesse desacoplamento. (Para mais de 30 estudos sobre desacoplamento, em inglês, visite esse link)

  • O estudo de Weidmann et al. (2014) argumenta que “… a produtividade baseada em recursos tem caído nas nações desenvolvidas.” E que “não houve uma melhora, sequer, na eficiência econômica do uso do metal.”
  • Giljum at al. (2014, p.324) relata que nos 10 anos que antecederam a crise financeira global o valor do dólar extraído de cada unidade mineral não melhorou em nada. “Em um nível global, não conseguimos nem mesmo um desacoplamento relativo.”
  • O relato de Diederan (2009) sobre a produtividade do esforço na descoberta de minérios é ainda mais pessimista. Entre 1980 e 2008 a taxa de descoberta anual caiu de 13 para menos de 1, enquanto os custos de prospecção saltaram de $1.5 bilhões por ano para $7 bilhões por ano. Isso significa que a eficiência dos custos de prospecção caiu aproximadamente 100%. Estatísticas recentes sobre a exploração do petróleo são semelhantes, na última década os investimentos em prospecção triplicaram sem que houvesse aumento nas descobertas de novos poços.

Todas essas fontes e dados indicam a completa falta de suporte para a fé dos que aderem ao ecomodernismo ou ao tecno-fix
Tanto o tecno-fix quanto o ecomodernismo assume que um desacoplamento massivo é possível. Por exemplo que em 2050 a demanda por energia, materiais e serviços ecológicos associada a $1 do PIB poderá ser reduzida em torno de 30 vezes. Aparentemente na há nenhuma literatura ecomodernista que tente fornecer um bom argumento defendendo que um desacoplamento geral e absoluto seja possível, muito menos na escala necessária.
(NOTA: No texto original Trainer alega que tentou contato várias vezes com os autores ecomodernistas sobre o assunto, mas que não obteve resposta)

Repare, mais uma vez, que o patamar sobre o qual os adeptos do tecno-fix precisam construir não é dado pelas presentes condições de recursos disponíveis, mas um de deterioração acelerada. Por volta de 2050 as minas sendo exploradas terão muito menos minérios do que tem hoje.

Obviamente, a pesquisa e o desenvolvimento do aprimoramento das coisas é importante e na visão do Caminho Mais Simples nós teríamos na verdade mais recursos destinados à pesquisa aplicada e útil para o social do que temos agora [ênfase no original]. Nesse cenário, mesmo com um PIB inferior, teríamos mais destinado à pesquisa porque poderíamos redirecionar o enorme desperdício de recursos que acontece na sociedade de consumo capitalista. De toda forma é um erro muito grave pensar que desenvolver melhores tecnologias é o caminho para resolvermos os sérios problemas globais que enfrentamos hoje. Esses problemas estão sendo criados pelo nossa determinação de viver estilos de vida que exigem demandas por recursos impossíveis de serem atingidas, assim como pelos sistemas associados a essa determinação; o mais óbvio deles sendo a economia que exige crescimento o tempo todo.

O objetivo principal do Caminho Mais Simples é mostrar que podemos facilmente criar comunidades alternativas que promovam uma qualidade de vida alta para toda a população do planeta enquanto reduz dramaticamente os impactos ambientais e de recursos no planeta. O padrão básico de assentamento e habitação seria em torno de uma economia local, autossuficiente, autorregulada e cooperativa que use majoritariamente recursos locais para suprir suas necessidades. As satisfações pessoais viriam em grande parte de buscas não materiais como a produção de alimentos, artesanato, o ofício de vocação e a contribuição para o funcionamento da comunidade em mutirões e comitês.

Há centenas de anos nós sabíamos como produzir alimentos, casas, catedrais, roupas, concertos musicais, obras de arte, vilas e comunidades que não eram apenas ‘boas o suficiente’, eram lindas. Fazíamos tudo isso usando pouco mais que ferramentas manuais, artesanatos e ações e arranjos em cooperativa. É óbvio que devemos fazer uso de computadores quando eles fazem sentido. Mas nós não precisamos de alta tecnologia para projetar e aproveitar o tipo de comunidade com altíssima qualidade de vida que o mundo inteiro poderia compartilhar.

Para um texto mais detalhado sobre a visão do Caminho Mais Simples para uma sociedade sustentável e satisfatória visite esse link.

Para uma discussão mais detalhada da fé no tecno-fix veja esse link.

Referências:

Asafu-Adjaye, J., et al., (2015), An Ecomodernist Manifesto, April, www.ecomodernism.org

Ayres, R. U., (2009), The economic Growth Engine, Cheltenham, Elgar,.

Blomqvist, L., T. Nordhaus and M. Shellenbeger, (2015), Nature Unbound; Decoupling for Conservation, Breakthrough Institute.

Diederen, A. M., (2009), Metal minerals scarcity: A call for managed austerity and the elements of hopeTNO Defence, Security and Safety, P.O. Box 45, 2280AA Rijswijk, The Netherlands.

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Wiedmann, T. O., H. Schandl, M. Lenzen, D. Moran, S. Suh, J. West, and K. Kanemoto, (2015), “The material footprint of nations”, PNAS, 6272 -6276.

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Os Caminhoneiros, a Dívida Pública e o Aquecimento Global

O que a paralização dos caminhoneiros, a dívida pública e o aquecimento global tem em comum? A atual crise político-financeira brasileira está diretamente relacionada com um fenômeno chamado de Pico do Petróleo; o ponto de produção máxima a partir do qual a extração passa a ficar cada vez mais cara e energeticamente inviável. Embora raramente sejam discutidos em conjunto, a crise financeira mundial, o aquecimento global e o pico do petróleo estão intimamente ligados.

Nota: O artigo que segue é inspirado, em parte, pelo trabalho do amigo e mentor Dr. Doone Wyborn. Doone foi pesquisador chefe na área de energias renováveis para o governo Australiano e tem sido um parceiro em cursos e palestras na Holos Regenerative Design.

O campo de interseção desses 3 fenômenos é o paradigma econômico do crescimento infinito. Também conhecido como PIBismo, esse paradigma prega que uma economia saudável requer crescimento constante. Nessa lógica o consumismo é estimulado para gerar indicadores econômicos positivos que na realidade não se traduzem em melhoria de qualidade de vida para a população e muito menos em um convívio harmonioso com Gaia. O petróleo é nossa principal fonte de energia e matéria prima. É o que sustenta grande parte do nosso projeto civilizatório, mas sua produção está em declínio inevitável. Para manter a economia em constante crescimento sem o apoio do petróleo como lastro energético, a maioria dos países também abriu mão do lastro material para suas moedas e passaram a usar a Moeda Fiduciária (dinheiro impresso sem seu equivalente em ouro ou metais preciosos nos bancos).

Pico do Petróleo
Baseados nas projeções e trabalhos desenvolvidos pelo geólogo e geofísico Marion King Huppert, vários cientistas e ambientalistas tem alertado a população mundial sobre o inevitável declínio da produção do petróleo. Na década de 50 Huppert previu que se as tendências de consumo e ‘crescimento’ continuassem, a produção mundial de petróleo atingiria seu pico em 1994. O interessante é que vários trabalhos sobre o pico do petróleo, o de Huppert inclusive, foram comissionados pela indústria petroleira, ou seja, há muito tempo os magnatas do petróleo sabem que a crise mundial na produção é inevitável. Eles apenas escolhem esconder esse fato para previnir o investimento e pesquisa em energias renováveis.

Entretanto, há várias décadas os líderes governamentais e a indústria do petróleo já sabem que o declínio na produção é inevitável. O problema é que mesmo assim, muito pouco foi feito ao longo dos anos para preparar uma transição para outras fontes de energia. O petróleo é o que literalmente move nossas economias. A produção e distribuição de alimentos industrializados (o agronegócio) é totalmente dependente do petróleo. São os combustíveis fósseis que abastecem os tratores que aram, plantam e colhem os cultivos. Os adubos químicos, pesticidas e herbicidas são todos derivados de petróleo. E também são os combustíveis fósseis que mantém os padrões de mobilidade global (o trânsito internacional de produtos e pessoas). Para se ter uma idéia, a produção do que os cientistas chamam de petróleo convencional, ou seja, o que consome menos energia para ser extraído, atingiu o pico de produção global em 2005; 3 anos antes da crise financeira estadunidense de 2008. Os tipos de petróleo que restam são o petróleo de xisto e areia betuminoso ou as plataformas marinhas de exploração profunda. Essas formas de exploração tem um balanço energético muito baixo para manter as economias mundiais. Para deixar claro, ‘balanço energético baixo’ significa que a quantidade de energia gasta para encontrar e extrair é quase a mesma que existe na quantidade do petróleo encontrado, tornando essas opções cada vez menos economicamente viáveis.

Oil Discoveries since 1947Em 1972 o MIT – Instituto Tecnológico de Massachusetts – emitiu um relatório chamado Limites do Crescimento. O relatório se baseou em uma simulação computadorizada do crescimento exponencial da população e da economia com um suprimento limitado de recursos, uma vez que o planeta que habitamos é um só. Grande parte das projeções do relatório se revelaram bastante precisas. O que indica que já nos encontramos em uma fase de declínio na produção mundial de petróleo. Esse relatório foi a primeira crítica séria à nossa dependência quase completa aos combustíveis fósseis. Logo em 1973 os EUA enfrentaram uma crise de escassez severa. Em 1979, por conta da Revolução Iraniana e uma queda na produção global de petróleo, os EUA enfrentaram outra crise grave que afetou os preços dos combustíveis, as cadeias de distribuição de alimento e a economia como um todo. O então presidente Jimmy Carter instaurou uma política multi-bilionária de incentivo à pesquisa e uso das energias renováveis. Ronald Reagan veio instaurando as políticas neo-liberais e cortando 85% das verbas do programa de Carter.

Limits to Growth graph report

 

Ainda hoje nos EUA tanto políticos quanto ambientalistas se arrependem pelo retrocesso. A diferença entre os EUA de 1979 e o Brasil de hoje é que os EUA entrou em crise pela falta de petróleo e o Brasil vive uma crise apesar de ser auto-suficiente nesse recurso. A semelhança está no fato de não estarmos fazendo o devido uso desse recurso para nos prepararmos para um declínio inevitável.

Dívida Financeira
Para manter as relações comerciais como de costume, ou seja, para manter uma economia que exige crescimento contínuo em um planeta com recursos naturais limitados, grande parte dos governos no mundo adotaram a Moeda Fiduciária e tem impresso bilhões de dólares todo ano sem nenhum valor real como lastro. Antes da adoção da Moeda Fiduciária qualquer nota emitida tinha seu valor equivalente em ouro ou outro metal precioso nos cofres dos bancos. É com uso dessa moeda sem valor real que os governos vem financiando a exploração de petróleo, carvão mineral, gás, mineração e outras corporações, assim como a abertura de linhas de crédito para a população com o intuito de manter a economia em crescimento linear.

O montante atual das dívidas pessoais, estatais e corporativas já não é mais sustentável. De fato, na maioria dos países a dívida pública praticamente se equipara, quando não ultrapassa, o PIB. Em 2017 no Brasil a dívida pública chegou a aproximadamente 75% do PIB. Como de costume, o aumento das dívidas públicas quase sempre são precedidos pelo declínio ou escassez de petróleo. No caso do Brasil, a escassez se deve ao fato de que a política neoliberal adotada pelo governo Temer fez com que a Petrobrás deixasse de refinar parte do petróleo explorado no Brasil, vendesse a matéria prima para corporações estrangeiras e comprasse a gasolina e o diesel mais caros de volta. Acordos espúrios que visam o sucateamento da Petrobrás para posteriormente vendê-la com preço subsidiado.

A crise financeira de 2008, que começou nos EUA, foi só a ponta de um iceberg em uma crise global que ainda está se desenrolando com formas e intensidades diferentes em vários países. A verdade é que por conta da necessidade de manter um crescimento contínuo em um planeta com recursos limitados as grandes potências mundiais passam a desestabilizar os governos dos países que possuem recursos naturais para explorá-los em benefício próprio. Foi assim com o Kuwait, Iraque e a Líbia, no oriente médio, com a Nigéria na África e não é diferente com o Brasil e a Venezuela na América Latina. A diferença é que em alguns países as grandes potências mundiais garantem seus acordos de exploração e comércio invadindo e guerreando e em outros o fazem por meio do lobby, espionagem e sabotagem. O Brasil é um caso clássico do segundo tipo de dominação. Em todos os momentos históricos brasileiros em que governos eleitos democraticamente criaram políticas de proteção do recursos naturais e comércio internacional e se articularam em relações simétricas com outros países, a política nacional foi desestabilizada de forma a instaurar relações de subserviência com as grandes potências e suas oligarquias. Foi assim com Jango em 1964 e é o que está acontecendo agora com a desarticulação do Mercosul e do BRICS.

Aquecimento Global

A propaganda governamental e corporativa somada ao estilo de vida desconectado da natureza, tem nos mantido cegos perante a gravidade da nossa situação. Tocamos as nossas sociedades como se a enorme quantidade de energia que precisamos para mantê-las fosse infinita. Nós levamos nossas vidas e um frenesi energético que rouba milhares de anos de energia solar presa na crosta terrestre em forma de petróleo. Esse modo de vide energeticamente inconsequente também rouba nossos filhos, netos e gerações futuras porque os impedem de fazer uso, ao menos de parte dessa energia para se prepararem para um futuro de declínio energético. O aquecimento global e o Antropoceno (a era geológica caracterizada pela sexta maior extinção em massa da história do planeta) são efeitos diretos dessa desconexão com a natureza e de um estilo de vida que degrada o meio ambiente. A poluição e os gases de efeito estufa liberados desde a revolução industrial já geraram um aumento de 1°C na temperatura média do planeta. Com essa variação já

The effects of Global Warming on the Great Barrier Reef

percebemos catástrofes enormes e provavelmente irreversíveis como a morte da Grande Barreira de Corais na Austrália (link em inglês), o derretimento das calotas polares e das grandes geleiras. Como consequência desses derretimentos também estamos presenciando o aumento do nível do mar comprometendo várias cidades costeiras.

Todas essas mudanças climáticas certamente terão um impacto ainda maior no futuro acelerando a sexta extinção em massa disparada pelo rápido desenvolvimento da revolução industrial. Também é certo que teremos cada vez mais eventos climáticos extremos como grandes tempestades e furações. Ao mesmo tempo outras regiões do planeta terão seu clima oscilando entre períodos de seca extrema e chuva com enxurradas. Ainda assim o Acordo de Paris, assinado em Abril de 2016, foi bastante ardiloso ao dizer que os 193 países signatários “farão seu melhor para manter o aquecimento global bem abaixo de 2°C”. Digo ardiloso porque com apenas 1°C de aumento na temperatura média do planeta já estamos vivenciando catástrofes irreversíveis, como descrito acima. O acordo também é ardiloso no sentido de que não houve nenhuma resolução sobre como os países signatários manteriam suas emissões sob controle para manter o aumento de temperatura abaixo de 2°C, assim como não houve nenhuma menção de punição ou consequências para os países que muito embora “fizessem seu melhor” não conseguissem atingir a meta do acordo.

Volume of Article Sea Ice loss since 1979

O que fazer?

Para a maioria das pessoas tomar conhecimento desses fatos é um choque. Para alguns o pensamento de como seus filhos e netos viverão no planeta nas condições que se desenrolam é assustador. A pergunta mais comum em cursos e palestras onde essas informações são compartilhadas é: “- E quanto tempo temos para para fazer alguma coisa, para nos prepararmos?”

Existem várias medidas que podemos adotar para minimizar nosso impacto na economia e no planeta. Mas a realidade é que precisamos discernir bem entre o que queremos ter e o que, de fato, precisamos ter para levar uma vida confortável e gratificante mas em harmonia com a natureza. Digo isso porque o primeiro passo em direção a mudança é impor limites ao consumismo. Estudos como o do David Holmgren (Crash on Demand), co-criador da Permacultura, revelam que se apenas de 10 a 15% da classe média mundial restringisse drasticamente seu consumo e se reorganizasse em economias de rede informal, isso já seria suficiente para quebrar o mercado financeiro global. Uma quebra planejada teria o benefício de uma transição de estilo de vida voluntário e ordenado, da relocalização das economias e da desaceleração do aquecimento global. Isso porque é exatamente e classe média mundial e seu consumismo que frequentemente esgota mais os recursos naturais e causa mais poluição gerando um ciclo vicioso que perpetua os problemas atuais.

Após refletir sobre o que realmente precisamos para viver bem fora da lógica do consumismo, segue outra medida muito importante que podemos tomar diante dessa situação que nos assoberba. Começar a prover mais das nossas próprias necessidades no que tange o abastecimento de água, produção de alimentos e energia e manejo de resíduos da maneira mais descentralizada possível. Uma lógica muito útil nesse contexto de ‘como agir’ foi compartilhada no artigo anterior sobre Os Cinco Estágios do Colapso, de Dmitri Orlov. Orlov nos aconselha e vislumbrar um mundo no qual não podemos mais confiar nas instituições públicas e privadas, no qual essas instituições já não suprem nossas necessidades. Esse exercício de imaginação é fácil no Brasil atual porque infelizmente já é uma realidade. Mas ele nos aconselha a partir daí e perguntar a nós mesmos “o que precisamos fazer para prover por nós mesmos, onde vivemos, o suporte necessário para nossas famílias e vizinhos?”.

Essa atitude de prover mais do que precisamos para viver pode desencadear ainda outra medida; a relocalização. Em outras palavras, encontrar um lugar onde nossos impactos no clima possam ser minimizados, onde a água é abundante, a terra mais propícia para a produção de alimentos e os vizinhos se identificam com essa maneira de pensar e agir. Nesse aspecto metodologias de desenho e abordagens como a Pemacultura, a Agroecologia, a Agricultura Sintrópica, etc. podem ajudar muito.

Os maiores entraves para a relocalização normalmente são culturais. Fazem parte do apego a um estilo de vida e valores que pouco servirão em um futuro de declínio energético. No entanto, para muitas pessoas a possibilidade da relocalização também é limitada pela questão financeira. Ainda assim podemos alcançar muitas mudanças positivas criando comunidades mais resilientes nos centros urbanos e cidades onde a planejamento é mais horizontal. A mudança mais importante é na nossa atitude. É nos tornar responsáveis pelas nossas necessidades. Aqui vale à pena ressaltar o trabalho do movimento Cidades em Transição.

Seja na cidade ou no campo, o importante é liderar com exemplo. É colocar nossa energia no mundo que queremos criar e não em combater o mundo que não queremos. Quanto mais mostrarmos que é possível viver uma vida prazerosa e gratificante suprindo mais das nossas necessidades de maneira descentralizada, mais pessoas nos seguirão. Como dizia Bill Mollison, co-criador da Permacultura:

A maior mudança que precisamos fazer é ir de consumo para produção, mesmo que em uma pequena escala em nossas hortas. Daí a futilidade de revolucionários sem hortas que dependem do próprio sistema que atacam, que produzem palavras e balas ao invés de comida e abrigo. (Bill Mollison)

Dmitry Orlov e Os 5 Estágios do Colapso

Dmitry Orlov tem escrito sobre as semelhanças entre o colapso Soviético causado pelo pico do petróleo e a crise que se desenrola nos EUA. Orlov deixou a Russia com sua família aos 12 anos de idade para viver nos EUA. Ao final da década de 80 e começo da década de 90 ele viveu de perto o colapso soviético durante várias longas visitas à sua terra natal. Um dos objetivos principais de Orlov é educar as pessoas sobre o que acontece quando a economia entra em colapso e o dinheiro perde seu valor e sua capacidade de suprir as necessidades básicas das pessoas.

Nota: Eu escrevi esse artigo em inglês para o site da Holos Regenerative Design, empresa da qual sou sócio fundador na Austrália em Outubro de 2016. Esse artigo foi escrito juntamente com outros para discutir com alunos como o pico do petróleo está por trás da crescente crise econômica mundial e porque precisamos buscar éticas, princípios e metodologias que nos permitam viver sem depender tanto dos combustíveis fósseis. O trabalho de Orlov exemplifica bem essa lógica e permite identificar (por meio de evidências históricas) a eminência do colapso da economia baseada na exploração dos combustíveis fósseis.

Em Os Cinco Estágios do Colapso Orlov explica que 3 anos antes de seu colapso a União Soviética teve um pico em sua produção de petróleo e entrou em uma crise energética. O fato de que especialistas argumentam que a produção mundial de petróleo atingiu um pico de produção em 2005, exatamente 3 anos antes da crise estadunidense de 2008 é estarrecedor. Segundo Orlov as semelhanças não param por aí. Tanto os EUA como a União Soviética são plutocracias que se agarram ao poder resistindo as mudanças inevitáveis e ignorando suas responsabilidades sociais para com suas populações.

Os modos de vida dessas duas super potências, no entanto, eram bem diferentes. Na União Soviética a distribuição de alimentos e medicamentos, a moradia e outros serviços comunitários como transporte eram todos providos pelo poder público e portanto não faziam parte da economia dentro da lógica de mercado. Além disso, havia na União Soviética uma cultura de cooperação.

Os EUA, por outro lado, dependem quase que exclusivamente na economia de mercado para suprir as necessidades de seus cidadãos. Existe lá, por tanto, uma enorme dependência no mercado financeiro e no comércio para suprir as necessidades da população. Existe também uma grande dependência ao petróleo para manter a mobilidade das pessoas e bens de consumo pelo país. Além disso, moradia, aquecimento, serviço de saúde, etc. fazem parte da economia de mercado. Por essas razões Orlov defende que enquanto a União Soviética passou por uma crise ‘branda’, os EUA estão passando por uma crise severa.

Baseado tanto em pesquisa antropológica como em sua própria experiência durante a queda da União Soviética, Orlov escreveu Os Cinco Estágios do Colapso. Tomar conhecimento desses estágios, segundo Orlov, é fundamental para que possamos nos preparar para o inevitável colapso global causado pela depleção dos recursos naturais da era industrial. Os Cinco Estágios do Colapso também servem para explicar como os seres humanos tem uma tendência para formar sociedades complexas com o colapso inerente. Esses estágios podem ou não acontecer na ordem descrita por Orlov. De fato, alguns estágios podem acontecer simultaneamente enquanto outros podem acontecer totalmente independente de outros.

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O primeiro estágio é O Colapso Financeiro. Isso acontece quando as pessoas perdem a confiança na maneira como o comércio e a industria funcionam normalmente. Ou seja, quando os riscos não podem mais ser calculados ou previstos e as pessoas deixam de acreditar que o futuro será uma progressão linear das práticas financeiras passadas e presentes.

O segundo estágio é O Colapso Comercial. Nesse estágio as pessoas já não acreditam mais que as relações de troca comerciais, ou o ‘livre mercado’, suprirá suas necessidades. Durante esse estágio as pessoas percebem que o dinheiro não é mais capaz de comprar o que elas precisam para sobreviver.

O terceiro estágio é o Colapso Político. Nesse estágio as pessoas já não acreditam mais que o governo zela pelo bem da população. É possível perceber esse estágio quando representantes eleitos começam a ser substituídos por políticos figurativos colocados no governo pelos credores do país. Nesse estágio o governo perde toda sua legitimidade.

O Colapso Social é o quarto estágio. Nesse estágio perdemos a fé de que os nossos olharão por nós. A caridade, o escambo informal e a economia do dom começam a falhar e as pessoas se relacionam sem a regulamentação das instituições financeiras governamentais ou do mercado.

O Colapso Cultural é o quinto. Nesse ponto o que se perde é a fé na bondade da humanidade. Isso acontece quando as famílias já não conseguem mais manter os padrões de ajuda e apoio mútuo e a ‘cultura humana’ colapsa. Daí em diante nosso comportamento já não é mais reconhecido como humano.

Orlov nos avisa que um sistema econômico saudável precisa se basear nos relacionamentos de trocas pessoais e confiança mútua. Um sistema econômico saudável se baseia na posse de bens materiais e culturais que possam apoiar um esquema de troca comum dentro de pequenos grupos onde as pessoas se conhecem. Orlov nos aconselha e vislumbrar um mundo no qual não podemos mais confiar nas instituições públicas e privadas, no qual essas instituições já não suprem nossas necessidades e à partir daí perguntar a nós mesmos que precisamos fazer para prover por nós mesmos, onde vivemos, o suporte necessário para nossas famílias e vizinhos.

O video abaixo contém uma entrevista (em inglês) com Dmitry Orlov sobre o livro.

Referências:

http://cluborlov.blogspot.com.au/p/the-five-stages-of-collapse.html

Orlov, D. (2013). The Five Stages of Collapse: Survivers’ toolkit. New Society Publishers. Canada.

Energias renováveis criam comunidades resilientes e combatem o aquecimento global

No último dia 5 de novembro de 2016 Dr. Doone Wyborn ministrou uma oficina sobre Pico do Petróleo, Aquecimento Global e Energias Apropriadas na Holos: Escola de Desenho Regenerativo (NSW, Austrália). O Dr. Doone tem uma vida dedicada à pesquisa de energias renováveis, foi líder na pesquisa de energia geotérmica na Austrália e fundou Bindarrabi, uma EcoVila de 800 acres que fornece habitações a preços acessíveis para as pessoas que querem se preparar para um futuro de declínio energético usando a Permacultura. A EcoVila fica ao lado do Parque Nacional Koreelah no estado da Nova Gales do Sul. A parte prática da oficina encorajou as pessoas a usar a energia solar para o máximo de funções possível. Entretanto as aulas do Dr Doone foram ao mesmo tempo alarmantes e inspiradoras. Com informações precisas sobre como o pico do petróleo, a crise financeira mundial e o aquecimento global estão causando mudanças sociais e ambientais irreversíveis Dr. Doone deixou todos instigados a agir.

Pico do Petróleo
Baseados quase que exclusivamente nas projeções do geológo e geofísico Americano Marion. King Huppert (link em inglês), muitos outros cientistas e ambientalistas vem nos avisando da crescente escassez do petróleo ou pico do petróleo, como o fenômeno é conhecido. O Dr. Doone apresentou o trabalho de King Huppert e compartilhou como outros cientistas e pensadores proeminentes vem usando suas projeções desde 1950 para entender o fenômeno do pico do petróleo. Huppert estimou que se as tendências de consumo e crescimento continuassem a produção mundial do petróleo atingiria um pico em 1994, depois do qual toda produção começaria a cair drasticamente. Mas o fato é que o petróleo continua a ser a mola motriz das nossas economias. A produção e distribuição industrial de alimento é toda baseada no uso do petróleo. É o combustível derivado de petróleo que move os tratores para arar a terra, as plantadeiras e colheitadeiras. O fertilizantes químicos, os pesticidas e os herbicidas também são todos derivados do petróleo. E são os combustíveis fósseis que apoiam os padrões de mobilidade global que temos hoje. A produção de petróleo convencional, que requer menos energia para sua extração, atingiu pico de produção em 2005, só 3 anos antes da Crise Financeira de 2008. A maioria do petróleo não convencional como o extraído do óleo de xisto (betumen), das areias asfálticas (Tar Sands) e das plataformas de extração marítimas tem um retorno energético muito baixo para manter as economias ocidentais.

Em 1972 o MIT – Instituto de Tecnologia de Massachusetts – lançou um relatório (também editado em forma de livro) chamado Os Limites do Crescimento. Esse relatório se baseou em uma simulação computadorizada de crescimento economico e populacional exponencial com suprimento recursos finitos. A maior parte das projeções do relatório no que diz respeito ao esgotamento de recursos se mostrou bem precisa e estamos agora, de fato, entrando em uma era de declínio energético como compartilhou o Dr. Doone.

Dívida
Para manter os negócios como de costume ou, em outras palavras, para mantermos uma economia que demanda crescimento infinito em um planeta com recursos limitados, os governos mundo afora adotaram a Moeda Fiduciária (FIAT Money) e tem imprimido bilhões de dólares todo ano sem nenhum valor real como garantia. É com dinheiro impresso sem garantia de valor real que os governos tem subsidiado a extração de petróleo, carvão mineral, gás natural e minérios, assim como outras corporações. Também é com esse dinheiro que o governo tem aberto linhas de crédito para população para manter o crescimento econômico estável. O estado atual das dívidas pessoais, corporativas e estatais, entretanto, já não é mais sustentável e já começamos a testemunhar crises econômicas baseadas na escassez de recursos materiais e revoltas em vários países. Dr. Doone explicou que a crise financeira de 2008 foi só a ponta do Iceberg que desencadeou uma crise global que ainda está desenrolando de maneiras e intensidade diferente em vários países do mundo.

Aquecimento Global
A falsa sensação de separação que a maioria das pessoas tem da natureza hoje em dia associada com a propaganda corporativa e estatal tem nos mantido cegos para a gravidade de nossa situação. Nós gerimos a maior parte de nossas sociedades como se a enorme quantidade de energia que precisamos para mantê-las fosse infinita. Nós vivemos nossas vidas em um frenesi energético que rouba milhares de anos de energia solar presa na crosta do planeta Terra privando nossos filhos e netos da sua cote de direito para se prepararem para um futuro de declínio energético. O aquecimento global e a extinção em massa que vivemos no momento são consequências diretas da nossa desconexão com a natureza e da negação do impacto que nossos estilos de vida tem no planeta. Como Dr. Doone mencionou em sua palestra, com um aumento de apenas 1°C na temperatura do planeta nós já estamos vendo catástrofes enormes e irreversíveis como a morte da Grande Barreira de Corais na Austrália, a perda do gelo Ártico e o derretimento das geleiras causando aumento do nível do mar.

É certo que essas mudanças climáticas terão um impacto ainda maior no futuro, assim como elas agravarão ainda mais a atual extinção em massa iniciada por nosso estilo de vida inconsequente. Outra certeza é que também vamos sofrer mais com eventos climáticos extremos como tempestades e furacões. Algumas regiões terão seu clima alterado e oscilarão entre secas e enxurradas. Ainda assim o Acordo de Paris, assinado no dia 22 de Abril de 2016, foi bastante ardiloso dizendo que os 193 países que participam do acordo “fariam seu melhor para manter o aquecimento global abaixo de 2°C”.  Esse é um compromisso ardiloso porque com um acréscimo de apenas 1°C na temperatura do planeta nós já estamos testemunhando a maior extinção em massa causada pelos humanos. Também é ardiloso no sentido de que não houve nenhum acordo sobre como os países participantes manteriam o aumento da temperatura abaixo de 2°C, muito menos quais seriam as consequências para os países que infringirem o acordo mesmo tendo feito seu melhor.

Para a maioria das pessoas é um choque tomar conhecimento de todos esses fatos apresentados pelo Dr. Doone. Para alguns é perturbador pensar em como seus filhos e netos viverão nesse planeta. A pergunta da maioria das pessoas é “quanto tempo ainda temos para fazer alguma coisa? Para nos prepararmos?”. Muito embora a maioria das pessoas nos países ricos ainda estejam em posição de ‘fazer alguma coisa’, é exatamente essa desigualdade na capacidade de consumir os recursos naturais do planeta que tem causado os problemas atuais. A realidade é que precisamos distinguir entre desejos e necessidades e começar a agir imediatamente para suprir nossas necessidades em harmonia com a natureza.

Dr. Doone compartilhou algumas idéias sobre o que podemos fazer para mitigar nosso impacto na economia e no planeta. Sobre como podemos agir diante de informações tão perturbadoras, Dr. Doone disse que é importantíssimo começarmos a produzir mais das nossas necessidades em termos de energia, alimento, água e resíduos de forma descentralizada onde quer que estejamos.

Nós precisamos nos tornar responsáveis pelo nosso impacto no planeta Terra. Embora cada um de nós tenha um impacto pequeno, nós podemos começar dando exemplos em nossas próprias vidas e eventualmente atingir uma massa crítica de pessoas fazendo o mesmo. E essa é a única maneira de gerar mudança é nos tornarmos essa mudança (Dr. Doone Wyborn).

Outra consideração importante de acordo com o Dr. Doone é a relocalização. Ou seja, encontrarmos um lugar onde a geografia, o solo, o acesso a água e o contexto sócio-cultural possam minimizar os impactos do aquecimento global. O Dr. avisa que é

Importante vivermos nossas vidas de forma a minimizarmos nosso impacto. Embora pareça egoista considerar nossas próprias necessidades em primeiro plano, essa é a condição natural de toda vida orgânica. A pergunta é como você pode reduzir seu impacto e ainda levar uma vida feliz? (Dr. Doone Wyborn)

Uma abordagem tão completa para o movimento de relocalização pode não estar ao alcance de todos. Ainda assim há muito o que fazer nas cidades e suburbios de classe média para construirmos comunidades resilientes. A mudança mais importante que podemos fazer é em nossa própria atitude. Nós precisamos nos tornar responsáveis por nossas necessidades.

Talvez você decida que não se justifica mais morar na cidade ou que você pode atingir níveis de auto-suficiencia alimentar, hídrica e energética vivendo em uma casa com quintal grande. Seja o exemplo e outras pessoas o seguirão. (Dr. Doone Wyborn)