Em 2013 no Zimbabwe 35 parlamentares fizeram uma oficina para o desenvolvimento de políticas públicas usando o Gerenciamento Holístico, abordagem de gestão de recursos, propriedades e pecuária, criada pelo ecologista Allan Savory.
Nota: Tradução livre e adaptação por Eurico Vianna, PhD. à partir de trechos retirados do livro texto do Gerenciamento Holístico pelo autor.
Referência: Savory, A. e Butterfield, J. (2000). Holistic Management: A New Framework for Decision Making. Island Press. EUA.
Historicamente nós desenvolvemos uma forma de tomar decisões e desenvolver políticas públicas que são sempre baseadas em uma necessidade, desejo ou problema, o que constitui uma gestão reducionista e reativa. O paradigma de gestão holística, por outro lado, acolhe no mesmo patamar de importância e de forma indissociável as dimensões, sociais, ambientais e econômicas do nosso viver, implicando em uma gestão integral e proativa.
No entanto, “não é possível ‘usar’ o Gerenciamento Holístico para resolver um problema, você precisa abordar o problema dentro de um Contexto Holístico” (Sarah Savory).
A intenção da oficina de Gerenciamento Holístico com o Allan Savory e os 35 parlamentares era explorar possibilidades para a agricultura nacional que havia sido desmantelada por governos anteriores. Outro objetivo era mostrar como um Contexto Holístico pode unir partidos e ideologias supostamente antagônicas em prol de ações e políticas públicas que tenham interesse genuíno em gerir e restaurar as dimensões sociais, ambientais e ecológicas de um país.
O Contexto Holístico nacional que foi usado para o propósito da oficina foi o seguinte:
Nós queremos famílias estáveis, vivendo suas vidas em paz, prosperidade e segurança física enquanto ao mesmo tempo livres para praticar suas crenças religiosas. Queremos alimentos nutritivos e água limpa. Queremos acesso a boa educação e saúde, vivendo vidas equilibradas com tempo para família, amigos, comunidade e lazer para atividades culturais e afins.
Tudo isso assegurado, para muitas gerações futuras, em uma base de solos e comunidades biodiversas se regenerando nas terras, rios, lagos e oceanos da Terra, materializada por nossa atitude positiva: sendo abertos, tolerantes, sem julgamentos, honestos e respeitosos com todos, garantindo apoio e respeito mútuo na “equipe humanidade” enquanto vivemos em harmonia uns com os outros e com o meio ambiente.
Com esse contexto em mente os parlamentares chegaram à primeira pergunta óbvia:
- Qual o papel do governo nesse caso?
A resposta era óbvia: o papel do governo era elaborar políticas públicas que pudessem ajudar a revitalizar a agricultura e redistribuir terras de forma igualitária.
E como isso poderia ser feito? Depois de muita discussão o grupo resumiu tudo em dois princípios amplos:
- Usar as políticas públicas para recompensar os produtores por sua criatividade e produtividade.
- Usar as políticas públicas para encorajar formas de produção que estivessem alinhadas com o Contexto Holístico e desencorajar práticas que não estivessem.

A tarefa dos parlamentares agora era, sem detalhar muito, elaborar possíveis ações que pudessem criar políticas viáveis baseadas na maximização da criatividade e produtividade. Elas deveriam também recompensar ou penalizar o comportamento dos produtores com base no alinhamento (ou a falta dele) com o Contexto Holístico nacional.
Depois de algumas horas o grupo tinha uma lista sólida de possíveis ações que se alinhavam com o Contexto Holístico e que provavelmente levariam a um aumento significativo da produção agrícola enquanto simultaneamente abordassem o problema do acesso desigual à terra. Essas ações incluíam o seguinte:
- Isenção completa de imposto de renda para produção agrícola de produtores legítimos.
- Todos os produtores genuínos pagariam impostos sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR) de acordo com o tamanho da propriedade e a região agroecológica (e.g. índice pluviométrico e tipos de solo).
- O ITR seria reduzido anualmente baseado no número de famílias vivendo e trabalhando na propriedade, não somente para trazer famílias de volta para o campo, mas para encorajar o uso do trabalho manual sobre o do maquinário (isso porque o Zimbábue não produz nem maquinário nem petróleo).
- Os impostos de renda das pessoas vivendo e trabalhando nas fazendas seriam arrecadados pelos produtores e enviados ao governo como evidência do número de pessoas trabalhando na fazenda.
- O ITR seria reduzido de acordo com o número de produtos produzidos e comercializados na propriedade.
- O ITR seria reduzido de acordo com a pureza da água que escoa da fazenda nas divisas mais baixas.
À partir daí todos os parlamentares argumentaram sobre a probabilidade dessas políticas públicas serem bem sucedidas e todos concordaram que elas trariam como resultado:
- um aumento gigantesco na produção e diversidade de alimentos,
- que as propriedades ociosas seriam colocadas à venda,
- que milhares de pessoas voltariam para as áreas rurais,
- que o solo sería regenerado,
- o alimento produzido nutritivo e sem veneno, e
- que a arrecadação de imposto pelo governo aumentaria dramaticamente a um custo reduzido.
Nota do tradutor: As lições mais resumidas aqui, então, são:
- que a elaboração de um Contexto Holístico garante que não vamos tomar decisões reducionistas baseadas apenas em suprir necessidades ou locupletar desejos imediatistas ou resolver um problema desconsiderando a qualidade de vida e a base de recursos que sustenta toda a vida no planeta.
- que não é possível ‘usar’ o Gerenciamento Holístico para resolver um problema, e sim abordar o problema dentro de um Contexto Holístico (Sarah Savory) que cria outra realidade mais integral e restauradora das dimensões sociais, ambientais e ecológicas,
- o uso de um Contexto Holístico para tomada de decisão permite com que honremos a dignidade e qualidade de vida de quem vive ou se propõe a viver no campo, assim como harmoniza as vocações humanas mais profundas com as aptidões do terreno ocupado.
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